Capítulo quarenta e três: Tapete de flores

Por Kami-chan

Era quarta-feira e era dia de feriado. Normalmente feriado costumava significar viajar, ou ir para a casa dos amigos até tarde, ou ver anime até tarde, ou ficar na internet até tarde ou basicamente qualquer outra coisa que você quisesse curtir muito fazendo, mas não feriado de quarta-feira.

É bem no meio da semana, você está cansado demais dos dois primeiros dias para fazer coisas legais na véspera do feriado e nem da para fazer coisas legais demais no dia porque ainda teria mais dois dias chatos no meio da semana. Era o tipo de coisa que mais cansava do que descansava, porque quando estava começando a ficar bom a realidade te lembrava que ainda tinha mais dois dais de aula chata.

Poucas coisas uteis poderiam ser feitas. Dormir o dia todo, assistir aos programas chatos de meio de semana da TV ou jogar vídeo game com alguma amigo que convenientemente morasse perto o bastante para não tornar o dia cansativo ao mesmo tempo em que era proveitoso. E para Uruha esta era sem dúvida a melhor opção em qualquer dia da semana, feriado ou não. Seu melhor amigo morava na frente de sua casa.

O problema também era que se havia alguém feliz com um feriado bem no meio da semana, essa alguém deveria ser Akira; namorado do seu melhor amigo. Kouyou não precisava ser nenhum gênio ou vidente para ver que fogos de artifício explodiam em todas as cores dentro da cabeça do casal quando algo acontecia que os permitia ter um dia inteiro só deles, ou metade que fosse. Aqueles dois tinham uma dificuldade ridícula de passarem tempo juntos e não seria ele que estragaria uma oportunidade.

Ainda mais uma oportunidade que envolvia Kai e Miyavi tão longe quanto si próprio. E não tinha certeza, mas parece que tinha escutado Ruki dizer qualquer coisa sobre a mãe e Joe aproveitarem o feriado para trabalhar em coisas que exigiam cem por cento da concentração deles. A casa vazia de Takanori estava implorando por um pouco de amor juvenil, por isto não colocaria seus pés lá; Por isso e porque não estava no clima para servir de vela.

Mas para não dizer que o dia seria totalmente inútil, Uruha achou que talvez aquela quarta-feira cinza poderia servir para algo bem no fim. Afinal eram seis amigos e não cinco. Kai e Miyavi tinham saído, Ruki e Reita teriam um encontro, mas ainda lhe restava Aoi.

Aoi. Queria e a mesmo tempo não queria encontrar Aoi. Shiroyama Yuu era sua fraqueza, seu desequilíbrio e destempero; uma grande bagunça em sua cabeça que ele mal conseguia a organizar. Aoi o fez ser bobo e ingênuo, brincou com seus sentimentos até fazê-lo parecer maluco; destemperado e desmazelado.

Julgado como um tolo fútil e usado como tal. Tolo sim, mas fútil jamais. Burro o suficiente para acreditar que um sentimento puro pudesse mudar a natureza de uma pessoa. Em altos e baixos, próximos e distantes, Uruha precisou encontrar meios diferentes de se levantar de cada nova queda; fosse ela por Aoi ou por causa de Aoi.

Talvez fosse um pouco fútil sim, mas não do jeito que Aoi lhe montou como personagem. Sua cabeça parecia ver à si próprio como alguém incapaz de enxergar a maldade no mundo, o lado sujo que todas as pessoas escondem. Fútil por excesso de ingenuidade, como uma criança que ainda acreditava que poderia mudar o mundo.

Uma criança que amava e odiava a mesma pessoa, sem conseguir encontrar as variáveis e o próprio equilíbrio. Verdade seja dita, Uruha permitiu que um menino com apenas um ano a mais do que ele o transformasse em uma pessoa sentimentalmente instável; psicologicamente perturbado. Hoje o ama, amanha o odeia, depois o ódio volta-se contra si próprio e bem no fim tudo volta-se para a certeza de amá-lo novamente.

Mas tudo tinha que ter um fim. Nenhuma história poderia permanecer inacabada para sempre, era o que pensava enquanto ganhava a rua sob a guarnição de um céu cinza de nuvens densas. Uma tempestade claramente estava a caminho, mas ele só tinha que caminhar até o fim da rua.

Ruki tinha lhe falado sobre um entrada escondida que usavam quando criança e ele mesmo já tinha descoberto que os empregados usavam um portão pequeno em uma entrada lateral que deixavam deschaveado, era por ele que sempre entrava. Mas naquele momento nenhuma das duas parecia adequada e por mais estranho que fosse apertar o botão quadrado do interfone antiquado do portão de aço fundido pesado, não foi pior do que ouvir a voz do moreno através do mesmo.

Sem emoção, sem saber com quem falaria e o que o visitante queria. Com um pingo de impaciência e desagrado que não lhe era comum, demonstrando com o contexto que visitantes não eram bem-vindos ali.

– Eto... – começou indeciso se queria mesmo seguir em frente depois de ouvir a voz fria do outro lado, sem ligar para os segundos em silêncio que houve entre o resmungo e a fala que deveria o seguir.

– Uruha?

– Hn – concordou – Desculpe vir sem ligar, mas eu gostaria de conversar com você, sem ser pelo o interfone de preferência. – concluiu, relaxando quando o outro riu.

– Abriu? – questionou ainda na linha.

– Aham.

Uruha atravessou o portão pesado acreditando que aquela entrada tinha sido planejada para agradar aos olhos de quem era convidado a entrar ali. Tão oposta a forma como voz de Aoi havia soado. Um caminho sinuoso rico em detalhes recheados de elegância, Uruha achou que havia mais dinheiro investido no caminho do portão até a porta da casa do que em toda a casa que morava.

E a casa que morava com os pais era de nível médio alto. Não que desse muita bola para estas coisas, apenas era evidente demais. Por um momento, gostou mais da entrada de empregados que estava acostumado a acostumado a usar, não se sentia tão pequeno nela, ali parecia uma criança perdida em uma floresta grande demais.

– Olha, você descobriu para que serve o interfone. – o moreno caçoou assim que o alcançou fazendo o caminho aposto ao que fazia.

Uruha sorriu, não deixou de perceber a represaria escondida nas entrelinhas daquela piadinha inocente. Sempre desconfiou que Aoi não gostava de tê-lo dentro de sua casa. Depois de ouvir como o moreno atendia ao interfone, cogitou a hipótese de que talvez este desconforto não se limitasse apenas à presença dele.

– Não sabia se você ia querer falar comigo. Sei lá, com o interfone você tinha a chance de mentir sobre qualquer coisa e mandar embora. – deu de ombros.

– Ah espera, era esta a intenção? Volta lá vamos tentar de novo.

– A oportunidade era única. Perdeu.

– Vem. – respondeu.

Estranhamente Uruha viu ele se virar na direção de uma trilha de pedras sabão em formato de folhas, levou um tempo até entender que deveria seguí-lo sendo que aquele não era o caminho para dentro de casa. O pensamento o fez olhar para a grande mansão no final do caminho caprichosamente trabalhado, era tão grande e cheia de cômodos que nunca encontrou a mãe de Aoi em seu caminho lá dentro; ainda assim o moreno realmente parecia não apreciar a presença de outras pessoas no interior da casa.

Pelo menos não a sua.

Poucos passos além Uruha viu que aquela trilha ainda se divida para um salão de festas, uma estufa e uma árvore muito grande em uma parte um pouco mais elevada do terreno. E Aoi parecia estar se dirigindo claramente para a tal da árvore. Aquilo lhe parecia tão estranho, afinal até por bancos de pedra estrategicamente dispostos pelo jardim pareciam estar sendo ignorados por Aoi. Fe-lo se perguntar se o garoto estava lhe levando propositalmente até o ponto mais distante de sua casa, se o queria tão longe assim de tudo que representava algo para ele.

– Você percebeu que logo vai começar a chover, né? – questionou, a casa estava tão distante que não haveria chance de abrigo quando a chuva começasse a cair.

– Eu sei. Mas é que ela floresceu esta noite, eu ainda não tinha vindo aqui fora hoje. A flor que dá nesta árvore é uma espécie de malva, são especiais e irão cair todas com a chuva que está prevista. Ano passado ela não deu flor alguma, é a árvore preferida da minha mãe e achei que ela nunca mais fosse florescer. – respondeu logo ignorando o garoto para pegar o celular e tirar algumas fotos.

A resposta deixou Uruha novamente confuso. Achou que Aoi estava o afastando de coisas importantes, mas tinha acabado de dividir algo que fez sua voz soar de um jeito tão verdadeiramente feliz por algo tão simples que o fez se perguntar se seu desejo em conquistar Aoi e descobrir exatamente tudo sobre o moreno havia o deixado cego o bastante para não perceber como algo que para si era tão corriqueiro como o desabrochar de uma flor ou o florescer de uma árvore, era importante para ele.

Um detalhe tão sensível de alguém que se esforça para mostrar-se tão superior e descolado. Uruha quase achou graça ao se ver imaginando o que as fãs que Aoi ainda tinha pela escola diriam se o visse com um sorriso tão grande ao admirar uma árvore gigante cor-de-rosa através da tela do seu celular, mas então lembrou-se de Akira falando sobre a fama que ele se esforçou para ter. Aquele era o tipo de coisa que o moreno não dividiria com ninguém de pouco valor para si.

Aquele não era Aoi, era um fragmento de Yuu. Aquele que talvez apenas Reita realmente conhecia. E o sorrio que tomou conta de seu rosto não foi por achar graça, mas sim por ser contagiado pela forma impressionada com que o outro admirava a obra da natureza, permitindo-se observar a árvore grandiosa ao lado de Aoi. Não porque o moreno gostava dela, era por admirar aquele singelo momento inesperado de sensibilidade e ingenuidade e sentir-se especial por fazer parte dele com tamanha naturalidade.

– Ah aqui está – começou assim que alcançaram a base da árvore – Ruki e eu costumávamos brincar aqui, ficávamos embaixo da mesa e chamávamos de o forte das malvinas, porque quando as flores caíam deixavam literalmente um tapete de flores. Nós éramos dois idiotas. – concluiu guardando o telefone após tirar uma centena de fotos – Sobre o que você quer conversar? – perguntou se sentando sobre o tampo sujo da mesa com ar de abandonada sem deixar de admirar a árvore como se estivesse tentando encontrar a diferença que fazia de cada flor única.

Uruha escorou-se contra a mesa ao lado de Aoi ponderando sobre seguir em frente ou não. A naturalidade com que Aoi estava sendo aberto consigo naquele dia o desencorajava com o que tinha planejado, ao mesmo tempo em que lhe dava certeza de que era o momento ideal para seguir em frente e obter respostas sinceras do moreno; mesmo que elas não fossem exatamente o que gostaria de ouvir.

Uma rajada mais forte de vento quente de chuva balançou as folhas da árvore e fez cerca de uma dúzia de flores se soltar e misturar-se ao vento para marcar o início de sua conversa.

– Eu preciso que isto tenha um desfecho, – decidiu-se por prosseguir assim que o silêncio prolongado fez Aoi o encarar – você me deve isto. – concluiu sem maiores explicações, Aoi entenderia cada palavra ausente em sua frase.

– Você não está pronto para ouvir, se estivesse já teria entendido em todas as vezes anteriores. – respondeu o moreno voltando a prestar atenção na árvore, vigiando a queda de mais flores.

– Eu não quero suas frases prontas, Aoi. Quero saber o que você realmente tem a dizer.

– Não tem como ser mais sincero do que eu já fui com você. Mas a minha sinceridade te faz chorar e procurar por qualquer motivo para discutir comigo.

– Eu aprendi a entender quando você muda. Levei um tempo para entender que apenas um Aoi é você de verdade. O outro é aquele cara cheio de marra que desfila pelo colégio e finge achar graça quando vê meia dúzia de garotas brigando por ele.

– Eu nunca fui esse cara com você. – Uruha abaixou rapidamente o olhar ao ouvir a resposta, o garoto deslumbrado com uma árvore florida de momentos atrás dava suporte à frase de Yuu.

– Eu vejo quem é você quando estamos tocando guitarras, conversando sobre coisas idiotas e rindo por besteiras, vi o "você" de verdade deslumbrado com uma árvore. Mas foi você mesmo quando o assunto é este.

– Eu gosto de você, você é um grande amig...

– Não ouse terminar esta frase.

– Viu. Como você quer que eu seja sincero com você desta forma? Vai evitar todas as frases que não quer ouvir.

– Você ficou comigo três vezes, fez questão de jogar isto na minha cara. Eu sei que eu fiz errado também, eu forcei passar coisas referentes à mim que acreditei que fariam você gostar de mim, como um idiota. Quando não deu certo eu quis apenas superar você, encontrar um meio de provar que eu podia ser imune a você. É claro que não deu certo. Então só me restou diminuir você para que eu pudesse me sentir maior do que esta coisa patética. – disse apontando para si mesmo com as mãos – No fim ainda precisei que Ruki me fizesse entender que nada daria certo enquanto o meu foco fosse você e não eu mesmo.

– Eu não sei o que você quer que eu diga. Eu realmente gosto de você, eu me irritei com o bolo de mentiras no começo, mas de verdade, fora Joe e Akira que estão em um patamar muito diferente de amizade, você é a pessoa de quem eu mais gosto. Mas não é da forma como você quer que seja. Eu até consigo entender o que você está dizendo, mas isto não irá mudar os fatos. – e mais uma vez os olhos pequenos do moreno procuraram os de Uruha em busca de uma compreensão que pudesse encontrar além das palavras ditas pelo loiro.

– Por que você ficou comigo três vezes, Aoi? Isto foi realmente como quebrar um regra que você segue à risca. – perguntou de forma direta, se queria respostas verdadeiras e concretas tinha que ter a coragem de fazer as perguntas exatas que rondavam sua cabeça.

– Olha, aí vem a parte em que você vai consumindo minha paciência. Não tem como eu responder essas coisas com sinceridade sem ferir você. Isto já foi percebido mais de uma vez. – defendeu-se.

– Você me deve uma resposta satisfatória, pelo menos isto você me deve Yuu. – foi a vez de Uruha buscar os olhos do outro, precisava encontrar a linha de raciocínio que os tinha feito acabar daquela forma.

– Tá. Mas não reclame depois. – alertou.

– Por que você ficou três vezes comigo, Aoi? – Kouyou repetiu impaciente.

– Porque sim. Você é fisicamente todo perfeito. É atraente e nas festas em que íamos você demonstrou não dar a mínima para isto, se esforçou para me fazer acreditar que era igual a mim. Tinha a energia do show, Kai e Miyavi de um lado, Reita e Ruki do outro e como disse, você é muito bonito.

– Isso foi uma vez, a primeira.

– A segunda você invadiu o meu quarto em um momento de fragilidade, – desviou os olhos para as flores que se desprendiam da grande árvore – eu não estava pensando direito. E você ainda era o cara fisicamente perfeito que frequentava o mesmo tipo de festa que eu, que não dava a mínima. A nossa noite anterior tinha sido interrompida e ao ver você lá eu apenas pensei em terminar o que tínhamos começado.

– E depois?

– Depois eu confesso que entendi o que você achou que ia fazer; ficar comigo e sair depois nem mais feliz ou mais triste, apenas ir embora como se "nós" fosse algo sem importância para você. E admito que uma parte minha quis se manter firme e impedir você de fazer isto, mas a outra parte só conseguiu pensar que era bom e que você já é bem grandinho para fazer escolhas. Aliás, você beija muito bem, –sorriu– não me envergonho em dizer que talvez seja o melhor beijo que eu tenha experimentado.

– Este é o tipo de coisa que você pode evitar falar se não quer que eu fique feliz como um cão abanando o rabo para receber um biscoito. – Uruha riu da própria idiotice.

– Poucas coisas que eu tenho para dizer sobre nós não tem o incrível poder de te magoar. É uma observação bem sincera, se ela te deixar feliz demais apenas se lembre da quantidade de pessoas que eu já beijei para ter autonomia para eleger você como o melhor.

– Baka. – reclamou batendo no ombro do mais baixo e depois encolhendo-se contra a mesa em que estava apoiado. – Eu não me importo com quantas pessoas você já ficou, minha ambição era maior do que o que você já experimentou e não quis mais. Não queria ser o melhor, queria ser o último.

– Sabe, o que houve entre nós me fez perceber que estava agindo de forma quase não humana com as pessoas. Eu não saí mais, não fiquei procurando pessoas ao léu para aventuras de uma noite e muito menos para mais de uma noite. Tenho certeza que você também já percebeu que a minha popularidade só vem caindo na escola nos últimos meses. Claro que o Reita teve um papel maior nisto me fazendo entender o que me movia a alimentar certas coisas desta forma autodestrutiva, mas precisou eu machucar você para realmente cair na real.

– Então qual é o meu problema?

– Oi? – o farfalhar das folhas parecia tê-lo feito se distrair com uma quantidade muito grande de flores se desprendendo, o chão em torno deles já estava colorido com o rosa das flores entre o verde da grama.

– Se eu sou a pessoa de quem você mais gosta, tenho o beijo que você mais gostou e você me acha bonito e atraente. O que me falta Aoi?

– Falta você entender que não é assim, não há fórmula mágica.

– Não é uma fórmula mágica, temos amizade e claramente algum tipo de desejo sexual. Eu amo você.

– Mas eu não! Desculpe, mas eu não tenho esta capacidade. Recentemente eu aprendi que nosso cérebro funciona como uma rede de fios, e a melhor forma que eu tenho para conseguir te explicar isto é que os fios que deveriam fazer este tipo de conexão no meu cérebro foram desligados. Eu não quero me apaixonar e vou fazer de tudo para que isto não aconteça.

– Isto é muito triste, solitário e impossível. – respondeu prestando atenção em uma flor que caiu próxima demais de si.

– Reita diz a mesma coisa, mas eu não ligo. Nunca me apaixonei e se algum dia criar algum tipo de interesse pessoal por alguém, vou dar um jeito de cortar isto antes que vire qualquer coisa.

– Eu entendi. Isto é por causa da sua mãe, não é?

– Oi? O que foi que o Reita te disse?

– Reita? Nada. Eu... bom talvez eu não tenha deixado o Ruki em paz até que ele me contasse exatamente tudo sobre o que vocês dois conversaram. – confessou coçando a cabeça em um breve constrangimento.

– Ah. Bom sim, então dá para dizer que isto tem a ver com a minha mãe.

– Sabe nem todos os relacionamentos são fadados ao fracasso. Tipo Reita e Ruki. Quando eles estão juntos você não sente a certeza de que eles serão felizes juntos para o resto da vida?

– Ah se tem algum casal no mundo que passa esta certeza, são eles sim. Com certeza serão. Eu até invejo a capacidade deles, mas eu não a tenho. Não quero ter.

– Você é tão merecedor de felicidade quanto qualquer um.

– E eu vou ser muito feliz enquanto não tiver minha vida e meus sonhos ligados à uma pessoa que vai acabar decidindo em algum momento que eu não sou mais conveniente para sua vida.

– Isto é fugir do problema, Aoi. É obvio que se você não se entregar nunca para ninguém, ninguém nunca vai te abandonar ou te magoar, mas tampouco será feliz de forma plena.

– Felicidade não está diretamente ligada ao amor. Na verdade, analisando toda a literatura é muito mais fácil ligar amor à drama e tragédia do que à coisas plenamente felizes, até mesmo em comédia romântica e novela, protagonistas apenas são plenamente felizes no capítulo final. Trezentos capítulos sofrendo, contra um de felicidade.

– É o felizes para sempre, não há necessidade de mais capítulos, a vida deles não vai mais dar errado a partir dali. Aquele último capítulo diz que o personagem vai ser feliz pelo resto da sua vida ou enquanto você se lembrar daquela história. – riu, era engraçado debater aquele tipo de coisa. – Até mesmo sua mãe tem você, Aoi. Pela lei natural da vida, você não terá ninguém quando ela partir. – prosseguiu desconhecendo a profundidade daquelas palavras aos ouvidos do moreno, nem reparando na forma como os olhos estreitos arregalaram-se por uma fração de segundo.

– Você sabe que a discussão está boa, mas no final disso tudo eu vou continuar dizendo não, não é? – quis certificar-se, para ele nada no mundo parecia dar sinal de convencer Uruha do contrário.

– Você e o Ruki são muitos parecidos, sabia? Na teimosia principalmente.

– Deixa ele ouvir você dizendo isso. – Aoi sorriu, estranhamente estava sendo tão fácil dialogar com Kouyou que nem para si nem parecia que estavam tratando de um assunto com algum teor de importância.

Verdadeiramente, para si, não era um assunto com importância elevada. Até estava gostando a oportunidade de falar todas aquelas coisas sem que nenhum dos dois começasse a gritar ou ofender o outro.

– Até ele quer que nós...

– Ele quer que você – frisou apontando para o loiro até que a ponta de seu indicador tocasse o alto peito de Uruha – fique bem. É um bom amigo, se achar que para ficar bem você precisa de mim, ele vai desejar isto. Por você exclusivamente.

– Eu preciso de você para ficar bem. Não é aquela coisa de querer agradar quem a gente gosta apenas para ser desejado; não é uma obrigação. É querer agradar quem a gente gosta, porque a felicidade desta pessoa dá prazer.

– Sabe, a gente vai ficar eternamente nesta conversa se você não fizer um esforcinho para entender que eu não vou ficar com você.

– Ficou três vezes. Por que não ficaria uma quarta? – Uruha cruzou os braços em frente ao corpo e se virou de frente para Aoi em uma posição de desafio.

– Nem vem. Não foi por isto que você veio aqui, não é isto que você quer. Veio aqui me pressionar por um desfecho para esta história, algo permanente. Só discordamos quando eu dou as respostas que você pede, mas você não as aceita porque não é a resposta que você quer.

– Ah isto, – sorriu – Você me deu as respostas que eu queria Aoi. Não exatamente da forma como eu queria, mas às vezes o jeito revela as palavras que a boca não diz. – concluiu com seu sorriso alargado.

– Eu não quero ter um relacionamento com ninguém, Uruha. – o moreno disse de forma pausada, tentando frisar o que o loiro era relutante demais em aceitar, quase começando a perder a paciência.

– Eu entendi. Eu vim aqui achando que você não iria nem me receber, mas você além de receber, dividiu isto comigo. – indicou com o queixo a paineira florida atrás de si sem dar atenção para ela. – Vim aqui desejando um desfecho sem saber se isto seria bom ou ruim, e descobri que de alguma forma você gosta de mim. Por fim, eu vim aqui para descobrir que não quero deixar de amar você.

– Eu sinto como se eu e você estivéssemos no mesmo problema matemático, aplicando a mesma fórmula para resolvê-lo, mas no final cada um chega em um resultado muito diferente do outro. – disse.

Na verdade, Uruha parecia um problema difícil demais para Aoi interpretar. Nunca conseguia entender aquele garoto estranho, mas ainda assim, agradável na maioria do tempo. Se tivessem se conhecido durante o ano anterior, Uruha teria ouvido apenas que tinha "ficado" consigo apenas porque era a pessoa certa no lugar certo, que as circunstâncias tinham o colocado em seu caminho; um caminho pelo qual Aoi já havia passado, sendo que Aoi seguiria somente em frente e ele teria ficado naquele mesmo ponto do caminho.

Mas era Uruha e ele, evidentemente não era mais o mesmo Aoi de um ano atrás. O caminho que se abria em sua frente hoje revelava uma pessoa melhor. Compreenda que havia uma parcela naquela "pessoa melhor" em que tinha se tornado que era mérito daquele garoto estranho.

Um garoto que precisava apenas escolher bem o tom da maquiagem e o penteado no cabelo para ser o cara mais bonito da escola, ou a menina mais bonita da escola. O rosto favorecido com uma beleza ímpar combinava com cada sorriso ou risada engraçada que ele dividia com os amigos, mas não com lágrimas. Aoi tinha sido um expectador solitário do seu choro tímido e forçadamente contido, mas adornado de uma dor profunda. E um observador distante dos olhos que aprenderam a ficar secos em frente aos demais, mas nunca mais perdeu a marca da dor.

Racionalmente sabia que não era, mas se sentia responsável. Aoi acima de todos sabia como era sentir alguma dor. Uruha era seu amigo, devia tê-lo poupado das coisas que fazia para extravasar e dissipar a dor que suprimia no silêncio solitário da mansão em que vivia, e não tê-lo marcado com ela.

Tinha que encontrar um meio de desfazer aquilo, recompensá-lo pelo sofrimento causado. Como fez com Ruki por anos, afastando do menor pessoas que poderiam ser tão nocivas quanto ele mesmo para Takanori. Mas Uruha e Ruki eram diferentes, o amigo de infância aceitou de bom grado a distância entre ambos, mas não conseguia afastar Uruha de si.

Ruki simplesmente não dava a mínima para Aoi, e finalmente Reita surgiu. E para provar que havia sido enviado para salvar sua vida, Akira foi colocado no meio do caminho entre ele e Takanori não para dividi-los e afastá-los ainda mais, mas para recoloca-los na mesma direção. Kouyou não. Uruha não tinha receios em demonstrar que poderia perecer em seu caminho e apodrecer sob seus pés, seria mais fácil se ele fosse arisco como Ruki.

Com certeza foi nisso que pensou enquanto assistia a chuva de flores caindo no chão. Mas não tinha como afastar Uruha sem feri-lo e feri-lo fazia a história completar o ciclo que começava sobre a dor nos olhos castanhos claros. Em outras palavras, Aoi já tinha entendido que teria que encontrar uma saída para que ambos pudessem continuar no mesmo caminho sem que um interferisse nos passos do outro.

Neste ponto achou muito sábia e madura a atitude do loiro de ir até ali para tentarem encontrar o desfecho daquela história. Mesmo que parecessem tão incompatíveis e o equilíbrio entre ambos fosse um ponto quase impossível de se encontrar.

Mas esta impressão de Aoi foi rapidamente dissipada quando o silêncio breve que houve entre a conversa e a sua reflexão foi interrompido pela imagem de Uruha que pareceu se materializar em sua frente, literalmente entre suas pernas e com o rosto perto demais do seu. Assustado pela atitude inesperada Aoi se afastou por reflexo, e com um pouco de distância as intensões do loiro ficaram nítidas.

– Com certeza está na hora de você ir embora. – disse evitando que os lábios de Uruha alcançassem os seus.

– Eu não vou embora sem finalizarmos isso. – alertou sem sair da posição em que estava.

– Já finalizamos. Conversamos como duas pessoas maduras, ninguém ofendeu ninguém e se pararmos agora, ninguém vai sair daqui machucado também. – concluiu levando as mãos até a cintura do loiro a fim de tirá-lo daquela posição.

Mas a vontade do loiro dita sem o receio da exposição o fez apenas mantê-las no lugar

– E assim nada muda. É sempre neste ponto, você não permite que eu me aproxime além daqui, mas também não é como se fosse me deixar ir para mais longe. Esta meia distância sem definição é o que machuca, Aoi.

– Eu não quero...

– ...se envolver, ter um relacionamento, se apaixonar, etc... Eu sei. Já disse que entendi exatamente tudo o que precisava entender de você. Mas estou aqui por algo que seja concreto. Não vou pedir que me ame de volta, só me deixe aproveitar o momento. – pediu tentando novamente diminuir a pouca distância entre seus corpos.

– Isto vai alimentar o sentimento que você tem, é isto que vai machucar você cada vez mais Uruha. Não quero fazer parte disto.

– Não vai fazer com que eu deixe de amar você, vai ser mais conveniente se você apenas aceitar isto e me permitir ficar aqui com você. – prosseguiu, incapaz de quebrar totalmente a distância imposta pelas mãos dele, mas conseguindo chegar com os lábios perto o bastante do pescoço exposto.

– Nós dois sabemos que você não é assim. – lembrou sem demonstrar alterações ao sentir a pele macia dos lábios de Uruha encostados contra seu pescoço.

– Você não vai facilitar para mim, não é. – prosseguiu usando as mãos para achar um caminho entre o corpo e os braços do moreno para conseguir contornar a cintura esguia.

– Facilitaria numa boa se não desse a mínima para você, prosseguir com isto é a mesma coisa que anular a conversa que estávamos tendo. – disse sabendo que se prosseguissem, sua consideração pelo loiro diminuiria na mesma medida em que o tesão aumentasse.

– Ah não, não vou anular as partes que você disse que me acha atraente, que meu beijo é gostoso e que não sai com ninguém faz tempo. Faz com que eu me pergunte qual o tamanho da sua vontade, se eu fiz sexo apenas uma vez e sinto falta. – gracejou escorregando suas mãos da cintura fina até as coxas quase em torno de seu corpo.

– Nem tudo se resume em vontades. – Aoi bufou.

Internamente já se questionava sobre sua sanidade. Estava tentando ser legal, mas Uruha estava passando dos limites, até mesmo porque o ponto levantado pelo loiro era verídico, o tempo prolongado de exílio fazia bem à sua cabeça, mas seu corpo reclamava pela falta daquele prazer na quebra da sua rotina.

– Meu sentimento por você não vai acabar apenas porque você quer que acabe assim como você não vai me amar apenas porque eu desejo isto. Concorde comigo e vamos deixar o tempo resolver as coisas, existe algo em comum que nós dois precisamos e que sabemos que funciona quando fazemos juntos. – concluiu satisfeito ao perceber que Aoi finalmente parecia ponderar sobre o que disse, tanto que nem pareceu perceber quando retribuiu um selinho rápido que lhe fora roubado.

– Parece um pouco tarde demais para uma amizade com benefícios, Uruha, principalmente quando proposta por você.

– Puta merda, Aoi! – irritou-se – Não é um relacionamento, é... comodidade. Ou sei lá qual o nome que você quiser dar, só me deixe ficar com você! Você fica repetindo que "não" com a desculpa de que não quer me machucar, mas a verdade parece que está com medo de se machucar. Não estou pedindo para você me levar para passear o final semana de mãos dadas pelo shopping, estou pedindo para que me deixe ficar aqui e agora com você e que me deixe voltar quando esta vontade voltar. – concluiu conseguindo finalmente vencer o pouco espaço que havia entre seus corpos com força bruta, puxando o corpo do outro para si pelo quadril até seus corpos estivessem colados.

Seus lábios pareciam apenas duelar até perceber quem cedera primeiro. Infelizmente para Aoi, o loiro à sua frente estava convicto de sua vontade e não regressaria.

– Eu vou destruir seu coração. – alertou Aoi permitindo que seus braços se apoiassem nos ombros de Uruha antes de encerrar a discussão com um beijo.

Satisfeito, o loiro sorriria se sua boca não estivesse ocupada com sua tarefa preferida. Achou que o prazer que sentia ao beijar o moreno era fruto do que sentia pelo mesmo, mas era muito melhor descobrir que o mesmo prazer era sentido pelo moreno e que não era apenas as ilusões em sua cabeça; a química entre os dois era mesmo boa.

A frase dita por Aoi antes de beijá-lo dançava em sua cabeça, sendo jogada para lá e para cá de acordo com o movimento de suas línguas e emergindo entre o gosto da união de suas salivas. Do ponto de vista ridiculamente romântico do loiro, seu coração já tinha sido destruído uma vez por Aoi e apenas permitiria que os cacos remendados se soltassem pelo efeito de uma explosão de felicidade, ou prazer.

Na verdade, não encontrou mais necessidade para se importar com isto. No fim das contas Aoi tinha lhe dado tudo o que precisava saber para estar uma quarta, quinta, sexta... dez vezes, dez anos ou pelo tempo que precisasse até fazer Shiroyama entender que não devia ter medo de si, que não o abandonaria nem o machucaria. Não importava como o moreno desejasse classificar aquilo, desde que continuasse permitindo que se aproximasse daquela forma.

Em algum momento seria amor. Tinha que ser. Com certeza seria se conseguisse ensinar ao outro como era bom ser amado e quando Aoi se permitisse, amar de volta seria uma consequência natural. Era nisto que Kouyou acreditava.

Corpos e lábios unidos entre o abrigo dos dois pares de braços que transpassavam os limites de seus corpos, cercando-os. As pernas entreabertas do moreno abrigava o corpo magro que se impunha à sua frente. Os olhos fechados e consciências distantes nem ligavam mais para o céu cheio de promessas brabas sobre sua cabeça.

Gostavam daquela sensação. Aoi achava diferente de qualquer coisa que pudesse usar para descrever como era trocar aquele ato prazeroso com Uruha. Era um jogo com alto teor de prazer e igual índice de perigo, a energia que Uruha dividia consigo quando se beijavam era tão boa que devia ser temida. '

Contudo, ao beijá-lo preferia não perder seu tempo pensando em coisas assim. Sentir era melhor do que tentar explicar. Quase se sentia um parasita, faminto por aquilo que lhe fazia bem.

Havia sido assim desde o primeiro. O mesmo gosto de poção pacientemente bem preparada, a mesma textura de brumas de um feitiço bem executado, a mesma paciência cautelosa de um explorador eficiente descobrindo os pontos que deveria marcar de um novo mapa e a mesma desaceleração das consciências a mercê da overdose de artifícios ampliadores de ilusão.

Nada além do prazer singelo e o calor sobre as palmas de suas mãos em contato com o corpo à frente em resposta do fogo que lhe queimava a tez por onde os dedos escaldantes passavam. Excesso de energia, talvez até mesmo excesso de magia, nada mais poderia explicar a vergonhosa ereção que Uruha conseguia impor em si com nada mais do que aquele contato harmônico e perfeccionista entre as línguas vivazes.

O ar parecia dar indícios de falha em ambos os pulmões, mas a única reação de Aoi ao fato foi movimentar suas pernas até "abraçar" o corpo de Uruha com as mesmas, entrelaçando seus tornozelos apoiados em sua lombar. Trouxe o outro para ainda mais perto, as regras estavam claras, não estavam? O loiro tinha forçado o início daquilo sabendo muito bem até onde iriam.

As mãos ainda imóveis era uma característica do loiro que se repetia naquele momento. Por mais quente que suas mãos fossem contra seu corpo, elas não se moviam. Nunca se moveram desde a primeira vez, sentia que a pele imóvel soava, talvez ele quisesse tanto movê-las quanto Aoi queria sentir o corpo esguio mais próximo do seu, mas nunca o fazia.

As pontas dos dedos finos estavam imóveis embaixo da barra inferior da camiseta de Aoi, no limite do espaço de pele que era coberto pela calça. Seria muito fácil apenas induzi-lo a ir adiante, depois de toda a conversa que tiveram até ali Aoi sabia que podia fazer isto. Mas também não iria fazê-lo, pois a mesma conversa de minutos atrás queria que o garoto a sua frente agisse por conta.

Não era a primeira vez que a segurança nos gestos de Uruha que os colocavam em situações como aquela se apagavam logo após o primeiro beijo trocado. O momento que dividiam naquele dia era diferente, chegaram até ali exclusivamente por desejo de Kouyou e definitivamente só iriam até onde o loiro chegasse.

Lembrava de um Uruha diferente nas festas enquanto ficava com outros caras, acreditando que Aoi estava opado demais com suas garotas para reparar nele. De mãos firmes, mas não paradas. Com este pensamento, Aoi permitiu que o término de sua capacidade de permanecer sem respirar se sobrepusesse ao prazer do ósculo.

Uma sequência de selos antecedeu o fim do beijo como lamentações de despedidas cheias de promessas de saudades. Por fim, seus olhos estavam perto demais, as íris escuras de Aoi quase sorriam em uma tranquilidade branda enquanto os castanhos claros mais observavam qualquer sinal que Aoi pudesse lhe dar sobre como iriam seguir adiante.

– Tem mesmo certeza do que está propondo? – Aoi questionou, mas ao contrário do que poderia sugerir a pergunta, suas pernas permaneceram muito bem apoiadas em torno de seu corpo.

– A hora da conversa já acabou, Aoi. – disse sem se afastar, o que fez com que seus lábios tocasse os de Aoi durante alguns momentos.

Achava estranho e engraçado como realmente sentia vontade de seguir adiante. Não era tolo de se julgar experiente apenas porque já tinha feito aquilo uma vez, mas realmente, de algumas semanas para cá o que sentia era a mais pura e exigente vontade de estar naquela situação novamente. Achava até mesmo que fosse isto que estivesse o deixando mais irritado na presença de Aoi; ou com qualquer coisa que envolvesse a menção ou lembrança de Aoi.

Sua sensibilidade estava tão aflorada que bastava pensar no moreno para ter as imagens da transa anterior tão vívidas em sua cabeça que podia sentir um vestígio imaginário daquele prazer em seu próprio corpo. Mas era diferente, era um eco maldosamente vazio daquelas sensações, como uma lembrança que servia apenas para lhe deixar com a tal da vontade. Deixava-o mais impaciente e também mais atirado.

– Então vá adiante – a voz de Aoi o trouxe de volta à realidade. – Nos colocou nesta situação, agora vá até o fim. – os lábios fartos também brincavam com os de Uruha durante a fala.

– O que quer dizer? – o menino que tinha dado a discussão por encerrada antes, perguntou.

– Comande! – ditou em seu ouvido forçando seu corpo para frente em um equilíbrio complexo e delicado para conseguir de alguma forma unir o mesmo ponto de seus baixos ventres. – Faça sexo comigo. – concluiu deixando uma mordida severa na orelha do outro para lhe servir de incentivo.

Os dentes de Aoi em sua pele o fez arrepiar, uma descarga elétrica que percorreu o ponto de contato e desceu por seu pescoço, dividindo-se, sem perder forças por seus braços até encontrarem um ponto de descarga pelos dedos longos que apertaram a carne sob suas mãos com força; puxando quase sem querer Aoi mais firmemente contra si.

– Vem logo. – insistiu o moreno repetindo o estímulo.

– Que? Aqui? – Uruha perguntou olhando imediatamente na direção da mansão.

Estavam longe, mas em um ponto de destaque. Em sua cabeça não havia meios de não serem vistos através e alguma dás muitas janelas amplas da residência. – Aoi irão nos ver.

Em resposta Aoi afastou-se calculadamente até conseguir ficar com seus cotovelos apoiados sobre a mesa. A árvore de cor vibrante dançava de forma barulhenta atrás de Uruha, incontáveis flores se desprendiam da mesma e caiam, algumas pelo chão, outras sobre a mesa. O céu acinzentado apenas estacava mais a beleza daquele cenário.

– Aqui me parece bom. – concluiu sem tirar os olhos de Kouyou, com uma flor caída entre sob a ponta de seus dedos. – Antes do temporal, Uruha. – apressou observando que o vento já não vinha mais em tufos, mas em uma corrente contínua.

Ainda atordoado com a ideia e com o rubor na face denunciando certo constrangimento o loiro tratou de inclinar seu corpo até o do moreno e tomou-lhe a boca em um rompante. A "fixa" ainda iria demorar "para cair" em sua cabeça, ter conseguido levar Aoi até o ponto do consentimento já tinha sido uma vitória emocionante para si. Mas nunca imaginou Aoi lhe cedendo o controle.

Bem na verdade, as batidas do coração de Uruha estavam tão aceleradas que em sua cabeça nem cabia a interpretação do que poderia significar ter o controle. "Comande" disse Aoi, em sua cabeça podia imaginar apenas o desejo de liberdade em poder observar e tocar o corpo do moreno, mas bem no fundo nem sabia o que exatamente lhe daria mais prazer em fazer.

A única coisa que tinha certeza era que quando Aoi o beijava seu mundo parava e todas as coisas pareciam saber como se encaixar sem que ele precisasse pensar; então a pressa em ter a boca de lábios grossos contra a sua o quanto antes.

Mas as batidas de seus coração pareciam não querer se acalmar. O gosto, o tato, a temperatura e o prazer de ter a língua de Aoi contra sua não pareciam estar sendo capaz de abrandar sua ansiedade como de costume. Costume.

Pensar nisto em meio ao beijo afoito fez o loiro trocar o contato entre as línguas por um raspar breve, enquanto sorria, no lábio inferior do moreno. O beijo de Aoi já tinha parâmetro fixado em sua cabeça, tinha uma impressão média adquirida por experiência para se pesar beijos anteriores com o atual; já tinha virado costume.

Yuu não gostaria desta constatação, mas pouco lhe importava no momento, pois aquilo ficaria muito bem guardado em sua cabeça. Esta era uma das coisas que lhe fazia acreditar e fantasiar que poderia ter Aoi para sempre, era seu. Nem ligava para como o mesmo chamasse aquilo.

Aquele gesto que dividiam era especial de alguma forma para cada um dos dois garotos. Sem nomes ou barreiras, já tinha virado um costume e costume era hábito de relacionamento. Naquele momento desejou apenas que Aoi nunca percebesse isto, ou que percebesse apenas quando fosse tarde demais. E se seu pensamento era apenas fantasioso, ou se houvesse algum pingo de veracidade em suas interpretações, foi o bastante para que o enfoque do cérebro de Uruha ficasse preso no ritmo perigosamente acelerado das batidas de seu coração ansioso.

A língua aprofundou o beijo e os dedos imóveis subiram pelas costas do moreno antepondo-se para o peito liso ao final da subida. Quentes e curiosas demais para ficarem em um lugar apenas, logo descendo de volta para cintura do moreno. Indecisas e ansiosas demais para seguir um caminho reto, perdendo-se entre as curvas que formavam a cintura e as ondulações entre as costelas. Uma de suas unhas raspou na pequena saliência logo abaixo do umbigo quando a posição em que estavam não permitiu que invadisse o mesmo.

Prosseguiu alcançando as coxas cobertas pelo tecido pesado da calça. Os músculos de Aoi relaxaram em resposta ao toque, as pernas já abertas ampliaram ainda mais o espaço entre si para diminuir o espaço entre os dois. O sulco produzido da mistura de suas salivas preenchia toda sua boca, atiçava todas as papilas e lhe embebia em um prazer requintado demais para ser explicado.

Sentiu as mãos passarem pelo acúmulo de flores caídas sobre a mesa ao usar o peso do corpo como impulso para saltar do tampo em que estava sentado. Apenas colocou-se de pé reclamando pela quase perda de contato entre suas bocas, que não se separaram por mérito seu. Com a mesma ânsia com que jogou o corpo para fora da mesa, Aoi impulsionou sua cabeça para frente em um bote certeiro que capturou a boca de Uruha de volta antes mesmo quem ambas de desunissem totalmente.

Como se tudo fosse parte de um grande movimento sincronizado, sem grandes avisos o loiro alcançou as mãos de Aoi logo no início do movimento do outro. Como se já soubesse seu objetivo final antes mesmo de o moreno ter terminado a excussão, as mãos do loiro contra as suas lhe deu o equilíbrio necessário para a velocidade com que tudo aconteceu. Logo após, já sem nenhum resquício de timidez, as mão de Uruha voltaram a trabalharam ao seu bel prazer abrindo o botão e o zíper da calça de Aoi.

Havia uma confiança idiopática em seus atos, não tinha experiência, mas o membro ereto que sentia nos movimentos e agora quase dificultava a abertura da calça lhe fazia não dar a mínima para isso. Não sabia o que daria mais ou menos prazer à Aoi, mas de maneira prepotente achou que a graça estava em descobrir estas coisas amanhã ou depois, ou qualquer pensamento que lhe trouxesse uma ideia de que aquele tipo de situação se repetiria em breve.

Podia se dar ao prazer de ser breve, apressado, apaixonado e admirado sem equilíbrio entre estas coisas. O balanceamento da dose seria descoberto aos poucos, e para si, quando mais vezes isto demorasse para acontecer melhor. O moreno que amava parecia satisfeito, excitado entre atos simplórios que silenciosamente lhe pedia pela evolução do momento, deixando irrelevante os detalhes exóticos.

Por sua parte, concordava que havia algo especial naquele beijo. Achava que era apenas algo seu, o gosto da vitória e da conquista misturado com gosto do sentimento intenso, mas aquele era um pensamento só seu e não dividiria com Aoi tão cedo. Bastava concordar, feliz, com o moreno que aquilo era pura química sem contar ao mesmo suas teorias sobre a essência que desencadeava a reação.

As calças logo caíram pelas pernas magras, deixando para trás a visão erótica do volume exagerado escondido embaixo do tecido fino de algodão da boxer vermelho vibrante. Gostava daquelas cores quentes na pele morena, mas gostou ainda mais de ver a tez clara de suas mãos se misturar àquela combinação encantadora. Os dedos longos invadiram os limites do tecido o esticando ainda mais pelo preenchimento extra de suas mãos.

As nádegas preencheram as palmas das mãos de Uruha que as apertaram com força, aproveitando o gesto para forçar o moreno a se erguer os calcanhares até que ficasse com a boca no mesmo nível que a sua. Desajeitadamente seus olhos se abriram e Uruha teve a oportunidade de adorar a imagem de suas mãos apertando e levantando as nádegas redondas.

Seus movimentos fizeram o elástico da peça íntima de Aoi ceder alguns dedos para baixo em uma visão desleixada da região após o abandono das mão que lhe aliciavam. Igualmente abaixada na parte da frente, o tecido já não mais escondia ou aprisionava o membro ereto que Uruha se quer hesitou sobre tocar, ou não.

Aquilo era seu. Como qualquer parte de Aoi, lhe pertencia. Independentemente de quem acreditasse, aceitasse, concordasse, gostasse, ou não. A certeza era sua e apenas isto lhe bastava. Nem mesmo a opinião de Yuu contava; confiava que poderia muda-la sempre que necessário fosse.

Entretanto, o gesto quase singelo de ter seus dedos envoltos na região íntima trouxe mais uma onda de euforia ao loiro, fazendo-o novamente sentir os batimentos cardíacos marcantes. Quase sentiu que precisava interromper o beijo para respirar, talvez aquilo preso em sua garganta fosse um gemido, tal como se fosse Aoi tocando em seu corpo e não o contrário, mas ao primeiro sinal de afastamento Aoi o impediu.

Ambas as mãos do moreno se encaixaram nas laterais da nuca, embrenhando e enrolando seus dedos nas mechas aloiradas, quase puxando os fios. Como se quisesse assumir o controle do ósculo, mas não conseguisse devido à diferença nas alturas, usando o controle dos cabelos do outro como uma forma parca de coordenar os movimentos do beijo que parecia, se possível, aprofundar e regredir como gestos gêmeos aos movimentos da mão destra que lhe movimentava o membro teso.

Naquele momento Uruha desejou que a próxima transa fosse novamente no conforto e no sossego do quarto de Aoi. Gostaria de ver a urgência que o moreno demonstrava com atos expressada em seu rosto sem pressa, experimentar novamente o calor totalmente nus e unidos com pernas entrelaçadas e braços transpassados. Descobriu que a exposição não era tão legal quanto algumas pessoas diziam ser, tornava tudo muito apressado. Tal como a profundidade da língua de Aoi em sua boca tornava os movimentos de sua mão mais acelerados.

E era perceptível que ambos os movimentos se completavam e evoluiriam em um ciclo de final óbvio; precipitado pela euforia do loiro e o êxtase químico que a troca de salivas, inexplicavelmente, causava no moreno.

Um som que tentou sair da garganta de Aoi morreu dentro da boca de Uruha, um muxoxo abafado que misturava uma fórmula equilibrada de prazer e agonia. Uma constatação de quão bom o estímulo estava, ao mesmo tempo que já era insuficiente. De tão simples que era obter prazer com o contato com aquele corpo, Aoi se encantava e se instigava; certamente o que lhe fez ceder o controle àquele garoto estranho que lhe confundia a compreensão.

Era apenas uma brincadeira, uma transa a mais como outra qualquer. Diferente das demais tinha apenas a química especial do beijo; um dom do loiro, com certeza.

Um dom que iria aproveitar à seu bel prazer. Era gostoso, ele queria, Uruha queria. Depois da conversa que tiveram, não tinha como deixar mais claro para o loiro que as coisas que ele tinha na cabeça estavam, realmente, apenas em sua cabeça. Tinha aprendido a gostar do amigo Uruha, mas não era nenhum santo, se o loiro sabia onde estava pisando, não iria lhe alertar cada buraco à frente em seu caminho.

Com isto em mente soltou os cabelos e a nuca de Kouyou. Suas mãos seguiram unidas para as laterais da própria boxer a abaixando com todo seu grau elevado de despudor, descendo-as até onde seus braços esticados alcançavam. O fato de saber que se algum dos empregados os visse, o que era improvável onde estavam, fingiriam que tinham visto nada o ajudava a não ligar para nada além do que queria naquele momento.

Mesmo que não quisesse, a quebra do beijo foi uma consequência assim que Uruha percebeu o movimento do outro. Atordoado pela falta de vergonha do outro e ao mesmo tempo aceso de curiosidade pela visão do corpo parcialmente nu Uruha apenas interrompendo o beijo de forma que alguma saliva fosse sentida em seu rosto.

Aoi choramingou, mas resignou-se a escorar o corpo novamente na mesa atrás de si. E nem mesmo o resmungo de Shiroyma fez o loiro arrepender-se do ato após vislumbrar a imagem erótica do moreno exposto. A camiseta justa alcançava apenas até o nível dos ossos proeminentes do quadril em seu abdome, as calças estavam empapuçadas em suas pernas e a boxer de cor quente estava quase na metade de suas coxas. O pênis ereto salientava-se impondo seu espaço entre os dois corpos, a visão o mesmo fez a boca de Uruha salivar imediatamente, mas não se atreveria a realizar as coisas que rodavam sua cabeça naquele lugar.

O desejo pelo gosto e textura da pele macia sobre o membro teso escorregando em sua boca ficaria apenas em uma imagem mental; uma fantasia guardada e ansiada para a "próxima vez". Uruha já memorizava em um filme erótico todas as coisas que queria para dita futura transa, e no momento o mesmo criava fantasias quase reais em sua cabeça.

Tudo muito perigosamente inflamado pela imagem real do momento presente, e ampliado pelo ato silencioso de Yuu que aproveitou a distância entre os corpos para apenas girar onde estava até a extremidade de um dos bancos laterais que eram fixados à mesa. Precisou que o moreno apoiasse um dos joelhos sobre o bando e inclinasse o corpo sobre a mesa até que os antebraços ficassem totalmente colados ao tampo para realmente entender a sequência.

Contudo, a cena vista de onde estava causou uma fisgada extra em seu próprio membro totalmente ignorado até o momento. Aoi parecia levar ao pé da letra o pedido para que ele terminasse o que tinha começado, comandar, obviamente não queria dizer apenas a distribuição de suas posições. Não ligava, dar prazer à Aoi e sentir a mágica essencial que havia entre ambos ascendia-lhe o corpo tanto quanto qualquer toque diretamente em si; a "lista de desejos" em sua cabeça também.

De qualquer forma, "comandar" não precisava significar a mesma coisa que "fazer". Bastava pedir, ou mandar se assim quisesse.

Ainda assim, Uruha não resistiu a abrir a própria calça para uma massagem rápida no falo duro enquanto se encaminhava para próximo do moreno novamente. Uma de suas mãos se apoiou na cintura de Aoi, uma de suas pernas ficou entre as do moreno para poder se aproximar até o limite e sua outra mão se apoiou na mesa. O braço apoiado ao lado da face de Aoi sustentando o peso de seu corpo contra a gravidade.

Um beijo rápido foi deixado sobre a pele sensível do pescoço de Yuu enquanto Uruha sentia o próprio corpo vibrar por descobrir ao toque cego a sensação de descobrir a textura da pele escondida do ponto mais alto da coxa posterior de Aoi, fazendo o caminho inverso por suas nádegas. A mesma confiança que o acompanhou até ali o fez não hesitar ao mergulhar as pontas dos dedos pelo canal estreito estre suas nádegas em um carinho íntimo que terminou com suas unhas em garra contra um dos glúteos do moreno.

A pele de Aoi se arrepiou, Uruha não soube dizer se pelo beijo ou pelo carinho na região normalmente intocada, mas a segunda opção lhe deixava com mais tesão. Repetiu o movimento, desta vez infiltrando seus dedos até que os mesmos tocassem por completo a face interna entre as coxas do moreno, escolhendo o lado mais próximo da palma para se arrastar pele acima. Encontrou pelo meio do caminho os testículos e o períneo de Yuu e permitiu que a palma de sua mão se virasse para cima para alisar estas partes em sua passada rápida até estar novamente escorregando por entra o calor convidativo do espaço entre suas nádegas até terminar no mesmo aperto entre suas unhas.

Os lábios de Shiroyama se abriram para um gemido, mas ao invés disto um beijo breve, forte e estralado foi deixado com pressão sobre os lábios de Uruha:

– Antes do temporal. – Repetiu o que já tinha dito no início.

Automaticamente os olhos de Uruha percorreram o céu. O tom acinzentado já tinha ficado levemente escuro, a tormenta não tardaria. Preferiu a visão que teve quando voltou a olhar para frente.

Yuu parecia ter se cansado da posição, os braços que mantinham um ângulo de noventa graus com o antebraço apoiado sobre a mesa já estavam esticados e esparramados deixando Aoi com o peito apoiado no tampo com o rosto de lado. Havia tantas flores caídas em torno do mesmo que quase lhe dava a impressão de estarem sobre o conforto de um grosso tapete de flores. Não ligava muito para flores, mas vistas daquele ângulo, malvas eram legais.

– Não temos facilitadores. – Disse o loiro voltando a apoiar a mão na cintura do outro para lhe dar suporte.

A outra mão deixou o tampo florido para aproximar-se dos lábios do moreno. As palavras incompletas foram completadas com o gesto, e no momento seguinte indicar e médio de Uruha estavam sendo sugados e umedecidos por Aoi. Uma visão erótica para um, um gesto apenas necessário para outro, breve que terminou com o moreno erguendo o outro joelho para cima do banco, ficando mais alto e mais acessível à mão de Uruha.

A movimentação colocou Takashima completamente atrás do outro, entre suas pernas. Sem dúvida outra visão que fazia seu membro pulsar. O apoio sobre joelhos e cotovelos facilitavam e tornavam a posição explícita para si e confortável para ele.

– Sabe que não são apenas meus dedos que devem ser facilitados, né? – fez a pergunta retórica introduzindo o indicador com alguma dificuldade; saliva não parecia ser o melhor tipo de lubrificante afinal.

Aoi apenas sorriu, concordando com a cabeça. Particularmente a intrusão do dedo solitário não o incomodava em nada, na verdade até lhe dava algum prazer. Ficava mais com garotas, mas tinha feito desta forma com um ou dois garotos, e tinha gostado. Gostava mais de ficar com garotos do que com garotas, por isto preferia a futilidade daquelas que se julgavam suas fãs na escola, ou a promiscuidade das garotas que via apenas em festas cujo propósito eram tão sujos quanto as pessoas que as frequentavam.

Ficar com aquelas garotas era mais seguro, jamais sequer sentiu compaixão por alguma delas, não teria nem repensado a forma como agia se não fosse o tombo de Uruha. Admitia que era um jogo perigoso, a persistência do loiro era tanta que uma parte de si acreditava que só levava aquilo adiante para poder dizer "eu te disse" para o outro depois, adorava Uruha, mas a teimosia dele despertava também o pior em si.

Conseguia agir como um amigo zeloso até este "despertar", depois era só algo parecido com uma concessão de tolerância conseguida no cansaço. Fosse o que fosse que Uruha quisesse daria, pedindo para que o loiro não reclamasse depois, quase inconsequentemente desejando que o mesmo realmente reclamasse. Assustava a ideia de que talvez uma parte de si gostasse da dependência que Uruha tinha por si, não o queria e também não o queria longe demais.

Um cara estranho que não conseguia ler como fazia com as demais pessoas e que despertava o pior em si. Ridiculamente, um cara que conseguia colocar a porcaria de uma ereção entre suas pernas com um maldito beijo controlador que dominava sua boca uma implosão sentida até mesmo onde a língua se quer chegava ou tocava. Era contra dois dedos deste cara que estava deliberadamente jogando seu corpo sem nenhuma preocupação sobre ser visto ou como o próprio Uruha o interpretaria.

Gostava da pressão causado pela sensação de estar preenchido, mesmo que por dedos. Também gostava da ardência que as falanges deixavam para trás enquanto se movimentavam dentro de si. Depois que começou a jogar seu próprio quadril contra os dedos longos de Uruha, o mesmo parou de tentar torcer ou abrir os dedos em seu interior para apenas simular a foda rápida, quase agressiva. E por fim, gostava do que ainda estava por vir.

Havia descoberto desde a primeira vez que tinha feito aquilo que nenhuma dor física podia ser maior do que todas as dores que existiam apenas em sua cabeça e se manifestava em um aperto angustiado no meio do seu peito. Na verdade a dor, bem como o prazer, aliviava suas outras dores. Tão forte e intenso que por alguns minutos realmente tinham lhe feito esquecer da grandiosa montanha de excremento omitida por trás de cada detalhe impecável na pintura intitulada "os Shiroyama".

Gostava, e isto poderia ser perigoso. Se gostava havia chances de se apegar, ao sexo, não à Uruha. Soava-lhe impossível se apegar à alguém que lhe conseguia lhe irritar tão rapidamente pelo excesso de teimosia.

Os dedos do loiro já estavam ficando secos pela penetração rápida demais, se alguém visse aquilo de longe certamente acreditaria que o loiro o machucava, mas na verdade a entrada apertada já estava quase dormente pela fricção dos dedos, formigava ao mesmo tempo em que ardia. Ardia, mas não doía. Esquentava e lhe fazia querer mais, a espessura de dois dedos não era o bastante para lhe tirar da sua zona de conforto.

O movimento foi rápido e em segundos Aoi estava sentado normalmente sobre o banco com Uruha em pé à sua frente e entre suas pernas. O próprio movimento sendo o responsável por uma desconexão desajeitada dos dedos em seu interior.

Suas mãos trabalharam depressa para libertar o membro enrijecido para fora do tecido da cueca, de seu ângulo pareceu engraçado o fato de que realmente não tinha feito nada por Uruha até então, tanto que o mesmo estava totalmente vestido e mesmo que sua calça estivesse aberta, a cueca omitia sua intimidade totalmente desprezada por si até o momento. Em contrapartida, Aoi antes de prosseguir cuidou para tirar e chutar para longe as próprias peças que incomodavam por restringir os movimentos de suas pernas.

O que dava graça à cena, na cabeça de Aoi, era que ao perceber que estava literalmente, não apenas se livrando das peças de roupa, Yuu estava também as jogando para tão longe que se alguém aparecesse e os visse, o moreno se quer teria chance de encobrir sua nudez, Uruha pareceu preocupado demais em "vigiar" os arredores. Algo que foi resolvido no momento em que o moreno libertou seu pênis, o tocando à mão nua.

Nada pareceu mais importante para Uruha do que o moreno em sua frente o olhando de um nível muito mais baixo que o seu, manipulando sua intimidade enquanto os olhos escuros esperavam por sua total atenção. Ainda sorria quando pediu para o loiro relaxar, pois ninguém apareceria ali. Ainda assim, não se preocupou em despi-lo, a única importância que Uruha tinha no momento já estava exposta e lhe era suficiente.

Com a mesma falta de preocupação, calou-se e diminuiu a distância entre seus corpos, usando a mão que lhe aliciava para conduzir a glande até o encontro com os lábios. Um ofego profundo que escapuliu pela boca do loiro e a mão que pousou em seu ombro em busca de suporte o bastante para que Aoi desejasse desempenhar o melhor de si na primeira e, provavelmente, única carícia de dispensaria ao loiro naquele dia.

Mesmo que tivesse ditado que Uruha deveria concluir o que tinha começado, sabia que por mais egoísta que estivesse sendo, aquela não era uma brincadeira solitária. De qualquer forma, era prazeroso ver a pele clara demais ganhar cor e imaginar o quão mais rubro ele ficaria até o ofegante final de tudo, e ver olhos curiosos sucumbirem ao peso das pálpebras ao mesmo tempo em que lutavam para não tirar os olhos de si.

O vai e vem apertado que ocupava toda a sua boca apenas o deixava mais desejoso do motivo pelo qual estava fazendo aquilo. Umedecendo e lubrificando para ter todo aquele volume que que não cabia por completo em sua boca preenchendo seu corpo prazerosamente de uma maneira diferente da que estava mais acostumado. A própria ideia precipitada enchia sua boca de saliva, a sensação o membro teso esfolando os cantos dos lábios pelo movimento repetitivo remetia a lembrança do que desejava para a sequência.

O preenchimento. O formigamento. A dormência. O prazer. E, por que não, a trilha sonora dos gemidos de Uruha que chegavam tépidos até seus ouvidos, provavelmente por efeito das bochechas que tremelicavam como se o loiro estivesse fazendo muita força para se concentrar em todas as sensações. Tudo o que desejava do sexo estava implícito nos movimentos que enterravam o membro duro de Uruha cada vez mais profundamente em sua garganta.

Não ligou para tempo. Chupou Uruha com vontade porque era gostoso e parou no momento que achou que devia parar, antes que as fisgadas cada vez mais frequentes que sentia enquanto movimentava o membro em sua boca marcassem um desfecho que não correspondia aos seus propósitos. Um estalido molhado ecoou entre os dois marcando o momento em que a boca carnuda o abandonou, as unhas de Uruha estavam tão firmemente cravadas em seus ombros que deixaram meias-luas afundadas no tecido de sua camiseta.

O mais alto viu Aoi se afastar, um resmungo quase saiu de sua boca pela ausência do contato morno e o término de um prazer que para Uruha ainda era algo absolutamente novo. A pressão da sucção, o raspar acidental de dentes e saliva resvalando entre seu pênis e os lábios bem desenhados. Tudo era quente e lhe deixava aceso, quase em chamas por dentro, além disto ainda havia o fato de Kouyou ver um brilho especial em cada nova coisa que Aoi liderava na estreia de suas experiências.

Yuu girou o corpo sentado no banco, chegou a colocar suas mãos sobre o tampo para impulsionar o corpo e voltar a ficar de costas, mas foi impedido no meio do caminho. Feliz, era como Uruha se sentia; radiante. Cada novidade descoberta com Aoi lhe deixava mais confiante das compreensões que ele tinha, e que acreditava que Aoi apenas ainda não tinha chegado. E ao ver o moreno se virando de costas, atirou-se contra si em um rompante.

Precisava beijá-lo novamente, comemorar um momento especial com gesto especial. Não se sentindo nem um pouco estranho por se sentir mais feliz ao perceber alguma diferença no sabor do beijo já conhecido, e classificando o mesmo como uma variação do sabor que já era deles.

Tentando encontrar um meio de continuar se movendo sem romper com o beijo, Aoi voltou a se mover puxando Uruha em seu encalço. Por ser mais alto o loiro não encontrou muita dificuldade em manter a cabeça por cima do ombro do moreno para que suas línguas continuassem a carícia mútua em meio caminho da lateral do moreno enquanto o mesmo girava até seu corpo ficar de costas para Kouyou.

Confiante como se aquela não fosse mais uma descoberta para si, uma das de Uruha se colocou contra a pelves de Aoi e a outra se agarrou à coxa do lado oposto do corpo do menor ao que suas cabeças estavam orientadas. Ao encontrar caminho por entre as pernas do moreno a mão de Uruha que apertava sua coxa a trouxe a abaixo, conduzindo Shiroyama a colocar aquele pé no chão, repetindo a posição que o viu ficar logo no início.

Com uma perna ereta e o joelho oposto apoiado no banco o caminho para o ponto mais íntimo daquele corpo revelou-se, e apenas por estar com o corpo colado atrás do moreno a glande ansiosa se impôs no espaço entre suas nádegas. Da virilha, a mão de Uruha deslizou até encontrar a ereção do corpo à sua frente e da coxa seus dedos subiram para lhe auxiliar a encontrar a entrada diminuta.

Sem resistir ao contato, a ponta de sua falange adentrou o local apertado novamente apenas para testar. No embalo já previsto do beijo trocado Uruha sentiu seu corpo se mover automaticamente, a glande resvalou sobre seus dedos e alcançou a ponta do indicador que testava a entrada apertada e lhe barrava a entrada.

Logo a troca foi feita e mesmo que as batidas em seu coração já estivessem sendo claramente sentidas dentro da boca do moreno que beijava, Uruha se perguntou como faria aquilo. A sensação do tecido pregueado se colava à glande exposta, contraindo-se ao pelo contato. Se lhe chamava para dentro ou tentava se proteger para não ser invadida, Uruha não sabia dizer, mas aquilo lhe dava a real proporção da diferença de diâmetro entre as duas extremidades que se uniriam. Muito mais do que quando foi a sua vez de estar daquele lado da relação.

Na primeira noite em que transaram a cabeça do loiro divagou apenas no deleite de estar na cama da pessoa certa para aquele momento. Houve apenas entrega, total e deliberada.

E ao relembrar de como Aoi entrou em si, seu corpo entendeu com plenitude que também entraria nele. Aquilo de certa forma também era entrega. Sua glande se empurrou contra a entrada apertada até romper a resistência natural e não foi uma escolha para nenhum dos dois romper o beijo novamente.

Os gemidos soaram juntos, mas a testa de Uruha se escorou contra a coluna de Aoi ao mesmo tempo em que o moreno lançou seu peito na direção do tampo da mesa para permitir ao outro ir além da penetração inicial. Escorregar para dentro depois foi mais fácil, bastava seguir o prazer; era como "andar para frente".

A mão que masturbava o moreno parou apenas quando a virilha de Uruha encostou nas nádegas do outro quando entrou-se por completo. Não parou por desejar e sim por sentir a mão falhar, apertando o falo entre seus dedos com uma pressão moderada. Mesmo totalmente parado, o loiro não conseguiu parar de ofegar sons que semelhantes à gemidos.

Era informação demais, o corpo de Aoi era quente, apertado e pressionava seu membro por todas as direções. Lidar com aquilo não seria fácil, na verdade, Uruha quase temia gozar entes de realmente começar se repetisse o movimento. Ainda assim, testou movimentar-se, sentindo a liberdade gélida e a descompressão parcial que foi se alastrando por todo o pênis e sem permitir que a glande escapasse por completo, voltou.

E ao superar seu tolo medo inicial, Uruha apenas quis mais. Testou entradas mais lentas, mais rápidas e até mesmo mais bruscas em busca do ritmo ideal, mas percebeu que o mesmo não seria encontrado em nenhuma fórmula secreta. Seria criado a partir da sensação de seus corpos, tendo como guia, principalmente os sons emitidos por Aoi.

A testa do moreno estava apoiada sobre o tampo, mas o mesmo não chegava a abafá-los. E mesmo que não fosse capaz de ver as expressões de Aoi para distinguir se seus gemidos eram de prazer ou desconforto, os movimentos de seu corpo acompanhando os movimentos de Uruha deixavam esta informação evidente. Aoi não fugia das penetrações, movimentava-se de forma que seus corpos se chocassem com mais força e fluidez.

Esta consciência fez Uruha voltar a conseguir movimentar seus dedos em torno do membro do moreno, recriando os movimentos de seus corpos também ali. Por fim, o loiro encontrou também forças para deixar a coluna ereta novamente e tendo o grande estímulo visual do que faziam.

E ali permaneceu, recriando a felicidade em sua cabeça. Encontrando sentido e conexão para todos os sonhos que tinha para o futuro em que Aoi finalmente fosse aceitar que poderia amá-lo. E pela perspectiva do outro ator daquela cena, havia apenas uma mente vazia que se permitia ser preenchida apenas pela sensação de prazer enquanto admirava a beleza das flores entre seus dedos. Uma anotação mental de que Uruha era bom no sexo já tinha sido feita, se o loiro não viesse com conversinha sentimentalista depois, poderiam repetir aquilo esporadicamente. Fora isto, não tinha mais nada a acrescentar.

Com o prazer Uruha se esqueceu do lugar em que estavam e da vergonha que o mesmo lhe dava. As arremetidas cada vez mais exigentes faziam as calças não tiradas do loiro cair por suas coxas sem que ligasse, tudo o que havia em seu mundo era o moreno se arremetendo contra si com a mesma urgência.

A sensualidade de Yuu movimentando-se com pressa em ampliar o prazer dividido entre gemidos descuidados o fez prosseguir sem ligar pelo aumento gradual do prazer que sentia; nem mesmo quando o mesmo lhe deu sinais de um caminho irreversível. Aceitando como um presente valioso o final do prazer em um orgasmo intenso que não explodiu apenas em si.

– Isso foi tipo "ual" – o loiro disse com dificuldade em sincronizar a fala com a respiração.

Uruha jogou-se no banco ao lado do moreno. Tendo dificuldades em coordenar o corpo anestesiado pelo sexo para recolher e puxar as pontas da calça que com seus movimentos acabaram descendo por suas coxas sozinhas. Era engraçado como se lembrara apenas vagamente de tê-las sentido cair, e nem ligou naquele momento se alguém iria ou vê-los ali no momento em que isto aconteceu. O prazer devia mesmo ser um sentimento despudorado e desavergonhado.

– Que bom que gostou, não estou acostumado a ceder o controle. – respondeu levantando-se de onde estava para pegar suas roupas.

– Sério? Pareceu muito confortável nesta posição para quem fica com tantas garotas. – caçoou lembrando-se com perfeição da forma como Aoi gemeu arremetendo o corpo contra o seu o tempo todo.

– Isto foi para eu poder me gabar com vontade por ter tirado a sua virgindade duas vezes. – ironizou no mesmo timbre de brincadeira usado por Uruha, abaixando-se recolher as peças de roupas que estavam no chão.

– Isto realmente é muito erótico, acho que você deveria se acostumar com isto. – disse e riu quando o rosto do moreno se virou duvidoso em sua direção. – Meu sêmen escorrendo pelas suas coxas. É erótico. Acostume-se. – ditou.

Aoi apenas revirou os olhos e tocou a calça embolada em sua cabeça. Logo voltou a se sentar ao lado do outro optando por vestir nenhuma roupa íntima uma vez que a peça lhe pareceu menos essencial do que a sensação de estar limpo; ou pelo menos seco.

– Te mostro na próxima como o seu sêmen na minha barriga fica bem mais erótico. – ironizou usando palavras quaisquer sem prestar muita atenção no significado das mesmas, apenas queria ter a última voz e não perder.

– Se cavalgar até ver meu sêmen jorrar em você é a única coisa que tenho que prometer para que haja uma próxima, está combinado. – o outro respondeu como ar prepotente de tão confiante.

– Desde que você esteja ciente que eu não vou mudar por causa disto, nem acredite que algumas transas irão me fazer ir até a sua casa pedir você para mamãe como fizeram nossos amigos... – finalizou a frase com um recolher indiferente de ombros.

– Ah nem se você assim quisesse... – foi a vez de Uruha soltar palavras irônicas sem pensar, olhando para o horizonte como se estivesse sozinho ali.

– Eu não te entendi. – Aoi o trouxe de volta, fazendo o loiro usar um sorriso e humor como álibis para omitir o desconforto.

– Antes de ir me dedurar para meus pais esteja disposto a me dar casa, exílio e comida no lugar deles. E aviso que sou espaçoso e como muito, então por favor, fique longe deles. – foi o disse em um humor forçado demais para ser sincero.

– Que exagero Uruha, claro que eles não iriam...

– Foi o que eles fizeram com a minha irmã. – o cortou. – Expulsaram-na apenas com a roupa do corpo, a única grande preocupação deles depois disto foi encontrar uma cosa longe o bastante da desonra.

– Eu não sabia disto, sinto muito.

– Não era para saber. – deu de ombros e então pareceu ponderar sobre algo.

Aquele era um assunto que lhe chateava, mas era Aoi ali. Mesmo que o moreno gostasse de ressaltar o quanto não queria aceitar seus sentimentos, era fonte do mesmo e, estranhamente, também não se importava de falar sobre isto com ele. O fato dele deixar tão claro que não queria se apegar deixava fácil dizer coisas que Uruha não queria que ninguém se apegasse, mas que ao mesmo tempo deveria tirar de dentro de si de alguma forma.

– Posso confessar algo sem que você se chateie comigo? – perguntou em uma voz que dividia dúvida e manha.

– É impossível responder à esta pergunta sem saber o que esperar desta tua cabeça, mas dá para prometer tentar. Ainda estou de bom humor por consequência do sexo.

– Eu sempre acreditei que histórias de amor obrigatoriamente sempre terminavam bem, com finais agradáveis em que o amor supera tudo. Eu entendi a crueldade do que meus pais fizeram com minha irmã, mas verdadeiramente só conseguia pensar neles e não nela. Conseguia me sentir em paz mesmo sem nunca mais ter sabido nada dela, pois na minha cabeça era apenas eles quem estavam perdendo, não ela. Ela tinha um amor para lhe servir de apoio e até invejei a liberdade dela. Quando você me rejeitou eu percebi o tamanho da minha ingenuidade.

Uruha deu uma pausa, agarrando-se a borda do banco e jogando o corpo para frente. O céu escuro acima de sua cabeça não lhe incomodava, mas o corpo que ainda formigava por efeito do sexo voltava à sua temperatura normal e começava a sentir frio.

– Foi só então que eu percebi que eu não sabia mais nada dele. Me desiludir com você me fez ver todas as possibilidades de como a vida dela pode ter se desenrolado depois daquele dia, tudo o que pode ter dado errado com a vida dela. Percebi que o mundo não é um lugar fácil de se estar mesmo quando se tem apoio. Invejo Ruki e Miyavi pelas mãe legais que eles têm e Kai e Reita que tem mães normais. Não sei nada sobre a sua mãe, mas tenho certeza de que te invejaria também. Depois que Ruki me contou sobre você eu soube que era o único de nós seis que tinha pai e mãe em casa, e único que não desejava ter.

O loiro riu por ironia. Família parecia ser algo sem uma construção definida em sua cabeça. De todas as pessoas que conhecia e amava, era o único que tinha casa com uma família completa na contagem dos itens da espécie e o desejo de que ela desaparecesse era o primeiro e o último pensamento de seu dia.

– É uma prisão que sufoca até a alma, – concluiu o pensamento em voz alta – cuidar como sento, como falo, as roupas que gosto, as coisas que compro. Quando o Taka me acusou de estar repetindo o mesmo erro com você e sobre nunca descobrir se alguém seria capaz de amar quem eu realmente sou, a única coisa que eu consegui pensar é que eu nem sei mais quem eu realmente sou. Eu só conheço a angústia que há entre esta pessoa e quem eu devo ser.

Aoi ouviu tudo aquilo em silêncio e assim ficou ainda por algum tempo depois que Uruha parou de falar. Seu primeiro pensamento foi de que era plausível aquele garoto ser tão ilegível; era alguém acostumado a omitir-se. Já era natural para ele ser o que tivesse que ser, tal como a si próprio. Ponderou sobre as diferenças e as similaridades de suas histórias e achou que a substituição do amor paterno por dinheiro em demasia soava menos doloroso do que a presença constante e cheia de um ódio que poderia explodir no menor sinal de "bandeia".

Verdade seja dita, se sua mãe fosse saudável, pouco iria ligar para o abandono. Seu pai havia lhe forçado a ser independente, mas Uruha não tinha o privilégio do dinheiro para libertar-se e dependeria dos recursos familiares por tempo indeterminado. Então fizeram sentido suas lembranças de quando o loiro se convidava para dormir em sua casa quando ele tinha o chamado apenas para as festas, pois não havia meios de Uruha sair de casa produzido da forma como saía.

E em meio a isto Aoi pensou por um segundo que por mais dolorida que fosse a sua situação familiar pessoal, esta tinha "prazo" para terminar. Teve a oportunidade de deixar tudo planejado e previamente encaminhado para quando "a hora chegasse" ele pudesse libertar a si mesmo pelo menos da parte física de todo um passado. E vista por este ângulo a perspectiva de Uruha era tão desoladora quanto a sua. Eram doloridamente iguais neste aspecto.

– Etto... vem, levanta. – disse colocando-se de pé à frente do outro.

-– O que? – Uruha levantou-se imediatamente olhando imediatamente sobre o céu acima de ambos, temendo que o temporal já estivesse próximo demais para correrem.

– Fecha essa calça e caminha. – repetiu-se já adiantado no caminho de volta.

Seguido de perto por um Uruha cheio de dívidas respondidas de forma insuficiente pelo silêncio, Aoi nem deu tempo para o amigo tirar os sapatos após passarem pela porta de entrada. Aquilo não era importante, apenas fê-lo seguir puxando-o pelo antebraço, ouvindo e ignorando as reclamações de dor pela falta de jeito.

– Por mais que você não queria ouvir isto, é meu amigo, Uruha. Um ótimo amigo. Não estaria aqui se não fosse.

– Aonde está me levando? Aoi meu braço doi. – choramingou.

– Vou te apresentar para minha mãe.

– O que? – quase gritou, olhando de forma automática para os poucos retratos que estavam sempre impecavelmente no mesmo lugar. – Você está maluco? Estamos cheirando a sexo, eu e você, o mesmo cheiro.

– Não precisa se preocupar com isto. Tire os sapatos – pediu já trabalhando um pé contra o outro para retirar os seus.

Kouyou abaixou a cabeça a cabeça para fazer o que lhe era pedido sem tropeçar nos próprios pés, visto que Aoi não parou de puxá-lo. No momento em que olhou para frente novamente esperava encontrar alguma sala de descanso ou biblioteca, mas estava em um quarto não muito maior do que o seu, claro demais e preenchido pelo aroma de algum perfume floral adocicado.

Não havia enfeites e nem excesso de mobília como era o padrão de todas as peças que conhecia da casa. Normal ali era apenas uma poltrona à frente de uma TV pequena, fora isto apenas a anormalidade de um leito hospitalar onde deveria ter uma cama e o excesso de cânulas e acessos que ligavam os vários equipamentos barulhentos e cheios de fios ao corpo da mulher desacordada.

Muitas coisas invadiram a cabeça de Uruha naquele momento, mas só conseguiu se ater ao fato de que a cena ante seus olhos em nada combinava com a mulher bonita que não devia ser nem mais nova e nem mais velha do que sua mãe. Aquilo não estava certo.

Os cabelos bem alinhados, escovados com carinho e delicadamente trançados não combinavam com os movimentos mecânicos da respiração feita através do ventilador que supria as necessidades do corpo desacordado pelo tubo escorado no canto da boca forçadamente entreaberta.

Uma linha delineada com perfeição através da pele enferma riscava cada um de seus olhos cerrados; eles eram tão cerrados quanto os de Aoi. Toda a beleza daquela mulher era tão igual a de Aoi que acreditou que poderia os confundir e se desesperar pela confusão se Yuu não estivesse de pé ao seu lado para lhe firmar a certeza de que estava bem.

As únicas coisas que divergiam em seus rostos eram a falta de saúde expressa na tez pálida demais e no preenchimento dos lábios. O desenho era o mesmo, mas mais cheio no rosto do Aoi.

Se não fossem os movimentos anormais de seu peito e o excesso de equipamentos em sua volta, diria que ela apenas dormia. Delicada como uma dama, com a presença marcante de uma rainha e a aura adocicada de um ser dotado da mais pura magia. Tão em paz que o sono poderia dar vida à histórias infantis com maldições de sono eterno ou maças envenenadas.

O corpo magro demais nem se movia o suficiente para tirar o ar inanimado dos lençóis esticados com capricho da ponta dos pés até quase chegar em seus ombros. Emanava o mistério sobre que tipo de entidade cruel lhe roubava a vida pouco a pouco.

Era uma situação inimaginável que contaminou sua cabeça e lhe roubou as palavras. Uruha estava satisfeito por pelo menos conseguir respirar dentro daquele quarto sem vida, a cena como um todo certamente era de tirar o fôlego; não em um bom contexto.

Uruha queria perguntar o que tinha levado a saúde da mãe de Aoi, mas não sabia como fazer isto. Antes que encontrasse como, o moreno voltou a chamar sua atenção:

– Okaa-san, este daqui é o Uruha. – forçou o braço que era agarrado para cima, esticando seu braço de forma desengonçada, dando início a um diálogo solitário que parecia ser comum para si. – O cara que eu falei que acha que me ama, um amigo. Um dos que vai cuidar de mim quando você não estiver mais aqui. – concluiu de forma quase apática e então soltou seu antebraço.

E aquilo soou tão dolorido, mas sentia a importância do significado de estar ali ao mesmo tempo estava atordoado demais com o excesso de informações. Sentia os olhos arder, mas não sabia se era por Aoi tê-lo levado até ali ou pela empatia porque a mãe dele talvez tivesse a mesma idade que a sua. Em uma situação que jamais gostaria de ver nenhum de seus pais, independente de seus defeitos.

Finalmente o loiro parecia conseguir preencher todas as lacunas que existiam em sua cabeça em relação às coisas que Aoi escondia. Tudo fazia sentido e cada peça faltante do quebra-cabeças se encaixava facilmente, completando cada conversa, cada situação, cada atitude do moreno.

E como doía. De tudo que pudesse ser possível suspeitar que Aoi escondia, não imaginava nada maior do que as coisas que ouviu sobre a ausência de seu pai. Qualquer coisa fora isto deveria ser apenas consequência, jamais imaginaria algo como aquilo e com tamanha gravidade como sendo o mistério que Aoi escondia atrás das portas da casa que ele não gostava de abrir para ninguém.

Deveria dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Era um silêncio aterrador. Naquele momento Uruha não sabia mais se tinha gostado de saber daquela parte da história, a falta de palavras permitia que mais partes da história de Aoi se unissem em sua cabeça.

Não quis chorar para não parecer que sentia pena do moreno, não era isto. Mas conseguia se ver facilmente na pele de Yuu naquele momento, preso em uma prisão de luxo por toda uma vida, conseguindo encenar a falsa felicidade enquanto ainda tinha a mão da mãe sobre seu ombro. Tão malditamente parecido consigo.

Não era difícil naquele momento entender o que tinha mudado o comportamento dele e dado vida a um personagem que esbanjava a vida boemia cheia de festas e risadas que preenchiam todo o vazio que ecoava pelos corredores intermináveis da casa em que se escondia a pessoa que, pensava agora, fosse o exato oposto do Aoi que conhecia do lado de fora. E era por isso que não sentia pena, na verdade, o moreno mudo ao seu lado lhe parecia ainda mais admirável.

Estranhamente, sorriu, mas para sua sorte Aoi não o viu. É este Aoi que Reita conhece e defende como um irmão, é com esta pessoa totalmente quebrada que o namorado de Ruki tanto ama e se preocupa. Mexeu em tudo o que podia da vida de Aoi que a escola tinha acesso para descobrir quem ele era, mas nunca chegaria na profundidade daquilo que lhe fora confiado em uma quarta-feira feira chocha de feriado inútil e com uma tempestade anunciada.

É. Com certeza Uruha iria sair dali apenas amando Aoi ainda mais.

Constrangido, abraçou-se antes de atravessar o portão grande como se o mesmo fosse estreito demais e se não o fizesse não passasse. Não sabia o que dizer e nem quais palavras usar, sentia-se grato por ser merecedor daquele nível de confiança por parte do moreno. Bem no fundo gostaria de trocar todas as palavras que não sabia como organizar, por um abraço, mas não podia.

Ainda assim, parou além do portão para olhar Aoi. Mas antes que qualquer palavras escapasse de sua boca, foi o moreno quem lhe falou.

– Eu agradeceria muito se você não falasse sobre ela com ninguém. – pediu – É apenas uma questão de tempo para ela descansar, mas até lá eu não quero ser alvo de olhares piedosos.

– Também não precisa passar por isto sozinho. E obrigado por tê-la me apresentado.

– Prometa-me que não vai agir como se eu fosse digno de pena. – pediu fazendo Uruha sorrir.

– Não tem como sentir pena de você. Quer dizer, é muito triste e impossível de não sentir empatia, mas junto com a empatia vem admiração e não pena. Eu sei que eu não seria tão forte quanto você está sendo.

– Vem uma tempestade aí, Uruha. – desviou os olhos para céu e deliberadamente mudou de assunto, mas não sem que o loiro em sua frente percebesse a ondulação emocionada em sua voz. – Você deve correr. – voltou a olhar para o outro, já com a voz firme novamente.

– É. – concordou – Se precisar de alguma coisa me liga. – disse for fim apertando as mãos contra as coxas, de verdade mesmo queria poder abraça-lo e beijá-lo como um bom namorado, mas não tinha esta liberdade.

Ainda assim, acenou dando as costas à Aoi. Estava satisfeito, por mais que tentasse dizer a si mesmo que faria tudo diferente, sua cabeça só consegui pensar que havia uma falha enorme no plano de Aoi e ela lhe dava uma vantagem enorme no que planejava para si próprio. Só precisava fazer Aoi acreditar que o jogo seguiria as regras dele enquanto conduzia o que para si era um relacionamento.

Aoi apenas fechou o portão e o deixou para trás, abraçando o próprio corpo ao sentir o vento cada vez mais forte contra o rosto. Venceu o caminho até o interior da casa desconfiado, costumava se achar bom em ler as pessoas, mas Uruha tinha o péssimo habito de o confundir; nunca sabia exatamente se o que o loiro pensava correspondia com o que o mesmo falava.

Ainda não tinha uma boa impressão sobre aceitar aquela troca estranha. Ninguém deveria encontrar vantagem em dar seu amor a uma pessoa em troca de nada; sexo e ficadas ocasionais não eram nada. Uma parte de si mantinha a luz intermitente de "perigo" piscando em sua cabeça, mas outra parte...

Tsc. Não era como se realmente não se sentisse grato também pela existência de Uruha, até mesmo a conturbada relação como o amigo estranho de Takanori tinha o ajudado a firmar-se novamente, queria apenas que ele pelo menos o entendesse. Até acreditou que contando tudo ao loiro ele entenderia seus medos, e ele entendeu, mas como sempre com Uruha, ambos pareciam chegar em conclusões totalmente diferentes enquanto seguiam as mesmas instruções.

O tempo deveria corrigir tudo, no ano seguinte estariam fora da escola. Universidade, novas pessoas, novos interesses e Uruha em algum momento convencer-se-ia de que os dois juntos jamais teriam algo além de uma boa amizade. Com sorte, Kouyou encontraria alguém tão bom quanto Ruki já tinha encontrado e tudo seguiria em paz.

Contudo, não conseguia negar que a afirmação de Uruha tinha lhe atingido como um soco em cheio no estômago. Tentava tanto não se ferir como viu a mãe se ferindo, que agia de forma tão semelhante ao pai que ele tanto desprezava. Esta acusação certamente não sairia tão cedo de sua cabeça.

Já no interior da casa, estranhou ao ouvir os sons emitidos pelos aparelhos da mão ao reentrar na casa, de longe percebeu que tinha deixado a porta aberta e não ligou. Aquele som lhe era triste e familiarmente normal.

Preferiu orientar sua atenção para a grande paineira através do vidro fechado da janela da sala, aquela árvore era especial para si e especial para sua mãe; quase um elo entre os dois.

Um evento anual que unia mãe e filho. Enquanto ainda era criança ela tinha contado que no lugar onde Yuu havia nascido havia uma árvore ainda mais alta e mais bela, com flores de um rosa ainda mais vivo, que como aquelas, floresciam e caiam em um espetáculo muito especial. O menino atento ouviu toda a história, mas duvidou da mãe; não de que a tal árvore existisse, mas que ela fosse mesmo tudo mais do que aquela que eles tinham ali.

Ano após ano eles assistiram juntos cada florescer e cair das flores, guardando na admiração o último resquício sincero de felicidade de ambos. Ao lado dela, com o único amor que Yuu acreditava ser verdadeiro e eterno neste mundo; o amor de mãe.

O ano anterior foi o único ano que a bela árvore havia se negado a lhes presentear com aquele espetáculo. Um punhado chocho apenas em um canto que desfavorecia a observação, Aoi acreditou que até mesmo a paineira estava triste com a ausência de sua mãe enquanto apenas seu pai não estava.

Eram tão poucas flores que o primeiro vento as levou, e Yuu pensou que ela nunca mais floresceria como a sua crença nas pessoas. Nem mesmo cuidava da árvore à distância, com alguma expectativa de que as flores pudessem surgir em outra época do ano; nunca mais tinha olhado para aquele lado.

Pelo menos não até Ruki ter voltado e ter colocado a velha árvore em sua cabeça novamente. Voltou a se lembrar do amor que tinha por ela ao vê-la no meio da noite depois da despedida de Takanori.

Sempre tinha a admirado pela beleza, mas no meio da noite com apenas o breu ao seu redor ela era apenas uma árvore. Solitária e enraizada no mesmo lugar, presa àquela elevação com seus braços abertos, e ali e daquela forma viveu e envelheceu. Já era velha quando Yuu a conheceu e ainda viveria muito mais do que o próprio garoto, e por eras seria uma prisioneira de beleza ímpar.

Compreendeu que talvez fosse por isto que ela tivesse tantos espinhos grossos por toda sua superfície, já estava tão apegada à solidão que a abraçou como única amiga. E então perguntou-se se aquilo que ele via como beleza, não pudesse ser como suas lágrimas.

E lá estava ela mais uma vez, rígida contra o vento que ficava cada vez mais forte. Não apenas as flores, mas também as folhas de desprendiam e os galhos mais às extremidades começavam a desistir de ir contra o vento.

Do lado de dentro a permanência insistente de um barulho baixo e incomodo finalmente capturou a atenção dos ouvidos de Aoi. Não conseguia identificar de onde vinha aquele "bip" contínuo que lhe incomodava os ouvidos, estava acostumado com barulhos assim dentro de casa, mas aquele som não era igual aos "bips" intercalados dos vários aparelhos ligados à sua mãe.

Claro que não era. Ainda assim precisou se virar de costas para a janela para perceber que não ouvia mais os "bips" dos aparelhos da mãe.

Seu primeiro pensamento foi correr, mas seus pés não saíram do lugar em que estava. Quis ser forte, mas seu estomago estava pesado enquanto sua cabeça estava pesada demais. Não conseguia olhar para dentro do quarto daquele ponto, mas via as sombras das pessoas que se moviam com pressa no seu interior e compreendeu que seu lugar não era lá; nada podia fazer dentro do espaço limitado além de atrapalhar aquelas pessoas.

Foi como o branco confuso de uma amnésia breve, de repente não sabia mais onde estava. Não conseguia reconhecer os móveis que viu ficarem menos à medida em que a perspectiva de sua visão ficava mais alta com seu crescimento.

Estava de repente sentado nos degraus da escada, olhando para a sala vazia sem saber conde estava e nem como tinha chegado até ali. Sua cabeça estava leve demais e confusa com a única coisa que poderia ser mais cruel do que o som teimoso; a ausência dele.

Fechou os olhos apertando com força uma das varetas que compunham o suporte do corrimão ao seu lado. O silêncio daquela casa nunca lhe foi tão doloroso, mas seria forte como foi por ano seguido de ano.

Seus olhos queimavam e o cenho estava franzido em uma força brutal que comprimia seus lábios e trancava o choro dentro da boca cheia e da garganta fechada. Não conseguiu abrir os olhos, nem respirar ou simplesmente aliviar a pressão entre dentes que prendiam seus lábios em um lacre cerrado pelo lado de dentro quando a voz conhecida da babá que tinha virado a governanta da família chegou em seus ouvidos.

As palavras eram conhecidas, mas nada fazia sentido em sua cabeça. Era como se estivesse ouvindo-a falar em algum idioma desconhecido. À sua frente, a senhora achou por bem da saúde daquele menino ser capaz de encontrar um meio de reestabelecer o caos que gritava em desespero no interior daquele garoto mudo.

Como as palavras não lhe chegavam aos ouvidos fechados, ela se sentou ao seu lado na escada, um degrau acima logo depois de estimular a mão que se machucava ao fazer força contra o corrimão a se soltar do mesmo. Como o primeiro ato de uma reação em cadeia, soltar-se fez a rigidez do corpo trêmulo perder forças, e então foi fácil conduzi-lo a se curvar até que a face estivesse contra as pernas flexionadas ao lado dele, oferecendo colo ao menino de quem havia cuidado desde o dia que em que sua patroa havia o trazido consigo ao voltar do hospital.

E ali, com o rosto escondido entre os tecidos leves da roupa usada para trabalho, Yuu chorou. Após a primeira lágrima, o primeiro soluço e então um choro incontrolável cortado dolorosamente por uma sequência interminável de soluços. Mexendo com os dedos hábeis nas mexas negras e lisas do menino em um carinho silencioso que pudesse, talvez, pelo menos acalmá-lo, acompanhado de um choro completamente empático.

Gostou da senhora Shiroyama desde o primeiro dia em que trabalhou em sua casa; antes de Yuu nascer. Por muito tempo foi a companhia da mulher solitária até que o carinho transcendesse o vínculo de patroa e empregada; ela havia lhe concedido a horara de se tornar a babá de seu bem mais preciso, sua nova companhia da vida. Entristeceu-se ao saber da doença de sua senhora como se a mesma fosse alguma sobrinha querida e após isto, viveu dia após dia do drama do menino dentro dos limites de sua relação.

Yuu era o novo Shiroyama solitário, e tudo o que podia fazer era cuidar dele da forma como lhe cabia. Ela também sentia falta das ordens dadas entre sorrisos e em voz gentil, e por mais que visse o menino organizando-se precipitadamente para como proceder naquele momento, ela sabia que não havia nada neste mundo que pudesse deixar um filho imune à dor de perder a mãe. Principalmente ele, que teve somente o apoio dela na maior parte de sua jovem vida.

E ficaria ali o tempo que fosse necessário, alisando os cabelos lisos em silêncio até que Yuu conseguisse parar de chorar. Espantou até mesmo a equipe médica quando o grupo saiu de dentro do quarto, tinham vivido ali e se dedicado ao cuidado daquela mulher há um ano, poderiam esperar o garoto estar melhor para encerrar seu trabalho. Salvo apenas um enfermeiro, que ficou ao seu lado por assistência e que a ajudou a levar o adolescente adormecido para o próprio quarto, por fim, Yuu havia chorado até esgotar-se.

E como uma reação em cadeia, aquele choro desesperado correu de seus olhos e ecoou por toda cidade pela chuva forte que finalmente tinha começado a cair, embalada por ventos fortes e com trovões altos que ecoavam alto como os sussurros de Yuu pela sala. Alheio ao temporal o choro do menino cessou junto com o fim de suas energias, bem como o breu tomou conta da cidade em uma falta de energia generalizada; um blackout que tomou conta de toda aquela metade da cidade.