Capítulo quarenta e quatro: Dois idiotas
Por Kami-chan
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Ruki
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O tédio de uma quarta-feira triplicado pelo fator feriado inútil. Casa vazia fazendo tanto silêncio que eu até estava me sentindo solitário, esquecido sei lá. Todo mundo tinha o que fazer e ainda nem era nove horas da manhã e para mim já parecia ter passado das três horas da tarde sem que ninguém se lembrasse de mim.
Claro que é drama. Myv e Kai tinham ido conhecer uma cidadezinha linda que tem perto daqui junto com a Hiro-san. Minha mãe tinha ido resolver coisas com Joe e deixou claro que não voltaria cedo. Uruha me dispensou divinamente, e Reita, bom ainda não era nove horas, ele ainda nem deve ter saído de casa.
Eu vivia pedindo por um pouco de silêncio e tranquilidade, mas a verdade é que nem mesmo o silêncio é legal quando se está sozinho. Preferi vir para o antigo sótão que tinha sido transformado em quarto para o Myv no tempo em que ele morou aqui, era tão acusticamente isolado da casa que dava para fingir que tinha gente lá embaixo, apenas eu que não os ouvia.
A janela do lugar era fixa de vidro. Não tinha como abrir, mas dava para sentar na soleira larga e se manter no lugar com o pé fazendo força contra a parte de concreto da casa que formava a lateral da janela, igual as costas fazia na lateral oposta. Era alto e dava para ver quase toda a rua.
Olhei mais uma vez para a folha que estava disposta à minha frente em destaque no caderno apoiado nas minhas coxas. Fazia tempo que não desenhava, mas estava gostando do que via no papel. Achei extremamente ambicioso desenhar tantas pessoas assim em uma olha só. Eu, Akira, Kouyou, Kai, Miyavi, Emi, Hiroki, Joe e sim, Aoi, pois ele faz parte do mesmo panorama no qual estou incluso.
Todos retratados da cintura para cima, como se estivessem todos olhando para o mesmo ponto alto centralizado no meio da folha, ponto que eu torcia que fosse o primeiro foco de qualquer pessoa que olhasse o desenho, como se estivéssemos todos encarando o observador de volta. Claro que precisava de mais técnica, mas eu estava satisfeito de qualquer forma. Espreguicei-me ouvindo os ossos de minha coluna reclamarem da posição, ignorei e me perguntei se conseguiria incluir Hanabi no desenho; provavelmente não ainda.
Um bocejo tirou minha concentração. A luz cinza insuportavelmente clara do céu lá fora não estava colaborando com a minha vontade de fazer nada. Pelo menos não estava chovendo como a previsão do tempo disse que estaria, pelo menos não ainda. Aquele cinza ainda iria mudar, eu sabia disto.
Seria bom que a chuva esperasse pelo menos Akira chegar até aqui. Pois Reita demoraria muito mais na chuva.
Estar sozinho era estranho, a solidão era tão calada e pesada que podia ser estranhamente sentida como a presença de algo. Não era algo bom, apenas algo que me fazia olhar para o buraco da porta no chão de vez em quando apenas para ter certeza que era observado por nada e ninguém.
Se pelo menos Miyavi não tivesse tirado todas as coisas que eram suas dali, o sótão vazio não seria tão pesado. Mas Hiroki tinha voltado e fazia dias que não havia mais motivos para as coisas dele ocupar este lugar, pois Miyavi morava com a mãe agora e neste aposento restou apenas a cama inflável provisória que Emi tinha arrumado para ele.
Eu gostava de ter Myv ali conosco, mas entendia que era importante para ele e para a mãe a grande conquista de finalmente morarem juntos. De forma definitiva, Hiroki não tinha deixado nenhum negócio para trás fora do país e jurou que só sairia do nosso território novamente para viajar com Takamasa de férias; outro sonho que ambos pretendiam realizar o quanto antes, uma longa estadia fora percorrendo uma série de países que ambos gostariam de conhecer. Algo que Kai não ouviu exatamente com bons ouvidos, mas isto não tem relevância agora, afina, esta viagem ainda é um plano abstrato demais... quase com ar de sonho.
Pensando nisto, olhei com preguiça para a rua vazia. Apenas algumas fibras das paineiras do bairro voavam leves a favor do vento. "Uma árvore grande e florida", pensei virando a página do caderno de desenho e olhando a nova folha em branco à minha frente.
Achava mais fácil desenhar ambientes do que pessoas, e pessoas mais fáceis do que natureza. No máximo, conseguia desenhar alguns poucos animais. Com tudo, o que mais gostava era de me deixar levar por sentimentos e desenhar sem prestar atenção.
Mas sempre que fazia isto terminava com retratos felizes das pessoas que mais amava. Ultimamente também era comum acabar com desenhos quase abstratos com foco em lábios finos de linhas retas como os de Reita, bem como suas costas, ombros e braços. Mas eram mais os lábios, gostava mais do resultado final.
Antes destes desenhos se tornarem comuns eu não tinha problemas em deixar meus cadernos largados por aí. Mas com o tempo eu comecei a achar constrangedor demais deixá-los até mesmo ao alcance de Kai, que tinha o hábito de folhar meus cadernos de desenho desde sempre. Já tinha me desvencilhado até mesmo de Emi nos últimos tempos, mas ela não me dava problema. No máximo fazia uma piada ou duas sobre os motivos pelos quais eu não a deixava mais olhar meus desenhos. Mas já bastava assistir às caras que Akira fazia toda vez que "encontrava por acidente" o bloco de folhas em que rabiscava pontos tão específicos de seu próprio corpo e expressões que o tal me mostrava em momentos apenas nossos.
Ah isto era constrangedor, com certeza era. E o pior era que estes desenhos guiados por sentimentos diretamente ligados à Akira estavam ficando cada vez mais comuns e menos castos. O Akira destes desenhos já tinha ganhado lábios rachados por mordidas e olhos fechados em expressões profundas que se misturavam ao seu sorriso bonito.
Quando fechava meus olhos para imaginá-lo ele sempre tinha aquele sorriso bonito e despretensioso; a última marca de inocência que eu não conseguia abrir mão. Seus olhos poderiam se desmanchar em luxúria, mas em seus lábios sempre haveria o sorriso leve e puramente carregado com felicidade de Akira. O amor se misturando à algo mais, sem nunca perder espaço para uma admiração de dimensões infinitas.
A evolução dos dias tornava estas expressões mais desejosas, mesmo que eu nunca conseguisse esquecer de vez o seu sorriso bobo. Era prazeroso como uma droga e angustiante como um vício. Já havia contaminado o sentimento. Não, contaminado não, estava misturado ao sentimento de uma forma tão homogênea que já era impossível separar. Fazia parte do mesmo, e sem aquilo, agora, tudo pareceria incompleto.
Foi tornando-se essencial com passar dos dias. Era especial como um segredo apenas nosso e uma necessidade real. Ainda me constrangia, mas não ao ponto de me opor ou negar; mérito daquele primeiro "faça o que quiser comigo" de Akira. Não era todo dia que nossos encontros tinham este tom, mas quando tinham, sempre eram carregados com a mesma dose de prazer e alguma descoberta a mais.
A maioria das coisas já não me deixava mais com vergonha. A verdade mesmo era que eu sentia como se não fosse tão tímido como achava que fosse, a forma como ele me fazia ter confiança estava deixando isto cada vez mais claro. Vaidoso o bastante para me sentir orgulhoso por cada uma destas expressões em seu rosto que não saem da minha cabeça e narcisista ao extremo para sentir prazer por saber que as expressões gêmeas em meu rosto o agradavam tanto quando as suas agradavam a mim.
Aquilo que eu classificava como timidez se dissolvia a medida em que a confiança em mim mesmo se solidificava. Pelo menos à sós com Akira. Ah, era complexo e tenso.
– Tenso o bastante para me deixar excitado sozinho e normal o suficiente para não ligar para isto. – disse para o quarto vazio.
Na verdade, a grande descoberta poderia ser resumida apenas exatamente nisto: era normal.
Tentei não ligar para como meu pênis tinha ficado tenso com aqueles pensamentos. Não era mais um tabu colocar a mão por baixo dos tecidos das roupas e prosseguir com aquilo se quisesse, afinal fazia isto até que com certa frequência. Fazia sozinho, fazia na frente de Akira, fazia com Akira, já tinha feito até sozinho com Reita ao telefone. Mas naquele momento eu não queria.
Isto talvez sempre fosse fazer parte da minha personalidade; não era um momento adequado. E nem o dia infelizmente, mesmo com o feriado e a casa vazia. O ano estava quase chegando ao final o que significava vestibular para Akira, e com um trabalho como o dele, um feriado em uma quarta-feira era bastante útil para pelo menos adiantar a leitura de algum dos livros. Eram cinco, apenas dois não estavam na lista de livros das aulas de literatura.
Eu não queria que Reita chegasse ali e me encontrasse soado e com a mão fedendo a punheta. Posso ser convencido o bastante para afirmar que ele não iria querer ler ou estudar depois disto. Também não vou mentir, prosseguir com isto faria também com que eu não quisesse deixar ele ler ou estudar quando chegasse aqui.
Por isso o melhor seria virar a folha de desenho iniciado com a intenção de desenhar natureza e que, acidentalmente, tinha assumido linhas retas de uma obra focada no abdome de alguém, cuja identidade provavelmente apenas eu e Reita identificaríamos pelos detalhes. Talvez dar uma volta pela casa abandonada para ignorar com mais facilidade a ereção inadequada; eu ainda nem tinha descido para dar uma olhada nos meus cachorros.
Lá fora a o céu já tinha mudado drasticamente. Quase assustador verificar que não fazia nem vinte minutos que tinha olhado para fora a última vez e o cinza do céu ainda estava claro demais. Tudo mudou em questão de minutos e a manhã já quase parecia o anoitecer, o que indicava um dia longo e tedioso.
Um movimento na rua chamou minha atenção. Estava esperando Reita e aquela janela dava uma visão perfeita da entrada de casa, mas não era Akira que dava movimento à rua deserta. Era Uruha.
Sozinho e com os cabelos lisos demais simplesmente lhe caindo em torno da cabeça, escorridos sem nenhum tipo de arrumação, completados por uma camiseta e calça quaisquer. Sem maquiagem alguma e nem ornamentos além dos óculos de armação grossa. Sem expressão nenhuma por trás das íris claras.
Na verdade, a falta de expressão era tão grande que era evidente mesmo à distância que Uruha estava em outro mundo, dando passos à frente no modo automático e virando bruscamente na calçada dois passos antes de cair do cordão de concreto para o asfalto, com braços largados e mãos balançado ao lado do corpo, subindo a rua na direção em que o céu estava mais escuro. É mais ou menos assim que o apocalipse zumbi começa.
Tá, não tem apocalipse zumbi vindo. Mas nada menor do que o apocalipse era esperado de um Uruha que tomava o caminho da última casa da rua com a cabeça tão cheia de titica que nem consegue prestar atenção nas coisas ao seu redor. Seria um dia longo, com certeza seria.
Eu tinha certeza que ele ia na casa do Aoi, mesmo que ele não tivesse dito com todas as palavras. Sabia disso desde o momento em que ele me dispensou com a desculpa de resolver algo importante de forma definitiva. E por mais que ele parecesse um zumbi agora, eu acredito fortemente que ele não irá estar com uma aparência melhor na volta.
Se estivesse, então é por que Aoi é mais idiota do que eu acredito que seja. E neste caso, ambos se merecem. Amém.
Tudo bem, confesso que estava curioso sobre o que exatamente o loiro iria tratar com Aoi, tanto quanto estava ansioso pelo resultado que isto geraria. Mas quem liga paras as merdas que o Uruha faz quando o moicano do Reita aponta na rua? Eu que não.
Sério, ver Reita chegando me fez achar até que o dia tinha dado uma clareada. Foda-se Uruha, foda-se Miyv, Kai e Emi distantes. A casa não ia mais estar vazia e eu desci as escadas correndo como uma criança feliz. Akira chegou, não precisava mais ficar sozinho.
– Uou, 'tava esperando na janela? – perguntou ao se assustar comigo abrindo a porta antes de ele tocar a campainha.
– Eu achei que o Uruha estaria aqui com você. Tá tudo bem com ele? – perguntou apontando com o polegar por cima de seu ombro sem olhar verdadeiramente para trás.
– Demora mais para definir o que é o "bem" dele do que julgar isto. – disse puxando o loiro para dentro de casa – Me socorre, eu to morrendo de tédio. – choraminguei me pendurando no mais alto.
E aí sim, preso em seus braços e ouvindo o eco de uma risada que eu precisava apenas ouvir para imaginar o desenho de seu sorriso em seus lábios, eu estava bem. Não precisava de casa cheia, nem gastar meus neurônios pensando em Uruha, não precisava nem daquela sensação quente que fazia divagar em desenhos vergonhosos. Eu só precisava daquilo, meus braços em torno de seu pescoço e seus braços se forçando contra minha cintura, e claro, seus lábios contra os meus no final daquela risada.
– Não vou ser uma boa companhia para quem está com tédio. – disse assim que o beijo calmo e suave encontrou seu final naturalmente breve.
– Estar aqui já serve. – respondi apertando mais meus braços em torno de seu corpo.
– O que você planeja fazer enquanto eu estudo, porque é sério, eu tenho coisas à beça para ler. – acrescentou desanimado.
– Sei lá Akira, vou desenhar, jogar vídeo game, te irritar... coisas normais.
– Tá olha só, são dois livros. Um deles falta umas setenta páginas, eu posso dividir entre este livro antes do almoço e o outro depois do almoço e aí não teria problema em a gente ficar um pouco junto primeiro. – começou jogando um sorriso maroto para cima de mim, concluindo a frase com um selinho talvez para dar ênfase à sua proposta.
– Exatamente o contrário, Akira. Leia as setenta páginas que faltam e depois a gente namora um pouco e vê como dividir o resto do dia. Você está reclamando da falta de tempo para estudar para vestibular já faz semanas. – respondi apesar de sua proposta do mal que era terrivelmente tentadora.
– Eu também reclamo da nossa falta de tempo para namorar. – argumentou.
– Mas de acordo com a sua teoria de longevidade de relacionamento, eu ainda serei seu namorado depois desta prova. O vestibular por outro lado...
– Por que você consegue ser tão maduro nas horas que poderia ser mais adolescente e tão inseguro quando podia ser mais adulto, hm? – brincou – Podemos ir para o seu quarto pelo menos, ou a tentação é perigosa demais para você?
– Desde que você não quebre o acordo e tente me seduzir ao invés de fazer o que precisa.
– Hum... isto quer quiser que você está seduzível, então pode ser que eu pule uns parágrafos e umas páginas nesta leitura, mas isto não é a mesma coisa que romper com o acordo, certo?
– Não se prejudique, idiota. Pule apenas alguns parágrafos. – concluí vendo-o rir antes de soltá-lo logo depois de deixar um último selinho sobre seus lábios.
É claro que nada disso funcionou, bastou entrar no quarto para que a mochila de Akira fizesse um barulho estrondoso ao ser jogada no chão e eu fiz outro barulho estrondoso ao ser jogado na cama. Duvidei que aquele dia seria um dia de estudos depois disto, tampouco o impedi de fazer qualquer coisa. Amava meu namorado e queria o melhor para ele, mas sério...
Minha pose de gente grande foi para adverti-lo e encorajá-lo a fazer o que era preciso. A partir do momento em que ele me ouviu e resolveu fazer o contrário a culpa por Akira não estudar não é mais minha. E isto fazia com que um sorriso sacana dividisse espaço com o beijo exigente.
Tudo bem que os braços dele contra o meus corpo é a minha classificação de "tudo o que eu preciso para ser feliz". Mas é diferente quando Akira usa a diferença de altura para tirar meus pés do chão e me jogar sobre a cama como o troféu da presa e enfiava a língua dele dentro da minha boca antes que eu pudesse raciocinar sobre onde estava e o que estava acontecendo, bem como respirar.
Eu já estava mentalmente fragilizado com uma introspecção que me deixou de pau duro sozinho minutos atrás, ter Akira entre minhas pernas e beijando daquele jeito não resultaria em nada que fosse produtivo para aquilo que tínhamos nos disposto a fazer naquele dia. Nem a reclamação que escapuliu naturalmente por minha boca ao sentir o beijo acabar e Reita se afastar.
– Cadê o menino responsável que estava me mandando estudar? – perguntou entre risos, mas o corpo dele muito bem ajeitado entre as minhas pernas deixava bem claro que o tom de represaria em sua voz era completamente falso.
– Eu tenho certeza que ele estava aqui em algum lugar, mas você deve tê-lo asfixiado.
– Desculpe por isto, foi um aquecimento. Sabe, um incentivo para ler mais rápido.
– Que cruel Akira, dar falsas esperanças ao seu namorado entediado. – apontei.
– Eu odeio ler, preciso de um incentivo para terminar logo. – debochou deixando a mão escorregar por meu corpo até sentir o membro levemente desperto, se ele soubesse que já tinha evitado dar atenção àquela parte do corpo mais cedo não seria tão maquiavélico.
– Você sabe que é crueldade estimular isto se vai simplesmente parar, não sabe? – a pergunta soou como advertência.
– Incentivo. Um incentivo apenas. – riu, mas a forma como seus dedos apertaram na minha cintura ainda era incompatível com o momento.
– Incentivo? Tá eu vou te dar um incentivo, Akira. – disse o empurrando.
Ele riu, tenho certeza que minha falta de paciência já estava bem evidente nas expressões. Talvez por isto nenhuma força foi necessária para que o peso de seu corpo saísse de cima do meu, bastou que desse o primeiro toque de um empurrão para Reita se afastar e sentar-se direito sobre a cama com as costas encostada contra a parede que limitava a lateral da cama, rindo como se tivesse conquistado algo muito divertido.
Não me demorei para subir em seu colo e sentar sobre suas coxas. Ele queria um incentivo, certo. E em minha impaciência, supus que aquilo serviria. Mesmo que fosse uma maldita faca de dois cumes.
Ergui o quadril e apoiei todo o peso do meu corpo nos joelhos para ficar um pouco mais alto. Coloquei minhas duas mãos, uma de cada lado de seu pescoço e o ergui até Reita ficasse com a coluna tão ereta quanto fosse possível naquela posição, seu tronco se colou ao meu corpo e sua face foi "estimulada" a se voltar para cima por meus polegares em sua mandíbula. Suas mãos foram imediatamente para o ponto mais alto no espaço entre minhas coxas, agarrando-as pela parte posterior para manter nosso equilíbrio.
Seus dedos longos "abraçavam" a circunferência das coxas, com as pontas se apertando profundamente contra os músculos da coxa interna. Este contato sempre fazia meu corpo vibrar e aquecer. Tão quentes quanto os olhos bem abertos na face imobilizada de Reita olhando profundamente para mim. Ah eu o enxergava e sabia verdadeiramente que se não fosse Akira ali eu estaria muito ferrado. Mas, não com Reita.
Ele me permitia fazer o que queria e ir somente até aonde queria. Ele me permitia viver cada momento sem um itinerário passo a passo do que era esperado. Por mais que a luxúria que fazia seus olhos quase brilharem deixassem bem claro na minha cabeça todas as diretrizes possíveis que se passavam por sua cabeça.
Apenas fechou seus olhos e me deixou brincar com seus lábios em um beijo superficial que envolvia somente a minha língua e seus lábios; talvez em um momento ou dois, um pouco dos meus dentes. E sua boca aberta, permitindo-se ser tomada. Revelando uma respiração difícil por sua parte, sendo que cada vez que o ar de seus pulmões deveria ser expelido, o que abandonava sua boca era um pequeno ofego.
E se me perguntassem por que eu era tão focado em nossas responsabilidades, por que eu era assim tão coxinha fresca? Eu juro que até sabia a resposta, mas não saberia responder o motivo de não conseguir ser diferente. Qualquer outra pessoa teria ligado o "foda-se". Eu mesmo teria ligado o "foda-se" se fosse uma prova ou trabalho escolar, mas o meu cérebro estava sempre ligado ao que era mais importante em cada momento; não era um botão que eu conseguia desligar apenas por vontade própria.
Nem mesmo quando a vontade era conduzida pelo tesão nas expressões pedintes de Akira. Ao invés de ligar o foda-se, eu aliviei a pressão das mãos contra o seu pescoço. Uma desceu para um de seus ombros e a outra apenas se acomodou sobre a face, com o polegar brincando com seu queixo.
– Você tem um acordo com Joe que implica passar no vestibular este ano para se tornar válido. – o lembrei – Isto serve de incentivo para eu te deixar estudar quando na verdade gostaria de estar aproveitando esta casa inusitadamente vazia com você.
– Não dá pra estudar e ler o tempo todo, Ruki. Minha cabeça vai fundir.
– E é exatamente por isto que eu vou estar aqui esperando pacientemente você, pelo menos, terminar de ler o primeiro livro para que eu possa colocar as minhas mãos em você novamente e prosseguir com isto aqui. – concluí abaixando novamente meu quadril até estar sentado em seu colo e deixando, obviamente, de estar mais alto do que ele.
Quase complicado lidar com a evidencia do volume teso que preencheu o espaço do meu períneo; um tanto entre minhas nádegas, um tanto sob meus testículos e meu próprio pênis igualmente desperto. As mãos dele subiram para o meu quadril sem escolha.
– Como consegue separar tão bem o quer fazer do que precisa fazer? É cruel, sabia.
– Eu sei que você está sentindo lá embaixo que isto não é cruel apenas com você. Então faça a sua parte. – concluí me forçando para fora de contato com seu corpo, pulado para o colchão ao seu lado na cama.
– A gente não pode só... terminar isto aqui antes? – questionou apontando para a ereção evidente.
– Não tem graça fazer isto apenas para chegar ao final logo. – disse, mas depois de tudo o que tinha feito até ali, foi o sorriso dele depois desta frase que me deixou evidentemente envergonhado pela primeira vez naquele dia.
Eu tinha uma vaga esperança de que Akira não tivesse entendido a declaração vergonhosa que estava escondida naquelas palavras. Não devia ficar tão envergonhado, afinal era a mais pura verdade. Eu era o cara que nem pensava em ficar com uma pessoa apenas por ficar, é claro que nada mais íntimo do que sair com alguém inverteria este senso.
Ainda assim, era complicado justamente por este motivo. Porque queria dizer que tudo o que fazíamos tinha sim um significado na minha cabeça. De alguma forma, do jeito em que foi colocado ficou claramente como uma daquelas frases que explicam toda a complexidade de um sentimento sem usar as palavras mais objetivas para isto.
De um jeito mais vergonhoso, ficou muito parecido com a forma que ele ri e fala que nada é tão importante quanto a sua certeza de que ficaremos juntos pelo resto da vida. Mesmo que estivesse me referindo a algo explicitamente físico, a fala revelou uma importância de todas as coisas intangíveis que envolvia a situação. E era por isto que uma frase besta tinha poder de me deixar mais constrangido do que estar de pinto duro na frente do Akira teria me deixado alguns meses atrás.
– Entendi. – foi a única coisa que ele disse.
E o que eu fiz foi sair da cama para catar a mochila pesada e tocar para ele. Não era obrigado a ficar olhando para aquele sorriso de "eu vou te explorar todinho depois" dele. Não era porque esta parte do namoro estava evoluindo de forma que já era normal, que isto deixava de ser totalmente embaraçoso, até porque eu nunca precisava dizer ou pedir que ele explorasse meu corpo ao invés do contrário, seguro e válido por tempo indeterminado o "faça o que tiver vontade" dele.
– O que vai fazer enquanto eu leio a porcaria do livro? – perguntou voltando ao tom de quem estava fazendo algo única e exclusivamente porque não tinha outra escolha.
– Vídeo game, facebook, celular... essas coisas.
– Tenha o mínimo de piedade e não coloque jogos que irão, com certeza, tirar minha atenção.
– Você vai se vingar de mim quando for a minha vez de estudar para vestibular? – questionei sorrindo.
– Pode ter certeza! – respondeu abrindo finalmente o dito cujo do livro na página marcada.
Eu não sabia se aquilo ia dar certo. Era muito dolorido e totalmente desestimulante vê-lo deitar desanimado de barriga para baixo com o livro aberto em cima da cama. A careta de "não era com leitura que queria aliviar isto aqui" quando quadril completou o movimento e seu corpo ficou totalmente contra o colchão também não colaborava para o meu estado de culpa.
Também não era divertido ficar no mesmo quarto, mas sem estar junto. E nem era do jeito junto que se supõe ao pensar na porcaria de ereção que eu também estava tendo que ignorar. De novo. Era junto do sentido de fazer coisas legais. Mesmo que um estivesse fazendo uma coisa e o outro outra, mas com conversa, sintonia e despreocupação. Sem este silêncio obrigatório e monótono.
Difícil deitar lado a lado com ele e ignorá-lo, ou fingir que o "facebook" era mais interessante. Poderia assistir alguma série ou anime, mas seria muita sacanagem assistir algo legal ao lado de uma pessoa lendo um livro por obrigação e não por prazer. Na minha cabeça muito mais de dez minutos já tinham se passado e eu não tinha encontrado nada capaz de capturar minha atenção.
A tela do notebook parecia tão sem graça quanto um ábaco. Mas em algum momento minha cabeça realmente divagou para longe, talvez uns dez ou quinze minutos depois de começar a reler meu manga preferido.
Com a cabeça em outro lugar não era o fim do mundo sentir o braço dele roçando no meu o tempo todo, e o relógio deixou finalmente de ser o centro da minha atenção. Nem soube dizer por quanto tempo ficamos deitados na mesma posição lado a lado antes de sentir a mão dele se infiltrar entre meu corpo e meu braço até alcançar a minha própria mão para se entrelaça-la à sua.
E em uma estranha surpresa, me vi tão absorvido que sequer tinha percebido que tanto tempo havia se passado, e que Akira havia terminado o bendito livro da sua lista de vestibular. Ou pelo menos era o que parecia. Era difícil dizer com certeza com o rosto de Reita descansando, de olhos fechados, com a bochecha colada na capa fechada da brochura moderna. O moicano e a faixa no nariz deixavam a cena mais parecida com uma vítima desacordada do que meu lindo e fofo namorado cansado.
– Ler dá sono. – resmungou de qualquer jeito, provavelmente sem nem saber que era observado.
Ri sem dar muita bola para o tédio em sua voz. Entre a minha pressa em recebe-lo e a pressa dele para me jogar na cama, nem pude dar muita atenção para o fato de que Reita se quer havia tirado a faixa da "cara". Eu achava uma ofensa ele ainda aparecer na minha casa com essa coisa lhe cobrindo o rosto.
Quer dizer, eu gostava de ele chegar na minha casa com a faixa, porque isto implicava na certeza de que ninguém na rua era digno de vê-lo sem a mesma. O que era um fato. Mas deveria ser lei ele tirar a faixa junto com os sapatos antes de entrar de verdade.
– Por que não tirou isso ainda? – perguntei soltando minha mão da sua e tentando entrar espaço entre a faixa e seu rosto para um dedo que não sabia bem se estava tentando abaixar ou tirar o pano.
– Porque quando eu cheguei você já foi logo implantando a lei do "estudos primeiro". – resmungou sem se preocupar em reabrir os olhos.
– Que você me convenceu a quebrar dois minutos depois. – acrescentei.
– Parcialmente, era um aquecimento. Nós dois sabíamos que o que deveria ser feito era diferente do que queríamos fazer.
– Aha! – exclamei vitorioso vendo o pedaço de pano solto o suficiente para se abrir com o movimento. – Como assim? Quer dizer que todos os seus movimentos foram calculados?
– Desaprendi a calcular movimentos depois que começamos a namorar, mas todos os cálculos de antes do namoro permitem que eu me gabe ao dizer que conheço você muito bem.
– Sinto-me um coxinha. – reclamei.
– Com certeza é o que você é, – riu – e eu adoro.
– Falar em coxinha me deu fome, você já terminou de ler isto?
– É. Livro interminável. Por que não tem livros legais de ler na lista do vestibular?
– Nem todos são ruins, você que deixou os mais lentos de ler pro fim.
– Menos um. – concluiu reabrindo os olhos e desencostando a bochecha da capa do livro para conseguir pegar o mesmo e tocar longe, em algum ponto aleatório do quarto. Qual é a sua ideia de comida hoje, pequeno?
– Ué ligar e pedir comida por tele entrega. – não era óbvio?
– Feriado em quarta-feira, existe uma chance enorme de que nem as lanchonetes estejam trabalhando. Até porque – puxou a tela do computador em sua direção – Agora já é quase duas horas da tarde.
– Se não for isso a gente vai comer torradas, porque eu tenho quase certeza de que não deve ter muita coisa no freezer.
– Emi não deixou comida para o genro querido dela? – questionou fazendo um drama desnecessário.
– Emi deixou dinheiro para comprarmos o que o genro querido quisesse comer. – respondi, sério... era óbvio que a comida tinha que ser de tele entrega.
– Ah aí ferrou...
– Podemos ir no mercadinho da esquina comprar congelados... – sugeri.
– Feriado, Ruki. – relembrou.
– Tá. Partiu caçar no reino perdido que se esconde dentro do que minha mãe chama de cozinha. – levantei já o puxando comigo, ficar ali discutindo só ia adiar a rodada de torradas que era o que ia rolar.
– Não é pra tanto. Eu tenho certeza que a Emi tem comida em casa.
– Tanto quanto eu tenho certeza de que eu não sei cozinhar, você sabe?
– Isso depende do que a gente vai encontrar.
– Não tem "nuddles". Eu comi o último ontem, se isto é a sua ideia de "saber cozinhar".
– Droga. Escuta, a gente pode tentar ligar para alguma lanchonete pra testar. – ri do seu desespero antes de abrir a porta do quarto com o telefone em mãos.
Mas alguma coisa definitivamente não estava normal ali:
– Droga, como pode estar tão escuro? – reclamei sem acreditar no que via.
A casa toda estava aberta, mas a impressão que passava era que o dia tinha se passado e nós simplesmente tínhamos a esquecido daquele jeito. Não havia nenhuma luz natural entrando e o que era possível ver do céu lá fora já tinha assumido um tom muito escuro de cinza, quase preto na verdade.
– A moça do tempo estava certa, virá uma forte tempestade. – Reita respondeu.
– Tempestade? Tempestade é o que eu faço quando Kai desmancha meu delineador com o jeito que ele segura o aplicador, o dia virou noite Reita. – expliquei sem entender como ele não entendia o nível de pavor que aquele céu de chumbo me dava.
– Quer ajuda pra fechar a casa? – prosseguiu ainda sem dar a mínima, aparentemente.
– Ahn?
– Ruki é um temporal, não o seu tão temível apocalipse zumbi. – explicou com calma.
– Você está certo, é melhor fechar antes que comece a chover. E ligue as luzes por onde passar, porque isto está me deixando com a sensação de estar encenando filme de terror.
– Eu não sabia que você tem medo de tempestades. – comentou apertando o botão do interruptor de luz do corredor e da escada.
– Eu não tenho medo de tempestade. Estou com medo desta tempestade em especial.
– Isto se enquadra nas propriedades fofas da sua personalidade. Quer um abraço? – debochou por fim.
– Cala a boca, Reita. Olha só, vai fechando a casa e eu vou arrumar comida. – disse me distanciando dele, mas dois segundos depois parei e olhei para o loiro que aparentemente também estava parado esperando que eu voltasse para fazer exatamente o que faria. – Tá. Eu fecho a casa e você arruma comida.
Eu, um dia, ainda vou aprender a cozinhar. Nem que seja apenas um único prato, só pra limpar minha imagem. Eu juro.
– Nós dois morreríamos muito rapidamente em um apocalipse zumbi, sabia.
– Ainda bem então que é só uma tempestade? – perguntei incerto se era a tarde de estudo intensivo ou apenas a tempestade que estava deixando nossos diálogos confusos; cadê a parte em que a gente esquece tudo e se agarra de novo?
– Se eu encontrar "nuddles" na cozinha vou comer sozinho, só avisando. – foi a última coisa que disse antes de descer as escadas.
Então eu encontrei a resposta quase imediata para o diálogo mais estranho que tivera até então com Akira. Reita era o tipo de pessoa que tinha o humor drasticamente alterado quando estava com fome, só podia ser isto. Mas de um jeito muito bizarro, isto era na verdade muito engraçado, ele certamente se transformaria em um zumbi se não encontrasse comida descente na cozinha, e o apocalipse estaria sim iniciado.
Agora...deveria haver algum tipo de enquadramento mais bizarro do que o poder da fome em transformar um namorado quase perfeito demais em um zumbi, para o fato de começar a descobrir defeitos no cara que diz que vai passar o resto da vida com você e ainda achar graça disso. Era tanta graça que o cinza assustador do céu quase passou despercebido em cada janela que ia fechando.
Já tinha conseguido fechar toda a casa, começando pelos andares superiores, quando Akira voltou a aparecer, aparentemente satisfeito por encontrar salgadinho escondido no fundo de um dos armários, falando coisas totalmente compatíveis com o humor que eu rapidamente conhecia como seu. Ah é, comida é um "melhorador" universal de humor.
Não importava o ambiente ou a situação, e para mim, Reita havia acabado de comprovar que a fome era uma necessidade fisiologia mais importante do que "gozar gostoso" com o namorado. Não que eu ainda estivesse pensando nisto, longe de mim. E graças a um "banquete" de salgadinhos, restos de uns quatro pacotes diferentes de bolachinha recheada que estavam perdidas em pontos aleatórios da cozinha, maionese, doce de leite e torradinhas daquelas prontas, ninguém morreu de fome e o humor de Akira voltou totalmente ao normal.
Deve ter voltado, porque ninguém mais levaria mais de uma hora para comer se não estivesse se divertindo entre brincadeiras sobre a composição da comida. O lado bom de tudo foi que pelo menos no fim, não tínhamos mais do que copos e talheres para lavar. O lado bom de verdade, porque pareceu acionamento automático: eu fechei a torneira da pia e um estrondo ensurdecedor de um raio tomou conta de todo lugar.
Tão forte que fez até mesmo as paredes da casa tremeram, não que fosse possível ver o tremor, pois por consequência, todas as luzes se apagaram. Claro, o que mais esperar de feriado inútil em plena quarta-feira?
– Ah merda. – reclamei no susto.
Logo a luz do celular de Reita brilhou, deixando seu rosto azulado pelo brilho intenso. A iluminação precária foi o bastante para mostrar que os dois cachorros tinham entrado correndo para dentro de casa, um deles sacudiu o pelo, molhando uma parte do chão, e só então consegui ouvir o barulho da chuva caindo.
– Uh está parecendo que não foi só no bairro que a energia caiu. – Reita disse olhando além do vidro da janela estreita da cozinha.
Por mera curiosidade, subimos até o sótão para olhar a rua daquela janela fixa de vidro. No sótão a dimensão do que tinha acontecido literalmente não se revelou aos nossos olhos, exatamente porque não havia nenhum vestígio de luzes acesas até onde nossos olhos alcançariam se pudéssemos ver alguma coisa. Com aquele nível de escuridão anormal, deveríamos ver pelo menos os postes de luz acesos se houvesse algum com energia.
– Com certeza a falta de energia é generalizada. – Reita disse forçando a visão além da janela, obviamente sem ver coisa alguma.
– Um blackout?
– Você tinha razão, esta não vai ser uma tempestade qualquer. – suspirou.
– Blackouts levam dias para serem resolvidos.
– Vamos descer, não confio nesta janela de vidro em meio a um temporal. – tive que concordar com ele ao ver um raio rasgar o céu escuro na vertical e iluminar totalmente o local por alguns segundos.
– Acho que vou ligar para Emi. – disse o acompanhando no caminho de volta até o buraco no chão que era a porta do aposento, não costumava ser tão medroso, mas não estava nada confortável naquela situação. Era escuro demais, impreciso demais.
– Vou falar com a vovó também. Depois disso será melhor economizarmos a bateria dos celulares, você sabe onde tem lanternas?
– Reita, não tinha comida em casa. Você acha que vai ter lanterna?
– Tá. Então só vamos pro seu quarto e ficamos por lá até... sei lá.
– Cuidado aí, já é ruim de descer isso aí com luz. – Pelo menos a porta do meu quarto não era longe e eu sabia fazer o caminho até de olhos fechados.
Ou no caso, concentrado em buscar o nome da minha mãe nas chamadas mais recentes do celular sem dar muita atenção à Akira que fazia a mesma coisa no seu. Falar com Emi concluiu a certeza de que a falta de energia tinha sido geral, pois Joe morava muito longe dali e eles também estavam presos em casa sem luz. Pelo menos ambos sabíamos onde exatamente estávamos e com quem. Emi estava segura na casa do amigo de infância e ela declarou-se tranquila por Reita estar aqui. O mesmo com a Akira e avó pelo o que deu pra ouvir.
Bom, era um tanto assustador ouvir a chuva forte lá fora, com ventos que pareciam não perder a força e velocidade. Raios e trovões em uma casa vazia e sem energia poderia ser um cenário bastante assustador. Uma parte bastante lúcida do meu cérebro me lembrava que a casa era bastante segura, principalmente com alarme ligado, mesmo assim foi automático trancar a porta do quarto depois de passarmos. Era mais confortável apesar de saber que não havia, de fato, nenhum perigo ali.
– Ai merda – a voz de Reita veio de algum ponto ao meu lado, em um gemido de dor e irritação. – Merda de livro. – reclamou, por fim.
Ok, havia os perigos básicos de um quarto que Reita havia bagunçado. Eu não podia ver muita coisa, mas me lembrava muito bem dele apenas jogando o livro que tinha acabado de ler, de qualquer jeito no chão antes do "almoço". Eu ri, poderia encontrar qualquer coisa dentro do meu quarto no escuro, tudo tinha lugar certo e organização diária. A graça era que o quarto de Reita era exatamente o oposto. Pior que ele só Uruha, talvez, que acumula toda a bagunça em um canto só. Ou Kai que simplesmente abre as gavetas e toca tudo para dentro.
– Sabe, a sua mãe e avó não ligam para mim, mas Emi sempre liga para você quando sabe que estamos juntos. Acho que não há problema em pouparmos a bateria do seu celular e usar o meu como lanterna para não nos quebrarmos. – respondi ligando a lanterna traseira do dispositivo.
Tentei não rir ao ver que ele literalmente tinha se estabacado no chão após tropeçar no livro. Mas não deu, foi mais forte do que eu. Quando dei por mim já estava quase tendo um ataque de falta de ar por rir tanto. Akira havia caído em uma posição realmente muito engraçada e como se não bastasse, talvez pela falta de visão clara, ficou congelado exatamente e no mesmo lugar e na mesma posição; que no caso era de quatro no chão no meio do meu quarto.
Alguns diriam que isto é algo sexy, mas eu devo dizer que não é não. É engraçado e ponto. Deve sim haver situações em que isto seja sexy, posso pensar em muitas delas; nenhuma se encaixava com Reita caído no chão.
– Baka... – foi a única palavra que consegui dizer, e ainda saiu entre as risadas.
– Você bem que podia vir aqui ajudar o seu namorado lesionado ao invés de ficar rindo dele. – Reita reclamou com humor.
No instante seguinte ele já estava abaixando o quadril até se sentar sobre as próprias pernas, mas sem sair de onde estava; jogar o livro com força na direção da porta do meu banheiro como se fosse capaz de acertar o cesto de lixo que havia por ali lhe pareceu uma ação mais interessante. E mesmo que sua fala anterior tivesse sido claramente apenas uma reclamação leviana, me vi caminhando em sua direção.
– "Meu joelho doi, e não há nada a fazer agora.*" – Disse em uma parca imitação da música gasta de tão velha, mas ainda assim, clássica.
– Falta de energia, um namorado de quatro no chão do meu quarto e poesia profunda. Eu acho... que você tropeçou neste livro só para me seduzir, Akira. – brinquei lhe estendo a mão mesmo que soubesse que ele não precisava de nenhum tipo de apoio físico para se levantar do chão.
– Tudo friamente calculado. – concluiu nos fazendo rir durante todo o movimento envolvido no processo de levantar, desde sua mão puxando meu braço levemente para baixo ao usá-lo de alavanca até o pequeno reboliço que a movimentação como um todo deixou no ar.
– Até o temporal, com certeza... – a luz fraca e azulada do led do celular deixava tudo com um ar quase fantasmagórico.
Mas isto não era algo considerado ruim nem de longe. Em pensamentos mudos eu não tinha receio de dizer a mim mesmo que era um artista, e como tal, além de ver traços de Reita entre traços selvagens e abstratos que representavam o lado incorpóreo do sentimento, da mesma forma, era uma experiência visual para o futuro, vê-lo sobre todas as luzes e todas cores.
– "Pra que servem os anjos?" – prosseguiu tentando cantar.
– Chega Akira! – impliquei, Reita tinha muitos talentos, mas tentar cantar como Renato Russo não era um deles; aquela claridade insuficiente, de uma luz que não ficava bem definida entre azul ou branco não combinava com risadas.
Risadas deixavam aquele cenário que já parecia fantasmagórico, beirando algo macabro. Era uma luz severa e gélida, não era com risadas que ficaria mais branda. Se era severa precisava do equilíbrio da ternura, e se era gélida, obviamente, precisava de calor.
– Você tá parecendo a noiva cadáver com essa luz fantasmagórica, sabia? – ele ainda disse, parecendo se concentrar em enxergar meu rosto tanto quanto eu estava me esforçando para vê-lo.
– A noiva cadáver tem cabelo castanho. – respondi no mesmo tom, afinal, ele também estava parecendo a noiva cadáver; a diferença era que sempre havia aquele calor gostoso que seu corpo sempre dividia com o meu quando estava assim tão perto.
Só então eu me perguntei por que diabos nós estávamos ali gastando nosso tempo com preocupações sobre clima e falta de luz, falando com letras de músicas velhas ou sobre filmes também já ultrapassados. Eu estava mesmo merecendo que um dos raios que estavam caindo lá fora caísse bem em cima da minha cabeça. Passei a maior parte do dia remoendo o fato de não podermos ter um tempo só nosso e quando o universo conspira com as forças da natureza, e nós dois ficamos trancados em uma casa vazia sem nem eletricidade parar usarmos de desculpa para fazer qualquer outra coisa que não ficarmos juntos, o que a gente faz?
Piada um com o outro, citamos músicas bregas e filmes da sessão da tarde. Nunca vou poder contar sobre isso para Uruha ou Kai.
– O que foi? – perguntou-me, obviamente eu deveria estar fazendo alguma careta enquanto pensava.
– Nós somos dois idiotas, sabia. – respondi procurando o aplicativo no telefone para desligar a tal da lanterna.
O fato de eu fazer caretas estranhas enquanto viajava para algum universo que só existia na minha cabeça era o principal motivo para isto; nós não precisávamos de luz para servir de guia ali. E eu não precisava dar nenhuma justificativa pra o movimento seguinte.
Sabia qual era o caminho e a distância da minha boca até dele de cor e olhos fechados, guiado cegamente pela certeza de encontrar os dele prontos para me receber com um beijo que era sempre esperado. Não precisava ser nada elaborado, apenas um simples contato, sem grandes intenções além do aconchego que era estar então entre os seus braços ao desfrutar de um carinho calmo e mudo, cheio de uma paciência que só quem não espera nada em troca sabe apreciar.
Por um período breve houve apenas a boba intenção de sentir sua boca contra a minha. Não precisava de luz para o que era sabido apenas pelo o que era sentido. Logo minha língua deslizou entre seus lábios sem encontrar a menor dificuldade em passar pelos mesmos até sentir sua língua escorregar sobre a minha, sempre com carinho, sempre com a mesma dedicação.
– Isso quer dizer que você não vai me obrigar a voltar a estudar? – ele perguntou com a voz um pouco embargada após o tempo apenas beijando.
– Você pode estudar para o vestibular com uma lanterna de celular até ficar cego, ou pode usar a desculpa da falta de energia para aproveitar o resto do feriado curtindo seu namorado sem a interrupção dos nossos amigos. – disse.
E não era preciso vê-lo no quarto escuro para decifrar as expressões em seu rosto antes de sentir um dos seus braços se enroscar na minha cintura em uma ação dramaticamente exagerada que nos aproximou ainda mais. E ele também sabia percorrer a distância da boca dele até a minha, e do lado de cá estava eu pronto para recebe-lo em um novo beijo. Um que evoluiu rapidamente para o encontro úmido e cúmplice das nossas línguas.
O silêncio que imperava na casa deixava claro o quão longe de nós a chuva caía. O som dos pingos fortes eram suprimidos ora pelos trovões, ora por sons úmidos de lábios estralados entre um movimento e outro entre nós.
Um suspiro mais alto que os demais foi solto entre o beijo quando o aperto dos braços dele me fizeram soltar todo o restante do ar que havia em meus pulmões, sorri esticando meus braços até conseguir abraçar seu pescoço. Aquilo era apenas mais uma das coisas que não precisavam de luz para serem claramente visíveis; era Reita ficando novamente com a coluna ereta e me puxando junto consigo para compensar a diferença entre as nossas alturas sem interromper o beijo. Era bobo, mas eu adorava isto.
Ele nos guiou pelos três ou quatro passos que nos separava de minha cama. Eu não me lembrava de mais nada jogado pelo chão que pudesse causar uma nova queda, então não vi motivo algum para ir contra seu plano. Satisfeito demais em me concentrar apenas na aderência morna entre nossas línguas e o calor mais proeminente nos pontos do meu corpo em que sua mãe escolhia para se acomodar.
Não era como se de alguma forma eu não estivesse esperando por este momento o dia inteiro. E ele também. Na verdade, era tão obviamente nítido que queríamos que chegasse logo o momento em que pudéssemos nos dedicar somente à nós mesmos que quase seria possível afirmar que Akira e eu éramos culpados tanto pelo mal tempo quanto pela falta de energia generalizada.
Eu não sabia se isto seria possível, ainda assim, era bom ter uma desculpa para esquecer do mundo e apenas beijar o seu namorado, só para variar. Livres de culpa, afinal não havia estudo que pudesse ir adiante naquele escuro total. Aliás tinha um sim, um estudo que era super compatível com a escuridão.
