Capitulo 46 – Black out – parte I
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Naquele exato segundo tinha apenas uma coisa que eu queria, e eu seria sim egoísta o bastante para pedi-lo sem pensar nas possíveis consequências:
– Me deixa duro de novo também, Akira. – pedi trocando o beijo por uma mordida que puxou minimante seu lábio inferior.
– Merda Taka!
Foi a última coisa que ouvi antes de ter minha boca invadida com afinco. Naquele momento eu sabia que se havia mesmo um botão chamado "foda-se" dentro da minha cabeça, Reita iria dar o seu melhor para encontra-lo.
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Ruki
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O movimento entre nossos corpos parou por um momento e seus braços cercaram meu corpo, firmes. A invasão de sua língua em minha boca foi muito mais afoita do que esperava, sendo rapidamente aprofundado de forma que a maior parte do meu raciocínio foi redirecionado para acompanha-lo. Fosse lá o que ele tinha em mente, deu certo se isto envolvia uma distração que manteria meu cérebro alheio aos seus planos.
Surpreso, percebi-me em seu colo quando o fôlego dele pareceu terminar e o beijo ser rapidamente quebrado em uma busca rápida por oxigênio bastante para prosseguir com a sessão. Com minhas nádegas acomodadas em suas coxas e nossos corpos deliciosamente colados.
Eu não sabia dizer exatamente em qual dos movimentos entre abraços e apertos meu corpo tinha sido colocado naquela posição. Eu não havia sequer percebido, e aquilo assustava um pouco. Nunca tinha visto Akira perder nenhum tipo de controle, mas aquela demonstração breve me fez pensar que, talvez, o fato de ele inclusive querer avisar isto, poderia querer significar que seria muito mais fácil eu perder o controle daquela situação do que realmente imaginei quando assumi qualquer tipo de responsabilidade.
E novamente a claridade invadiu nossa cena por segundos breves demais, o bastante para lembrar que ainda chovia torrencialmente lá fora. E tempo suficiente para que nossos olhares se cruzassem de alguma forma; como se ele também estivesse procurando.
A posição me fez vê-lo de cima e encarar um par de olhos cheios de desejos mudos. Segundos foram o suficiente para perceber uma intensidade ainda desconhecida daquele olhar que me fez teme-lo de um jeito que não era de receio; certamente o próximo desenho que ninguém iria ver teria um fundo negro e um feixe luz rasgando esta escuridão enquanto revelava um olhar febril imerso na mais profunda lascívia.
Merda. No instante seguinte quem lhe engolia era eu.
Com minhas mãos embrenhadas em seus cabelos e sua boca à mercê das vontades da minha. A mistura de saliva dentro da concupiscência entre toques urgentes que deixavam o corpo quente apenas para brincar com a cadência elaborada entre este calor e o frio que tomava conta da pele, deixando-a arrepiada, por onde suas mãos passavam.
Sentia a textura do lençol contra minhas pernas até o joelho e a parede atrás da cama gelando partes dos meus antebraços, salvo isto, havia apenas a presença marcante do corpo dele abaixo, a frente e em volta do meu. Mais uma vez naquela noite ele estava me colocando sobre seu corpo, mas desta vez, mesmo que fosse eu a estar por cima, eram suas mãos firmes em meu corpo que fazia com que o mesmo se movesse contra o seu.
Seu quadril contra meu quadril fazendo nossos corpos se moverem em uma completa sintonia. As mãos dele apertando meu corpo tão próximo ao seu que era seu próprio corpo que instigava meu pênis a ficar ereto novamente enquanto ainda sentia sua intimidade se roçando com cada vez menos constrangimento contra minhas nádegas.
Era melhor não pensar, ah, com certeza seria melhor nem pensar, em como nossos movimentos deveriam estar parecendo. Em minha cabeça mais uma vez alguns arquivos deixados por Miyavi em meu computador me tomaram a memória; certamente qualquer vestígio mínimo de luz revelaria movimentos eróticos que poderiam muito bem ter sido retirados de algum filme com aquele propósito.
Certamente se vistos de longe, nossos movimentos não se pareceriam com somente uma esfregação. Por algum motivo, pensar nisto fez com que me movimentasse ainda mais contra ele.
Nada fiz para que meu corpo não fosse conduzido daquela forma ou tentei em algum momento reprimir algum gemido que fosse soar mais altivo. Tampouco deixei de lhe tomar os lábios ou fingir que não percebia que suas mãos seguravam-se firmemente em meu quadril para poder garantir que seu membro teso não perderia o abrigo recém descoberto entre minhas nádegas.
A forma como suas mãos nos guiavam demonstrava que a massagem oferecida pelas estruturas macias lhe agravam tanto quanto todas as outras formas de masturbação que já tínhamos feito alguma vez. Suas mãos me apertavam mais toda vez que Akira empurrava seu membro para frente e alisavam cada vez que regredia, em algumas vezes eu mesmo acabava por me mover e jogar o quadril para frente, de encontro ao seu; algumas vezes, quando ele voltava para trás, o membro quente deslizava por algum ponto mais sensível em algum lugar no meio do caminho que ele fazia para se movimentar.
E mesmo que não tivesse vontade nenhuma de abandonar seus lábios, em algum momento isto foi necessário. Uma das mãos de Akira subiu por minhas costas e se forçou contra meus cabelos para que o beijo fosse rompido.
Seu corpo se impulsionou para frente e, com algum estímulo daquela mão em minhas costas, endireitei a coluna lembrando que aquela posição me deixava um pouco mais alto do que ele. Nada de mais, mas o bastante para que sentisse seus lábios e língua brincarem com a pele fina que cobria uma clavícula quando nossos corpos se aproximaram novamente.
Não precisou mais do que a percepção de que seu desejo não era de voltar para minha boca para que eu abandonasse o conforto de estar apoiado sobre as pernas, para apenas ficar ajoelhado sobre o colchão. Se ele queria brincar com estruturas mais sensíveis, este desejo era mútuo. Realmente adorava senti-lo daquela forma, e mesmo que pudesse ser definido como algo meio vergonhoso, bom, eu gostava e fim de assunto.
Naquele momento não era como se não estivéssemos ali para isto. Eu mesmo havia pedido para ele me deixar duro novamente e nada faria isto com tanto êxito quanto a audácia com que seus lábios e língua costumavam me tomar quando Akira escolhia se focar em meus mamilos.
Eu gostava daquilo e ponto. Gostava já sem dar mais importância para o quanto, ou como, demonstrava isto. O único malefício da posição poderia ser o fato de que nos fazia perder o contato mais íntimo entre nossos pênis, uma ausência que assim que notada foi substituída por minhas próprias mãos que envolveram nossos membros de um jeito já bem conhecido e apreciado por nós dois.
Era tudo tão gostoso, mas eu ainda estava tão longe. Eu tinha suas mãos contra o meu corpo e seus lábios em volta de um mamilo, minhas mãos estavam em torno de nossas intimidades e minha boca tomada por gemidos. Ainda não parecia ser o bastante, minha cabeça ainda gritava por mais.
Como cada ato mais ousado percorrido hoje, me vi apenas fazendo coisas sem pensar. Talvez fosse isto que Uruha havia chamado de "foda-se" enquanto justificava sua recaída ao ficar com Aoi por acaso, só que com Akira isto não era uma justificativa para algo ruim; era só uma justificativa para eu ter tirado uma de suas mãos do meu corpo e estar, literalmente, chupando as falanges de seus dedos indicador e médio.
Seus lábios perderam a coerência nos movimentos, mordendo com mais pressão do que normalmente faria, a região em volta do mamilo que acariciava. Com a mesma força sua outra mão parou a minha que ainda nos masturbava e rapidamente seguiu até uma de minhas nádegas, agarrando-se ali com força. A ponta de suas falanges trazendo o toque inesperadamente gélido à região oculta.
- Já fez isto antes? - perguntou assim que percebeu a reação do meu corpo com o deslizar sutil de sua falange pelo caminho formado por minhas nádegas.
O timbre com que as voz chegou até meus ouvidos combinava com o frio súbito que sentia em suas mãos. Era reconfortante saber que não era apenas eu quem estava nervoso com o rumo totalmente impensado daquela brincadeira.
- Eu meio que já tentei experimentar. - disse ao tirar seus dedos da minha boca, não queria aprofundar aquele assunto.
Reita jamais precisaria saber que já tinha tentado me bulinar sozinho usando a imagem da espuma sobre seus músculos sendo lavada pela água do chuveiro do vestiário da escola. Com certeza não.
- Mesmo? Imaginar isto é excitante. – voltou a falar, desta vez com a voz mais parecida com o que costumava ser.
- Akira, falar coisas inapropriadas em momentos inapropriados é especialidade minha. – reclamei, já seria constrangedor o bastante se ele apenas fizesse aquilo calado o bastante para que apenas meus gemidos me deixassem com vergonha.
- Não é inapropriado, é o que estamos fazendo. Isto está muito perto de deixar de ser uma brincadeira, Ruki.
- Você falar não torna menos constrangedor. Só... – Não concluí, apenas guiei, sabe-se lá com audácia tirada de onde, a mão com seus dedos úmidos para que se unisse à outra lá embaixo.
- Tem certeza do que está me pedindo? – perguntou, mas isto não o impediu de insinuar seus dedos por um caminho certo.
- Não. Mas ainda não sinto vontade de parar.
- Acho que estou gostando demais desta tempestade. – concluiu.
Eu quis dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas mais uma vez a mistura de língua, saliva e sucção contra um dos meus mamilos voltaram a ter todo o mérito por conseguir fragmentar minha consciência com uma facilidade ímpar. Uma parte muito pequena da minha cabeça conseguia se concentrar no toque úmido e escorregadio da extremidade de um de seus dedos que tateava e calmamente explorava a região a que tinha ganhado acesso.
Aquilo diferente, como uma massagem que era erótica ao mesmo tempo em que ele também parecia tentar descobrir o que, e como se sentia com aquilo. Dava uns choques tão gostosos que se misturavam com os choques causados por seus lábios, e a mistura de tudo isso causava uma sensação tão... merda.
Tive plena consciência do momento em que o dedo explorador encontrou por fim um meio de se infiltrar pelo canal apertado, e somente então me senti constrangido e exposto. A sensação não era boa, tampouco ruim. Eu não sabia se tinha que dizer algo, ao mesmo tempo em que todo e qualquer gemido que pudesse sair de minha boca pareceu ser engolido pela novidade daquela experiência. Com certeza era totalmente diferente de quando tentei fazer aquilo sozinho, mas diferente ainda não classificava aquilo como bom ou ruim.
Não chegava a ser incômodo, mas estava longe de passar despercebido. Sua outra mão apertou mais a carne de minha nádega contra os seus dedos, conseguindo assim mais espaço para conseguir introduzir seu dedo em meu corpo mais profundamente.
- Doi? – perguntou dando uma trégua momentânea ao carinho deixado em meu peito.
- Não. – respondi.
Não doía mesmo. Ainda era difícil definir o que exatamente aquilo me fazia sentir, mas com certeza não era dor. Acho que apenas era estranho demais sentir um dedo inteiro naquele local, e com a confirmação da ausência de dor, um dedo inteiro em movimento. Não era confortável, era estranho.
Não sabia bem o que fazer, naquela posição minhas mãos não alcançavam seu membro. Queria lhe dar prazer, mas não sabia como. Segurei sua cabeça firmemente contra meu peito, tinha uma breve desconfiança de que era do prazer nascido ali que vinha o bem estar e a vontade quase inexplicável de querer mais.
Já não havia mais nenhum incômodo com a invasão moderada quando abaixei minha cabeça na direção da sua, conseguindo alcançar a ponta mais alta de sua orelha com os dentes. Sei que gemidos cantados tão perto assim de seu ouvido eram um forte combustível para a libido do meu namorado, mas não foi intencional, naquela altura a união das carícias conseguiam arrancar gemidos fáceis.
– Eu me lembro de ter colocado dois dedos seus na boca. – disse sem abandonar seu ouvido.
– Eu ainda não tenho certeza de que você está consciente de tudo o que estamos fazendo. – escutei Akira dizer, enquanto sentia seu dedo deixar meu corpo.
Suas palavras pareciam querer me contradizer, mas seus dedos voltaram a tatear a região de minha entrada. Tão logo a mesma foi encontrada, os dois dedos que há pouco estavam em minha boca, buscaram por algum espaço pelo canal apertado da mesma forma como ele havia feito anteriormente.
– Tsc... dois dedos doem. – fui sincero.
– Quer parar por aqui? – perguntou igualmente sincero.
– Se não puder lidar com dois dedos seus, como vou lidar com algo mais? – respondi sem pensar direito.
Eu sei que deveria ter apenas respondido sim à sua resposta. Doía, era estranho e nada confortável, mas naquele ponto a curiosidade passou a falar mais alto. O que disse foi realmente o que se passou pela minha cabeça.
Fosse aquilo teste, descoberta, masturbação ou preparo. Não importava, no fim haveria o momento em que lidar com aquela dor seria necessário. O engraçado era que, apesar de não ser nenhum pouco fã da dor, eu não a temia.
– Demos um longo passo hoje já e...
– Xiu... – cortei – A dor fica concentrada lá na entrada, dentro mesmo não doi. Dentro é... – não consegui terminar o pensamento em voz alta. – coloca até o fim.
Era estranho, para não dizer constrangedor demais, admitir que a sensação de ter o corpo preenchido daquela forma era algo que por falta de palavra melhor, naquele momento eu apenas conseguir chamar de "acolhedor". Dava vontade de querer superar aquela dor específica, dava até para ter uma noção de porque as pessoas normais gostavam de sexo. Ah sim, também servia como prova de que eu era um ser humano normal, mas não vinha ao caso agora.
Akira tinha dedos longos, com certeza, e eu o senti acatar ao meu pedido até que os nós dos dedos livres limitarem sua capacidade de ir mais além do lado de dentro. Apenas isto, o encaixe dos dedos quase imóveis preenchendo aquele espaço. Qualquer movimento mínimo involuntário ascendia uma reação em cadeia na entrada ainda desacostumada, que se contraía sem que eu tivesse o devido controle sobre estes movimentos.
Era quando se contraía que doía. E quando a dor era sentida os músculos se contraíam e o ciclo entre dor e falta de controle naquele ponto específico era o que realmente incomodava mais.
Era como se o próprio corpo tentasse expulsar aquele corpo estranho que parecia querer lhe ferir. Quando isto finalmente parava era possível se concentrar naquilo que era novo e despertava minha curiosidade. Como explicar algo que doi e ao mesmo tempo esconde uma sensação ainda sem nome e nem forma?
– Você é quente. – ouvi-lo dizer em um sussurro.
– Hum? Pensei que o calor vinha dos seus dedos. – completei.
– Ainda doi?
– Só quando a sua mão se mexe e eu não consigo controlar a...
– Quando sua entrada se contrai. – concluiu, e eu concordei com um resmungo. – Mas dentro é diferente. – prosseguiu com seus sussurros, mais como se estivesse registrando algo para si.
– Dentro é quente. Sinto seus dedos aqui. – concluí buscando a mão que ainda o auxiliava a abrir espaço entre minhas nádegas e a coloquei em um ponto bem específico na minha virilha.
– E assim? – perguntou antes de movimentar seus dedos como se os recolhesse, mas sem o movimento para trás que faria com que se movimentasse também através da entrada.
A resposta foi um gemido que não foi nem de dor e nem de prazer, de surpresa, talvez. Era bom. Não dava para descrever de outra forma, sem drama e nem romance cheios de fantasia. Só era bom e me fazia sentir seus dedos em outros pontos daquela região como uma extensão do seu toque através e além do limite físico que realmente alcançava.
– Etto... isto não desfez tua ereção. – Akira disse, percorrendo o caminho de onde eu tinha colocado sua mão, até meu membro; sua voz soou surpresa.
Isto me assustou. Não por estar duro, porque eu conseguia sentir minha própria ereção, mas suas palavras fizeram voltar à minha memória o fato de que, apesar da intimidade que havia no que estávamos fazendo, a atenção ficou voltada apenas em mim. Há quanto tempo poderíamos estar ali comigo apenas concentrado em desvendar sensações de coisas que ele e somente ele fazia em mim, sendo que tínhamos chegado até ali porque ele tinha uma ereção entre as pernas instigando minha vaidade?
Movimentei-me sobre seu colo até conseguir alcançar seu pênis. A dor por consequência do movimento não pareceu importar muito, eu só não queria que meu egoísmo tivesse feito Reita "esfriar". Isso me deixaria mais constrangido do que tudo que já tínhamos feito até ali.
Tateei nossos corpos até encontrar o espaço que levaria minha mão até onde a mesma desejava chegar. Um gemido alto saiu de seus lábios tão logo meus dedos se fecharam em torno do membro teso. Ereto e rijo, tenso de um jeito que eu não precisava estar enxergando para saber que o comentário anterior dele nada tinha a ver com falta de desejo. Muito pelo contrário, o membro de Akira estava inchado e havia uma quantidade bem grande de pre gozo umedecendo toda a região da glande.
Então entendi que a surpresa na voz dele anteriormente poderia ser real, e o que ela significava. Qual era o peso real daquilo que estávamos fazendo. Podia soar idiota ao extremo, mas foi só ali que eu entendi onde aquilo realmente iria terminar e a forma como seu membro não sedia entre meus dedos indicava que talvez para Akira aquilo já estivesse beirando a maldade.
– O que está fazendo? – perguntou assim que eu comecei a me mover.
– Eu entendi. – disse me movendo de forma a garantir que seus dedos saíssem de dentro de mim, estava indo para trás sobre o colchão quando ele voltou a falar. – Uma vez ouvi Kai e Uruha falando sobre a posição "de quatro" ser menos dolorosa. – justifiquei.
– Ruki, eu não quero que se sinta pressionado, mas preciso mesmo saber o que exatamente estamos fazendo. Sabe, até eu tenho um limite no auto controle e nem eu sei como você ainda não quebrou ele, mas sei que estou muito perto desde limite desde que você colocou meus dedos na boca.
Caras normais planejam encontros e seduzem seus namorados, um dia, eu conseguiria ser assim também. Mas pensando sobre cada passo daquele relacionamento, desde aceitar que estava apaixonado por Akira até este exato momento, eu não conseguia imaginar algo menos ou mais "do nosso jeito" que aquilo.
Fazer nada juntos em um dia especial por ser feriado, mas sem valor nenhum. Se convidasse Akira para um "encontro com final feliz planejado" a vergonha me travaria e nunca seria tão certo como estava sendo. Sem nada na cabeça e sem luz aos olhos, apenas uma descoberta que levava a outra e a outra e cada vez a algo mais intenso, nada me preocupou ao voltar o movimento na direção da cama em que ele estava.
Um beijo descuidado sobre lábios ébrios enquanto a mão seguiu cega e despreocupada vasculhou a gaveta ao lado da cama. O barulho da mesma correndo foi o que findou o beijo, com uma dúvida muda por parte dele.
– Miyavi me deu isso aqui como "presente de despedida". – justifiquei colocando o tubo em suas mãos, mas ele não deixou que eu apenas abandonasse aquilo consigo, segurando meu punho em outra dúvida muda. – Eu quero. – respondi como se conseguisse olhar diretamente em seus olhos através da escuridão.
Sem nenhuma resposta ou outro argumento, senti uma de suas mãos em torno da minha cintura, puxando meu corpo novamente para si para um beijo urgente. Em algum momento no meio deste beijo desajeitado, cada uma de suas mãos segurava uma das minhas. Conduzidas sem surpresa até seu ventre para então serem largadas de qualquer forma sobre o alto de suas coxas até que o toque cheio de nervosismo de suas mãos foram rapidamente trocados pela sensação gelada de uma porção exagerada do que, com certeza, era o lubrificante deixado consigo momentos antes.
Era óbvio o que deveria ser feito, mas ao invés disto, minha consciência parecia conseguir somente se focar no som da respiração de Reita tomando conta de todo o ambiente. Perfeitamente audível e sem um ritmo certo, totalmente diferente de sua calma rotineira. Uma parte de mim queria perguntar em voz alta o motivo de tanta ansiedade, mas a ideia foi perdida e mantive-me mudo, no exato momento em que minhas mãos cheias de lubrificante tocaram em seu pênis.
A consciência de porque estava deixando-o tão escorregadio pareceu dar sensibilidade extra aos meus dedos e também levou embora qualquer ousadia que eu teria para falar naquele momento. Centímetro a centímetro percorrido com o gel lubrificante, eram futuros centímetros e centímetros que percorreriam meu corpo. Aquilo era tão sério e aterrorizante, dava para sentir o coração batendo na garganta quando o deixei para trás com um último beijo estralado em seus lábios.
Eu não iria voltar atrás. Não tinha como, com certeza não conseguiria encarar nem Akira e nem a mim mesmo se desistisse à esta altura do campeonato. Mesmo que voltar a engatinhar sobre o lençol não fosse a ação mais naturalmente fácil para aquele momento.
O colchão afundou através do caminho entre minhas pernas e foi mais fácil esconder meu rosto entre os braços com a testa apoiada contra a superfície do lençol como se a penumbra do quarto ainda não fosse o suficiente para servir de abrigo. O toque repentino das mãos contra minhas coxas fez com que meu corpo se sobressaltasse mesmo que sua presença fosse forte próximo à mim e o contato fosse claramente esperado.
Na minha cabeça tudo pareceu acontecer na delonga de horas de espera pelo próximo movimento. Não via o que estava acontecendo nem sabia o que ele pretendia fazer imediatamente na sequência, ao mesmo tempo, não tinha na voz a força suficiente para perguntar, mas resposta me foi dada em um caminho demorado que deixou para trás um traço de vestígio oleoso por onde seus dedos percorriam.
Os dedos longos de Akira tatearam o caminho até encontrar o ponto exato pelo qual procurava, e então a sensação gelada do lubrificante predominou. Impossível se manter indiferente quando o excesso do produto escorreu por toda a região pélvica, o líquido viscoso escorria com dificuldade, e justamente por isto sua sensação era tão bem sentida.
– Merda... – saiu quando um fio de lubrificante escorreu até a base das minhas bolas foi a última coisa que senti antes de ter as pontas dos seus dedos tentando acumular mais do facilitador na região da entrada.
– Vou colocar meus dedos em você de novo. – avisou antes de introduzir os dois dedos que espalhavam o óleo por toda a região. – Doi menos?
– Hn... – concordei.
Doia menos, seus dedos deslizaram para dentro de mim e aquele ciclo de desconfortos era consideravelmente menor assim. Não queria dizer que não incomodava, mas a parte ruim era amenizada e a parte que era boa podia se sobressair um pouco mais.
O quanto mais eu descobri não muito tempo depois quando o movimento de preparação acabou se transformando em exploração. Sei que em algum momento Reita perguntou se ainda havia dor, foi apenas aí que eu percebi que na verdade quase nem conseguia me manter focado nela. Então a exploração evoluiu para algo que com certeza cabia na definição de masturbação.
Seus dedos entravam e saiam em movimentos similares aos de uma penetração. E eu não sabia bem se era a adrenalina do desconhecido, a ideia de que aquilo dava sobre o que viria a seguir ou a união de tudo, mas aquilo era bom; talvez fosse simplesmente a descoberta de que aquilo era mesmo bom e nada mais.
– Você acha que... – sondou sem conseguir concluir a frase direito.
– Chega de dedos, Akira. – respondi presumindo que fosse isto que ele queria me perguntar.
Certamente um mérito de Suzuki Akira; era isto que cada detalhe e passo além que este namoro assumia, era. Cada milímetro de paciência e zelo contido desde os sorrisos simples até os silêncios cúmplices. Eu não achava de verdade que aquele detalhe em especial da nossa vida fosse algo assim tão impactante, mas foi exatamente ali que eu passei a mudar de ideia. Aquilo era sim um divisor de águas na nossa história.
Bastava sentir suas mãos também tremiam e sentir sem nem mesmo estar perto o suficiente, que as batidas do coração dele estavam na mesma bagunça que as minhas. Minha cabeça podia ser idiota o suficiente para chegar até ali sem nem saber o que estava fazendo, mas nossos corpos sabiam; estavam prontos para isto.
E doeu. Muito mais do que a porcaria de dois dedos e muito além do que eu classificava como tolerável. Ainda assim, instantes depois meu antebraço tinha marcas profundas de dentes e ele estava completamente dentro.
Reita o fez até que seus corpo estivesse contra o meu, e então seu peito se inclinou sobre minhas costas. Uma das mãos tremulas parecia perdia em algum ponto do meu peito, parecendo não saber para onde exatamente desejava ir. Ali percebi que não era apenas suas mãos que tremiam, e de certa forma perceber isto acalmou minhas próprias sensações quando ele virou sua face e deitou com a bochecha em minhas costas.
No fim me pareceu que aquela sua mão perdida estava simplesmente tentando apalpar o próprio peito em busca dos batimentos do próprio coração, como se não diferenciasse o fato de estar percorrendo o meu corpo e não o seu. Então a busquei para se entrelaçar a minha e percorrer o caminho até a altura do meu coração, talvez dividir consigo a loucura que também pareceu se apossar no ritmo de seus batimentos; nossas emoções não eram nem um pouco diferentes.
– Seu coração está batendo feito louco. – apontou – Tudo bem?
– Como se eu não pudesse sentir as batidas do teu daqui. Só não se mova ainda.
– Não poderia. Enquanto você se acostuma eu me acalmo, ou não iremos muito longe até o fim disto. Droga, é tão quente e apertado.
– Ano, sinto como se você estivesse preenchendo cada centímetro cúbico do meu corpo. E é muito complicado tentar explicar como isso é bom.
– Assim fica difícil querer ficar parado, Taka.
– Não fique. – concluí conduzindo a mão que ainda estava sob a minha até meu baixo ventre, diretamente sobre o membro esquecido e carente de atenção.
Não foi preciso mais do que isto par que começasse a ter meu pênis estimulado enquanto escorregava entre seus dedos ainda um pouco aderentes devido ao manuseio do lubrificante. Ah é, aquilo era ainda mais prazeroso do que costumava ser, e ao som do primeiro gemido seu corpo pareceu testar algum tipo de movimento entre nossos corpos também.
Era difícil, mesmo com a atenção que era dedicada ao meu membro, manter meu corpo relaxado o bastante para poder dizer que já estava acostumado e os que Reita fazia não doíam. Durante as primeiras estocadas o único registro era de concentração por minha parte, mesmo que Akira ainda se movesse com cautela.
Havia zelo carregado com carinho desde a forma como me tocava até em como se movia. Aos poucos a dor se reduziu a uma queimação pouco incômoda, e quando os gemidos de Akira começaram a aquecer a superfície pele das minhas costas ao deslocar sua bochecha e apoiar a testa contra meu corpo, já era possível desejar me movimentar contra o seu corpo também.
Era bom; até mesmo a sensação de queimação a certo ponto pareceu um complemento daquela sensação prazerosa ao se sentir preenchido. Era quente; a temperatura dos dois corpos se misturavam, apenas o movimento era o que dava consciência de onde terminavam os limites do meu corpo e onde dele se impunha. E acima de tudo, era viciante; não do tipo que te deixa louco, mas de uma forma que faz não querer parar.
Tinha ainda o gosto do corpo dele despertado por uma boca seca. Tinha o cheiro da mistura de aromas de cada um de nós dois. Tinha som de gemidos, de ofegos e corpos se buscando com anseio. Tinha o toque corpo a corpo sentido simultaneamente dentro e fora do meu corpo. Tinha, mesmo na escuridão, a imagem clara e consciente de memórias do rosto dele que seus gemidos reascendiam.
E então sim, na união de todos os sentidos havia uma sensação eminente de loucura que pedia para aquilo não parasse ao mesmo tempo em que era sabido que o tanto a mais que me deixaria satisfeito era também na verdade, o fim. Mas em certa altura aquilo não mais importava.
Quanto mais era desejado, mais o corpo de Akira reagia o meu. E quanto mais nos desejávamos, mais nos consumíamos em movimentos que no começo eu não julgava ser capaz de aguentar contra a estrutura que demorou a aceitar a invasão forçada. Mas àquela altura nem mesmo a vergonha podia ser mais encontrada; ah sim, era, com certeza, um ato de loucura.
Era bom. Era bom sim. A forma como eu o sentia em mim despertava sentidos além dos conhecidos e trazia consciência de pontos do meu próprio corpo que eu desconhecia. Pontos bons de prazer intenso, que fazia com que fosse impossível ligar para o fato de que os meus gemidos já estavam se sobrepondo em muito aos dele; e os dele não eram poucos.
Outro patamar de sensações. Literalmente uma explosão de prazer e nada mais além de corpos suados, respirações dificultadas e uma leve dificuldade em raciocinar sobre onde exatamente meu corpo físico estava.
Eu havia acabado de descobrir que o prazer é algo que acontece em vários níveis. Em quase um ano de aprendizado. Havia o prazer em vê-lo, o prazer de ver o seu sorriso direcionado ao mim ao nos encontrarmos, havia o prazer singelo de uma conversa cujo companheirismo era nitidamente compartilhado. Havia também o prazer de estar ao seu lado ou andar por aí com seus dedos entrelaçados aos meus.
Mas havia também o prazer de sentir o coração cada vez mais acelerado. Isso acontecia de um jeito quase imperceptível em cada abraço demorado, dava uma prévia muito singela cada vez em que me sentia ser beijado e evoluía de forma muito densa para níveis mais altos quando descobríamos nossos corpos de diferentes formas até chegar ali. O nível mais alto e capaz de fazer com que corpo se tornasse altamente consciente sobre tudo que era possível sentir até explodir, no limite, para então não ser capaz de sentir mais nada, só a certeza de que me deliciava com cada ato de prazer que tinha com Akira, desde a felicidade em vê-lo até a letargia de um orgasmo.
– Isso foi – Reita cortou a frase dita com dificuldade para se mover sobre a cama – incrível. – concluiu tateando meu corpo até conseguir me puxar para dentro do aconchego dos seus braços.
Acho que estávamos agora lado a lado na posição normal do lado que eu costumava usar para dormir da cama. Mas fiquei apenas achando, porque não estava ainda capaz de racionar muito bem sobre coisas como a relação do meu corpo no espaço. Na verdade, eu ainda nem sentia muito bem todas as partes do meu corpo.
– É. – concordei, talvez alguns segundos mais lento do que o normal.
– O que foi?
– Hum?
– Você parece meio...sei lá.
– Ainda não sinto meu corpo direito. Toda região do meu quadril e das coxas estão formigando. É gostoso, dá vontade de só fechar os olhos e mergulhar nesta sensação.
O corpo ainda quente pedia de forma inegável por algum descanso, o sono que me acometeu foi tanto que eu temi ser mal interpretado. Quer dizer, sono me remete à tédio e a experiência não tinha sido nada entediante.
Na verdade tinha sido muito interessante e terminado com um monte de informações para pensar, refletir e memorizar. Mas o peso de minhas pálpebras não estava colaborando com o desejo de atividade do meu cérebro. Olhei para o lado, mas o escuro no quarto não me permitiu ver qual era a situação de Akira, mas tenho certeza que o ouvi rir.
Achei então que seria melhor me rolar mais para perto dele na cama, e não me surpreendi quando o braço cego dele apenas se moveu para concluir meu movimento, puxando-me de costas para a frente de seu corpo. E acomodado entre seus braços permiti-me fechar os olhos, estranhamente, no que me pareceu ser apenas um minuto depois me senti incapaz de permanecer desperto com olhos fechados.
E como uma magia de efeito ruim, havia luz solar entrando pelas frestas da janela. Demorei até conseguir raciocinar que era noite quando Akira e eu adormecemos e se havia sol agora era porque o dia já tinha nascido.
Só me lembrava de ter fechado os olhos. Não parecia de jeito nenhum que tinha dormido por uma noite inteira, era como se não tivesse descansado. Precisava pegar algum telefone para checar a hora, aquilo certamente estaria errado, mas os dois aparelhos estavam longe demais e me mover parecia errado com a mão de Akira tão bem acomodada contra minha cintura.
Meu corpo pedia para que eu fingisse que não tinha acordado e voltasse a dormir, e faria isto com louvor se não fosse a claridade chata. Gostava de dormir no escuro total. Talvez se virasse de frente para Akira isso ficaria melhor, poderia esconder o rosto no peito do maior e nem ligaria de como isto soaria depois.
Com certeza eu precisava dormir um pouco mais. Estava errado, sentia como se tivesse passado a noite em claro e não dormindo confortavelmente aninhado nos braços de Akira. A voz de Emi se fazia ouvida em algum lugar muito distante, era difícil entender o que ela dizia; com certeza conversava com os cachorros, aquele timbre de voz era a "voz de se falar com cachorro".
Apertei mais o cenho já franzido pelo excesso de claridade dentro do quarto. Claridade e barulho não eram a combinação que eu procurava naquele momento, mas era bom saber que minha mãe já estava em casa. Mas raciocinar que Emi já estava em casa funcionou simplesmente como um estilingue dentro da minha cabeça, era quinta-feira, não era feriado e o sol estava muito alto para o horário que costumava acordar para ir para a escola.
Uruha e Emi não tinham me acordado. Alguma coisa estava muito errada. Precisava levantar, mas meu corpo simplesmente não queria. As costas estavam pesadas e o pescoço dolorido.
Um suspiro mais pesado terminou com o calor do hálito de Akira contra minha nuca. O barulho matinal e o sol certamente tinham o acordado também. Um bocejo desgostoso e o garoto às minhas costas claramente tentava se espreguiçar, e entre alguns "crecks" de suas articulações, seu corpo se moveu contra o meu e sua pele roçou contra a minha.
Era um movimento natural e inocente, mas capaz de ativar todas as luzes na minha cabeça. No movimento sutil de Akira eu senti seu corpo nu lembrando-me que me encontrava em igual estado e motivo disto. Todas as coisas que tínhamos feito na noite anterior martelaram minha memória em um só açoite.
E somente então a voz de Emi falando com os cachorros lá fora se transformou de incômodo à pavor. Eu me lembrava claramente de fechar a porta do quarto na noite anterior, havia sido um movimento por reflexo ao pensar que ficaríamos sozinhos de noite em uma casa sem absolutamente nada de luz; um jeito bobo de se sentir mais seguro. Se não fosse por isto, Emi já teria entrado ali...
... o que também não significava que eu não iria ouvir alguma coisa, pois ela detestava portas trancadas dentro de casa.
– Droga – reclamei em um resmungo baixo.
Eu não achava de verdade que minha mãe fosse surtar ou algo parecido, pois tínhamos todos acompanhado o drama entre Kai e Miyavi e ela tinha levado tudo numa boa. Mas ainda havia o fato de que Kai não era eu, ou seja, filho dela. Tentei imediatamente me imaginar chegando em casa um dia e encontrar minha mãe esparramada na cama com um cara e, ok, este papo com Emi não ia ser dos mais fáceis.
Foi o que pensei. Naquele momento pelo menos, pois toda essa informação se refrescado na minha cabeça concluiu o trabalho de me acordar, e por mais que eu quisesse, ficar na cama não era mais uma opção. Era melhor sair logo e encarar Emi do que prolongar isso e ainda ter que ouvir piada do Uruha pelo tempo que fiquei trancado no quarto.
Aí todo aquele meu pensamento envolvendo minha mãe mudou exatamente no momento seguinte. Bastou sentar na cama, ou tentar.
– Au! – reclamei voltando a me jogar contra o colchão.
Doía. Doía pra cacete.
Era literalmente a dor do cacete, e mesmo que previsse os movimentos de Akira por sentir ele se mexer na cama, a ação seguinte foi impensadamente a coisa mais sábia que eu conseguia ligar na minha cabeça como "solução para aquela dor excruciante":
– Mãããe! – gritei alto o suficiente para os vizinhos ouvirem também.
– O que foi, Ruki? – Reita perguntou assustado, seus olhos estavam arregalados ao limite e suas mãos cercavam meus ombros em suporte.
– Taka? – Emi apareceu dentro do quarto nem meio segundo depois; eu nem quis saber na hora como é que ela tinha passado pela porta que eu mesmo tinha trancado.
– Isso doi! – reclamei, como se eu estar sentindo dor fosse culpa dela quando vi o rosto de Emi me encarando.
Ela olhou para mim e por dois segundos eu tive certeza que ela ia cair na risada, mas então mudou o semblante e olhou para Akira com o mesmo olhar mortal que eu erroneamente tinha dirigido à ela. Só aí a minha ficha realmente caiu, eu estava pelado na cama com Akira igualmente nu e reclamando da dor, obviamente causada pelo motivo de estarmos ambos pelados.
Lindo Takanori. Absolutamente maduro da sua parte. Eu não sabia se estava com mais vergonha dela ou de Akira. Sem falar naquele pavor do sermão que voltou a martelar minha cabeça, eu devo ter ficado mais vermelho do que um pimentão; Ah não espera, Akira estava ainda mais vermelho do que alguém supostamente conseguiria ficar.
– Akira levanta essa bunda magricela daí e vai buscar a caixa de primeiros socorros. – Emi ditou com autoridade.
Realmente mais parecia que ela tinha acabado de pegar o Koron no flagra cavando no seu canteiro de flores preferidas, bem como Reita estava com a cara mais acuada do que o pequeno chihuahua com o rabo entre as pernas. Até olhando para minha mãe de baixo como um cão acuado ele estava. Ainda assim. Nada disso o impediu de ficar olhando para todos os lados em busca de alguma resposta para como sair da cama sem se expor e/ou explicar para Emi porque não conseguia sair dali.
– E..eu, bom é... eu não... eu?
– E o culpado disto aqui é quem, hem? – Gritou mais exageradamente do que realmente precisava.
Ali eu percebi duas coisas. Uma delas era que eu realmente conhecia minha mãe tão bem quanto um dos meus amigos bobocas, e a outra coisa era que Reita ainda não tinha conhecimento que a criatura na frente dele era alguém tão boboca quanto qualquer um dos nossos amigos bobocas.
Eu deveria ser um bom namorado e tentar ajudá-lo entender que só deveria ficar quieto, mas aí me lembrei de mim mesmo com a avó dele no meu pé e só fiquei bem quieto na cama. Metade da minha inércia era por este motivo, vinte por cento do meu silêncio era porque doía mesmo e os outros trinta era porque a cara dele estava impagável.
– Mas... mas como é que eu vou sair daqui? – o garoto perguntou encurralado.
– Com as pernas Suzuki! Acha mesmo que eu to mais preocupada com a tua bunda branca andando por aí do que com o que você fez com o meu filho? – pontuou com uma dose extra de ira no olhar que dirigiu a ele.
Meio segundo depois Reita já tinha chegado na metade do quarto com um salto só. Deu pena de ver a cara de apavorado dele? Deu, mas se nosso relacionamento durasse mesmo o tanto de tempo que ele dizia que iria durar, Reita ia ter que aprender a lidar com a dose de sadismo matinal da minha mãe.
De qualquer forma, era mais complexo não rir dele correndo pelado dali e todas as lamentações que Emi fez questão de discorrer mais alto que realmente necessário sobre a tal bunda branca andando por aí. Totalmente ao contrário do que tinha dito sobre não estar preocupada sobre isto.
– Você é cruel quando quer. – disse assim que Reita sumiu do quarto e Emi finalmente caiu na risada.
– Você chamou a mamãe porque está com dor no traseiro por ter feito sexo. Nada que eu possa fazer com seu namorado depois disto vai ser mais vergonhoso. Curioso, o dia depois da primeira vez de um casal costuma ser regado de romantismo e café na cama entre outros favores, sei lá, essas coisas.
– Isto não foi planejado! – me defendi – Hoje é dia de aula e obviamente já passou da hora de sair de casa, eu não vejo onde romantismo se encaixa isto.
– Ah há um fundo poético em perder a hora por motivos assim, uma vez ou duas no ano. Mas você está salvo "garoto que perdeu a hora da escola" o blackout foi geral, a cidade toda ainda está sem luz; não tem escola Ruki.
– Ah é, a queda de luz! – disse me lembrando de todas as coisas que tinham acontecido no dia anterior na ordem exata e com todos os detalhes e... – Hei, eu tinha passado a chave na porta ontem por causa da escuridão, como foi que você entrou?
– Com a chave reserva, obviamente. No momento em que cheguei aqui, assim que o temporal acabou. Eu já disse que nesta casa não trancamos as portas, Takanori, foda-se o que estiver fazendo com Akira aqui dentro. Aliás, cinco coisas – disse assumindo um tom mais sério mostrando dois dedos em riste em sua mão direita – Você e Akira estavam dormindo descobertos, poderiam ter ficado doentes; Se está maduro o suficiente para fazer sexo com o seu namorado, seja maduro para lidar com a dor como um adulto; Está evidente aqui que ninguém lembrou da existência das porcarias dos preservativos. Não vou implicar com você por fazer sexo, pois é algo absolutamente normal, mas irão fazer isto do jeito certo; Uruha subiu aqui como de costume para te acordar, desculpe, estava ao telefone com a diretora da escola quando ele subiu; E por fim, vai lá tomar um banho bem quentinho que metade da dor passa.
– E os remédios que mandou Akira buscar? – perguntei e Emi fez uma cara de riso novamente, mas não chegou a cair na risada.
– Vai logo pro banho, Takanori. – concluiu se abaixando para me ajudar a levantar da cama.
Algo que fiz com muito esforço, mas como um adulto digno. Pelo menos ela fez o imenso favor de deixar a toalha e algumas roupas ao meu alcance dentro da banheiro. E de quebra ainda saí a tempo de ver Emi ainda implicando com Reita.
Eu sabia que não era uma implicância verdadeira, ela apenas não se continha em perder a oportunidade de ser sacana. E ser a sogra que acabou de descobrir que seu único e precioso filho fora corrompido –segundo as palavras dela mesma- dava a ela todo o armamento que precisava. Resumidamente, Akira virou o serviçal de Emi enquanto, supostamente, cuidava de mim, claro que este cuidado incluiu persuadir Reita a fazer um café da manhã reforçado para nós dois; nós dois no caso era Emi e eu.
– É bom que não esteja pensando em meios de se livrar da minha ira Reit... Reita? – ouvi sem atenção enquanto Emi se referiu ao fato de Akira estar ligando o telefone celular cuja bateria havia terminado durante a noite e estava carregando desde a hora que descemos, mas foi impossível não seguir o olhar dela para o rosto verdadeiramente assustado dele.
– Eu preciso... a mãe do Aoi... Desculpe, Ruki, eu preciso ir. – completou sem esclarecer coisa alguma.
– Reita? – questionei o que havia deixado Akira com aquela expressão de preocupação.
– Eu acho que... Não dá pra explicar agora, Ruki, mas eu preciso ir e ficar com Yuu. – misturou todas as palavras que no final pouco faziam sentido para mim.
– Tem algum coisa errada? Eu posso ir com você. – me ofereci.
Eu não era o fã número um do Aoi, mas ele já tinha virado parte daquela família não é. Tipo um cunhado chato ou o caso perdido de que um dos seus irmãos não conseguia sair.
– Ele não vai deixar ninguém entrar lá agora, mas eu preciso ir.
– Vai logo Akira. – Emi invadiu o diálogo com um timbre que nada tinha a ver com as brincadeiras que ela vinha fazendo até ali. – Por favor nos mantenha informados, mesmo que Yuu diga que não quer a presença de ninguém na despedida. – concluiu de forma calma como se estivesse entendendo muito mais do que eu sobre o que estava acontecendo ali.
– Mãe? – virei em sua direção assim que Reita saiu apressado, deixando para trás apenas o barulho alto da porta sendo batida.
– Deixe eu ligar para o Joe primeiro, Aoi deve ter entrado em contato com ele depois que eu saí de lá.
– Por que você parece saber muito mais do que aparenta e ainda assim está com uma cara tão ruim quanto a do Reita? – questionei, mas aparentemente Joe tinha atendido ao telefone e ela saiu para falar com ele em privacidade.
Deveria segui-la, mas aquela confusão tinha me deixado irritado. Odiava não saber das coisas quando todo mundo ao meu redor parecia estar sabendo muito bem de tudo. Meio minuto depois estava pulando o muro da casa de Uruha para entrar direto em seu quarto sem precisar passar pela mãe dele ao bater à porta.
– Você precisa ir comigo lá pra casa agora. – disse antes que ele soltasse qualquer piadinha sobre ter ido lá em casa e eu estar dormindo com Reita na minha cama, do jeito que o sorriso debochado dele estava sugerindo que iria fazer.
Disse. Dei meia volta. E saí esperando estar sendo seguido. Não olhei para trás para ter certeza, mas não fui eu quem fechou a porta da minha casa depois que eu voltei para dentro da mesma.
E antes que ele pudesse perguntar ou eu pudesse explicar qualquer coisa Emi voltou apertando o celular entre os dedos, pronta para explicar o que ninguém de verdade estava pronto para ouvir. A mãe de Aoi havia morrido durante a noite anterior. Aquilo gerou ainda mais dúvidas em minha cabeça, mas Uruha não pareceu ter a mesma reação.
Ele quis seguir Akira, mas Emi não permitiu. Segundo Joe, Aoi havia demorado até mesmo para querer a presença dele e de Reita consigo, e naquele momento, ainda não queria a presença de mais ninguém. Sem escolha, subimos para o meu quarto.
Kai e Miyavi logo se juntaram à nós e a comoção foi dividida. Uruha foi quem contou todas as coisas que ninguém mais ali sabia, mas que tinham sido divididas consigo naquela noite mesmo. Foi um dia de silêncio compartilhado, um dia de surpresas introspectivas e pensamentos que não eram compartilhados. Mandei uma mensagem para Akira, mas demorei até ter alguma resposta.
Não precisei da mesma coragem arranjada para conversar com Aoi pela primeira vez para desejar voltar à casa do moreno no dia seguinte apenas para rever a mulher de sorriso doce que guardava de minha infância. Mas não o fiz, e tampouco fui capaz de vencer o tempo para rever a delicada mãe de Yuu que morava em minhas lembranças infantis. E de uma forma muito estranha, isto me causou alguma culpa.
Aoi se manteve recluso em um luto solitário enquanto o corpo da mãe era preparado, e por este motivo a entrada de ninguém além de Reita e Joe estava sendo permitida na casa. Mesmo sendo alertado disto, Uruha escapuliu em algum momento ao entardecer e tentou se aproximar. Nem mesmo os empregados foram permitidos ficar ali, apenas a velha governanta que fora trazida do Japão junto com a família Shiroyama, que foi quem pediu para Uruha ir embora quando o mesmo bateu à porta.
Mesmo assim todos fomos o apoiar no momento em que ele nos permitiu. O velório da senhora Shiroyama foi breve e muito mais triste do que a da avó de Miyavi. Ela era muito mais jovem e deixava para trás um menino triste de olhos secos.
Reita havia dito que Aoi já havia chorado todas as suas lágrimas ao longo dos anos. Yuu entendia que para sua mãe aquele era o descanso e, após o desespero na hora da morte, ele já estava mais calmo e não choraria por vê-la finalmente seguindo para um plano melhor.
Eu, Kai e Uruha choramos como se estivéssemos dando adeus para a pessoa que mais amávamos no mundo. Ainda por duas ou três vezes depois disto me vi chorando por ser invadido por uma ausência inexplicável ao imaginar um futuro em que Emi não estaria mais rindo e sendo a autoridade marcante dos meus dias. Simplesmente porque era impossível não se colocar no lugar do amigo e ver no caixão aberto o rosto pálido de minha própria mãe, ou simplesmente imaginar um dia normal com a ausência dela.
E por mais que a sinergia de uma família pairasse sobre todos, foi depois da despedida da mãe de Aoi que aquele grupo deixou definitivamente de ser um grupo de pessoas ligadas entre si por ter vínculos com pessoas próximas. Foi exatamente ali que o conceito de família se consolidou como uma ligação única entre nós; entre todos nós.
Dava até um certo medo. O dia que começou com zero expectativas havia se tornado uma data emocionalmente marcada de alguma forma para todos nós. Levaria dali em uma mão o último laço que entrelaçaria a vida de Akira a minha, e na outra um laço eterno para cada pessoa que moldava um pequeno pedaço daquilo que era uma família.
