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Reita

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Risadas baixas e murmurinhos vinham da cozinha de nossa casa, o carro de Takanori estava na entrada então eu sabia que Kai e ele já tinham chegado até ali. Eu devia seguir diretamente para cozinha receber o de covinhas com um longo abraços e perguntas cheias de curiosidades genuínas sobre sua vida tão longe de nós, mas sons estranhos vinham do quarto lá em cima. Do meu quarto. Eu não sabia bem como interpretá-los, eram uma mistura de gemidos com urros e xingamentos.

Se eu fosse um cara um pouco mais ciumento ou menos confiante sobre a fidelidade de Ruki poderia dizer que talvez estivesse prestes a pegar meu namorado pulando a cerca em nossa própria cama. É, Ruki com o tempo não apenas tinha perdido a vergonha da parte física do nosso relacionamento, como também geme, urra e xinga durante o sexo, mas isto não vem ao caso. O caso era que chegar em casa e ouvir isto vindo da direção do nosso quarto era no mínimo estranho.

Ruki nem tinha ligado pra avisar que já tinha voltado da fazenda com Kai. Um coro de risadas distantes denunciava a presença de Kai e Kouyou na cozinha, então o que Ruki estaria fazendo no quarto gemendo, urrando, zurrando e xingando de um jeito quase sexy demais para ele estar fazendo isto sem mim?

Era uma boa pergunta. E boas perguntas mereciam boas respostas, então era melhor aquele chibi ter uma. Principalmente porque ao me aproximar do quarto no segundo andar era possível ouvir o som abafado de algo que parecia ser saltos raivosos entre um gemido e um urro.

Eu havia criado aquele cara que aparecia apenas em nossos momentos íntimos. Como uma versão sexy e selvagem em tamanho pocket de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, o Ruki tímido e introspectivo que quase limitava a demonstração de nossa intimidade em público em apenas andar de mãos dadas, e o Ruki que era apenas meu; meu Taka que havia se tornado um ser humano despudorado e cheio de malícia, desbocado e selvagem de um jeito em que fomos moldando um ao outro.

Quase vinte anos de "molde"; apenas os primeiros vinte. Quem é que está contando afinal? O que importava era que jamais em todo aquele tempo eu havia visto meu pequeno exposto sem mim.

A verdade era que não importava o que Ruki estava fazendo. Ouvir sua voz gemendo com aquela agressividade seria o bastante para chamar minha atenção imediatamente no momento em que entrei em casa e o simples fato dele estar fazendo isto por qualquer outro motivo que não eu, se mostrou suficiente para me deixar irritado.

Pelo menos até abrir a porta do quarto e ser fuzilado pelos olhos raivosos do pequeno, com suas sobrancelhas perigosamente aproximadas e várias mechas coladas na tez suada e avermelhada de raiva. Seus dedos estavam agarrados ao cós de uma calça jeans com tanto afinco que seus indicadores estavam enroscados pelos frágeis passadores para cintos.

A ira se tornou em vontade de rir, mas eu sabia que se risse daquilo seria morto sem piedade logo em seguida. Ruki parecia não aceitar a dura realidade de que aquela calça não iria passar por suas coxas e a julgar por sua aparência, estava naquela batalha severa já havia tempo.

– Vai ficar olhando ou vai me ajudar Akira? – reclamou voltando a tentar passar a calça por seu corpo; aquela calça dourada.

O menor puxava o tecido, gemia ao perceber que o mesmo não subia, então urrava irritado e nem percebia estar pulando e jogando seu corpo para frente enquanto xingava o jeans como se isto fosse o ajudar a entrar em uma calça de vinte anos atrás. Ela não iria passar por suas coxas, mas eu preciso admitir que o estímulo visual que acompanhava aquela mistura de sons era bastante quente; suas coxas já estavam inchadas e avermelhadas devido ao esforço.

– Eu te ajudo. Amor me diga uma coisa, esta por acaso é a mesma calça de quando tínhamos dezesseis anos de idade? – Perguntei caminhando até ficar às costas do pequeno.

– Eu sabia que você não se esqueceria dela. – disse em um misto orgulhoso de humor e malícia.

– Impossível esquecer disto, mas – hesitei, podia estar prestes a me ferrar de forma grave – amor, ela é de quando ainda éramos adolescentes do ensino médio, não vai mais vestir em você.

– Está me chamando de gordo Akira? – Ruki olhou para trás, direcionando mais uma vez seus olhos raivosos em minha direção.

A diferença era que agora a raiva era direcionada a mim e não aquela peça diminuta de roupa. Ainda assim sorri, não havia versão alguma daquele ser que eu não amasse; raiva era só... Ruki com pimenta.

– De forma alguma. Mas é fato que nosso corpo muda em vinte anos.

– Então está me chamando de velho?

– Registros de nascimentos provam que sou um ano mais velho que você. – ri.

– Quando você me disse que estava com Aoi na árvore velha o peso da realidade caiu em cheio sobre mim, vinte anos se passaram. Vinte anos Akira! Mas a verdade é que eu só consegui ficar pensando que o aniversário de morte da mãe do Aoi é também...

– ...A mesma data em que nós dois transamos pela primeira vez? – concluí por ele – E você planejou resgatar a calça dourada por isto?

– É idiota, eu sei. Você tirava tanto com a minha cara por causa dela, eu só queria ver se conseguia seduzir você de verdade com ela. – disse por fim.

– Ah pequeno, com certeza você conseguiu. – disse olhando para a cena no geral.

– Ee? – ele me olhou confuso.

– Sabe, ela realmente transformava sua bunda em um alvo. Era tão difícil de tirar o olho quanto era de olhar sem ter que improvisar manobras para esconder alguma ereção. – ri tendo uma boa dose de nostalgia.

– Você era um bom garoto. – ironizou. – Só tirava com a minha cara.

– Eu sou um bom garoto! Naquele tempo eu era apenas um bom garoto com calo na mão. – ele riu – e com uma imaginação bem fértil, sabe?

Ouvi ele usar algum resmungo em questionamento, mas permaneceu imóvel em minha frente. Por isso foi fácil erguer um pouco a blusa que ele vestia, a malha era justa ao corpo e ficou sem dificuldades recolhida na altura de sua cintura expondo mais seu corpo e deixando a cena de suas coxas inchadas e praticamente amarradas pelo jeans pequeno ainda mais erótica aos meus olhos.

– Mas por mais obscena que a sua bunda ficasse nesta calça naquela época, só na minha imaginação fértil ela ficava tão erótica quanto está agora. – concluí aliciando os contornos arredondados de uma de suas nádegas, tocando sua pele com cada centímetro da palma da mão e cada um dedos esticados que deslizaram com facilidade sobre sua boxer.

– Ano Reita, ainda existe fantasias adolescentes na sua cabeça que não realizamos nestes vinte anos?

– Algumas fantasias a gente só descobre que tem quando começa a realizar. – respondi colocando minhas mãos nos mesmos passadores em que seus dedos estavam enroscados antes – Me diz, consegue andar com essa calça do jeito que está?

– Não. – admitiu resignado, aquilo era óbvio ao ver como o tecido não tinha mais como ceder às coxas roliças, inchadas como estavam pelo esforço, nem descer elas desceriam.

– Ótimo. – concluí puxando a calça da forma como ele estava fazendo quando cheguei ali.

Era como se quisesse ajudá-lo a vestir aquilo, mas dá mesma forma como antes, quando o tecido não tinha mais como subir, o que recebeu toda a força do movimento foi o corpo do mais baixo. Mas ao invés de seu corpo dar um salto para frente, como foi eu quem puxou o tecido, seu corpo deu um salto para trás. Seu corpo se chocou com o meu de forma instável, para logo em seguida perder o equilíbrio e pender finalmente para frente.

A queda seria inevitável, mas tínhamos a cama em nossa frente. Por instinto o braço de Takanori se colocou a frente a fim de evitar a mesma, o que só resultou em deixar seu corpo inclinado e o quadril em evidência. Eu apenas deixei que meu corpo acompanhasse os movimentos dos dele.

– Nós temos convidados lá embaixo. – lembrou, mas apenas afirmou melhor seu braço contra o colchão tentando a encontrar o ponto de equilíbrio entre o chão e seus pés e seu quadril e o meu.

– Então teremos que ser rápidos? – me fiz de desentendido alcançando com facilidade sua orelha e antes de alguma resposta verbal, sua boxer já estava indo se acumular ali naquele ponto em que a calça dele parou de subir.

– Akira... – o alerta era de protesto, mas o tom era de um gemido provocador.

– Não vai ser diferente de todas as vezes em que transamos no apartamento com minha mãe e avó na sala, ou na casa de shows com todo mundo lá dentro. Também teve aquela vez que transamos no estoque da loja porque o Joe estava mostrando a loja para um possível comprador. – tentei lembrá-lo que o tempo de um Ruki tímido e inexperiente já tinha passado há muito tempo, mesmo que não houvesse nenhum protesto enquanto subia ainda mais a blusa para conseguir expor todo seu tronco.

– Eu não podia deixar Joe vender aquilo e perder a chance de fazer sexo com você lá dentro. Era um lugar de... hum... importância altamente relevante no desenvolvimento do nosso relacionamento. – prosseguiu, entre gemidos ao ter um de seus mamilos estimulados.

– Esta calça também é de importância altamente relevante no desenvolvimento do nosso relacionamento. – lembrei, guiando a mão ainda livre novamente para seu bumbum, esfregando– a ali com liberdade.

– Ela faz você ter fantasias comigo amarrado pelas pernas Akira? – Ah sim, aquele era o tom do Taka que só eu tive, tinha e teria para o resto da vida, o tom que ele descobriu cedo que me excitava e nunca deixou de usar.

Aquela era a minha permissão.

– Com certeza tenho sentimentos fortes por esta calça.

– Você sente vontade de foder com força enquanto não consigo me mexer e nem sair dessa posição, quando me vê assim?

– Ah chibi... você está assinando sua sentença.

– Você é um bom garoto – zombou – Me questiono se vai dar conta de tudo o que está prometendo...

– De conta você de gemer baixo para os convidados não ouvirem. – retruquei grudando as unhas nas lateral de seu quadril enquanto inclinava mais seu corpo sobre o colchão.

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Myv

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Desde o dia em que Emi me tirou de dentro da casa da minha avó e me levou para dentro da sua própria, e o reencontro com Ruki tinha trazido de brinde, mais cinco criaturas que se tornaram seres indispensáveis na minha vida, esta era a primeira vez que eu sentia vontade de não estar perto deles. Não que não estivesse morrendo de saudade de todo mundo, mas não sabia lidar direito com o que estava por vir; as perguntas que iriam surgir, as respostas que não estava a fim de dar.

Se não fosse pela persistência birrenta de Ruki, teria ficado em um hotel em uma das cidades em que meu voo fazia ponte e mentiria sobre alguma tempestade relâmpago que cancelaria todos os voos, inclusive o meu. Na verdade ainda cogitava isto quando desci no aeroporto para a troca de aeronaves, mas um telefonema muito sensitivo de minha mãe me convenceu a não fugir.

Devia ser um "feeling" desenvolvido pelos anos que ela morou em um continente e eu em outro. A distância não afetava o sensibilidade dela e nem diminuía o fato de que sempre seria ela a pessoa que melhor sabia lidar com minha personalidade, fazia isso tão bem que às vezes ela estava até mesmo mais a par do que acontecia na minha cabeça do que eu mesmo.

E então, ali estava eu...

Por algum motivo eu não sentia vontade de entrar na casa que hoje era de Emi, Ruki e Reita. Aquele costumava ser um refúgio, um forte onde nada de mal poderia nos atingir; só não era mais lar para mim do que o lugar onde minha mãe estivesse.

A casa em si estava praticamente igual desde a última vez que estive aqui, uns oito meses atrás. Flores novas talvez, mas a mesma energia de lar regado por amor, cumplicidade e felicidade; aquela casa em um conto seria representada com um lindo dia como plano de fundo, rodeada por borboletas, arco– íris, e fumaça ondulando pela saída da chaminé.

Eu é que não estava no clima. Eu tinha orgulho em fazer parte daquela família e dar o melhor de mim nas responsabilidades que assumi na empresa. Mas hoje estar aqui não será a mesma coisa, não dava para simplesmente ignorar este fato. E por algum motivo, simplesmente não entrar e inventar uma desculpa parecia mais plausível.

– Algo errado? – a voz grave de Aoi se fez ouvir ao meu lado.

– Emi plantou flores novas. – desconversei – Tudo bem com você Aoi? – perguntei o cumprimentando com um aperto de mão cercado por um meio abraço que foi rapidamente retribuído.

– Ótimo. Parabéns pelo nascimento do bebê. – seu sorriso me encontrou de forma gentil.

– Ah obrigada, ela é realmente adorável. – respondi apenas, era de fato ainda a única coisa que podia dizer daquele pequeno ser.

Era estranho. Claro que eu queria sentir amor por aquele pequeno ser, e acreditava que em algum momento realmente iria. Mas neste momento ainda havia um peso um pouco difícil de carregar. Não era tristeza, assim como não era felicidade. Era uma nova realidade na qual eu tinha sido jogado rápido demais para saber quem era, onde estava e para onde iria...

... Com quem iria?

– Deve ser incrível, não é? Ter uma "mini você" nos seus braços. – ainda era estranho ver meus amigos com aquele entusiasmo enquanto eu não conseguia me sentir daquela forma, especialmente Aoi.

– Mudou de ideia sobre se apaixonar por alguém, fazer casa, família e passar o resto da vida com ela? – zombei automaticamente, Aoi era sempre um alvo neste assunto, todos nós sabíamos que o moreno se quer via uma família ou filhos como uma opção.

– Você se apaixonou pela mãe da sua filha e vai passar o resto da vida ao lado dela? – me perguntou com tranquilidade, touché.

Isso aí, fala o que quer e... ouve o que quer. Aoi tinha suas peculiaridades, mas de todos, ele seria a pessoa que não teria zelo ou delicadeza comigo pela situação. Algo com que se podia sempre contar era com o excesso de franqueza de Yuu, isto era reconfortante. Eu queria que pelo menos uma pessoas olhasse para mim e dissesse que eu era culpado de um gesto horrível. Uma parte de mim simplesmente precisava ouvir que o que eu tinha feito era errado e tudo mais.

– Passei boa parte da minha vida querendo saber como era meu pai, quem ele era e todas estas coisas que eu sei que ela vai sofrer um dia imaginando também com relação à mãe. Vou ser um pai tão ausente quanto minha mãe foi, Luv vai ser criada pela avó como um dia eu fui. Tsc, com certeza duas coisas que eu com certeza não desejaria fazer um filho passar.

– Sua mãe não te abandonou Myv. Ela precisou abrir mão de estar fisicamente com você, mas todos sabemos como vocês são ligados e se amam. Vai ser a mesma coisa com Airi. Sem falar que ela vai compensar isso mimando e criando a neta dela como desejou poder fazer com você. Não se cobre tanto. E também, Airi vai ter tios ao redor dela. Ruki fez um quarto de brincar no sótão – disse apontando para a casa à frente de nós – e Uruha já comprou mais de vinte roupinhas estilosas para a bebê.

– Não me interprete mal, mas se eu pudesse voltar no tempo e não ter transado com aquela garota. Tirando o namoro do tempo de escola com Kai, eu nunca tinha feito sexo sem preservativo com ninguém, eu sempre preferi parar a correr algum risco.

– Não se culpe. Sempre vai haver uma garota que sabe como fazer você não conseguir dizer não. – Aoi disse sorrindo.

– Devo ter transado com só umas quatro ou cinco garotas minha vida inteira.

– Agora eu fiquei curioso! Esta mulher deve ser espetacular para tirar do sério o cara que transou com no máximo cinco mulheres na vida. – disse de forma descontraída, mas não a ponto de ser considerada uma brincadeira.

Aoi pareceu genuinamente interessado no assunto, então não me preocupei em tirar o telefone do bolso e buscar em uma rede social a o perfil daquela mulher. Logo na foto mais recente da "timeline" estava a resposta. Era uma foto antes dela me encontrar para dizer que estava grávida, talvez ali, nem mesmo ela soubesse que por trás da pele lisa da barriga sutilmente à mostra no traje sexy de balada houvesse uma vida não planejada se formando. Havia três garotas na foto, a do meio abraçava as duas amigas por cima de seus ombros, a que era abraçada pelo braço esquerdo era a mãe de Airi e na foto ela sorria com a sinceridade e espontaneidade de quem realmente está feliz e entre amigos.

– Esta – apontei.

– Podia ter cinquenta garotas na foto e você não precisaria mostrar qual delas é a mãe de Airi. – zombou.

– Eu sou um idiota, não sou? – perguntei.

Eu queria que ele me culpasse pelo o que eu tinha feito. Era uma irresponsabilidade acima de qualquer outra coisa. Tão besta a ponto de colocar no mundo uma criança cuja concepção foi um acidente inconsequente e ainda dar a ela no nome de Airi, tornando cíclico o único ponto imperfeito da minha própria criação.

– Sim, fazer sexo ocasional sem proteção com uma desconhecida é uma idiotice tremenda. Mas com o meu histórico, não serei eu a te julgar. – sorriu.

– Yep, sempre bom se assegurar em ter um amigo que seja mais viciado em sexo do que você para situações como uma gravidez acidental. – brinquei.

– Vou decepcionar você, mas eu nunca fui um viciado em sexo.

– Aoi eu estive na mesma escola que você. – o lembrei.

– Está certo, estas quatro ou cinco mulheres com quem você fez sexo durante a vida, era o número de garotas com quem eu transava quando ia àquelas festas na época da escola, mas isto era mais autodestruição do que vício. Bom... eu não posso te dizer nada sobre como ser pai, meu pai tratou a paternidade como um serviço terceirizado. Mas como alguém que entende o peso de fazer algo e se arrepender depois, me sinto com propriedade para te dizer que se culpar por algo que você não pode mais mudar não vai adiantar nada. Assuma sua realidade e ponto. Remoer o erro só amplia a culpa e a culpa só vai te consumir e te impedir de ser o melhor que você ser.

– Como é que você consegue dar uns conselhos tão bons para os outros, mas não faz a mesma coisa com você mesmo? – perguntei.

– Eu faço. Sou um cara muito responsável e quase um cidadão exemplar. – e por três ou quatro segundos percebi seu semblante se fechar – Faço o que é preciso, mas graças à você, eu não vou ser o foco das conversas neste encontro anual. – concluiu assumindo a frente no breve caminho que nos separava da casa onde estavam Uruha, Reita, Ruki e Kai.

– Aoi, – chamei e esperei que ele olhasse para trás – ele está me odiando, não está? – mas apenas deu de ombros e continuou a andar.

– Não. Relacionamentos sempre terminam em decepção, o que acontece depois do fim não deve importar tanto assim.

– Nunca foi exatamente um fim. É confuso.

– Um fim, mesmo sem um ponto final não deveria ser nada mais do que um fim.

Foi o que ele disse. Mas na verdade, não me disse nada.

– Como você e Uruha? O desfecho sem fim de uma história sem começo?

– Estamos falando de relacionamentos amorosos. Uruha e eu somos a soma do que sobra de vocês, uma parceria conveniente.

– Ficam juntos quando o corpo precisa enquanto cada mente vive separadamente. Você sabe que eu fico no time das outras quatro pessoas que sabem que isto é impossível, não sabe?

– E aqui estou provando que é possível. – ele riu.

– Uma vez eu li em algum lugar que uma boa mentira pode ser base de um relacionamento perfeito.

– Isto não faz sentido. – disse rindo e já abrindo a porta da frente da casa para entrar.

– Kouyou vem provando que faz. – murmurei, mas aparentemente Aoi não ouviu.

– Ué, tão vazio e silencioso por aqui... – Aoi comentou assim que viu Uruha estendendo uma toalha sobre a mesa de jantar.

– Kai está na cozinha, e Reita e Ruki lá em cima. Myv... – O loiro, que não estava mais tão loiro quanto da última vez se adiantou em minha direção com um par grande e saudoso de sorriso mais abraço. – Onde está? – perguntou se afastando um pouco para me analisar, como se eu estivesse lhe escondendo algo – Quero pegá-la no colo e nunca mais soltar!

Quando ele concluiu pude entender do que falava. Claro que ninguém falaria de outra coisa, mas a felicidade de Kouyou com aquela novidade foi realmente surpreendente. O mais alto não era lá de mostrar muito sobre si mesmo. Ainda assim ali estava ele, demonstrando em gestos e com um sorriso que se estendia até seus olhos, que tinha fortes instintos fraternos. Mais do que eu mesmo neste momento, para ser sincero.

– Airi depende do peito da mãe pontualmente em horários bem regrados, Kou. E também ainda não deve sair de casa.

– Você deixou um bebê recém-nascido com uma mulher que nem queria que ela tivesse nascido? – Uruha me perguntou como se eu tivesse cometido algum crime.

– Uru. – advertiu Aoi.

– Uru – o interrompi – ela é uma mulher sem instintos maternos, não um monstro devorador de criancinhas. – ri – Ela não é uma pessoa má, não vai deixar um bebê passar fome. E minha mãe ficou lá para ajudar ela.

– Mas eu queria tanto...

– Logo ela irá morar aqui perto Uru, em casa com minha mãe.

– Tá. – o mais alto pareceu se conformar com o que não podia mudar.

– Era isso aqui que você queria que eu trouxesse? Foi o melhor que consegui a caminho daqui. Devia ter pedido antes de eu ter saído de casa. – Aoi logo mudou o foco da conversa, erguendo uma garrafa de vinho.

– Pode ser. Sendo alcoólico vai servir.

– Tá. Vou dar um jeito de abrir isto. – anunciou desaparecendo na direção da cozinha.

– Eu vou subir e dar um "oi" para Reita e Ruki. – disse.

– Eu não subiria lá se fosse você! – advertiu o loiro, e em um timing perfeito algum som suspeito demais soou lá de cima.

– Sério? Eles tem todos os dias para fazer sexo e precisam fazer isto com todos nós aqui embaixo?

– Pelo visto sim. E com a porta bem aberta. Nunca entendi porque Emi guarda as toalhas de mesa no fim do corredor do segundo andar, provavelmente para o casal do amor eterno poder mostrar para nós, reles seres humanos com sonhos maiores do que a dura realidade dos nossos dias, podermos ver como é ter um amor tão intenso que não dá nem pra se conter com a casa cheia de amigos.

– E o que eu faço? – perguntei, já que Kai devia ter assumido a cozinha, Uruha àquela altura já estava completando a mesa de jantar.

– Por que acha que pedi pro Aoi trazer vinho? Vamos beber. – deu de ombros – Eu estava com saudade de você, tem ficado cada vez mais tempo em cada viagem.

– Tsc... Não me leve a mal Kouyou, eu amo vocês. Só que aqui Ruki tem Reita e você tem Aoi, até minha mãe nunca esteve tão feliz por passar tanto tempo com Emi e Joe... sinceramente eu me senti cada vez mais deslocado aqui. Mas claro, isso não tem nada a ver com vocês, como disse, eu amo vocês... Mas... É algo que não posso evitar sentir.

– Eu te entendo. Mas não aprovo... Por puro egoísmo mesmo, sinto falta de alguém nos dias que não são bons e.. Reita e Ruki padecem em um paraíso tão lindo que dá pena de interromper.

– Eu sei que você me quer por perto só pra lembrar que a sua dor de cotovelo não é pior que a minha. Você é um sacana. – disse e ambos rimos.

– Não é?

– Não pode se esquecer que pelo mal ou pelo ruim, você com certeza consegue levar o Aoi pra cama mais que uma vez por ano e não precisa usar um evento que preza nossa amizade para isto. Não que eu pense que isto vai continuar acontecendo de agora em diante.

– Você e eu somos deprimentes, sabia. É bom mesmo você ficar longe, nós dois em um dia ruim afundaríamos um ao outro. – Uruha disse e logo riu de si mesmo.

– Isso vai mudar com Airi aqui, com certeza. Vou voltar a ficar pouco tempo fora de casa por causa dela.

– Ah e aí eu vou direcionar todo o meu amor não correspondido em mimo eterno ao bebê.

– Não assumido não é a mesma coisa que não correspondido, baby. Diferente de...

– Esses sons lá de cima não são estranhos? – Aoi voltou trazendo taças entre os dedos e a garrafa aberta de vinho nas mãos.

– Não. São sons bem conhecidos, se não reconhece deve ser porque não vem praticando muito. Vou encaminhar um especialista para você. – Zombou Uruha.

– Por que eu ainda não expulsei você da minha casa? – perguntou-lhe enquanto entregava para si uma das taças.

– Por que você é aquele garoto carente que precisa de companhia constante? – seguiu – Ou talvez seja por que eu me tornei um especialista... – riu.

– KAI, QUANTO TEMPO PRA TERMINAR O RAIO DESSA COMIDA? – o moreno gritou para a direção da cozinha parecendo mais incomodado com o comentário de Uruha do que o normal.

– Não me apressa, porra. Tenta fazer as coisas podendo usar um braço só. E o quarto do Ruki fica bem em cima da cozinha. E É BOM QUE ESSA FODA TERMINE DE UMA VEZ, PORQUE SE NÃO DESCEREM EM DEZ MINUTOS EU GARANTO QUE VAI SER A ÚLTIMA FODA DE VOCÊS NESTA VIDA! – Gritou na direção da escada. – Myv!

Ele cumprimentou e se adiantou em minha direção com o braço não engessado aberto para um abraço. Nada de olhares demorados, nem por interesse, nem por recriminação. Só um simpático, educado e diplomático "parabéns pela chegada do bebê" antes de se afastar novamente.

– Há quanto tempo eles estão nisso? – Aoi perguntou apontando para cima.

– Não muito. – Kai respondeu – na verdade os barulhos só começaram agora.

– Ah eu garanto que estavam nas preliminares quando fui buscar a toalha. – Uruha disse atraindo todos os olhares. – O que? A porta estava aberta. Vocês não tem noção do quanto eu aprendi sobre a personalidade do meu amigo hoje.

– Você ficou espiando o meu melhor amigo e o seu melhor amigo? – Yuu perguntou olhando feio para o liro.

– Voyeur – Kai acusou em risadas.

– Também aprendemos algo sobre a personalidade de um amigo hoje. – completei.

– Vocês ouviram quando eu disse que a porta estava aberta? Eu tinha que pegar o raio da toalha de qualquer forma. – deu de ombros.

– Eu vou lá pra fora beber depois desta. – disse Aoi saindo em direção ao jardim dos fundos.

– Ei, você querendo pagar de Santo perto de mim é que precisa de uma bebida pra descer, sabia? Eu já mencionei que era virgem antes de conhecer você e suas festinhas? Ah e aquela árvore bonita no fim da rua... – ele prosseguiu incomodando Aoi, mas a distância já não nos permita acompanhar suas acusações.

– Ele ainda importuna Aoi com aquela história? – perguntei.

– Só porque ele sabe que irrita o Aoi. Ruki comentou sobre esses dois estarem em um momento delicado da relação. – deu de ombros.

E por alguns segundos nós rimos daquilo juntos, mas então a graça passou e o silêncio tomou conta do local. Um silêncio bastante desconfortável.

– E o seu braço? – perguntei a fim de quebrar a situação que havia se criado.

– Uma égua prenha me deu um coice.

– Ossos do ofício. – sorri.

– É. Eu vou terminar a comida. – concluiu dando-me as costas.

– Eu vou ajudar você. – disse de imediato.

– Não precisa! – disse de pronto, mas só pude dar de ombros.

– Reita e Ruki não querem minha companhia, tampouco eu acho que Uruha me quer lá fora... – rimos olhando na direção da porta que ia para os fundos.

– Hoje é um daqueles dias que eles estão se dando bem um com o outro, não é. – zombou, de fato, aquele era um clima considerado bom entre Aoi e Uruha.

– Quem diria que esses dois se tornariam pessoas tão diferentes depois de adultos.

– Quem diria... – disse sem deixar de acompanhar as palavras com um suspiro, então entendi que tinha usado palavras não muito apropriadas.

– E você está fazendo a comida com um braço só. – concluí a fim de retomar o início daquele...

...Aquilo era um assunto? Em tantos anos de conversas embaraçosas e finais que não terminam, quando foi que ficamos sem assunto?

– Não tenho certeza se você dentro de uma cozinha não causará mais acidentes do que eu com um braço só. – ele riu.

– Que isso! Eu aprendi muito como me virar na cozinha morando sozinho, tá.

– Você vive em hotéis, Myv. – acusou.

– Releva, vai. Eu só quero fazer alguma coisa legal com você.

– Então tá. Mas eu não vou pegar leve só porque você só sabe colocar água quente no copinho de miojo.

– Hei, eu sei fazer bife, hambúrguer, churrasco... – disse com orgulho. – E eu to quase conseguindo fazer arroz.

– Ual, to impressionado mesmo. Eu acho que quase vinte anos levados para dominar a grelha já te torna apto à complexidade do arroz. – riu e eu percebi que se tudo continuasse daquela forma, eu poderia lidar com aquilo.

– Myv, só para que saiba. Eu entendo que fiz escolhas por todos estes anos que... tsc... você me ligou na noite em que descobriu que seria pai pedindo perdão à mim por isto, mas eu não culpo você por procurar por alguém que seja aquilo que nós não fomos. Escolhas, boas ou más, são escolhas e geram consequências. Isto é algo que nós dois temos que aceitar. Eu vou me sentir muito mal se você continuar medindo palavras para falar comigo como estava fazendo pouco tempo atrás.

– Você disse "escolhas boas ou más". Acho que esta é a primeira vez que você coloca a possibilidade de más escolhas na mesa. – disse.

– Eu terminei o namoro que eu tinha com um cara uma vez, mas quase vinte anos se passaram e as coisas com esse cara nunca conseguiram ser finalizadas de forma concreta, eu nunca consegui pedir para ele sair da minha cama. Eu busquei pessoas para preencher o espaço dele na minha vida e mesmo sem saber com certeza, eu esperava que ele estivesse fazendo o mesmo. É uma ideia utópica, mas quando a certeza de que o cara que você não consegue libertar cem por cento realmente também tem sua individualidade surge... bom, é confuso. Te faz pensar se você é ingênuo demais, burro demais ou até mesmo nada disso. – deu de ombros. – Tanto faz.

– Todas as escolhas que você fez, eu fiz junto com você. Por isto eu sei que é confuso. Fosse comprando uma desculpa sua ou inventando uma desculpa para você fingir comprar também, eu nunca liguei desde que não colocasse um fim. Não era bom, mas pelo manos não era o nada. Eu preferiria que você tivesse ficado bravo, que não quisesse nem olhar para a minha cara ao saber que eu tinha engravidado uma garota do que ter a certeza de que você realmente acredita que eu e você temos vidas separadas. – dei de ombros em gesto que imitou o dele – Se é para sermos totalmente sinceros.

– Escolhas, Miyavi. Escolhas. Não seja tão dramático.

– Se for uma escolha possível, eu gostaria de poder escolher continuar acreditando em cada história que nós dois sempre inventamos para que as coisas entre nós nunca consigam ser finalizadas. Bem no fundo eu sempre fui mais ingênuo mesmo, o bastante para ainda crer que um dia de tanto tentar, você desista e volte para mim de um jeito que aquele vazio deixado no passado seja preenchido novamente por nós mesmos.

– Ou talvez Airi tenha sido enviada para me fazer perceber que se não afastar você de vez de perto de mim, nunca haverá espaço para outra pessoa se aproximar o suficiente para que eu permita que seja a pessoa a colocar o passado no passado, que é o lugar dele. De certo modo, o tempo se encarregou de colocar o fim que nós não conseguimos dar. Coloque água para esquentar, arroz se faz com água quente.

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Aoi

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– Ah acharam o caminho para fora do quarto? – desdenhei em voz bem alta quando vi o casal aparecer no início da escada, parecendo procurar o restante de nós.

– Ruki estava com dificuldades para vestir uma calça. – Reita respondeu enquanto se juntavam a nós do lado de fora da casa.

– Nós sabemos. Da próxima vez que quiser estuprar tanto que não dá pra ignorar o fato de todos os seus amigos estarem na casa, pelo menos fecha a porta Akira. – Kouyou concluiu, movendo sua taça de vinho no ar como se estivesse brindando na direção dos recém-chegados.

– Imobilizado não é a mesma coisa que estuprado. Apenas não olhe. – Reita disse com um bico ofendido nos lábios, oe, ele disse...

– Imobilizado? – imediatamente uma série de imagens mentais se formaram na minha cabeça, imagens de coisas imobilizadas e coisas imobilizadoras.

Todas imagens complexas demais para eu conseguir compreender o motivo de não poderem fazer isto em um dia em que a casa não estivesse cheia, ou pelo menos um dia em que ele e Uruha não estivessem ali e o loiro irritante com quem dividia apartamento não ficasse me incomodando com o assunto.

Quer dizer, a convivência com Kouyou nunca estivera tão difícil. E logo Akira, aquele que deveria me dar apoio, dá munição para Takashima ficar me importunando. Ora, como se não tivesse sido o próprio Uruha quem tivesse instaurado uma greve de sexo que perdurava quase vinte malditos dias.

– Ou apenas olhe e aprenda, Aoi parece confuso. – Ruki riu, tomando para si a taça de Uruha e chamando minha atenção com seu comentário.

– Quando foi que você deixou de ser o Ruki que ficava vermelho só de ver o Miyavi imprensando o Kai contra a parede? – zombou Uruha.

– Um pouco depois de você parar de tomar hormônio feminino só porque o Aoi não era o maior pegador de garotas.

– Ah cala a boca, Ruki! – reclamei sem realmente reclamar, era só uma resposta.

– Ruki você tem se olhado no espelho nesses últimos vinte anos? – Uruha perguntou fazendo a mim e a Akira rirem, e Reita levar um empurrão no ombro.

– Verdade seja dita, Ruki você é a bicha mais viada desse grupo. – disse, já sabendo que o troco viria à altura.

– Ah tá, falou o advogado do grupo. Só anda de terno, paga de boyzinho, senhor aristocrata que arranca suspiro das menininhas... A gente sabe dentro daquele apartamento quem é que dá e quem é que come, viu.

– Ser ativo ou passivo, não tem nada a ver com o nível de viadagem, Ruki. – apontei, mas os três apenas riram.

– E aí, alguém quer comida? – Myv apareceu na porta quebrando o coro de risos e logo sendo atingido por um abraço cheio de saudades de Takanori, mudando totalmente o foco do assunto.

Quando estávamos todos reunidos era quando eu era mais grato à família que tinha, e à mesa o lugar onde nós mais nos parecíamos com uma família de verdade; uma mesa grande e cheia.

Um comentário sobre a comida em uma ponta era cortada por uma pergunta de negócios feita por Ruki à Miyavi que tinham que cruzar quase que uma ponta à outra da mesa para se conversarem, paralelamente alguém ria de alguma coisa dita de modo aleatório. Às vezes chegava a ser difícil de acompanhar todos os assuntos ao mesmo tempo, ou apenas seguir a conversa com um deles sem que tivesse que estar prestando atenção em outro.

Uma sinfonia que era bela pela falta se sintonia. Vozes, talheres, brindes, risadas, a louça sendo apoiada novamente na mesa após uma repetição do prato saboroso temperado a sorrisos companheirismo. Às vezes eu ainda sinto como se nunca fosse me acostumar com algo tão bom.

Horas depois, louças sujas, barrigas cheias e o gosto de algum doce que ainda resistia na boca, mas todos ainda falantes em torno da mesa. Com certeza seguiríamos assim por altas horas, se não fosse o celular de Kai tocar, fazendo toda a conversa parar.

A cara feita pelo moreno e as respostas que o mesmo dava enquanto se focava em algum ponto especifico da toalha de mesa, fez todos entenderem que, infelizmente, o final de semana anual seria resumido a um jantar.

– Desculpa aí gente, mas eu vou precisar voltar pra casa. – anunciou assim que desligou o celular e o recolocou no bolso.

– Problemas com o potro? – Reita perguntou.

Akira tinha se mostrado interessado no novo negócio de Kai dois minutos depois de ouvir por quanto o moreno venderia cada cria, e o tamanho da lista de espera de compradores que tinha. Confesso que sabia que cavalos não eram baratos, mas não sabia que um animal desses pudesse valer o preço de um carro.

– Com a égua, na verdade. Desculpe Ruki, preciso voltar o quanto antes. – concluiu fazendo uma careta de quem não queria mesmo ter que ir, ou talvez fazer o amigo dirigir toda a distância até a fazenda duas vezes quatro vezes no mesmo dia.

– Ah sério? A gente já se vê tão pouco... – o menor respondeu com alguma birra.

– Manda pra mim qual vai ser o próximo final de semana em que a casa não vai ter nenhum show e festa, e vamos refazer isto.

– Ele manda sim, vamos, eu levo você de volta pra casa. Ir e voltar toda essa distância mais uma vez no mesmo dia é demais pra quem quase se esquiva de pegar o carro. – Akira respondeu e todos nos levantamos da mesa.

– Nee Aoi nem pense em se esquivar, você foi escalado para o "time louça suja" junto comigo enquanto o Ruki e o Myv vão pro "time ordem na casa". Entendeu?

– Dá pra dar tchau pros amigos antes? – perguntei com as mãos erguidas em sinal de rendição.

.:.

Miyavi

.:.

Aquela definitivamente era minha última chance. Ruki queria que Kai ficasse pelo menos uma noite em sua casa, mas todos entenderam que cada potro novo no haras era investimento alto demais para ser deixado somente nas mãos de estagiários. Ou pior, como o caso em questão era com a égua que ainda deveria gerar muitos outros potrinhos para Kai vender.

Eu queria que Kai ficasse. Confesso que havia chegado até ali querendo que alguém não fosse legal comigo, que me jogasse na cara o erro que eu havia cometido. Eu precisava ficar em silêncio enquanto alguém me julgava culpado, mas foi só depois de uma noite anormalmente tranquila que ficou claro na minha cabeça que "alguém" tinha que ser ele.

A inércia e a apatia de Kai diante de tudo era um sinal claro que, com algum resquício de sentimento ou não, a nossa história como um "casal" estava terminando no dia de hoje. Entender isto tirou a mim de minha inércia pessoal.

É, podem rir. Eu ainda amo o garoto que foi meu "primeiro amor" no colegial, eu ainda amo o cara que "terminou" o relacionamento comigo há exatos dezesseis anos, deixando para trás uma longa história confusa que, de verdade, nuca teve fim. E que é difícil de explicar, mas parecia ter finalmente chegado ao fim hoje.

Ficou claro que aquela era a minha última chance. Depois que Kai fosse embora ele iria, de verdade, voltar a ser apenas o melhor amigo de Ruki com quem eu conseguia conversar com facilidade. Como era para ter sido dezesseis anos atrás. Mas eu não queria que fosse.

Anos atrás eu não acreditei nele, acreditei que o término tivesse sido fruto de mau humor e que assim que o mesmo melhorasse, nós voltaríamos. Depois acreditei que fosse apenas birra mesmo, afinal ele mesmo disse que voltaria se eu deixasse de fazer o trabalho que fazia. O que eu não fiz, então ele também não voltou e isto foi o início do que nos trouxe até este momento. Hoje eu acreditei nas palavras dele, até porque o que tínhamos não era mais tão forte e eu ainda assinei a sentença.

Então ficou acertado que Akira iria levar Kai de volta, uma vez que Ruki se disse cansado demais para dirigir tanto no mesmo dia. Aquele seria o fim, Uruha estava se despedindo do amigo com um abraço longo e cheio de resmungos e Ruki os olhava com o mesmo beiço que fazia sempre que Kai se despedia. Aoi sorria do excesso de sentimentalismo dos três e Akira por vezes se afastava, talvez para que nós não o víssemos bocejando.

E por sorte nossa, ninguém viu mesmo. É sorte nossa (eu + ele) porque eu vi, e por causa disso Akira vai descansar e eu, bom, eu vou ter uma última chance.

– Isso tem cheiro de cilada - Kai disse assim que entrou no carro e me viu no lugar onde deveria estar Reita, fazendo uma careta enquanto colocava o cinto de segurança com alguma dificuldade com a penas uma mão.

– Reita também está cansado. - Concluí tomando a ponta do encaixe do cinto dele para lhe ajudar.

– Reita até onde eu sei, teve um dia de rotina normal. Você não estava na Espanha antes de chegar aqui?

– O que também pode ser considerado um dia rotina normal para mim. Reita quase cravou as pernas da cama de casal dele no forro da cozinha, antes do jantar.

– Tsc... rotina - Kai riu dando de ombros quando eu já ganhava a faixa da rua e ligava a seta para dobrar a esquina.

– Você lembra aquela vez que a gente quebrou a sua cama? Foi muito engraçado.

– Lembro. Você voltou de viagem e descobriu que minha avó tinha falecido, então foi lá me visitar, eu recém havia me instalado no quarto principal da casa, que era dela.

– Você não tinha me contado a parte da história que você recém tinha se mudado para o quarto da sua avó falecida. Eu não teria coragem de fazer sexo com você naquela cama se soubesse disto. – concluí em uma careta de constrangimento.

– Deve ter sido por algo assim que eu não disse então. – deu de ombros.

– Sabe-se lá se não era sua vó nos vendo do além, fazendo sexo na cama dela enquanto você, teoricamente, estava de luto. A ira dela quebrou a cama. – expliquei ouvindo ele rir alto logo na sequência.

– Eu estava de luto. Não confunda o que acontecia toda vez em que ficávamos sozinhos em algum ambiente com cama, com apatia pelo falecimento da minha avó. Mas pensando bem, faz sentido sabe, minha avó repudiava a ideia de dois homens juntos. Acho que ela ficaria possessa mesmo se nos visse transando na cama dela.

– Sua vó... Você nunca contou para sua avó? – perguntei perplexo, a família de Kai era do tipo que mantinha todos os assuntos sobre a mesa posta.

– A pedido da minha mãe. Vovó já estava velha e com a saúde frágil, minha mãe e eu conversamos e concordamos que seria melhor aproveitar os últimos anos dela em paz. Eu concordei porque amei minha avó a vida inteira e sei o quanto ela me amou de volta, não queria ter mágoas dela para lembrar junto com as lembranças felizes.

– Por isso que nas primeiras vezes em que eu apareci no haras nós transávamos no estaleiro, no carro, nas taquareiras e na campina? Eu achava que era fetiche. Mas faz sentido, depois que a sua avó morreu passamos a transar na cama.

– Da forma como você falou, ficou parecendo que eu sou um pervertido. – resmungou.

– Você é! – disse sem me importar.

– Foi por isso que quis me dar esta carona no lugar do Reita? Acha que eu vou mudar de ideia quando chegarmos lá? – desta vez sua voz soou um pouco irritada, mas nada fora do controle.

– Eu acredito que esta seja a minha última chance. Eu sei que depois que você sair do carro tudo vai estar verdadeiramente terminado, e sinceramente, entender isto, entender que você está disposto a colocar um ponto final na nossa história, me deixou... apavorado.

– Ainda não entendi o que pretende com isto. – disse ele deixando de olhar a paisagem que da rua para me encarar.

– Acho que quero usar estes quilômetros para colocar a cabeça no lugar e conversar com você livre de qualquer interferência vinda dos nossos amigos. Faz muito tempo, então vou relembrar você de que eu nunca quis que terminássemos, eu fui atrás de você, eu implorei, eu aceitei todos os seus termos e por fim, me acomodei com esta história de "não temos nada, não somos nada, mas vem cá e me fode."

– Eu queria que você entendesse que eu não faço isso por diversão ou algo do tipo. É doloroso pra mim também não conseguir sair deste ciclo vicioso, às vezes até humilhante.

– Eu entendo. E entendo também que isto precisa ter um fim, mas não concordo com o final que você escolheu. Você continua sendo o cara que quer terminar, e eu continuo sendo o cara que mais uma vez está indo atrás para pedir que você reconsidere.

– Reconsiderar o que? O que sobrou para ser considerado?

– Eu não sei, talvez o fato de eu ainda amar você e acreditar que você de alguma forma ainda me ama, mas se recusa até mesmo a me culpar por ter perdido a cabeça e engravidado uma garota!

– Por que o culparia? A moral de não haver um relacionamento entre nós já para que coisas destas natureza não serem motivo de dor.

– Você quer dizer que não sente nem um pontinha de raiva ou, uma dorzinha ao colocar um fim em tudo? – questionei incrédulo, mas ele não respondeu, apenas suspirou e voltou a olhar pela janela. – O que há de errado com você? Me xingue, me culpe, me cobre... o que for, mas não fique neste estado de inércia.

– Você já se culpa o suficiente.

– Está vendo, é isto que não funciona. Você parece sempre estar falando do lado de trás daqueles vidros à prova de balas. No final desta viagem a tua vontade vai ser respeitada, eu vou parar de correr atrás de você, mas por enquanto me dê o mínimo Kai, sai da defensiva, não pensa antes de falar. Só me deixe ver o que você pensa e sente de verdade.

– Sobre o que você quer ouvir?

– O está preso aqui - disse fazendo um gesto indicando minha garganta com a mão -, porque pra mim é óbvio que tem alguma ou algumas coisas entaladas aí. Sem medo, só fala. Não vamos julgar um ao outro, vamos compreender e seja lá o que for no final.

Kai ficou em silêncio e de olhos fechados por alguns instantes, ponderando. Por fim, ele pareceu entender o que tudo aquilo realmente significava e concordou.

Antes mesmo de ele começar a falar já havia uma camada cristalina de lágrimas sobre seus olhos. E a pauta daquilo que mais lhe incomodava era culpa também.

Com alguma dificuldade Kai e parecendo procurar por palavras certas que não existiam. Eu não devia julgá-lo, mas foi difícil eu confesso, ouvir de sua boca o quanto ele ficou transtornado no dia em que ele mesmo terminou comigo e como o próprio destino agiu para dar a um dia ruim um desfecho ainda pior.

Aoi seu filho de um sacana. Levou algum tempo para dissolver aquela informação, passar pela ira e só então tentar entender o que Kai estava querendo falar sobre culpa e o quanto aquilo incomodava.

Depois disso, nada que ele disse soou tão pesado. Na verdade, depois disto tudo ficou mais leve, guardar aquilo realmente o consumia e eu entendi porque obviamente. Kai e Aoi praticaram uma traição dupla, mais do que o que havia entre nós, havia uma importante amizade em jogo ali.

Anos foram transformados em palavras. Minhas e dele. Tentativas falhas de relacionamentos, verdades por trás de cada desculpa que nos faziam sempre recair um pelo outro.

"Eu sou muito ciumento. Não consigo mudar isto, faz parte de mim, mas quando éramos mais novos eu ainda não sabia que ciúme é apenas um sintoma da insegurança. Eu posso ter me tornado uma pessoa mais segura, mas a distância faz tantas paranoias soarem como fatos."

Foi uma das coisas mais importes que aprendi naquele percurso. Nada lhe respondi, não havia nada que eu dissesse que iria mudar a forma como ele via aquilo. Nem explicações e muito menos promessas.

Mas foi importante ver que ainda havia coisas sobre aquela pessoa para eu desvendar. Não acreditava que houvesse meios de alguém não perceber o quanto cem por cento do nosso relacionamento era controlado pelas vontades dele, e nada disso era por obrigação ou paranoias. Yutaka conseguia tudo o que queria de mim sem esforço algum, eu sempre fui submisso aos seus desejos desde que nós vimos pela primeira vez.

Todos percebiam isto, mas ele não. Talvez até percebesse, mas a dita insegurança não o fizesse crer.

A cada quilômetro mais perto do fim eu me sentia melhor comigo mesmo e acredito que ele também. Com certeza sairíamos daquela experiência muito melhor um com o outro também.

Não era o suficiente para dizer se sairíamos como amigos ou algo mais. Mas fosse o que fosse, seríamos melhores do que já fomos até aqui.

A distância pareceu ser vencida muito facilmente, nem parecia que tínhamos rodado por mais de quarenta minutos quando os terrenos do haras elegante começaram a fazer parte da paisagem. Eu não queria que fosse o fim.

– Aoi me disse que você mostrou a foto da mãe da Airi para ele. E que se não fossem os peitos não haveria nada que a diferenciaria de mim. - disse admirando os limites de sua propriedade.

Claro que Aoi não iria deixar passar em branco. Kai também havia me contado como Ruki temeu que a nova situação entre Kai e eu pudesse alterar o humor do de cozinhas e, por ventura, fazer palavras impensadas sobre o que houve entre ele e Aoi virem à tona da pior maneira possível.

E que enquanto estavam à sós, Aoi disse que Akira dividiu consigo o mesmo receio. Então depois de ouvir o comentário, não me pareceu nada anormal Aoi ter falado sobre aquela foto também, a culpa nele também devia ser grande.

– Até no corte de cabelo. Mas...

– Okaa-san? - ele disse alto demais, quase brando o rosto no vidro lateral do carro.

Tentei ver pelo espelho retrovisor o que tinha o assustado, uma a vez que já tínhamos passado. Mas vi apenas um reflexo deixado para trás rápido demais de um vulto Vestido de branco em algum ponto da campina.

A preocupação de Kai foi logo compreendida. Se aquele vulto era a senhora Yutaka, estava longe demais da residência em plena madrugada. Aquela era uma área para cavalgadas.

– Myv você pode...

– Estaremos no estacionamento em dois minutos. - o interrompi acelerando o carro para vencer o restante dos hectares que nós separavam da entrada.

Uma vez dentro do estacionamento de saibro, Kai se quer esperou o caro estar devidamente estacionando para sair do mesmo em disparada. Precisei correr para conseguir alcança-lo depois que consegui sair do veículo.

Kai parecia conhecer algum atalho, pois não estava nem perto da trilha iluminada. Chamei seu nome, pedi para que me esperasse, mas ele apenas seguia em frente.

Cerca de dez minutos depois a senhora Uke se fez visível, estática no meio do campo cercada por uma luz fraca e artificial. Vestia uma camisola leve de algodão e parecia estranhamente focada em coisa alguma.

– Okaa-san! - o ouvi chamar preocupado, mas ela apenas olhou em nossa direção, sorriu e voltou a fitar o nada.

– Okaa-san o que faz aqui? Está tudo bem? - as perguntas eram urgentes.

– Shhh - foi a única resposta sem nenhum contato visual.

Já ao lado da matriarca era possível ver o que ela o observava com tanta cautela. O tronco cortado que evidenciava a existência passada de alguma árvore no local e uma planta que parecia só ter algo de especial para a senhora diante de nós.

– Mãe tem consciência de que horas são e quão longe de casa está?

– Quieto Yutaka. Aprenda a apreciar a beleza da natureza em silêncio. Ah Takamasa... – completou esticando o braço até sua mão encontrar a minha e me puxar para ficar ao seu lado, dividindo um meio abraço.

Do ângulo em que ela estava podia-se ver três botões brancos em meio daquela planta que mais parecia um cactos, e ou eu estava louco, ou eles estavam inchando e aumentando de tamanho. Um som de espanto foi emitido por Kia, e por cima dos cabelos grisalhos da senha Uke, era possível ver o mesmo espanto no olhar do moreno em direção aos botões.

Não era para menos, agora era nítida a observação de que a planta se mexia, parecia girar em torno de si mesma como o movimento da saia de uma bailarina o algo do tipo, mas tudo muito sutil. Aumentava e aumentava, e então era possível ver tamanhos e formas diferentes de pétalas que lentamente se abriam para a escuridão. Até que por fim, estava concluída a descoberta de três lindas, grandes e brancas flores que se abriam em silêncio e escuridão.

– Que lindas! – comentei.

– Um dos estagiários pediu para plantar ela aqui no ano passado, ele me avisou quando viu que havia botões. Mas acho que ele não deve estar no haras hoje, é uma pena. – explicou a matriarca.

– Amanhã você conta para ele que a flor já abriu.

– Espero que tenham a chance de ver. A rainha da noite floresce apenas uma noite por ano. Ela vai começar a murchar assim que amanhecer.

– Vamos tirar uma foto então, um – Kai lhe disse sorrindo, puxando o celular do bolso.

– É triste, não é? – ela comentou quando Kai já estava abaixado em busca do melhor ângulo para fotografar a flor – Algo tão bonito florescer apenas uma vez no ano. Escondida no meio da noite – completou.

Imediatamente tirei meus olhos da flor que Kai tentava enquadrar na tela, para olhar diretamente para ele ali parado. A mãe de Kai era uma senhorinha de poucas palavras, mas quando falava sabia bem o que dizer. O mais novo terminou de tirar a foto, olhou para baixo e se levantou, trouxe o aparelho para a mãe sem olhar para mim nenhuma vez.

– Nee, Uke-san, estes eventos raros não servem para sinalizar pequenos momentos de magia no tempo e no espaço?

– Hn? – a mais velha me olhou acompanhada pelo filho.

– Igual a quando vemos uma estrela cadente, será que não podemos fazer um pedido? Você sabe, só momentos muito raros tem o poder de transformar desejos em realidade. – sorri e também, parecendo entender a lógica sem sentido.

– A sua teoria faz sentido. Eu acho que você pode tentar. – concluiu com um sorriso cheio, daqueles me fazia ver Kai em cada um de seus traços.

Fechei os olhos. Com o sorriso encorajador dela eu iria levar a teoria até o fim. Não que eu achasse que pedir algo para uma flor noturna fosse de fato algo mágico.

O que havia de mágico em pedaços de rochas caindo do espaço? Jogar moedas em fontes, cadeados em pontes ou qualquer outra crença popular por aí? Flores que abrem apenas uma vez por ano... vê-las florescer novamente no ano que vem? Pensei, mas o som de passos se movendo para longe de mim atrapalharam minha concentração e me fizeram abrir os olhos antes de concluir o pedido.

– Ah eu quero saber se seu pedido se realizar. – a mãe de Kai disse feliz ao me ver abrir os olhos.

– Certo, agora vamos voltar. A senhora me assustou, sozinha no meio do nada à noite. – Kai disse procurando o rosto da mãe jogando o corpo pra frente, uma vez que era eu quem estava no meio dos dois.

– Ah eu ia falar dela com você, mas eu me lembro como era quando meu pai fazia essas crias. Era sempre excesso de trabalho. E não achei que você fosse voltar hoje.

– Os rapazes me ligaram, parece que tem algo errado com a égua.

– Ah então você tem que ir mesmo.

– Vou acompanhar você até em casa primeiro.

– Não precisa. Miyavi está aqui e eu estou feliz por ele estar de volta. – foi o que ela disse, Kai ficou mudo e eu sorri.

Eu tinha total consciência que ao estar de olhos fechados e perceber a movimentação de passos ao meu redor, foi instintivo procurar com a mão direita qualquer coisa que me desse certeza de que não seria deixado para traz. Também não foi surpresa perceber que tinha alcançado outra mão com a minha, a feliz novidade era que já estávamos os três caminhando na direção da trilha e os dedos dele ainda estavam entrelaçados aos meus.

Fazia mais de uma década que isto não acontecia. Sem pensar muito ergui a mão esquerda na altura da boca, tampando o canto direito da mesma como se fosse contar um segredo à senhora ao meu lado sem que o ser do outro lado ouvisse, o que eu sabia não seria possível dentro da noite silenciosa.

– Nee Uke-san, eu acho que a magia da rainha da noite funciona. – disse vendo a pequena senhora concordar comigo enquanto do outro lado Kai ria silenciosamente fazendo sinais negativos com a cabeça, não acreditando no papo sério que minha sogra e eu estávamos levando, mas só desfez a união dos nossos dedos quando já estávamos no centro do haras, no ponto em que ele seguiria para um lado e eu e a mãe dele seguiríamos para outro.

.:.

– Airi, você quer ajuda com isto? – Aoi perguntou achando o bolo pesado demais para braços tão finos e pés tão desastrados.

– Tá de boa, tio.

– Tem certeza? Você nem está vendo por onde anda. – insistiu.

– Misericórdia Aoi, Airi e bolo é estrutura pra desastre na certa. Como é que você permite isto? – Miyavi interveio vendo a careta irada que o ser mais novo daquela família fazia sempre que o pai lhe tirava para desastrado.

– Hei o papai que me deu o bolo pra carregar, ele confia no meu potencial de caminhar cinquenta metros com um bolona mão.

– É, o papai que te deu o bolo é mais desastrado que você e o papai que tirou o bolo de você sabe disso. – Miyavi concluiu fazendo Aoi rir.

– Vem Airi, vamos ajudar Kai e Ruki com as xícaras. – Aoi chamou passando o braço pelos ombros franzinos.

– Hei Aoi – chamou – se um dia eu tivesse mais um filho ou filha, daria seu nome em homenagem. – foi uma surpresa para todos o quanto Airi e Aoi tinham se apegado um ao outro. – Ah, Airi, não esquece de trazer o remédio da vovó.

– Tio, eu sou tão desastrado assim? – Aoi pensou por dois minutos observando o rosto delicado em corte de cabelo e roupas masculinas e então piscou antes de fazer que sim com a cabeça e levar um empurrão no ombro por conta disto.

Encontraram Ruki e Kai rindo na cozinha, pegaram as xícaras e todo mais que faltava e voltaram para junto de todos na rua. Airi logo foi para o lado da avó e todos contaram parabéns para a mãe de Ruki.

A mesa redonda e farta de comida mostrava Kouyou logo a minha frente, à sua esquerda estava Yuu que conversava com Joe ao seu lado, e então aqui estou eu. À minha esquerda está Hiroki sendo auxiliada por Airi, então a mesa segue por Miyavi e ao seu lado Kai, que conversa de forma animada com Takanori. Por fim, Reita está ao seu lado e conversa com Kouyou que fecha o círculo.

– Por que estou aqui? – Hiroki perguntou à neta pela quarta ou quinta vez.

– É aniversário da tia Emi, vovó. – Airi respondeu pacientemente como todas as outras vezes que ela lhe perguntou.

– Emi? – sua voz soou surpresa e logo em seguida feliz e emocionada ao me "descobrir" ao seu lado – Emi! Como pude esquecer do teu aniversário?

– Estamos velhas, é normal eu acho. – respondi sem colocar em foco a triste doença que já consumia as memórias da minha amiga de infância há três anos.

– Vovó, seu chá vai ficar frio. – a menina chamou atenção para a xícara esquecida em sua frente.

– Ah – ela sorriu de um jeito que era para disfarçar o fato de que não se lembrava mais do chá, e bebericou da bebida quente.

Olhei mais uma vez para todos naquela mesa e fechei meus olhos. Noventa anos. Não era pouca coisa.

– Tá tudo bem Emi? – Ouvi a voz de Takanori e senti suas mãos em meus ombros.

– Estou velha! – respondi em assombro.

– Apenas um dia a mais do que ontem, mãe.

– Obrigada Taka, pelos melhores 74 anos da minha vida.

– Foram só os primeiros 74. Apostei com Reita que você viveria até os 200 anos. Não me faça perder. – brincou e eu sorri.

Não eram poucas histórias e nem todas tinham desfechos agradáveis, mas tudo, cada pequeno passo nos conduziu até este momento. A vida era um jogo de regras severas, e a pior parte era sair para este jogo sem nenhum guia ou manual; ou seria a melhor parte?

Não importava. O jogo estava quase no final, mais um ano, dois ou dez não importavam. Com minha idade eu já estava perto suficiente da reta final do tabuleiro, não importava em que ponto exatamente. Apenas avançado o bastante para poder me orgulhar de tudo que podia resgatar em minha memória e montar como um longa– metragem rico em risadas, felicidades, dramas e algum toque de tristezas que também não podiam ser menosprezados.

Ossos doíam, a cabeça às vezes falhava. As coisas ficaram mais pesadas e meu corpo mais devagar. O sono era cada vez mais escasso e por muitas vezes me via mais perdida no passado do que no futuro. Eu me despedi de amigas e via minha melhor amiga morrer aos poucos, Joe ainda era um suporte para qualquer hora. Principalmente porque apenas nós dois parecíamos ver graça naquelas que eram as melhores bandas do nosso tempo.

Ah, com certeza até os pequenos detalhes faziam cada dia com aquela família valer a pena!

– É bom seu pai ter bastante tempo para ouvir tudo o que eu tenho para contar para assim que fizer 201.

– É bom mesmo, porque acho que se ele não estiver lá te esperando você vai ficar aqui me assombrando. – riu. – Mas por hora, quer mais um pedaço do teu bolo?

Enfim o fim

Para quem não ficou satisfeito com o final sem história e sem final de Aoi e Uruha na fic, segue a sidefic só deles sobre como o finla deles ficou: s/12742155/1/Fatal-Fall