Prólogo
(cont)
Assim que a ouviram gritar, os homens de Narak começaram a apontar em sua direção, no outeiro. Mas a realidade estava a sua frente. De modo instintivo Kagome retrocedeu, mas não antes de seu olhar cruzar com o do primo.
Jamais pensara que recusar a proposta de casamento de Narak o faria agir como louco violento. Mas a realidade estava à sua frente. Em breve instante, sua visão do mundo se modificou. A estrada da vida, que sempre imaginara linda e florida, se apresentava como um beco escuro.
- Façam com ela o que fizeram com a outra. – ordenou Narak aos seus homens. – Depois tragam seu cadáver pra cá e o colocaremos ao lado da irmã.
Kagome olhou para baixo. Os sicários do primo começavam a subir o outeiro, vindo em sua direção. Dando meia volta principiou a correr, as saias voando ao seu redor. Tentou desaparecer na mata perto do lago, mas podia ouvir os berros dos homens muito perto. Refreou um soluço e continuou a correr, dessa vez descendo pelo outro lado, sempre na direção do lago, rezando para encontrar boa alma que a ajudasse.
Porém acabou sendo capturada. Quando chegou ao pé do outeiro um homem horrível parecido com um duende pegou-a pelo braço, mostrando os dentes em um sorriso demoníaco. Forçou-a a andar e assim que chegaram á margem do lago ergueu uma faca. A clara intenção em seu olhar era de enterrar a arma no peito de Kagome.
Parte 1.
Maio, 1746
Com um soluço, acordou do pesadelo.
Levou as mãos ao rosto e sentiu que estava úmido. Mas os traços provocados pelas lágrimas só limparam parte da sujeira. Seu coração ainda estava pesado, os ombros duros e continuava sufocando com ar carregado ao redor.
Permaneceu quieta no escuro por muito tempo, pensando em Kikyo. Seu espectro parecia planar à volta de Kagome, que ansiava por rever a irmã para ter sua companhia nas longas noites da Lousiana, uma amiga nas horas difíceis e na vida solitária que levava agora.
Mas Kikyo não apareceu e o único consolo de Kagome foi suspirar de frustração e fazer o que já fizera centenas de vezes. Deixou a mente vagar no passado, pensando na vida feliz que perdera na Escócia e que tanto queria recuperar.
Porém nessa madrugada parecia estar duplamente amaldiçoada, pois mesmo esse pequeno conforto lhe era negado.
Por mais que tentasse, não conseguia sentir a maciez do cetim francês de encontro a pele, nem o calor do fogo aconchegante da lareira nas noites frias. Naquele momento nem mesmo conseguia recordar com precisão os contornos do castelo de Mhor. Começava a esquecer os detalhes.
Um ano longe de casa faz com que as memórias se diluam, disse a si mesma. Então, desesperada, fechou os olhos com medo de esquecer tudo de vez e forçou-se a recordar cada detalhe.
- Kastrel está tendo o sonho outra vez.
A voz soou no fundo da escura choupana. Ali não a chamavam de Kagome, o nome da jovem escocesa de suas lembranças, mas de Kastrel, denominação inglesa de um falcão que sempre erguia a cabeça contra o vento.
- Não! – replicou Kagome em murmúrio.
Tentava se lembrar do que estava gravado no escudo de Mhor.
- Não me engana menina – replicou a voz macia em meio à escuridão da madrugada. Ouviu-se um som de passos arrastados e em seguida um dedo ossudo a cutucou. - aquele dia maldito em Mhor jamais será esquecido.
- já não me lembro bem de Mhor.
E era verdade, apesar de negar a si mesma. Relutante, sentou-se.
- Venha, menina. Onde está aquela força que demonstrou naquele dia no outeiro em Mhor? Foi tão intensa que não consegui matá-la e acabei fugindo com você para este lugar.
- Acho que desapareceu também, Myoga. O calor da Lousiana a dissolveu. – Sacudiu a palha da cama. – Não consigo respirar aqui! Por que não sopra uma brisa fresca?
- Bem, não sei, mas trouxe-lhe algo que irá agradá-la.
Quando Myoga, o Velho, acendeu a vela, Kagome o viu fitando-a comn atenção. Ergueu-se da cama forrada de palha e alisou as saias esfarrapadas. Um gatinho preto esfregou-se em suas pernas, pedindo o café da manhã.
- Então qual é a surpresa? Nossa! Acordou cedo para me trazer seu presente ou ficou fora a noite toda?
Arqueou as sobrancelhas e o fitou. Sem dúvida Myoga era uma criatura noturna. Com o corpo disforme e os cabelos acinzentados, a escuridão lhe assentava melhor que a luz do dia. Não era uma visão agradável, muito menos inspirava afeto, mas Kagome o amava de todo coração. Myoga salvara sua vida e no último ano tentara de tudo para tornar seus dias suportáveis.
- Veja isto! Encontrei ontem a noite no vão de uma janela, secando. Teria trazido antes, só que a velha senhora na casa saiu correndo atrás de mim como um cão dos infernos!
Myoga abriu um saco e revelou uma anágua cor de lavanda. Kagome se aproximou e passou os dedos pela seda macia.
- Myoga, você é um malandro. – sussurrou.
- Sim, mas pensei em você quando roubei. O que eu faria com uma tolice dessas? Experimente menina! Aposto que se esqueceu do que é usar tecidos finos.
- Acha que a dona da anágua não vai sentir falta?
- Ora! Não sentirá falta porque ouvi dizer que tem uma de cada cor. Experimente!
Kagome tomou a anágua nas mãos e dando as costas para Myoga enfiou-a pelos pés, atando os nós sob as saias rasgadas. Sentiu a maciez da seda de encontro à pele e sorriu, maravilhada, embora a peça fosse curta para a sua estatura.
- É muito gentil, senhor.
Assim dizendo, a antiga Kagome e atual Kastrel beijou a testa de Myoga.
- Sem dúvida que sou – replicou com alegria. – Agora trate de se arrumar, pois é quase manhã.
- E que esquema maquiavélico preparou para hoje?
Em vez de responder, Myoga a empurrou para a bacia com água.
A toalete matinal de Kagome consistia em lavar o rosto enxugando com a barra da saia e pentear os cabelos usando os próprios dedos. Não havia banho com lilases, nem criadas para ajudá-la. Entretanto, apesar das zombarias ocasionais de Myoga, conseguia ter uma aparência apresentável. Continuaria sendo uma dama custasse o que custasse, por mais que a vida fosse difícil.
E era difícil mesmo. Fitou Myoga, porém nem mesmo as feições horríveis de seu salvador eram piores que as imagens que rondavam sua mente. Era uma benção quando despertava de tais pesadelos. Com gesto firme apertou os laços da roupa.
- Era só o que faltava! Rasguei!
Olhou para a fita esgarçada que pendia de seus dedos e tratou de amarrar os laços que restavam.
- agora que ganhou uma anágua vai precisar de fitas. – comentou Myoga – Quem sabe um corpete novo? – provocou.
- E onde encontraremos dinheiro para isso?
- O navio Bonaventure atraca hoje. Ouvi dizer que vem recheado de passageiros ricos. Até a filha do velho Thionville está lá, de volta de Paris.
- E quer que vá lá e roube algumas carteiras?
- Oh menina! Sabe que faria sozinho, mas minhas juntas doem muito e é complicado roubar carteiras com mãos trêmulas.
- Sim, por causa do rum que bebe. Isso ainda irá matá-lo Myoga.
- Estou lutando contra a sede, juro! Mas se conseguir pegar duas carteiras já será o suficiente. Poderá comprar coisas novas e beberei rum...Apenas o suficiente para não tremer, compreendeu? O que acha?
Kagome arqueou as sobrancelhas.
- Esta anágua foi um suborno, não?
- Não! Primeiro pensei em vendê-la, mas depois...
- Sei quando sou subornada. – Kagome cruzou os braços sobre o peito. – Myoga, você é um pilantra da cabeça aos pés! Nem a Graça Divina o salvaria.
Observou-o tremer e se encolher, uma profunda pena a possuiu. A bebida sem dúvida acabaria por matá-lo, mas era a única alegria em sua pobre vida. Myoga não possuía boa lembranças para ampará-lo.
- Irei. Se esses passageiros são tão ricos como diz, não sentirão falta de um pouco de dinheiro.
- Ah! Meu anjo adorável!- Myoga apertou as mãos para não tremer e logo assumiu uma expressão aflita e infantil. – Não vai demorar muito, vai?
- Não, fique sossegado.
Kagome ergueu as saias e retirou uma faca da liga. Era uma sgian dhu a adaga negra escocesa. Era seu tesou mais precioso, que lhe fora dada a um ano antes no navio para Glasgow.
O proprietário anterior fora um jovem moribundo, que lhe dissera que poderia precisar dela no Novo Mundo.
Kagome aprendera a manejá-la e a levava consigo sempre, presa à liga que só servia para isso, pois não possuía meias
- Fui um bom professor – riu Myoga, mostrando os dentes podres. – É muito rápida, Kagome. Só espero que nunca encontre um oponente mais ligeiro.
- Isso não irá acontecer. – Recolocou a adaga na liga. – Vou para o cais receber o navio.
- Ótimo. E traga algumas moedas. Se Narak pudesse nos ver agora!
Ante a menção do nome de seu primo, Kagome enrijeceu. Poucas coisas a intimidavam nos dias de corriam e ma delas era aquele nome, Narak. Assassinara sua irmã e teria feito o mesmo com ela, Myoga não tivesse agido como um duende de contos de fadas e fraquejado no último momento, incapaz de obedecer ao amo.
- Sim – murmurou mais para si mesma. – Aposto que nunca imaginou que eu chegaria aos dezenove anos.
Olhou em volta para a pobreza que a circundava, desejando no íntimo voltar um dia a ser uma dama.
- Mais tarde terá seu ajuste de contas menina. – Disse Myoga como se lesse seus pensamentos.
- Que tal nosso ajuste de contas?
- Não, sou apenas um pobre coitado dos arredores de Edimburgo. Não tenho poder para me vingar de seu rpimo.
- Um dia voltarei a Escócia e quando recuperar o castelo de Mhor tudo que restará a Narak será a forca.
- Sim menina. Apesar de provavelmente todos pensarem hoje que morreu caindo em um abismo no desastre de carruagem com sua irmã, saberão a verdade. Jamais se esqueça, meu bem, que é um espinho enterrado na garganta de Narak. Aposto que nunca mais dormiu bem, imaginando seu paradeiro, pois não pode ter certeza que morreu.
- Pare!
Kagome teve a visão de duas cores, vermelho muito vivo sobre azul. Eram as cores que a faziam lembrar de Kikyo. O vestido manchado de sangue.
Mas chorar não lhe daria comida nem abrigo. Só roubando conseguia sobreviver. Estava juntando dinheiro para voltar à Escócia e isso era difícil, pois Myoga sempre metia os dedos pegajosos em sua bolsa. Mas já tinha bastante e mais um dia de roubo seria o suficiente. Em breve voltaria para Mhor e valia arriscar tudo para conseguir seu objetivo, pensou.
- Bem, o Bonaventure me espera. – murmurou.
Saiu da Choupana nas docas e deixou as saias esvoaçarem, como se fossem de seda chinesa. Sem saber o que o destino preparou.
