Cap 1
(cont)
O caminho até o cais nunca era agradável. Malandros piores que Myoga rondavam e sempre tentavam fazer amizade com Kagome.
- Mademoiselle! Como é orgulhosa! Demais para uma garota do porto! – berrou um bêbado.
Os outros riram, mas Kagome continuou seu caminho.
Uma velha prostituta se aproximou, murmurando em alemão e pedindo uma moeda, pois a postura arrogante de Kagome, apesar e suas roupas, denotava que era uma dama.
Tentou se desviar, mas a mulher a encurralou em um muro, então foi obrigada a desembainhar a adaga. Assustada, a prostituta se afastou e Kagome foi deixada em paz.
Sabia que nunca fora aceita pelas pessoas junto ao rio. Em particular as prostitutas a odiavam, devido aos seus modos graciosos e por não ser uma delas.
Porém os homens que não bebiam eram os mais temidos. Circundavam Myoga como se estivessem à espera de um testamento. Mal viam a hora do pobre coitado morrer, pois assim sua protegida estaria sozinha e à sua mercê.
Em meio aos pensamentos sombrios, Kagome chegou às docas.
O Bonaventure já atracara e estivadores começavam a retirar a carga. Kagome olhou para cima, imaginando como realizar seu trabalho da melhor maneira.
Uma vaca magra desceu a rampa e o olhar de todos ao redor brilhou de cobiça, por certo recordando seus lugares de origem, França, Alemanha, Escócia, ou mesmo Illinois. A carne bovina era rara em Nova Orleans e a preciosa vaca teria que ser portegida como uma mártir preparada para o sacrifício.
Entretanto havia alguém ali que não estava interessado no animal. No mezanino do navio, com uma expressão vagamente entediada, observava a interminável fila de passageiros que começavam a deixar a embarcação.
Não parecia muito feliz por estar em Nova Orleans, concluiu Kagome. Era um belo homem e não podia ter mais que trinta e cinco anos, calculou. Alto, com ombros largos, se destacava em meio aos marinheiros italianos que iam e voltavam carregando grossas cordas para amarras.
Porém não foi apenas a beleza física do estranho que lhe chamou atenção, mas algo mais sutil e sedutor. Aninhada nas rendas de sua camisa, cintilava uma safira quase do tamanho de uma noz.
A gema era sem dúvida muito preciosa e o brilho que lançava, devido aos raios de sol, a atraía como um imã. Se a desse ao capitão certo, pagaria sua passagem para qualquer lugar do mundo, refletiu Kagome, mas queria mesmo era ir para onde houvesse lagos azuis, colinas e planíces. Escócia.
Suspirou fundo e calculou que precisaria da adaga para obter a safira, o que seria um grande risco. Analisou o homem, medindo a força no seu queixo e nos ohlos...dourados? Era difícil dizer, àquela distância. Parecia ser vigoroso o suficiente para virar o punhal contra o peito da própria ladra, pensou Kagome.
Bem, talvez pudesse roubar sua bolsa. Isso seria fácil. Um esbarrão, um corte preciso da adaga e tudo estaria terminado em poucos segundos.
Kagome voltou a medir forças imaginárias com o homem e tomou uma decisão. Seria a bolsa e não a safira.
Os passageiros desciam a rampa, um a um. Uma jovem trajando um rico vestido de brocado começou a falar de maneira agitada com o homem da safira, que descera com ela.
- Sr. Sesshoumaru, irá visitar maman e eu? Ficaremos tão sozinhas neste lugar distante sem sua compnhia...estamos acostumadas com esplendor de Paris e esta cidade primitiva será difícil de suportar – disse a jovem francesa.
- Mas lady Kagura – replicou o homem da safira – em breve sua maman, que é condessa, fará com que se case com um nobre. Que prazer encontraria em minha compnhia? Vai me considerar um bruto – concluiu com um sorriso.
Então Kagome viu que seus olhos eram dourados e brilhavam mais que a pedra em sua camisa. Mas também pareciam ter a característica do mar e pressentiu que poderiam adotar um brilho frio e impiedoso a qualquer momento. Ante tal pensamento estremeceu.
- Pode ter certeza Sr. Sesshoumaru – disse a jovem francesa, baixando os longos cílios – que sua compnhia é mais agradável que a de qualquer outro homem.
- Não insista Kagura – interrompeu uma senhora que vinha logo atrás e devia ser a mãe da moça. – É preciso se fazer de difícil para conquistar um homem. Vamos! Seu pai nos espera.
A condessa e a filha rumaram para uma carruagem que já as aguardava e que fora circundada por um bando de mendigos. O brasão na porta fez Kagome reconhecer que se tratava do coche de Jean-Claude de Thionville, conde de Cassell, que controlava toda Nova Orleans e zelava para que os ricos não fossem roubados. Com sua riqueza e a benção de seu rei, o conde dominava o lugar. Entretanto eram apenas as roupas finas que o distinguiam de Myoga, pois no fundo se tratava de um bandido também.
- Devo ir, Sr. Sesshoumaru. Irá nos visitar? - implorou a moça francesa. – esperarei ansiosa.
Kagome compreendeu que aquela era a filha do poderoso e infame conde de Cassell e franziu os lábios com desdém.
Observou Sr. Sesshoumaru inclinar-se diante da janela da carruagem e beijar a mão que Kagura oferecia.
- Veremos, milady. Mas é uma possibilidade.
Sorriu como um lobo, um brilho cínico surgindo nos olhos azuis e Kagome entendeu que não era um homem confiável.
A carruagem partiu com toda a pompa. Então Kagome mirou seu alvo.
A multidão diminuíra e Sr. Sesshoumaru se encontrava em uma roda de homens que, exceto ele mesmo, estavam de costas para ela. Quando seus olhares se encontraram, a jovem notou a expressão dura no rosto bonito do homem e isso quase a fez recuar.
Notou os cabelos com fios prematuramente prateados e presos num rabo de cavalo. Em vez de atenuar seu semblante, o toque grisalho enfatizava as feições finas do predador. De novo, Kagome sentiu-se tentada a desistir do roubo.
Em geral era muito destemida. Afinal roubava há quase um ano, conhecida como o pequeno falcão Kastrel. Era tranqüilo para ela voar contra o vento. Nada tinha a perder. Mas dessa vez sentia medo. Aquele homem, Sr. Sesshoumaru, não parecia uma presa fácil. Pior ainda, tudo levava a crer que era cruel.
Hesitante, Kagome respirou fundo e deu o primeiro passo na direção da presa.
Esperou o momento certo, quando Sr. Sesshoumaru virou um pouco a cabeça e então agiu. Avançando com decisão e movimentos leves, a adaga na mão, ergueu o rico paletó de lã de Sr. Sesshoumaru e rasgou a alça da bolsa de couro cheia de moedas, que caiu entre seus dedos experientes. No segundo seguinte, desapareceu no cais.
É claro que nem tentara pegar a safira. Avaliara o homem e concluíra que erguer a adaga até seu pescoço seria loucura e tolice.
- Ora, sua pequena ladra! Roubou minha bolsa!
De repente, uma mão firme como garras a segurou pela nuca. Kagome de início esperneou, consciente que sentia mais medo do calor daquela mão em seu corpo que das conseqüências de seu ato. Por fim se aquietou, como um animalzinho se fingindo de morto, a fim de pegá-lo desprevinido e sair correndo outra vez.
- Não! Sua bolsa caiu e ia devolvê-la.
Girou a cabeça e fitou o homem que mais parecia uma torre, olhos dourados brilhantes. Sr. Sesshoumaru estava achando graça na situação, mas não havia piedade na expressão de seu rosto.
- Devolver? Correndo na direção contrária? – Tomou-lhe a bolsa da mão e guardou-a no colete. Sempre segurando sua nuca, voltou-se para os outros homens. – Que lugar é este para onde viemos? O que há para investir aqui? Mendigos e ladrões?
Mas Kagome não deixou escapar a oportunidade e vendo-o momentaneamente distraído ergueu a adga que escondera entre as dobras da saia e cortou parte da camisa com a safira. Surpreso, Sr. Sesshoumaru baixou a guarda e deixou-a livre para escapar.
Porém outra vez Kagome se enganara a respeito do oponente, que em duas largas passadas a alcançou, segurando-a pela cintura. Entretanto o solo da Lousiana era sempre escorregadio e ambos caíram no chão.
Sr. Sesshoumaru começou a rir ao ver sua roupa enlameada, mas Kagome não tinha certeza se isso era um bom sinal. O riso soava irado e não alegre. Não sabia se o homem a soltaria ou quebraria seu pescoço. Com um gesto firme, Sr. Sesshoumaru retirou a safira de sua mão e também a guardou no bolso.
- Pegue a jóia agora se for capaz – murmurou com seu sorriso de predador.
Kagome lutou e esperneou, mas viu-se sentada no colo de Sr. Sesshoumaru.
- Largue-me! Sou apenas uma pobre menina que precisa de uma moeda para comer. Não tem pena? Sei que o bom Deus o recompensará se for piedoso comigo.
Fitou-o, esperando que não a mandasse para a cadeia. Nunca estivera lá, mas Myoga sim e lhe contara que era pior que as docas. Vermes rastejavam pelas paredes das celas e os mortos enterrados sob o solo fétido, gemiam e assombravam os outros presos
- Não é nenhuma criança minha flor e me parece um tanto refinada para ser batedora de carteiras. Por quê?
- Deixe-me ir! Por favor!
- E desde quando ladrões pedem um favor?
Por um momento analisou o rosto da jovem à sua frente. Nada parecia escapar ao seu olhar, desde a pele sedosa, as curvas suaves do corpo, até as cicatrizes e marcas nos braços e pernas, testemunhas de uma vida dura.
Decidiu então deixá-la ir. Era um homem ocupado e não queria perder tempo fazendo ocorrência na polícia, já que recuperara seus bens. Porém nesse instante uma voz soou muito perto.
- Taisho, mande Jaken levar essa vagabunda para prisão. Arruinou suas roupas.
Um homem não muito alto, que kagome só vira de costas, aproximara-se e deu-lhe um pontapé com a ponta da bota engraxada. Não conseguia ver seu rosto, sentada no colo de Sr. Sesshoumaru no chão, mas de modo instintivo tentou se afastar.
- Pode ser uma ladra, mas é uma mulher – replicou Sr. Sesshoumaru com voz irritada – Não é necessário usar violência.
- Bem, precisamos punir os criminosos, Taisho. Este lugar não é tão civilizado quanto Savannah.
Então Kagome ergueu mais o rosto e deu uma boa olhada no homem, sentindo o coração falhar.
Era baixo, mas tinha feições bonitas emolduradas por cabelos negros. Os lábios eram finos e um tanto cruéis, possuía um nariz aristocrático e os olhos cinzentos, pareciam muito conhecidos.
Kagome fitou-o com mais atenção e viu um leve tom avermelhado por trás do cinza das pupilas, como a marca de satã.
Abriu a boca e um frio percorreu sua espinha dorsal, como os dedos gelados da morte. Era Narak
Obs: Relembrando que estou tirando essa história de um livro de romance que li, quero agradecer a todos que estão acompanhando, em especial Joh Chan.
Qualquer dúvida é só me perguntarem e alguns nomes dos personagens do livro original eu mantive, pois terão participação misera.
Arigato!
