Cap 4 - Fugitiva

Um outro homem , enorme, postou-se a sua frente e Kagome deixou a adaga sobre a cama de palha. Com gesto brutal o homenzarrão a segurou pelos ombros, fazendo-a girar e ficar de frente com o outro invasor.

Era Narak, os olhos do diabo.

- Veio aqui para me matar também, doce primo Narak? - murmurou com a voz rouca de ódio. - Você e seu bando de assassinos? Lembro-me muito bem do último dia em Mhor. Covarde! Usando um exército contra duas meninas indefesas!

- Mas ficou provado que precisava de um exército maior, pois mesmo assim você escapou.

- E escaparei de novo!

- Ah! Porém desta vez deixou-se capturar de modo fácil! Desculpe por ter demorado tanto para encontrá-la, Kagome. Se soubesse que a encontraria nas docas de Nova Orleans teria deixado os negócios em Mhor e Londres muito antes.

Assim dizendo, Narak passou um dedo pela garganta de Kagome e depois limpou em um lenço.

Kagome tentou se afastar, mas o brutamontes continuava a segurá-la pelas costas. O gato continuava entre seus braços e ronronou de modo protetor.

- o que posso fazer por você, Kagome? Achei você através das prostitutas e dei-lhes algumas moedas. - Narak riu – Não simpatizam muito com você. É um falcão que voa contra o vento. Se não tivesse sido tão cabeça dura, quem sabe hoje estaríamos felizes em Mhor, eu, você e quem sabe Kikyo também.

Kagome desviou o rosto. Não queria pensar na irmã nesse momento.

Observando-a, Narak coçou a cabeça, de modo pensativo.

- Confesso que apesar de tudo o que aconteceu, sinto-me em falta com você. Quero dizer, houve um tempo em que pretendi torná-la minha...esposa.

Parou de falar de maneira significativa, deixando que suas palavras penetrassem no cérebro de Kagome e a fizessem estremecer.

- Se tivesse sabido naquela época...- disse Kagome com fio de voz.

- O quê? Se soubesse que pretendia matá-la junto com sua irmã teria se casado comigo? Oh! Que nobre da sua parte! Deve estar muito aborrecida porque não participei meus planos antes de realizá-los. Tudo seria tão diferente agora!

- Sim! É verdade! Porque o subestimei, Narak! E hoje sinto um remorso terrível pela morte de Kikyo. Poderia tê-la salvado se soubesse de suas intenções maléficas!

Narak voltou a falar de modo brando e acariciante.

- Não, minha querida. Se soubesse o que pretendia fazer, teria reagido como penso. Não se importaria com chantagem, cuspiria em meu rosto e mandaria me enforcar. - sorriu como um demônio. - Mas as coisas mudaram. O que acha de seu primo agora?

Deu um passo à frente, que a fez recuar de modo instintivo.

- Como pensava. - sussurrou Narak com frieza. Então de súbito segurou-a pelo queixo e a obrigou fitá-lo. - Diga-me uma coisa, como pode ser ainda tão arrogante e orgulhosa sob essa lama e sujeira?

Kagome ficou calada, não por empáfia, mas por um terrível medo que a sufocava.

- Poderia levá-la comigo de volta a Escócia, Kagome. Gostaria?

Soltou o queixo trêmulo da jovem e começou a caminhar de um lado para o outro, brincando com a ponta do paletó bordado com fios de ouro. Sua aparência faustosa era contraste na choupana miserável. Voltou-se de repente e a fitou deixando-a apavorada.

- Mas é claro. - continuou com um sorriso – Que precisaria primeiro cortar sua língua para que não revelasse os acontecimentos do passado. Entretanto podeira voltar para seu lar. Não seria tão mau assim e ninguém poderia chamá-la de tagarela.

Kagome continuou calada, enquanto o gatinho brincava com uma mecha de seus cabelos, alheio ao drama humano ao redor e querendo chamar atenção para o jantar que ainda não ganhara. Narak achou a situação divertida.

- O gato comeu sua língua querida? - soltou uma gargalhada, exibindo os dentes brancos e pontiagudos. - Bem, talvez essa não seja a solução ideal. Lembro-me que aprendeu a escrever, então teríamos que cortar suas mãos também.

Assim dizendo, segurou-lhe as mãos em um gesto bruto.

- Deixe-me em paz! - gritou Kagome.

- Vou lhe dar mais uma chance. Não quero matá-la. Seria um pecado eliminar uma criatura tão encantadora. Por que não pensa no seu pai? Teria apreciado nosso casamento. Afinal faço parte da família e ele me admirava. Tenho certeza que gostaria que tomasse conta de você.

- Meu pai tinha pena de você! Era o parente pobre! Deplorava sua falta de dinheiro e seus amigos imprestáveis. Foi por isso que lhe deixou a propriedade de caça de Mhor. Para lhe dar um teto! E no final você o traiu da forma mais torpe, matou sua filha e não passa de uma besta!

Sentia-se satisfeita por ter deixado a raiava explodir afinal. Como uma mola, levantou-se, mas o brutamontes a fez parar.

- Pequena vadia, sou e sempre fui o herdeiro de Mhor e não aquele trouxa do noivo de Kikyo.

- Inuyasha era um bom rapaz. Teria feito minha irmã feliz porque a amava de verdade.

- Mas eu também teria lhe dado felicidade, Kagome! E quando exauri todos os recursos gentis e resolvi partir para o plano extremo, sabia muito bem quem iria me dar trabalho no final. A gêmea morena, porém de algum modo quando a vi pela última vez correndo pelo outeiro, os cabelos ao vento e as saias esvoaçando, soube que iriamos nos encontrar de novo.

Um longo silêncio se estabeleceu na choupana, até que Kagome fez a pergunta que a martirizava havia muito tempo.

- O povo de Mhor...o que pensaram que aconteceu comigo? Não tinha dois corpos para provar que as duas irmãs haviam morrido no acidente.

- Dissemos que seu corpo caiu no lago. Ainda não desistiram e continuam a procurar seus restos. São supersticiosos como eu.

- E qual é sua superstição? Conseguiu tudo que desejava. Nem mesmo a ameaça do inferno o incomoda e impede seus planos!

- Não tenho tudo que quero. Falta você. E agora que a recuperei, sei que essa obsessão não é uma mera atração.

Narak acariciou-lhe a face, mas Kagome retrocedeu.

- Jamais me terá!

- Sei disso. - replicou Narak com tristeza. - Creio que sempre soube. - passou a olhar pela choupana paupérrima. - Mas, se não posso, ninguém poderá. E farei o trabalho agora mesmo.

Com um gesto felino agarrou a adaga na palha e a enfiou no cós da calça de cetim.

- É uma feiticeira querida. Sempre me fascinou, como a única coisa fora de meu alcance. E mesmo neste instante, coberta de lama e sujeira, esfarrapada e pobre, daria tudo para possuí-la. Mas...- fez uma pausa significativa e ajeitou as mangas rendadas, em um gesto displicente - ...Não me deito com cadáveres e já passou da hora de matá-la.

Sorriu de novo, mas era um gesto tristonho e desanimado. Por um instante esquecendo o medo Kagome observou que era um belo sorriso, porém não alcançava os olhos frios como gelo. Não havia emoção em Narak. Nada o entusiasmava, a não ser, talvez, a morte.

- Por favor! - gritou, quando Narak atirou a adaga para o brutamontes que a pegou no ar.

Girou como uma boneca de trapos e viu-se frente a frente com seu algoz, um homem gigantesco que sorria como um demônio.

A lâmina da adaga brilhou no lusco fosco e foi se aproximando de sua garganta. De repente o homem parou e fitou o chão.

Kagome acompanhou seu olhar e viu que Myouga se arrastara até eles e conseguira segurar um tornozelo do assassino. Seu pobre amigo reunira o pouco de vida que lhe restava para salvá-la mais uma vez.

- Mas...tinha certeza que Myouga já estava morto! - berrou o homenzarrão, dando um passo atrás.

Kagome mal acreditava no que via, porque também o julgara morto, porém perdeu tempo analisando a questão. A arma mortal ainda estava na mão do brutamontes que, distraído, fitava Myouga no chão. Com gesto rápido deu um safanão e libertou-se.

Ato contínuo, o homem desabou no chão e espantada Kagome viu que sua adaga se alojara no ventre do bruto.

- Narak...estou ferido. - gorgolejou o criminoso.

Entretanto a arma não penetrara com força e devia ter furado mais gordura que carne, refletiu Kagome.

- Cale-se idiota!

Antes que Narak pudesse tomar alguma providência, Kagome arremessou-se sobre o homem caído e arrancou a adaga de seu ventre, fazendo com que soltasse um grito pavoroso.

- Corra Kagome...corra...

Aos seus pés, Myouga sussurrava, porém ela não poderia deixá-lo. Ainda existia um sopro de vida no amigo.

Como a querer tranquilizá-la de vez, gemeu de leve e seus olhos ficaram vítreos, fitando o teto. Então Kagome soube que Myouga morrera.

Virou-se para Narak, empunhando a adaga mortal e começou a se esgueirar para a orta da choupana, pegou o gato nos braços e saiu correndo.

Mas cada passada sabia que era em vão. Estava descalça correndo na lama e seria vencida pelo primo, com suas botas de cano alto. Entretanto tinha uma vantagem sobre ele: conhecia a cidade como a palma de sua mão.

Então correu pelo cais até a rua de Bienville. Prostitutas disseram palavrões quando sujou suas roupas de lama, mas não parou de correr. Em breve começou a ver poucos transeuntes e soube que estava se aproximando do limiar da cidade. À distância viu um moinho banhado pela luz da lua.

Quando cruzou a última rua enlameada, correu ainda mais na direção do fosso inacabado que os escravos haviam cavado. Fora uma tentativa vã de prevenir ataques externos dos índios ou dos ingleses. No momento o longo fosso com água suja era o único obstáculo entre Kagome e a liberdade.

Se puder me ocultar nos pântanos, Narak jamais me encontrará, pensou. Rangeu os dentes ao entrar na água fria e lamacenta. Prendeu a respiração para não sentir o odor nauseabundo.

- Não tem para onde fugir Kagome!

A voz do primo soou às suas costas, enquanto Narak parava na beira do fosso. Como Kagome imaginara, ele não ousou entrar na água imunda, com medo de pegar alguma doença.

- Terá que voltar para a cidade ou morrer nos pântanos, meu amor! Não sobreviverá ali! Ninguém jamais sobreviveu, pelo que ouvi dizer. E, se voltar, eu a pegarei! Pedirei a meu amigo, Conde Cassel, que coloque cartazes pela cidade, pedindo sua captura pelo assassinato de Myouga! A polícia a encontrará para mim e mandarão que seja enforcada como uma criminosa comum! Vencerei! - Riu como um maníaco. - Lembre-se, minha bela, de qualquer modo vencerei!

Sem parar um só segundo, Kagome alcançou o outro lado do fosso. arrastou-0se para fora e sempre segurando seu gato, correu triunfante em direção da escuridão dos pântanos.

Bem, mais um cap.

To animada, pretendo postar o próximo ainda hoje.

Espero que estejam gostando.

Bjux.