Cap 6 – Delírios
- Morta? - perguntou Kouga, se aproximando.
- Não, está tremendo. - St. Taisho a fez girar e sob a luz da lua o rosto da jovem surgiu com clareza, fazendo-o prender a respiração. - É ela! A danadinha que me roubou no cais!
- Como pode ter certeza?
- Vê as sobrancelhas arqueadas? E as roupas? É ela, com certeza!
Sem cerimônia St. Taisho ergueu as saias úmidas e enlameadas e revelou um belo par de pernas. Presa à uma das ligas surgia a adaga de cabo negro.
Sem titubear tirou-lhe a arma.
- O que vamos fazer com ela? - quis saber Kouga.
- Era só o que me faltava!
De modo abrupto St. Taisho atirou a adaga nos pântanos.
- Então vamos deixá-la aqui.
- O que poderia estar fazendo nos pântanos? - perguntou-se St. Taisho, sem ouvir o companheiro. - Por certo não mora aqui. Narak disse que devia fazer parte das pessoas que habitam as choças perto do cais.
Cruzou os braços e estudou a forma feminina aos seus pés.
- Não sei por que está aqui, mas já entendi o que aconteceu com ela nos pântanos.
Assim dizendo, Kouga ergueu a mão de Kagome, onde duas marcas negras de presas surgiam a luz do luar.
- Uma cobra.
- Sim. A coitada está condenada. - Kouga suspirou. - Será que tem família?
Naquele instante Kagome começou a murmurar palavras desconexas.
- Não podemos deixá-la aqui. - disse St. Taisho.
- Não confio nela. - resmungou Kouga. - Lembra-me a bruxa que conhecemos em Edimburgo.
- Sim, diziam que podia lançar mau olhado. Mas era uma velha desdentada. Não pode comparar esta garota com...
interrompeu-se e admirou os cabelos negros, espalhados ao redor do rosto lindo e o arfar dos seios arredondados.
- Talvez também seja uma bruxa, afinal cortou sua mão.
- Bem, se sobreviver, irei pensar em um modo de castigá-la.
Assim dizendo, tomou-a nos braços e levou-a até o cavalo, enquanto Kouga pegava o gatinho preto que não saíra do lado da jovem desacordada.
- Que transtorno! - resmungou.
St. Taisho o fitou com um sorriso divertido.
- Quer trocar? Fico com o gato e você com a moça na garupa, mas previno-o que se acordar poderá arranhá-lo com mais força que um felino. Tenho certeza disso, porque sei como é selvagem.
Sem responder, Kouga montou com o gato no colo e continuaram a viagem.
- Que lugar abandonado! - comentou St. Taisho mais tarde na mesma noite, ao entrarem em um dos quartos da fazenda.
Após fazerem um giro por Belle Chasse ao chegar, constataram que era estilo colonial francês, com três amplos cômodos na frente e mais três nos fundos.
Na parte detrás da casa havia uma varanda e dois banheiros. Um grande porão servia de adega e de moradia para servos. Não existiam vestíbulos ou corredores e um cômodo se conectava ao outro e ao alpendre, que percorria toda extensão da casa. Por isso, a qualquer época do não, do vento mais forte a mais leve brisa, a casa era ventilada.
Entretanto St. Taisho estava concentrado nos defeitos da construção. As tábuas enormes de cipreste estavam carcomidas e sujas, o telhado devia apresentar muitas goteiras e as paredes mostravam rachaduras e manchas de umidade. O insulto final era o gancho enferrujado com o qual o antigo proprietário se pendurara no meio de um dos quartos, em uma viga sobre a cama.
O leito em si era muito bonito, com quatro colunas de nogueira e colocado bem no centro do cômodo. Uma colcha de brocado o cobria e um cortinado impedia que os terríveis mosquitos devorassem vivo quem dormia ali.
- O ex proprietário era um tolo de deixar a casa apodrecer assim e dormir numa cama tão luxuosa! Essa gente é louca! Sabem importar sedas caras, mas são incapazes de realizar um conserto na própria casa!
Assim dizendo, St. Taisho soltou uma risada.
- Não sei dizer o que penso. - resmungou Kouga. - Tudo nesta terra é muito estranho. Gatos pretos nos pântanos, colchas de cetim em um quarto de paredes descascadas...nada parece ser o que deveria.
St. Taisho aquiesceu com gesto de cabeça e os dois foram para a sala principal, onde tomaram o conhaque que Kouga trouxera em meio a pouca bagagem. Beberam em silêncio por um certo tempo e depois St. Taisho falou.
- Por falar em nada ser como deveria, fico imaginando por que Narak veio para Louisiana. Será por causa do conde? Ou haverá outro motivo? O negócio de láudano que os dois tinham degringolou quando os britânicos boicotaram os carregamentos que Narak trazia de Cantão, na
China.
Kouga não respondeu, pois conhecia St. Taisho e sabia que agora faria uma pausa, imerso nos próprios pensamentos, para reiniciar a conversa logo depois. E foi isso mesmo que aconteceu. St. Taihso tomou mais um gole e prosseguiu.
- Diga-me, de que negócios Narak foi tratar esta noite antes de comparecer a festa de Cassell? Poderia jurar que tinha sangue nas botas quando chegou. Parecia apenas lama, mas tenho certeza que não era só isso.
- Acha que andou lutando com alguém? - perguntou Kouga, apreciando o conhaque.
- Não sei. Se pudéssemos descobrir...
- Na minha opinião, deveríamos ter enfiado uma bala na sua cabeça quando o descobrimos em Londres. Teria sido menos um canalha no mundo.
- É preciso aprender a ser paciente, meu amigo. Como eu aprendi. Desse modo, quando por fim se consegue a vingança, é tudo bem melhor.
St. Taisho examinou o líquido âmbar no copo.
- Mas veja o preço que está pagando St. Taisho.
- Sim, olher para mim e me tome como exemplo. A imagem do jovem paciente. - a voz de Sesshoumaru soou zombeteira. - Se não fosse tão moço e impetuoso, jamais teria teria comprado você como escravo há dez anos. Foi uma aquisição muito estúpida. E o que foi mesmo que tentou fazer com o outro amo? Castrá-lo?
- Era cruel e dissoluto. Tenho as marcas das chicotadas nas costas para provar. - dardejou Kouga. - Além disso o velho nem tinha carne suficiente para ser cortada.
Os dois homens caíram na gargalhada.
- Pode ser. - disse St. Taihso por fim, tomando fôlego. - mas admita que foi estúpido da minha parte comprar alguém tão mau, feio e perigoso. Como a juventude é cega!
- Feio?! Olha quem fala? - riu Kouga – Mas provei ter valor!
- Sim. - replicou St. Taisho de modo breve. - Porém todas as manhãs acordo e verifico se estou com todas as partes intactas, pois posso tê-lo ofendido sem querer e …
voltaram a rir como duas crianças e só pararam quando ouviram o barulho de alguma coisa se espatifando.
- A moça já começou a dar trabalho. - anunciou Kouga com toda calma.
St. Taisho se empertigou na cadeira e então ouviram um grito apavorado, que os fez correr para o quarto onde a haviam deixado. Uma escrava jovem, pequena e frágil, entre muitas que haviam sido adquiridas com a fazenda, ergueu o rosto da cama onde tentava segurar Kagome, a garota dos pântanos. Um castiçal com uma vela jazia no chão, ameaçando pôr fogo nas cobertas a qualquer momento.
Kouga debelou as chamas com facilidade, abafando-as com as botas e St. Taisho aproximou-se da cama, a fim de ajudar a segurar a jovem esfarrapada e dlirante. Com firmeza agarrou-lhe as mãos, imobilizando-as sobre o colchão. Ela continuou se debatendo e lutando, mas pelo menos não iria mais ameaçar incendiar a casa.
- Quando foi que isso começou? - perguntou Sesshoumaru para a pequena escrava.
- Agora mesmo. A febre está muito alta. - replicou a moça, com voz trêmula.
St. Taisho voltou a fitar a forma feminina sobre a cama.
O suor banhava a testa suja e as faces estavam com um colorido intenso, que contrastava com a terrível palidez no resto do semblante contraído. Seus olhos estavam abertos, mas nada viam, as pupilas azuis e vítreas, cravadas nas paredes. St. Taisho tocou-lhe a face e sentiu que ardia em febre. Inquieto passou os dedos pelos próprios cabelos.
- O que acha que podemos fazer por ela? - perguntou para a jovem.
- Sou apenas Ayame, a cozinheira e não entendo nada disso, meu senhor.
Sua voz soou tímida e fraca, parecendo mais um coelho assustado que uma escrava.
St. Taisho tornou a olhar para a jovem febril sobre o leito, iluminada apenas pela luz da vela. Acalmara-se um pouco, mas seus lábios se mexiam, murmurando palavras desconexas, por certas induzidas pelos delírios causados pelo veneno.
O gatinho preto que estivera enrodilhado ao seu lado, eriçou os pelos ante aos dois homens, parecendo ter esquecido que fora salvo por eles e depois voltou a se sentar sobre um dos travesseiros.
St. Taisho viu que Ayame trouxera tirar de panos limpos e água fria da cozinha.
- Já que é cozinheira, não tem ervas que possam ajudar a moça? Aliviar sua dor?
Assim dizendo, voltou a lhe tocar a testa escaldante.
- Talvez possa ajudá-la.
Ayame enfiou a mão em um dos bolsos da saia.
- Faça o que puder. - encorajou St. Taisho com voz gentil. - Sei que pode ajudá-la.
A escrava aquiesceu com um gesto nervoso de cabeça e despejou algumas ervas amarelas em uma xícara, em seguida segurou-a sobre a chama da vela.
Parecia que nada mais podia ser feito para a pobre moça, então St. Taisho deu as costas e voltou-se para a porta de novo. Mas um grito angustiado o fez voltar. A tigela com água que a escrava trouxera espatifou-se no chão e a moça recomeçou a se debater.
- Chega!
St. Taihso segurou-a pelos braços outra vez, murmurando ao seu ouvido.
Fez um gesto para Ayame e Kouga. As tiras de pano serviram para amarrar os pulsos da doente nas colunas da cama.
Por fim ela voltou a se aquietar e quando St. Taisho pretendia deixar o quarto de vez, os olhos zauis adquiriram uma chama de compreensão e ouvi-a murmurar.
- Por favor...senhor...
- Sim? - replicou Sesshoumaru com curiosidade.
- Por favor...me ajude...
Tentou mover os braços em vão e frustrada, gemeu.
- Não quero morrer! Sou Kagome Higurashi.
Um soluço impediu-a de continuar.
St. Taisho tentou acalmá-la e aos poucos a jovem se aquietou de novo. Por longos momentos ficou ali parado, junto ao leito, fitando-a.
- Não me afeiçoaria tanto se fosse você.
A voz de Kouga quebrou o silêncio.
St. Taisho ergueu a cabeça com um repelão e fitou o companheiro.
- Nunca receie isso. - resmungou com frieza.
Deu meia volta, evitando olhar para os cabelos negros de Kagome, grudados em seu rosto suado e deixou o quarto.
Bem, mais um cap on.
Quero agradecer a todos que estão acompanhando.
Em breve mandarei mais um cap.
