Quênia, uma pequena vila perto do lago Turkana... Dez anos atrás.
Durante anos a vida nessa vila foi previsível e pacata. As pessoas recebiam turistas que visitavam o lago Turkana e a Cratera Nabiyotum em alguns períodos do ano ou cuidavam de rebanhos e do artesanato. Mas agora, era o pavor que tomava conta daquela pequena comunidade
Homens brutos usando estranhas armaduras haviam chegado ao local causando morte e destruição por onde passavam. Haviam reunido os moradores sobreviventes no centro da vila, todos esperavam temerosos sobre seu destino. Não sentiam esperança de serem salvos.
—Muito bem, seus vermes! –dizia um deles, enquanto os demais pareciam se divertir com o que acontecia. –Vou perguntar apenas uma vez! Quem é o líder dessa vila?
Os moradores se entreolharam com receio, até que uma idosa deu alguns passos para frente, se apoiando com uma bengala.
—Eu sou a líder. –disse a velha, parando os demais moradores que iam protestar por ela ter se revelado com um gesto de sua mão. –Diga o que deseja com nossa vila? O que podemos lhes oferecer?
—De vermes como vocês não posso esperar muito. –ele riu derrubando a idosa com um tapa.
A velha teve dificuldades para se levantar, até que um dos homens de negro a ajuda a se erguer.
—Maldição, moleque! –rosnou o líder. –Que merda acha que está fazendo?
—Se ela morrer, não vamos saber onde se esconde o pedaço da chave que procuramos para o mestre. –o rapaz de pele negra, com a aparência de ter apenas 13 anos, respondeu.
—Ele tem razão. –disse outro que recebeu um olhar furioso do líder do grupo.
—Tá certo. –ele cospe no chão. –Diga velha, onde está o túmulo do cavaleiro de Atena que foi enterrado nessa região? A única coisa que sabemos que é em algum lugar perto da cratera! Não quero perder tempo procurando embaixo de cada pedra daquele maldito lugar! Fale onde fica!
—Não posso dizer. –ela respondeu, atraindo a ira daquele homem. –O local sagrado do descanso de um cavaleiro de Atena deve ser respeitado. De nós, não irá saber.
Ele olha para os demais moradores. Não havia mais medo em seus olhares, estavam realmente dispostos a não revelar o local que aqueles homens procuravam.
—Então, vocês não me servem para mais nada. Matem todos!
Os soldados começaram a rir, adorando a ideia da carnificina. Os moradores da vila dão alguns passos para trás, certos de que aquele seria o último dia de suas vidas, quando os invasores param e olham curiosos na direção de um poderoso cosmo que se aproximava dali.
Um homem muito alto, que parecia um gigante, caminhava calmamente na direção do centro da vila. Imponente, trajava uma armadura dourada e olhava com crescente ira para aqueles invasores.
—Um cavaleiro de ouro? –um deles reconheceu o traje dourado.
—Sombrios aqui? –o cavaleiro indaga observando o grupo. –Pensei que haviam desaparecido juntamente com seus mestres anos atrás. Mas tudo bem. Eu, Aldebaran de Touro, vou enviá-los sem demora para o outro mundo. Será rápido, com tantos fracotes.
—Maldito! -Os Sombrios se sentiram ofendidos pelas palavras de Aldebaran. –Ataquem!
Um grupo grande avança ao mesmo tempo contra o Cavaleiro de Touro, que estranhamente permanecia calmo e parado onde estava, apenas de braços cruzados e olhos fechados. Quando de repente, ele os abre e fita seus adversários.
—GRANDE CHIFRE!
A energia liberada pelo Cavaleiro de Ouro repele os Sombrios com tanta velocidade e força que eles nem sequer conseguem desviar ou se defender. São arremessados com suas Darkness destruídas para longe.
Os outros, inclusive o homem que liderava o grupo, olhavam a cena com surpresa e medo.
—E-ele nem sequer se mexeu! Como é possível!?
O adolescente de pele negra, no entanto, olhava com admiração a cena. Ele sempre se destacou entre os seus e seu mestre Oizus dizia que havia dentro dele um grandioso poder. Talvez por ter um cosmo mais forte que os demais, Tafari conseguiu ver o que o Cavaleiro de Ouro havia feito. Ele se moveu tão rápido que olhos destreinados jamais conseguiriam acompanhar, enviando seu golpe contra os outros.
—Idiotas! Eu vou...
—Não vai fazer nada! –disse o rapaz, ficando na frente do líder. –Você não está no mesmo nível que o dele. Se o enfrentar irá morrer. Eu cuido dele.
—O que?
—Senhor! Ele está certo! –disse um outro Sombrio. —Ele é o discípulo do mestre Oizus e um dos mais fortes que o servem!
—Maldição! –dizia vendo o rapaz caminhando calmamente na direção de Aldebaran. –Não quero admitir, mas talvez só Tafari tenha poder aqui para enfrentar um Cavaleiro de Ouro!
Tafari caminha até o Cavaleiro de Ouro, que ainda permanece em pé, com os braços cruzados. Estes se encaram em silêncio por um longo tempo, até que Aldebaran é o primeiro a falar:
—Ora, ora... você é diferente dos outros! Mas é só um menino! Os Filhos de Nix estão recrutando crianças agora?
—Cavaleiro de Ouro, renda-se e terei piedade de você. –foi a resposta que o cavaleiro recebeu do garoto.
Uma sonora gargalhada divertida de Touro foi a resposta que conseguiu, irritando o Sombrio.
—Garoto, vá pra casa.
—Só depois de derrotá-lo!
—Normalmente eu não iria aceitar isso, mas... –Aldebaram cerra os olhos. –Irei lutar, em respeito a esse espírito guerreiro que possui. Mas a luta não será assim, de graça.
—O que disse?
—Eu vou te vencer, garoto. –ele estende a mão mostrando três dedos. –E para ter dar uma chance, farei isso em três movimentos apenas.
—Não seja idiota! –disse o rapaz, ofendido. –Jamais me venceria assim!
—Não acredita em mim? Então, faremos o seguinte. Se eu te vencer em apenas três movimentos vocês deixarão os aldeões em paz. Irão embora agora mesmo!
—Que idiota! –dizia o Sombrio, que liderava o grupo e assistia a conversa. –Nós não vamos...
—Eu aceito! –Tafari aceita, para a surpresa de seus companheiros.
—O que disse, moleque? –exclamou o Sombrio.
—E se você vencer? –Aldebaram pergunta.
—A velha vai nos levar ao Túmulo do Cavaleiro Sagrado. -A idosa permanecia calada e assente com a cabeça. –Ah, que surpresa! Ela concorda!
—Porque sabe que não perderei! –disse Aldebaram com inabalável confiança. –Você é mais jovem que um teimoso cavaleiro de Pégasus que enfrentei um dia. Mas tentarei não pegar pesado com você, como fiz com ele. Vamos!
—Que nos apresentemos primeiro, cavaleiro!
—Aldebaram, Cavaleiro de Ouro de Touro.
—Tafari, a Morte na Escuridão. –e eleva o cosmo ao máximo. –A Sua Morte!
Aldebaram continuava em sua mesma postura, apenas fitando o rapaz, analisando o poder de seu Cosmo.
"—Estranho... algo no Cosmo dele. Não é a Escuridão completa como imaginava."
No instante seguinte, Tafari investe contra Aldebaran. Ele permanece inflexível em sua posição, até sorrir de lado. O primeiro golpe de Tafari passa rente ao seu rosto, que desvia dele com incrível velocidade, a energia disparada pelo rapaz atingiu o solo adiante e causou uma enorme explosão, destruindo parte da área.
—Um... Você tem um cosmo descontrolado, garoto.
Tafari gira o corpo, ainda concentrando na palma da mão uma enorme cosmo energia, disparando-a contra Aldebaran, que se move fazendo uso de sua velocidade novamente.
—Dois... Aparentemente quem te ensinou a lutar é um péssimo professor!
Em seguida, Touro eleva seu cosmo e lança contra Tafari seu poderoso golpe.
—Três... GRANDE CHIFRE!
Tafari é atingindo, sem ter chance alguma de elaborar alguma defesa. Ele é lançado longe, com sua Darkness cheia de rachaduras, sem acreditar que havia encontrado um homem tão poderoso à sua frente, caindo ao chão e sem esboçar outra reação.
—Três movimentos. Eu o derrotei. –ele se vira para os demais Sombrios. –E agora vocês.
—É... é um monstro! –gritou um deles.
—Não faça nada, cavaleiro! –o líder do grupo apontava contra os civis a palma de sua mão, carregada de energia. –Se fizer algo Cavaleiro maldito, eles morrem!
—Malditos covardes! –Aldebaran fitou os Sombrios com indisfarçável desprezo. –Sempre fazem uso de táticas sujas para ganhar!
—Cavaleiro! –a idosa chama a atenção de todos. –Não se importe conosco! Faça o que deve ser feito!
—Cala a boca, sua velha! –gritou o líder dos sombrios. –Pare de falar asneiras! Quer morrer?
—O lugar sagrado onde repousa um dos Cavaleiros de Atena não deve ser profanado! –continuava a idosa, olhando para o líder inimigo com firmeza. –Todos aqui estão preparados para dar a vida para que esse lugar nunca seja encontrado por pessoas como você!
—Maldita seja! -o líder estava tremendo, nervoso. -Quer morrer por ossos velhos?
—Você não entenderia. –disse a idosa para o rapaz com serenidade. –Não são apenas "ossos velhos" para nós.
—Mesmo assim... –diz Aldebaran, relaxando em sua pose de batalha. –Tenho certeza que aquele cavaleiro não iria querer que vocês dessem suas vidas assim.
—Hahahaha! Finalmente percebeu que não pode nos vencer! –o líder inimigo dizia se regozijando, depois volta a sua atenção à idosa. –Velha intrometida! Você servirá de exemplo para todos! E deem por satisfeitos por somente te matar!
Ele dispara sua cosmo energia contra a idosa.
—Não!
Grita Aldebaran correndo na direção deles. A idosa esperava seu fim com serenidade, os moradores da aldeia fecham os olhos esperando o pior enquanto o inimigo gargalhava. De repente, ele se cala e fica surpreso com o que presencia.
—Mas... o que?
A velha moradora da vila se surpreende ao ver que o rapaz, que até poucos minutos atrás estava enfrentando Aldebaran, segurava em suas mãos a cosmo energia liberada contra ela. Então ele joga a energia com um gesto da mão direita para longe, que ao atingir o solo causa uma grande explosão.
—Q-que? Maldito! Traidor!
—Não... há honra nisso... –disse o rapaz, antes de cair ajoelhado ao chão pelo esforço que havia feito para impedir o assassinato dos reféns.
O líder inimigo amaldiçoa o rapaz, mas para quando emerge sobre ele uma grandiosa sombra e um cosmo furioso. Com temor olha para trás e uma enorme mão se fecha em seu rosto com dedos de aço.
—Odeio covardes! –disse Aldebaran, jogando com grande força aquele homem contra o chão de cabeça, segurando-o firme. –Aprendam a respeitar os mais velhos!
O impacto cria fendas no chão, e quando o cavaleiro de touro retira sua mão, o inimigo estava morto com uma expressão de puro horror no rosto e olhos vazios, devido ao impacto no crânio desprotegido. O poderoso cavaleiro de Touro fita com frieza os demais soldados inimigos, que trêmulos de medo, temendo por suas vidas, saem correndo o mais rápido que podiam daquele lugar. Todos... menos um.
O jovem chamado Tafari, permanecia ajoelhado, sem forças, olhando entre o terror e a admiração para Aldebaran. Aquele homem que ele derrotara era um grande covarde, mas era um dos mais fortes que serviam ao mestre Oizus e fora derrotado com um simples golpe. Ele mesmo, um dos pupilos do mestre Oizus, havia sido derrotado facilmente em três movimentos.
Tafari sorri. Se fosse morrer seria encarando a morte sorrindo.
—Vá pra casa, garoto! –foi o que Aldebaran disse, para a surpresa do rapaz. –Você ainda tem salvação.
Ele ficou parado, sem reação alguma diante das palavras do Cavaleiro de ouro.
—Mas... mas eu sou seu inimigo! –disse o garoto, ainda não acreditando e vendo Aldebaran lhe dar as costas, sendo acompanhado pelos moradores da aldeia. –EI! VOCÊ!
Aldebaran olha por sobre os ombros.
—NÃO PODE ME IGNORAR ASSIM? COMO PODE FINGIR QUE NÃO SOU SEU INIMIGO? POR QUE NÃO ME MATA?
—Inimigo? Te matar? –Aldebaran dá uma risada. –Só vejo uma criança confusa, e que ainda não percebeu que as Trevas não é seu caminho. Você tem honra. Vá pra casa, garoto! Sua família deve estar te esperando. Você não merece a morte.
E em seguida vai embora. O rapaz fica ali parado por horas, no mesmo lugar sem saber o que fazer, e com as palavras do cavaleiro em sua mente.
"—Só vejo uma criança confusa... Você tem honra..."
Ele olha para a própria mão.
—Honra? Fizemos a escolha certa, avô?
E então, em seguida, fecha o punho e olha na direção que o Cavaleiro de Ouro havia tomado, com dificuldades se ergue e começa a segui-lo. Deixando pelo caminho a cada passo dado, pedaços de sua Darkness semidestruída. Sem olhar para trás, como se ela fosse apenas um pedaço de lata sem valor.
x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
Aldebaran caminhava na direção indicada pelos moradores da aldeia como sendo o local que em eras atrás repousava um Cavaleiro de Ouro dos primórdios do Santuário. Um dos lendários que lutou ao lado de Atena nas primeiras Guerras Santas.
Usando roupas civis e carregando sua urna no ombro e uma mochila em uma das mãos, Aldebaran caminhava pelo deserto. Conta a lenda local que um Cavaleiro dourado deu a sua vida lutando contra um deus, para que um grande mal não fosse libertado. A luta teve como testemunhas três irmãos, que dizer, serem os ancestrais dos moradores dessa região em tempos remotos, que ouviram o último pedido do cavaleiro e o enterraram no vale com um objeto especial. Uma chave.
Os três irmãos guardaram segredo do local onde enterraram o homem, cientes de que o futuro da Terra dependia disso. O segredo do local sempre fora passado de geração a geração para os líderes da aldeiam que descendiam deles.
O Santuário desconfiava das ações do inimigo em vários lugares do planeta. Pareciam que procuravam algo. Até que tiveram acesso a uma importante informação de que procuravam artefatos antigos e que um deles estaria aqui. Por essa razão, Aldebaran foi enviado para recuperar o artefato antes.
Não conseguiu deixar de lembrar das palavras de Mu de Áries antes de partir do Santuário.
x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
Santuário. Salão do Trono do Patriarca.
Mu de Áries havia assumido a posição de Conselheiro do Grande Mestre logo após uma guerra ter sido iniciada anos atrás entre o Santuário e os chamados Filhos de Nix. Uma guerra cruel, que tem vitimado ambos os lados de modo violento.
Frequentemente, o homem que foi o guardião da primeira casa por anos, pensava sobre os acontecimentos, e ao fazer isso instintivamente levava a não esquerda ao local onde antes existia seu braço direito, perdido em uma luta sangrenta.
—Aí está você. –a voz de Aldebaran o retira de seus pensamentos sobre o passado. –Me falaram que se não estivesse aqui, talvez estivesse enfurnado em Star Hill. Aprendeu a ler estrelas agora?
—É um dom que ando praticando. –Mu sorri serenamente. –As estrelas tem muito a nos dizer. Batalhas terríveis se aproximam.
—Acredito que sim. O que quer conversar, Mu? Tenho que me preparar para aquela missão na China e...
—Shiryu e Shun foram para a China. –Aldebaran parecia não entender. -As estrelas me falaram que você deveria ir para outro lugar.
—As estrelas lhe disseram? –Aldebaran perguntou um tanto cético. –E lhe disseram o que?
—Você tem uma missão importante em outro lugar. E vi que outra estrela aguarda para brilhar com a ajuda da Gigante Aldebaran. –falou sorrindo.
—Como é? Olha, melhor não me falar o que é. Onde devo ir?
—Quênia.
Mu respondeu e lhe deu detalhes da sua missão, e Aldebaran partiu logo em seguida. Aldebaran havia entendido a analogia da estrela renascendo com a ajuda da maior estrela da Constelação de Touro.
Significaria que ele encontraria em sua viagem um sucessor. Alguém que vestiria a sua Armadura dourada um dia e seria digno de usar o nome de Aldebaran futuramente.
x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
As lembranças daquela conversa o abandonaram no momento que voltou a pensar nos acontecimentos dessa manhã, agradecia aos deuses por ter sido enviado e chegado a tempo de impedir uma chacina sem sentido, mas não conseguia de parar de pensar no garoto com quem lutou. Aquele olhar que parecia de uma criança perdida o incomodava e não saia de sua mente.
No entanto, algo a mais lhe incomodava naquele momento. Olhou para trás e avistou ao longe a figura de uma pessoa que o acompanhava a certa distância. Reconheceu o cosmo daquele garoto que desafiou seu superior e defendeu uma inocente de um ataque covarde.
—Mas o que ele quer, afinal? –se perguntava, voltando à sua caminhada.
Caminhou mais um bom tempo e parou para descansar sentando no chão, já que generosamente uma nuvem cobria os raios do sol. Aquela região era desértica e a vegetação local era composta por gramas apenas, não haviam sombras já que por uma grande extensão haviam só aridez e areia. Nenhuma árvore... nada. Somente encontraria sombras projetadas de grandes rochas quando se aproximasse da cratera.
Na mochila que carregava, retirou uma garrafa d'água para saciar a sede. Depois de beber praticamente todo o seu conteúdo teve a curiosidade de olhar para trás e avistou o mesmo rapaz há centenas de metros de distância dali, e parecia que andava cambaleante.
—Que droga! Andar nesse lugar sem água é suicídio, garoto! –resmungou e cruzou os braços. –Não devia me preocupar, não é assunto meu. Ademais, ele era do lado do inimigo.
Depois apoiou o cotovelo na perna e a cabeça na mão, pensativo. Apenas observando o rapaz de longe, com passos vacilantes.
—Aquele pivete deve ser doido. –disse como se conversasse com a urna da armadura. –Bah!
Então o viu cair no chão. Ergue-se para ver melhor, e percebendo que o rapaz não se mexia, deu um suspiro e caminhou até ele.
x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
Era noite quando Tafari abriu os olhos e fitou o céu cheio de estrelas. Em seguida percebeu que a cabeça estava apoiada em uma mochila e um cobertor fora usado como um leito improvisado. Olhou para o lado e viu Aldebaran alimentar as chamas de uma fogueira, sorrir para ele acenando.
—Garoto, você é duro de morrer! –ele riu, sentando no chão com as pernas cruzadas, fitando-o. –O que tem na cabeça andando no deserto ferido daquele jeito, sem água? Quer tanto assim me matar?
—Eu... –Tafari pisca algumas vezes e senta na cama improvisada, ficando de joelhos e encostando a cabeça no chão em seguida, para o espanto do cavaleiro. –POR FAVOR, ME ACEITE COMO SEU DISCÍPULO!
—Hein? –Aldebaran apontou para o próprio rosto. –Meu discípulo?
—Por favor... –Tafari dizia sem erguer o rosto. –Me ensine a ser um homem de honra, como você!
—Pensei que era fiel a sua deusa das trevas. –comentou o cavaleiro, cruzando os braços e fitando-o severamente.
—Eu não sei mais no que acreditar... achava que era o caminho certo. Era o único que eu conheci desde que era menino... mas vendo tantos atos indignos daqueles que julguei meus companheiros, de meu professor... eu... eu não quero ser assim. Ser como eles seria me igualar aos homens que mataram minha família! Sei que meu avô teria vergonha do que me tornei.
Houve um silêncio pesado depois das palavras do rapaz, quebrado apenas pelo som que ele produzia tentando segurar as lágrimas em vão. Aldebaran analisava o garoto diante dele, não conseguia enxergar falsidades em suas palavras, ele mesmo conheceu pessoas que trilhavam o caminho da injustiça em seus anos como Cavaleiro, homens que traíram a deusa Atena, que se arrependerem de seus atos e se tornarem homens dignos de confiança. Mas precisava ter certeza.
—Por que salvou aquela idosa? –perguntou de repente, fazendo o rapaz erguer o olhar para ele.
—Eu... –ficando corado.
—Pode falar.
—Ela... era parecida com a minha avó... –murmurou, como se revelar isso fosse constrangedor.
—Isso é sério? –Ele confirmou com a cabeça e Aldebaran o fitou e começou a gargalhar em seguida, deixando-o muito sem graça.
—PARA DE RIR DE MIM!
—Realmente... você tem alguma salvação. –ele fica em pé e fita o garoto. –Mas não sou tolo. Não confio em você. Para mim pode ser que mente e tentará me matar enquanto durmo.
—Eu não vou...
—NÃO TERMINEI DE FALAR! –diz com severidade. –Só você vai me mostrar se realmente quer trilhar o caminho certo.
—Sim. Eu vou!
—Qual é mesmo seu nome, garoto? –perguntou sem graça, de repente.
—Sério que não se lembra nem do meu nome? –indignado. –Eu ainda lembro que se chama Aldebaran de Touro.
—Sou bom com rostos, não com nomes. –Aldebaran se defendeu.
—Tafari! Sou Tafari, a Morte...
—NÃO! –Aldebaran o cortou imediatamente. –Essa alcunha não é mais sua. Você é somente Tafari agora.
Aqueles homens ficaram se encarando, Tafari concordou com as palavras de Aldebaran com um aceno afirmativo de sua cabeça.
Aquele era o primeiro passo para deixar o homem que foi um dia para trás e andar pelo novo caminho que escolhera. Mesmo que fosse por uma estrada cheia de obstáculos e lágrimas.
Então, o som do estomago de Tafari roncando quebrou o momento de seriedade, deixando o rapaz corado de vergonha.
—Tá com fome? –Aldebaran pergunta sério.
—Morrendo... –Tafari cai de lado, com as mãos no estômago, salivando. –Posso comer um pedaço de carne? Ou dois?
—Não trouxe tanto! –Aldebaran se desespera pensando que a comida não seria suficiente para ambos passarem alguns dias ali, mas se deixa vencer diante do olhar cheio de piedade do garoto. –Ah, droga! Eu reparto minha comida com você.
—Obrigado, sensei! –agradeceu, avançando na comida e quase se engasgando com um pedaço de pão com carne.
—Hunf... Come devagar! Garoto, só por curiosidade... qual é seu signo?
Aldebaran pergunta, lançando um olhar para os céus estrelados e vendo o quanto a sua constelação parecia brilhar mais intensamente.
Tafari parecia não ter entendido a pergunta, engole um pedaço grande de carne, se obrigando a beber generosamente a água para terminar de engolir antes de responder.
—Signo?
—É, quando nasceu?
—Dia 2 de maio, senhor!
Aldebaran começa a gargalhar, olhando para as estrelas em seguida.
—E não é que a visão do Mu pode estar certa?
Continua...
Notas finais
Notas:
Cratera Nabiyotum: É um vulcão que fica no sul do Lago Turkana, o maior lago alcalino do mundo com 6,405 km². O Lago Turkana, conhecido antigamente pelo nome de Lago Rodolfo, fica no Grande Vale do Rift, na fronteira entre Etiópia e Quênia. Tem as mesmas dimensões do território do Líban maior lago alcalino do planeta. Também é referido por muitos antropólogos como o berço da humanidade, devido à abundância de fósseis hominídeos encontrados no local.
Sombrios: Designação dada aos soldados que servem Nix e seus Filhos.
Darkness: A armadura usada pelas Sombras.
