Notas do Autor
Betado por Elys.
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O túmulo do cavaleiro lendário não estava no local citado pelos moradores, fazendo Aldebaran questionar se as informações eram corretas e se não era um mito apenas.
—Esse sepulcro não deve nem existir. –dizia a si mesmo, olhando a imensidão vazia da cratera e nenhum sinal que indicasse onde estaria o túmulo, coçando a nuca desanimado. –Ah, cara... achar isso vai dar um trabalho!
—Não imaginou que algo tão valioso quanto a chave estivesse à vista, não é? –perguntou Tafari ao cavaleiro.
—Francamente, sim. –sem graça.
—Lembro que o mest... quero dizer, Oizus falava sobre os locais onde as chaves estavam. –dizia Tafari. –"Por capricho de Cronos, estão aqui, mas não estão."
—O que ele quis dizer com isso?
—Não faço muita ideia. Só sei que eles acharam uma chave, mas levaram séculos para isso, porque foi guardada em um local que pessoas normais ou até mesmo outros deuses teriam dificuldade em chegar.
—E como diabos o Dohko e o Mu querem que eu ache algo assim? –coçando a nuca. A informação desagradou Aldebaran. Significava que o inimigo estava um passo à frente do Santuário.
—E pergunta para mim? –cruzando os braços, com expressão de paisagem no rosto.
—Três chaves. –comentou Aldebaran. –Três chaves mantem Nix confinada em outro mundo. Lembro que o velho Dohko contou sobre essa história. Nix cansou de viver nas sombras e resolveu sair do fundo das Trevas para tomar posse dos Céus, da Terra e do Submundo. Ela era uma deusa que até Zeus, Hades e Poseidon temiam e respeitavam. E pela primeira vez desde a batalha contra Cronos, os irmãos se uniram para deter um inimigo em comum.
—Oizus me contou essa história também. –disse Tafari observando a cratera. –Ele se refere a seus irmãos e irmãs que ficaram do lado dos olimpianos com desprezo, e que foram derrotados, banidos do convívio dos outros deuses. A deusa Nix exilada e aprisionada. Dizem que a balança só pendeu pro lado dos Olimpianos porque Atena entrou na batalha com seus cavaleiros.
—Isso explicaria a raiva que eles tem do Santuário. Causamos esse efeito em deuses malucos. –Aldebaran gargalhou. –Mas não explica porque os deuses que foram banidos retornaram justo agora.
—Foram chamados. –disse Tafari. –Ao menos foi o que ouvi falar.
—Chamados por quem?
Tafari sentou no chão, observando a cratera com mais atenção.
—As últimas batalhas de Atena. –o rapaz explicava. –Houve um desiquilíbrio na balança, como disse Oizus. Hades e Poseidon perderam as suas guerras santas. Éris, Thanatos e Hipnos derrotados. Isso fez Nix despertar em seu exílio. Ela pode ser uma deusa cruel, mas é mãe e ela sentiu as mortes de seus três filhos.
—E isso foi o suficiente para ela querer sair e se vingar de Atena e do Olimpo. Bom, mas para garantir que isso não aconteça três chaves foram confiadas a cada um dos deuses supremos. Hades levou sua chave para o Elíseos, Poseidon a confinou no lugar mais profundo do oceano e a terceira chave ficou sobre a proteção de Zeus.
—Sim. Mas, mestre Aldebaran, com a derrocada de Hades e Poseidon...
—As chaves ficaram sem proteção. Diga-me, Tafari. A chave que está com o inimigo foi retirada de onde?
—Segundo ouvi, de um templo de Poseidon no fundo do oceano.
—Certamente se aproveitaram do fato dele ter sido confinado por Atena novamente anos atrás. –Aldebaran colocou as mãos na cintura. –Bem, temos que pegar de volta essa chave desaparecida que era para estar com Zeus e levá-la para o Santuário, já que o "rei dos deuses" não teve capacidade de cuidar dela.
—E tem uma terceira. –o rapaz advertiu.
—Deve estar no Elíseos, onde Hades residia. Não vai ser fácil pegá-la, nem mesmo para o inimigo.
—Senhor! –Tafari apontou para o centro da cratera. –Está vendo aquilo?
Aldebaran olhou na direção apontada pelo garoto e notou um pequeno brilho dourado vindo do centro da Cratera, certamente o local onde foi o ápice da batalha de outrora.
—Aquilo é..? Sinto um cosmo muito fraco...
Sem pensar duas vezes, Aldebaran salta para dentro da Cratera, deixando sua urna para trás, sendo seguido pelo seu jovem companheiro. Com cautela, se aproxima do estranho brilho que parecia uma pequena chama dourada. Ele estende a mão para tocá-la e a chama cresce e toma a forma de uma pessoa diante de seus olhos espantados.
A imagem etérea de um rapaz de dreads castanhos, cavanhaque, tatuagens no braço direito e usando uma armadura dourada de sagitário apareceu diante deles, sorrindo. Ele começou a falar e Tafari não compreendia o que ele dizia.
—Senhor Aldebaran?
—É grego antigo, Tafari. Ele se apresentou como Kheíron, Cavaleiro de Ouro de Sagitário da antiguidade. –Aldebaran sorriu. –Está diante do cavaleiro de ouro que enfrentou um deus nesse lugar para esconder e proteger a chave com sua vida.
—Ele é um... fantasma? –o rapaz pareceu assustado com a possibilidade.
—Está com medo? –Aldebaran o fitou admirado e depois deu um sorriso maligno. –Vou te apresentar um camarada meu chamado Máscara da Morte. Acho que ele vai te ajudar com esse medo de fantasma.
—Não brinca com isso, senhor Aldebaran! –o rapaz irritou-se. –Minha avó dizia para nunca brincarmos com o Outro Lado!
—Ele não é um espírito maligno. –Aldebaran fitou Kheíron, que lhe dava as costas, caminhando em uma certa direção. –Despertou ao sentir a presença de outro cavaleiro de ouro e está querendo me mostrar algo. Vamos.
O cavaleiro de Touro começou ir pela mesma direção que aquele ser etéreo havia tomado, Tafari mesmo sentindo calafrios resolveu segui-los, pois não desejava ficar ali sozinho.
Notaram que o espírito de Kheíron parou de caminhar e os fitou, então ele é envolvido por uma luz intensa e imagens da notável batalha que foi realizada ali surgiram. Demorou um tempo para Aldebaran perceber que eram as lembranças do falecido Sagitário, que compartilhava com o companheiro de armas dessa era, os seus últimos momentos. Aldebaran não conhecia o homem contra quem Kheíron travava uma batalha até o limite, até ouvir Tafari murmurar seu nome com medo:
— Stygere...
Kheíron estreitou o olhar na direção de Tafari e novamente uma luz intensa tomou conta do local, obrigando os dois a protegerem os olhos. Quando os abriu novamente, Aldebaran notou que estava em um lugar de luz ao lado de Kheíron e Tafari não estava próximo.
—Onde está o menino? –ele perguntou imediatamente ao outro, em grego antigo.
—Ele possui laços com o inimigo, por que está em sua companhia? –respondeu com uma calma assustadora. –Não posso dizer-lhe onde está a chave, tendo esse jovem ao seu lado.
—Tafari tem nobreza em sua alma. –dizia Aldebaran. –Ele me procurou em busca de orientação, acredito que pode ser um homem de valor. Bastar lhe dar essa chance.
—Talvez sim, talvez não. O teste dirá se ele deve viver.
—Que teste? –Touro teve um péssimo pressentimento.
—Vou testar seu coração. Se for honrado como diz, viverá. –diz cerrando os olhos. -Se usa seu bom coração e o está enganando, cavaleiro de Touro... –os abre, revelando uma frieza assustadora. –Ele morrerá.
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Tafari abriu os olhos com cuidado, sua visão ainda estava turva, mas aos poucos foi reconhecendo formas e figuras diante de si. Eram imagens nostálgicas de sua infância, a rua onde brincou, as mesmas casas, prédios, carros e pessoas que um dia fizeram parte de sua vida.
As pessoas conversando sobre as eleições daquele ano, os conflitos étnicos que assolavam a região, as crianças correndo, rindo e brincando pela rua, tudo era terrivelmente familiar.
—I-impossível! –murmurou contendo a surpresa. –Estou em Nairóbi?
—Tafari! Sirhan!
O jovem sente um arrepio ao ouvir a voz feminina conhecida, e lentamente se vira com os olhos arregalados ao ver no fim da rua a delicada figura feminina de uma jovem mulher, usando o mesmo vestido azul, com a qual vira pela última vez, tentando conter a emoção ao rever o rosto dela novamente.
—Mãe?
Duas crianças passaram ao seu lado correndo, um deveria ter seus dez anos de idade e o menor mal fizeram seis e atenderam rapidamente o chamado de sua mãe.
—Olha a cor de vocês! Vão se lavar para almoçar, que seus avós chegaram!
Ao ouvirem aquilo, os dois meninos correram na direção da sua casa.
—A calçada quebrada!
Tafari diz alto, no instante em que o menino menor tropeça na calçada desnivelada e cai ao chão, cortando o cotovelo nas pedras e começando a chorar alto. Por instinto, Tafari toca o local que até hoje existe uma pequena cicatriz desse incidente.
—Tafari! –a mãe se ajoelha ao lado do menino, tirando o lenço que enfeitava os cabelos encaracolados e providenciando um curativo para que o pequeno parasse de chorar. –Pronto, pronto. Mamãe vai cuidar de você, meu pequeno sapeca!
Em seguida, ela o pega no colo, antes de seguir o caminho de volta para casa.
—Não chore mais, meu pequenino. Mamãe está aqui com você, sempre!
O rapaz observava a cena, com o rosto banhado em lágrimas, devido àquelas lembranças.
—Por que está me torturando assim? Me fazendo lembrar desse dia? –perguntou, olhando para o lado e vendo a figura de Kheíron, que parecia espantado por ter sua presença notada pelo jovem. –Foi o dia em que perdi minha família...
Kheíron nada diz.
—Não voltei ao passado, não é? São apenas minhas lembranças?
Como não obteve resposta, deu as costas ao espírito e caminhou até parar diante da sua antiga casa e se aproximou da janela, revendo a cena familiar, onde o nome de sua família, os Madegwa, estava escrito na caixa do correio feita de maneira improvisada pelo pai, um funcionário da prefeitura. Seus pais, seus avós e seu irmão. Viu sua versão mais jovem no colo da avó, que o mimava devido ao machucado recém adquirido.
—Vai estragar o menino, Kezia. –dizia o idoso, sério.
—É meu neto mais novo, Abo. –a velha o repreendeu. –Se eu não puder mimar o filho mais novo de minha filha, pra que virei avó?
—Auma, sua mãe o coloca perdido. –o idoso se vira para a filha e nota o semblante preocupado do genro. –Malik, algo errado? O que o preocupa?
—Vou vender essa casa e me mudar para longe da capital. –disse o homem, seriamente. –Esse bairro, essa cidade. Este lugar não é um lugar bom para meus filhos crescerem, Abo. Outro dia, outras pessoas foram mortas pelas gangues. Eu os conhecia, era dois bons homens que foram mortos porque falaram mal do Governo!
—Malik... –a mãe parecia preocupada. –Você não tem certeza de que foi por isso que morreram.
—Não acha coincidência serem mortos depois de darem aquelas entrevistas? Eu também falei com aqueles repórteres, Auma.
—Você havia me prometido que ficaria longe dessas brigas políticas!
—Eu trabalho para o prefeito! É impossível não ver o que está errado!
—Malik! Você prometeu!
—Meu genro. –a idosa notou o quanto o genro estava aflito. –Acha que fariam algo contra você?
—Eu temo que sim. –um pesado silêncio tomou conta do lugar. –Quero que pegue os meninos e vá com seus pais para a casa deles em Buuri, Auma.
Auma pensa em continuar a discussão com o marido, mas diante do olhar dele decidiu que era melhor ficar quieta e fazer o que ele havia lhe pedido.
—Não tenha medo, mamãe. –Sirhan começa a falar. –Vou tomar conta de você e do Tafari!
—Meu pequeno guerreiro! –o pai o pega no colo. –Prometa mesmo que vai cuidar do seu irmãozinho!
O menino assente com um aceno de cabeça e o pai sorri satisfeito. Da janela, Tafari a tudo observava.
—Tafari, vem cá. –o pai o chama e o menino desce do colo da avó e vai até ele. –E você, seja sempre bom. É inteligente e sei que vai aprender coisas boas e se tornar um bom homem!
—Sim! –disse o pequeno sorrindo.
—Use tudo o que aprender para ajudar as pessoas, está bem? –sorriu e olhou para o mais velho. –Os dois façam isso, está bem?
—Sim! –responderam os dois meninos ao mesmo tempo.
—Não deu tempo de irmos para Buuri. –comentou, sentindo a presença de Kheíron. –Os mesmos homens que faziam trabalho sujo para o Governo vieram a noite e mataram a todos.
Como se suas palavras tivessem algum efeito, as imagens de sua família na sala são substituídas por um cenário de horror agora. Seus pais e avós mortos no chão, sangue para todos os lados, um grupo de homens com expressões malignas sorriam satisfeitos com o que haviam feito, exibindo facões de onde o sangue de seus entes queridos respingavam. Sirhan tentando a todo custo manter Tafari atrás de seu corpo, numa vã tentativa de protege-lo. E o pequeno, não conseguia se mover, tomado pelo pavor e choque.
—O chefe disse sem testemunhas. –um dos homens apontou as crianças com o facão.
—Sem testemunhas. –o outro confirmou e todos começaram a rir.
—S-Shirhan. –o pequeno segurou firme na camisa do mais velho, que pegou sua mão, forçando-o a soltá-lo. Tafari olha para o irmão mais velho.
—Tafari, quando eu gritar sai correndo pelos fundos e se esconda bem longe de casa! –ordenou, olhando determinado para o grupo de assassinos.
—Irmão?
—Vai ficar tudo bem. –Sirhan sorri para ele. –Vou estar atrás de você, mas não pode olhar para trás. Tem que correr sem parar!
Tafari concorda com um aceno de cabeça, mas não se move quando o irmão corre na direção do grupo, empurrando um deles e ordenando que saia correndo. Estava em choque e suas pernas não se mexeram quando um dos assassinos fez um arco com o facão, provocando um corte enorme nas costas de Sirhan. Tafari grita quando ele cai ao chão, a camisa cheia de sangue nas costas.
—Vamos acabar logo com isso! –um deles ordenou, pronto para desferir o golpe final no menino caído, mas são detidos ao perceberem a chegada de mais alguém. –Quem está aí?
Nisso Tafari nota que eles se referiam a ele, jovem e parado na porta de sua casa. O cenário não parecia mais ser apenas uma lembrança.
—M-moço... socorro. –dizia o pequeno, olhando para sua versão mais velha.
—Matem ele! Sem testemunhas! –ordenou o que mantinha Sirhan aos seus pés.
Quando ia reagir aquele ataque, de dentro de seu corpo emerge a figura de um homem que sorria malignamente para o grupo. Ele usava vestes negras, longos cabelos lisos e cinzas e olhos prateados, e com um sorriso de deboche nos lábios.
—E pensar que acharia algo de interessante nessa cidade decadente! –dizia, segurando um dos atacantes pelo pescoço quebrando-o com enorme facilidade, jogando o corpo ao chão como se fosse lixo. –Senti por um instante o fulgor de um cosmo. Vem desse menino ferido aí. Sabe, é raro achar pessoas com cosmos latentes assim, seria um desperdício permitir que o matem agora!
—Vai ficar preso nessa ilusão por quanto tempo, Tafari? –o homem se vira para a sua versão mais velha, e todo o cenário parecia congelar. –Eu não o salvei naquela noite achando que fosse tão fraco.
—Oizus? Realmente está aqui? –Tafari dá um passo para trás, surpreso.
—Mestre Oizus! –ele o repele com seu cosmo, jogando-o até o lado oposto da rua. -Sou um deus, esqueceu meu "filho" ingrato? Seu deus, seu mestre!
Tafari se ergue com dificuldade e vê Oizus se aproximando, rindo quando de repente todo o cenário é consumido por chamas.
—Ah, aquela noite me traz boas lembranças. –o deus dizia caminhando até ele. -Lembra que eu matei aqueles homens e levei você e seu irmão comigo? Eu o treinei, eu o acolhi, eu o tornei um poderoso guerreiro! Como poderia imaginar que pagaria minha bondade com tamanha traição! Andando com um maldito Cavaleiro de Atena?!
Oizus faz com que seu cosmo explodisse em fúria, se tornando uma figura assustadora ao reaparecer com sua armadura.
—Mas eu sou generoso, Tafari. Não posso simplesmente ignorar todos os anos que gastei com você, tornando o que é hoje. –ele estende a mão na sua direção. –Vem comigo, eu o perdoarei. Basta me aceitar novamente como seu mestre e matar aquele cavaleiro de ouro!
Tafari o fitou e lembrou-se de todos os anos que passou ao lado de Oizus e os demais Filhos de Nix. Todo o medo, todo o árduo treinamento, todas as pessoas que feriu e matou em nome dele.
—Não...
—O que disse? –Oizus estreitou o olhar.
—Eu não vou voltar a te servir... –Tafari fixa o olhar em Oizus. –Eu vou voltar a te seguir! Eu... lembrei da promessa que fiz ao meu pai, e que a quebrei quando o segui! Ele me disse para usar o que aprendesse em minha vida para ajudar as pessoas e eu usei apenas para causar dor!
—Sentimentalismo barato agora? –Oizus sorri de lado. –Idiota! Quer morrer por causa dessa promessa a seu pai? Vai se unir a uma deusa que nem mesmo conhece?
—Ainda não conheço Atena. –Tafari cerra o punho. –Mas prefiro que a Terra continue com ela do que com pessoas como você!
—Prefere morrer a voltar a me seguir?
—Eu não irei morrer facilmente. –Tafari eleva seu cosmo. –Eu vou cumprir a promessa que fiz ao meu pai! Não vou mais usar o que aprendi para causar dor aos mais fracos, usarei para protege-los!
—Idiota! –Oizus eleva o cosmo e o ataca. –Então, morra!
Tafari avança contra Oizus, pronto para repelir o golpe que ele lhe lançaram. Para a sua surpresa, ele consegue supera-lo e o atinge com um soco em seu rosto. Oizus parecia em choque e em seguida, ele fita o rosto de Tafari com uma expressão serena.
—Me enganei sobre você. –para a surpresa do jovem, a imagem de Oizus dava lutar a imagem de Kheíron. –Aldebaran tem razão. Você tem nobreza em sua alma.
Então, com a velocidade de um piscar de olhos, Tafari se vê novamente na Cratera Nabiyotum ao lado de Aldebaran, que mantinha no rosto um sorriso satisfeito.
—Eu te disse. –respondeu Touro e Kheíron faz um gesto positivo com a cabeça.
—Digam a Atena, que terminei minha missão agora. E foi uma honra tê-la servido. –disse o antigo cavaleiro de Sagitário, entregando seu espírito e cosmo aos céus, se permitindo descansar em paz finalmente, após milhares de anos.
E em seu lugar, uma peça prateada circular flutuava. Aldebaran estende a mão e a pega, olhando espantando para a mesma.
—É a chave? –Tafari perguntou, receoso.
—Sim. –Aldebaran fecha a mão em volta do círculo e dá um tapa nas costas do rapaz, rindo, quase jogando-o contra o chão. –E graças à você, o antigo cavaleiro confiou ela a nós.
—Quase arrancou meu pulmão com esse tapa. –Tafari o fitou irado e Aldebaran permanecia com a mesma expressão satisfeita. –E agora?
—Agora? Vamos para o Santuário. É lá que vai começar seu treinamento de verdade, garoto!
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Num lugar além do espaço e tempo, chamado Casa da Noite.
Três homens retornavam finalmente de sua missão na África, mas caminhavam com medo pelos corredores, cientes de que seriam punidos ao narrar o que aconteceu aos seus mestres. Não apenas haviam falhado em encontrar a chave para o mestre, como um deles o haviam traído.
—Maldição. –um deles murmurava, suando frio, parando diante dos portais ébano da sala do trono. –Eu vou ser morto...
—Vamos todos morrer. –o outro dizia, trêmulo.
—Entrem.
A voz autoritária de Stygere faz os pobres soldados estremecerem dos pés à cabeça, e como se tivessem vida própria, os portais se abrem sozinho. Decididos a encarar seus destinos, entraram na sala. Param diante da figura imponente sentado no trono, que os observavam com indisfarçável desdém, apoiando o queixo na mão e o cotovelo no braço do trono.
Stygere era um belo homem, não aparentava ser uma divindade terrível ao qual era atribuído a alcunha de "deus do ódio". Mantinha um semblante sereno, quase angelical devido aos olhos de um azul cristalino e puro, e as longa madeixas douradas que caiam por seus ombros e costas, até a cintura. Se fosse mortal diriam que ele não aparentava ter mais do que dezesseis anos, e certamente sua beleza faria muitas mortais suspirarem por ele.
—M-mestre Stygere... –um dos homens se ajoelha rapidamente diante do seu líder, baixando o olhar e evitando fita-lo. Seus companheiros fazem o mesmo.
—Você me trouxe algo da África? –ele perguntou, sereno a um deles
—N-não... meu senhor... não achamos a chave e...
Antes mesmo que completasse a frase, um feixe de luz escarlate o atinge diretamente no peito, abrindo um enorme buraco em seu peito. O soldado cai ao chão morto, com o olhar tomado pelo pavor.
—Não os mandei buscar a chave? Por que me aborrecem com suas falhas? –decidido a matar os outros dois, com uma expressão contrariada no rosto.
—Irmão. –uma voz o interrompe. –Por favor, não mate os homens do meu séquito. São fiéis à nossa querida Mãe.
—Oizus... veio me aborrecer também?
—Stygere, por favor. –Oizus se aproxima, tendo um homem de armadura nega, com o rosto oculto por um elmo e máscara, ao seu lado. –Se controle ou matará todos os nossos soldados antes de reiniciarmos nossa guerra contra o Santuário.
—Nosso irmão está cansado de tanta imbecilidade, Oizus. Eles sabem que só deveriam retornar com a chave. –uma voz feminina se fez presente e uma bela guerreira de cabelos vermelhos entra no salão. –Mas concordo que matar nossos servos não nos ajudará em nada.
—Escute a Nêmesis, Stygere. –Oizus sorri para a guerreira que o olha com desprezo e ele se volta a um de seus servos. –Sombrio, o que houve? Por que falharam?
—Um cavaleiro de ouro, Mestre Oizus! –dizia o homem, tremendo diante das três divindades. –Ele derrotou nossos soldados mais fortes!
—Até mesmo Tafari? –Oizus parecia decepcionado. –Eu depositei tantas esperanças no meu jovem protegido.
—Não... mestre, foi pior! Tafari nos traiu!
—O que disse? –Oizus perguntou e o homem de armadura negra venceu a distância que os separavam e segurou o pobre Sombrio pela garganta, fitando-o com ira.
—E-ele... gasp... decidiu ajudar o cavaleiro de ouro... –o misterioso homem apertava sua garganta a cada palavra. –Não estou...respi...
—Mentira! –o guerreiro fala com frieza.
—Mestre, é verdade o que ele diz! –o outro soldado, mesmo temendo pela vida, decidiu falar. –Tafari nos traiu! Ele seguiu o cavaleiro de ouro!
Oizus em silêncio analisou aquela informação e com um gesto pede que seu servo solte o Sombrio e ele o faz, o pobre soldado tentava respirar, sem forças.
—Vocês dois, se retirem. –ordenou Oizus, sendo obedecido prontamente, um apoiando o outro. –Que decepção!
—Seu bichinho de estimação o abandonou? –Nêmesis sorri, provocando o irmão. –É o que acontece quando deposita em mortais tamanha confiança. Nunca tive tais decepções com minhas Fúrias.
—É triste, mas... tal traição não pode passar sem uma devida punição, Oizus. –Stygere determina, observando o irmão de lado.
—E Tafari será punido, senhor! –o homem de armadura negra se ajoelha diante das três divindades. –Permita que eu faça isso, mestre Oizus!
—Está bem. –o deus da miséria concorda. –Traga a cabeça de Tafari para mim, meu caro Sirhan. Veremos se não me decepcionará como seu irmão mais novo o fez.
—Eu não o decepcionarei, mestre!
Sirhan se ergue e sai do salão, determinado a cumprir as ordens que lhe foram dadas. Disposto a matar seu próprio irmão.
Continua...
Notas finais
Kheíron = variante do nome Quíron (lendário centauro da mitologia que treinou heróis).
Stygere = um dos filhos de Nix, é a personificação do ódio.
Sirhan = o nome do irmão mais velho de Tafari, significa lobo.
Um pouco sobre o Quênia, em 1997 (onde se passam as lembranças de Tafari), o país atravessava um turbulento período devido às acusações de fraudes eleitorais e violência étnica em diversos locais e na capital. Na noite em que a família de Tafari foi massacrada, marca um desses ataques que várias pessoas inocentes da população sofreu durante esse período. Oizus, que se alimenta da miséria ao qual se personifica, passava pelo país na busca pela chave e ficando forte devido ao acontecimentos no país e se viu atraído pelo brilho dos cosmos dos meninos, ainda tão pequenos.
Nêmesis = filha de Nix, personificação da Vingança.
