Disclaimer: Saint Seiya não me pertence (que pena!) e o objetivo dessa fic é diversão, não lucro.

Primeiramente, desculpem a demora em postar mais um capítulo, o próximo não demorará tanto! Quanto às reviews...

- Human Being, eu sempre ficarei feliz com os seus pitacos e elogios, e SEMPRE irei postar os capítulos que vc revisa com td cuidado, não tema!

- Luna del Rey, bem-vinda! Que bom que gostou, essa fic ficou guardada por muito tempo, foge totalmente do que é esperado de uma fã de StS, mas resolvi arriscar. Continue acompanhando, feedback é sempre importante para quem escreve! Obrigada pelas observações e elogios!

Boa leitura!


CAPÍTULO 3 - CHOICES AND NEWS


Dois dias depois...

Eram seis horas da manhã quando ela se levantou; sabia que sua nova rotina de treinos começaria mais tarde, mas seu corpo ainda obedecia aos horários que seguia em casa, na Sicília; seu mestre, o Cavaleiro de Prata de Triângulo, era muito rígido em relação às horas de treinamento, portanto, era natural que fosse assim.

Após lavar-se, vestiu sua roupa habitual, um collant de malha azul petróleo, com mangas curtas, e que se estendia na parte de baixo, formando um short que batia um pouco adiante da metade das coxas. Na cintura, amarrou uma faixa de linho na cor púrpura, assim como meias de lycra que vinham até acima do joelho na mesma cor, e suas sandálias de amazona no mesmo tom de azul do collant. Após molhar e pentear os cabelos prendeu-os nas laterais, deixando o resto dos cachos livres e esvoaçantes. Preparou seu café da manhã e após comer e terminar de se aprontar, colocou a máscara prateada sobre o rosto e saiu.

Maia sabia que seu horário de treino ainda demoraria um pouco, pois os Cavaleiros de Ouro tinham prioridade em usar o Coliseu nesse horário, para voltarem aos seus postos de vigília em suas Casas e para suas demais obrigações mais cedo. Resolveu dar uma volta pelo Santuário, e cumprimentando os soldados e alguns servos, descobrira que Athena voltara ao seu Templo na madrugada passada, acompanhada dos Cavaleiros de Gêmeos e Libra.

Interiormente, estava eufórica: desde que chegara, conhecera muitas pessoas; em sua maioria outros cavaleiros e amazonas de Prata que viviam no Santuário e algumas amazonas de Bronze. Falara com Máscara da Morte de Câncer, que apesar de sua antiga reputação se mostrou uma pessoa amigável quando disse de onde viera, e repassara o recado de seu mestre. Chegou a entrar a Casa de Câncer, onde não havia sinal das lendárias cabeças que seu dono colecionava em sua antiga vida.

Através de Máscara da Morte, pôde conhecer Kanon, irmão gêmeo do homem que considerava um dos mais poderosos daquele lugar. Ele errara, mas se redimira, e sua conduta atual fazia com que Maia admirasse muito Saga de Gêmeos. E Kanon revelara-se uma boa pessoa, apesar de sua postura tensa e preocupada naquele momento.

"Espero que os aspirantes à Armadura de Ouro de Gêmeos sejam pessoas decentes! De qualquer forma, acho que ficaremos sabendo quem serão os aspirantes em geral ainda hoje! E poderei voltar para casa!" – pensava a amazona.

Não queria admitir, mas sentiria falta daquele lugar. Porém, com sua missão cumprida, não teria motivo para continuar ali. De qualquer forma, estava feliz por fazer novos amigos, perceber que o caminho que escolhera, apesar de difícil, valia muito a pena. Percebera que Athena era muito amada em seus domínios e também fora dele, no vilarejo de Rodório, onde os cavaleiros e amazonas da Deusa eram respeitados e admirados. Lembrou-se do primeiro dia em que chegara, ela e suas novas amigas foram ao vilarejo à paisana, durante a noite, para fazer um reconhecimento, o que implicava sair sem máscaras.

"Quase que fomos descobertas, mas enfim, sair para beber usando máscaras é algo complicado, hehehe! Ainda mais que algumas de nós se deram bem! Sorte que os rapazes que paqueraram a Luna, a Seren, a Keira e a Ísis não eram cavaleiros, e não tinha nenhum por perto!" – a siciliana sorria ao lembrar-se daquela noite.

Segundo Ruby de Centauro, uma das meninas, se não havia nenhum cavaleiro no grupo e elas estavam fora do Santuário, sob a vista de homens que provavelmente não as reconheceriam de máscara, nas roupas de batalha ou treinos, não tinha problema sair sem elas. E nem paquerar um pouquinho, afinal, ainda eram mulheres e as leis das amazonas não se aplicavam ali fora. De qualquer modo, Maia sentiu-se estranha.

Shina de Cobra dera permissão às moças para saírem, contanto que só retirassem as máscaras ao deixar o perímetro do Santuário, e já próximas à Vila Rodório. No fim tudo dera certo, e voltaram em segurança, portando suas máscaras novamente, sem precisar matar ou amar os homens que viram seus rostos naquela noite.

Apesar da explicação de Ruby, ela mesma não flertou com ninguém; segundo Anya, a Amazona de Taça, a amiga estaria apaixonada, e no momento não queria conversa com nenhum outro. Todas beberam e conversaram, trocando histórias e dando risadas. Algumas se deram bem, como as amazonas de Pyxis, Cassiopéia, Corvo e Cães de Caça, que resolveram conhecer seus flertes melhor.

Ela própria, quando estava fora do campo de treinamento, às vezes saía com algum rapaz, mas nada que fosse para durar ou para comprometer-se, afinal era uma amazona de Athena, e não podia se apaixonar. Escolhera seu caminho, e não o deixaria tão cedo; sabia que essas leis que regiam amazonas e cavaleiros serviam para que se focassem em seu serviço à Deusa, mas às vezes, pensar que nunca poderia amar parecia meio cruel.

"Pobre Ruby, é bem possível que ela esteja apaixonada por um cavaleiro, o que é muito pior... pois ambos saberiam de suas reais condições e leis, e ela teria que deixar de ser amazona caso fosse correspondida e resolvesse assumir esse amor..." – Maia sentia um arrepio na espinha só de pensar na situação.

Chegou perto da escadaria que levava às Doze Casas, e decidiu fazer uma visita a um local que queria muito conhecer, mas ainda não tivera a oportunidade para isso: adentrou a Biblioteca do Santuário em silêncio, apreciando o ambiente, suas esculturas e obras de arte, o teto pintado com representações dos mitos gregos e as inúmeras estantes de livros. Para seu deleite, o lugar estava praticamente vazio àquela hora.

Aspirou o ar da Biblioteca, satisfeita. Gostava muito de ler, estudar e pesquisar, o que era incentivado por seu mestre; ao andar entre as estantes, pôde averiguar os títulos nos mais variados idiomas e assuntos, rigorosamente arrumados, e em ótimo estado de conservação. Mesmo os volumes mais antigos e raros estavam bem protegidos, e a garota quase pulava de contentamento ao montar uma lista mental de livros para ler até ir embora.

Na seção de Filosofia, buscou o tema que mais gostava, e ao procurar um título em específico, o encontrou na última prateleira da estante, que por sinal era bem alta. Suspirou; nessas horas realmente não gostava da altura que tinha! Poderia ser vantajoso em combate, mas em situações como aquela, definitivamente tinha problemas. E não havia nenhuma escada ou banqueta por perto. Maia estava na ponta dos pés, de braço esticado, quase apelando para seu cosmo, quando sentiu uma presença atrás de si, e logo uma mão forte retirava o livro da prateleira.

- "L'Être Et Le Néant: Essai D'Ontologie Phénoménologique". -ele leu o título, em francês perfeito – Gosta de Jean-Paul Sartre?

- Sim, senhor. – ela fez uma pequena mesura – Muito obrigada por pegá-lo para mim.

Ele ainda ficou olhando para a capa do livro, sob o olhar atento da amazona à sua frente; não era do feitio de Camus de Aquário se interessar pelo que os outros liam ou deixavam de ler no Santuário, mas não podia negar que estava curioso com a preferência daquela moça. Resolveu dar vazão à curiosidade, e ao entregar o livro para ela, perguntou:

- Trata-se de um livro difícil. Lê bem francês? – o tom de voz dele era sério, mas suave.

- Sim, leio bem francês, grego, espanhol, português, e minha língua natal, o italiano. O senhor é francês, não? – ela respondeu.

- Oui, mademoiselle, je suis français. Mas isso não é novidade para quem mora neste Santuário. Veio para o anúncio dos aspirantes às armaduras de Ouro?

- Exato, mas creio que logo irei embora, soube que Athena retornou essa madrugada. – ela abriu o livro e passou os olhos pelas páginas, folheando-as.

- Decerto que sim... mas diga-me, o que uma moça tão nova como você gosta em Jean-Paul Sartre? – ele perguntou de modo casual.

Maia estranhou, pelo pouco que ouvira do Cavaleiro de Aquário, ele não era propenso a conversas casuais, muito menos com pessoas estranhas. A atitude dele deixara a garota curiosa e muito surpresa, mas apesar de tudo, resolveu relaxar e ser educada. Afinal, ele era um Cavaleiro de Ouro, a quem devia respeito, e conversar um pouco sobre Filosofia não faria mal a ninguém.

- Bem, digamos que acredito na filosofia defendida por ele. O Existencialismo é um modo de pensar muito condizente com os dias de hoje... e também com a minha forma de ver o mundo. Não que eu seja pessimista, confesso que já fui, e muito, mas creio que as pessoas são responsáveis pela maneira em que vivem; não basta existirem regras e leis, se a consciência do indivíduo para os seus problemas, e o de sua sociedade, de seu mundo, não for ativa, presente.

- A senhorita quer dizer que não acredita na validade das normas e leis em si, então? – ele a olhava de soslaio, com a sobrancelha levemente arqueada.

- Na utilidade delas, o senhor quer dizer? – ele assentiu, e ela continuou – Sei que é certo, desde os pensadores clássicos, que as leis são necessárias para permitir um convívio social decente, senão não existiriam líderes e chefes de governo – ela riu – mas do que adianta tudo isso se as pessoas não seguirem o lhes foi determinado, de livre e espontânea vontade, por consciência própria? Sei que algumas leis servem justamente para forçar o cumprimento de outras, mas se o indivíduo ou cidadão não estiver realmente disposto, sempre achará uma forma de burlar as regras ou simplesmente renegá-las.

Camus olhava a amazona, intrigado e meio desconfiado. Agora estava realmente interessado na conversa. Decidiu testá-la:

- Por exemplo, as leis do Santuário. Como isso se aplicaria nesse caso?

- As leis do Santuário estão em reforma – ela o encarou por trás da máscara – mas se estão mudando, é porque a Deusa reconheceu que muitas não se adequavam mais ao que ela quer para quem a segue e protege. Meu mestre contou-me que antigamente os aspirantes às armaduras, fossem cavaleiros ou amazonas, caso fugissem daqui e renegassem sua condição, eram executados, muitas vezes por seus próprios mestres. Hoje em dia, fica quem realmente quer seguir à Athena e lutar por ela; isso para mim é um exemplo dessa consciência, não apenas do poder individual de cada um aqui, mas de seu dever e de seu papel dentro dos ideais de paz e justiça de Athena.

O Cavaleiro de Aquário sorriu, satisfeito com a resposta dela, e pediu que caminhasse com ele até uma mesa, onde puderam folhear seus livros e conversar, visto que a Biblioteca estava praticamente vazia, além dos servos e soldados que ali ficavam, e podiam dialogar livremente. Aqueles que conheciam Camus estavam surpresos com a atitude do cavaleiro, o qual parecia à vontade falando sobre moral e ética com a Amazona de Plêiades.

Maia nunca pensou que fosse tão agradável conversar com uma pessoa como ele; mal reparara nele quando o vira na arena do Coliseu há alguns dias atrás, mas as ideias e o jeito de falar daquele homem eram admiráveis. Desejou não ter que ir embora, só para ter com quem conversar assim quando pudesse; na Sicília o conhecimento não era para todos, e geralmente contava apenas com seu mestre, o Cavaleiro de Triângulo, para falar das coisas daquele jeito.

Ele pediu que a serva responsável pelas reservas se aproximasse, e falou de modo cortês:

- Danae, poderia reservar este livro para mim, junto com os que separei ontem? Trata-se daquela pesquisa que Athena pediu que eu fizesse. Muito obrigado!

- Certamente, Mestre Camus. Gostaria que eu reservasse esse volume para a senhorita também? – Danae apontou para o livro nas mãos de Maia.

A garota apreciou a ideia, mas resolveu ponderar:

- Eu bem que gostaria, mas não moro aqui no Santuário, portanto não teria como retirá-lo. De qualquer forma, agradeço! – a amazona falou educadamente, antes da serva se retirar.

Camus reparou nisso, e na ênfase que ela dera em sua voz para demonstrar sua satisfação, o que era perfeitamente lógico, visto que não tinha como a serva ver seu rosto. Subitamente, o Cavaleiro de Ouro de Aquário teve uma leve curiosidade em saber o que mais eles teriam em comum, além do gosto por Filosofia.

Assustou-se com o rumo de seus pensamentos, e ia dizer algo quando ela levantou-se, apressada, e disse:

- Senhor Camus, foi um prazer conhecê-lo, mas acabei de perceber que estou atrasada para o meu treino! – ela apontou para o relógio da Biblioteca – Se me der licença, preciso ir!

- Mas é claro, amazona. Obrigado pela conversa. – fez uma mesura, a qual foi devidamente retribuída.

Assim que ela se foi, ele pensou no que havia acontecido ali; agira de uma forma totalmente fora do comum, e tinha gostado disso. Pegou-se lamentando pela possível ida daquela moça, e decidiu colocar a cabeça no lugar:

"Ora, Camus, é apenas uma amazona com quem você pôde conversar livremente – sobre assuntos que você não discute nem com o Milo, que é seu melhor amigo! Ele nem gosta de Filosofia... enfim, foi apenas uma conversa!"

Arqueou as sobrancelhas, e seus olhos azuis voltaram-se para o exemplar de "O Ser e o Nada" aberto em cima da mesa de leitura. Decidido, pegou o livro e começou a folheá-lo.

"E eu não sei quem ela é. Nem perguntei o nome dela..."


Uma hora e meia depois, Maia, June, Seren, Keelin, Adisa, Ísis, Marin e Shina estão deixando o Coliseu, suadas, cansadas e cheias de pó da cabeça aos pés, sendo atenciosamente observadas por alguns cavaleiros presentes. Elas estavam em suas roupas de treinamento, e conversavam distraidamente sobre os treinos:

- Não entendo porque estamos lutando sem cosmo, Shina! – disse Seren, meio irritada com esse fato.

- Eu já expliquei... até que os nomes dos aspirantes sejam revelados, os Mestres recomendaram que os treinos fossem sem cosmo, para evitar eventuais disputas e problemas... já notaram a tensão que pairou no Santuário hoje, só com o aviso do retorno de Athena? – comentou a Amazona de Cobra, tensa.

- Sim, realmente estão todos muito ansiosos com a nomeação dos aspirantes! – disse Giorgia, trajada com sua Armadura de Lira, chegando naquele momento – Fiquei até sabendo que alguns servos e soldados estão fazendo apostas a respeito!

- Mesmo? Ah, que afronta! Com um assunto tão sério! – disse Adisa, inconformada com a notícia da amazona recém-chegada.

- Pois é, e além da tensão causada por isso, também tem o incidente com Thetis de Sereia... alguém sabe o que realmente aconteceu? – perguntou Ísis.

- Aster de Altar e Kanon acham que foi um ataque premeditado. Tanto Athena quanto Poseidon estão dispostos a descobrir o que realmente houve, mas a vítima continua desacordada. – disse Marin.

- Poxa, ela foi salva bem pelo Aster... ele é um grande cavaleiro! – os olhos de Adisa brilhavam embaixo da máscara.

- Sorte dela, hein, Adisa? – Ísis provocou a amiga – Finalmente ele voltou ao Santuário!

- Ele é o braço direito dos Grandes Mestres, o que é típico do portador da Armadura de Altar. Parece que pediu dispensa para averiguar umas pendências pessoais, por isso estava fora. – revelou Giorgia.

- Pendências pessoais? Como assim, Giorgia? – perguntou a sul-africana, prendendo seu longo cabelo liso em um rabo de cavalo.

- Aqui entre nós – continuou a leonina – dizem que ele estava tentando descobrir o paradeiro de algum parente. Mas não sei mais nada a respeito.

- Como a senhorita sabe de tudo isso, dona Giorgia? Por acaso anda treinando menos e fofocando mais? Não a vi no treino desta manhã! – ironizou Shina.

- Não! – a grega se exaltou – O senhor Saga estava comentando isso com o senhor Aiolos enquanto estávamos coletando os mapas astrais! Apenas prestei atenção, é isso! E sobre o treino, tive minhas ocupações!

- Atenção no que o senhor Saga falou, ou nele inteiro? – brincou Seren, casualmente, para desanuviar o ambiente.

- Afff, não dá para conversar com vocês! – Giorgia fez menção de deixá-las, mas o grupo de amazonas foi abordado por Kiki de Appendix.

- Senhoritas – o ruivo fez uma reverência – que bom que as encontrei!

Todas o encararam; o discípulo de Mu tinha apenas 12 anos, mas estava bem diferente do molequinho que era há alguns anos atrás; estava mais alto, mais forte, e todos davam a ele uns quinze anos, apenas pela aparência, e até mais pela conduta e caráter, mais maduros. Ele aprumou-se e sorriu para as amazonas.

- O que você quer, Kiki? – perguntou Shina, um pouco impaciente.

- Senhoritas, todas vocês, com exceção de Giorgia, Adisa e Ísis, estão convocadas para uma reunião no Salão do Grande Mestre daqui a duas horas. Por favor, estejam com suas respectivas armaduras, pois a Deusa em pessoa também estará presente.

As amazonas ficaram surpresas com a convocação, e Keelin não pôde deixar de perguntar:

- Ahn, você poderia adiantar qual seria o assunto?

- Keelin! – disse Maia – O menino nem deve saber!

- Ah, deixa de ser paranóica, Maia, ele deve saber sim... – respondeu a irlandesa.

- Na realidade – começou Kiki – eu não sei, não. Até porque também fui convocado para essa reunião. Apenas estou repassando o recado a pedido do mestre Mu.

- Tudo bem Kiki, pode avisar ao seu mestre que vamos sim – disse Seren, animada – aliás, ele estará nessa reunião também?

- Com certeza, senhorita! Todos os Cavaleiros de Ouro também foram convocados!

Um grande sorriso se formou no rosto da espanhola, por baixo da máscara. Poderia ser sua última chance de falar com o Cavaleiro de Áries... portanto, tinha que aproveitá-la!

- Certo, Kiki, muito obrigada por nos avisar! – disse Marin, enquanto o garoto se despedia.

Na cabeça das convocadas, passavam os mais variados pensamentos:

"O que será que Athena quer conosco? Tomara que não seja nada grave! Ai, o Milo de Escorpião estará lá!" – pensava Keelin.

"Deve ser algo referente ao que houve com Thetis, só pode ser! Mas que ótimo, isso porque a segurança do Santuário é minha responsabilidade! Sabia que não deveria ter deixado o Milo fazer as rondas comigo nas últimas noites! Vou enfiar minhas garras naquele Escorpião... opa, isso saiu estranho..." – eram os pensamentos de Shina.

"Caramba, mal cheguei aqui e terei que participar de uma reunião assim! Que emoção! Ah, mas acho que será interessante! E posso ter uma brecha para conhecer o senhor Mu pessoalmente! Pelos Deuses, preciso me ajeitar!" – pensava Seren.

"Reunião com todos os Cavaleiros de Ouro e Athena... será que... ah, se for isso, eu não perco essa reunião por nada! Mas um banho antes vai bem, né?" – pensamentos de Maia.

"Preciso me apressar para estar lá no horário exato! Será que dá tempo? Pelo visto não vamos almoçar... mas Aiolia estará lá também. Afff, eu preciso esquecê-lo!" – a mente de Marin lhe pregava peças.

"Finalmente, a oportunidade de me aproximar do assassino de meu mestre! No entanto, não poderei fazer nada com Athena e os outros lá! Mas posso dar um jeito..." – ponderava June.

Todas se dirigiram para a Vila das Amazonas, mas apenas três delas almoçariam tranquilamente naquela tarde.

Enquanto isso, Kiki terminava de falar com os cinco Cavaleiros de Bronze mais próximos de Athena, e um deles estava particularmente incomodado com aquela convocação repentina: em seu íntimo, tinha certeza que a reunião giraria em torno do torneio para ascensão de novos cavaleiros de Ouro. Não queria envolver-se com isso, apesar da empolgação que dominava o espírito de seus amigos.

- Ikki, está quieto! Não quer arriscar um palpite para saber qual o assunto da reunião? – perguntou Hyoga, entusiasmado.

- Hunf – o leonino encostou-se a uma pilastra próxima e cruzou os braços em frente ao corpo – sinceramente, sinto que a Saori vai nos colocar em outra encrenca...

- Não fale assim, Ikki, nossa função é cuidar dela e desse Santuário! – disse Seiya, irritado com a colocação do amigo.

- Vocês não vão começar a brigar, né? – perguntou Shun, posicionando-se para separar uma possível briguinha entre o amigo e o irmão mais velho.

- Eu sei! – disparou Ikki – Mas sinto que essa reunião não vai acabar em boa coisa! Já não basta o Santuário estar cheio de gente estranha, ainda atacam Thetis de Sereia no seu caminho para cá! Tem algo muito errado nisso tudo, eu sinto!

- Certo, e por isso você simplesmente irá sumir e voltar quando lhe é conveniente, é isso? – provocou Seiya, ciente do temperamento forte do amigo.

- Ora. seu... Não se trata disso, apenas sei que nossas posições de cavaleiros estarão, de certa forma, comprometidas com esse torneio! Vocês não sentem no ar? Algo se formando? – Ikki tentava apelar para o bom senso dos outros.

- Falando assim... – começou Shiryu – Tem algo no ar sim. Muita tensão, talvez alguma confusão se forme. Mas creio que isso seja natural frente às festividades do Santuário e com a presença de tantas pessoas novas. Sem falar que você não está acostumado com isso, não é, Fênix?

Ikki apenas bufou, enquanto passou a observar o irmão mais novo, que se mostrava estático onde se encontrava:

- E você, Shun, o que houve?

- Apenas tentando perceber algo com o cosmo. De fato, você tem razão em desconfiar de algo, Ikki. – confirmou Andrômeda.

Fênix apenas fez sua famigerada cara que dizia "eu sei". Pegasus se manifestou:

- Nesse caso, sejamos otimistas, amigos, e vamos nos manter alertas. – ele franziu a testa de seu jeito típico.

Súbito, notou que todos o encaravam, com expressão de surpresa. Ruborizou frente aos olhares dos amigos:

- Ei, o que foi? Por acaso eu disse alguma besteira? – ele fechou os pulsos, irritado.

- Pelo contrário, Seiya! - disse Hyoga – Pela primeira vez nessa conversa, você disse algo inteligente!

O Cavaleiro de Bronze de Pegasus ficou pensativo, enquanto os amigos suspiravam, decepcionados:

- Esquece o que eu disse! – continuou Hyoga.

Somente ao perceber seus amigos se afastando, Seiya se deu conta do que havia dito e feito. Gritou:

- Ei, voltem aqui! Ah, seus malditos... – e saiu correndo atrás deles.


Os doze Cavaleiros de Athena encontravam-se no Salão do Grande Mestre, juntamente com sua Deusa e com o Cavaleiro de Prata de Altar, que assessorava Saga e Dohko em seus afazeres como Grandes Mestres. O dia começara com muitas atividades para eles, que depois de seus treinos, arrumaram-se e foram direto para o Décimo Terceiro Templo, para discutir a chegada das representantes de Asgard e de Poseidon, além das desconfianças de Kanon, o qual partira para o Reino dos Mares logo após aquela reunião, em missão diplomática.

Athena e seus cavaleiros de elite também discutiram sobre os aspirantes às Sagradas Armaduras de Ouro: Já tinham recebido a primeira metade deles, agora conheceriam os outros, os oponentes daqueles que já conheciam. Algumas das primeiras indicações não eram surpresa, pois a maioria dos cavaleiros e amazonas chamados para a referida reunião já viviam no Santuário e eram conhecidos.

- Será que todos esses cavaleiros e amazonas de outros lugares vieram até aqui à toa? – comentou Afrodite com seu vizinho de Casa, Camus.

- Ahn? Creio que não, Afrodite, senão Athena não teria convocado tanta gente de outros campos de treinamento. De qualquer forma, mesmo que poucos "de fora" sejam escolhidos, creio que a experiência de conhecer o Santuário em si será satisfatória. – disse o aquariano, lembrando-se da amazona que conhecera na Biblioteca mais cedo.

- Hum, você está meio distraído hoje, Camus, algo o aborrece? – perguntou o pisciano, mesmo sabendo que o amigo não se abriria com ele.

- Absolutamente, apenas estou pensando no volume de trabalho para hoje. Cada vez mais vejo que Athena estava certa em pedir que renunciemos aos postos de Cavaleiros de Ouro para nos tornar Grandes Mestres...

- Entendo. – Afrodite entendeu que Camus estava saindo pela tangente – De fato, ela é a nossa Deusa, sabe o que faz. E pensar que ela teria de administrar tudo isso sozinha, apenas com a ajuda de só um Grande Mestre...

Camus somente concordou com a cabeça. Nisso, Aldebaran juntou-se a eles:

- Gente, nós só iremos almoçar depois da nomeação da segunda turma de aspirantes. Afrodite, nem vai rolar aquela ideia de fazer uma boquinha rápida na sua Casa. – o taurino fez uma cara emburrada.

- Isso é para você aprender a tomar um café da manhã decente, Aldebaran! Faz bem pra saúde, viu? E para a beleza também! – o pisciano cutucou o amigo, brincando.

- Você diz isso porque não precisa subir da Segunda Casa até aqui, mora ao lado do Salão do Grande Mestre!

- Ei, ei, vamos parar com isso? – Máscara da Morte interferiu – O Cavaleiro de Altar me entregou as fichas da segunda turma de aspirantes, temos que decidir quem será o mestre de quem até eles chegarem aqui!

Nisso, os outros cavaleiros dourados e a Deusa juntaram-se a eles, e a deliberação começou. Tinham que avaliar tudo com muito cuidado, pois no caso da primeira turma, apenas resolveram que cada aspirante treinaria com o Cavaleiro da Casa correspondente ao seu signo; entretanto, avaliando as fichas e mapas dos integrantes da segunda turma, perceberam vários casos atípicos.

- Athena, com todo respeito, essa turma tem grande risco de fracassar! – manifestou-se Milo de Escorpião.

- Como assim, Milo? – interviu Dohko – Alguns deles são nossos conhecidos, e sabemos da capacidade que possuem!

- Não se trata disso... – respondeu o grego – Mas na primeira turma, além de todos morarem no Santuário, eles também são todos cavaleiros e amazonas de Prata! Já essa segunda turma...

- Possui cavaleiros de Bronze. Sei disso, Milo, mas foi o que as estrelas nos revelaram. Saga e Dohko ainda refizeram todos os cálculos dos mapas para confirmar. Estas realmente são as pessoas destinadas a pleitear as Armaduras de Ouro. – disse Saori, direta.

- Ora, eu não vejo nada de mais nisso – começou Máscara da Morte – antigamente eu diria que isso é uma afronta aos nossos postos de Cavaleiros de Ouro, mas não é porque essa turma é totalmente diferente da anterior que devemos desmerecê-la. Aliás, creio que isso tornará o torneio mais interessante.

Todos ali encararam o canceriano; Dohko, Aiolos, Aldebaran e Athena não disfarçaram seus sorrisos diante da evidente mudança do Cavaleiro de Câncer.

- Concordo com o Máscara da Morte! Para mim essa turma tem mais potencial que a anterior! – afirmou Aldebaran de Touro, com convicção.

- Para serem apontados pelas estrelas, todos têm os seus méritos. – completou Aiolia de Leão.

- Ou vocês não se lembram de como foi conosco? Também fomos apontados pelas estrelas, e mesmo assim muita coisa teve que acontecer para atingir a maturidade que temos hoje, a ponto de sermos amigos e lutar, de fato, pelos mesmos ideais. Sejam quem for os escolhidos pelas armaduras, terão muito tempo para aprender com seus próprios erros, como fizemos.

Diante das palavras de Aldebaran, Dohko deu sua opinião, levantando-se de sua cadeira:

- Na realidade, meu caro amigo – o libriano encarou o taurino – a ideia é ajudá-los a evitar os mesmos erros que cometemos no passado. Eu sugiro que avaliemos as características de cada um deles e indiquemos o mestre que melhor os ajudará com suas falhas, suas fraquezas.

- Eu concordo – disse Mu – mas e aqueles que já possuem Cavaleiros de Ouro como mestres?

- Nesse caso – Saori pronunciou-se – acredito que o melhor é manter os aspirantes com seus respectivos mestres. Não há uma razão plausível para fazer mudanças em tal circunstância.

- Todos de acordo? – perguntou Shura de Capricórnio.

Desse modo, a elite dos 88 Cavaleiros de Athena passou a definir quem treinariam na segunda turma de aspirantes às suas armaduras.

Uma hora depois...

Saori encontrava-se no antigo trono do Grande Mestre, que permanecia ali apenas como símbolo, tendo Dohko e Saga ao seu lado direito, e Aster de Altar ao seu lado esquerdo; os outros Cavaleiros de Ouro formavam duas filas de cinco pessoas nas laterais do corredor, e todos estavam com suas armaduras completas. Impecáveis.

Um soldado apareceu à porta, e com um aceno de cabeça da Deusa, as enormes portas do Salão do Grande Mestre se abriram, dando passagem a um grupo de seis cavaleiros, que foram posicionados em fila indiana um pouco antes do espaço no qual se encontravam os dourados, do lado direito. Em seguida, seis amazonas entraram, emparelhando-se com os outros seis, no lado esquerdo. Todos se ajoelharam diante de Athena, que os recebeu:

- Por favor, fiquem à vontade. É com muita alegria que eu os recebo aqui hoje. – Saori sorria abertamente.

- No que podemos ajudá-la, Saori? – perguntou Seiya, em reflexo.

- Chame-a de Athena, Pegasus! – Milo repreendeu o cavaleiro de Bronze.

- Tudo bem, Milo. O que temos para conversar aqui é mais importante que isso. – disse Saori, calmamente – Vejo que nem todos vivem aqui no Santuário... quero que se apresentem depois para conhecê-los melhor, mas antes, vamos ao assunto que os trouxe aqui.

Todos se aprumaram, mal olhavam para os lados, apenas para a Deusa encarnada.

- Todos vocês devem saber do torneio que acontecerá aqui, certo? Pois bem, retornei com os nomes dos aspirantes às Sagradas Armaduras de Ouro esta manhã, e fico muito feliz em dizer que recebi alguns deles mais cedo, comunicando-lhes sua participação.

A tensão na sala era grande; os cavaleiros de Ouro não estavam prestando muita atenção nos aspirantes nesse momento, pelo menos não em seus rostos, mas em seus cosmos. Perceberam que ali havia uma mistura de emoções variadas no ar: expectativa, medo, aflição, alegria, orgulho, confiança, tristeza, mas principalmente, apreensão. Para Mu, Shaka e Máscara da Morte, tais emoções eram mais palpáveis que para o resto, devido à natureza de seus próprios cosmos.

- O posto de Cavaleiro de Ouro é vital para este Santuário, pois dependo deles não apenas para minha proteção, como antigamente. Eu procuro vê-los como amigos, parceiros em que posso confiar para ajudar a defender meus ideais de paz no mundo, protegendo as pessoas de males que possam ser causados pelas arbitrariedades de alguns Deuses, ou pela ambição de pessoas que conhecem e dominam o cosmo, podendo utilizá-lo para o mal da humanidade.

Athena fez uma pausa para olhar diretamente a cada um deles.

- Vejo que entre vocês há cavaleiros e amazonas de Prata e Bronze. Este torneio visa a liberação de meus atuais Cavaleiros de Ouro – ela olhou para os dourados – para que me ajudem a cuidar melhor do Santuário e de outros campos de treinamento no mundo. Assim como a ascensão de uma nova geração que, espero, possa me ajudar a disseminar a esperança e a paz, em tempos tão difíceis, com os conflitos armados, as guerras civis, e a tão conhecida Guerra Fria.

Todos concordaram com as palavras da Deusa; estavam na segunda metade de década de 80, e todos acompanhavam a tensão que envolvia o mundo dividido em duas correntes políticas distintas, o que envolvia a população mundial em um estado de terror velado. Fanatismo, rebeliões, boatos, tudo corroborava os temores de Athena.

- Mas estou dizendo tudo isso porque vocês foram os escolhidos para pleitear essa posição tão importante, e para tal, treinarão aqui no Santuário durante o período de um ano até a data do torneio, onde encontrarão seus oponentes, os quais vocês não conhecerão até lá, e lutarão pela armadura que lhes foi designada.

Agora, todos encaravam a Deusa, abismados; os cavaleiros de Ouro perceberam as diversas reações às palavras de Athena, e concluíram, cada qual a seu modo, que a presente turma reagira de um modo mais emocional, mais passional à notícia da Deusa do que a turma anterior.

Aster apenas encarava a todos, mas mesmo sendo cavaleiro de Prata, percebeu a comoção no recinto; ele mesmo estava meio abalado, mas não sabia exatamente o motivo.

- Isso é mesmo verdade, Saori? – Seiya tinha os olhos brilhando de emoção, mal podia acreditar no que a mulher que ele mais amava no mundo dizia.

- Sim, Seiya. – ela mesma estava emocionada ao reparar nos cosmos de todos os presentes. Expandiu seu próprio cosmo, confortando a todos ali, trazendo serenidade ao ambiente.

- Assim sendo – começou Dohko – anunciaremos cada um aqui para designar a armadura que disputará, seu respectivo mestre e para que vocês se apresentem.

Saga pegou as fichas e começou a anunciar:

- Armadura Sagrada de Áries. Aspirante: Kiki de Appendix. Mestre: Mu de Áries.

Kiki deu um passo à frente, emocionado, mas de cabeça erguida, encarando a todos com dignidade. Encarou seu mestre, que se posicionara ao seu lado, e ajoelhou diante de Saori:

- Senhorita Athena, muito obrigado pela oportunidade, garanto que irei vencer para servi-la da melhor maneira possível! – a voz de Kiki estava meio embargada, ele contia o choro e o orgulho à duras penas, depois de tanto treinamento, finalmente teria a chance de suceder o seu mestre, era demais para ele. No entanto, manteve a calma e a dignidade.

- Garanto que sim, Kiki. Na realidade, não foi surpresa o seu nome aparecer, visto que treina com Mu já faz um tempo. Considere-se um prodígio, será o mais novo dos aspirantes no torneio! – disse Athena, sorridente.

Mu não se agüentava de orgulho do discípulo, mas manteve o ar calmo de sempre, sendo atentamente observado por uma das amazonas presentes. Voltou ao seu lugar na fila dos dourados com Kiki ao seu lado.

Saga manifestou-se com sua voz de barítono:

- Armadura Sagrada de Touro. Aspirante: Shina de Cobra. Mestre: Máscara da Morte de Câncer.

A referida amazona assustou-se, mas ajoelhou diante de Saori e disse, confusa:

- Athena, com todo o respeito, mas em minha ficha deve constar que sou ariana... não entendo porque irei pleitear a Armadura de Touro.

Saori esperou que Máscara se colocasse ao lado da amazona ajoelhada, e explicou:

- A turma de vocês foi bem atípica, não estou dizendo que isso seja negativo, mas temos dois casos de aspirantes que irão pleitear a armadura do signo que predomina em seus respectivos mapas astrais; você é ariana, Shina, mas há conjunções interessantes no seu mapa em Touro. Por isso, segundo as estrelas, você foi indicada como aspirante à Armadura de Touro.

- Compreendo – disse a Amazona de Cobra – e fico muito feliz com a confiança depositada em mim. Farei o meu melhor.

- Não esperamos menos de você, e nem dos outros também. – completou Saori – Máscara será o seu mestre para que você possa lidar melhor com a sua força, e com seu poder interior. No passado, você já foi muito arrogante, hoje não é mais, mas creio que juntos vocês poderão lidar com essa questão de forma mais prática.

Shina concordou, encarou Máscara, que estendeu a mão para ela, e retribuiu o cumprimento. Foi para o lado dele na fila, e reparou que Milo olhava para ela com um sorrisinho de lado, os olhos brilhando com algo que ela não podia compreender. Sentiu-se despida frente à intensidade do olhar do escorpiano, mas disfarçou bem aquela sensação.

Saga não pôde evitar um sorriso ao fazer o anúncio seguinte:

- Armadura Sagrada de Gêmeos. Aspirante: Maia de Plêiades. Mestre: Shaka de Virgem.

Maia dirigiu-se para o ponto diante do trono onde estava Athena, sua garganta estava seca, suas mãos tremiam levemente e seu coração estava acelerado, mas ela respirou fundo e manteve uma postura atenta e comedida, ao ajoelhar-se perante à Deusa. Saori pediu que se levantasse, e perguntou:

- Você não foi treinada aqui no Santuário, não é, Maia? – a Deusa tinha um sorriso cordial.

- Não, senhorita Athena – ela disse, educadamente – minha terra natal é a ilha de Sicília, vim do mesmo campo de treinamento do senhor Máscara da Morte – este se aprumou em seu lugar, concordando – o campo do Monte Etna, próximo ao golfo de Catânia. Também fiz uma breve passagem por Agrigento, treinando nos campos de Deméter.

- Sim, estas terras foram cedidas a mim por Deméter depois que Hades raptou sua filha Kore. Considerando que eu e ele nos enfrentamos na Guerra Santa a cada reencarnação, Deméter permitiu que cavaleiros e amazonas fiéis à minha causa treinassem ali. Vejo que é uma amazona de Prata, quem é seu mestre? - mal sabia a Deusa que certos cavaleiros prestavam muita atenção no diálogo entre as duas.

- Niccolo, Cavaleiro de Prata de Triângulo. Ele que me tirou do orfanato onde estava em Palermo para me treinar, quando era novinha. – a moça respondeu naturalmente.

- Muito bem, Maia, seja bem-vinda ao Santuário, este é Shaka, o Cavaleiro de Ouro de Virgem. – apontou para o indiano que estava ao lado da amazona – Ele será seu mestre porque, uma coisa recorrente no caso da Armadura de Gêmeos, é a dualidade de seus portadores. Vimos em sua ficha que você não possui uma irmã gêmea, mas mesmo assim, Shaka lhe ajudará a lidar com as diferentes facetas de sua alma.

"Ela sabe." – uma voz soou no inconsciente de Maia – "Ela percebeu que estamos aqui."

"Mas nunca te corrompemos ou a levamos para o caminho errado, Maia. Você sabe que somos do bem, ela também deve saber disso." – soou outra voz, mais serena e infantil que a anterior.

"Eu sei. Isso é apenas um preventivo, visto o histórico dos portadores da Armadura de Gêmeos. Não estou com medo." – Maia respondeu às duas vozes, em seu inconsciente.

"Nós também não." – as vozes lhe responderam, em uníssono.

Maia fez uma mesura educada para Shaka, que apesar dos olhos fechados, sorria, como se compreendesse o que se passava na alma de sua mais nova discípula. O cavaleiro voltou para a fila levando Maia consigo, a qual se surpreendeu ao ver que Camus de Aquário estava ao seu lado ali; estranha coincidência.

A Amazona de Plêiades apenas sorriu por baixo da máscara, embora não soubesse exatamente a razão.

Saga prosseguiu com seus anúncios:

- Armadura Sagrada de Câncer. Aspirante: Seren de Pyxis. Mestre: Afrodite de Peixes.

A amazona de cabelos curtos aproximou-se e ajoelhou-se perante Athena respeitosamente, mantendo sua postura altiva. Levantou-se a pedido da Deusa, e esta perguntou:

- Seren, você também não é daqui, poderia me contar de onde veio e por quem foi treinada? – a Deusa olhava para ela com um certo ar de nostalgia nos olhos.

- Eu vim do mesmo campo de treinamento do senhor Shura de Capricórnio, nos Montes Pirineus, na Espanha. – o referido cavaleiro cumprimentou a moça com um leve aceno de cabeça, o qual foi retribuído. Meu mestre é o Cavaleiro de Antlia, ele me resgatou das ruas de Zaragoza quando tinha uns oito anos, e desde então venho seguindo à senhorita, Athena.

- Sabe que a Armadura de Pyxis era de Bronze, na penúltima Guerra Santa contra Hades? – questionou Saori.

- Não, senhorita, não tinha conhecimento disso... – a amazona surpreendeu-se.

- O antecessor de Shura, El Cid de Capricórnio, possuía três discípulos, grandes amigos e companheiros de armas, que juntos se sacrificaram por Sasha na época; dois deles eram cavaleiros de Prata, o outro, de Bronze. Com a morte deles, em sua homenagem, a Armadura de Bronze de Pyxis foi convertida em uma Armadura de Prata. Desde então, ela e as Armaduras de Vela e Popa são destinadas a guerreiros do mesmo campo de treinamento, o dos Montes Pirineus.

Seren não sabia desse porém, mas isso apenas fez com que sentisse mais orgulho da constelação que representava. Reparando na reação da moça, a Deusa sorriu, satisfeita:

- Pois bem; seu mestre será Afrodite, o Cavaleiro de Ouro de Peixes. – Saori apontou para o pisciano, que já estava ao lado de Seren – Ele irá ensiná-la a lutar com sua alma, literalmente, não usando somente a força bruta, e a ajudará a exercitar a compaixão. Creio que formarão um ótimo time!

- Acredito que sim, minha Deusa. – os dois falaram ao mesmo tempo, e se encararam antes de Afrodite voltar para a fila com Seren ao seu lado.

Athena olhou para Saga, que continuou:

- Armadura Sagrada de Leão. Aspirante: Ikki de Fênix. Mestre: Aldebaran de Touro.

Ikki reverenciou Athena, mas sua cara não era das melhores, o que levou a Deusa a questioná-lo:

- O que houve, Ikki? Não está contente com a sua convocação?

- Sinceramente, senhorita Saori? – ele começou do jeito orgulhoso dele.

- Sim. – ela voltou toda a sua atenção para ele, que ao perceber o modo que Seiya, Shiryu, Hyoga e Shun o encaravam, mudou de atitude.

- Creio que não estou apto para ser Cavaleiro de Ouro. Não pelas minhas habilidades, mas pela questão de convívio com os outros. Isso é complicado para mim.

Nisso, Aldebaran, que estava ao seu lado, deu uma gargalhada gostosa, o que chamou a atenção de todos ali. O Cavaleiro de Ouro de Touro justificou-se, tocando o ombro de Ikki amigavelmente:

- Rapaz, eu conheço a sua reputação, e lhe garanto, esse seu comportamento difícil é típico do Cavaleiro de Leão! – os demais Cavaleiros de Ouro seguraram a risada, menos Aiolia, que encarou o taurino com cara feia.

- O que você quer dizer com isso, Aldebaran? – perguntou o leonino mais velho, já impaciente.

- Eis o que eu queria dizer! Quando era mais novo, Aiolia era tão ou mais rebelde que você nas atitudes, sempre agindo como o Leão solitário. – olhou para o amigo, que abaixou a cabeça, e depois para Ikki – Mas se você está aqui, é porque é um bom cavaleiro, e se tiver metade do senso de justiça e da teimosia daquele ali – apontou para Aiolia novamente – será um ótimo Cavaleiro de Leão.

Aiolia estava emocionado, mas disfarçava; Aiolos o fitava de forma compreensiva, sabendo de tudo o que o irmão mais novo passara após sua morte como suposto traidor. Athena, Saga e certa amazona que estava no recinto também estavam emocionados.

Ikki lembrou-se de tudo o que passara na Ilha da Rainha da Morte, de Guilty, da morte de Esmeralda, o único amor que tivera em sua vida; do reencontro perturbador com o irmão, de todas as batalhas que travaram por Athena e pelo mundo. Se ele não estava apto para pleitear a Armadura de Leão, quem estaria? Pronto, já havia resolvido o que queria.

- Entendo, é por isso, por essa capacidade que você será meu mestre, certo? – indagou Fênix ao gigante de Touro, que apenas sorriu para ele, e abraçando seus ombros, o levou para a fila consigo.

Saga se recompôs, e tornou a anunciar:

- Armadura Sagrada de Virgem. Aspirante: Shun de Andrômeda. Mestre: Aiolos de Sagitário.

Shun ajoelhou-se perante Saori com um sorriso sincero, e a agradeceu olhando diretamente em seus olhos; mal sabia ele que havia despertado a curiosidade de uma amazona que não havia percebido a presença dele ali antes, por estar mais ao fundo na fila. Saori retribuiu ao sorriso do rapaz com ternura, apesar de ter crescido nos últimos anos, ele continuava sensível e sincero.

- Shun, Aiolos será seu mestre, pois vocês têm a mesma nobreza de coração. – a Deusa fitou o sagitariano ao lado do virginiano – Creio que Aiolos poderá treiná-lo em suas atitudes, sem torná-lo um cavaleiro duro e cético. Precisamos da sua sensibilidade como contraponto neste Santuário.

June emocionou-se com a fala de Athena; então ela realmente se importava com seus seguidores e protetores; ao não encontrar Shun no Santuário nos últimos dias, quase acreditou que ele havia mesmo morrido ao vir para a Grécia, mas agora via seu equívoco, e estava muito feliz e emocionada.

Aiolos levou o rapaz de cabelos esverdeados junto de si na fila. Saga prosseguiu:

- Armadura Sagrada de Libra. Aspirante: Shiryu de Dragão. Mestre: Dohko de Libra.

Dohko saiu de seu lugar ao lado de Saori e recebeu o discípulo com um aperto de mãos; tinha um sorriso de orelha a orelha, enquanto Shiryu reverenciava a Deusa:

- Senhorita Saori, muito grato pelo voto de confiança; fico muito feliz com esta convocação, mas receio que tenha que recusar.

- Como? – disse Dohko, ao lado do rapaz. Seus amigos e os demais Cavaleiros de Ouro não acreditavam no que ouviam!

- Saori, como sabe, eu tenho um relacionamento com Shunrei, que se encontra em Rozan no momento. Não gostaria de assumir nada sem falar com ela, muitas vezes ela me salvou com seu amor e devoção, rezando sempre por mim. Para mim é uma grande honra – ele olhou para Shura naquele momento – pois já tive a oportunidade de usar as armaduras de Libra e Capricórnio em batalha.

- Eu sei, Shiryu. Inclusive, até o Shura ressuscitar, você foi o portador da Excalibur... a qual foi devidamente devolvida a ele ao voltar à vida, claro. Mas você faria isso por amor à Shunrei? – questionou Saori.

O rapaz ponderou um pouco, um tanto indeciso sobre o que falar; todos o olhavam com expectativa:

- Não somente por amor a ela, mas por tudo que acredito. Isso que me faz um cavaleiro de Athena. Isso que guia a minha vida. Você nos mostrou que nossas atitudes são mais que atos individuais, e afetam outras pessoas. Não quero minha futura mulher sofrendo por mim.

- Shiryu! Shunrei é uma moça madura e conhece a vida de cavaleiro, foi criada por mim e conviveu com você! Não subestime a força dela! – disse Dohko, resoluto – Além do mais, ela sabe que esse é o seu caminho, e está ciente dessa convocação! Ela me pediu para lhe ajudar, e se comprometeu a vir para o Santuário lhe apoiar também!

O Cavaleiro de Dragão arregalou os olhos. Dohko continuou:

- Ela sabe que você nasceu para isso, rapaz, e o apóia como poucas mulheres o fariam. Ela te ama, Shiryu, e vai te ajudar a seguir o caminho de cavaleiro. Ela chega semana que vem.

- É verdade, eu mesma permiti que ela viesse viver aqui no Santuário. – disse Saori. Muitos pensamentos e emoções se passaram na alma da Deusa, a respeito do assunto "amor" entre seus cavaleiros.

- Assim sendo – o japonês sorriu – eu aceito, com muita satisfação, lutar pela Armadura de Libra.

- Esse é o meu garoto! – Dohko tinha o rapaz como filho, e este poderia vir a ser seu sucessor; estava muito feliz.

Saori também estava contente; pediu a Saga que continuasse:

- Armadura Sagrada de Escorpião. Aspirante: Keelin de Apus. Mestre: Shura de Capricórnio.

Keelin levou um susto, não esperava ser indicada para pleitear uma armadura de Ouro, mas quando percebera que estava ali, logo soube que só podia ser a de Escorpião. Reverenciou Athena e levantou-se, mal contendo o orgulho e a satisfação. Shura se colou ao seu lado, cumprimentando-a. Saori se manifestou:

- Seja bem-vinda ao Santuário, Keelin; de onde veio?

- Senhorita, eu vim de uma ilha bem distante daqui, a Irlanda, e minha mestra é a Amazona de Esquadro. Ela me encontrou aos cinco anos, eu já era órfã de pai e minha mãe foi morta no "Domingo Sangrento"(1)... enfim, foi assim que comecei meu treinamento, nunca estive aqui antes, mas me sinto muito satisfeita de estar aqui nas presentes condições.

Saori apenas sorriu. A amazona diante de si era mais uma vítima do tipo de conflito desnecessário e violento que ela queria evitar no mundo. Continuou:

- Keelin, Shura será seu mestre, pela sua concentração, comprometimento e grande senso de justiça e humildade. Espero que trabalhem bem juntos, percebo muita força no cosmo de ambos.

A Amazona de Apus sentiu seu rosto esquentar ao olhar para o capricorniano; oh, ela teria um belo mestre. Deixou que ele a guiasse até a fila, e sentiu-se bem e confiante sob a tutela dele.

Ouviram a voz do Cavaleiro de Gêmeos novamente:

- Armadura Sagrada de Sagitário. Aspirante: Seiya de Pegasus. Mestre: Aiolia de Leão.

Aiolia aproximou-se de Seiya, que no momento estava ajoelhado, olhando para Athena; o brilho nos olhos de Pegasus mostrava, por si só, porque ele era o mais indicado para portar aquela armadura em específico. O próprio Aiolos olhou de modo cúmplice para seu irmão, indiretamente aprovando o rapaz, e toda aquela situação.

Saori não conseguia deixar de olhar para os olhos dele também, e naquele momento de enlevo, ambos ruborizaram, quando Aster de Altar pigarreou levemente, trazendo os dois de volta à realidade. A Deusa se recompôs:

- Seiya, todos aqui sabem que você já lutou com a Armadura de Sagitário, portanto não foi surpresa quando o vimos como um dos aspirantes a ela. Aiolia será seu mestre por todo o histórico de vocês, já que o Cavaleiro de Leão sempre acompanhou você desde quando treinava com Marin, não é?

Pegasus e Leão confirmaram, e Saori apenas disse:

- Portanto, vejo que esse é o melhor para ambos. – e sorriu.

Seiya e Aiolia se cumprimentaram, felizes. O sagitariano sorriu ao passar por Aldebaran, que apenas levantou o polegar para ele em aprovação. Com eles na fila, Athena olhou para Saga, que anunciou:

- Armadura Sagrada de Capricórnio. Aspirante: June de Camaleão. Mestre: Milo de Escorpião.

June arregalou os olhos, por baixo da máscara, ao ver quem seria seu mestre; ajoelhou-se frente à Saori e pediu, com a voz trêmula:

- Senhorita Athena, fico muito lisonjeada, mas peço encarecidamente que permita que outro seja meu mestre!

Milo, que já estava ao lado dela, encarou a amazona com semblante surpreso, e um pouco de orgulho ferido; Máscara da Morte e Shina de Cobra, um ao lado do outro, seguraram-se para não rir da cara do escorpiano, que disse:

- Teria algum motivo plausível para isso, Amazona de Camaleão?

Ela se levantou e o encarou, depois olhando para Shun – o qual estava atônito com a presença dela ali – e finalmente para a Deusa:

- Este homem invadiu a ilha onde eu treinava, na companhia dele - apontou com desprezo para Afrodite – e a afundou, matando muitos de meus colegas! Eu escapei graças ao Cavaleiro de Andrômeda!

- Eu me recordo de você, June. – disse Saori – Shun a trouxe inconsciente antes de vir para o Santuário. Eu mesma cuidei de você enquanto estava nessas condições, em minha casa no Japão.

- Mas, eu acordei em um hospital... – a moça estava confusa.

- Sim, o hospital da Fundação GRAAD. Eu também fui responsável pela sua volta para casa, e sempre busquei saber como você estava. Entendo sua dor, e sei que seu mestre foi assassinado por Afrodite – todos voltaram os olhos para o pisciano – mas se ele e Milo estão aqui, com suas devidas armaduras, é porque se redimiram de sua conduta no passado.

A amazona olhava para sua Deusa, que sorria para ela, compreensiva. Deixou que o olhar de Saori atingisse sua alma, e sentiu certo conforto.

- Senhorita June – disse Milo, em postura humilde – Eu realmente me arrependi do que fiz, mas naquele momento, acreditávamos que estávamos fazendo a coisa certa. Sinto muito pela ilha de Andrômeda e por seu mestre, justamente por ver que você esteve lá, como Shun, que assumi sua tutela. Espero compensar pelo mal que fiz a você, e simbolicamente, aos seus colegas.

Todos admiraram a atitude do Escorpião, principalmente Athena e Shina, que olhava para ele com orgulho, embora não entendesse o porquê daquilo. June não desviava o olhar dele, até que suspirou, vencida:

- Está bem, serei sua pupila. Obrigada pela sinceridade. – ela estendeu a mão para ele, que sorriu, e bem devagar, a abraçou pelos ombros, de modo assertivo.

- Para quem não sabe – Saori falou – June, assim como Shina, é ariana; mas seu mapa tem forte conjunção em Capricórnio, e por isso foi apontada para pleitear a respectiva armadura e a posse da Excalibur.

A Amazona de Camaleão concordou, ainda emocionada e abraçada por Milo, que prometia a si mesmo cuidar bem daquela garota, e fazer dela uma grande guerreira, em nome de Athena.

Ambos foram para a fila, seguidos pelos olhares de Shun de Andrômeda e Afrodite de Peixes, o qual tinha seus próprios pensamentos no momento. Saori deu a deixa para Saga se manifestar:

- Armadura Sagrada de Aquário. Aspirante: Hyoga de Cisne. Mestre: Camus de Aquário.

Hyoga aproximou-se com um discreto sorriso, em reverência, e logo Camus assumiu seu lugar ao lado do pupilo; sua máscara de indiferença era traída por seus olhos, que brilhavam de satisfação e orgulho, ao olhar do rapaz para Athena.

- Eu fico muito grato pela oportunidade, Saori, e farei jus a ela, isso eu posso garantir. – disse o Cisne, seguro de si.

- Eu acredito muito nisso, Hyoga, ainda mais sabendo que sua parceria com Camus o aproxima muito de se tornar o sucessor dele como Cavaleiro de Ouro de Aquário! Parabéns para você também, Camus! – Saori cumprimentou os dois.

- Eu também fico muito grato, minha Deusa, é uma honra para mim. – disse o francês, com uma mesura.

Ambos juntaram-se aos outros na fila, e Hyoga cumprimentou Maia com um aceno de cabeça, ao se colocar ao lado dela, sendo retribuído pela amazona.

Saga deu um suspiro de contentamento ao anunciar a última convocação:

- Finalmente, temos a Armadura Sagrada de Peixes. Aspirante: Marin de Águia. Mestre: Saga de Gêmeos. – com isso, ele saiu de seu lugar ao lado de Athena e tomou a mão de Marin, trazendo-a para diante da Deusa.

Ambos fizeram suas reverências, e Marin agradeceu, sentindo o olhar de um orgulhoso leonino e de seu agora pupilo Seiya em sua direção. Saori pronunciou-se:

- Marin, é com muita satisfação que a convoco como aspirante à Armadura de Peixes; conheço sua capacidade e seus esforços contínuos, tanto como mestra como amazona. Saga será seu mestre para ajudá-la a canalizar seu foco, e instruí-la sobre a duplicidade que geralmente tem o cavaleiro de Peixes – ela sorriu para Afrodite, que apenas concordou – espero que façam uma grande parceria, como as demais que foram formadas aqui hoje.

- A satisfação é minha, Athena, muito obrigada! – a Amazona de Águia estava emocionada, e aceitou o braço do Cavaleiro de Gêmeos, que a encaminhou para a fila com os outros.

Assim, estava formada a segunda turma de aspirantes às armaduras de Ouro; Athena olhou para seus cavaleiros e amazonas, satisfeita; realmente era muito privilegiada por ter a fidelidade e o amor de todos ali.


Após a reunião, todos foram dispensados, e após despedir-se dos amigos, logo certo cavaleiro estava atrás da Amazona de Camaleão, correndo atrás dela enquanto ela descia as escadarias com passos rápidos e decididos:

- June! – chamava Shun, em vão.

A loira fingiu não escutá-lo, ainda estava abalada pela sua convocação e por ter enfrentado dois cavaleiros de Ouro diante de Athena em pessoa; sua única vontade agora era sumir e chorar, mas isso seria impossível com Shun em seu encalço.

Tomou o caminho oposto à Vila das Amazonas para despistá-lo, mas logo sentiu seu pulso ser coberto em um toque delicado, mas firme:

- June, eu estou falando com você, por favor, me escute! – disse Shun, encarando-a.

- Eu não tenho nada para falar com você! – ela se exaltou, puxando seu braço com força para que ele a soltasse.

- O que houve com você? Você está bem? – apesar da reação dela, ele continuava preocupado com a moça à sua frente.

June engoliu em seco. Conhecia muito bem a alma sensível do rapaz, que apesar de estar mais alto, mais forte e aparentemente mais maduro, com certeza ainda possuía aquela delicadeza inerente ao seu caráter. Olhou para ele de cima a baixo, sabendo que ele não poderia ver seus olhos devido à máscara; seu primeiro ímpeto foi jogar-se nos braços dele e chorar, como fizera quando tentara impedi-lo de vir ao Santuário, há alguns anos atrás.

Mas não, dessa vez, ela não o faria; sua postura normal era séria, fria e compenetrada; apesar de Shun ser um dos poucos que quebrara sua defesa e conquistara sua devoção, mostraria a ele porque fora escolhida para pleitear justamente a Armadura de Ouro de Capricórnio.

- Eu estou bem, estou viva, e gostaria que você me desse um instante de paz. – ela disse, fria – Podemos conversar em outra oportunidade.

Ele a encarou, estranhando o comportamento dela; ela sempre fora mais forte que ele, o ajudara em inúmeros momentos, e sabia que devia o fato de ser o portador da Armadura de Andrômeda, entre muitos fatores, à paciência e carinho que ela depositara nele.

- Hum. – ele levou uma das mãos ao pescoço – Apenas gostaria de retribuir um pouco de tudo que você fez por mim. Sinto pelo seu cosmo que você está abalada. Por que não pode confiar em mim, June? Logo eu, que sempre pensei em você...

- Quer mesmo que eu acredite nisso, Shun? – ela falou, calma, com uma frieza que ele não reconhecia nela – Agradeço por ter me entregado à Athena naquela época, mas acordei confusa, em um país estrangeiro, sem ninguém. Voltei para casa e treinei sozinha até ser convocada para vir até aqui; sempre pensei em você também, mas sinceramente, achava que estava morto, ou que havia me esquecido.

- Eu nunca te esqueci. – ele arriscou um passo em direção a ela – Sei que se passaram alguns anos, e eu vivia prometendo a mim mesmo que iria te procurar, mas aconteceram tantas coisas... reencontrei meu irmão, batalhei contra os próprios Cavaleiros de Ouro, morri em combate com Afrodite e fui ressuscitado...

- Como? Afrodite de Peixes? O assassino de nosso mestre? Você o enfrentou? – ela o interrompeu, ansiosa.

- Sim, eu o enfrentei na Batalha das Doze Casas; vinguei nosso mestre, na realidade mais de uma vez, pois eu e Ikki o matamos outra vez ainda, e ele se redimiu na última Guerra Santa, ao enfrentar espectros de Hades e ajudar na queda do Muro das Lamentações, no submundo. Ele se redimiu e só por isso teve o direito de ressuscitar desta vez, e ser aceito novamente pela Armadura de Peixes.

June arregalou os olhos. Shun havia passado por muita coisa, e também vingara a morte de Albion de Cefeu; diante disso, e do olhar amoroso e sincero dele, a amazona sentiu-se amolecer. Ele continuou:

- Pois é, sem querer me gabar, enfrentamos espectros, o próprio Hades tomou conta do meu corpo, e eu quase deixei de existir; se não fosse a Saori e o Shaka ele teria dominado também o meu coração, e eu seria definitivamente o "recipiente" do Deus do submundo. Enfrentamos outros Deuses também, ajudamos na reconstrução do Santuário, e quando essa confusão por causa do torneio acabasse, eu ia atrás de você, finalmente. Mas parece que os Deuses nos foram favoráveis, e a trouxeram até aqui, para mim...

O Cavaleiro de Andrômeda aproximou-se da garota suavemente, encarando sua máscara. Será que ela continuava tão bela quanto antes? Durante todos aqueles anos, as íris azuladas o perseguiram em seus sonhos mais secretos; conhecera muitas amazonas e muitas garotas em geral nesse tempo, mas ninguém tirava o lugar de June em seu coração. E agora, ela estava ali na sua frente. Deslizou suas mãos ao longo dos braços dela, até alcançar o tecido de suas longas luvas.

June de Camaleão sentiu-se estremecer ao sentir a forma carinhosa com que Shun a tocava. Sua respiração começou a falhar quando ele a abraçou, e percebeu-se imóvel nos braços do cavaleiro. Sentia sua respiração, as batidas de seu coração junto a seu peito, e reparou que aquele ritmo calmo parecia acalmar seu próprio coração.

"A Deusa é sábia. Não é à toa que ele foi escolhido para disputar a Sagrada Armadura de Ouro de Virgem." – pensava a garota, deixando aquela paz tomar conta de si.

Depois de alguns minutos, separaram-se, e ele sorriu:

- Sinto que você está mais calma. Quer dar uma volta pelo Santuário, ou prefere almoçar primeiro?

Pega de surpresa, ela se recompôs, e falou da forma mais neutra possível:

- Vamos caminhar, eu posso preparar algo para comer em minha casa mais tarde... depois de tudo que aconteceu hoje, não sinto fome.

- Hum, tenho certeza que nossa caminhada vai abrir seu apetite! – ele olhou para ela, animado – Vamos, vou te mostrar meus lugares favoritos por aqui!

June sorriu por baixo da máscara; algumas coisas nunca mudavam, e ela esperava que a pureza e boa vontade daquele cavaleiro excepcional fossem algumas delas.


(1) "Domingo Sangrento" (Bloody Sunday): trata-se do confronto que houve entre manifestantes católicos e protestantes contra o exército inglês na Irlanda do Norte, no dia 30/01/1972. Quatorze pessoas morreram e 26 saíram feridas; esse episódio foi tão marcante para os irlandeses, que na década de 80 tornou-se inspiração para "Sunday Bloody Sunday", do U2.

Até o próximo!