Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens pertencem a Masami Kurumada, à Toei Animation, à Shueisha, eu não tenho nada a ver com isso! Esta é uma fic sem fins lucrativos.

Mais um capítulo! Não sei se tem alguém acompanhando, mas não desistirei de postar essa fic até o seu final! Feedbacks são bem-vindos.

Agradecimentos mil à minha querida beta-reader, Human Being. Sua linda!

Boa leitura!


CAPÍTULO 4 - AWAKENING


No meio tempo da reunião com Athena, uma jovem subia as escadarias, desanimada; trajava sua armadura, para apresentar-se decentemente, mesmo que fosse para cumprir o castigo que lhe fora imposto por sua mestra.

"Quem sabe assim você aprende a respeitar certos limites, né, Ísis?" – a garota ainda podia ouvir a voz de sua amiga, a Amazona de Corona Australis, em sua mente. Realmente, Adisa poderia ser muito cabeça-dura e mesmo cricri quando queria, mas tinha certeza que a libriana agia assim porque desejava o seu bem.

Ísis julgava-se uma boa guerreira, desde que viera para o Santuário após ser descoberta por Marin em um orfanato em sua terra natal, o Egito. Dedicara-se de corpo e alma ao seu treinamento e seu ofício, pois os ideais de sua Deusa eram compatíveis com os seus próprios; presenciara e participara de algumas batalhas ali, assim como da reconstrução do Santuário, que considerava seu lar.

Mas ela não era de respeitar limites. Não que agisse impulsivamente ou sem razão, na realidade, todo seu comportamento transgressor era cuidadosamente calculado; só assim saberia em quem confiar realmente, e conheceria os próprios limites dos outros. Este era seu jeito de ler as pessoas, e saber até onde ela mesma podia ir. Não havia como mudar isso.

Agora, teria que pagar o preço disso, segundo o que lhe passaram, teria que cuidar do jardim de um cavaleiro de Ouro nos próximos dois meses, quatro dias por semana, substituindo a serva que realizava este trabalho; e era por isso mesmo que agora estava diante do Décimo Segundo Templo, para saber quando poderia iniciar seu castigo.

"Nossa, que calor! Não é surpresa suar em bicas depois de subir tudo isso, em um dia tão quente!" – pensou ela, olhando para as escadarias que subira.

Silenciosamente, adentrou a Casa de Peixes, e ao sentir o forte cheiro de rosas, o seguiu até chegar ao magnífico jardim de Afrodite. Lá havia rosas brancas, negras e vermelhas em quantidade, e o jardim se estendia até a lateral do Salão do Grande Mestre, revelando um belo tapete de rosas.

"Mas que maravilha! Não imaginava que o famoso jardim de rosas de Afrodite de Peixes fosse tão bonito." – ela pensava, encantada.

Um pouco mais à frente, avistou uma fonte que formava uma pequena piscina natural, onde as pétalas de rosas boiavam livremente; aproximou-se e, constatando que estava só, retirou sua máscara e pegou um pouco daquela água límpida para lavar seu rosto e refrescar-se.

- Ora, ora – ouviu a voz masculina, ao seu lado direito – não sabia que deveria esperar visitas por hoje...

Rapidamente, colocou sua máscara, e encarou Afrodite, encostado em uma pilastra, trajado com uma túnica masculina leve, cujo tom azul claro realçava toda a sua natural beleza. Nunca o havia visto sem sua armadura antes, e pôde entender porque diziam que ele era o mais formoso entre os 88 cavaleiros de Athena.

- Perdão, senhor Afrodite – ela fez uma pequena mesura - sou Ísis de Cassiopéia, e vim a mando de minha mestra, Marin de Águia, para cumprir um castigo.

- Eu sei quem é você, amazona. – ele se aproximou sorrindo, com um andar quase felino – Mas diga, o que fez de tão grave para merecer uma punição?

Ela estava totalmente sem reação diante daquele homem tão bonito. Tudo nele era hipnótico, e ela tratou de colocar a sua razão para funcionar ali.

- Joguei videogame até tarde com Kiki de Appendix. – e diante da risada do cavaleiro, completou – Minha mestra diz que devo ser punida por não ter contado a ela sobre isso.

- Bem, Ísis, sabe que ela está certa, não? Eu mais que qualquer outro cavaleiro aqui posso te falar sobre o valor da confiança. – ele se aproximou de uma das roseiras – Satisfaça minha curiosidade, no que consiste esse seu castigo?

- Devo cuidar de seu jardim durante dois meses, substituindo a serva que vinha ajudá-lo. – ela não sabia se era o cheiro das rosas, mas estava começando a sentir sua mente leve, quase entorpecida. Sentia-se... quase seduzida por aquele perfume. Voltou a apelar para sua razão, internamente, para manter-se lúcida.

- Certo, apenas temos um problema: não sei se sabe disso, Cassiopéia, mas minhas rosas são altamente venenosas. Eu mesmo sou responsável por cuidar delas, pois meu sangue é o único que tolera o veneno que guardam. Portanto, não teria como lhe designarem para essa tarefa.

Ísis sentiu-se confusa. Como isso era possível? Teria entendido as ordens de forma errada? E por que ele a olhava de modo tão profundo? Os olhos azul piscina eram quase irresistíveis, e ela percebeu que estava prendendo a respiração quando ele se colocou à frente dela, e com um sorriso misterioso, disse:

- Não disseram a você a quem pertencia o jardim que deveria cuidar, não é?

- N-Não... – balbuciou a moça – Por quê? Existe algum outro jardim aqui no Santuário além deste, senhor?

- Ora, não precisa me chamar de senhor, assim parece que eu sou bem mais velho. Quantos anos você tem, Ísis? – ele perguntou, bem próximo dela.

- De-Dezesseis. – a amazona não entendia o motivo de estar daquele jeito, podia muito bem agir de forma evasiva, como faria naturalmente, ou responder de forma neutra e educada àquele homem.

Afrodite percebeu como ela estava afetada pela sua presença; sua sensibilidade extrema permitia captar suaves nuances no estado das pessoas; e se encantou com o modo que ela se deixava envolver, mesmo que inconscientemente.

- Temos quase nove anos de diferença, apesar de que você parece bem mais madura do que a sua idade mostra. Enfim, mesmo assim, peço que me trate apenas como Afrodite, como prova de confiança, está bem? – Ele retirou uma rosa branca de sua túnica. - Gosta de rosas?

- Eu... – ela começou a falar, quando ouviu uma voz ecoar no ambiente:

- Ísis, ainda bem que a achei! – Anya de Taça adentrava o local, com sua postura impecável, sua armadura prateada e os longuíssimos cabelos naturalmente vermelhos balançando ao sabor do vento – Com licença, senhor Afrodite, mas creio que houve um engano, a Amazona de Cassiopéia deveria apresentar-se na Casa de Virgem, o senhor Shaka notou a demora dela e me pediu que viesse buscá-la.

- Como? – estranhou Ísis, recuperando a razão e a postura – Como ele sabia onde eu estava?

- Pelo cosmo. – respondeu o próprio Afrodite – Muito bem, Anya, pode levá-la; mas antes...

Ofereceu uma rosa branca a cada uma delas, e as conduziu até a entrada de sua Casa. Despediu-se um misterioso sorriso:

- Tenham um bom dia, e me visitem quando quiserem, gosto quando as pessoas apreciam a beleza de minhas rosas.

As duas agradeceram e desceram as escadarias até a Sexta Casa, e somente a Amazona de Taça reparou no perigoso olhar que o pisciano dirigia a elas, ao olhar discretamente para trás.

"O senhor Shaka estava certo, ainda bem que cheguei a tempo..." – pensou ela.

Alguns minutos depois, as amazonas chegavam até Virgem, e Anya despediu-se de Ísis, continuando seu caminho até a Vila das Amazonas; em seu íntimo, Cassiopéia ainda estava voltando a si, tentava compreender o que acontecera na Casa de Peixes até um tempo atrás. Geralmente não se deixava envolver pela beleza de ninguém, mas aquele homem era fascinante, o que o tornava totalmente perigoso aos seus olhos.

À medida que entrava na Casa de Virgem, sentiu o cheiro de incenso e outra atmosfera que a envolvia, dissipando a confusão de seus pensamentos e a acalmando aos poucos, aguçando seus sentidos, exatamente o oposto do que experimentara na Décima Segunda Casa. Logo chegou ao acesso para a lateral da Casa, onde encontrou o que estava procurando.

"Pelos Deuses, isso é... impressionante." – pensou, ao entrar no jardim que se revelava aos seus olhos.

O local era grande, coberto por uma grama verde e fresca, além de várias flores; no centro havia duas árvores exatamente iguais, altas, que lembravam pinheiros, embora Ísis soubesse que não o eram. Maravilhada, caminhou até elas, sentindo a brisa fresca que vinha das montanhas no horizonte, e servia de meio para que as flores de cerejeira – que ela nem sabia de onde vinham – bailassem no ar, circundando-a, caindo em seu rosto protegido pela máscara, e pelo seu cabelo loiro.

A amazona sentiu-se uma criança novamente, e dançou de acordo com o vento carregado do cheiro suave das flores de cerejeira, rodopiando no meio do jardim; sentiu a diferença do mesmo em relação ao jardim de Afrodite, e descobriu-se feliz no lugar onde estava. Já embaixo das árvores, avaliou-as bem, e vagarosamente soltou as correntes em seus pulsos, comandando às mesmas, com seu cosmo, que escalassem cada um dos troncos, entrelaçando-as em um galho grosso em cada árvore. Testou sua estabilidade, e assim, começou a se balançar.

As correntes a puxavam para o alto, pelos braços, balançando de forma devagar, e ela se percebeu fechando os olhos e desejando ficar ali para sempre, em paz.

"Como não descobri esse lugar antes? Aqui é o Paraíso..." – formulou, no fundo de seu ser.

- Simples. Este lugar é conhecido apenas pelo portador da Armadura de Virgem, e trata-se de um jardim sagrado. – uma voz masculina deu ênfase à última palavra.

Ísis acordou de seu devaneio, perdendo o controle de seu cosmo e fazendo com que as correntes se soltassem; fechou os olhos novamente, esperando o impacto com o chão, e surpreendeu-se quando este nunca veio.

- Não precisa ter medo. – a voz falou novamente – Você está segura, Amazona de Cassiopéia.

Ela abriu os olhos, relutante, e assustou-se ao ver que estava levitando, a alguns centímetros do chão. Levantou a cabeça vagarosamente, e aos poucos foi enxergando um par de pernas musculosas, longas e bem torneadas, cobertas por um pano branco leve; seus olhos passaram pelo abdômen bem definido e pelo tórax que se revelava, pois a túnica dele tinha um ombro só. Os cabelos loiros, mais claros que o seu, e bem mais compridos também, esvoaçavam em volta dele. Então, finalmente, enxergou o rosto de Shaka de Virgem.

Ele estava, como sempre, de olhos fechados, mas algo nele parecia diferente aos olhos dela; ele parecia iluminado, divino. De outro mundo. Ele colocou-a de pé no solo, e disse:

- Bem-vinda ao Jardim das Árvores Gêmeas. – ele apontou para as mesmas – Senhorita Ísis, caso não saiba, diz a lenda que Buda morreu meditando entre essas duas árvores. Eu mesmo já morri assim, e sempre que necessito de paz, venho até aqui.

"Que coisa mais mórbida!" – ela pensou – "Em um lugar tão bonito!"

- Senhor Shaka, obrigada pela ajuda – ela se recompôs – mas como devo cuidar desse jardim, já que ele é tão espiritual?

- Vejo que é uma boa observadora. Cuidará dele como um jardim normal, mas trazendo bons pensamentos e energias positivas para cá, que devem se refletir em cada uma de suas ações aqui dentro.

Ísis sorriu por baixo da máscara, positividade era com ela mesma! Empolgou-se:

- Que bom, pelo visto comecei bem! – disse mais para si mesma que para o cavaleiro.

- Ah, que bom que tocou nesse assunto. – ela então o encarou, esperando algum elogio – Boas ações e pensamentos são cruciais, mas certamente usar as árvores sagradas como apoio para se balançar não está na lista. Bem entendido?

A amazona ficou sem palavras. Então ele a vira se balançar? Comportando-se como a criança que já fora? De repente, ficou séria, e disse de uma vez:

- Como quiser. Mas acredito que é bem mais positivo ter boas lembranças de minha vida e infância embaixo dessas lindas árvores, do que associá-las com a minha própria morte.

As sobrancelhas de Shaka levantaram-se, e parecia que ele ia abrir os olhos, mas apenas deu um meio sorriso e, voltando suas costas para ela, falou:

- Suas tarefas aqui começam amanhã à tarde; eu a guiei até aqui hoje, portanto não tente achar este lugar secreto sozinha, ou irá se perder nas ilusões da Casa de Virgem. Venha com alguma roupa confortável, de preferência sem a sua armadura.

- Tem receio que eu volte a usar minhas correntes de Cassiopéia para me balançar? – ela resolveu testar a paciência dele.

- Até amanhã, amazona, não se atrase. Já está dispensada. – ele disse calmamente.

Nisso, um clarão se formou, e quando Ísis deu por si, estava fora do Templo de Virgem, no acesso às escadarias das Doze Casas.

"Aquele... eu não acredito! Mas ele vai ver só, ah se vai..." – pensou, enquanto descia rumo à Vila das Amazonas.


Dohko estava preocupado, Shunrei chegaria dentro de uma semana, e ele não tinha nada preparado para recebê-la! Com os afazeres de Grande Mestre, negligenciara todos os planos que fizera para garantir o conforto da filha adotiva no Templo de Libra.

"Se não fosse a dúvida do Shiryu, acho que eu teria me esquecido completamente das acomodações da Shunrei... quando ela chegar, precisarei parar de trabalhar tanto para dar atenção a ela! Que tipo de guardião ela achará que me tornei?" – pensava o ex-ancião, em dúvida.

A verdade é que tudo era bem mais simples quando cuidava do selo dos espectros de Hades em Rozan, em sua antiga forma. Tudo o que deveria fazer era esperar e vigiar, o que permitia que dedicasse mais de sua atenção ao pupilo e à órfã que resgatara, Shunrei. Criara os dois juntos, vira-os crescer e assumir um relacionamento, depois de sua ressurreição; desejava um grande bem aos jovens, por isso pedira à Athena que recebesse a chinesa nos domínios do Santuário, já que o selo de Hades agora estava nas proximidades do mesmo.

Após a nomeação em que Shiryu quase desistira de lutar pela armadura de seu mestre – um grande susto que surpreendera a todos, sem exceções – Dohko e alguns servos do Santuário arrumavam um cômodo para Shunrei, que agora estava limpo e organizado, mas faltavam móveis adequados para uma moça de dezesseis anos, coisa que ele mesmo não sabia como lidar no momento; foi então que requisitara a ajuda da Amazona de Águia.

Ele estava esperando por ela, que chegou no horário combinado, acompanhada de mais uma amazona.

- Boa tarde, Dohko, conforme conversamos, eu vim ajudá-lo com a escolha da mobília da Shunrei! – disse Marin, animada.

- Ah, ainda bem que chegou, Marin! Eu não tenho o mínimo tato para esse tipo de coisa, apenas sei que minha Shunrei merece um quarto bem confortável para ela... essas coisas de menina, que eu sinceramente não conheço muito! – ele deu um sorriso franco, enquanto bagunçava o cabelo castanho escuro.

- Na realidade, Dohko, eu pensei bem no seu caso em específico, e decidi deixá-lo em mãos melhores que as minhas nesse assunto! – disse a japonesa, apontando para a moça ao seu lado.

- Oh, tudo bem? – ele a cumprimentou – Você é a Amazona de Bronze de Corona Australis, não é?

- Sim, senhor. – ela disse, de forma educada - Vim ajudá-lo a escolher a mobília que precisa, lá no vilarejo de Rodório.

- Muito bem – ele sorriu para ela – já que trabalharemos juntos, peço que me chame de Dohko apenas. Ouvi dizer que você é durona, tem certeza que não vai achar essa missão muito chata?

- Não, eu gosto dessas coisas. E independente do que tenham dito a meu respeito, ainda tenho dezesseis anos, o que me torna ideal para essa tarefa.

Dohko admirou a moça a sua frente, ela era confiante, e ele gostava disso nas pessoas. Sabia que ela era sociável, mas tinha poucos amigos, o que o fez pensar se poderiam criar algum laço de amizade de fato.

Adisa não gostava de fofocas a seu respeito, mas não responderia mal ao Cavaleiro de Libra; sabia que ele era um homem distinto e fizera aquele comentário em um sentido positivo, dizendo que ela era uma boa guerreira. E quisera saber sobre sua disposição para o trabalho, o que dera certos pontos a ele em sua escala pessoal de conceitos.

- Bem, vejo que vocês poderão ficar sem mim... Dohko, a Shina já conseguiu a permissão para que os dois saiam do Santuário juntamente com alguns servos, para ajudar a carregar as coisas. Adisa, ajude bem o Cavaleiro de Libra, e terá alguém com quem contar sempre. – sorriu Marin.

- De fato, minha jovem! – ele confirmou, animado – Podemos ir, Adisa?

- Quando quiser. – ela disse, disposta.

Não era todo dia que conseguia permissão para sair e ir até Vila Rodório, ainda mais para fazer compras. Ela sabia que o objetivo era comprar móveis para a filha adotiva de Dohko, mas pelo menos poderia conferir as novidades nas vitrines. O que a fez perguntar, quando saíam do Santuário:

- Senhor Dohko... – começou, mas foi interrompida por ele.

- Somente Dohko, senhorita. – ele enfatizou.

- Está bem, mas me chame apenas de Adisa também! – ela brincou – Você parece tão novo, como é possível que tenha uma filha adotiva?

- Bem, Adisa – ele suspirou – eu tenho o físico de um jovem de 18 anos de idade, porém com alma de velho. Como você deve saber, eu tenho mais de 240 anos.

Ela arregalou os olhos por baixo da máscara; sabia que ele era conhecido antigamente como "Mestre Ancião", mas nunca tinha o visto antes da ressurreição dos Cavaleiros de Ouro pelos Deuses do Olimpo. Chegara à Grécia bem depois da última Guerra Santa, e quando chegara era muito nova para se ater à História do Santuário de Athena.

- Mas isso é muito tempo! – ela o viu dar um sorriso meio triste – Espere, não que isso seja ruim. Você é imortal?

- Não, apenas estive sob um feitiço de Athena depois que sobrevivi à penúltima Guerra Santa, você sabe, a de 1743. Eu voltei à minha verdadeira forma, a jovem, com o início da Guerra Santa passada, e morri no Muro das Lamentações, lá no submundo. – sentindo o cosmo da garota cada vez mais surpreso, ele disse - Mas não creio que seja algo interessante para uma moça tão nova ouvir...

- Por favor, eu quero ouvir! – ela afirmou – Não é todo dia que posso conversar com alguém como o senhor!

- Como assim? – ele perguntou, subitamente.

- Ahn? – ela não entendera, será que havia dito algo errado, ou inadequado?

- Você disse, uma pessoa como eu. – ele a encarou – Que tipo de pessoa eu sou, Adisa?

Ela parou toda a sua corrente de pensamentos para analisar porque havia dito isso, antes que falasse alguma bobagem; a verdade é que falara sem pensar, mas ele também tinha que se importar com aquilo? Resolveu ser direta:

- Não é todo dia que posso conversar com alguém tão experiente, que presenciou tantos fatos cruciais em nosso Santuário. Era disso que eu estava falando.

Ele a encarou, sério, para depois dar uma gostosa risada:

- Você realmente leva as coisas muito a sério, menina. Diga-me, tal postura é natural do seu ofício de amazona, ou você quer mesmo se tornar mais adulta antes da hora?

Se Dohko pudesse enxergar por baixo da máscara de amazona, veria que Adisa o estava fuzilando com os olhos. Apesar de ter sentido, aquela pergunta a irritara.

- Bem, Dohko, considerando o lugar de onde vim e a cor de minha pele, penso que é natural ter uma postura mais séria, pois fui educada para tê-la, pela sociedade de meu país. Você ouviu dizer que eu sou "durona", pode acreditar que já tive que ser bem mais que isso. – ela falou como não se importasse, mas havia certo rancor em sua voz.

Dohko a analisou bem. Ah, então era isso... ele sabia que ela viera da África do Sul, mas não imaginava que a situação do povo a cuja raça ela pertencia era tão complicada quanto parecia.

- Entendo. Esqueci que você é da África do Sul, desculpe-me, Adisa. – ele falou, compreensivo.

- Desculpá-lo pelo quê? Aqui na Europa poucos têm real ideia de como vivem os negros no meu país. Sorte que a mestra Shina me encontrou por lá em uma de suas missões; meu pai eu não conheci, minha mãe foi presa pelo governo por não aceitar o apartheid que ainda acontece lá.

- Sim, eu soube que seu povo sofrem com essas e muitas outras injustiças. Pensa em voltar ao seu país algum dia? – perguntou ele, que também vira seu país, a China, sucumbir a uma onda de violência com a ascensão do regime socialista ao poder.

- Sim, realmente espero que sim. Foi por isso que me tornei uma amazona de Athena, Cavaleiro de Libra. Para lutar por seus ideais de paz e justiça na terra, que fogem desse padrão de violência indevida e arbitrária. Para ajudar a fazer essa justiça com as minhas próprias mãos. – ela olhou para os próprios pulsos, que nem sabia que estavam fechados.

- Um motivo muito nobre e válido – ele se colocou na frente dela e segurou suas mãos– mas a justiça de Athena não se baseia na vingança. Acredito que um dia poderá voltar ao seu país e ajudar seus semelhantes, mas não combata violência com mais violência. Você sabe por que não usamos armas no Santuário?

- Sei sim – ela riu, enquanto voltavam a andar – mas parece que essa regra não se aplica a você!

- O Cavaleiro de Libra possui todas essas armas, justamente para ponderar se deve usá-las ou não. Na maioria das vezes, usei meus escudos para minha defesa e de meus companheiros, mas sempre preferi lutar com meu cosmo. Porque aí está a verdadeira escolha, a verdadeira ponderação, a verdadeira justiça; no valor que se dá às conseqüências de seus próprios atos.

A moça ouviu com atenção, realmente ele era um homem impressionante; sentia que tinha muito a aprender com ele, mas será que ele a aceitaria por perto?

- Dohko, desculpe se fui rude, mas você está certo. Você poderia me ajudar a deixar esse rancor de lado, e ser mais... razoável? – ela mesma não acreditava que estava dando o braço a torcer daquele jeito.

- Mas é claro! – ele sorriu – Temos muito que conversar, Adisa. Mas por enquanto, você tem que me ajudar com a mobília da Shunrei, está bem assim? – ele disse, percebendo que chegaram à Vila Rodório.

- Certamente, é para isso que viemos até aqui, não? Vamos lá! – ela deixou seu lado consumista falar mais alto, e pegou a mão do cavaleiro, levando-o para a primeira loja de móveis que vira.

- Isto será curioso! – pensava Dohko, enquanto se deixava levar por aquela garota.


- Mas que merda! – disse Carlo de Auriga, enquanto observava o estrago feito em sua mão pela Maça Infernal de seu amigo e colega de treinos, Martin de Cérberus.

- Psiu! – reprovou Tony de Lagarto – Por acaso não sabem que estamos sendo observados? Barreira de Ar!

- Poxa, Tony, fica quieto para eu poder acabar com você logo de uma vez! Mas o Lagarto está certo, Auriga, tem damas presentes! Poder Supremo de Hércules! – disse Adrian, tentando acertar o amigo mais uma vez.

- Caramba, eu sei, mas olhem o estrago que esse cão dos infernos fez na minha mão! Você me paga, Cérberus! Discos Mortais! – devolveu Carlo, possesso.

- Como se isso adiantasse alguma coisa! – riu, sarcástico, Aspira de Perseu – Mas realmente, não é todo dia que temos uma Deusa observando nossos treinos. Ainda mais uma tão bonita.

- Gostou dela, Perseu? Saiba que não é pro seu bico! – provocou Ícaro de Cefeu, avançando com sua corrente para cima do amigo.

- Ah é? – disse o loiro – Toma essa então! Górgona Demoníaca!

Nesse instante, uma Medusa imaginária de energia se formou, prendendo Ícaro, enquanto Aspira o acertava com chutes contínuos, usando uma intensidade média de seu cosmo. Estava prestes a parar, quando ouviu o irmão gêmeo:

- Cuidado Aspira, é uma cilada! – gritou Adrian de Hércules, mas não houve tempo.

Aspira se encontrou envolvido pela corrente de Ícaro de Cefeu, e quando deu por si, estava sendo atirado para cima, para cair em alta velocidade, pressionado pela corrente e pelo cosmo do amigo, que o estava sufocando.

Um grande estrondo foi ouvido na arena. Todos os cavaleiros de Prata ali reunidos pararam seus treinos para ver o estado do amigo; qual não foi sua surpresa ao constatar que Perseu ainda estava enrolado na corrente, a centímetros do solo, são e salvo?

- C-Como? – perguntou Tony, confuso, encarando Ícaro.

- Fácil, o estrondo se deu pela força do meu cosmo, mas na verdade eu parei a corrente antes que a energia pudesse amassar o Aspira no chão. Legal, né? – ele piscou para os amigos, maroto.

- Afffff... aí Aspira, o Cefeu melou teu esquema com a Deusa loirinha. E olha que ela até se levantou para ver como você estava. – debochou Martin de Cérberus.

O loiro se recompôs e olhou para a arquibancada do Coliseu; de fato, Freya o observava para saber se ele estava bem, e deu um pequeno sorriso para ele. Envaidecido, o cavaleiro fez uma pequena mesura, mas travou ao ver que ao lado dela estava Aiolos de Sagitário. Voltou ao seu treino, como se não tivesse acontecido nada.

- Os treinos dos Guerreiros Deuses, em minha terra, não são tão violentos como os que ocorrem aqui. – disse Freya – Pensei que Athena condenasse a violência gratuita.

- De fato, nossa Deusa não aprova o uso da violência, ainda mais se ela for gratuita ou arbitrária. Mas assim como seus Guerreiros Deuses, nossos cavaleiros têm que estar sempre aptos a usar cem por cento de suas capacidades, por isso estão acostumados a treinar assim, no limite, quando envolve cosmo. Mas alguns treinos são apenas físicos, para aprimorar técnicas de luta corporal. – respondeu Aiolos.

- Entendo. Também percebi que a intenção não é machucar o outro, pois o cavaleiro com a corrente parou antes que seu cosmo ferisse o colega. Seu domínio do cosmo deve ser impecável.

- Sim – sorriu Aiolos – Ícaro de Cefeu é um dos nossos melhores cavaleiros de Prata. Na realidade, a senhorita Athena tem orgulho de todos os seus defensores.

Freya concordou, satisfeita. A amiga era uma Deusa respeitada e amada, e esperava ter a mesma consideração de seu povo em Asgard; além de representar Hilda, ela estava ali para aprender cada vez mais a como se portar como uma verdadeira líder, já que agora comandava seu grupo de Valquírias oficialmente, mesmo que à distância.

- Diga-me, senhor Aiolos, qual foi a reação de meus amigos Cavaleiros de Bronze em sua nomeação hoje? – ela perguntou, interessada.

- Oh sim, tudo correu muito bem. Apenas Shiryu de Dragão que quase desistiu de lutar pela Armadura de Libra, mas no geral todos ficaram felizes e satisfeitos.

- E qual seria a razão para ele declinar tamanha honra? – a jovem Deusa estava intrigada.

- Amor. Ele tem um relacionamento com uma civil, filha adotiva do próprio Cavaleiro de Libra, e estava disposto a renunciar ao seu direito para não vê-la sofrer. Mas sinceramente, não compreendo bem isso, pois o único amor que conheci em minha breve vida foi o fraternal... além do meu amor por Athena, é claro! – retificou o sagitariano.

- Seu irmão é o Cavaleiro de Ouro de Leão, não é verdade?

- Sim, senhorita. Conheceu Aiolia? – ele perguntou, orgulhoso.

- Apenas de vista. Senhor Aiolos, sabe que em minha terra, eu sempre fui vista como Aquela que recebe os mortos, em meu salão, mas outra característica minha, é que sou uma espécie de Deusa do amor. – ela sorriu.

- É mesmo? – perguntou ele, surpreso – A senhorita pode amar?

- Sim, posso sim. Vê este colar em meu pescoço? Chama-se Brisingamen, e confesso que tive que pagar pelo direito de tê-lo de uma forma que talvez soe indigna para você. Mas não importa, com isso amadureci, e me tornei muito mais observadora. E sabe o que vejo neste Santuário? – ela perguntou, aproximando-se devagar dele.

- O quê, senhorita? – a voz dele saiu em um sussurro, e o cavaleiro sentiu suas bochechas esquentarem.

- Muitas, mas muitas pessoas frustradas por não possuírem o direito legítimo de amar. E seu irmão, senhor Aiolos, infelizmente é uma dessas pessoas.

- Compreendo. De fato, ele tem um grande afeto por uma das amazonas do Santuário. Mas a Lei das Amazonas diz que se elas escolherem amar a um homem, devem abdicar de seus postos e armaduras; trata-se de uma forma de reafirmar o comprometimento de todos no serviço à nossa Deusa.

- Sinceramente, o senhor acha isso justo? Acha que seu irmão deixaria de ser um bom cavaleiro, e sua amada, uma boa amazona, por conta de sua união legítima?

O sagitariano pensou um pouco antes de responder. As questões de Freya eram válidas, mas a Lei das Amazonas era uma tradição; se bem que, com as leis do Santuário em reforma, isso não seria digno de deliberação?

- Não, senhorita Freya. Na realidade, creio que Aiolia se tornaria um cavaleiro ainda mais dedicado, pois além de nossa Deusa, teria sua mulher para proteger, o mesmo acontecendo com Marin em relação a ele.

- Pois então. Se quiser, observe a sua volta para atestar a veracidade do que digo. Sei que o senhor nunca se apaixonou, mas tem alguém especial, não?- ela era direta, a despeito de seu semblante suave e calmo.

- B-Bem, na verdade, apenas admiro as garotas. Nada além disso. – ele estava mais vermelho que um pimentão.

Freya deu uma leve risada, para depois continuar:

- Não precisa ter pressa, Cavaleiro de Sagitário, apesar de sua vida breve, agora você tem todo o tempo do mundo. Inclusive para entender a si mesmo, e ao seu próprio coração. – nisso ela se levantou, e deu um breve e suave selinho nos lábios do cavaleiro.

A Deusa asgardiana dirigiu-se para sua Embaixada, deixando atrás de si um atônito e envergonhado Aiolos, o qual se recuperou ao ouvir seu nome:

- Senhor Aiolos, sua presença é requisitada na Embaixada do Reino dos Mares! A senhorita Athena o aguarda! – dizia Luna de Corvo, ofegante.

- Calma, Luna, respire! O que a nossa Deusa faz por lá? – ele preocupou-se.

- A senhorita Thetis... ela acordou! Como o senhor Kanon não se encontra no Santuário, a Deusa gostaria que o senhor atuasse como um dos mediadores nessa ocasião.

Logo, os dois seguiam a passos rápidos até a praia do Santuário, enquanto a amazona colocava o cavaleiro de Ouro a par dos fatos. Ao adentrar a Embaixada do Reino dos Mares, seguiram direto para os aposentos privativos, onde estavam Saori, Saga e Aster; na cama próxima a eles, deitada, estava uma consciente – e furiosa – Thetis de Sereia.

- Grata por vir, Aiolos. Precisamos muito de sua ajuda aqui. – disse Saori. – Luna, muito obrigada por trazê-lo.

- Ao seu dispor, senhorita Athena. – a moça fez uma mesura e saiu.

- Muito bem, agora que estamos todos aqui – começou Saga – poderia repetir o que houve consigo, senhorita Thetis?

- Já disse que não me lembro! Por que é tão difícil para vocês acreditar no que digo? – a emissária de Poseidon estava impaciente.

- Perguntamos isso, Thetis, porque ao verificar a sua integridade mental após seu resgate, um de nossos cavaleiros, que é paranormal, auxiliado por uma amazona que lê pensamentos, disse que sua última lembrança é um vulto negro a atacando pelas costas. Realmente não se recorda disso? – Saori perguntou gentilmente.

- Sim, senhorita Athena, eu não mentiria para você em seu próprio território. A última coisa que me lembro foi cair nos recifes próximos à praia, depois de avistar seus cavaleiros esperando por mim em um rochedo. Não sei quem me atacou, seja quem for, escondeu o cosmo antes de me atingir.

- Um vulto negro... poderia ser algum espectro? – perguntou Aster, intrigado.

- Impossível! Todos eles foram selados, e sentiríamos o cosmo de Hades caso isso fosse verdade. – disse Aiolos, aproximando-se de Thetis e avaliando se ela estava bem.

- Além do mais, vencemos a última Guerra Santa, Hades não teria como se recuperar tão cedo para tentar reencarnar novamente nesta era. – reforçou Saga. – O que nos deixa com a opção de ser algum outro Deus.

- Ou algum cavaleiro renegado. – disse Saori. – Como os Cavaleiros da Ilha do Espectro, por exemplo.

- Mas eles estão mortos. A não ser que alguma outra facção tenha surgido, com os rumores do torneio pelas Armaduras de Ouro. – observou Saga, novamente.

- Faz sentido, afinal, com a chegada de cavaleiros e amazonas do mundo todo, é possível que tenham confundido a senhorita Thetis com um de nós. – disse Aiolos.

- Posso ter sido atacada por engano? – a dinamarquesa perguntou, incrédula. – Enfim, seja quem for que planejou esse ataque, é muito burro! Atacar uma guerreira pelas costas é uma grande falta de honra!

- Pode ser que o responsável quis apenas atingir o orgulho do Santuário, em uma data tão importante. – disse Aster – Desmoralizar nossa Deusa, perante seus seguidores, ou perante o próprio Poseidon.

Todos pareceram considerar a tese do Cavaleiro de Altar. Nisso, a própria Thetis se manifestou:

- Quanto a isso, fiquem tranqüilos. Se Kanon foi ao Reino dos Mares e meu senhor resolveu investigar por baixo dos panos, como vocês, eu creio que nenhum incidente diplomático aconteceu.

- Obrigada por reafirmar isso, Thetis, mas minha real preocupação é com a sua segurança, a de minha amiga Freya, e dos cavaleiros e amazonas de meu Santuário. Ainda mais com a partida dos cavaleiros e amazonas de outros campos de treinamento amanhã. – revelou Saori.

- Tomaremos providências para que todos embarquem em segurança, senhorita Athena. Dohko e eu já conversamos com Shina para reforçar a segurança, e com os outros cavaleiros de Ouro para ficar a postos. – disse Saga.

- Certo, Saga. Thetis, nós vamos deixá-la descansar... se precisar de algo, tem uma equipe de servos para atendê-la, e mais tarde o Cavaleiro de Áries virá lhe fazer uma consulta médica.

- Obrigada, senhorita Athena. Obrigada a todos pela preocupação. – a loira estava mais calma.

- Você agora está nos meus domínios, e será tratada como um de nós. Sinto muito que tenha sido atacada ao vir para cá, mas apesar desse fato desagradável, quero que seja muito bem-vinda. – Saori sorriu, e despediu-se com uma mesura, sendo seguida por seus cavaleiros.


Algumas horas depois...

Seren, Keelin e Maia estavam reunidas na casa da geminiana, que estava com saudades de sua terra e resolvera fazer um jantar siciliano, com uma ajudinha de uma das servas do Santuário - a qual fora até Atenas comprar alguns ingredientes. Assim, agora estavam as três totalmente satisfeitas, depois de comer espaguete ao vôngole e filés de peixe-espada grelhado, com muito azeite e salsinha como tempero. A siciliana lamentou:

- Pena não podermos beber um pouco de vinho, se não fosse o início dos treinos com os cavaleiros de Ouro amanhã...

- Relaxa Maia, o suco de uva tá bom. – disse Keelin – Mas um vinho tinto realmente iria bem.

- Ah, o que importa é que estamos satisfeitas. – falou Seren, já um pouco sonolenta. – Mas e as outras meninas, porque você não as chamou?

- A June, a Ísis e a Adisa foram dormir cedo, não encontrei a Marin e a Shina... E as outras, bem, achei que ficaria muito apertado fazer um jantar para tanta gente dentro dessa casa. Não tem espaço suficiente. – justificou Maia, limpando os lábios com um guardanapo, ao terminar de comer.

- Quando você for a Amazona de Ouro de Gêmeos poderá dar um jantar para todo mundo no Terceiro Templo. – Seren conteve um bocejo – Não sei vocês, mas haverá festa na Quarta Casa quando eu vencer o direito de usar a Armadura de Câncer.

- Como você tem tanta certeza que conseguirá, Seren? – perguntou Keelin, alisando o metal prateado de sua máscara, que estava em cima da mesa, diante de si.

- Bem, se ela não acreditar que consegue, quem mais acreditará? – respondeu Maia.

- Isso aí, maninha. – Seren se levantou – Meninas, eu me vou, estou caindo pelas tabelas, ainda não me acostumei com o clima e os horários daqui.

- Tudo bem. Deixem a louça aí, depois resolvo isso. Vou escovar os dentes e ir até à Biblioteca. – Maia foi até o banheiro.

- Biblioteca, nessa hora? São nove e meia da noite! – observou a escorpiana, incrédula.

- Eu produzo melhor à noite. – disse Maia quando voltou do banheiro – Vamos?

- Vamos! – Seren apanhou sua máscara e a colocou, seguida pelas amigas no ato de ocultar seus rostos.

Despediram-se, cada uma seguindo um rumo diferente. Maia sorriu; a noite estava linda, com um clima ameno e agradável. Agradeceu mentalmente por estar usando uma túnica feminina branca, com sua faixa púrpura na cintura, e sandálias gregas simples ao invés de sua armadura. E assim foi até à Biblioteca.


Enquanto isso...

Na casa de uma amazona em específico, ela dormia, com seus longos cabelos vermelho-cereja, todo repicado e espalhado pela cama de lençóis cor-de-rosa. Ela suava e se virava na cama, soltando pequenos gemidos e soluços em seu sono agitado. Sua respiração estava ofegante, e mesmo assim ela não acordava.

A jovem de 19 anos, em seu sonho, estava naquela mesma cama, mas seu corpo nu era coberto pelo másculo corpo de um homem cujo rosto ela não conseguia enxergar. Ela tentava reconhecê-lo, mas então seus sentidos eram dominados por um torpor delicioso, conforme ele acariciava cada canto de seu corpo, demorando-se em seus ombros, lábios e pernas. Ela queria afastá-lo, mas simplesmente não conseguia; sua razão dizia que tinha que ter muito cuidado, mas seu corpo dizia outra coisa.

Sim, seu corpo queria ser totalmente devorado e consumido por ele. Sentiu que o rapaz sobre si tinha cabelos longos, músculos bem definidos – seria ele um cavaleiro? – mas não chegou a ponderar muito sobre a hipótese, visto que ele agora tocava a sua intimidade.

Ouviu-se gemer, gritar, quase implorar para que ele a fizesse sua, mas ele sentia prazer em seguir com aquela tortura bem devagar, beijando seus lábios avidamente, esfregando suas pernas nas dela. Queria poder dizer um nome, mas ela não sabia quem ele era. A única coisa que sentia era aquela pele quente aquecendo a sua, e as carícias suaves que ele fazia.

E sim, ele tocava e beijava seu rosto, como se fosse a coisa mais preciosa no mundo. Ela sentia-se bonita e feminina ali, sob os carinhos dele, os quais se tornavam cada vez mais ousados; sentia a boca dele em toda a extensão de seu corpo, nos ombros, braços, nas mãos... até chegar aos seios.

Quase foi à loucura quando ele sugou um rosado mamilo, e o apertou entre os dentes. Por Athena, como isso era possível, se ele não tinha rosto? A tortura prosseguiu no outro seio, e ela sentia a rigidez dele contra sua coxa; quem era ele? Não entendia nada, só queria que ele aliviasse a excitação que ela sentia em seu baixo ventre no momento; e assim ele o fez, ao penetrá-la com a língua.

Ela arregalou os olhos verde-água, para em seguida fechá-los de novo, sentindo tudo aquilo que aquele homem queria lhe dar. Um prazer imenso começou a se concentrar no interior dela, e tudo o que ela sentia eram os chupões, lambidas e beijos em sua intimidade, que ele não fazia a menor cerimônia em intensificar; ela chegava a escutar os gemidos daquele homem misturados aos sons dos atos ministrados por ele em seu ponto mais sensível.

Ouviu seus próprios gemidos, e a sensação de calor que estava concentrada foi gerando uma tensão cada vez maior, cada vez mais forte, à medida que ele prosseguia, deixando-a cada vez mais entorpecida, até que sentisse uma vontade incontrolável de gritar. Toda aquela energia foi liberada de uma vez, fazendo com que um arrepio percorresse sua espinha, da base ao topo, e que todo seu corpo tremesse de forma desconexa.

Anya acordou gritando, sentindo os espasmos do próprio orgasmo, seus cabelos estavam grudados em sua pele, e seus olhos verde água, arregalados. Nunca tivera um sonho tão real quanto aquele, tão bom, e tão... assustador. Levantou-se com as pernas trêmulas e lavou o rosto na bacia de água sobre a cômoda, tentando acalmar sua respiração e seu corpo.

Sentou-se na beirada da cama, e foi então que reparou naquele cheiro que impregnava seu quarto, quase a sufocando; era um perfume doce, envolvente, que ela apreciara durante o dia, mas que agora parecia queimar em seus pulmões e principalmente, em sua mente. Uma das flores era sua, a outra deveria estar com a Amazona de Bronze de Cassiopéia, mas seguindo as ordens que lhe foram dadas, levara ambas para sua própria casa.

A Amazona de Prata de Taça, ainda tremendo, olhou para seu criado-mudo. Em um vaso, repousavam duas belas rosas brancas, presente de Afrodite de Peixes.


Duas horas depois...

Maia estava compenetrada em sua leitura, era de fato surpreendente o poder da Armadura de Gêmeos e de seus portadores, apesar do histórico dos mesmos. Aspros e Defteros, Saga e Kanon, todos tinham um poder inerente a eles mesmos que os tornaram aptos a representar a constelação dos gêmeos Cástor e Pólux.

"O que me faz pensar... todos eles tinham uma coisa em comum além do poder. Todos tinham irmãos gêmeos. Será que isso já me tira do páreo?" – ponderava a moça.

- Senhorita Maia, desculpe-me – disse uma voz ao lado dela – mas temos que fechar.

- Ah, mas já, Zéfiro? – ela fez biquinho por baixo da máscara, ao encarar o senhor responsável pela Biblioteca naquele horário.

- Abriremos a partir das sete amanhã. – disse o servo, simpático – Além do mais, já é meia-noite.

- O quê? – ela levantou-se de supetão da cadeira onde estava – Eu tenho treino amanhã cedo com o mestre Shaka, se eu me atrasar ele me mata!

- O senhor Shaka? Mas ele é tão calmo... – disse Zéfiro, risonho.

- Pelo que fiquei sabendo, não quando o assunto é horário de treino! Bem, vou indo então... já registrei esse livro aqui antes. Posso deixar os outros volumes nessa mesa para continuar minha pesquisa amanhã?

- Claro. Deixarei um recado para os responsáveis pela limpeza da manhã. Boa noite, e cuide-se, senhorita Maia!

- Boa noite, até amanhã, Zéfiro! – ela saiu com o livro na mão, cantarolando.

A noite já estava alta, e havia tochas iluminando todo o Santuário – parte da política de economia de energia de Saori Kido – fazendo com que a noite estivesse perfeita para observar estrelas. Maia parou subitamente no caminho para a Vila das Amazonas, pensou bem e seguiu o caminho oposto, que levava a um mirante em um pequeno templo.

Ao chegar lá, sentou-se nas escadas, e ficou admirando o céu negro e as estrelas, e a cada constelação reconhecida, associava à pessoa cuja armadura a representava. Assim, acabou reconhecendo a constelação de Aquário, e pensou no homem que conhecera mais cedo, Camus...

"Aquele homem... ele é tão diferente. A seriedade dele deveria me assustar ou afastar, mas depois que conversei com ele, porque não consigo vê-lo desse modo?"

Entregue aos seus pensamentos e questões sobre o francês, não reparou na presença da pessoa que se sentava ao lado dela no degrau onde estava:

- Boa noite, amazona. O que faz aqui, nesse lugar tão remoto, nesta hora? Ainda bem que fui eu que te achei, imagine só se fosse uma certa amazona de Cobra? – disse Milo de Escorpião, em tom irônico.

- Boa noite, senhor Milo. Realmente, se fosse ela eu estaria perdida... por acaso está ajudando-a com a ronda? – Maia perguntou de modo malicioso, para cutucar o cavaleiro.

- Não se responde uma pergunta com outra, senhorita Maia. E por favor, me chame de Milo. – ele sorriu.

- Muito bem, Milo. - Ela riu. - E muito elegante da sua parte ajudar uma dama em seus afazeres. É o que se faz a uma boa amiga.

- Mesmo? – ele deu um sorriso meio torto, falando em tom de brincadeira. – Não sei como pode afirmar com tanta certeza que ela é minha amiga. Eu, por exemplo, acho até que ela não vai mesmo com a minha cara... – riu ao final da frase.

- Será mesmo? - A italiana riu junto com o outro.

- Por quê? Você acha que eu estou errado?

- Não sei... Você gostaria que eu estivesse errada?

- Eu? Bem... Esse é um assunto perigoso, mocinha... – ele fez uma cara fingida de "cuidado", mas logo recuperou seu humor típico – Mas e você, deixou algum rapaz esperando por você lá na Itália?

- Não. Nunca me deixei envolver por ninguém de fato, já que escolhi ser uma amazona de Athena.

- Nunca se apaixonou? – ele fez uma cara incrédula.

- Hoje eu vejo que não. – ela riu baixinho – Já me empolguei, claro, mas nunca quis criar esse tipo de vínculo devido ao que faço, ou não houve tempo suficiente para que isso acontecesse. Na verdade, acho que nem sei como é amar alguém de verdade...

- Nossa, conheço alguém que concordaria com tudo o que você disse! – ele riu.

- E você, Milo - Maia não pôde evitar o desconforto ao chamá-lo apenas pelo nome. - Não tem nenhum interesse amoroso?

- Por que você quer saber?

- Você não quis saber dos meus? Pois eu também quero saber dos seus, ora.

- Ah... - Milo deu uma risada gostosa, bem pouco típica do usualmente sério cavaleiro de Escorpião. - Bom, eu... Acho que não...

- Engraçado, eu podia jurar que eu achava que você tinha.

- Eu? - Milo arregalou os olhos. - E por quem seria?

- Bom... - Maia fingidamente se fez de desentendida. - Não sei, mas eu sempre achei que você tinha muito em comum com uma certa amazona daqui do Santuário.

- É mesmo? E quem seria essa amazona, Plêiades?

- Uma certa amazona a quem você está ajudando na ronda, agora mesmo?

- Hã? - Milo arregalou os olhos. - Não, não. Não é bem isso.

- Mas é ela, não é?

- Não! Bem... - Milo balançou a cabeça, um tanto desconcertado. - Até porque ela não me dá nenhuma abertura! Quer dizer... - E logo Escorpião percebeu o que acabara de falar, mas não tinha mais jeito.

- Mas... - Maia percebeu a inquietude do outro, embora também se sentisse um tantinho culpada por tê-lo feito se expôr assim. - Ela pode estar com medo de se envolver, medo que esteja brincando com ela... Não sei o histórico de ambos, mas fisicamente vocês formam um belo par, e na personalidade também. Talvez só necessitem ser mais honestos com vocês mesmos, e um com o outro também...

– Mas eu mesmo não sei o que eu sinto direito pela Shina... Ela é diferente, quero conhecê-la, ser amigo dela. Mas espere aí, porque estou dizendo essas coisas para você, se mal nos conhecemos?

Maia riu, realmente o Escorpião era uma pessoa única. Voltou ao normal e disse, séria:

- Porque eu sou uma boa ouvinte, e talvez porque justamente ao não conhecê-lo, posso dar uma opinião imparcial e sincera. – ela sorriu por baixo da máscara.

- Faz sentido. Considerando que mal posso conversar sobre esse assunto com meu melhor amigo, acho que terei que lhe fazer de confidente, Maia de Plêiades. – ele estava com um semblante brincalhão, mas sério ao mesmo tempo.

- Compreendo, senhor... quer dizer, Milo. Será um prazer, posso assegurar que seu segredo estará selado comigo. – ela estendeu a mão para ele.

- Acho bom, senão, serei obrigado a me vingar de você. – ele apertou a mão dela. – Mas vamos, já está tarde, e não será bom que a Shina a encontre perambulando pelo Santuário.

A amazona concordou, e apanhou seu livro. Assim, voltaram juntos, conversando sobre amenidades, até a entrada da Vila das Amazonas.

- Boa noite, Maia! Depois conversamos mais! – o escorpiano despediu-se.

- Boa noite! – ela seguiu para sua casa, procurando ocultar-se e chamar o mínimo de atenção possível.

Ao voltar para o acesso às escadarias, Milo procurou por Shina, mas ela não estava à vista. Em seu íntimo, lamentou o fato, seria bom vê-la uma última vez antes de dormir, nem que fosse para trocar algumas farpas com a Amazona de Cobra ao voltar para a Oitava Casa.

Qual não foi sua surpresa ao encontrar seu amigo, Camus de Aquário, trajado com uma túnica e calças leves para aquela noite, parado em frente ao seu Templo, minutos depois.

- Boa noite, francês, que nevasca o traz até aqui? – Milo deu um sorriso sarcástico.

- Muito engraçado, Milo, muito engraçado. – Camus respondeu seriamente – Vim lhe entregar sua cópia do manual de treinos que Dohko elaborou para que preparemos os aspirantes. Onde estava até agora?

- Ajudando a Shina com a ronda. – diante do olhar debochado de Camus, disse – O quê? Não posso colaborar com uma amiga?

Camus deu uma risada irônica, e ia dizer algo, quando Milo continuou:

- Além do mais, encontrei uma nova amiga, com quem posso conversar sobre coisas que você não aprova!

- Ah é? – Camus deu um sorriso totalmente irônico – E quem seria essa pobre alma?

- A aspirante à Armadura de Ouro de Gêmeos, Maia de Plêiades.

- Maia de Plêiades? – o aquariano arqueou a sobrancelha. – Ela realmente se mostrou disposta a escutar seus lamentos amorosos, Milo?

- Sim, ela é uma moça muito simpática, diferente de certos amigos-da-onça por aí. – provocou o escorpiano.

- Sei. E quem disse que ela está interessada em aconselhá-lo sem nenhuma segunda intenção? – o francês continuou testando o amigo.

- Ela não parece ser esse tipo de pessoa. Pro seu governo, nós até meio que conversamos sobre a Shina e ela deu uma opinião sincera, sem qualquer malícia nas palavras dela.

Camus surpreendeu-se; se tinha alguém que tinha um ótimo radar para jogos maliciosos de palavras, essa pessoa era Milo. Resolveu perguntar mais:

- Bem, que bom que ela agora é sua amiga, assim não preciso mais me preocupar com seus devaneios envolvendo a Amazona de Cobra... pelo visto a senhorita Maia é bem paciente, para ficar te ouvindo até essa hora! – ele debochou, rindo.

- Hunf! Ela é sim, mas a encontrei por acaso na ronda, estava observando estrelas... não, ela estava mais era pensativa, nas escadas daquele mirante à leste do Santuário. Confesso que não conversamos muito, mas ela é uma pessoa deveras interessante.

- Hah, eu sabia! Vê, Milo, este é o "amor" que você sente pela Shina! – zombou, ainda testando o escorpiano.

- Camus, se você não calar a boca agora eu te arrebento. A questão é: não estou interessado "daquele jeito" na moça, apenas achei o jeito dela diferente. Mas o que mais me surpreendeu é que ela não tem ninguém especial esperando por ela lá na terra dela, a Sicília.

- Como pode ter certeza disso? Ela pode ter mentido para você. – Camus tinha um sorriso irônico no rosto.

- Não, você sabe que depois daquele engano com Saga quando estava possuído pelo lado mau dele, eu aprendi a questionar mais as coisas e a detectar melhor as mentiras. E o discurso dela também deixou isso claro. Ela não quis construir vínculos com ninguém por causa do ofício de amazona. Dá pra acreditar?

- Hum. – Camus estava sério, apenas digerindo as palavras do melhor amigo.

- Na verdade, francês, ela me lembrou muito você, sabia? Mas um pouco mais sociável! – zombou Milo.

- Sei. – ele arqueou a sobrancelha e mostrou-se indiferente. – Bem, Milo, chega de fofoca, temos muito trabalho amanhã! Boa noite para você!

- Boa noite, vê se melhora seu humor! – disse o escorpiano, entrando em sua Casa.

Um silencioso Cavaleiro de Aquário retornou ao Décimo Primeiro Templo, subindo as escadarias devagar - totalmente absorto em seus pensamentos, enquanto observava as estrelas no firmamento.


- Bom dia, aspirantes! Espero que estejam bem dispostos essa manhã! – dizia Dohko, sorridente.

Seis cavaleiros e seis amazonas de Prata e Bronze chegavam à arena do Coliseu para encontrar seus respectivos mestres, os Cavaleiros de Ouro de Athena. O local estava deserto àquela hora da manhã, a não ser por eles. Shura dirigiu-se à Shina:

- Tem certeza que as entradas estão bem guardadas, e que ninguém irá interromper este treino?

- Absoluta. Ou duvida do meu trabalho? – ela questionou, meio sonolenta.

- Calma, Shina, é parte de meu trabalho assegurar que os treinos não serão interrompidos também! Ainda é de manhã, não precisa ficar mal-humorada tão cedo! – ralhou o espanhol.

- Ei, Shura, deixa ela, deve estar com sono, provavelmente foi dormir tarde depois de fazer a ronda no Santuário todo. – Milo deu ênfase à última palavra – Dá um desconto, Capricórnio.

Shura olhou bem para os dois, deu um sorriso e se afastou, deixando-os meio isolados. Milo fez menção de se afastar, mas ela o impediu:

- Não precisava interferir, eu não ia discutir com ele. Não era assunto seu, Escorpião.

- Não, não era. Mas eu interferi mesmo assim, e se você não consegue ser cortês o suficiente para me agradecer, da próxima vez deixo o espanhol te perturbar à vontade, mesmo sabendo que você não deve estar disposta o suficiente pra isso nessa hora da manhã.

Shina surpreendeu-se com o jeito dele falar, como se a entendesse. Diante da falta de palavras dela, ele juntou-se aos outros Cavaleiros de Ouro, que estavam junto de Dohko; este estava dando instruções a eles e aos aspirantes:

- Muito bem, cada mestre e seu respectivo pupilo ocuparão um espaço da arena, e é proibido interferir na prática de ambos, a não ser que sejam requisitados para tal. Hoje vamos avaliar as habilidades de vocês em luta e uso adequado do cosmo. Além de conhecê-los um pouco melhor. Sendo assim, vamos começar!

Assim, mestres e pupilos se separaram em duplas; próximos à parede da arena, estavam Saga e Marin, Shaka e Maia, Aiolia e Seiya; em frente a cada uma dessas duplas, estavam Aiolos e Shun, Camus e Hyoga, Aldebaran e Ikki. Diante deles, estavam as duplas: Máscara e Shina, Milo e June, Afrodite e Seren; em sua frente, Shura e Keelin, Mu e Kiki, e Dohko e Shiryu.

Dohko, Camus e Mu eram os que mais tinham vantagem naquele treino, pois já conheciam bem seus discípulos. E de fato, Dohko e Shiryu resolveram aperfeiçoar a intensidade e alcance do Cólera dos Cem Dragões, atacando-se mutuamente, avaliando e testando os resultados obtidos. Mu ajudava Kiki a melhorar suas defesas, o Muro de Cristal e a Rede de Cristal, que o garoto estava começando a aprender; e Camus e Hyoga lutavam corpo a corpo, utilizando seus poderes glaciais para treinar ataque e defesa simultaneamente.

- Ei, só não vão passar dos limites! – pediu Aiolos aos dois – Nada de Execução Aurora, ou todos congelaremos por aqui!

- Calma, Sagitário, eu sei o que estou fazendo! – dizia Camus, muito calmo – Usaremos no máximo o Pó de Diamante!

- Está bem... não custa nada querer manter nossa integridade física... – brincou o sagitariano.

Camus apenas arqueou a sobrancelha, e voltou a lutar com seu pupilo. Ao lado deles, uma curiosa jovem observava a rapidez dos movimentos, o que fez com que seu mestre chamasse sua atenção:

- Maia, não é? – perguntou Shaka – Até onde sei, Plêiades não é bem uma constelação, e sim um aglomerado de estrelas...

- Pertencente à constelação de Touro. Sim, mestre Shaka. – ela interrompeu – Mas deve saber que os antigos gregos classificaram as Plêiades como uma constelação há muito tempo, bem antes de descobrirem sua verdadeira classificação. Então, por tradição, a minha armadura existe.

Por um momento, Shaka ficou sem saber o que responder, apenas avaliando a moça à sua frente.

- Ela desarmou você, Shaka. – disse Saga, que prestou atenção na conversa. – Parabéns, senhorita, não é sempre que deixam o Cavaleiro de Virgem sem palavras.

- Ora, Saga, essa conversa é entre eu e ela – o virginiano comentou com voz indiferente – por favor, atenha-se à sua discípula.

- Como quiser...! – o Cavaleiro de Gêmeos fez uma careta pelas costas do amigo, o que fez Maia conter um riso.

- Eu vi isso, Gêmeos, não há nada que eu não possa enxergar. Pare com esse comportamento infantil, sim? Estou tentando treinar a aspirante à SUA Armadura de Ouro. – enfatizou Shaka.

- Eu sei. Boa sorte com ele, Maia. – Saga sorriu para a moça, que agradeceu mentalmente por estar de máscara, pois seu rosto estava totalmente vermelho.

Enquanto isso, Aiolos e Shun conversavam sobre as habilidades do cavaleiro de Bronze, e este prestou atenção no diálogo que ocorria entre Saga e Shaka; ficou pensativo por um momento, para então perguntar ao cavaleiro de Ouro:

- Mestre Aiolos, eu compreendo que tenho poder e força suficiente para conquistar a Armadura de Virgem, mas... – o rapaz coçou a cabeça – a verdade é que não sei se quero isso.

- Por que, Shun? Pertencer à elite dos Cavaleiros de Ouro de Athena é uma honra.

- Sim, eu concordo, mas sinceramente, não é da minha natureza ser tão sério quanto o Shaka. Já usei a Armadura de Virgem em batalha e o cosmo que emana dela é maravilhoso, mas não sei se tenho a personalidade exata para assumir essa constelação.

- Entendo o que quer dizer. Vou te contar uma coisa: a verdadeira natureza do Cavaleiro de Virgem é sua calma interior e sua espiritualidade; Asmita de Virgem, o antecessor de Shaka, era mais severo que ele, mas plenamente consciente de suas funções como cavaleiro. Foi ele quem criou o rosário que sela as almas dos 108 espectros de Hades.

- Sim, eu sei. Basta apenas ser calmo então? - Shun ainda tinha dúvidas.

"Por isso fui escolhido para treinar esse rapaz, ele precisa de mais autoconfiança! Bem, se eu treinei o Aiolia e ele se tornou Cavaleiro de Ouro, posso fazer o mesmo pelo Shun! Vou ajudá-lo!" – pensou o Cavaleiro de Sagitário, resoluto.

- Shun, você tem uma personalidade pacífica, procura sempre resolver seus conflitos com calma e sem apelar para a violência. Além disso, tem uma alma pura e um cosmo de grande poder, pelo que você me contou do seu Tempestade Nebulosa. Todas essas qualidades o tornam apto a ser o Cavaleiro de Virgem; Shaka pode parecer muito sério e rigoroso, mas tem grande sensibilidade, procura resolver seus conflitos sem violência, e possui um cosmo imenso, que ele fortalece se privando voluntariamente da visão.

- Compreendo... – disse o garoto, percebendo que não era tão diferente do indiano.

- Pois então. – sorriu Aiolos. – Agora, me mostre o que você sabe fazer!

- Certo! – disse o Andrômeda, soltando as correntes de seus pulsos.

Enquanto isso, Shura e Keelin já estavam no embate corporal, e o portador da Excalibur tentava encontrar os pontos cegos de sua discípula, mas ela era muito rápida, e ainda podia usar o cosmo para saltar como se voasse; era a particularidade da Armadura de Prata de Apus, que possuía pequenas asas e, assim como a de Fênix, extensões que lembravam plumas.

- Está indo bem, Keelin, agora, me ataque! – disse o espanhol, no que foi prontamente atendido.

A irlandesa deu um salto para cima, com os braços levantados para cima e unidos na altura dos pulsos, e rodopiou graciosamente, espalhando seus cabelos compridos e negros no ar; nisso, o cosmo da amazona se concentrou em volta de seu corpo em uma luz lilás, e ela exclamou:

- Vôo das Mil Cores! – nisso, feixes de cosmo se transformaram em raios de luz coloridos, intensos e brilhantes que envolveram o cavaleiro, afetando sua visão e amortecendo seus sentidos. Mal ouviu quando ela disse:

- Plumas Cósmicas! – e Shura se viu atingido por lâminas de cosmo que cortavam sua pele, superficialmente. Deduziu que ela não o atacara com força total, afinal de contas, aquilo era apenas um treinamento, uma avaliação de habilidades, mas se ela quisesse, teria o machucado de verdade.

- Muito bom! – e então ele a atacava com a Excalibur, para examinar suas estratégias de defesa e desvio.

Ao lado deles, Máscara da Morte de Câncer colocava à prova toda a força da Amazona de Cobra; ele sabia que Shina era uma ótima guerreira, astuta e até traiçoeira quando queria. Seus golpes espirituais não faziam muito efeito no combate corpo a corpo com ela, mas ele usava suas técnicas para sentir a alma dela, e percebeu que apesar de compenetrada na luta, sua alma estava agitada e um tanto nervosa. Tentou intuir o motivo, mas nisso acabou se distraindo, recuperando-se quando ouviu:

- Garras de Trovão! – a amazona preparava-se para atingir o cavaleiro, mas este apenas usou sua telepatia para dissipar a violência do golpe, arremessando Shina no chão.

Tal fato não passou despercebido para duas pessoas que estavam próximas e eles, em duplas diferentes; uma delas era Milo de Escorpião, que quase sofreu o golpe do chicote de June de Camaleão em seu rosto, mas foi rápido o suficiente para apanhar a ponta do mesmo e puxar a garota para si, a qual revidou com uma voadora que o atingiria caso não abaixasse na hora certa. Aproveitou-se da posição na qual estava, próximo à Shina, para dizer:

- Levante-se! O siciliano não brinca em serviço não! Mostre que tem sangue quente nessas veias, italiana! – ele falou em tom ríspido.

- Vai se danar, Milo! – ela respondeu, limpando o sangue do esfolado em seu braço, e levantando-se.

- Essa é a primeira vez que você me chama pelo nome, Cobra. – ele riu para Shina, enquanto esperava a próxima investida de June contra si.

- Hunf! – ela o ignorou, voltando ao combate com Máscara.

Ao lado de Milo e June, Seren também observava o Cavaleiro de Câncer e sua discípula, mal prestando atenção no que dizia seu mestre, Afrodite. De repente, a moça sentiu um inebriante aroma de rosas, quando deu por si, o pisciano estava atrás de si, sussurrando em seu ouvido:

- Será que precisarei ser mais enfático ao requisitar a sua atenção, senhorita Seren? – ele encostou-se na discípula, que se assustou. Seren fez menção de se afastar, mas foi impedida pelo Cavaleiro de Peixes, que continuou falando junto ao seu ouvido:

- Caso realmente queira se tornar a sucessora de Máscara da Morte de Câncer, terá que prestar atenção em MIM, pois sou EU quem irá decidir se você está apta a lutar no torneio. Portanto, minha querida – ele a virou para si, encarando a máscara dela – você prestará atenção no canceriano somente quando EU pedir que o faça, está bem?

Seren arregalou os olhos por baixo da máscara, a fala dele era doce e seu jeito delicado, mas havia um brilho no olhar do pisciano que indicava tudo o que ele era capaz de fazer. A moça se recompôs e passou a ouvi-lo atentamente, embora sua vontade fosse entrar em ação logo.

Aiolia e Seiya treinavam a precisão dos golpes do Pegasus, pois se tinha algo que o sucessor de Aiolos deveria ter, era isso: paciência - coisa que Seiya ainda tinha que desenvolver – e uma precisão absurda para aplicar golpes básicos do portador da Armadura de Sagitário, como o Trovão Atômico.

"Seiya está indo bem... mas precisa amadurecer um pouco mais para ficar como o Aiolos... o Cavaleiro de Sagitário não deve apenas ter força no corpo e no cosmo, mas também no seu modo de falar e interagir com as pessoas, em seu caráter e seu coração. Vamos ver como eu o ajudarei a desenvolver seu potencial..." - pensava o leonino, enquanto aguentava a pressão do Meteoro de Pegasus em seu corpo, para depois revidar.

- Cápsula do Poder! – ele exclamou, mandando Seiya pelos ares, a alguns metros dali, pois não tinha usado seu cosmo em intensidade muito alta.

- Caramba, Aiolia, esse golpe é complicado de aguentar! – disse o garoto, tentando manter uma postura decente diante de seu mestre.

- Seiya, gosto muito de você, mas a partir de hoje, é Mestre Aiolia. Não podemos deixar que nossa familiaridade interfira no seu treinamento. Se você realmente quer ser digno da Armadura de Sagitário, tem que se esforçar para fazer com que a força dos 100 golpes do seu Meteoro de Pégasus possa ser aplicada em um golpe só, direto e preciso.

- Eu posso fazer isso com o Cometa de Pégasus, mas esse é um golpe que só uso em condições extremas! – o rapaz parecia desconcertado.

- Exato. Por isso mesmo temos que levar isso mais a sério, está bem? – o cavaleiro de Ouro sorriu, encorajando o japonês.

- Está certo! Vamos lá! – Seiya colocou-se em posição de ataque, assim como Aiolia, que aproveitou o momento para dar uma olhada em Marin. Esperava que Saga não a subestimasse como guerreira, mas que também soubesse e respeitasse os limites de uma situação de treinamento.

A Amazona de Águia aparentava calma em seus movimentos, seu desafio era escapar das ilusões que Saga pregava em sua mente, e estava indo bem devido à sua disciplina e calma. O geminiano estava satisfeito com sua pupila, confiando na capacidade dela de modo a prestar atenção nos outros treinos ao seu redor também. E ele não estava gostando nada do que ocorria bem ao seu lado.

Shaka terminara de submeter Maia a um exercício similar ao que ele fazia com Marin no momento, tentando confundir a moça com suas ilusões, sem sucesso, o que ele considerou impressionante, pois mesmo ele, treinado para lidar com ilusões de todos os tipos, ficara aterrorizado ao encarar aquelas induzidas pelo virginiano. Na ocasião ele fingira ser um espectro, mas mesmo assim, estava vulnerável ao poder do amigo.

Nesse instante, o indiano encarava a siciliana, mesmo de olhos fechados, até que finalmente suspirou e disse, com enfado:

- Você realmente não vai me mostrar do que é capaz, não é, senhorita Maia?

- Como assim, mestre? – ela se fez de desentendida, não pretendia revelar certas coisas ali, na frente de todos, em seu primeiro dia de treino como aspirante à amazona de Ouro.

- Pois bem, assim você me deixa sem escolha. – ele assumiu um semblante sério – Desculpe-me, Maia, mas isso que vou fazer é estritamente necessário.

Antes que a moça pudesse entender o que ele dizia, o cavaleiro passou a flutuar, abrindo seus braços na frente do corpo e concentrando seu cosmo.

"Ele não vai fazer isso, vai?" – pensava Saga, ao dar uma espiadela para o lado.

"O que o Shaka está aprontando?" – perguntava-se Aiolos, ao reparar nas atitudes do virginiano.

Maia estava confusa, o cosmo de seu mestre parecia se acumular, e estava tão forte que as ondas de cosmoenergia faziam os loiros cabelos compridos dele movimentarem-se no ar. De repente, a garota sentiu-se tremer, e ouviu:

- Tesouro do Céu! – Com isso, ilusões semelhantes a tapeçarias budistas passaram a circundar o virginiano e sua discípula, que se sentia encurralada naquele momento, como se estivesse impedida de usar seu cosmo.

- Mestre Shaka, que está acontecendo? – ela estava ficando apavorada.

- Maia, eu sei que há mais na sua mente do que você quer mostrar. Por isso, terei que forçá-la a isso. Lamento, mas vou tirar todos os seus sentidos.

- O quê? – ela tentou libertar-se da ilusão, em vão.

Ele abriu os olhos, que cintilaram com a intensidade do cosmo dele, refletindo as íris azuladas aos poucos; o primeiro choque tomou o corpo dela de assalto, e ela não sentia mais o gosto de nada. Depois, não conseguia mais sentir nenhum cheiro; as ondas de poder chegavam e retiravam os sentidos da Amazona de Plêiades, um a um, até que ela não sentia mais seu corpo, perdendo também a visão.

Shaka voltou ao normal, agora de olhos abertos, e percebeu que à exceção de Aldebaran, que testava a paciência de Ikki propondo exercícios baseados na postura do Iaijutsu, todos os outros cavaleiros de Ouro que rodeavam a ele e Maia prestavam atenção no que ele fazia. Como sabia que a discípula não podia ouvi-lo, pois perdera a audição, dirigiu seus pensamentos a ela, usando-os para se comunicar:

- Agora, você irá lutar com o cavaleiro que eu escolher, está bem? Faça isso e tudo ficará bem.

Ela concordou com a cabeça, não sentia nada, e isso a deixava desesperada, por isso resolveu não falar. Não sentia nem seu coração, que estava acelerado no momento; de repente, escutou uma voz familiar em sua mente:

"Não deixe esse homem nos subestimar. Vamos mostrar a ele do que somos capazes." – era uma voz madura e séria.

"Attargatis, não se esqueça que ele pode entrar na mente dela. Ele sempre soube que estávamos aqui." – uma voz inocente e suave se manifestou.

"Bella, é claro que ele sabe, senão não estaria nos forçando a nos revelar. Ele vai pegar pesado com a Maia." – respondeu Attargatis.

"Ele que faça o que quiser, nós somos um time, e vamos sair dessa." – a própria voz de Maia respondeu a seus alteregos, e dessa vez, ela não estava com medo.

"Sabia que essa hora ia chegar..." – suspirou Bella – "Só não imaginei que fosse tão cedo."

"Quanto mais cedo melhor, hahahahaha!" – a risada de Attargatis era carregada de ironia.

"Sua sádica! Depois não reclame que não avisei..." – Bella novamente.

"O que o mestre Shaka está fazendo?" – Maia perguntou para as duas, dentro de sua mente.

Shaka estava encarando os colegas que haviam percebido a situação em que ele colocara a Amazona de Plêiades: Aiolos, Camus, Aiolia e Saga. Com os olhos bem abertos, olhou um por um, e perguntou:

- Quem pode me ajudar nesta lição, lutando com a Maia?

Aiolos arregalou os olhos de horror, não queria acreditar que o amigo submeteria a geminiana ao poder de outro cavaleiro de Ouro nas condições em que ela estava agora. Manifestou-se:

- Eu me recuso, Shaka, não é assim que você deveria treiná-la.

- Concordo com meu irmão, eu também me recuso. – disse Aiolia.

Saga encarou o indiano e disse:

- Sei o que você quer fazer e também usaria um método não convencional para chegar lá - ele olhou para Seiya, lembrando-se de quando humilhara o Pegasus para que ele desenvolvesse seu cosmo – mas me recuso a fazer qualquer coisa contra ela, posso machucá-la com a intensidade de meu poder.

- Eu faço. – disse Camus de Aquário, seu rosto sem nenhuma expressão.

- Camus! Você não pode compactuar com esse método do Shaka! – disse Aiolos, exasperado.

- Escute, Aiolos, se eu não fizer, ele mesmo o fará, e ela pode sofrer mais danos, danos piores que os físicos. – ele apontou sua própria cabeça com o dedo, indicando a mente – Eu não tenho como atacar a mente dela, isso já ameniza as coisas. Pretendo usar somente o Pó de Diamante também.

O sagitariano compreendeu, e voltou a treinar Shun, para não alertar os outros cavaleiros e gerar mais confusão na arena. Aiolia e Seiya estavam de olho na situação, assim como Saga e Marin. Hyoga afastou-se do mestre, assim como Shaka deu espaço para que o cavaleiro de Aquário iniciasse a luta.

Maia continuava parada no lugar onde estava, aparentemente alheia ao que ocorria à sua volta; Camus fechou momentaneamente os olhos, para depois os abrir novamente, encarando seu pupilo:

- Hyoga, é praticamente impossível que algo saia do controle, mas quero que você fique atento a qualquer coisa. Não hesite em interferir se ela se machucar ou algo parecido.

O russo concordou prontamente com um aceno de cabeça. Camus voltou-se para Shaka, e disse:

- Espero que você realmente saiba o que está fazendo, Virgem. E que assuma as conseqüências de seus atos.

Shaka apenas sorriu, encarando o outro cavaleiro com seus olhos azuis:

- Vá em frente, Aquário, eu sei o que estou fazendo.

- Pois bem. – e com isso, Camus atacou a garota com um soco, do qual ela prontamente desviou.

"O quê?" – pensou ele – "Mas ela está cega no momento, perdeu todos os seus sentidos!"

Atônito, precisou desviar dos golpes de luta que ela desferia contra ele, ambos não usavam cosmo no momento, mas ela era rápida, e muito ágil. Mal desviara de um chute, ela já estava atrás dele, pronta para socar suas costas. Ele foi mais rápido, e a acertou com o cotovelo na lateral do corpo, fazendo com que ela caísse no chão.

Maia não sentia dor alguma, estava privada do sentido do tato, e logo se levantou, dando duas piruetas para trás ao ouvir Bella indicando que seu oponente estava tentando alcançá-la com as mãos. Anotou mentalmente que ele não usava muito as pernas em combate – preferindo utilizar os braços e mãos. Então, passou a trabalhar com seu melhor em embate físico: sua agilidade.

Seguindo as indicações de Attargatis, deu uma rasteira nele, que pulou; era o que ela esperava: com um impulso da perna que usara de apoio para o golpe anterior, jogou a outra perna para cima, fazendo uma inversão e jogando todo o peso do corpo no pé, o qual desceu com força sobre o ombro dele.

Camus afastou-se momentaneamente, avaliando o impacto em seu ombro direito; geralmente era o braço direito que ele usava para lançar seu golpe básico, e agora ele teria que tomar cuidado ao fazê-lo, pois seu ombro doía muito. Não teve muito tempo para pensar, pois a geminiana veio correndo em sua direção, com os braços cruzados na frente do corpo, acumulando cosmo nos antebraços.

- Cometas Nebulosos! – ela disse, e vários pontos luminosos púrpura saíram das estrelas no bracelete prateado de sua armadura, quando ela saltou sobre ele e abriu os braços, liberando seu cosmo.

Os vários pontos de energia o atingiram na velocidade da luz, com intensidade moderada, percebeu que ela não queria machucá-lo. Camus ouviu a voz de Shaka em sua mente:

"Camus, preciso que a ataque com o cosmo. Ela precisa revelar o que penso que está escondendo."

- Merde, Shaka, que está pensando? – o aquariano praguejou, mas preparou-se ao perceber que ela tentaria outro golpe.

- Espiral Estelar! – Maia levantou o braço e girou no ar, convocando estrelas púrpuras que desceram sobre o corpo de Camus como uma espiral, todas explodindo simultaneamente ao tocá-lo.

"Acho que conseguimos ter alguma vantagem sobre ele." – manifestou-se Bella, na mente de Maia.

"Eu acredito que não, ele é um cavaleiro de Ouro, não um amador qualquer." – respondeu Attargatis, tentando averiguar a situação através da poeira que se formou em torno do francês.

De repente, ele surgiu às costas da garota, pegando-a pelo meio das costas para jogá-la ao chão, mas ela deu uma pirueta para trás, e ao voltar à posição normal, foi surpreendida:

- Eu não queria fazer isso, mas... Pó de Diamante! – ele soltou uma forte rajada de cosmo congelante sobre ela, arremessando-a contra a parede da arena.

O golpe atingiu Maia na altura do estômago, com a intensidade de um potente soco; ela não sentiu dor alguma, mas ao chocar-se com a parede, percebeu que havia cuspido sangue. Este escorria pelos seus lábios e queixo em quantidade, então o Cavaleiro de Aquário a acertara para valer?

- Shaka, é melhor que isso pare agora! – resolveu interferir Saga, ao perceber o sangue escorrendo por baixo da máscara da amazona. Mas o indiano apenas respondeu:

- Calma, Saga, apenas observe, só mais um instante.

Nisso, Camus a atacou novamente com o Pó de Diamante, dessa vez em uma variação diferente, que formava um vendaval congelante, acertando Maia em vários pontos de seu corpo. A garota não sabia, mas suas costas – Bella a alertara para proteger-se, encolhendo o corpo em uma bola – estavam congeladas, e ela mal conseguia levantar-se.

"Eu não posso... deixar isso acontecer... vocês precisam me ajudar." – pediu Maia, intuindo que estava em apuros.

"Está bem." – os alteregos responderam, e uma luz púrpura começou a envolver o corpo da garota.

- Mas o quê...? – perguntou Aiolia, que observava tudo atentamente, a si mesmo.

Nisso, Maia flutuou no ar, seus braços erguidos na linha dos ombros, a cabeça baixa. Camus e os outros perceberam que seu cosmo se acumulava cada vez mais; e quando todos menos esperavam, ela juntou as mãos na frente do corpo, e balbuciou:

- Extensão de Alma. - seu cosmo se expandiu, e a luz púrpura se espalhou em torno dela.

Duas formas se materializaram, uma em cada lado da garota: uma delas parecia uma criança de no máximo uns 10 anos, seu cabelo era curto e cacheado, os olhos de um castanho vivo e profundo. A outra era uma mulher mais velha que a própria Maia, de cabelos longos e lisos, e olhos violetas. Seu semblante era malicioso e maduro, enquanto a menininha estava séria, porém atenta.

Ambas ergueram seus braços na altura dos ombros e fecharam as mãos na frente do corpo, gerando duas formas de cosmoenergia cada uma, que se adiantaram até Camus, prendendo seus braços e seu corpo, impedindo que realizasse quaisquer golpes, fossem estes físicos ou cósmicos.

"Então, era isso que Shaka queria provocar!" – pensava Aiolos – "Impressionante!"

- Eu sabia que uma hora, elas teriam que se revelar. – disse Shaka para Saga e Marin, que estavam ao seu lado.

- Você percebeu isso desde que a conheceu, Shaka? – perguntou Marin, incrédula.

- Sim, mas eu apenas intuía a presença delas, não conseguia acessá-las com minhas ilusões e outros artifícios. Por isso tive que apelar para métodos não muito aceitos. – concluiu o virginiano.

- Poderia ter me alertado, eu o ajudaria a acessar a mente dela, sem causar tanto dano. – retrucou Saga, sério.

- Desculpe-me Saga, mas creio que nem você conseguiria ajudar. – disse Shaka, em tom resignado.

Nisso, Hyoga não prestava atenção em seu mestre, pois estava demasiadamente ocupado tentando apaziguar uma discussão entre Ikki de Fênix e Seren de Pyxis; aparentemente, a garota estava lutando com seu próprio mestre, Afrodite, e ao desviar de uma leva de Rosas Piranhas atiradas por ele, caíra exatamente em cima do Cavaleiro de Fênix, gerando um momento constrangedor para ambos na arena.

Quando Hyoga olhara para os dois, a Amazona de Pyxis estava esticada ao longo do corpo de Ikki, sua perna esquerda um pouco levantada, enroscando-se na perna dele; o queixo do rapaz estava pressionado no topo da cabeça dela, e o cheiro bom que vinha do cabelo da garota estava o deixando meio tonto. Agradeceu mentalmente quando o amigo russo tirou Seren de cima dele, mas estranhou a ausência do peso dela sobre si.

Ikki levantou-se e foi tomar satisfações com a moça; Afrodite saíra para buscar um pouco d'água para si e para a pupila, que deveria ter se machucado, assim ela poderia lavar-se também. Aldebaran conversava com Aiolia sobre o treinamento de Seiya no momento, e não percebera o que acontecia com o discípulo.

Agora, Cisne ouvia os insultos e ironias de ambos, um tentando atingir o outro, e tentava amenizar a situação, mas não estava fácil:

- Calma, vocês dois! Ikki, ela é só uma garota! E Seren, não o leve a sério, meu amigo Fênix pode ser arrogante, mas é uma boa pessoa! – o loiro pedia.

No entanto, tanto o japonês como a espanhola olhavam para ele de modo atravessado. Perguntou:

- Que foi, eu disse algo errado? – falou Hyoga, meio blasé – Não quis ofender ninguém, mas é a realidade!

Nisso, eles começaram a discutir com ele, para desespero do aquariano, que simplesmente afundou o rosto entre as mãos. Aquilo parecia briguinha de namorados. Então, tomou uma ação desesperada:

- Mas o que você pensa que está fazendo? – gritou Seren, ao descobrir-se nos braços do loiro.

- Tomando atitudes mais efetivas. – ele a colocou sobre seu ombro, e dirigiu-se a Ikki:

- Você voltará a treinar com seu mestre. E você, moça – ele deu uma olhada sobre o ombro – irá para junto de seu mestre agora. Ele está arrumando umas bandagens para os seus machucados.

- Ora, seu! – Seren reclamava – Isso não fica assim! E a nossa conversa ainda continuará uma hora dessas, Ikki!

- Não vejo a hora! – disse Fênix, zombador. Mas em seu íntimo, sentia que seu corpo ainda reagia ao contato com aquela amazona.

Enquanto isso, Camus estava envolto na cosmoenergia púrpura da Amazona de Plêiades, e ela estava flutuando diante de si, escoltada pelas outras duas figuras femininas ao seu lado; ele ia dizer alguma coisa, quando ela falou:

- Invasão de Alma. – e o Cavaleiro de Aquário sentiu-se tragado para dentro de si mesmo, viajando para um lugar distante de sua mente...

Quando deu por si, estava em um cômodo grande, pintado inteiramente de branco, com várias prateleiras em mogno cheias de livros, uma grande mesa de mogno cheia de papéis, com uma alta e fofa cadeira verde atrás da mesma, e um grande globo terrestre antigo no centro da sala; havia duas portas duplas de mogno em cantos opostos da mesma, e aos poucos, percebeu que alguém se materializava ali.

Maia, Attargatis e Bella chegaram à sala, e saudaram o cavaleiro, o qual foi direto e perguntou:

- Quem são elas, senhorita Maia? – o semblante dele era inexpressivo, como sempre.

- Senhor Camus, bonito lugar você tem aqui! – Maia disse, surpresa – Combina com o senhor!

- Ainda não respondeu minha pergunta, amazona.

- Está bem. Senhor Camus, essas são Attargatis e Bella. – apontou para cada uma delas – Elas são, respectivamente, minha sombra e meu self jovem.

- Incrível. – ele disse, intrigado – Mas como é possível que elas se manifestem fora da sua psique?

- Elas são facetas da minha alma, e a Armadura de Plêiades permite que eu converse com elas, e que elas me ajudem em combate, inclusive se manifestando de forma extracorpórea, através do Extensão de Alma. - Maia explicou.

- Elas são seres distintos, então? – ele começou a se preocupar.

- Não, não é o que está pensando, elas não são personalidades distintas, mas partes da minha própria personalidade. Todas somos aspectos diferentes de uma pessoa só, não pessoas diferentes dentro do mesmo corpo.

- Hum... agora entendo porque Shaka foi designado para treiná-la. Sabe que ele não será indulgente com vocês, não é? – o aquariano foi direto.

- Nós sabemos. Aliás, o senhor sabe onde está agora? – ela perguntou.

- Dentro de minha mente? – ele arriscou, despreocupado.

- Na verdade, estamos em seu inconsciente, senhor Camus. Sabe, eu poderia estender o Invasão de Alma e descobrir seus mais secretos desejos e pensamentos – ela colocou a mão sobre a maçaneta de uma das portas duplas – basta apenas abrir esta porta.

- E por que não o faz? – ele desafiou – Possui um golpe bem útil, mas não sei no que ele pode servir a você aqui.

- Bem – ela começou a abrir a porta aos poucos, para espanto dele – eu tenho a filosofia que informação nunca é demais. Mas...

- Mas? – ele tentava disfarçar seu pânico ao vê-la com a porta entreaberta.

- Eu tenho grande apreço e admiração pela sua pessoa, apesar de nos conhecermos muito pouco – ela falou rapidamente – e devido ao meu respeito e... afeição, eu não vou invadir essa área de sua mente. Ainda mais porque o senhor não quer realmente o meu mal.

- E como você sabe disso? – ele a testou, como sempre.

- Se realmente o quisesse, teria acabado comigo naquela arena há um bom tempo atrás; além disso, posso sentir em sua alma e mente que não tem nada contra mim.

- De fato – ele deu um leve sorriso – não tenho nada contra você, nos conhecemos muito pouco para isso.

- Pois é. – ela respondeu, pensativa. – Bem, prepare-se, o senhor poderá sentir-se um pouco tonto ao voltar.

Camus apenas arqueou a sobrancelha em dúvida, para depois sentir-se puxado para fora de sua mente. Ainda voltava a si quando viu a energia púrpura em volta de si se dissipar, os alteregos de Maia fundirem-se com ela, e a garota cair; tentou adiantar-se para pegá-la, mas seu corpo ainda estava atordoado, e não o obedecia.

Viu quando Saga pegou-a em seus braços, erguendo-a em seu colo, preocupado; o Cavaleiro de Gêmeos pediu licença à sua pupila, Marin, e fez menção de deixar a arena, mas não sem antes dirigir-se a Shaka:

- Dessa vez você foi longe demais, virginiano. Conversamos mais depois, vou levá-la para a enfermaria, para ver se consegue recuperar os seus sentidos.

Camus foi amparado por Aldebaran e Ikki, e ao passar seus olhos pela arena, viu Aiolia, Seiya e Marin fitando-o, consternados. As outras duplas ainda treinavam, com exceção de poucos: Shina se alongava, Máscara da Morte admirava os movimentos fluidos dos golpes da Amazona de Apus, que treinava sozinha, pois Shura ajudava Mu a testar o Muro de Cristal feito por Kiki, com sua Excalibur.

Quando voltou totalmente a si, o horário de treino havia acabado, e todos se dispersavam. Ainda confuso, foi guiado até a Casa de Aquário por Hyoga e Milo.