Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens são de Masami Kurumada, Toei, e Shueisha.

Avisos: Chegamos ao fim da primeira parte dessa saga, que foi escrita e finalizada há alguns anos atrás, postada aos poucos aqui. A priori, não sei se escreverei a segunda parte, finalizando a estória de vez, mas quem sabe?

Agradeço a todos os que leram e mandaram reviews, e àqueles que ainda o farão. E como sempre, agradeço muito à Human Being pela betagem e por me convencer a publicar esta fic, que foi minha primeira tentativa de escrita com o universo de Saint Seiya, e com personagens originais.

A todos, boa leitura, muito obrigada!


CAPÍTULO 9 - REDEMPTION


No dia seguinte...

Saori, Adisa, Dohko, Saga e Shiryu estavam no Templo de Athena; a Deusa queria saber como estavam os preparativos para a chegada de Shunrei e os relatórios das interações diplomáticas com Asgard e o Reino dos Mares.

A jovem Deusa estava particularmente satisfeita apesar de sua preocupação com possíveis ataques ao Santuário; os soldados e cavaleiros de Prata estavam todos de sobreaviso mas Athena resolvera estender o conhecimento da situação para todos os servos e cavaleiros de Bronze também, para que ninguém estivesse desprevenido.

Uma pequena tensão era perceptível no ar, e todos estavam cautelosos nos seus afazeres do dia-a-dia.

- Dohko, Shiryu, Adisa: eu os chamei porque quero que estejam na comitiva de recepção da Shunrei. No entanto, gostaria muito que vocês, que são cavaleiros de Bronze - ela apontou para Dragão e Corona Australis – tivessem cuidado redobrado, e por via das dúvidas, mandarei mais um cavaleiro de Ouro com vocês.

- Mas senhorita Athena – começou Saga – caso haja algum ataque ao Santuário, os cavaleiros de Ouro devem guardar as Doze Casas para protegê-la!

- Sim, eu entendo, mas Shunrei não é daqui, e eu quero muito que sua integridade esteja em primeiro lugar nesse dia.

- E quem seria o outro cavaleiro de Ouro a esperá-la conosco, minha Deusa? – perguntou Dohko, curioso.

- Eu ainda estou pensando nisso, mas no dia vocês saberão. – ela sorriu. – E os aposentos dela estão prontos, Dohko?

- Sim, senhorita, a ajuda da Amazona de Corona Australis foi imprescindível para que tudo ocorresse da melhor maneira possível. Sem ela, não sei o que seria de mim. – a frase tinha certo duplo sentido, mas foi dita para que apenas Adisa entendesse.

- Acredito nisso. Vejo que vocês formam uma boa parceria, por isso aprovei os treinos de Adisa com Shiryu sob sua tutela. Quando eles começarão? – perguntou Saori.

- Assim que Shunrei chegar e nos certificarmos que ela está bem instalada e adaptada.

- Muito bem. Bem, se quiserem almoçar, fiquem à vontade, estão dispensados! – Saori riu, não queria atrapalhar o horário de almoço de seus cavaleiros.

Todos se dispersaram, menos Dohko, e ela levantou-se de seu trono, pedindo ao cavaleiro para acompanhá-la:

- Dohko, o que você acha da Lei das Amazonas? – foi direta.

- Eu? – ele assustou-se – Ahn... é uma tradição, mas que poderia ser mudada...

- Mesmo? Por quê? – ela o encarou, séria.

- Bem, senhorita, nesses meus anos de vida, eu pude perceber que é uma lei que surgiu com intenções nobres, mas que precisa se adaptar aos dias de hoje.

- Bem colocado. Mas como seria possível essa adaptação?

- Não sei, senhorita, creio que o mais interessante seria discutir isso com as próprias amazonas. Mas por que quer tanto saber sobre isso?

- Eu tive uma conversa com minha amiga Freya, ouvi algumas opiniões e passei a prestar mais atenção nessa questão. Como você é o mais velho aqui, no bom sentido – ela riu – eu queria ouvir a sua opinião.

- Entendo. Mas como eu disse, talvez seja melhor falar com as próprias amazonas.

- Seguirei seu conselho, Dohko, muito obrigada! – ela fez uma pequena mesura com a cabeça.

O Cavaleiro de Libra retribuiu o cumprimento, e saiu da morada de Athena, a qual olhava pensativa para o seu jardim.

- Tenho que pensar na felicidade de todos aqui dentro... desde os servos, até os cavaleiros e amazonas... sei que todos eles me servem e estão comprometidos a me proteger, mas, será que isso não é egoísmo demais? – ela sussurrou para si mesma.

Saori caminhou até os pés da enorme estátua de Athena, e depois avistou o Santuário todo, em sua grandeza; sentiu um arrepio tomar conta de si, e então teve certeza:

"Algo está para acontecer... que eu seja capaz de evitar maiores perdas e danos por aqui, pelo menos dessa vez..."

E seu olhar perdeu-se no horizonte.


Enquanto isso...

Maia de Plêiades subia as escadarias das Doze Casas até o Templo de Virgem, e ao entrar lá, lembrou-se do recado que recebera de Ícaro, o Cavaleiro de Prata de Cefeu:

"O senhor Shaka de Virgem a espera no Sexto Templo em meia hora, por favor, não se atrase."

O tom de voz do rapaz era neutro, então Maia não sabia do que poderia se tratar a sua ida até ali; será que o homem mais próximo de Deus reclamaria sua posição de mestre? Ou simplesmente a deixaria livre para treinar com Saga de Gêmeos? Ela estava confusa, e nervosa.

Entretanto, ao pisar naquela Casa, seu coração, alma e mente foram se acalmando aos poucos. Fechou os olhos para absorver melhor aquela sensação, e ao abri-los novamente, viu que o Cavaleiro de Virgem estava em sua frente.

Ele parecia um pouco abatido, mas a recebeu com um sorriso no rosto, apesar dos olhos fechados. Disse:

- Bem vinda, Maia, Amazona de Prata de Plêiades. Perdão por mandá-la chamar em cima da hora, mas gostaria muito de falar com você.

- Tudo bem, mest... quer dizer, senhor Shaka. Sou toda ouvidos.

Ele deu uma leve risada, e pediu que ela o acompanhasse um pouco adiante, até um ponto do templo, próximo à entrada, onde havia algumas almofadas indianas em círculo sobre um confortável tapete e uma bandeja com um bule de chá e xícaras no centro. Indicou uma almofada para a amazona se sentar, e acomodou-se em outra.

- Senhorita Maia, creio que começamos nosso treinamento de maneira errada. Entenda, eu sou um mestre rigoroso, mas não quis seu mal ao fazer o que fiz naquele treino. Para mim eu estava fazendo a coisa certa, já que você não quis me mostrar o seu real poder.

- Eu... – ela começou - eu estava com medo! Sei o que todos pensam dos geminianos e seus poderes com ilusões... se eu mostrasse meus alteregos ali, pensei que teria problemas! Mas eu os teria mostrado ao senhor caso estivéssemos a sós!

- Sim, agora eu percebo isso, fui muito rude com a senhorita, e gostaria sinceramente de me desculpar. Isto é, se você puder fazer isso por mim.

Maia ficou surpresa; poderia esperar tudo, menos um pedido de desculpas do homem mais próximo de Deus. Sentiu uma sensação estranha, mas pacífica, e pôde perceber que vinha dele. Ele estava lendo sua alma.

- Senhorita Maia, permite que eu converse com... elas também? – ele perguntou cautelosamente.

A amazona suspirou fundo, e concordou com a cabeça. Shaka aproximou-se dela, ficando ajoelhado diante de si:

- Por favor, sente-se em posição de lótus. Assim mesmo. Agora, arrume a postura, respire fundo, e feche os olhos.

Maia seguiu as orientações do virginiano e relaxou, esvaziando sua mente – o que era inicialmente difícil, mas ela foi sentindo seu corpo e espírito se acalmarem aos poucos e sua mente ficar mais leve, como se flutuasse.

Podia perceber a voz do mestre em sua mente, baixa e suave, conduzindo-a ao seu inconsciente aos poucos; e foi quando Bella se manifestou:

"Não podemos deixar que ele entre aqui. Você sabe disso." – sua voz inocente se sobrepôs à de Shaka.

"Ele apenas quer falar com vocês. Quer se desculpar." – disse Maia.

"Ele faz bem" – Attargatis manifestou-se, com o tom de voz arrogante – "mas não aqui, nós iremos sair."

"Mas como? Terei que aplicar o Extensão de Alma assim, em plena meditação?" – Maia estava confusa.

"Deixe que eu as guiarei, senhorita Maia. Apenas relaxe e libere seu cosmo, aos poucos." – a voz de Shaka tomou conta de sua mente.

Assim, ambos foram trabalhando juntos. A garota nem reparou, mas Shaka de Virgem segurava suas mãos, ainda ajoelhado em sua frente, ajudando-a a elevar o cosmo, gradualmente, até que depois de um tempo, duas figuras se materializaram, uma em cada lado da Amazona de Plêiades.

"O que quer conosco, Cavaleiro de Virgem?" – Attargatis falava dentro da mente de Shaka.

- Eu gostaria de me desculpar com vocês duas – ele falava em voz alta, para que Maia também ouvisse – e dizer que espero poder compreendê-las melhor para que Maia possa chegar a ser a futura Amazona de Ouro de Gêmeos.

"Nós agradecemos, senhor Shaka" – Bella falou na mente dele - "mas não somos projeções dissociadas, somos entidades separadas que não querem o mal de ninguém."

- Eu acredito, e irei respeitá-las. Mas quero avisar que gostaria da cooperação de todas vocês em um objetivo comum: o desenvolvimento pessoal da Maia, e o fortalecimento de sua mente e cosmo para vencer a disputa pela Armadura de Gêmeos.

Attargatis e Bella pareceram reconsiderar, e com isso concordaram com Shaka; ele então agradeceu as duas e elas voltaram para a alma de Maia, meio zonza depois da meditação. O Cavaleiro de Ouro de Virgem se adiantou, e a recebeu em seus braços, abrindo um pouco os olhos no processo.

Maia estava zonza, era o efeito colateral de liberar seus alteregos, e literalmente agarrou-se ao seu mestre, aninhando-se no tórax dele. Balbuciou:

- O-Obrigada... mestre Shaka...

- Obrigado você, Maia, aliás, a todas vocês. - e abraçou a discípula carinhosamente, para mostrar que estava ali para apoiá-la.

Mal sabiam eles que, neste exato momento, Ísis de Cassiopéia chegava do seu treino, alegre e disposta a conversar com o morador da Sexta Casa; estava elétrica e um tanto nervosa, embora não soubesse o motivo. Entretanto, ao adentrar a Casa de Virgem, e seguir pelo corredor principal, a garota ficou chocada com o que viu. Ali, entre ricas almofadas indianas e incensos, em cima de um tapete, estavam Shaka e Maia de Plêiades, praticamente agarrados; ela estava abraçada a ele, totalmente entregue, com a cabeça apoiada no peito dele. E ele a segurava pelas costas e pela cabeça, encostando seu rosto protetoramente na testa dela.

Ísis sentiu o peito apertar, tensionou os braços e fechou os pulsos; logo a tristeza foi substituída por um grande e sufocante sentimento de raiva. Virou-se de uma vez para ir embora, e quase esbarrou na figura de Camus de Aquário, o qual também observava aquela cena em silêncio, com seu rosto habitualmente inexpressivo.

- S-Senhor Camus, desculpe, eu... – a Amazona de Cassiopéia não sabia o dizer de tanta raiva, sua vontade era somente sair correndo dali.

- Está tudo bem, venha, vamos conversar sobre o seu treino, é melhor voltar depois. – ele disse em tom blasé.

Assim, os dois aquarianos saíram dali, e Ísis quase socou uma das grandes estátuas de Buda da porta de entrada do templo, mas foi impedida por Camus, o qual falou baixo, para que somente ela escutasse:

- Calma, Cassiopéia. Não adianta nada perder o equilíbrio se não sabe como agir diante da adversidade.

A garota arregalou os olhos, e ele pediu que ela o acompanhasse até o Décimo Primeiro Templo. Ambos subiram as escadarias em silêncio; Camus aparentemente inabalável, e Ísis corroendo a raiva por dentro. A amazona ficou um pouco acanhada ao entrar, era a primeira vez que entrava ali, sabia que ele era um cavaleiro reservado.

- Pode entrar, senhorita Ísis. Vamos conversar no meu escritório.

Ela o seguiu, estava tão dispersa em seus pensamentos que não percebeu quando ele entrou em uma sala, abrindo a porta e esperando ela passar. Entrou na sala e se deparou com uma sala de leitura com duas poltronas perto de uma janela, uma pequena mesinha entre elas, no outro lado da sala tinha uma mesa grande, com alguns papéis e canetas cuidadosamente posicionadas sobre ela.

- Por favor, sente-se. – ele indicou uma das poltronas a ela e sentou-se na maior – Gostaria que respirasse fundo, e tentasse manter a calma.

- Olhe, senhor Camus, eu não estou nervosa. – a voz dela era perigosamente baixa.

- Mesmo? Como explica o modo como saiu da Casa de Virgem agora há pouco, Ísis? - O Cavaleiro de Aquário percebera a mudança de humor e a tensão da moça ao mencionar a Sexta Casa, o que somente aguçou ainda mais suas dúvidas em relação ao que vira há alguns minutos atrás. Será que a amazona a sua frente teria a mesma impressão que a sua? E, se teve, será que essa era a primeira vez que presenciava algo assim entre Shaka e sua discípula?

- Eu... estou nervosa devido aos treinos, Hyoga é mais severo que a mestra Marin, e ainda estou me adaptando. Aliás, gostaria de agradecer pela oportunidade de estar, de certo modo, sob sua tutela também.

- Compreendo. Mas isso deve ser melhor que cumprir os castigos que Marin lhe passou, não é? Soube que a senhorita tem um pequeno problema com regras, mostrando-se uma pessoa muito rebelde... – ele comentou casualmente.

- Eu não sou rebelde, senhor Camus. As pessoas apenas não me conhecem direito. – ela foi direta.

Camus conteve a gargalhada; fazia quanto tempo que não agia assim? Ver as atitudes e a postura da amazona era como olhar em um espelho, que ao invés de mostrar seu retrato atual, mostrava um Camus mais jovem, de uns bons anos atrás. Ele tinha que admitir que ela era uma boa amazona, muito dedicada ao seu trabalho e seus afazeres no Santuário; mas seus problemas em seguir regras e o fato de questionar a tudo e a todos, eram algo que o francês via em si mesmo alguns anos antes. E mudar isso era algo que a amazona aprenderia com o tempo, assim como ele aprendera.

- Sim, as pessoas não te conhecem direito, mas você não se cansa de tantos castigos?

- Bem, senhor... - a amazona gaguejou, sentindo as bochechas corarem por baixo da máscara.

Camus dessa vez não segurou a gargalhada:

- Bem, pelo menos você ainda esta tendo castigos leves, imagine se tivesse que limpar as escadarias das Doze Casas?

- Pelos Deuses, senhor Camus, não! Isso seria cruel demais! - respondeu Ísis, rindo.

Finalmente a Amazona de Cassiopéia estava começando a se acalmar e a se soltar, seria fácil agora chegar ao assunto que ele queria:

- Bem, cuidar do jardim da Casa de Virgem não deve ser tão ruim assim, você não acha?

Ele viu a amazona sair da postura relaxada e se remexer na poltrona, agora novamente com o pescoço e o maxilar tensionados.

- Sim, senhor. – ela respondeu sem ânimo.

- É uma tarefa parada, presumo, mas mesmo assim, melhor que limpar as escadarias. – o cavaleiro deu um meio sorriso.

- É, pode se dizer que sim. - respondeu ela novamente, indiferente.

Camus a analisava cuidadosamente, percebeu que ela estava evitando o assunto. Resolveu cutucá-la:

- O que houve, Cassiopéia? A tarefa na Casa de Virgem não é agradável?

- Não é que não me agrade, senhor Camus, é que... é entediante. Apesar de ter seus pontos positivos também...

- Somente isso? – ele continuou insistindo - A casa de Shaka tem um clima confortável, estranho você se sentir entediada ali dentro. A Sexta Casa costuma passar para quem entra lá uma sensação de paz, afinal Shaka é o homem mais próximo de Deus.

Ela virou-se de frente para o aquariano, e Camus pôde sentir a agitação dela.

- Oh sim! Claro, o homem mais próximo de Deus, e mesmo assim, ao invés de se mostrar humilde, é um homem presunçoso e metido. – ela fez questão de não citar a conversa com o virginiano na noite passada.

Camus levou a mão à boca, segurando os lábios e encostando o polegar embaixo do queixo; segurava o riso, ela tinha acabado de xingar um cavaleiro de Ouro.

- Senhor Camus, por favor, não conte à mestra Marin que eu disse isso, se não receberei outro castigo! – Ísis caiu em si.

- Tudo bem, não contarei, mesmo porque também acho contraditórias as atitudes do Shaka na maioria das vezes.

- Me perdoe senhor, mas já que falei o que não devia... com todo respeito, ele é muito antissocial, parece que não gosta quando as pessoas são espontâneas. – ela desabafou, se esquecendo totalmente do pedido que o Cavaleiro de Virgem lhe fizera anteriormente.

- Ele é um excelente cavaleiro; mas muito exigente, mais com ele mesmo do que com os outros.

- Não estou duvidando dele como cavaleiro, mas para o homem mais próximo de Deus, ele poderia ser um pouco mais humilde, ao invés de ser amigável parece que faz questão de ser chato e intolerante.

Camus deu uma leve risada, realmente, era se olhar no espelho mais jovem, quantas vezes não mediu as próprias palavras e simplesmente as deixou sair?

- Devo confessar que nunca tinha ouvido antes uma descrição tão honesta e direta de Shaka como a sua. Mas se não me engano, agora ele tem uma alegre amazona quatro vezes por semana para tentar tirar essa chatice, não? Quem sabe o seu bom humor não o coloque no lugar? - Camus fez menção de levantar-se, já estava desistindo, ela não iria comentar sobre o assunto.

- Creio que não, senhor Camus. Como o senhor também viu, ele anda muito distraído com outras coisas no momento.

- Será? Não acredito que estivessem fazendo nada demais, Ísis. Ou não é a primeira vez que isso acontece?

- Na realidade, é a primeira vez desde que comecei a frequentar o Templo de Virgem que o vi transmitindo algum tipo de sentimento. Que o vi realmente próximo de alguém. Por isso estranhei. – o tom de voz dela era indiferente, para mascarar a raiva.

- Eu também nunca vi Shaka tão consternado e preocupado com alguém. Enfim, Maia é sua discípula, é bom que tenham feito as pazes.

- Eu acho que aquilo foi bem mais que fazer as pazes, senhor Camus. Enfim, quem sou eu para questionar o que eles fazem ou deixam de fazer, não é mesmo? - o tom de voz dela soava desanimado.

- De fato. Você conhece a Amazona de Plêiades? – ele perguntou casualmente.

- Um pouco, não muito, mas sei que é uma pessoa esforçada. E que gosta de ler. Enfim, não sei muito sobre ela ainda, mas parece ser uma boa pessoa. – Ísis não conseguia ter raiva de Maia, mal a conhecia, por Athena!

- Está certo, Ísis... Bem, vejo que está mais calma, ainda bem que pudemos conversar um pouco para você relaxar. E quanto a Hyoga, confie nele, é um bom cavaleiro e vai te ajudar a desenvolver o que precisa. – ele levantou-se de sua poltrona, um pouco consternado.

- Obrigada, senhor Camus. Novamente, fico muito feliz por ter a possibilidade de treinar com vocês.

O Cavaleiro de Aquário deu um meio sorriso e a guiou para a entrada de sua Casa, onde Keira, a Amazona de Prata de Cães de Caça, esperava por ele. Ela e Ísis cumprimentaram-se, e a egípcia pôde perceber o modo com o qual a moça se dirigia ao cavaleiro do gelo. Torceu o nariz por baixo da máscara, desaprovando aquele comportamento. Por fim, desceu as escadarias novamente, sem olhar para trás.


Mais tarde, naquele mesmo dia...

Dohko estava animado. Era um belíssimo fim de tarde; e alguns soldados, juntamente com duas amazonas de Prata, tinham ido até Atenas para buscar Shunrei no aeroporto. Ele, Shiryu e Adisa finalizaram os preparativos para recebê-la, inclusive preparando um jantar especial com a ajuda de alguns servos do Santuário.

- Você está nervoso, Dohko? – perguntou Adisa, segurando na mão do Cavaleiro de Libra.

- Um pouco, querida, um pouco... está tudo em ordem? – ele fez um carinho ansioso na mão dela.

- Sim, tudo certo. Eu disse que você não precisaria se preocupar, que tudo se ajeitaria. – o tom de voz dela era vitorioso, orgulhoso.

Dohko apenas riu, e resolveu não contestar, não queria entrar em outros méritos com a garota que amava. Sim, o cavaleiro tentou reprimir o que sentira desde o beijo dos dois, mas percebera que realmente gostava da menina. Por isso, iria com calma em relação a ela.

"Assim também vou preparando Shiryu e Shunrei para as novidades... além de pedir permissão à senhorita Athena e ver o que pode ser feito..." – ele pensava, um tanto quanto alheio.

A Amazona de Corona Australis estava tão ansiosa quanto ele, mas não cobraria nada; os dois estavam mais unidos do que nunca, colaborando um com o outro, conversando, se conhecendo melhor. Ele não vira o rosto dela novamente, mas ela estava gostando de ser cortejada nos modos antigos do ex-ancião.

Os dois desceram as escadarias juntos, sob os olhares atentos de alguns cavaleiros de Ouro, como Milo de Escorpião; este observava a tudo da entrada de sua Casa, e percebera que alguns ânimos estavam diferentes no Santuário. Súbito, o Cavaleiro de Libra parou em frente à Casa de Câncer, concentrando seu cosmo momentaneamente.

Alguns minutos depois, Máscara da Morte de Câncer saiu de sua morada, com a armadura completa, a capa branca da mesma balançando ao vento; trazia seu sorriso mordaz de sempre no rosto, mas ao ver o amigo da Sétima Casa, estendeu a mão a ele, tendo seu cumprimento retribuído por Dohko.

- E esta mocinha, é sua nova pupila, Libra? – ele brincou – Espero que não pegue leve com ela.

- De jeito nenhum, Adisa é uma boa amazona, Máscara. Agora vamos descer, Shiryu nos espera na entrada do Santuário.

- Ele sabe que eu farei parte dessa recepção de boas-vindas à sua filha? – perguntou o canceriano, relutante.

- Ainda não, mas creio que ele não fará objeção à sua presença. Fiquei feliz ao saber que Athena o designou a nos acompanhar. – o sorriso do chinês era sincero.

- Eu mesmo fiquei muito surpreso, e muito feliz. Trata-se de uma chance de me redimir com todos vocês, principalmente com a menina. – o tom de voz do italiano era um pouco ressentido.

O libriano deu um tapinha amigável no ombro do amigo, indicando que não precisava se sentir daquela maneira. Adisa reparava na interação entre os dois, realmente os cavaleiros de Ouro tinham mais histórias do que realmente aparentavam.

Os três chegaram até a entrada do Santuário, onde Shiryu de Dragão estava andando de um lado para o outro, devidamente arrumado com sua armadura; este estacou no lugar ao ver Máscara da Morte ali, e perguntou ao seu mestre:

- Perdoe-me, mestre, mas o que ele está fazendo aqui?

- Shiryu, Máscara irá receber a Shunrei conosco. Ele está aqui para se redimir com ela, e por ordens de Athena também.

- Hum, não acredito que a Saori permitiu uma coisa dessas... ele quase a matou, mestre! Não ligo que quase tenha me matado, mas a Shunrei é outra coisa! - o rapaz falava de forma contida.

- Escute, Shiryu, sei que errei com Dohko e com você, mas tive minha chance de me desculpar com vocês e tê-los como meus companheiros de armas. Agora, quero mostrar à sua namorada quem sou agora, e provar que sou de confiança.

- Não há nenhum outro interesse da sua parte, Máscara? – o Dragão estava desconfiado.

- Sim, pode acreditar, eu... – nesse momento, o siciliano levou as mãos à testa – Dohko, algo está acontecendo!

- O que houve, Máscara? O que está sentindo? – o ex-ancião amparou o amigo.

Máscara da Morte concentrou-se no que sua alma captava no ar: ouvia alguém rezando, não era uma situação estranha para ele; imediatamente, lembrou-se de Shunrei, e alarmado, disse aos outros:

- Dohko, Shiryu, acho que algo está acontecendo à Shunrei. Consigo captar a reza dela com meus poderes espirituais. Acho que devemos averiguar.

- Certo. Adisa – Dohko se dirigiu à sul-africana – quero que você fique por aqui. Caso aconteça algo conosco, por favor avise aos outros cavaleiros de Prata e Bronze!

- Não, Dohko, eu vou com você! – ela assumiu uma postura tensa.

- Por favor, querida, faça isso por mim. Podemos precisar de reforços. Qualquer coisa, Máscara mandará uma mensagem a você por cosmo.

- Sim, farei isso – o canceriano concordou – mas estamos perdendo tempo, vamos!

Nisso, o Cavaleiro de Libra olhou para ela e apertou levemente sua mão antes de seguir Máscara da Morte e Shiryu, o qual reparara no gesto de carinho de seu mestre para com a amazona. Os três correram em direção ao caminho para Rodório, quando se depararam com os corpos dos soldados designados para escoltar Shunrei abandonados na terra pedregosa.

- Mas que massacre! – disse Shiryu – Eles não foram simplesmente mortos, foram torturados antes de morrer! Shunrei!

O japonês desesperou-se e correu até as malas de sua amada, que estavam jogadas por ali. Máscara tentava captar de que direção vinha a voz que rezava em sua mente, quando Dohko o avisou:

- Ali! Sinto algumas vibrações cósmicas vindo dali! – ele saiu correndo em direção ao local que apontara.

- Não, mestre, é uma ilusão! – Shiryu estava de olhos fechados, tentando perceber o que acontecia ao redor.

- Eles estão para lá! – bradou Máscara, e os três cavaleiros correram para direção oeste, atentos ao caminho que trilhavam.

Chegaram a uma espécie de clareira frente a um penhasco, e ali, Keelin de Apus e Ruby de Centauro lutavam juntas para proteger uma garota chinesa que rezava, Shunrei. Elas lutavam com cavaleiros que usavam armaduras negras, e Shiryu disse:

- Cavaleiros Negros! Mas eles estavam selados na Ilha da Rainha da Morte!

- Eles continuam selados na Ilha da Rainha da Morte, meu pupilo. – disse Dohko – Estes cavaleiros possuem armaduras negras, mas certamente não vieram do Pacífico Sul!

O Cavaleiro de Bronze de Dragão estava surpreso, com certeza deveria conversar sobre isso com Ikki depois; Máscara da Morte olhou para Shunrei, a menina rezava pelas amazonas que lutavam, e não por sua própria segurança. Olhou para os outros dois, e disse:

- Dohko, eu e você atacamos, Shiryu, você resgata a sua namorada!

- Certo! – os três concordaram em uníssono, e foram ajudar as moças que eram atacadas.

Dohko e Shiryu atacaram dois cavaleiros com a Armadura de Fênix Negra com o Cólera dos Cem Dragões simultaneamente, enquanto Máscara enfrentava o Pégaso Negro em combate corpo a corpo. Ruby enfrentava o Cisne Negro com seu Turbilhão de Chamas, combatendo gelo com fogo.

Keelin conseguira avariar o Andrômeda Negro com o Plumas Cósmicas, cortando parte da armadura do mesmo e decepando as serpentes que surgiram de suas correntes amaldiçoadas. No entanto, ele recuperara parte das correntes e a atacou:

- Corrente Negra! – nisso, a corrente envolveu o pé da Amazona de Apus, que perdeu o equilíbrio e caiu de cara no chão, tendo seu corpo envolvido pelo metal frio rapidamente.

Ali perto, Shunrei rezava e chorava, feliz pela chegada de seu amado e de seu pai adotivo, e surpresa pela ajuda de Máscara da Morte. Lembrou-se de quando ele a jogara do alto das cachoeiras dos Cinco Picos em Rozan, mas logo voltou a se concentrar em suas preces, rezando por ele também.

Ao perceber isso, Máscara resolveu dar um jeito naquilo logo; seu rosto transformou-se, mostrando um olhar sádico e um sorriso sanguinário:

- Agora, seus infelizes, eu mandarei vocês todos para o inferno!

- Ih, agora a coisa vai complicar para esses idiotas! – disse Ruby, lançando o Turbilhão de Chamas em cima de um dos Fênix Negros, que tentara acertá-la com um feixe de chamas – Hunf, que amador, a boa com fogo aqui sou eu!

Nisso, a ariana correu para proteger Shunrei, quando viu o Cavaleiro de Ouro de Câncer apontar seu braço para cima, concentrando seu cosmo e flutuando; uma onda em espiral surgiu de seu dedo indicador, e ele disse:

- Ondas do Inferno! – com isso, a cosmoenergia foi liberada, atingindo os cavaleiros negros um a um, retirando suas almas de seus corpos. Um clarão se formou acima de todos, e Máscara da Morte enviou as almas para o Yomotsu.

- Ué, cadê ele? – disse Keelin, ao se desvencilhar das correntes que antes a prendiam.

- Ele deve estar jogando as almas daqueles cavaleiros no Yomotsu agora. – disse Dohko.

- Shunrei! – Shiryu correu até ela, que estava abraçada com a Amazona de Centauro – Como você está?

- E-Eu... estou bem, fiquei preocupada com vocês! – disse ela, separando-se de Ruby e se jogando nos braços do libriano.

Os dois se beijaram apaixonadamente, nem percebendo que mais pessoas se aproximavam dali: Seiya, Adisa, Ícaro de Cefeu, Aster de Altar e Saori chegavam ao local, preocupados. A jovem Deusa e o Cavaleiro de Pégaso coraram ao ver Shiryu e Shunrei tão envolvidos no beijo que trocavam. Dohko e Adisa apenas se olharam, e a amazona sorria por baixo da máscara.

- Bem, acho que ninguém se machucou por aqui, estou certa? – perguntou Saori, com as bochechas ainda vermelhas.

- Não, senhorita, mas sofremos algumas baixas... os soldados estão mortos. – disse Dohko, cabisbaixo.

- Vamos providenciar um funeral decente a eles. Ícaro, Aster, poderiam cuidar disso, por favor? – ela pediu, e foi atendida pelos cavaleiros de Prata.

Logo, um clarão se formou no céu, e dele surgiu Máscara da Morte, que flutuou até o chão; no entanto, antes que chegasse, um vento mais forte o atingiu, e ele acabou se chocando com Keelin de Apus. A mesma quase caiu no chão, mas foi segura pelo cavaleiro, que a encarou com um sorriso sedutor:

- Você está bem, ragazza? Espero não tê-la machucado.

- N-Não, absolutamente, senhor Máscara... nós estávamos preocupados com o senhor. – a voz dela era neutra, mas seu corpo reagiu àquela proximidade.

- Não sobrou nenhum dos Cavaleiros Negros, Máscara? – perguntou Shiryu, ainda abraçado à namorada.

- Mandei todos eles para o inferno. – o sorriso dele era meio insano; ele ainda sentia prazer em mandar seus oponentes para o submundo.

- Certo – disse Seiya – e como poderemos interrogar algum deles agora? Impossível!

- Seiya tem razão, e agora? – perguntou Keelin. Ela mesma queria saber mais sobre aquele ataque.

- Agora, tentaremos fazer uma reconstituição do ataque, e ver se há alguma relação entre ele e o ataque à Thetis de Sereia. – disse Saori, séria.

- Ambos os ataques foram a pessoas que são de fora, e estão se fixando no Santuário... mas sinceramente, não sei se isso faz sentido... – dizia Dohko, alisando o cabelo trançado de Shunrei.

- Mas pelo menos, temos mais um fator comum – disse Saori – Mu e Keira viram um vulto negro na mente de Thetis, só pode ser uma Armadura Negra!

Nesse momento, Ícaro e Aster chegavam com os corpos dos pobres soldados, e o Cavaleiro de Altar se manifestou:

- Creio que não podemos tirar conclusões precipitadas, minha Deusa, e sim analisar cada fato de uma vez, antes de relacioná-los.

- Eu não sei se isso é o correto, Aster – disse Seiya de Pégaso – mas uma coisa é certa: o Santuário está em perigo e precisamos descobrir o motivo o mais rápido possível; de preferência antes do torneio.

O geminiano ficou pensativo, os demais concordaram com Seiya; assim, todos passaram a se dispersar, ora levando corpos, ora ajudando Shunrei com as malas, ora pensando ou conversando.

Aster aproximou-se de Seiya, e tocando em seu ombro, disse:

- Sei que suas observações são válidas, Pégaso, mas diga-me: como pode ter certeza que isso tem a ver com o futuro torneio das Armaduras de Ouro?

O sagitariano ficou sem resposta, era apenas uma intuição, mas ficou quieto ao perceber o sorriso irônico do Cavaleiro de Altar. Apenas ficou ao lado de Saori, sua Deusa, e mais uma vez, prometeu protegê-la acima de tudo.


"A vida é um ciclo infinito,

E tudo que vai, volta em retorno triplo

Que a sabedoria dos Deuses os inspire

A buscar a verdadeira realidade

A real fonte da verdade

Para que a justiça e o amor reinem

No mundo, por toda a eternidade."

- SAGA DAS AMAZONAS DE OURO –

FIM DA PRIMEIRA PARTE