N\A: Espero que gostem, suspense, romance e alguns assassinatos.
Capítulo 06
Apartamento
02 de outubro de 2007
Gaara, Subúrbio de Tóquio às 20h14min.
Eu realmente deveria ter trago uma lanterna. Com as luzes apagadas eu não podia ver absolutamente nada senão os vultos dos móveis e quadros estranhos nas paredes iluminados por dois feches de luzes que vinham do poste da rua, mesmo assim, uma luz muito fraca pois o portão, as árvores e os arbustos não permitiam luz alguma.
Sakura estava atrás de mim, ela fechava vagarosamente a porta e no silêncio do apartamento eu só podia escutar sua respiração pesada. Aquilo estava me incomodando.
- Você deveria ficar lá fora. – disse sem emoção e ela não me respondeu ela mexendo algo em sua bolsa, enquanto eu continuava com meus passos lentos até o centro da sala. A minha frente deve ser o quarto, à esquerda, próxima à mesa redonda, deveria estar uma cozinha minúscula seguida por uma pequena área de serviço... Logicamente o que me interessava mesmo era o quarto de Hiromi, mas quando abri a porta não consegui ver absolutamente nada senão o breu. Ali dentro eu não conseguia sentir o cheiro desagradável e doce de flores impregnado na sala, era, no entanto, mais úmido, abafado e provavelmente mais empoeirado; eu imagino que estava trancado pelo menos por uma semana ou mais.
- Não troquei as pilhas, mas deve ser suficiente. – Sakura estava logo atrás de mim e em suas mãos estava uma lanterna. Admito que além de raciocínio rápido, ela é muito prevenida.
Com a lanterna podíamos ver o quarto melhor, ficamos ainda na porta com receio de tocar em qualquer coisa, ou talvez a Haruno estivesse novamente com medo para entrar ali. Analisando o ambiente podíamos ver um quarto em tatame totalmente limpo, no sentido de que não havia nenhum rastro de sangue ou qualquer coisa semelhante, com estantes de livro, caixas fechadas, e um grande armário. Um típico quarto japonês.
- Será que a polícia limpou...? Não deveria ter sei lá... Sangue?
- O assassinato provavelmente não aconteceu aqui. – disse e me afastei do quarto. Sakura permaneceu no lugar provavelmente me observando; naquele momento já havíamos nos acostumados com a escuridão do ambiente. – Haveria pelo menos rastro de sangue no chão, o tatame demora a ser limpo.
- Entendi. O que você sugere?
- Vamos verificar a cozinha.
Andamos até a cozinha, Sakura saiu na minha frente com a lanterna em mãos, ela parou repentinamente na entrada e percebi que algo havia a surpreendido. No chão da cozinha, de carpete madeirado, havia um corpo desenhado com giz, provavelmente da mesma maneira como foi encontrado; entre as frestas de madeira havia rastro de sangue escuro, provavelmente sangue pelo qual havia ficado ali por muito tempo e só seria totalmente removido com o tempo.
- É um pentagrama, certo?
Eu não havia notado até ela comentar a respeito. O desenho do corpo indicava a mesma posição da famosa pintura de Da Vinci; fico imaginando o corpo morto de Kiba sobre aquele carpete de madeira e tenho certeza que Sakura também o imagina pois seus olhos estão vibrados no chão.
- Não necessariamente um pentagrama...
- Realmente foi um crime religioso. – Ela deu uma pausa e eu pude ver um sorriso muito discreto e sem covinhas em sua face. Parecia fascinada. – Mas Hiromi disse algo sobre flores... Disse que havia flores que pareciam dar vida ao morto.
Eu sabia que ela não havia me contado tudo, no entanto, naquele momento não consegui me sentir irritado. Ela parecia tão absorta e empolgada em seus pensamentos que apenas me limitei a continuar calado.
- Um crime religioso, quem diria... Kiba sendo assassinado por um lunático supersticioso. E em uma cozinha ainda... É um pouco decadente não acha? – Ela voltou-se para mim, não sorria, mas parecia levemente animada com aquela observação.
- Não precisa ser necessariamente religioso. – comentei.
- Como assim?
- Essa posição do corpo... Pode significar as etapas da vida. Continua sendo um ritual, mas não necessariamente voltado para uma religião.
Ela voltou a olhar o chão. Mordeu o lábio inferior pensando.
- Tem razão... Mas de qualquer forma os jornais disseram que foi por questões religiosas, é um ponto a ser considerado, não acha?
- Sim... Não disse que não era para ser considerado.
- Mas de qualquer forma é interessante. – Ela me ignorou e continuou a vasculhar a cozinha com a luz da lanterna. – Veja... Perto do corpo, há "xis" marcados no chão.
De fato havia pontos marcados em torno do corpo, exatamente sete pontos onde formavam sistematicamente um círculo. Pergunto-me sobre o significado, muito provavelmente poderiam ser a localização de qualquer coisa deixado na cena do crime... Talvez velas, como nesses rituais tradicionais muito comuns em qualquer dark anime da TV Tókio.
- O que você acha que são?
- Não sei... Pode ser qualquer coisa. – Fui sincero e ela voltou a morder os lábios inferiores pensando. Logo depois ela continuou a analisar o local com a lanterna, não somente a cozinha como todo o restante do apartamento, analisamos o banheiro, a área de serviços e novamente o quarto, mas nada havia de estranho senão na cozinha. Já estava cansado e louco para acender um cigarro, mas ela continuava lá insistindo em achar qualquer coisa pelo qual valesse a mais de informação. Estava tão entretida e obstinada que me perguntei por um momento se tratava da mesma garota assustada me ligando momentos atrás.
- Haruno... – a chamei, mas não terminei de falar. Acabei de escutar passos no lado de fora do apartamento, e provavelmente não eram dos vizinhos. Não pensei muito, a puxei pelo braço e a lanterna caiu no chão fazendo barulho. Droga! Só não foi pior porque consegui tampar a boca dela antes que ela soltasse qualquer som em resposta a minha ação.
- Calma, tem alguém no lado de fora.
Ela se soltou me olhando com raiva, mas disse absolutamente nada. No momento não vinha ao caso, estávamos ao lado de uma janela, senti o meu braço roçando no tecido da cortina, não pensei muito, puxei a cortina e abri a janela pelo qual abria para fora, logo em seguida a puxei para o banheiro ao lado, ignorando a lanterna ainda acessa no chão. Nos segundos seguintes alguém entrou.
Sakura, Subúrbio de Tóquio às 21h16min.
Não havia notado como aquele apartamento estava tão quente. E isso realmente não tem nada a ver com Gaara me prensando contra a parede do banheiro. Talvez sim, com sua respiração e hálito cutucando minha orelha, e seu braço apoiado no azulejo ao lado da minha cabeça, enquanto encolhida eu protejo o meu corpo. Mas que droga... Pode parecer para você, jovem romântica, que isso é realmente lindo e mágico, mas definitivamente não é, principalmente quando você está em um pseudo-triller policial e toda sua atenção está voltada para os ruídos provocados pela pessoa desconhecida no aposento ao lado.
Percebi o desconhecido andando até a janela e recolhendo a lanterna no chão; momentos depois ela fechou a janela e puxou a cortina. Entendi agora por que Gaara havia a aberto. Ele queria dá impressão que alguém havia saído dali às pressas enquanto deixava no desespero a lanterna no chão.
Não escutei mais ruídos pelos próximos minutos, apesar de que provavelmente minha ansiedade toda estava turvando minha noção de espaço e tempo, até que percebemos passos e o clique da porta se fechando. Soltei um suspiro de alívio e somente naquele momento eu percebi o quão próxima ainda estava de Gaara. Ele era alguns centímetros consideráveis mais alto do que eu e eu podia sentir perfeitamente seu peito levantar e baixar acompanhando sua respiração quente pelo ouvido. Podia escutar também, bem discretamente seu coração bater... E me lembrei de Kiba, possivelmente morto no azulejo frio daquela cozinha...
Senti como se tivesse acabado de acordar. Lembrei-me do rosto de Hiromi, do rosto de Kiba, do rosto de Tenten enquanto falava sobre sua morte, e ainda mais do meu rosto sem vida, enquanto meu corpo gelado, pálido e sem vida estava exatamente como no desenho daquela cozinha do subúrbio.
Era como sentir pontinhos eletrizantes em meus braços e pernas, e aquele coração batendo próximo a mim me perturbasse mais do que eu pudesse aguentar. Como se aquela vida prensada contra mim fosse absurdamente densa demais para eu suportá-la e eu tinha que desesperadamente sair dali.
Tentei sair, mas fui segurada, Gaara segurava meu braço esquerdo com força, enquanto seu corpo todo me pressionava ainda mais na parede me impedindo de mover. E o coração dele batia ainda mais rápido, assim como sua respiração mais forte e barulhenta em meu ouvido. Tentei com mais brusquidão, mas não conseguia me mover, ele continuava lá e eu pude sentir o outro braço dele me segurando, me empurrando, me machucando. E por alguma razão eu não conseguia falar nada, como se não houvesse voz...
- Sakura... Calma.
E só havia a voz dele.
- Calma, está tudo bem. Ele ainda está aqui.
Ele quem...?
- Não se mova.
E não me movi, não tentei mais sair dali. Não sei quanto tempo fiquei paralisada, mas quando me dei conta Gaara me fitava, seus olhos verdes estavam inexpressivos. Não pensei muito, logo depois eu o estava empurrando e ele deu uns passos para trás sem parar de me encarar.
- Você não está bem, vamos embora. – ele declarou.
- Por que você fez aquilo? Me machucou...!
- Porque você estava em choque, nem percebeu que quem quer estivesse na sala não havia saído do apartamento, mas tinha ido até o quarto.
Eu me calei e percebi que ele não parecia chateado com o meu comportamento. Me sinto mal, mas não estou muito disposta a pedir desculpas. Me afastei e me dei conta que a porta do banheiro estava aberta e por isso que ele estava tão próximo de mim, para não ser visto. Me sinto ainda pior. Droga.
- Gaara-san. – o chamei, mas logo desisti. – Deixa.
- Fala.
- Vamos tomar um café. – não era um convite, mas ele entendeu.
Depois que saímos, parecendo dois fugitivos (por sorte só esbarramos com uma mulher na saída) acabamos indo em uma loja de conveniência aberta 24horas. Estávamos calados, mas de alguma maneira queríamos estar ali, como se precisássemos estar ali. Aquilo me incomodou, pois tive a leve sensação que naquele momento eu não conseguiria ficar sozinha e até mesmo a companhia de um sociopata funcional poderia ser minha salvação. Quando nos sentamos, ele com um café em mãos e eu com suco de morango, eu me dei conta que talvez eu não estivesse muito preparada para uma situação como aquela.
- Você deveria desistir disso. – ele começou e eu estranhei. Gaara não parecia ser o cara mais comunicativo do mundo – Está evidente que você quase se desequilibrou só em ver o suposto local do assassinato.
- Eu conversei com a suposta assassina e não tive nada disso... Não tem nada a ver.
- Claro que tem. Você entendeu a situação naquele momento, de uma hora para outra.
- Não quero conversar sobre isso.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que não aguentei.
- Tudo bem. Sim... Fiquei surpresa... Digo... – suspirei. – Na delegacia não parecia real, eu sentia que ela não era uma assassina, eu soube logo que a vi.
- Mas o ambiente a afetou, eu logo percebi quando você saiu dali. – apesar de suas palavras combinarem uma frase gentil, eu sabia que não havia nenhuma preocupação real nelas. Isso, no entanto não me preocupou, como se eu estivesse acostumada demais para me irritar com falsa preocupação ou simplesmente a ausência dela. – E por que você está procurando por tudo isso? Eu sei que não tenho nenhuma razão para saber e muito menos me interessa...
- Então por que está perguntando?
- Não sei. Só quero saber.
- Eu não sei. – admiti. – Simplesmente quis fazê-lo. Como se o mundo fosse patético e minha vida fosse ainda mais. Eu só queria me mover, fazer qualquer coisa... Não sei. – me virei em sua direção e foi quando me dei conta que ele me encarava. Soube logo que vi aquela expressão que provavelmente as razões dele eram iguais as minhas, ou melhor, que assim como eu, ele não tinha razão alguma para perseguir aquele assassinato.
- Entendi. – ele falou e tomou um gole de sua bebida. – Só não minta, não quero complicações.
- Não vou. – eu afirmei, mas não sei por que o fiz. – Eu só quero fazer isso, não tenho motivos.
Ficamos em silêncio novamente, ele bebeu três ou cinco vezes seu café, enquanto a minha garrafinha já estava vazia em minhas mãos; já estava preste a me levantar para ir embora quando ele se pronunciou:
- O que você acha que são aqueles pontos no chão?
- Não faço a menor ideia – admiti.
- E aquele cheiro de flores? Estava impregnado no apartamento inteiro e julgando pelo tempo que ele não era limpo e a ausência de flores no ambiente...
- Mas havia uma flor. – o interrompi e ele me olhou com uma de suas sobrancelhas levantadas, achei aquilo engraçado, mas segurei o sorriso. – Varias pequenas flores roxas, sobre uma mesinha no canto da cozinha.
- Eu não havia notado. De qualquer modo é estranho que o local ainda tenha aquele cheiro...
- Hiromi citou algo sobre isso. – Cometei repentinamente o interrompendo. – Ela citou algo sobre flores, algo como flores no ambiente que davam vida ao morto... Não sei... Não me recordo ao certo.
Gaara não disse nada, apenas me fitou por um longo momento e logo depois tomou um gole do seu café, o último pelo visto.
- Não entendo. – ele declarou por fim, e logo depois se levantou. Não disse mais nada, apenas entrou na loja, voltou com outro café em mãos e sentou ao meu lado. Acho que Gaara nunca teve senso de educação.
- Poderia ter dito o que ia fazer.
- O quê? Você queria também? – ele não pareceu perceber que o comportamento dele havia sido estranho e não tentei argumentar, só suspirei e continuei:
- Ela citou essas flores com certo rancor. Como se não gostasse, enfim, é difícil dizer.
- E ela comentou algo sobre nuvem vermelha, certo? Que Kiba tinha o símbolo na mão, como uma tatuagem e o que mais?
- Um clube suicida.
- Nada mais? Nenhum detalhe? – perguntou e pela primeira vez naquela noite Gaara parecia ansioso. Aquilo me incomodou, pois eu não podia corresponder suas expectativas.
- Er... – não consegui responder, me levantei e joguei minha garrafinha vazia no lixo. – Podemos conversar...
- Você não se lembra, não é? – ele me interrompeu e eu cedi suspirando.
- Não, não me lembro.
Ele se levantou também e levou as mãos aos cabelos os bagunçando mais do que eram bagunçados. Era estranho vê-lo agindo assim, ou melhor, era estranho vê-lo reagindo.
- Eu sabia que não deveria ter te mandado lá, fui ingênuo.
Por algum motivo aquilo me incomodou muito. Por mais que as palavras deles soassem neutras e impessoais, me senti ofendida. Era como se ele negasse minha utilidade e tivesse se arrependido de ter confiado em mim. Não que eu me importe com o que o sociopata funcional pensa ao meu respeito, mas se sentir inútil era muito desagradável.
- Foi mal se eu não tenho memória perfeita, é lógico que eu não posso me lembrar de tudo.
- Mas era para você se lembrar. – ele disse sem emoção – Você estava lá e podia ter arrancado muito mais dela se quisesse.
- Mas eu queria! E eu tentei! – quando percebi, eu já estava gritando e sinceramente dane-se.
- Claro que sim. – ele me respondeu e por mais que não houvesse qualquer emoção ali eu percebi o sarcasmo e não há nada que me irrite mais que sarcasmo, ironia e cinismo.
- Você não estava lá, você não estava próxima dela para saber como é.
- Sim, infelizmente não.
Neguei com a cabeça. É estranho demais para mim como esse... Esse... Dane-se. Enfiei minhas mãos no bolso do meu casaco e dei as costas.
- Tchau Gaara. Estou cansada disso. – eu disse, e nem quis saber como ele fisicamente reagiu aquilo, aposto que fazendo nada. – Obrigada por tudo até agora, apesar de que não foi muita coisa e nada que não fosse do seu interesse também. – não me aguentei e me virei para fitá-lo. Ele continuava lá, estático apenas me encarando.
- Na próxima vez eu não vou estar lá.
Eu sabia perfeitamente o que ele queria dizer com aquilo. Não me importei, não me incomodaria e nem me daria o trabalho de responder ao que ele se referia.
- Tchau Gaara, e de preferência, até nunca mais. – acenei. Nunca me senti tão cínica em minha vida. Ele não reagiu e aquilo me irritou, mas dane-se, eu nem sei porque eu liguei para ele hoje... E sinceramente eu espero que eu nunca mais precise fazer isso.
Dei as costas, comecei a caminhar e ele poderia ir para o inferno, pois não faria qualquer diferença para mim.
N/A: Olá, não tenho muito que dizer desse capítulo, a não ser que foi o mais difícil de ser escrito. Sakura está se tornando cada vez mais um personagem complicado e estou com sério receio de estar perdendo a linha do Gaara, mas tudo bem... Sem dizer que apesar de tudo eu ainda achei levemente fofa essa ultima cena deles.
Agradecimentos para B. Lilac (Prometo que em algum momento a Sakura irá parar de chamá-lo de sociopata funcional) Conny (Gaara realmente é sensível, só tem sérios problemas em conseguir demonstrar isso... o que o torna ainda mais atraente haha) e D. F. Braine. Obrigada novamente.
Até próxima. E adivinhem quem aparece no próximo episódio? O personagem mais óbvio do mundo que não merece nem ser chamado de adivinhação, mas tudo bem XD.
Oul K.Z.
