11. Cartas à mesa.

Heero estava no escritório, sozinho, revisando alguns documentos do reino. Ele andava da mesa até a prateleira que ficavam os documentos e vice-versa sem parar, analisando os papéis. Ouviu baterem na porta e mandou entrar. A porta se abriu e a princesa ganhou a total atenção do rei, quando entrou carregando uma bandeja de café da manhã e a colocou sobre a mesa.

- Bom dia, majestade. – Cumprimentou com um sorriso. – Conseguiu descansar?

- Bom dia! Muito pouco. – A encarou curioso. – E porque isso?

- Bem, tomei a liberdade de trazer-lhe seu desjejum, pois desde que o rei acordou não saiu para comer e ficou trancado revisando esses documentos. Pensei que estivesse faminto.

- Não. Quanto a isso, te agradeço. Refiro-me ao fato de ser a princesa quem traz minha comida, sendo que quem o deveria fazer, seriam as servas... – A pergunta dele a surpreendeu deixando-a encabulada.

- Perdoe-me... – Ela pensou e logo respondeu. – Não quis incomodar...

- Não incomodou... – A analisava atentamente. – Ao contrario...

- A rainha sempre se encarregou desse tipo de função, porém como ela tem estado muito ocupada cuidando de vosso pai, ela pediu que me encarregasse dos assuntos concernentes ao castelo... E me incumbiu de estar pendente a todas as suas necessidades majestade.

- Todas... As minhas necessidades? – O olhar dele se tornou abusivo e ela sentiu-se desnorteada. Relena deu um passo atrás e chocou-se com uma das poltronas, perdendo o equilíbrio. Heero em um movimento rápido a segurou, antes que ela caísse. – Está bem?

- Sim. – Disse se desvencilhando do agarre. – Obrigada, majestade. Posso retirar-me? – Ele pensou antes de responder.

- Não. Sente-se e me faça companhia.

Heero estendeu a mão em direção a uma poltrona e ela o obedeceu. Esperou ela sentar-se para depois o fazê-lo. A princesa estava sem graça, não sabia para onde olhar e nem o que fazer então se limitou a brincar com o tecido da saia de seu vestido e às vezes arriscava-se olhar o rei que não quitava-lhe os olhos de cima, enquanto comia. Ele a analisava, em cada detalhe e reação.

- Quando se casou com meu irmão?

- Creio que já faz uma semana...

- Estranho... – Ele ficou meditativo.

- O que é? – despertou nela a curiosidade.

- Vocês são recém casados... E não vejo se tocarem. – a frase surpreendeu a moça.

- Bem... Não... Não acho correto fazer demonstrações de afeto... Perante as pessoas.

- Não acha correto? Ou simplesmente não gosta que ele te toque? – Ela arregalou os olhos e Heero soube que havia acertado em suas conclusões.

- Onde está o príncipe?

- Não... Não faço idéia, majestade...

- Hum... – Ele pensou. Ela novamente se entregou em suas respostas. – Quando me levantei, perguntei a uma das servas sobre ele e ela me informou que ele ainda dormia...

- Provavelmente... O príncipe não gosta de se levantar cedo. – Ela apenas falou.

- E a princesa não sabe me responder a essa pergunta? – Ele fez cara de surpreso, apesar de não o estar. – Acaso não dividem o mesmo quarto? – Relena percebeu que havia sido pega. Baixou a cabeça e jogou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Lembro-me perfeitamente, que no jantar de ontem, meu irmão, fez questão de me informar o fato de vocês estarem casados. E ainda compartilhou com todos à mesa, que você, princesa, teria preparado com muito carinho o quarto de vocês... Estou errado? – Ela meneou a cabeça em forma de negação. – Então, me diga... Se são casados, por que não compartem o mesmo aposento?

A princesa se levantou da poltrona e não sabia o motivo, mas sentiu medo e desejou sair correndo dali. Heero se levantou também, sem tirar os olhos dela. A jovem mantinha a cabeça baixa, levantando-a o suficiente apenas para olhar o rei, ela possuía um olhar aflito e ao mesmo tempo agressivo. Virou-se para sair do cômodo, mas antes mesmo que ela chaga-se a porta, Heero a segurou pelo braço, forçando-a a virar-se novamente a ele.

- Algo muito errado se passa aqui... – Ela o encarou com os olhos cheios de lágrimas, mas sem deixar que nenhuma se escapasse e escorresse. – Cheguei ontem, e já pude presenciar muitas coisas... Não preciso que me diga. – Ela estava muda. – Se o fizesse seria tudo bem mais simples, mas como sei que não falará, saiba que tenho meios de averiguar...

- O que quer dizer majestade? – Ela levantou a cabeça e o encarou de volta, como uma forma de defesa.

- Sei muito bem que você não ama meu irmão.

- Sabe?

- Está estampado em sua face, princesa... E não consegue disfarçar. – Ela baixou o olhar, mas não a cabeça. – Vou descobrir o que se passa aqui. E estarei... – Ele se aproximou bem perto do rosto dela. – Atento a todos os seus passos... Princesa.

- Acaso... – O coração dela disparou e ela começou a ficar entorpecida pela proximidade. Ele percebeu e encurtou mais a distância. – Pensa que eu armei essa situação?

- Talvez... – agora o olhar dele oscilava entre os olhos e os lábios dela. – Ainda não tenho certeza de nada... Mas, descobrirei... Tudo o que se passa aqui...

- Boa sorte... Majestade. – Ela falou com despeito e fez menção de sair, mas ele não a soltou. E ainda de costas para ele, mas com o braço preso ao agarre do rei, ouviu as ultimas palavras dele, sem olhá-lo.

- Não se esqueça que você tem que cuidar de meus interesses... Por isso, esteja sempre, onde eu possa vê-la... Princesa.

Ele falou a ultima palavra, bem perto do pescoço e do ouvido dela, fazendo com que ela se arrepiasse inteira com a proximidade dele. A loira, apenas assentiu de olhos fechados e quando sentiu que Heero afrouxou o agarre, saiu sem olhar para trás, e fechou a porta deixando-o ali, satisfeito com suas descobertas. Desde que ali chegou o rei não deixou de notar o quanto existiam coisas mal explicadas e desejava desvendar a todas, a começar por aquela moça frágil, porém de uma personalidade e imponência tão forte, que chegava a incomodá-lo.

-/-/-

Relena estava caminhando a esmo pelo corredor do castelo, meditando em toda a conversa com Heero. Trowa vinha a seu encontro, bocejando, pois havia acabado de se levantar e estranhou ao ver a face triste e apagada que levava a princesa. Parou do lado dela e a chamou pelo nome algumas vezes, mas não obteve atenção dela. A princesa estava distraída, mas, depois de um tempo percebeu que havia alguém ao lado dela e ao olhar para o lado se surpreendeu e finalmente ouviu seu nome.

- Princesa Relena? – Aumentou um pouco o tom de voz, para finalmente conseguir a atenção dela.

- Sim... – Ela sorriu. – Desculpe... Estava dispersa... Em que lhe posso ajudar?

- Primeiramente, Bom dia, alteza... – Se curvou e depositou um beijo na mão dela.

- É amigo de sua majestade real... Correto? – Perguntou sorrindo com um tom curioso.

- Sim senhori... – Ele engasgou na palavra. – Digo... Sim senhora... Somos amigos desde pequenos...

- Então, não há necessidade de ser tão formal comigo. Chame-me de Relena apenas... Você e seus amigos são muito bem vindos a Sank.

- Muita generosidade sua milady... – Parou e pensou. – Sua amiga, está melhor?

- Sim... Esqueci de agradecer por tê-la salvo... – Baixou a cabeça, inconformada por seu descuido. – Não sei por onde começar... Realmente, muito obrigada por seu empenho em encontrá-la e trazê-la sã e salva.

- Não tem o que agradecer... Fiz o tinha que ser feito. – Sorriu sem mostrar os dentes – Ela ainda está no castelo?

- Não... O pai dela veio buscá-la assim que soube de seu aparecimento.

- Entendo...

Os dois pararam a conversa ao verem os três amigos e integrantes da equipe Gundam se aproximar. Trowa e Relena os cumprimentaram, todos haviam acabado de acordar e perguntaram a princesa sobre Heero e ela informou que ele estava dentro do escritório desde muito cedo. Os rapazes receberam dela os agradecimentos pela noite anterior e ela informou-os que deveriam tratá-la de forma informal, logo depois de se cumprimentarem os rapazes pediram licença e seguiram em direção ao escritório.

Relena então olha para o outro lado e suspira, Quatre observa a tristeza da princesa e sem informar aos amigos, que seguiam seu rumo, voltou para falar novamente com ela.

- Milady... – Ela o encarou e forçou-se a sorrir. – O que há de errado? – Decidiu ser direto e objetivo em averiguar.

- Por que pergunta isso, milorde?

- Noto-a um tanto triste... E a tristeza não combina com a beleza. – Relena alargou o sorriso com a frase que escutou, e dessa vez, não foi necessário forçar.

- És muito gentil... – Quatre sorriu com o comentário dela.

- Procuro ser sincero... Acaso existe algo em que eu possa lhe ser útil? – As palavras dele a fez pensar.

- Infelizmente... Creio que a única solução para meu problema, seria se eu me tornasse mais forte do que sou... – Quatre a analisou em sua ultima frase e se pôs a pensar, algo a incomodava e era visível, precisava saber como responder.

- Creio que não pode me contar o que está se passando... Certo? – Ela assentiu. – Mas, posso dizer o que vejo: Noto em você uma força da qual não tem conhecimento... E sei que só se dará conta, no dia que deixar de aceitar tudo e começar a tomar suas próprias decisões. – Ela encarava-o, atenta. – Se acaso tomou uma decisão errada, o que foi feito, às vezes, o que não é sempre, pode ser desfeito, mas caso não possa, cabe a você resolver como ficará melhor...

- São palavras de difícil entendimento...

- Talvez... – Ele sorriu. – Ou talvez, você não queira entende-las no momento... Mas, logo as compreendera.

Com uma reverencia e um beijo na mão dela, o loiro se foi e a princesa passou alguns segundos olhando-o, porém, sem realmente ver, pois estava absorta nas palavras dele.

-/-/-

Cléo estava a cavalo passeando pelos campos que rodeavam o castelo, como sempre gostava de fazer pela manhã. Apesar de haver dormido pouco, não se sentia cansada. Havia estado tão inquieta pela amiga, que não conseguia dormir, então saiu a cavalgar. Já estava cansada e resolveu parar o cavalo em meio a um campo de flores e deitar na grama para curtir o ar matinal e acalmar os ânimos.

Heero havia feito uma reunião com os amigos e pediu que cada um deles fosse dar uma volta para se familiarizarem com os limites do castelo e os quatro se separaram em sua missão, pois Noin ficou no castelo familiarizando-se com a segurança do local, trabalhando ao lado de Zechs em pedido de Heero. Duo escolheu começar pelos campos e cavalgava animadamente pelo local, a fim de conhecê-lo bem.

A ruiva estava de olhos fechados e um delicado sorriso nos lábios, sentindo a brisa da manhã tocando suavemente se rosto, enquanto respirava o embriagante perfume das flores que a cercava. Aquele era seu momento, sentia-se livre e feliz. Espreguiçou e deixou o corpo descansar em meio à grama. Ela estava totalmente alienada de tudo o que se passava a seu redor, como sempre o fez.

Um grupo de homens mal encarados e mal vestidos se aproximava dela. Eles a viram cavalgar a um tempo atrás e a seguiram de longe, até que viram a moça parar e deitar-se. Pelas vestes que ela usava, e seu o tipo de cavalo que montava, puderam, mesmo ao longe, ver que se tratava de uma moça nobre, da qual, no mínimo podiam tirar muito dinheiro. O grupo formado por quatro homens cheiravam mal e tinham os dentes estragados, eram arruaceiros e suas intenções não eram nada boas. Quando se aproximaram o suficiente para poder vê-la com nitidez e comprovaram a beleza da moça, sentiram-se desejosos de mais que apenas dinheiro.

O mais alto e líder do grupo, olhou para os lados, certificando-se de que ela estava sozinha e confirmando suas expectativas, olhou para seus comparsas como um sinal de que iriam avançar. Em passos cuidadosos, os homens se acercaram a ela e ficaram bem perto da Cléo a observando. Ela continuava de olhos fechados e só abriu, quando o vento mudou de direção fazendo com que a ruiva sentisse um odor ruim, destruindo seu ambiente agradável.

A moça sentou em um salto ao ver aqueles homens esquisitos ao redor dela, com sorrisos maliciosos em suas faces, analisando-a insistentemente. A garota sentiu o medo entrar em seu peito e levantou, tentando correr em direção ao cavalo, mas um dos homens interceptou seu caminho. Cléo começou a andar pra trás, sem tirar a vista daquele grupo.

- O que vocês querem? – Perguntou altiva e agressiva.

- Apenas dinheiro e... Carinho... Princesinha... – O líder começou a rir, após suas próprias palavras, usando de muita malícia na palavra carinho.

- Se afastem de mim. – Apesar de acuada, ela mostrava-se cada vez mais hostil.

- Se colaborar... Princesinha... Prometo que seremos muito gentis e cuidadosos. – Falou o mais forte deles, que pegou sua adaga com intenção de abrir o vestido dela.

- Nunca!

Ao ouvirem as palavras finais dela, o grupo animadamente partiu pra cima da ruiva que os recebeu com muita resistência. Cléo chutava-os e socava-os com todas as suas forças, sem se preocupar, onde seus golpes acertariam, contanto que fosse neles. Apesar de ter um espírito selvagem a moça, não tinha muito êxito em suas tentativas, pois eles eram bem maiores que ela e os golpes, apesar de incômodos, não eram suficientemente fortes para pará-los ou machucá-los.

- Me soltem...

A ruiva gritou o mais alto que podia ao sentir que os homens a haviam imobilizado e cortavam as vestes dela com a adaga, deliciando-se com a pele macia e branca daquele corpo casto. Cléo já estava sem seu vestido e portava apenas as roupas de baixo, as lágrimas já começaram a escorrer por seu lindo rosto, e por mais que tentasse resistir, não podia, pois eles haviam amarrado as mãos dela atrás de suas costas. Ela sentia o desespero crescer dentro de si, sentindo que não se salvaria.

Duo, já não estava longe dali e pode ouvir um grito. Seu caminho era oposto, mas ao ouvir o pedido de socorro, deu a volta e acelerou mais o passo de seu cavalo Hunter inteiramente preto chamado Deathscyth. Duo se apressou e logo chegou a uma distância que pode ver de onde veio o grito. Avistou um grupo de homens e uma mulher que parecia estar amarrada e gritava por socorro incessantemente.

O cavaleiro se irritou com a cena perturbadora que via, aqueles homens brincavam com a moça e a estavam molestando. Cortavam as roupas dela lentamente, para deixá-la cada vez mais desesperada, ao ponto de que quando a deixassem totalmente nua pudessem seguir com sua idéia nojenta e psicótica. Sem pensar duas vezes, o homem de trança sacou sua foice e se dirigiu ao grupo, eles estavam tão entretidos que quando ouviram o galopar do cavalo, já era tarde demais.

O mais novo do grupo se virou e foi o primeiro a morrer. Duo fincou a lâmina da foice no pescoço dele e arrastando o corpo preso pelo pescoço o jogou de lado. Depois deu a volta e parou observando os três se prepararem para lutarem, enfurecidos com a morte do comparsa. Duo sorriu satisfeito e se entusiasmou com diversão encontrada.

- Farei vocês se arrependerem por essa atrocidade.

Avisou e lançou o cavalo em cima do grupo, o líder e o mais baixo jogaram-se de lado, o mais forte resolveu enfrentar o cavaleiro e Duo, cortou fora o braço do homem com sua foice. O homem gritou desesperado de dor, o cavaleiro deu a volta novamente e pegando velocidade, ficou a foice nas costas daquele homem que, calou seu grito, engasgando com seu próprio sangue. Após jogar o corpo do homem sem vida em cima do primeiro, Duo voltou a falar.

- E agora? Quem será o próximo?

O homem de trança, visivelmente se divertia com a brincadeira. Perguntou qual deles era o líder e o mais baixo apontou o amigo, que se irritou ao ser delatado. Duo, então informou que como líder, seria o ultimo a morrer. Jogou o cavalo em direção ao outro que começou a correr, mas não chegou muito longe, pois foi logo decapitado pela foice de Duo, que então, aproximou-se do líder que estava em choque ao ver a velocidade com a qual seus comparsas foram assassinados e desceu do cavalo, que permaneceu ali parado a espera da volta do dono e sacou sua espada.

- E então... Ultimas palavras?

O homem caiu de joelhos pedindo clemência. O cavaleiro meneou a cabeça, inconsolado, pois sempre sentiu que não poderia matar alguém que pedisse clemência. Olhou para o lado a fim de ver a moça que estava à ponto de ser estuprada e surpreendeu-se ao ver a Cléo Rosenberg, a amiga da princesa que tinha lhe despertado o interesse na noite anterior. Ela o encarava com uma mescla de medo, respeito e alívio. Duo perdeu então toda sua razão e cego pela raiva, agarrou o homem pelo cabelo, fazendo-o ficar de pé e enfiou com toda a força a espada na barriga daquele homem, deslizando-a de um lado ao outro com a intenção de rasgá-lo ao meio.

- Por um momento pensei em deixá-lo vivo... – Os olhos arregalados do homem que cuspia sangue a sua frente, demonstravam que ele estava atento as palavras do cavaleiro, que seriam as ultimas que ele ouviria. – Te entregaria ao rei, para que fosse julgado... – Então Duo sorriu. – Mas, quando vi a quem você ousou por suas imundas mãos... Decidi ser impiedoso! – Após terminar de sussurrar, ele arrancou a espada com velocidade, rasgando todo o abdômen daquele homem e soltando-o morto.

O cavaleiro viu o bandido caído a seus pés, olhou os demais, certificando-se de que nenhum havia sobrevivido e olhou para Cléo que não deixou de observá-lo a todo o tempo. Ele aliviou suas feições e viu que ela estava praticamente nua, pois suas roupas de baixo já estavam rasgadas, mostrando um pouco do corpo dela. Prontamente se aproximou da moça, fincou a espada no chão, sacou sua adaga e cortou as cordas que prendiam as mãos dela. Depois tirou sua capa e a cobriu.

- Seus punhos... – Notou que ela estava com os pulsos cortados de brigar com as cordas, tentando se soltar. Voltou a olhar para ela e vendo as lágrimas da moça escorrer sentiu o coração apertar. – Agora acabou... Ninguém te fará nenhum mal.

Cléo ficou sem fala, analisando seu salvador, que se mostrou tão sanguinário e logo a seguir tão carinhoso com ela. Deixando os medos saírem e soltando, finalmente todos aqueles sentimentos que segurou, começou a chorar energicamente. O rapaz a puxou para mais perto, abraçando-a com a cabeça dela encostada a seu peito. Cléo se agarrou a ele e sentiu o tão desejoso alívio. Estava finalmente salva e aqueles homens nunca mais a fariam mal.

Duo pegou a ruiva no colo e levantou do chão, carregando-a e pondo-a sobre seu cavalo, subindo em seguida, mantendo-a abraçada a ele, como uma criança encolhida. O cavaleiro certificou-se de mantê-la bem coberta enrolando a moça em sua capa. Tocou em frente e foram caminhando lentamente de volta rumo ao castelo, depois de andar um pouco, ele encontrou o cavalo dela e prendendo as rédeas dele em sua cela o levou junto.

- Como me encontrou? – Perguntou em um sussurrou, mas a proximidade deles fez com que o cavaleiro ouvisse perfeitamente.

- Estava conhecendo as redondezas... E ouvi seu grito. – Falava sem tirar os olhos do caminho.

- Obrigada...

- Não me agradeça... – Finalmente olhou para ela, que também o encarou. – Nunca me perdoaria se não tivesse estado ali...

A ruiva sentiu o coração acelerar e vendo os lábios dele tão perto dos dela, sentiu vontade de ser beijada por ele. Duo por sua vez sentiu um enorme desejo de se apossar dos lábios daquela linda mulher a quem acabara de salvar, mas teve medo de ser mal interpretado se o fizesse depois de tudo o que havia passado. Então, voltou a olhar o caminho, espantando de sua mente aqueles pensamentos deslocados.

- Para onde vamos? – Perguntou tentando chamar a atenção dele novamente.

- Para o castelo...

- Não. – Ele a olhou novamente. – Quero ir para minha casa... – Duo assentiu.

- Onde fica?

- Te mostrarei o caminho.

Ela o guiou e apesar de haverem passado o tempo todo em silêncio, que era quebrado unicamente quando ela dava as coordenadas do caminho, ambos puderam regozijar-se com a presença um do outro. Sentiam-se estranhos quando estavam juntos, nenhum dos dois havia passado por uma experiência como essa antes, fazendo daquele momento juntos, algo ainda mais mágico. Foi fácil chegar à casa da moça.

Duo foi recebido por alguns guardas da família de Cléo, a quem entregou o cavalo que a moça montava quando saiu a passeio e desceu do cavalo a levando no colo para dentro do castelo. Só a soltou, quando a pôs em sua cama, mesmo que a ruiva não o quisesse. Depois ele se encontrou com os pais dela e informou todo o ocorrido, despediu-se e saiu rumo ao castelo, tinha que relatar tudo a Heero e mandar que alguém fosse cremar os corpos, porque a visão que deixou no lindo campo de flores estragou muito da bela visão do local.

-/-/-

- Pode me explicar como essa porta amanheceu quebrada? – O senhor estava visivelmente exaltado com Kelly.

- Mas, senhor... Eu já disse... Um cavaleiro veio durante a madrugada e quebrou a porta quando a fechei. – Ela já estava perdendo a paciência. Estavam a horas discutindo o assunto e o dono da pousada não entendia.

- Impossível... Um cavaleiro não viria aqui e arrombaria a porta do meu estabelecimento simplesmente porque quis...

Kelly suspirou tentando ganhar paciência. Não sabia mais o que queria, mas sentia uma enorme vontade de encontrar aquele homem da madrugada, para que ele fizesse o favor de contar a verdade. O dono já tinha garantido a ela que o conserto da porta seria pago com o dinheiro dela e a moça não sabia de onde arrancaria o valor.

O velho a deixou ali e saiu, para atender a seus clientes e Kelly sentou no banco, esgotada de todo aquele problema. Tinha vontade de chorar, mas sabia que não conseguiria, pois sua vida tirou dela o privilégio das lágrimas. Tornou-se tão forte e dura em suas decisões, que chorar já não era mais parte de sua vida. Passou os olhos pelo lugar e viu que além de pagar a porta, teria que se animar a limpar tudo de novo. A entrada da pousada que na noite anterior, havia deixado brilhando de limpa, agora estava totalmente suja e cheia de lascas de madeira da porta pelo chão.

Desanimada, mas decidida há continuar seu dia e não ficar se lamentando, levantou e foi buscar a vassoura, o esfregão e o balde para começar com a faxina. O dono do estabelecimento voltou para a entrada e a estava procurando quando ouve passos e se vira para cumprimentar o recém chegado. Um homem alto, forte, boa aparência de ascendência oriental, suas vestes mostravam que se tratava de um cavaleiro nobre. Ele tinha olhos negros e cabelos negros, lisos e presos em um rabo de cavalo baixo.

- Bem vindo milorde... Em que posso servi-lo? – Recebeu o rapaz com um largo sorriso.

- Vim pagar a porta que quebrei... – Wufei bateu de leve na porta e o homem se assombrou.

- Como assim milorde?

- A mulher que trabalha aqui não lhe informou? – Perguntou estranhado.

- Bem... – O dono engoliu em seco ao lembrar que duvidou veemente das palavras dela.

- Já entendi... – E o cavaleiro sorriu, percebendo que com certeza, o homem não havia acreditado na moça. – Pois bem... O senhor pôde confirmar que eu sou o culpado e aqui está o dinheiro.

Wufei jogou um saco de moedas nas mãos do velho, que o valor excedia o custo da porta. O moreno esperou que o homem visse o conteúdo e sem esperar por nada se virou para partir, mas ouviu uma voz familiar que o deteve.

- Voltou? – Kelly perguntou confusa.

- Claro, mulher... Pensou que não pagaria pelo que quebrei? – O sarcasmo sempre imperava nele.

- Fico feliz que tenha vindo... Pois senão eu teria que pagar a divida. – Colocou as mãos na cintura como sinal de arrogância.

- Kelly... Como ousa falar assim com um senhor? – O dono a repreendeu e logo voltou a falar com Wufei. – Perdoe-a milorde, eu te rogo... Ela é jovem e não conhece as boas maneiras...

- Esqueça isso velho... – Voltou a olhar para Kelly que continuava com seu olhar arrogante. – Então, se chama Kelly...

- Sim...

- Hum... Bom saber. – Ela estranhou.

- Por quê?

Wufei ignorou a pergunta da moça e deu as costas a ela e ao dono do local. Subiu em seu cavalo Brumby marrom de nome Nataku e ainda ouvindo a moça perguntando o porquê de ele achar bom saber o nome dela, apenas acenou, sem se dignar a olhá-la e tocou seu cavalo, saindo apressado e deixando tanto a moça quando o dono do estabelecimento intrigados com ele.

-/-/-

Dante andava de um lado ao outro do quarto. Seu humor não estava nada bom e deixava claro pra quem o visse que se sentia entediado e incomodo. Amanda estava sentada em uma poltrona que ficava aos pés da cama tricotando e às vezes relanceava olhares em direção ao marido. Sua expressão era séria, mas no fundo se divertia com a cena.

- Meu rei... Se acalme, por favor? – Decidiu arriscar.

- Acalmar? – Ele a olhou irritado. – Já sinto dores nas costas de ficar aqui nessa cama e falta de ar por estar encerrado nesse cômodo.

- Meu querido... Gostaria de recordar que tudo isso foi sua idéia... – Segurou um sorriso.

- Não precisa me recordar disso todos os dias... Não acha?

A rainha deu de ombros e voltou para seu tricô. Uma batida na porta alarmou os dois e Dante correu para a cama, se deitou cobrindo-se e fingiu estar com dor e mal estar. Amanda como sempre, sentiu uma enorme vontade de rir, mas se segurou. Deixou o tricô de lado e foi abrir a porta, mantendo sua pose em toda aquela atuação. Era o conde e ela deu passagem para ele entrar. Quando Dante viu o amigo entrando, suspirou. Jogou a coberta para o lado e levantou da cama novamente.

- Não me assuste mais...

- Perdoe-me majestade... Como tem estado?

- Obviamente, muito incomodado com o fato de estar trancado aqui no quarto o dia inteiro...

- Imagino que sim... – O conde sorriu.

- Então... O que me trás? Boas notícias?

- Sim, majestade... O reino está em ótimas mãos, sendo guiado por Heero, que tem se mostrado um excelente rei. – Declarou alegre.

- Que bom... – Dante assentiu e depois levantou uma sobrancelha ao olhar para o conde. – Mas, não é a isso que me referia...

- Sei que não... – O conde sorriu e Dante suspirou. – Não estou bem certo... Mas, sinto que o rei Heero, sentiu algo com respeito a minha filha... Mas, ainda é cedo demais para ter certeza de algo...

- Pois espero que tenha certeza logo. Ou irei acabar enlouquecendo confinado aqui dentro. – Olhou de um lado ao outro, de forma bem estressada.

O conde sentou-se em uma poltrona ao lado de Dante e começou a mostrar ao rei o desempenho do filho mais velho nos negócios, bem como os relatórios de tudo o que ali estava se passando: As atitudes de Lúcius, Heero e Relena, que eram seus principais interesses. Dante se alegrou com as novidades e teve certeza de que logo desvendaria todo aquele teatro. E sabia que seus esforços e seu tédio seriam muito bem recompensados.

-/-/-

Heero estava sentado em sua poltrona revisando os papéis dos quais ele teve que dar uma pausa, Por conta da chegada de Duo e suas novidades. Ele agiu de forma bem fria ao ocorrido. Mandou que Zechs preparasse dois grupos de caça, um liderado por ele e o outro por Noin e fizessem uma vistoria pelos arredores do reino, a fim de saber se tinham mais homens como aqueles espalhados ou não. Mandou que Duo levasse alguns soldados até o local para buscar os corpos e cremá-los e no fim, pediu a um mensageiro que levasse flores para a senhorita Cléo, bem como seus sentimentos de melhoras e caso ela precisasse de algo, não hesitasse em pedir.

Depois disso, voltou a revisar os papéis que deixou pendente. Ainda concentrado, ouviu baterem na porta e sem tirar os olhos dos papéis deu ordens para que entrassem. Quando a porta se abriu, ele olhou por cima do documento e se surpreendeu com quem viu entrar. Baixou os papéis e encarou a sua visita.

- A que devo tamanha honra?

- Te atrapalho? Meu caro irmão...

- Não... Apenas seu modo incômodo de falar comigo... O que deseja Lúcius?

- Conversar um pouco... Está ocupado?

Heero respirou fundo e encarou o irmão. Sabia muito bem que ele não queria conversar sobre coisas fúteis e sim sobre algo em especial. Heero já tinha uma leve idéia do motivo da visita.

- Vá direto ao assunto. – Ordenou com frieza e Lúcius estreitou o cenho.

- Exijo que fique longe da minha esposa.

- Exige? – Heero relaxou mais na cadeira.

- Sei muito bem que ela é linda... Mas é minha.

- Então vamos deixar esse jogo às claras... O que acha? – Lúcius estranhou, mas assentiu. – Não sou idiota e sei que esse casamento é uma farsa... – O príncipe ficou tenso. – Não preciso de ninguém me contando o óbvio. Por isso, gostaria de deixar algo bem claro...

- E o que seria? – Falou irônico.

- Descobrirei o real motivo desse casamento... E saiba que suas ameaças para me manter longe de sua bela esposa, não me assustam.

- O que quer dizer? – Lúcius sentiu um aperto no coração.

- Que deveria ter pedido com mais educação... Agora... Com certeza, não vou me distanciar do assunto... E nem dela!

O príncipe empalideceu e Heero se pôs de pé, caminhou até a porta e com as palavras: - Se já terminou... – Fez sinal para o irmão sair e Lúcius passou por Heero com ódio no olhar.

...Continua...


Bem pessoal, o que acharam?

Me digam tudo sem hesitarem, please...

Tem uma leitora minha que ta reclamando muito da falata de romance... Então, se todas concordarem, vou acelerar algumas coisas pro próximo capitulo, ok? Se alguém se opor, fale na review, certo?

Bom... Eu quero reviews.. Longas e me falem oq vcs acham que rolará no capitulo 12 e oq vcs esperam ver...

Enquete: Qual dos casais vcs querem ver o primeiro beijo? Tirando Noin e Zechs que já passaram a perna em todos. hsuahusha

Beijões e adoro vcs!