N\A: Espero que gostem, suspense, romance e alguns assassinatos.


Capítulo 20

Adachi


01 de novembro de 2007


Gaara, Adachi às 14h36min.

Quando desci da motocicleta percebi que o cachecol não seria necessário e o deixei pendurado em minha mochila de lado. Estava sendo um dia bastante quente, considerando que meu pesado casaco preto, o jeans escuro e as botas, eram suficientes para me manter aquecido. O céu mesmo abandonou o tom nublado e via até um tom azulado meio esbranquiçada parecendo a primavera e não esse incômodo inverno. Além disso, o clima parecia provocar a coragem de algumas pessoas para saírem de suas casas, seja na intenção de cuidar dos minúsculos jardins, seja para espionar visitantes como eu. Estou em Adachi, parado em minha moto, e é inevitável não perceber que a Haruno mora em uma rua de velhos. As ruas não são muito diferentes do subúrbio comum de Tóquio, com suas fiações elétricas, ruelas estreitas de apenas uma via e asfalto claro, o diferencial era que de cada 10 moradores ali, pelo menos 7 eram idosos. Idosos curiosos que me observavam com sorrisos estranhos em suas faces enrugadas.

Quando retirei o capacete e arrumei os meus cabelos – ou baguncei, como diria a Haruno – escutei ma voz cansada e escarnecida atrás de mim.

- Veio visitar Sakura-chan? – era uma senhora minúscula e de olhos tão esbugalhados que suas pupilas eram apenas dois pontos brilhantes em uma reta. – Ouvi dizer que ela anda de namorinho por ai.

Percebi que ela se divertia com aquele comentário e me perguntei como a Haruno teria reagido àquela situação.

-Não estou namorando com ninguém, Senhora Soto. – a escutei e quando me virei, pude vê-la apoiada no portão de madeira com uma expressão cansada apesar de possuir ainda um sorriso gentil no rosto. Sem covinhas, o que indicava uma afabilidade verdadeira. – Sabaku-san é um amigo.

A senhora soltou um resmungo pela a boca. Ela pareceu momentaneamente aquele estereótipo de velhas atrevidas.

- Tão formais, parecem dois velhos de cabelo tingido. – a senhora comentou e Sakura soltou uma risadinha falhada. Percebi que eram amigas.

Depois de uma rápida conversa, onde a Haruno, mesmo com um esforço aparente para manter as boas aparências, insistiu em dizer que seus cabelos não eram tingidos, a senhora seguiu a ruela entrando em uma casa pequena há poucos metros dali.

Por algum motivo a Haruno e eu a acompanhamos com o olhar, totalmente calados, como se uma áurea incômoda estivesse sobre nós. Talvez fosse pela escadaria ou pela morte de Iruka, mas de qualquer modo foi estranho sentir, e ainda mais, perceber isso.

- Melhor você ir Gaara.

Ela falou repentinamente, sem me dá chances de falar qualquer coisa, pois já tinha dado as costas e seguido em direção a sua casa. Ou pelo menos eu imaginava que fosse sua casa.

- Haruno. – a chamei acompanhando os seus passos rapidamente. Antes que ela pudesse chegar ao portão de madeira a segurei pelo pulso e a puxei para que girasse em minha direção. O ato foi tão rápido e mecânico que ela não se deu o trabalho de se soltar, apenas abaixou a cabeça, evitando me encarar, como se tentasse esconder alguma coisa de mim.

Vi que seus olhos verdes estavam levemente inchados, a ponta no nariz avermelhado e as bochechas no mesmo tom. E dessa vez, com certeza, não era pelo frio.

- Por que faltou hoje? – perguntei. Ela não havia aparecido em Kitagawa e nem dado sinal de vida desde que a deixei em sua casa, há dois dias, logo após a morte de Iruka. Até preferiu não ir ao enterro. Além da preocupação – o que era estranha de ser definida – eu tinha sentido uma necessidade absurda, desde então, de vê-la e saber como estava. – Por que não respondeu minhas mensagens?

Ela puxou o braço, não mudou a expressão e apenas deu as costas sussurrando que não era para me preocupar.

Aquilo me irritou. Baguncei os cabelos.

- Me preocupo... – minha voz saiu um pouco mais grave que o esperado, e foi então que percebi o quão irritado e preocupado eu estava. – Não venha me pedir para não se preocupar com você.

- Para com isso. – ela pediu repentinamente com sua voz impassível. Notei que ela se esforçava muito para manter a calma. Me senti desconfortável e mal, e logo depois de deixar escapar um suspiro, pedi:

- Vamos entrar, está frio e parece que sua gripe piorou.

Ela pareceu relutante a princípio, mas logo depois entrou pelo portão de madeira deixando-o aberto me indicando que era para acompanhá-la. A casa da Haruno não era tão pequena como eu imaginava, possuía um modelo tradicional, com soalho de madeira e telhados curvados, e, pelo que suspeitava, era herança de família há gerações. No entanto, o aspecto era acabado, apesar de limpo, e talvez o único aspecto elegante ali fosse o jardim, com pedras cinza, um velho e pequeno moinho de água e plantas verdes e bem cuidadas. Parecia casa de uma idosa e foi então, enquanto atravessa a trilha de pedra lascada, que me lembrei da avó da Haruno e fui despertado por uma imensa curiosidade.

Pergunto-me, afinal, como seria a sua família, se tinha irmãos ou tios...

- Quer um chá? Minha avó não gosta de café e por isso não compramos.

Ela perguntou enquanto subíamos alguns baixos degraus e seguíamos em direção à varanda coberta. Notei no caminho algumas butucas de cigarros acumulados em um cinzeiro no chão, e me vi imaginando a Sakura sentada ali no soalho de madeira, em um verão insuportavelmente quente, vestindo short e regata, acedendo um cigarro e olhando para o céu. Era tão real em minha mente que me peguei perguntando se até o verão chegar, tudo aquilo estaria resolvido.

Deixei meus sapatos na entrada enquanto dizia que aceitava, por mera educação. Ela não disse nada e apenas seguiu em direção à cozinha, ou pelo menos era minha suposição.

- Sua avó não está em casa?

- Não. – ela respondeu secamente e me senti incomodado. Decidi não dá continuidade à pergunta.

- E sua gripe? – perguntei. Ela não respondeu, e ficamos em silêncio por um tempo. Me apoiei no parapeito da porta percebendo que sua cozinha cheirava a lavanda e seu carpete de madeira brilhava com intensidade diante dos raios solares que entravam pela larga porta de correr ao lado. Estava um dia alaranjado

- Pensei que morasse com sua avó.

- Sim, mas ela decidiu visitar os parentes em Hokkaido. – concluiu seca, enquanto agachava-se diante do armário e retirava dali qualquer coisa. – Só temos chá preto.

- Tudo bem. – respondi e ela se levantou abrindo uma das portas superiores do armário, ficou nas pontas dos pés para retirar um grande pote de açúcar, mas quando finalmente o alcançou, suas mãos pareceram desajeitar-se. O objeto de vidro escapou de seus dedos e o som de vidro quebrado soou por toda cozinha.

Houve um segundo de silêncio, onde Sakura e eu permanecemos estáticos observando todo o açúcar espalhado pelo carpete de madeira. O movimento seguinte foi rápido: ela abaixou-se para juntar irracionalmente todo aquele açúcar diante dela, sem preocupar com os cacos e foi então que percebi que ela já não estava pensando direito. Aproximei-me ansioso e segurei seus dois braços, antes que ela se cortasse.

-Você vai se cortar... – murmurei, deslizei minhas mãos até as suas, a levantei e ficamos em pé. Próximos dessa maneira era bastante clara nossa altercação de altura apesar de não passar de um palmo de diferença – E se sujar também... – comentei e limpei os pequenos granulados de açúcar. Sua palma era macia, no momento estava avermelhada e não reagia nem se movia. – Precisamos de uma vasso... – minhas palavras cessaram quando senti seus dedos tremerem entre os meus...

- Ele morreu Gaara... Iruka foi morto... – sua voz soou com dificuldade, meio chorosa e fragmentada. Levantei meu olhar de suas mãos até a sua face e pude ver uma lágrima se acumular em suas pestanas, apesar dela não fitar nada, além do chão.

Por um segundo eu não disse e nem fiz nada, sabia que estava acumulando tudo aquilo durante um tempo, e que, provavelmente, a quebra do vaso de açúcar foi como puxar o gatilho de uma arma. Ela soltaria tudo, mesmo que lentamente...

No entanto, Sakura fungou e percebi que seguraria o choro e conteria mais uma vez tudo aquilo – independente do que fosse. No impulso, sabendo que era o melhor a ser feito, eu a puxei para um abraço. Era desajeitado, mas não importava. Ficamos um segundo apenas em silêncio até que o primeiro soluço foi escutado. Ela estava chorando.

Podia sentir seu rosto apoiado na curva do meu pescoço, seu corpo tremer e suspendeu durante os soluços, uma das mãos ainda estava na minha, mas a outra foi parar em minha nuca.

- Podíamos... Ter feito algo? – ela perguntou com dificuldade - Era tão óbvio, ele era tão gentil... Lantana... A descrição... Não era ele?

Bloqueei os pensamentos naquele assunto, não queria me lembrar das palavras de Iruka que apenas me soaram lógicas diante do seu corpo na maca. Não era hora para pensar naquilo, me preocupar e me julgar por aquela patética distração... Sakura chorava copiosamente ali, e nada me era mais importante do que acalmá-la.

- Podia ser qualquer um com um pouco de gentileza, Haruno. Qualquer um...

Minha voz soou baixa e enquanto dizia pude sentir mais intensamente o cheiro de erva doce e sua bochecha direita roçar na curva de meu maxilar. Me vi ansioso, e um estranho desconforto na garganta; apertei sua mão mais forte, como para senti-la mais concretamente, minha respiração subia, sentia sua respiração pesada e úmida próxima à orelha e me vi prestando atenção em seus seios prensados em meu peito enquanto todo seu corpo tremia e se continha para não soltar soluços mais altos.

(...)

Era ela ali. Era ela tão próxima. E eu queria tanto tocá-la com as mãos, com as pontas dos dedos, e olhá-la, cada detalhe, ou não... De olhos fechados seria suficiente para...

- Desculpa... – ela murmurou e percebi-me em outra consciência. Senti-me repentinamente desconfortável com meus pensamentos, mas ignorei... Ela tentou afastar-se como na primeira vez, mas não deixei a puxei rapidamente a abraçando. O corpo dela parou de tremer e paralisamos ali.

- Sou eu... – murmurei e sem organizar as palavras continuei. – Você pode ficar mais assim... - falei, mas eu sabia intimamente que era eu que desejava aquilo. – Você pode chorar... Você pode se irritar... Você pode fraquejar...

Outro soluço soou alto e ela ajeitou-se em mim bruscamente apertando ainda mais forte, uma de suas mãos, outrora apertada na minha, rodeou o meu pescoço e eu instintivamente, em pé sobre aquele chão sujo de açúcar, levei as minhas até sua cintura e protegido pelo casaco moletom.

Ela chorava sem parar, de maneira que podia as sentir caírem sobre meu pescoço, enquanto seu corpo voltava a tremer e acompanhar os soluços. Provavelmente ela segurava o choro há dias e só havia conseguido soltá-lo agora. Não me importei... Ficaríamos ali até que elas acabassem.


Sakura, Adachi, às 8h50min dois dias depois

Acordei sentindo os olhos inchados e os músculos preguiçosos quase doloridos. Pergunto-me há quanto tempo eu não conseguia dormir mais de seis horas e ainda sentir o peito livre, sem o incômodo no alto pulmão. Não que estivesse tudo bem, mas estava mais leve e com as ideias mais organizadas, me impedindo de ter pensamentos impulsivos...

Ainda pensava em Iruka, com sua expressão gentil e palavras doces, entregando-me um cappuccino e fazendo piadas a respeito do cabelo do Naruto. Naruto era outro assunto a ser cuidado, mas que no fundo eu sabia não ser capaz de fazer nada... Lentamente o incômodo no pulmão voltou e assim como fiz ontem, fechei meus olhos e pensei em Gaara, em sua voz próxima ao meu ouvido, sem ritmo e rouca...

"Você pode fraquejar...".

Pelo menos agora eu posso me permitir sentir tudo isso, essas aflições, essa impotência, essa ansiedade provocada pela a impossibilidade de sentir mais, viver mais, ajudar mais... Sem me julgar ao saber que a curiosidade não é o único impulso que me faz procurar tudo isso...

"- Sou eu... Você pode ficar mais assim... Você pode chorar... Você pode se irritar...".

Ainda podia ouvir as palavras soarem úmidas, calmas, e pausada, bem próxima de mim, sentindo-o tão próximo, sentindo-me tão cuidada, sabendo que, pelo menos naquele momento, eu podia ceder enquanto ele recolhia aquele incômodo todo e me permitindo sentir tudo, expressar tudo sem medo do depois...

Aconcheguei-me mais na cama, abraçando o grosso cobertor.

Droga, uma pontinha de ansiedade e desejo moveu-se na garganta... Eu queria tanto vê-lo... Mesmo que só um pouquinho, só para trocar algumas palavras, vê-lo bagunçar os cabelos e controlar os sorrisos involuntários... E bom, por mais que seja impossível entender completamente a personalidade do Gaara, e ainda mais diante da possibilidade de não existir qualquer significado, ele não se importaria certo?

Droga, droga, droga... Eu não deveria estar pensando nisso. Levantei-me em um impulso para logo depois sentir a cabeça girar, a gripe já tinha sido curada, mas o estômago vazio e a longa noite de descanso não ajudaram a impedir a tontura. Segui-me até o banheiro para tomar uma ducha rápida já que era uma manhã parcialmente quente se tratando do Inverno, logo depois segui até a cozinha para preparar uma omelete de arroz e chá verde... Eu era péssima na cozinha, mas sentia necessidade de comer algo mais elaborado do que pão de melão.

- Sakura-chan...

Escutei ser chamada e logo depois a porta sendo arrastada. Era Tenten e não me surpreendi quando entrou, pois ela sabia desde sempre onde ficavam as chaves reservas.

- Bom dia. – eu disse tentando um sorriso. Virei até a porta ainda com a frigideira em mãos e Tenten rapidamente se aproximou com uma expressão preocupada.

- Vai se sentar, não quero que a casa pegue fogo antes de você conseguir a sua herança.

Tive vontade de rir, pois Tenten tinha um humor horrivelmente insensível, mas me limitei a esboçar um sorriso.

- Obrigada... – agradeci entregando-lhe a frigideira e segui ate a pequena mesa no centro da cozinha, sentando-me em uma cadeira. – Você chegou cedo...

- Tenho dentista daqui a pouco... – ela explicou quando agilmente virou a omelete e soltou em seguida um sorriso diante do seu grande triunfo. – Rock Lee perguntou sobre você... – continuou enquanto eu seguia em direção as xícaras no armário. – Parecia preocupado, uma semana sem aparecer na escola e ainda com esse evento todo? Até eu estranharia...

- Estive cansada de tudo, só isso... – respondi sem emoção, recolhendo algumas folhas para o chá em um pote de vidro.

- Acho que às vezes necessitamos de um descanso... De qualquer modo... – sua voz tornou-se discretamente melodiosa e logo eu soube do que se tratava. – Fiquei sabendo que o Gaara-san apareceu por aqui, deu pelo menos para matar a saudade?

Ela brincou, mas não consegui sorrir. Bom, eu tinha que resolver aquela história de qualquer modo, e alem disso, se tratava de Tenten, e suas suspeitas, insinuações e brincadeiras eram totalmente verdadeiras. E talvez por isso, apenas por isso, no meu melhor tom de voz casual eu respondi:

- Não, queria que ele viesse de novo.

Estávamos em direções oposta da cozinha, de maneira que não conseguíamos nos ver. Mas ainda, mesmo sem ter meus lhos sobre ela, eu sabia que Tenten tinha ficado perplexa por vários segundos.

- Nunca imaginei que você admitiria. – ela disse por fim e virou-se. Colocou em seguida a omelete em um prato. Eu não disse nada enquanto colocava a água para esquentar e ela seguia até a mesa sentando-se.

- Não é novidade para ninguém que... – minha voz travou por um segundo.

- Que você gosta dele? Que está apaixonada e fica toda ciumenta por qualquer garota inútil? Você estava se mordendo por dentro por causa da Matsuri do primeiro ano.

Admitir que eu gostava do Gaara, ressaltando que não estava apaixonada, por favor, não era mais constrangedor há muito tempo, mas por alguma razão, senti uma vontade insana de enfiar minha cabeça em um buraco. E talvez por isso Tenten tenha soltada uma alta gargalhada.

- Incrível! Nunca imaginei que eu veria Haruno Sakura constrangida.

- Está... Tão evidente assim?

- O que? O constrangimento ou o ciúme?

- Tudo isso.

- Não, só estava jogando verde mesmo. – disse e riu. Aquela... Preferi não comentar nada e segui até a chaleira para preparar o chá verde. – Mas ainda bem que você admitiu para você mesma, agora o Gaara só precisa demonstrar mais do que aquela preocupação toda disfarçada em sua cara de concreto. – Me virei a fitando interrogativamente e ela continuou explicando – Ele veio essa semana toda perguntando sobre você, se você tinha dado noticias.

Tentei controlar o sorriso, mas não consegui. Ele surgiu largamente em meu rosto e por alguma razão me dei conta que o que Tenten dizia era um comportamento totalmente esperado do Sabaku. Mas me senti desconfortável logo depois, após a cena na cozinha, onde chorei copiosamente e ridiculamente diante dele, eu não havia comunicado mais nada. Também já tinha decidido passar o restante da semana em casa com atestado em mãos e nem os dois sms que ele me enviou foram respondidos.

Suspirei alto. Sentia-me uma medrosa, covarde e incompetente. Alem de toda aquela história... De Iruka... De Naruto... Não conseguia nem ao menos ser sincera com Gaara e me mover daquela situação desconfortável.

- O que foi Sakura? – perguntou mais não respondi. – Heim, me fala, eu posso ajudar...

Quis comentar sobre Nuvem Vermelha, sobre Iruka, sobre os assassinatos, Asuma e a polícia, mas conhecia Tenten e ela se envolveria nisso tanto ou mais do que nós dois. Ela se levantou e se aproximou de mim, apoiou-se na bancada ao meu lado com os braços cruzados e me olhando interrogativamente.

Não podia mentir. Não nesse meu atual estado, diante dessa instabilidade toda... Ela não acreditaria, ou talvez eu simplesmente quisesse lhe contar. A fitei por um momento, mas logo voltei minha atenção para frente. Não podia dizer.

- Sakura... O que está acontecendo? Vi os cigarros na varanda, você tem fumado compulsivamente pelo jeito. Não tinha parado?

Na realidade, desde que essa maldita gripe passou, as butucas de cigarro não pararam de surgi diante da minha janela, e quase quebrei uma das minhas recentes regras de não fumar perto de Kitagawa.

-Parei... Fora de casa, mas não consigo... Ou não quero.

Ela suspirou. Tenten nunca gosto dos meus cigarros, mas nunca criticou ou exigiu nada de mim. Às vezes até me sentia constrangida em fumar diante dela.

- Tudo bem, mas o que está rolando?

- Não posso falar tudo.

Qualquer pessoa íntima e amiga de você se sentiria ofendida pela sua suposta ausência de confiança. Não querer contar um segredo significava isso, mas Tenten era sempre diferente, madura, simples e carinhosa demais para ter esse tipo de comportamento.

- Tudo bem, me conte o que você puder me contar.

- Vamos supor que eu tenha que descobrir algo extremamente complicado, que exige muito de mim, tanto fisicamente como psicologicamente. – comecei, ela concordou com a cabeça com os olhos perdidos indicando estar concentrada em minhas palavras – e você percebeu que por causa de razões emotivas, problemas pessoais e estresse, acabou se atrapalhando com sua descoberta, confundiu sua cabeça e acabou... – A palavra matar passou por minha mente e com ela veio a sensação desagradável no alto do pulmão. – Prejudicando uma pessoa... E você se sentiu terrível, sozinha e sem saída... Querendo só dormir e esquecer tudo isso... Até que alguém te ajuda e você chorar que nem um bebê na frente dela...

- Você chorou na frente do Gaara? – ela perguntou com sua voz mais casual, como se não fosse absolutamente nada alem de uma pergunta sobre minha cor preferida.

- Tenten!

- Desculpa, desculpa, continue.

- Não tem continuação. – respondi mal humorada me concentrando no chá verde e o levando até a mesa. Tenten suspirou e logo depois se sentou a minha frente.

- Gaara-san se preocupa com você.

Evitei demonstrar qualquer emoção ou pensamento sobre sua afirmativa, então em resposta apenas levei um pedaço de omelete até a boca.

- Quanto aos seus problemas, acredito que você tenha primeiramente que resolvê-los para depois da continuidade a sua descoberta. – ela deu uma pausa e me olhou interrogativamente – Mas qual é o seu problema em se envolver com Gaara?

Perguntou mais uma vez casualmente, como se simplesmente não houvesse problema nenhum ali em estar gostando do sociopata funcional de Kitagawa. Quase me irritei com isso.

- Além da cara de concreto dele que não demonstra nada? – perguntei sarcasticamente e ela sorriu – Não sei lidar com ele, não sei o que ele sente e ele é cheio de comportamentos estranhos. – desabafei – Tem horas que é gentil, carinhoso, cuidadoso... Mas nunca demonstra nada como se fosse assim com qualquer uma, aposto que é assim até com a Yamanaka...

- Ciúmes, ciúmes... – Tenten disse melodiosamente e a fuzilei com o olhar a calando. Ela ajeitou-se na cadeira fingindo estar séria. – Bom... Então se seu problema realmente é o Gaara, e olha que eu só estava jogando verde – girei os olhos. – Continue do jeito que está, eu ainda acho que ele gosta de você, mas sendo você do jeito que é sempre terá essa dúvida... Então o trate com naturalidade.

- Naturalidade?

- Sim, naturalidade e pare de arranjar desculpa para não vê-lo, ou conter sorrisos ou essas coisas que você faz na frente dele. E leve a vida.

Não consegui disfarçar minha surpresa. Tenten me conhecia bem demais e me sentir até ridiculamente previsível.

- Está... Assim, tão na cara?

Ela riu com minha aflição e tive vontade de matá-la.

- Não muito a não ser quando você fica mal-humorada de uma hora para outra ou com sorrisinhos estranhos por ai.

- Eu não sorrio estranho por ai por causa do Gaara. – indignei-me. Isso era impossível, já não era uma pré-adolescente tendo sua primeira paixãozinha...

- Ok, ok... – e ela riu novamente. Percebi que aquela situação realmente a divertia e, talvez por isso, eu não disse mais nada.

Tenten ainda comentava algo sobre Rock Lee, algo como ele ter notado antes dela mesma e que nunca tinha acreditado naquela ideia de que o sociopata funcional – ou Gaara-san como ela o chama – estava interessado na Yamanaka. Depois da cena de alguns dias, eu tinha decidido esquecer essa minha insistente antipatia pela Ino, sentir ciúmes e insegurança era natural... Apesar de realmente patético. Então não poderia desorientar meus pensamentos por causa disso. E como Tenten mesma havia proposto eu tinha que resolver os meus problemas emocionais, preocupações e derivados... E isso também incluía Naruto.

- E como está o Naruto? – perguntei repentinamente e da mesma maneira súbita a expressão de Tenten me indicou que não eram boas notícias.

- Está arrasado. Ele não veio a princípio durante os primeiros dias, mas apareceu ontem...

- Deve está se recuperando...

- Melhor se estivesse, estava realmente irritado... Brigou com Sai, e sem motivo nenhum, e pelo que fiquei sabendo ele terminou com a Hinata-chan.

Aquilo me surpreendeu.

- Terminaram? – perguntei ansiosa.

- Bom, não era oficial o relacionamento deles... Mas Neji comentou comigo que Hinata estava terrivelmente triste. – deu uma pausa mordendo os lábios inferiores. – Não está fácil para ninguém...

Percebi que não estava mais com fome e que o chá tinha perdido o gosto em minha boca. Senti-me ainda pior por não ter acompanhado Naruto diante da morte de Iruka - mesmo que fossemos amigos somente recentemente - ainda pressentia que poderia ter feito qualquer coisa... Abandonei o hachi sobre a mesa.

Eu tinha que fazer algo em relação a tudo aquilo. Em relação ao Gaara, ao Naruto, ao caso Nuvem Vermelha, do contrário as butucas de cigarros não parariam de surgir em minha varanda.


N/A: Sinceramente, eu não acredito muito nesse papo de que mulher precisa ser cuidada. Mas ser cuidada é bom, especialmente quando se está tão cansada, sobretudo emotivamente. E apesar do Gaara agir impulsivamente, apenas baseado nas próprias vontades, não me lembro de momento algum em que ele não tenha pensado na Haruno e não tenha cuidado dela... E ele gosta disso. Enfim, ele é lindinho demais haha'

E acho que por isso também, a Sakura que sempre teve que fazer tudo sozinha, seja pela ausência dos pais, seja pelo orgulho e a personalidade independente, ela sempre guarda tudo para ela mesma, suas emoções, suas necessidades e segue a filosofia básica de que se ela quer algo ela quem tem que procurar fazê-lo. Mas nem sempre aguentamos tudo numa boa e por isso, um apoio, um cuidado, uma pessoa para liberar isso, pode ser muito bom... E quem melhor do que isso do que nosso Gaara bonitão que até cappuccino, abraço e remédio para cólica dá? Haha'

Marcela: Eu acho extremamente difícil imaginá-lo sorrindo, talvez com uma expressão gentil e amável seja mais provável... Mas é que ele, com aquele jeito tão inexpressivo, vezes ou outra franzindo o cenho, é tão mais característico... E, no entanto como é a Sakura que sempre está narrando os pequenos sorrisos do Gaara tudo fica sempre mais bonito. No inicio ela só o achava um branquelo com cara de doente e agora até os cabelos bagunçados são atraentes haha'

D. F. Braine: O incômodo para Gaara foi surgindo pouco a pouco, seja ele notando o quão sociável a Haruno é com Rock Lee, seja analisando os sorrisos dela vendo-os se são verdadeiros ou não, seja com Sai, naquela coisa de estão ou não estão saindo... A princípio era só aquela dúvida diante do que afinal estava acontecendo, até que a ausência da Haruno por causa de outro cara se tornou uma situação irritante... Afinal ela estava sempre por perto, ai chega outro, e simplesmente a tira por perto? Não pode, poxa. Sobre Ino e Sai, ainda tem muito pano pela frente haha'

DebbyDarkus: Seja bem vinda ao fanfiction , eu acho a variedade daqui bem melhor alem de ser bem mais especifico, espero que goste daqui =) e nossa você realmente lê rápido haha' Obrigada pelos elogios e até mais.

Guest: Ah eu realmente não sei o que fazer com esse primeiro capítulo, não é atoa que na maioria dos romances policiais sempre há um prólogo ou algo próximo para prender o leitor em alguma ponta do enredo... Mas A Ultima Rosa sempre sobreviveu naquela proposta básica, "dois adolescente entediados fumantes tentando resolver um assassinato" e a ideia inicial era essa... Então meio que ficou esse primeiro capítulo meio lento. Mas de qualquer forma que bom que o segundo capítulo, que já foi bem mais agitado, tenha te deixado interessado. A partir daí tudo vai acontecendo, e só desacelera mesmo lá pelo capítulo 15. Eu imagino que você deve ser o amigo da Camila que está ajudando com o enredo de uma fic dela... Ou me confundi? No início foi mais complicado, mas aos pouco fui adquirindo leitoras realmente amáveis, entre elas a própria Camila =) mas muito obrigada pelo incentivo, é sempre bom escutar uma opinião masculina sobre uma história para o público, em base, feminino. Espero que continue a leitura, com calma e sem pressão haha'

Beijos de Graviola

Oul K.Z