14. Coincidência?
- Estou cansado disso, toda vez é a mesma história para convencê-los a me acompanhar ao bordel... – Duo falava fingindo desânimo, enquanto seguia em direção ao local desejado sobre um dos cavalos do reino. – Depois que entram ficam todos animados e se divertem...
O rapaz de longa trança olhou para o lado e viu o olhar de tédio estampado no rosto de seus quatro amigos. Os cinco estavam vestidos como pessoas normais, sem jóias e sem riquezas. Levavam apenas um saco de dinheiro com moedas de prata e uma espada comum. Iam a cavalo, mas eram cavalos alugados, para não levantarem nenhuma suspeita.
Duo estava, como sempre, muito animado com a diversão. Desde que chegaram a Sank, não saíram e ele já estava incomodado com isso e sabia que seus amigos também, apesar de nenhum assumir. Apesar de tudo, precisou insistir muito para Heero acompanhá-los, alegando que ele precisava de um pouco de distração, já que ficava dia e noite resolvendo assuntos do reino.
O bordel era um pouco afastado do povoado, para garantir a tranquilidade de seus clientes. Ao chegarem, foram guardar seus cavalos pessoalmente, afinal, por estarem disfarçados como pessoas ordinárias, não receberiam regalias e muito menos atendimento diferenciado. O encarregado do estábulo estranhou o fato deles estarem a cavalo, pois todos os homens de baixa renda que frequentavam o estabelecimento iam para lá a pé.
- A quem pertencem os animais? –Questionou curioso, quando os cinco passaram por ele.
Duo então parou e olhou para trás, onde havia deixado os cavalos, e deu uma boa olhada no ambiente, enquanto via um grupo de bêbados que tinham saído do bordel, tentando subir em seus respectivos cavalos. Depois pensou e virou para o senhor que fez a pergunta e com a face séria, respondeu tranquilamente:
- Ora... Com certeza às suas esposas e mães... A quem mais esses animais pertenceriam?
E dando de ombros continuou seu caminho a porta de entrada. Seus amigos que o acompanharam tiveram que segurar a vontade de rir. Heero e Wufei foram os que melhor conseguiram disfarçar, apesar de também terem achado graça no comentário. Quatre ficou com dó do senhor que recebeu aquela grosseria como resposta, mas não pôde deixar de assumir que o humor foi ótimo, e Trowa apenas riu. Ao entrarem no estabelecimento, foram recebidos por uma sedutora mulher:
Uma mulher mais velha, mas que ainda se permitia possuir o glamour feminino. Tinha trejeitos de cigana, os olhos grandes e expressivos que sempre pareciam ocultar algo. Aquela era uma qualidade que seus duros anos de vida lhe ensinaram e que utilizava com maestria. A magreza exacerbada tirava-lhe um pouco da sensualidade de mulher, que os longos cabelos negros e cacheados consertavam com charme e personalidade, transformando-a em uma figura única. Os olhos cristalinos eram duros e sedutores, assim como a boca, cheia, pintada de carmim. Se sua presença não a delatasse, seria facilmente confundida com uma das garotas, só o luxo de suas roupas já revelava sua condição superior as demais. Usava um vestido em tons de roxo e prata, com um decote quadrado e grande, que servia apenas para ressaltar as saboneteiras e os ossos entre os seios pequenos. Mexia-se com malícia, tirando todo o ar jovial que parecia querer circundá-la. Apesar da altura e da aparência delicada, quase frágil, não tinha problemas em destacar-se. Ela era a imagem perfeita para o lugar, completando-o com objetividade.
- Boa Noite, senhores... Me chamo Cassandra e sou a dona do estabelecimento. Sejam bem-vindos – Disse sorrindo.
A mulher normalmente não tratava tão bem os homens comuns, mas a beleza dos cinco era algo que não poderia ser ignorada por ninguém, já que os que ali frequentavam normalmente eram homens feios e velhos, com exceção do príncipe, que era o homem mais lindo que havia entrado ali, até essa noite.
- Muito boa, minha senhora. – O rapaz de longa trança agradava com seu sorriso maroto.
- Acompanhem-me, vou dar-lhes uma mesa. – A seguiram ao passo que analisavam o ambiente. – É a primeira vez que os vejo por aqui... – Afirmou, esperando que eles continuassem.
- Sim. – Mas Duo respondeu como se fosse uma pergunta e não se prontificou em dar nenhuma explicação. Todos se acomodaram a mesa que lhes foi indicada.
- Bem... – A mulher ficou sem graça e decidiu deixar as perguntas para mais tarde. – O que desejam beber?
- Traga o melhor rum da... Ai... – O de trança soltou um som de dor e logo se calou. Wufei chutou o amigo, por baixo da mesa para lembrá-lo de que não estavam com status de nobres, por tanto, nada de esbanjar dinheiro. – Digo... Traga-nos uma garrafa de rum... Por favor... – A dor era tamanha, que sua voz saiu baixa e entrecortada. A mulher estranhou, mas foi buscar o pedido.
- Por que fez isso? – Duo esfregava a perna ao mesmo tempo em que lançou um olhar de desgosto ao amigo.
- Você fala demais!
O de rabo de cavalo constatou, regozijando-se com a cara de dor feita pelo de trança. Quatre levou a mão até o rosto desacreditado, Trowa mantinha um pequeno sorriso, divertindo-se com a discussão e Heero, os ignorava completamente, ao passo que inspecionava o local e observava todos que ali freqüentavam. A mulher não demorou em voltar e trouxe com ela algumas garotas, Oferecendo-as para eles.
Duo mostrou-se o mais animado com a chegada delas, abriu um largo sorriso de boas-vindas, enquanto que Heero as encarou com indiferença, Wufei as ignorou como se não estivessem presente, pensativo, alienado a tudo. Trowa as analisava e Quatre questionava-se sobre quais os motivos que forçariam as mulheres a se venderem.
Todas tinham a pele queimada do sol, mostrando sua verdadeira classe social, devido aos trabalhos que faziam durante o dia para cuidarem de todos os afazeres da casa que moravam.
A primeira, chamava-se July e, apesar de ser a mais velha do grupo, não o transparecia. Talvez pela experiência acumulada, parecia provocar-lhes com o olhar, que incitava sem vergonha, o corpo magro e pequeno, deixando-a frágil e sensual, em doses iguais. Não tinha vergonha de exibir os dotes de seu corpo, em um vestido com um vantajoso decote das cores marrom e branca, que ela sabia usar para o melhor, com a mão na cintura, aumentando o tamanho do corte.
Os lábios, como os das demais, era vermelho, mas ela o mordia enquanto os encarava, encarando-os certeiramente. Era uma moça sensual, com os cabelos em tons de mel caindo com movimento pelo rosto, os olhos em tons combinantes. E embora tivesse a idade contra si, conservava todos os charmes da juventude, que parecia querer utilizar mesmo ali, enquanto era apresentada. Parecia ser orgulhosa e não se contentaria enquanto não tivesse o melhor.
A segunda, uma moça chamada Lucy, era exótica, de traços levemente mais orientais, com os olhos um pouco puxados, os olhava de baixo, com o rosto abaixado. Tinha os cabelos negros e lisos, curtos, indo só até o queixo, mas, ao contrário do que se esperava, aquilo só a deixava mais erótica e sugestiva. Seu olhar de um verde esmeralda escuro, parecia clamar por contato corporal, imoral. Usava um vestido laranja, com pequenos detalhes dourados, aberto na lateral, com uma fenda por demasiado generosa, deixando sua perna direita à mostra, revelando o quão magra era, mais também, o quão bem modelado era seu corpo.
A terceira, uma moça discreta, chamada Alice, era mais contida em seus objetivos. Tinha o cabelo preso em um coque alto e usava um sorriso simpático e dentes bonitos e limpos. Seu olhar lançado de lado mostrava apenas um pouco do seu potencial corrompido, assim como o gingado de seu andar, demasiadamente voltado para a arte de sedução, mexendo os quadris lentamente de um lado para o outro. Olhava para os rapazes com um moderado desinteresse, mas educada, os cabelos castanhos, escapando levemente do penteado mostrando sua juventude, os olhos negros brilhando.
A quarta, Amy, tinha os cabelos vermelhos, em um tom mais vinho, presos de lado. Era pequena, quase menina, embora a distribuição de suas medidas revelasse uma mulher completa. O rosto ainda conservava as pequenas gordurinhas da juventude, assim como o sorriso meigo, mas os olhos eram penetrantes e sérios, eram diretos com sua realidade. E apesar de ser a mais tranquila das moças, sua falta de iniciativa não deixava de mostrar o quão insinuante era ou poderia ser. Seu vestido era vermelho, combinando com seu cabelo, tendo o corte mais original, sendo curto, a saia deixando a mostra suas pernas. No meio do decote princesa, tinha um laço pequeno, fazendo as atenções se voltarem para os seios fartos. Era a mais nova delas e gostava de aparentar uma menina, apesar do olhar claramente libertinoso.
Por último e completando o quinteto, Lorena. Talvez o charme de Lorena viesse exatamente da sua falta de malícia, do seu jeito conservado e pudico de menina, contrastando com o vestido provocativo e vinho, aberto nos seios fartos, com amarras na frente. O sorriso discreto em sua figura pequena só contribuíam para a imagem de discrição sobre si. O eterno ar de novata parecia conceder-lhe muitos clientes, seus olhos de gazela, esverdeados, com seus cabelos castanhos, escorridos, lisos, por todas as costas faziam-na especialmente bonita, ainda que jovem, o corpo bem moldado, com as curvas nos lugares certos sendo observado por todos que passavam por si.
Ela parecia ter os olhos cravados nos visitantes, com um interesse claro, quase imoral.
- Espero que se divirtam... – Cassandra se distanciou, deixando que escolhessem seus pares.
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Lúcius saiu de seu quarto, portando uma capa azul marinho com o brasão de Sank prendendo-a ao centro do peito. Estava bem vestido, sua roupa em tons de azul escuro e branco, completando o conjunto com suas jóias reais. Embainhada na cintura uma espada decorada com pedras preciosas, que ele sempre portava ao sair. Seu perfume era forte e sua altivez destacada. Relena que o viu sair, quando estava passando pelo corredor o analisou intrigada.
- Vai a algum lugar? – A voz doce surpreendeu o príncipe que não havia notado sua presença.
- Boa noite milady... – Sorriu galanteador.
- Boa noite... Vai sair?
- Sim... Como estou?
- Está ótimo... Mas, creio que já é muito tarde... Posso saber aonde irá?
- Irei... – Parou para pensar em uma resposta adequada.
- Irá ao bordel... Novamente... Certo? – Ele sorriu de canto.
- Alguma objeção?
- Pensei que tivesse mudado... – Falou desapontada. Ele se aproximou e tocou o rosto dela.
- Se não tenho minha esposa, esquentando minha cama... Preciso de alguém que supra minhas necessidades de homem... – Sussurrou e em seguida abaixou e depositou um selinho nos lábios dela. – Boa noite, querida. – Virou-se para depois partir, deixando a jovem princesa com o coração dolorido.
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Um homem de meia idade, o qual fazia tempo que tinha deixado o reino de Sank, volta ao local onde há alguns dias pensou que poderia abandonar para sempre, mas seu passado voltou, obrigando-o a retornar. A luz da lua refletia pouco de sua imagem pelo caminho. Ele pára em frente uma cabana e respira fundo antes de continuar. Era um local afastado e em meio a um grande gramado rodeado de árvores, deu uma boa olhada ao redor e empunhou uma besta antes de entrar. Abriu a porta, receoso, e encontrou a lareira acesa e uma poltrona de frente ao fogo, de costas para a porta. De repente uma mão portando um anel, símbolo da nobreza aparece no braço da cadeira e uma voz pode ser ouvida.
- Por que demorou?
- Nunca se sabe quando seremos pegos... – Sua frase fez o homem rir.
- Pensou que eu havia preparado uma emboscada?
- Porque me chamou? – O homem de olhos cinza e cabelos negros como a noite questionou curioso.
- Porque saiu correndo de Sank? – O homem não se virava e não mostrava o rosto, apenas sua voz pairava no ar.
- Sank... – Sorriu. – Digamos que não podem me achar...
- Ouvi dizer que um padre casou o príncipe... Sabe de algo?
- Sempre muito bem informado... – Provocou.
- Não se preocupe Davhand, não te chamei para anular nada... Sua missão será outra... Aguarde minhas coordenadas... E não fuja.
O homem que antes estava acomodado se levantou, seu rosto coberto pelo capuz de sua capa escura, a pouca luz não permitiu que se identificassem as cores de sua vestimenta, Ele sem mais nada a acrescentar saiu. Passando pelo recém chegado com a cabeça abaixada, o homem virou-se pra vê-lo partir e viu sair do meio da floresta uma dúzia de soldados bem armados que levou até o nobre um cavalo, ele montou e deu uma última olhada para o assassino. Depois virou para o lado contrario e seguiram seu caminho.
Davhand olhou ao redor. A cabana possuía todo o necessário para uma pessoa sozinha morar, Uma cama, um poço de água perto da cabana, lareira, cobertas para o frio, e até mesmo um local para cozinhar com uma sopa quente e pão para ele comer. Resolveu organizar suas coisas antes de comer, guardou tudo o que tinha em um baú nos pés da cama e foi descansar.
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No bordel as pessoas riam e se divertiam em suas mesas. E uma em especial formou o quadro da seguinte forma: Duo beijava e se agarrava com Alice em puro desejo, Quatre trocava olhares, conversava e recebia beijos no pescoço de Lorena, que apesar de sua timidez, queria muito estar com o loiro, Wufei tentava focar no ambiente sem muito sucesso, acompanhado de Lucy que estava sentada ao seu lado e passava o tempo todo tentando se aproximar mais entre um copo de rum e outro, que a moça servia ao tão misterioso e calado rapaz, tentando seduzi-lo deixando sua perna à mostra sobre ele. O que o fazia ignorar mais ainda sua realidade era não conseguir esquecer a moça que havia beijado há algumas horas antes.
Amy sentou no colo de Trowa de frente para ele e o encarava desejosa, querendo e esperando por uma atitude mais agressiva dele, que apesar da moça ser muito atraente e seu corpo desejar mais, gostava de ver o olhar dela implorando. E por último, Heero tinha July agarrada ao seu pescoço deixando bem visível seus dotes, quanto mais ela debruçava sobre ele, mais seu decote abria e mais ele tinha uma visão vantajosa daquela mulher. Seu corpo desejava possuí-la, mas sua mente e coração impediam que ele prosseguisse. Seus anseios estavam voltados à outra pessoa, que não lhe abandonava os pensamentos.
- O que acha de deixarmos de conversa e subirmos para algo mais forte? – Duo perguntou após se afastar do beijo da moça.
- Tudo o que você não fez, meu caro amigo... É conversar... – Quatre comentou de forma divertida.
- Ora... Apenas uma forma de falar... – Retrucou. – E você não vai subir... – O loiro perdeu um pouco do sorriso e deu uma olhada rápida em direção a moça que o encarava esperançosa. – Creio que...
Estava prestes a responder, quando um inesperado burburinho chamou a atenção de todos da mesa, fazendo com que todos se virassem para ver o que estava acontecendo. As moças fizeram cara de inveja, enquanto os rapazes se surpreenderam. Em especial, Heero que ficou boquiaberto.
Ela descia delicadamente as escadas que ficavam exatamente no meio do salão, sua pele era de um tom mais claro das demais, seu vestido era azul claro, de pano leve e esvoaçante, em seus pés uma sandália baixa, seus longos cabelos que dividiam as costas ao meio, ondulados, eram de um loiro tão claro quanto o dia, seus olhos azuis como o mar ficaram ainda mais marcantes por conta do delineado preto, suas feições delicadas escondiam-se atrás de seus lábios vermelhos como o sangue. Seu andar era sedutor e a inocência não existia. Mostrava uma experiência e uma elegância tão grande quanto à indiferença que lançava aos que ali estavam. Porém, ao mesmo tempo em que se parecia fisicamente à jovem que povoava os pensamentos do Rei, sua presença de espírito gritava sua diferença.
- Relena... – Não conseguiu segurar o nome em seus pensamentos. July ouviu e respondeu.
- Não... Não é Relena... Seu nome é Elena. – Heero olhou para ela com frieza no olhar apesar de seu espanto. Até o nome era parecido.
- Quem é ela?
- Ela é a numero um da casa. A mais cobiçada dos homens e a mais cara deles... – Amy começou a responder.
- Mas, no momento ela é o brinquedinho fixo de um único homem. – Alice completou.
- Se ela desceu é porque ele deve vir essa noite. – Lucy intercalava seu olhar entre as colegas, a moça em pauta e seu parceiro, que também ficou intrigado com os acontecimentos.
- E quem é o homem que teria tantas condições financeiras para mantê-la como exclusividade? – Trowa formulou em palavras a pergunta que não calava na mente dos amigos.
- Obviamente... O príncipe! – E Lorena finalizou a explicação das amigas, ganhando o olhar dos rapazes por conta de suas últimas palavras.
Ficaram todos pensativos, em silêncio absoluto na mesa, assimilando as novidades, enquanto recebiam o olhar estranhado das jovens para eles. Heero esfriou mais ainda seu semblante ao ponto de assustar um pouco July. Duo resolveu falar.
- Desde quando o príncipe freqüenta o bordel... Pensei que ele fosse casado...
- Dizem... – Amy deu sinal para que todos se aproximassem dela, e continuou em tom de fofoca. – Que a esposa dele é feia... E por isso ele não gosta de dormir com ela...
Duo arregalou os olhos para moça e começou a gargalhar, Trowa segurou o riso, Quatre meneou a cabeça, incrédulo. Wufei passou a mão no rosto inconformado com o que ouvia e Heero manteve os olhos fixos em um ponto, tentando assimilar todos os absurdos que ouvia.
- Porque está rindo? – Alice perguntou e Duo tentou se controlar ao passo que pensava em uma resposta.
- É... É que... Deve ser terrível, ser príncipe, jovem e ainda casar com uma mulher feia... – Sua ironia era camuflada pela risada que ele não conseguia segurar. As moças mesmo sem entenderem nada, resolveram não perguntar.
- Mas... Sabe o que notei? – A morena de cabelo liso começou. – Nós não sabemos seus nomes... E nem o que fazem... – Questionou intrigada, mas sorrindo. Duo parou bruscamente de rir e trocou um olhar com os amigos.
- Bem... – Respirou fundo, tomando tempo para pensar. – Somos ferreiros. – Sorriu.
- Que legal... Adoro homens fortes... – Disse a ruiva.
- E como se chamam? – Perguntou a moça de cabelo em tom de mel.
- Me chamo Ben... – Falou o de trança. – Estes são: Rick... – Aponto para Trowa. – Richard... – Apontou para o loiro. – Lee... – Apontou o de rabo de cavalo. – E Edgar... – Finalizou apontando para Heero, que lançou a ele um olhar mortal e silencioso.
- Bem... O que acha de subirmos Alice? – O de trança perguntou travesso.
- Como queira meu senhor... – Esboçou um sorriso safado.
Duo começou a levantar de sua cadeira, sendo imitado pela mulher, quando um grito foi ouvido. – O Príncipe chegou! – Rapidamente, voltou a sentar e todos os rapazes procuraram meios de se esconderem, sem muitas opções cada um puxou suas acompanhantes e as beijaram para poderem se camuflar. Enquanto elas aproveitavam o momento, eles olhavam de canto a entrada do príncipe.
Lúcius entrou com altivez, sendo acompanhado por alguns soldados, em especial seus dois fiéis comparsas. Heero prestou bastante atenção naqueles rostos. Logo pediu que fosse servida uma rodada gratuita a todos do local, depois pediu o melhor vinho da casa e logo, puxou Elena para perto, selando-a com um beijo cheio de desejo.
- Está feliz hoje meu senhor... – Cassandra deu as boas vindas a ele com uma reverencia.
- Sim... Meus planos estão caminhando perfeitamente! – Respondeu ao termino do beijo.
- Seus planos? – Elena ficou curiosa.
- Nada com que deva se preocupar... Vamos... Hoje estou com muitos desejos. – Deu uma olhada bem lenta e penetrante no corpo da moça.
- Como queira, milorde...
Ambos subiram e ele levava em sua mão a garrafa de vinho. Assim que todos saíram do raio de visão dos rapazes eles se desvencilharam das moças, que ficaram desapontadas com a separação. Todos se entreolharam e por fim, pararam seus olhares em Heero, a espera de uma decisão dele. O rei ficou pensativo e as mulheres não entendiam o motivo do silêncio.
- Agradeço sua companhia... Mas, por hoje... Devo ir embora. – Ele tentava ser o mais cordial possível, enquanto seu timbre era frio. July ouviu as palavras de se parceiro com estranheza, mas algo no olhar dele, não a deixou reagir e se opor a decisão. – Isso é para você. – Ele entregou três moedas de prata na mão dela e jogou uma na mesa, para pagar a bebida. Depois levantou e saiu. Deu uma última olhada aos amigos. – Podem ficar... – E seguiu seu rumo.
- Bem... Onde estávamos?
Duo puxou Alice para o andar de cima com ele. Trowa, pensou que devia sair dali também e imitou o amigo, sendo acompanhado por Amy. Wufei decidiu que deveria tentar, afinal, precisava tirar de sua mente certa mulher e sem nenhuma delicadeza, pegou Lucy pelo braço e forçou a jovem a levantar e levá-lo até o quarto. Quatre continuou na mesa, assimilando os últimos acontecimentos. Lorena tentou então seduzi-lo.
- Por que não vamos também para o quarto? – sorriu manhosa. Foi aí que o loiro lembrou que não estava totalmente sozinho.
- A senhorita é muito bonita e me foi uma agradável companhia... Porém devo me retirar também... – Sorriu e a moça entristeceu o semblante.
- Por quê? Milorde... Há algo em mim que não gosta?
- Em momento algum, pense que há algo em você... Simplesmente terei de ir... Agradeço sua companhia. Boa noite... – Ele entregou nas mãos dela, também três moedas de prata e colocou mais uma na mesa, para pagar a bebida.
Lorena, não queria deixá-lo ir, mas Quatre simplesmente levantou e sem voltar a olhar para ela seguiu seu caminho em direção a porta. Deu uma boa olhada no rumo que estavam os soldados que acompanharam a chegada do príncipe, com os olhos estreitos, sem ser visto, cruzou seu caminho com Cassandra, depositou um beijo na mão da mulher e se foi. Lorena e July foram logo designadas às seus novos clientes.
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Uma bela jovem corria pelo corredor de sua mansão, atravessando o extenso jardim que tinha, sendo iluminada apenas pela luz da lua. Cobria-se com uma capa verde e segurava seu vestido para ter maior mobilidade na hora de correr. Viu que a porta estava sendo vigiada pelos guardas e decidiu que pularia o muro, deu a volta e foi até a parte do muro que tinha uma árvore encostada. Com muita dificuldade, conseguiu escalar, enroscando algumas vezes sua trouxa de roupa amarrada nas costas, mas, por fim, chegou ao topo da àrvore e hesitou ao ver a altura que era a queda do outro lado do muro.
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Duo mal havia chego ao quarto e já foi rapidamente se despindo, para então fazer o mesmo com Alice e seguir com sua tão desejada diversão. Ele ria e se divertia, levou a garrafa de rum com ele e bebia, ao passo que se preparava para o ato, depois abandonou seu "vicio" e puxou a moça para um beijo ardente, enquanto a levava para a cama.
Wufei entrou no quarto de sua acompanhante e olhou com desdém para o ambiente. Pensou seriamente em sair dali, mas precisava apagar aquela mulher de sua mente, pensou que talvez esse fosse o melhor jeito. – Tire a roupa, mulher... E mostre o que sabe fazer. – Sua frase a surpreendeu, Lucy nunca havia encontrado um homem tão bruto e ao mesmo tempo, tão sedutor como ele. Começou a se despir, insinuando-se ao homem a sua frente, mas ele a observava com os olhos apenas. Arrancou rapidamente sua roupa e deitou na cama, a espera que ela viesse cumprir com seu dever.
Trowa entrou nos aposentos da ruiva, observando Amy e seu jeito de ninfeta que o intrigou. Sentou em uma poltrona que tinha ao lado da cama e observou ela fechar a porta e preparar seu show. A ruiva ajoelhou-se diante dele e começou tirando suas botas, enquanto ele puxou o assunto.
- Porque esse perfil?
- Muitos homens mais velhos gostam de jovens meninas...
- Que idade você tem?
- Completo dezenove na semana que vem... – Subiu para desamarrar as calças dele.
- Começou com que idade? – Ela sorriu.
- Com dezesseis. – Trowa espantou-se com a resposta.
- Porque tão nova?
- Meus pais morreram quando eu era uma criança... Uma tia ficou comigo, mas ela começou a passar um aperto financeiro muito grande... – Ela falava enquanto desamarrava a camisa dele. – E como ela já possuía outros filhos e eu era o incomodo, ela resolveu que deveria arrumar uma função para mim... Um velho, nobre se interessou por mim. Disse que queria me adotar, ela aceitou e ele pagou minha tia e me levou... – O rosto da jovem se fechou e o brilho se apagou.
- E o que aconteceu?
- Ele me violentou inúmeras vezes... Até o dia que completei meus dezesseis e ganhei coragem de fugir de sua casa... Aí Cassandra me acolheu. – Ela escondeu sua tristeza, levantou e olhou para ele com um largo sorriso malicioso. – E agora? Como vai querer?
Trowa a encarou incrédulo. Em sua mente veio o rosto de Teyuki e sentiu-se inquieto. Ficou pensando que não poderia admitir que algo parecido pudesse se passar com a jovem que conhecia.
- É uma história muito triste... – Falou.
- Eu não me lamento... Então, não lamente por mim. – Ela deu de ombros.
Ele sorriu e levantou. A moça já estava só com sua roupa de baixo, caminhou até a cama, puxou o lençol dela e a envolveu, cobrindo seu corpo. A jovem o encarou, espantada. Trowa passou a mão no rosto dela e depositou um beijo na bochecha da moça. Depois pegou suas coisas, vestiu-se novamente, sob os olhos vazios dela. Colocou o dinheiro sobre a cômoda e falou baixo para ela, antes de sair.
- Gostaria de ter chego antes... Para impedir essa atrocidade.
Depois saiu. As palavras dele soaram de forma tão verdadeira e sincera. Amy nunca viu ninguém que realmente se importou com a sorte dela, passou a vida se convencendo de que era seu destino, que não deveria ter sido diferente, que ninguém se importava, mas quando ouviu que não era nada daquilo, não conseguiu mais guardar sua angústia. A moça caiu no chão aos prantos. Suas lágrimas eram uma mescla de tristeza e agradecimento.
Duo foi até o fim com Alice e foi o único que teve realmente uma noite de diversão sem compromisso, exatamente como ele queria naquele momento. Já Wufei, foi até o fim com Lucy e se arrependeu completamente. Pois seu objetivo não foi atingido e ele estava em um lugar que não queria estar. A jovem fez exatamente tudo o que ele quis. Mas, no final, só serviu pra provar-lhe que Kelly estava cravada nele de uma forma inusitada.
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Trowa cavalgava a esmo depois de ter saído do bordel. Não conseguia parar de pensar na jovem de longos cabelos negros, que salvará no dia de sua chegada ao reino, após ter ouvido a sorte de Amy, temia que a moça que conhecerá pudesse passar por algo semelhante e isso o preocupava muito. Deixou as rédeas frouxas e quem lhe guiava era seu cavalo. Quando resolveu prestar atenção no caminho, notou que estava longe do castelo. Começou a observar o local a procura de algo familiar.
Por fim, acabou reconhecendo os muros da propriedade dela, a moça que ocupava sua mente, Teyuki. Suspirou e riu. Para ele tudo aquilo chegava a ser cômico, pois, nunca pensou que se inquietaria por uma jovem que mal conhecia e muito menos que seu cavalo o levaria até a casa dela, involuntariamente.
- Será isso, um sinal para eu te proteger?
Falou baixo e voltou a rir. Passou a mão pelo cabelo bagunçando sua franja, suspirou e decidiu que deveria voltar logo ao castelo, puxou as rédeas para fazer o cavalo dar a volta, quando algo lhe chamou atenção. Parou para observar a sobra que se mexia e viu que era uma pessoa, sacou sua espada, preocupado que pudesse ser algum dos bandidos e se preparou para um possível ataque.
Mas, para sua surpresa quem apareceu de trás do muro era uma mulher cujo rosto estava coberto pelo capuz de sua capa verde, tentando se esconder mais ainda, andava com o rosto abaixado e nas costas uma trouxa que, analisando, contatou que devia conter roupas, ou seja, ou era uma ladra, ou a mulher em questão estava fugindo. Desceu de seu cavalo em silêncio, a distância da moça era razoável, e como ela estava concentrada em não ser vista, não notou que havia um cavaleiro a sua frente.
Amarrou o cavalo no galho de uma árvore que estava atrás dele e andou silenciosamente em direção a moça, que agora tentava apressar o passo o mais rápido que seu longo vestido permitia. Sem muito esforço ele a alcançou e a segurou, tampando a boca dela, ao ver que ela ia gritar com o susto.
- Calma... Não precisa se alarmar... Não vou lhe fazer mal... – A respiração dela era ofegante e seu corpo tenso. – Eu vou tirar minha mão da sua boca e, por favor... Não grite...
Ela assentiu com um gesto de cabeça e foi solta. Tentou correr dele, mas não conseguiu dar nem dois passos antes de ser pega novamente. Trowa a forçou se virar e surpreendeu-se ao ver de quem se tratava.
- Milady?
Teyuki de igual modo se espantou ao ver seu salvador de noites atrás, o mesmo homem que não abandonava sua mente e muito menos seu coração. Ele estava ali, em sua frente, resgatando-a mais uma vez durante a madrugada.
- Milorde? O... O que faz aqui?
- Eu... – Não sabia o que dizer. – Porque está saindo sozinha há essa hora? Aonde ia milady? Não sabe que o reino está perigoso?
- Perigoso? – Ela riu tristemente. – Perigoso é continuar em minha casa e ser forçada a me casar com um velho que odeio. – Sentiu as lágrimas inundarem suas vistas, mas, não deixou que nenhuma escapasse.
- Eu... Sinto muito...
- O senhor sabia?
- Estive essa tarde aqui... Eu sua casa... Não foi informada? – Perguntou estranhado.
- Não... Só soube da visita de meu futuro marido... – Falou as duas últimas palavras com desdém.
- Crê que fugindo, resolverá algo?
- Pelo menos não me casarei...
- E viverá como?
- Procurarei a Hadja e a Cléo... Elas me protegerão.
- Sim... Até que os soldados do rei invadam a casa delas e lhe tragam de volta a força.
- Elas me defenderão...
- Sim... E serão consideradas traidoras por desobedecer à ordem real e poderão ser exiladas ou condenadas a morte. – Trowa apenas falava e Teyuki se atemorizava.
- Relena... Relena não permitiria...
- Ela realmente poderia intervir, mas no final, a última palavra é a do rei. – As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto angelical da moça. – Claro que... Acredito que Heero não seria tão tirano. – Ela voltou a encará-lo. – Mas, seu noivo é um nobre e tem suas influencias... Não sei qual punição elas poderiam receber e... Você também...
- Então... O... O que faço?
- Converse com seus pais...
- Eles não me ouvem... Meu pai tem negócios com o lorde e eu... Eu serei dada como esposa em acordo de uma aliança entre eles... – Trowa a escutava atentamente. – Terei que dividir minha intimidade com aquele homem... Eu não o suporto.
- Não sei o que dizer...
- Não diga nada... Pois não há o que dizer...
- Essa é minha sorte... Não é?
A jovem levantou e começou a caminhar em direção a sua casa cabisbaixa, sentindo-se derrotada e desanimada. Trowa parou alguns segundos para assimilar tudo e sentiu um aperto forte dentro do peito. Lembrou-se instantaneamente da jovem com quem esteve no começo da madrugada e pensou que isso poderia vir a acontecer com a jovem com quem acabou de conversar. Levantou rapidamente e olhou para ela.
- Encontraremos uma solução. – Falou com certeza na voz e ela o olhou.
- Como?
- Ainda não sei... Mas, tentarei tudo o que estiver em meu alcance.
- Para esse casamento ser anulado só se eu não fosse donzela... Mas, ai seria açoitada por meu pai e por fim, jogada em um convento, pois nenhum homem iria querer me tomar como esposa.
- Sua pureza não está em jogo... Perdê-la não é uma opção.
- Mesmo assim... Preferiria o chicote e o convento em lugar de me casar com ele. – Disse em voz alta o que pensava, para ela mesma ouvir e nem sequer prestou atenção na frase anterior dele.
- Não fale um absurdo desse... – A agarrou pelo braço fazendo com que prestasse atenção nele.
- Não é absurdo... Eu... Eu não posso me casar com ele... Mesmo que eu o suportasse, eu não poderia enganar meus sentimentos... – As lágrimas voltaram a escorrer.
- Seus sentimentos? – Ficou curioso.
- Eu... Estou apaixonada... – Baixou a cabeça envergonhada e continuava sendo segurada por ele.
- Apaixonada? – Repetiu a palavra pra assimilar. Tinha algo naquele contexto que o incomodou, mas não soube distinguir o que exatamente era. Ficou pensativo.
- Sim... E eu não ouso me declarar abertamente e sinto que essa pessoa só me vê como uma criança...
- Mas... – Respirou fundo e tentando acalmar seus ânimos retrucou. – Milady... Quantos têm? – Ela riu.
- Claro... Sempre minha idade... – O encarou e puxou o braço se soltando do agarre. – Sou nova demais para me apaixonar... Mas não sou nova demais para me casar com um velho? – Surpreendeu-se. – Onde está à lógica milorde?
- Não quis ofende-la.
- Não... Não quis... Mas apenas sua presença já me ofende...
- O que quer dizer com isso?
- Que... – Começou a respirar ofegante, tentando controlar a vontade de chorar. – Me tratar como criança me incomoda... E eu vejo em seu olhar que é assim que o senhor me vê. – Começou a ficar nervosa e sentindo coração acelerar.
- E como quer que eu te veja?
- Esquece... – Virou para seguir seu caminho, ele correu e posicionou-se a frente dela impedindo-a de seguir em frente.
- Me responda... O que realmente espera de mim?
- O que eu espero?
- Sim...
- Nada... Por que sei que não pode me dar o que quero... Eu vejo isso em seus olhos. – Tentou prosseguir, mas ele novamente a impediu.
- Se sente algo... Se em algo te...
- Não continue... Por favor... Não me fez nada. – Tentou de novo ir embora e ele novamente a segurou. – Por favor, milorde... Não estou conseguindo mais controlar meus sentimentos... Deixe-me ir. – Cansado de toda aquela discussão e querendo saber à verdade, Trowa apertou mais um pouco seu agarre no braço dela, fazendo-a encará-lo.
- Não deixarei que vá... Sem me dizer a verdade.
Sem pensar em mais nada e movida por seu desejo e impulso não controlado, Teyuki se lançou sobre ele beijando-o. Trowa no primeiro momento surpreendeu-se. A moça envolveu o pescoço do cavalheiro puxando-o para baixo, tentando aprofundar mais o beijo. Ele subiu as mãos até os ombros dela com o intuito de afastá-la, mas sentiu que não devia. Sentiu-se bem e preenchido com aquele beijo de uma forma estranha, não sabia exatamente o porquê, nunca havia pensado naquela jovem como um homem, sempre a encarou com respeito e compaixão.
Teve vontade de retribuir o beijo, mas sua mente o recriminava, ao passo que seu corpo o encorajava, baixou mais o corpo para dar maior comodidade para aprofundar o beijo e sem perceber abraçou a jovem passando as mãos pela extensão das costas da moça que tremeu com o toque. Teyuki sentia-se completa, como se todos os seus medos desaparecessem de uma vez por todas e ela estivesse segura. Uma corrente elétrica percorria toda sua espinha e seu sangue fervia. Era uma sensação única e inexplicável.
Depois de algum tempo se beijando, sentiu o jovem que amava forçar uma separação entre eles, afastando-a delicadamente, a sensação de vulnerabilidade a atingiu e sentiu vontade de desaparecer para sempre. Trowa a encarou, seu coração acelerado e seu corpo quente, não o deixavam mentir pra si mesmo que não havia gostado. Mas, precisou se separar antes que fosse tarde demais e não pudesse mais se controlar. Sentindo-se rejeitada, antes de ouvir o que ele tinha a dizer, Teyuki correu de volta para casa. E Trowa a observou partir, sem reação, pois nem mesmo ele conseguia entender o que lhe acontecia.
Voltou para seu cavalo e montou nele de volta, deu a volta no muro e observou de longe a moça entrar novamente em casa. Decidiu então voltar para o castelo e colocar sua mente no lugar, acalmar seus ânimos e descansar. A madrugada já estava avançada e sabia que o dia seguinte seria bem cheio.
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Amanheceu mas o sol nem ainda tinha aparecido, estava fresco o ar, anunciando que o outono estava se aproximando, um jovem portador de uma beleza selvagem com olhos dourados, cabelo negro, liso e jogado, astuto como uma raposa estava sentado confortavelmente em uma poltrona tomando seu café da manhã. Fazendo-lhe companhia um homem nobre, em pé olhando pela janela, de costas a ele, mantinha o capuz de sua capa azul escura, sobre a cabeça e suas mãos juntas atrás das costas.
- Entendeu direito Jian?
- Com perfeição...
- Ótimo... Ninguém deve suspeitar de nada...
- Será tudo feito com total discrição... Mas...
- Mas? – O homem deu uma leve virada com a cabeça, mas a única coisa que revelou, foi parte de sua boca.
- E quanto a Mei?
- Ela está segura e bem cuidada... Não se preocupe com isso... Não tenha distrações...
- Certo... Cumprirei com minha parte do acordo... Cumpra com a sua.
O rapaz levantou e passou pelo homem que estava a sua frente, pegou sua espada e capa, para em seguida sair, montar em seu cavalo e partir. O nobre sorriu, gostava da forma de agir do rapaz e a falta de escrúpulos do jovem lhe era muito útil. Em seguida saiu também e foi embora escoltado por alguns soldados.
-/-/-
O som do clinche das espadas podia ser ouvido, ecoando pelos corredores que davam acesso a sala de treino dos soldados do reino. Era algo constante e inquietante. Duo, Trowa, Quatre, Wufei e Noin caminhavam apressados para o local, já haviam procurado Heero por todas as partes e ao ouvirem que estava tendo um campeonato de espadas não oficial na sala de treinamento, só puderam concluir que ele estaria ali.
Ao chegarem ao local, se depararam com a cena mais esperada de todas para eles, uns dez homens caídos no chão, exaustos. Outro indo para o chão e Heero em pé empunhando uma espada, ele já havia derrotado onze, e ainda procurava por mais. Os homens estavam assustados, pois nunca imaginaram que o rei era um espadachim tão surpreendente e seus amigos que viam a cena, sabiam que para ele estar tão agressivo, é porque algo muito sério o incomodava, mas também sabiam que nenhum dos soldados seria páreo para ele. Os cinco se entreolharam e chegaram à conclusão que um deles teria de entrar na luta para tentar parar Heero, que chamava mais soldados para luta.
- E então... Mais nenhum com coragem o suficiente para me enfrentar? – O rei encarava cada um dos homens que o rodeavam com um olhar frio e mortal.
- Algo te incomoda Heero? – Quatre foi o primeiro a se manifestar.
- Vocês chegaram. – Deu um sorriso de canto ao ver os amigos.
- Acordou bem animado, hein... Porque não vamos dar uma volta? Com sorte você encontra alguém onde descontar essa raiva... – Duo sorriu maroto.
- Esses bandidos não dão nem pro começo... E pelo que estou vendo aqui... Nem esses homens. – Apontou para os soldados. – Lucrezia... – A moça prestou atenção. – Está encarregada de treinar esses homens... Eles são perda de tempo... Como diria meu caro Wufei.
- São inúteis mesmo... – O moreno que acabou de ser citado, confirmou.
- Já tentou tomar um chá para se acalmar Heero? – Trowa provocou, calmamente.
- Porque não vem me proporcionar uma boa luta? – Retrucou o desafiando.
- É... Porque não...
Trowa se manifestou, saiu de perto da porta e foi tirando sua camisa, para ficar de peito nu assim como Heero, escolheu cuidadosamente sua espada, alongou os braços e sentindo-se pronto, caminhou de encontro ao amigo que o esperava pacientemente. Mas, antes que se posicionasse em frente ao rei, sentiu uma mão em seu ombro, olhou para trás e se surpreendeu como todos que ali estavam. Zechs sorriu para ele e silenciosamente pediu licença.
O capitão da guarda estava apenas de calça e bota, mostrando seu peitoral muito bem trabalhado e definido. Empunhava uma bastarda em sua mão direita, prendera seu cabelo em um rabo de cavalo baixo e frouxo. Caminhou até a frente de Heero e se posicionou. O rei apenas observou e satisfeito esboçou um sorriso de canto, animado com a mudança de adversário.
- Nunca pensei que você aceitaria lutar comigo...
- Na realidade... Sua técnica sempre me surpreendeu. Não perderia essa oportunidade por nada... – Sorriu
Sem mais nada a dizer, Trowa se distanciou e ficou perto dos amigos que se aproximaram para ver a luta mais de perto. Heero e Zechs se encararam por alguns instantes, ambos sentindo a pulsação e a tensão do outro, e o silêncio reinou no local, Depois de alguns segundos que mais pareceram eternidades, os dois se movimentam em sincronia em um ataque duplo chocando suas espadas de forma a sobressaltar todos que assistiam. Mas a equipe Gundam assistia atenta a luta que se iniciou com um olhar critico.
Ambos eram velozes e moviam-se simultaneidade, como uma dança mortal, era incrível a técnica apresentada por eles, e surpreendente o fato de Zechs e Heero se igualarem na luta. Já fazia um tempo que lutavam e nenhum havia acertado o outro e nem desistido. O fôlego de ambos era igual e o olhar guerreiro destacava-se em seus semblantes. A luta não acabava e estava deixando Noin apreensiva. Ela tinha medo por ambos, não queria ver nenhum verdadeiramente machucado. Quatre também estava inquieto com a cena, Duo assistia animado enquanto Trowa e Wufei analisavam a luta friamente.
Era surpreendente para eles, pela primeira vez encontraram alguém que era um páreo a altura de Heero que se surpreendia interiormente, mas mantinha seu foco na luta que travava. Zechs por sua vez se regozijava, pois sabia que o rei era bom, conhecia sua fama, mas não imaginava o quão poderoso o herdeiro era com uma espada. Mantendo seu foco e decidido ir até as últimas conseqüências, ambos deram seu último golpe ao mesmo tempo. As espadas se chocaram pela última vez, encerrando a luta e trazendo a surpresa ao rosto de todos que estavam no ambiente. Com a força e a velocidade ambas as espadas quebraram no último clinche, voando uma lâmina para cada lado.
Ficaram um tempo se encarando antes de se separarem. Depois olharam para suas armas e sorrindo com uma mescla se insatisfação e admiração, deixaram as empunhaduras caírem e voltaram a se olharem com mais respeito que antes. Depois de uns segundos falaram em uníssono.
- Espada de péssima qualidade...
Caminhou um de frente ao outro e apertaram as mãos em cumplicidades, os integrantes da equipe Gundam sorriram, uns de forma mais discreta e outros mais animados. Heero já mais calmo se juntou a sua equipe e Zechs que convidou a todos para darem uma volta pelo reino, dando a entender que Heero precisava sair um pouco do castelo. O grupo aceitou e antes de partirem Zechs e Noin deram ordens para os cavalheiros treinarem.
A cena toda foi assistida por Relena que presenciou tudo de cima de uma sacada onde se podia assistir os treinamentos e duelos que eram marcados dentro do castelo, onde normalmente o rei e a rainha sentam, seu rosto mostrava um alivio de que estava muito apreensiva pelo resultado. Já em outra extremidade, na porta que dava acesso a parte externa do castelo Cássius também presenciou a cena com muita atenção, mas seu rosto não demonstrava nada.
-/-/-
Amanda entrou no quarto levando uma bandeja com um café da manhã completo ao marido. Dante se encontrava em pé olhando pela janela de seu quarto. A rainha estranhou que ele nem se moveu ao ouvir a porta se abrir, fechou a porta atrás de si com o pé e colocou a bandeja na mesa ao centro. Esperou para ver se ele a olhava, mas ele não moveu nenhum músculo.
- Dante... Venha comer... – Ainda não teve resposta. – Está tudo bem?
- Tem algo errado...
Ela olhou ao redor no quarto a procura de algo que não estivesse em seu devido local, mas tudo estava impecavelmente arrumado. Pensou um pouco sobre a frase do marido, mas não encontrou uma resposta.
- O que está errado?
- Quando será a festa de boas vindas de Heero?
- Depois de amanhã...
- Mande o alfaiate real vir... – A rainha pensou um pouco sobre isso e se surpreendeu.
- Você irá comparecer?
- Sim. – Ele então saiu da janela e foi sentar para comer...
- Mas, e sua suposta doença?
- Heero não acredita nisso... E para todos os demais, é um dia importante. Vale o esforço do rei!
Amanda não disse mais nada. Assentiu e sentou ao lado do marido, sabia que seria inútil continuar perguntando, já que ele não falaria mais nada sobre o assunto.
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Uma carruagem escoltada por seis guardas parou em frente à entrada do castelo, no momento em que Heero e seus amigos estavam saindo. Eles pararam curiosos em ver quem havia chegado Trowa se surpreendeu, quando viu Teyuki descer da carruagem. Ela enrubesceu ao ver o homem que tinha beijado na noite anterior e desviou logo o olhar. Seguindo ela, desceram Hadja e Cléo que gostaram de ver seus salvadores, que não tiraram os olhos delas. As três fizeram uma reverencia ao ver o rei, que as cumprimentou de volta.
- O que aconteceu? Não as vejo há um tempo... – Zechs quebrou o silêncio.
- Sabia que tenho uma casa? – Hadja devolveu traquina. – É só me visitar quando tiver saudades... – E sorriu provocando-o.
- Eu não... Você não preparou um banquete para mim... – Zechs devolveu.
- Ah... Desculpe... Da próxima vez, mandarei preparar um jantar em sua homenagem...
- E com direito a tapete vermelho...
- Com certeza! – Ambos riram e os demais se divertiam com a discussão.
- Senhorita Teyuki... Está bem milady? – Trowa perguntou e a voz dele sobressaltou a jovem que em resposta apenas assentiu.
- Majestade... Poderia me dar licença? – Teyuki virou-se para Heero que assentiu e ela entrou no castelo, sob o olhar estranhado de todos, menos Trowa que sabia o motivo.
- E como tem estado milady? – Cléo estava tão atenta a sua amiga, Teyuki, que se surpreendeu ao encontrar Duo a seu lado.
- Bem... Muito bem milorde... Graças ao senhor. – Sorriu tímida.
- Não tem de que agradecer... Sempre que precisar de mim... É só chamar. – Ele a encarou penetrantemente e depois depositou um beijo em sua mão e saiu para perto dos demais. A ruiva apenas assentiu.
Quatre por sua vez, se aproximou de Hadja que o encarava de forma intensa. Ao chegar bem perto da moça, sorriu e recebeu outro de volta. A morena esperava ansiosa por alguma palavra dele.
- Foi muito bom reencontrá-la, milady!
O loiro também depositou um beijo na mão da moça que o agradeceu com uma pequena reverencia. Depois sem mais nada a dizerem, Heero e seus amigos se retiraram. As moças olharam mais uma vez para seus interesses e entraram no castelo, a procura das amigas.
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O jovem de beleza selvagem caminhava pelos corredores de uma grande mansão. Suas vestes eram ricas, compostas de um tecido caro, desenhadas e costuradas por um alfaiate famoso entre os nobres. Chegou a até a porta de um escritório, que era protegido por um guarda que não parou sua entrada. Ele abriu a porta sem pedir permissão e encontrou um homem de meia idade, cabelo castanho claro e corpo robusto, sentado na poltrona principal, assinando alguns documentos.
- Porque demorou tanto? – Repreendeu o rapaz.
- Perdoe-me milorde... Mas, foi difícil acompanhar todo o percurso... – O rapaz disfarçou sua raiva e sorriu falsamente.
- Não lhe dou status e dinheiro para atrasar com o combinado...
- Sei disso... Milorde Macben... Não voltará a acontecer. – Reverenciou o lorde.
- Assim espero... - Respirou fundo. – E por onde anda minha futura esposa?
- A senhorita Teyuki se encontra, nesse momento no castelo, junto a suas amigas.
- Jian... – O jovem o olhou. – Não a perca de vista. Não a quero perto de nenhum outro homem... Aquela pele suave será só minha... – Sorriu malicioso.
- Cumprirei tudo como me foi ordenado... Se me der licença...
- Vá.
O jovem de beleza selvagem saiu portando um sorriso ardiloso no rosto fechou a porta atrás de si e seguiu seu caminho, para por em pratica tudo aquilo a que foi submetido a fazer.
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Treize se encontrava organizando as últimas papeladas do reino antes de viajar. Seu pai, o Duque Kushrenada sentado ao seu lado, observava atentamente e eles trocavam idéias de como deveriam ser feitas as coisas. O duque substituiria o filho, enquanto ele estivesse fora.
- Por quanto tempo pretende ficar em Sank?
- Não sei... Mas creio que não por muito tempo... Prometi a Heero que me ocuparia de Wing e sendo assim não posso me ausentar por longo periodo.
- Certo... Os demais irão te acompanhar... – O loiro sorriu para pai.
- Sim. Gostaria que também fosse... – O duque sorriu de volta com a observação do filho.
- Também adoraria ir... Mas, irão todos, não só para prestigiar o rei, como para verem seus filhos. Alguém deve ficar e cuidar do reino...
- Sei... E agradeço imensamente...
- Diga a Heero, que assim que tiver uma oportunidade irei visitá-lo.
- Considere o recado dado...
- E Treize... – O citado olhou para o pai. – Vá preparado... Sank tem recebido muitos ataques...
- Sim... Já ouvi falar. Isso me preocupa... Verei no que posso ser útil. – O duque concordou com o filho.
- E quanto à jovem Une? – O loiro o encarou surpreso. - Vejo um interesse de ambos, mas nenhum toma a dianteira...
- Hum...
- Lembre-se... Às vezes, para se ganhar uma guerra a melhor tática é o ataque direto...
- Nunca ouvi isso numa guerra... – Constatou estranhado.
- Claro que não... Pois a guerra a qual me refiro é a guerra do amor.
Treize riu com a frase final de seu pai. Era engraçado quando o duque tentava ser poético. Terminou de preparar as papeladas e levou seu pai para informar aos criados sobre a mudança provisória de liderança. Depois foi ao seu quarto terminar de organizar suas coisas para a viagem.
...Continua...
Não poupem comentários, opniões e observações...
Se encontrarem algum erro, por favor me desculpem... Revisei correndo pra poder postar...
Enquete: Próximo casala a beijar?
E ainda estou bolando a outra... Mas, me falaem se vcs já suspeitam quem é o cara misterioso... Se tem alguma idéia do que irá ocorrer... Falem tudo! OK?
Pessoas lindas... Obrigada de coração por não me abandonarem... Estou em fase de montagem no teatro e isso tem tirado meu descanso. Tentarei não demorar mais tanto... ok?
Beijos enormes e amo vcs! De verdade!
REVIEWS! NOW! U.U
