N\A: Espero que gostem, suspense, romance e alguns assassinatos.


Capítulo 21

Relações


05 de novembro de 2007


Sakura, Portões do Colégio Kitagawa 7h50min.

Kitagawa poderia ser um colégio de prestígio, frequentado por alunos riquinhos, com professores manipuláveis e um longo histórico de aprovações nas melhores faculdades do Japão. E por fim, Kitagawa sempre foi apenas meu passaporte para uma vida mais estável. No entanto, hoje em especial ele nunca me pareceu tão desanimador. Cheguei 10 minutos antes dos portões fecharem, eventualmente alguns estudantes – provavelmente bolsistas – passavam ao meu lado correndo e, apesar disso, por mais que eu fosse representante, a possibilidade de chegar atrasada ou faltar o primeiro horário me pareceram muito atraentes.

Quase suspirei, contudo não me reconheceria caso o fizesse. Nunca fui de ficar me lamentando, principalmente depois de tomar alguma decisãoe, talvez por isso, eu ajeitei minha mochila nas costas e continuei com um esboço de sorriso. O quer que fosse esse puxar de lábios em minha boca, ele gradualmente foi sumindo enquanto me aproximava dos portões e o via na entrada... Provavelmente me esperando.

Lá estava Gaara, com os braços cruzados, rosto inexpressível e me encarando. Me senti estranha e um dos meus passos saiu do ritmo logo no momento que o localizei. Quis desviar o olhar, no entanto não o fiz... Havia decidido tratá-lo com naturalidade e era o que eu faria. Segui, com os passos mais acelerados, em sua direção e já planejando lhe dar "Bom Dia" da maneira mais normal possível, como se eu simplesmente não tivesse o ignorado esse tempo todo.

Entretanto quando estava a poucos metros de distância dele, uma garota se colocou na minha frente.

- Haruno-san?

Era uma estudante aparentemente bem mais nova, usava o uniforme do fundamental de Kitagawa, outro colégio com a mesma administração, porém há algumas quadras de distância; além disso, tinha longos cabelos escuros, olhos perolados e uma expressão séria... Comum aos Hyuuga.

- Sim, sou eu. – eu disse com uma expressão de surpresa. Ela manteve-se séria e por dois segundos permaneceu em silêncio como se vigiasse os próprios pensamentos. – Quem é...

- Hanabi Hyuuga, sou irmã da Hinata Você a conhece, certo?

Sempre achei os Hyuuga extremamente educados, mas sinceramente essa garota parecia ter herdado apenas os olhos, a seriedade e a aparência de uma boneca japonesa.

- Sim... Estudamos juntas...

- Errado, vocês são de turmas diferentes...

- Estudamos no mesmo colégio. – me apressei já impaciente, foi então que percebi meu comportamento e imediatamente coloquei um sorriso falso no rosto. – O que você quer comigo?

Ela estreitou os olhos como se desconfiada, entretanto continuou.

- Minha irmã pediu para entregar isso a você – ela me ergueu três envelopes pequenos e brancos, com uma letra caprichosa indicando o meu nome. – Ela está meio doente e por isso não frequentará o colégio por um tempo e não poderá conversar pessoalmente com vocês.

- Vocês?

- Sim, você, Kurenai e Kabuto-sensei. – dei uma olhada nos envelopes e me deparei com seus nomes em cada um. Voltei minha atenção a ela, que parecia esperar uma resposta minha.

- Só isso? – perguntei, ela ergueu uma sobrancelha ainda desconfiada e continuou em um tom cauteloso.

- Você é amiga da minha irmã?

Estranhei a pergunta, principalmente porque diante de toda aquela desconfiança eu pude identificar claramente um ponto de preocupação em sua face emburrada.

- Sim, acredito que possamos ser chamadas de amigas.

Não quis mentir, entretanto imaginei que diante da fragilidade de Hinata – ela aparentava ser uma daquelas românticas incorrigíveis que choram durante dias (como se eu pudesse dizer alguma coisa) –, dizer-lhe indiretamente que não poderíamos ser definidas assim só seria ainda mais complicado.

- Isso é bom. – ela respondeu e sua expressão suavizou-se com um suspiro. – Minha irmã precisa de amigas, sempre foi muito tímida... E de uns dias para cá ela anda tão estranha... Você sabe por quê?

Ah, então ela estava me rondando para descobrir alguma coisa e provavelmente não sabia do término do namoro dela com Naruto e talvez nem do relacionamento dos dois.

- Hanabi-san, eu já estou meio atrasada. – olhei para Gaara que apenas nos observava de braços cruzados. – E tenho que ir, mas pode ter certeza que irei entregar para a diretoria.

Ela me olhou meio intrigada e pude ver algo de decepção ali, no entanto apenas mantive um sorriso gentil e logo depois ela suspirou.

- Tudo bem, tenho que procurar outra pessoa, mas pelo jeito ela já entrou. - Disse como se resmungasse de um dia perdido onde nada estava dando certo.

Senti um pouco de pena, afinal ela tinha vindo ali apenas para entregar aquelas correspondências – que, diga-se de passagem, era um método bastante antiquado – e não conseguiu nada além de um "Tudo bem".

Por algum tempo ela ficou me encarando, talvez esperando que eu dissesse alguma coisa ou simplesmente pensando em uma maneira de conseguir sua resposta, entretanto apenas me limitei a um sorriso discreto. Segundos depois ela abriu a boca para dizer qualquer coisa, porém som nenhum saiu e repentinamente suas bochechas ficaram vermelhas. Conclui que ela ainda insistiria no assunto e para encerrá-lo – já estava atrasada – girei-me em direção a Gaara e acenei gritando:

- Só um momento! – ele pareceu surpreso, no entanto logo sua expressão relaxou. Estranhei, afinal o sociopata funcional raramente demonstrava qualquer coisa em sua cara de concreto. – Tenho que ir, mas realmente espero que você tenha mais sorte na próxima vez.

- Tudo bem... – ela murmurou, logo depois fez uma reverência e deu as costas seguindo em passos acelerados até o final da rua. Percebi que, apesar de toda a indelicadeza, seu caminhar era suave e elegante. Realmente uma Hyuuga...

- O que ela queria? – a voz de Gaara soou logo atrás de mim e em seguida percebi seus dedos em meu cotovelo para chamar minha atenção. Senti por um milésimo de segundo minha respiração esquentar, contudo me recompus e me virei em sua direção.

- Nada demais, era só a irmã da Hyuuga. O que você está fazendo aqui?

- Te esperando.– respondeu com simplicidade, como se me esperar na entrada do colégio fosse parte da sua rotina. Por alguma razão ridícula me senti repentinamente feliz. Tentei controlar um sorriso, mas cedi logo depois das palavras de Tenten passarem rapidamente por minha mente. Eu não tentaria esconder nada. Gaara, no entanto, piscou duas vezes seguida e seus olhos verdes-águas ficaram distantes e confusos. Me intriguei... Era a segunda vez que ele demonstrava algo naquela cara de concreto.

- Vamos entrando? – sugeri e ele sem me responder voltou a caminhar em direção aos portões do colégio.

Seguimos em silêncio até o segundo andar, me admirei que ele não tivesse comentado sobre mais nada, nem questionado o fato de eu não ter respondido seu SMS ou atendido seus telefonemas. Intimamente eu estava grata por isso, entretanto por outro lado era peculiar e incômodo.

- Vou indo, Gaara. Tenho que entregar algo aos professores. – disse logo depois que subimos o primeiro conjunto de escada. Não o fitava, mas o vi erguer uma de suas mãos em minha direção, para em seguida desistir do movimento e enfiá-la no bolso da calça. Estranhei e levantei meu olhar até sua face, me surpreendi ao notar seus olhos cansados e uma pontinha de irritação indicada pelas suas ralas sobrancelhas franzidas.

- Não gosto de conseguir informação de terceiro... – ele começou com sua voz neutra. – Então atenda meus telefonemas quando eu te ligo e responda meus SMS.

Se eu não estivesse tão estática, provavelmente minha boca estaria aberta e um ponto de interrogação e exclamação brilharia no alto da minha cabeça.

Eu sabia que Gaara era cuidadoso quando queria e autoritário em maus momentos, principalmente quando saia me puxando por ai... Entretanto, de qualquer modo, continuava o mesmo alienado de sempre, sem qualquer discernimento social. E talvez por isso ele não tenha se perguntado por que, afinal, eu tinha feito – ou melhor, não feito – tudo aquilo e então simplesmente exigiu.

Gaara às vezes era uma criança. Tive vontade de sorrir e não me contive.

- Não queria incomodá-lo, foi só isso. – respondi com um sorriso divertido. Gaara cruzou o braço ainda sério, como se me pedisse para continuar. – Como posso dizer... – inclinei um pouco o rosto e as palavras soaram em minha cabeça, porém ecoaram surreais demais caso fossem ouvidas e me calei.

- Diga.

Pensei em Tenten e em minha decisão. O sorriso desmanchou lentamente... Eu deveria ser sincera, certo? O que eu estava ganhando não o sendo?

- Estava constrangida depois daquela cena ridícula... Mas eu realmente queria falar com você, e vê-lo...

Ele descruzou os braços levando uma mão até o rosto e roçando os dedos nos lábios e nariz como se estivesse pensando seriamente em algo. Esforçava-me para manter minhas mãos onde estavam, para não abaixar a cabeça ou desviar o olhar, e muito menos colorir minhas maçãs.

Depois de um tempo quis dizer qualquer coisa para quebrar aquele clima que pairava sobre nós, contudo apenas puxei a respiração com a boca e no momento seguinte Gaara piscou duas vezes – novamente. O dorso de seu dedo pousou sobre seu nariz e logo depois ele bagunçou os cabelos vermelhos, parecendo distante e pensativo. Aquilo, de alguma maneira, me perturbou ainda mais do que o fato de ter admitido que eu queria vê-lo. Fiquei ansiosa e sem pensar continuei:

- Não entenda...

- Não faça de novo. – ele me interrompeu. Não me fitava e me senti ainda pior quando se tornava claramente óbvio que ele estava incomodado com algo. – Só não faça de novo. – ele repetiu. – Nos vemos na saída. – finalizou e deu as costas seguindo rapidamente em direção contrária.

O vi sumir ao entrar em outro corredor. Fiquei ainda estática pensando no que acabava de presenciar em sua rara expressão, em sua rara reação, em suas raras palavras.

Como assim? Nos vemos na saída?

Levei uma de minhas mãos até o rosto, e foi então que me lembrei dos envelopes destinados a Kurenai e Kabuto-sensei. Olhei rapidamente o relógio, já estava atrasada, entretanto era preferível entregá-los agora, antes que eles entrassem em sala de aula. Chegaria a alguma conclusão a respeito de Gaara depois.

Segui em direção até a sala dos professores que ficava no segundo andar na ala leste. Chegando lá fui cumprimentada por Kurenai às pressas, pois a mesma já seguia em direção a sua aula. Recebeu-me com um sorriso contido e educado e, não querendo atrapalhá-la, apenas lhe entreguei o envelope e respondi sua pergunta quanto ao meu estado de saúde com a mesma educação.

- Kabuto-sensei está no laboratório. – me respondeu antes de ir e logo depois eu segui em direção ao primeiro andar.

O laboratório de química ficava nos fundos do colégio, de maneira que qualquer acidente seria facilmente resolvido caso alguma coisa acontecesse Tipo incêndios, ou furtos, ou alunos sexualmente ativos em busca de uma sala desocupada. Ao contrário do aspecto clichê, era uma sala ampla, com poucos utensílios, muitas bancadas e bem iluminada. E para concluir a achava absurdamente longe dos edifícios principais, e consequentemente bastante vazia.

Em todo o caminho, por exemplo, eu não cruzei com nenhum estudante... Suponho que o horário também seja um dos motivos, afinal estariam todos em salas de aulas ou em lugares estratégicos, caso realmente não quisessem ser pego pela direção.

Logo que cruzei o segundo corredor onde seria visível a porta do laboratório, me deparei, ainda há vários metros de distância, com Kabuto-sensei acompanhando de Naruto na entrada. No primeiro impacto era apenas um estudante conversando com seu professor, mas logo depois veio a voz do Uzumaki, alta o suficiente para qualquer pessoa escutar.

- Maldito!

No segundo seguinte ele tinha o acertado com um murro. Kabuto cambaleou para o lado e levou as mãos ao rosto. Eu de imediato corri na direção deles e o barulho dos meus passos chamaram suas atenções. Naruto me fitava aflito, seus grandes olhos azuis arregalados. Kabuto estava com as sobrancelhas franzidas ainda com as mãos na bochecha esquerda.

- O que está acontecendo aqui?

Perguntei, entretanto nenhum dos dois me respondeu. Naruto apenas abaixou o rosto com o cenho fechado, as mãos apertadas ainda em punho. Logo depois ele virou-se pronto para ir embora, mas fui mais rápida e o segurei pelo braço...

- Naru...

Comecei, contudo fui interrompida ao senti-lo puxar o braço com brusquidão e correr na direção que seguia.

Que droga estava acontecendo?

Ainda estava atônica quando o seu vulto sumiu ao virar o corredor aos fundos. Soltei um suspiro e então me virei para Kabuto, que massageava a bochecha.

Nos fitamos por um rápido segundo e, finalmente, ele falou:

- Quer conversar comigo, Haruno-san?

Como sempre suas perguntas iam direto ao ponto e, como não estava muito disposta a enrolar por lá, apenas concordei com a cabeça. Ele me orientou até o laboratório e me ofereceu um lugar para sentar, entretanto balançando a cabeça neguei o seu convite.

- Só vim entregar essa carta. – disse. Ele a recolheu de minhas mãos, olhou seu nome caprichosamente desenhado e não perguntou mais nada a respeito. Logicamente eu deveria me despedir e ir embora, porém o corte em sua boca me pareceu muito mais curioso. Principalmente pelo fato de ter sido provocado por Naruto.

- Quer ajuda com isso? - perguntei. Ele me fitou por dois segundos e depois suspirou.

- Pensei que só queria me entregar a carta... – respondeu desanimado e se sentou em um banquinho.

- Sim... Mas isso pa...

- Você sabe o que fez Uzumaki reagir assim?

Como sempre bem direto. Discordei com a cabeça.

- Também não sei dizer, como professor eu tive que abordar o assunto. Sai ficou com um olho roxo, você tomou conhecimento?

Aqilo me surpreendeu, ainda não sabia dos detalhes da briga do Naruto com Sai, mas para ter chegado ao conhecimento de um superior em Kitagawa, com certeza não foi pouca coisa.

- Não, não tive notícias... – menti sem saber por quê.

- Isso me surpreende, pois pensei que fossem amigos. – ele deu uma pausa e ficamos nos fitando por um longo tempo. Notei que Kabuto tinha uns traços bonitos apesar de comuns. Olhos negros, afiados e enigmáticos. Por um segundo fiquei constrangida em encará-lo por tanto tempo.

- Aceito sua ajuda, Haruno-san. – ele disse com um largo sorriso e foi então que percebi que eu deveria ter exteriorizado meus pensamentos. Controlei o rubor de minhas bochechas e me senti estúpida de estar no estado em que me encontrava. Tentando disfarçar, recolhi a minha bolsa, deixando sobre o balcão entre nós dois e retirei de lá um band-aid. O sorriso dele não havia sumido, mas agora era apenas uma linha curvada. Fitava-me gentil e me agradecia logo depois.

- Sabe Haruno, converse com Naruto, ele parece realmente atordoado esses últimos dias. – me falou, entretanto senti que suas palavras não eram por questões de valores. – Talvez você descubra o que aconteceu para ele ficar tão agressivo.

Concordei com a cabeça, entretanto não consegui agradecer ao conselho e muito menos demonstrar qualquer gentileza falsa em minha face. Apenas fiz uma reverência e me retirei do laboratório. Quando puxei a porta de arrastar me permiti soltar um suspiro, afinal, o que tinha acontecido com Naruto para ele estar fazendo tudo aquilo?


Gaara, Terraço do colégio Kitagawa às 14h46min

Uma bituca de cigarro escapou de minhas mãos quando distraidamente meus dedos foram quase queimados. Olhei para o chão e vi que era o terceiro cigarro consecutivo. Tabaco sempre me ajudou a manter a cabeça distante, sempre me acalmou e desde os 14 anos era quase uma necessidade... Ultimamente, no entanto, eles pareciam menos eficientes, principalmente se tratando da estranha ansiedade sentida perto da Haruno. Ou qualquer coisa diretamente ou indiretamente ligada a ela.

E desde a morte do Iruka isto aparentava estar destinado a piorar cada vez mais.

Não somente pelo fato de tudo estar ainda mais complicado quando se tratava do caso Nuvem Vermelha, mas principalmente por causa da Haruno em suas crises e picos de fragilidade Não que a julgasse. Acho natural e, como Temari me disse hoje pela manhã, às vezes somos tão acostumados a fingir algo incondizente com o nosso íntimo, que em algum momento isso é sufocante e queremos liberar de alguma forma.

Sakura sempre foi muito boa em manter as aparências. E uma hora, eventualmente, ela ficaria no estado em que ficou alguns dias atrás.

O que me incomoda é a sensação de eu estar me aproveitando disso.

Não sei se essa é a palavra certa, contudo toda a vez que eu a vejo, seja mostrando qualquer pontinha de ansiedade, nervosismo ou mesmo um mero sorriso, eu quero tocá-la.

Eu não deveria estar pensando e nem sentindo nada disso. O que eu precisava fazer, não somente o que eu já imaginava, mas também o que Temari havia reforçado há alguns dias era:

"- Você pode ajudá-la... Sabe. Não precisa dizer nada, ficar por perto e dizer que está tudo bem será suficiente."

Entretanto bem sabia que não era um dever, mesmo por que não tinha qualquer obrigação. Eu queria e me sentia bem fazendo. Muito mais do que esses cigarros eram capazes de inibir.

A questão é que eu não sabia dizer se isso era exatamente correto, pois toda vez que eu me aproximava ela parecia ainda pior e agia totalmente diferente quando próxima de outras pessoas. Tal como Sai, Naruto ou até mesmo Rock Lee...

- Gaara-kun?

Lee brotou ao meu lado e deixei escapar o cigarro em minhas mãos. Nem estava me lembrando de que eu tinha acendido outro.

- Tá tudo bem? – ele me perguntou com uma de suas gigantes sobrancelhas erguidas. – Tá distraído. O que foi?

- Nada... – respondi de imediato. Em resposta ele estreitou os olhos como se estivesse pensando seriamente em qualquer coisa. Sua expressão relaxou e com total naturalidade continuou:

- Pode falar. Tem a ver com a Haruno?

Fiquei surpreso ao ver que ele tinha ido direto ao ponto. Entretanto, como sempre, não expressei nada. Ele se pôs ao meu lado e se sentou no chão de granito. O acompanhei e ficamos fitando o céu no terraço.

- Vai, me conta!

Sobressaltei com sua insistência, ele segurava o meu braço e me encarava ansioso. Eu deveria saber que ele não desistiria.

Talvez eu pudesse falar sobre isso... Como se fosse uma história de terceiros. Quem sabe ele caísse nessa ou, pelo menos, poderíamos fingir que não se tratava de mim. Mas acho improvável, Rock Lee, apesar de tudo, me conhecia o suficiente para saber que eu não sairia por ai comentando sobre problemas alheios, muito menos fumando em demasia devido a isso.

Talvez eu só precisasse falar sem especificar nada e esperar que ele ficasse satisfeito apenas com isso. Tentei começar a falar, no entanto o cigarro apenas se moveu para lá e para cá em minha boca. Ele ainda me fitava ansioso e, nervoso, baguncei os meus cabelos.

Apaguei o cigarro e finalmente comecei com meu tom de voz mais indiferente possível.

- Acho que tenho querido coisas que não posso querer. Isso é normal, certo?

- Claro. – respondeu rapidamente.

- Eu realmente quero, mas parece que isso só a incomoda...

Rock Leee abriu lentamente um sorriso que eu não soube identificar se era de compreensão ou malícia.

- E...

- Acho que eu deveria parar de querer isso e me concentrar em outras coisas... – Tipo o caso Nuvem Vermelha e resolver todo aquele problema, envolvendo principalmente ela e Iruka. Quis dizer, porém sabia que ele jamais entenderia.

- Bom, você é mesmo ingênuo. – ele suspirou e levantei uma sobrancelha. Rock Lee nunca me chamou de ingênuo. – Sabe o que eu acho? Pois então, faça o que você quer, já que não haverá problema algum e continue se concentrando nessas outras coisas... Afinal, você é desse jeito.

Eu só havia entendido de fato a segunda parte. Pois talvez fosse a parte que realmente me interessasse.

Levei outro cigarro à boca, mas desisti de acendê-lo quando me dei conta que era o sexto. Seria muito melhor eu chegar a alguma conclusão em relação a tudo aquilo, do que ficar consumindo, como antigamente, uma carteira por dia.

Se a Haruno estivesse realmente incomodada comigo, talvez ela simplesmente se afastasse, não diria por ai que queria me ver e muito menos sorriria com tanta frequência – e sem convinhas – como hoje. E suponho também que não haveria nenhum problema em sugerir certos assuntos sobre o caso Nuvem Vermelha para serem resolvidos, aposto que ela ficaria bastante empolgada e na melhor das situações até soltaria mais alguns sorrisos sem covinhas.

Talvez eu só precisasse me manter por perto, controlando esse meus impulsos de tocá-la, e saciando minha vontade de vê-la em troca de algum avanço no caso Nuvem Vermelha...

Acho que tudo isso faz sentido...

Dane-se. Estou gastando tempo demais pensando em detalhes.

(...)

Apesar de que a ideia de me aproveitar da situação não me agradar em nada...

Mas eu não estou me aproveitando de ninguém ou da situação...

(...)

Baguncei os cabelos. Estou pensando demais em detalhes inúteis. Levantei-me bruscamente enfiando minhas mãos no bolso, já deveria ser quase 15 horas.

- Vou contigo. – Rock Lee falou e se levantou também. Seguimos em direção à saída do colégio, no entanto no meio do caminho Lee acabou esbarrando com o professor de filosofia que com sua cara enrugada e mal humorada, exigiu sua presença na sala dos professores.

Segui sozinho até o primeiro andar. Passei próximo ao corredor das artes tradicionais e estranhei que a sala de Ikebana estivesse fechada. Eu deveria descobrir o motivo depois e poderia também discutir sobre isso com a Haruno ainda hoje, talvez convidá-la para um café seria uma boa opção... Ou não, já que até mesmo um cappuccino poderia lembrar Donatello e consequentemente o Iruka.

Baguncei os cabelos. Além de tudo aquilo, ainda existia essa questão a ser resolvida e eu não tinha menor noção de como começar. Procurei pelo poema no mural, pensando que talvez pudesse me dá ideias, por mais que eu já o tivesse lido tantas vezes desde a morte de Iruka devido a minha estúpida distração.

No entanto, quando me aproximei, minha surpresa foi não vê-lo mais ali. No mural só estava os avisos tradicionais e as quatro tarraxas, o que indicava que o poema tinha sido arrancado e não simplesmente retirado.

Levantei uma sobrancelha e cruzei os braços. Era um detalhe aparentemente inútil, mas desde a morte de Iruka eu havia decidido não ignorar detalhes como esse. Talvez algo como aquilo significasse uma vida... Ou no caso, mais três.

Escutei uma porta atrás de mim ser arrastada e quando me virei me deparei com um grupo de meninas saindo de uma sala. Entre elas estava Ino Yamanaka que me fitou sem qualquer expressão significativa em seu rosto. Pensei em cumprimenta-la, mas minha ideia foi interrompida quando uma das garotas direcionou suas palavras a mim.

- Está procurando pela turma de Ikebana? – ela sorria simpaticamente, percebi que tinhas os traços infantis apesar de estar no ensino médio.

- Não... Eu só esperava que a turma de Ikebana ficasse nessa sala. – comentei ainda sério. A garota piscou algumas vezes e percebi que as demais que acompanhavam a Yamanaka me observavam curiosas.

- Ah sim, nos mudamos de sala por razões técnicas, nada de mais. – respondeu sorrindo e inclinando a cabeça. Eu realmente nunca entendi muito bem as reações dessas garotas.

- Vamos indo, do contrário não conseguiremos nenhuma mesa.

A Yamanaka se pronunciou e todas concordaram. Uma delas se despediu formalmente de mim e logo depois seguiram em direção à saída. Me perguntei por que exatamente Ino não tinha me abordado ou agido como se não me conhecesse.

As acompanhei com olhar até elas virarem à esquerda e saírem do meu campo de visão. Ajeitei minha bolsa de lado verificando as horas no celular e notando que nenhuma mensagem da Haruno havia chegado... Observei que verificar minha caixa de entrada tinha se tornado um habito desde que ela decidiu passar um tempo de "férias".

Logo depois que guardei o celular em meu bolso, vi a Yamanaka retorna em direção oposta e sumir rapidamente ao seguir pela direita. Nesse rápido momento em que a vi, percebi que conversava com alguém no telefone e sua face tinha uma expressão preocupada, até assustada.

Quando me dei conta eu já estava correndo, como se já pressentisse algo de muito errado. No entanto, quando virei o corredor na direção em que ela havia sumido, Ino não se encontrava mais lá. Havia ali uma saída de emergência, e quando passei por ela verifiquei que a Yamanaka poderia ter seguido em direção à entrada principal ou em direção contrária. Andava apressado e olhava em todas as direções, contudo no lado de fora só havia diversos estudantes e nenhum entre eles parecia com quem procurava. Suspirei e baguncei os cabelos, pensei em perguntar sobre ela, mas seria muita perda de tempo. Disquei o número da Haruno.

- Gaa...

- Procure pela Ino e a siga – a interrompi – me mande uma mensagem caso você a ache.

- Como assim?

- Só faça o que estou te pedindo, Haruno.

Um longo segundo em silêncio se pendurou entre nós dois. Ela não estava entendendo?

- Tudo bem.

Ela desligou o celular logo depois. Dei mais uma olhada a minha volta e baguncei os cabelos. Talvez fosse inútil o que estava pedindo a Haruno, mas de qualquer forma, por mais estranho e ridículo que possa ser, aquele telefonema poderia significar alguma coisa. E quem sabe, fazendo aquilo, eu evitaria que minha carteira acabasse no final do dia.


N/A: E finalmente alguma coisa aconteceu! Ainda teve muitas cenas fofinhas nesse capítulo, mas o enfoque mesmo não foi, dessa vez, em Gaara e Sakura, e pelo jeito o ritmo irá continuar assim durante um tempo. A boa notícia é que mais pistas irão ser soltas e tudo será meio corrido a partir de agora. A outra super boa noticia é que eu consegui uma beta ( Sim! Uma que me aguenta pelo visto), Bianca Caroline, que até meu vício de mas e reticências ela cortou haha' Falando disso vocês perceberam que esse capítulo fluiu muito melhor?

Ah, algo importante a ser avisado, primeiro capítulo foi editado e um prólogo foi adicionado, não deixem de ler, sim? É curtinho, indolor e talvez uma ótima surpresa para todos haha'

Paulo: Adivinhe só, diante do seu comentário eu decidi fazer umas mudanças no primeiro capítulo haha' adicionei a estratégia básica dos romances policiais e talvez assim ele tenha ficado mais atraente. Ele já me incomodava, mas seu comentário foi quase um empurrão haha' quanto à premissa básica, bom, algumas alterações serão feitas no final de qualquer modo e o ponto de vista acabará não sendo apenas a deles – no caso Gaara e Sakura – então acho que ficará tudo bem. E bom, mesmo que o público seja feminino ainda são necessárias coisas mais emocionantes para não ficar só naquele mimimi, mesmo por que até uma história que só possui isso fica meio pedante para gente, principalmente em uma fic com mais 20 capítulos, imagine a cara de tédio? haha '

D. F. Braine : Diante da morte do Iruka acredito que as coisas realmente teriam que ficar mais sensíveis, afinal é a primeira vitima em que eles estavam intimamente ligados. O capítulo serviu também para da uma pausa para os demais personagens vinculados a tudo isso, principalmente a Sakura e Naruto. E ainda mais foi uma maneira de "legitimar" os sentimentos do Gaara e todas essas novas emoções que ele tem sentido – que nos rendeu uma cena bem fofa hauha'