19. Paixão

Dante estava sentado na poltrona da mesa do escritório e Heero de pé olhando pela grande janela que possuía no cômodo. Amanda estava parada ao lado direito do marido, apoiando as mãos sobre a poltrona onde ele estava sentado e tanto ela quanto o marido, tinham os olhos fixos no médico. Doutor Ron, já havia terminado de examinar Lúcius e agora estava relatando ao rei e a rainha sua opinião médica. Heero prestava atenção nas palavras, mas negava-se a olhar para o homem, até o presente momento.

_ Bom, majestade… - Dizia o doutor. - Eu examinei duas vezes o príncipe e posso garantir que ele esta em perfeita saúde.

_ Então como explica o fato dele não fazer ideia de quem é?

Dante falava entredentes, sua irritação era visível e compreensível aos olhos do médico e todos ali presentes.

_ Acalme-se querido...

Amanda pousou delicadamente sua mão sobre o ombro do marido, tentado acalma-lo, mas Dante ignorou o pedido.

_ Senhor… É comum com fatos traumáticos o paciente sofrer de perda de memória momentânea.

_ Então… Isso é passageiro?

Dante colocou as duas mãos sobre a mesa e levantou fixando seu olhar ferino sobre o homem a sua frente, que por sua vez engoliu em seco. Heero apenas deu uma leve movida de cabeça para seu lado direito, com o intuito de ver uma parte do médico à espera da resposta a pergunta do pai. Amanda levou a mão sobre o peito com a esperança de boas noticias.

_ Bem… Não posso responder isso com certeza. Mas, os casos que presenciei de situações psicologicamente traumáticas como deve ter sido o sequestro do príncipe… As vítimas, depois de um tempo recuperaram sua memória sim.

_ Existe algo que possamos fazer para acelerar o processo?

A voz da rainha foi ouvida, era uma voz preocupada e ansiosa.

_ O que eu poderia indicar, é que o façam se sentir acolhido e tentem estimular as memórias dele para que voltem.

_ Assim será doutor… Muito obrigada por seu tempo.

Disse Amanda soltando o ar que nem ao menos notou estar guardando dentro dela. Dante assentiu e Heero finalmente se virou e fitou o médico, que sentiu um arrepio ao ver a mirada fria que o príncipe herdeiro tinha. Heero não tinha nada contra o médico e nem tão pouco teve a intenção de assusta-lo, mas os acontecimentos com seu irmão o haviam devolvido sua frieza natural. O segundo rei se aproximou e estendeu um saquitel de dinheiro para o doutor e após agradecer com um movimento de cabeça assim como seu pai o havia feito segundos antes, fez sinal com a mão indicando que ele estava livre para partir. O médico fez uma reverencia para cada um e deixou o cômodo.

_ Droga!

A voz de Dante foi ouvida seguida por um forte murro na mesa.

_ Acalme-se querido… Lúcius ficará bem.

O rei nada disse, olhou para o filho que o encarava em silencio.

_ Descobriu algo?

_ Não… Infelizmente não temos nada ainda… E nossa melhor pista que seria Lúcius… Bem… Ele não está em condições.

_ Temos que ajudá-lo a recuperar a memória… Ele vai se lembrar.

_ Assim espero minha mãe.

Heero reverenciou os pais e saiu. Precisava respirar ar puro, sentia-se impotente e aquilo nunca trazia boas reações dele. Amanda encostou-se à mesa e olhou para o marido.

_ O que pretende fazer?

_ Não sei… Lúcius nunca deveria ter sido sequestrado… Isso é pressão demais para ele.

_ Não acha que o subestima demais?

_ Não acha que ele acabou de me dar à prova de que, infelizmente, estou certo?

O rei levantou e foi para onde o filho havia ficado durante a maior parte da conversa. Amanda o seguiu com os olhos e observou o marido, se tinha algo que ela sabia fazer, era decifrar as emoções que aquele homem não demonstrava. Ela sabia perfeitamente que embaixo daquele mal humor e frieza, Dante estava verdadeiramente preocupado pelo filho mais novo. Mas preferiria morrer a dizer a verdade.

_ Se eu pego quem fez isso…

Ela escutou o marido murmurar entredentes, disso ela tinha certeza, ele gostaria de matar com as próprias mãos o culpado de toda aquela situação. Riu por um segundo pensando em como Heero era idêntico ao pai, sem nem ao menos conviverem juntos. As palavras de Ron acalmaram a rainha e ela já estava se sentindo mais esperançosa naquele momento e isso ela precisava transmitir ao esposo.

_ Querido…

Ela o abraçou por trás e apoiou o rosto sobre o ombro dele.

_ O que é?

Podia haver passado anos, mas o amor que Dante sentia pela esposa, nunca mudou, nem sequer um dia. Ou melhor, cresceu dia após dia, mas emoções… Ele não foi ensinado a tê-las, muitas vezes quis demonstrar a Amanda que a queria, mas sua forma de mostrar-lhe isso era cedendo aos pedidos dela ou mimando-a com caros presentes, mas sempre com a mesma frieza e a mesma face neutra.

_ Sabe de uma coisa?

_ Hum…

_ Apesar de tudo… Temos um bom motivo para celebrar…

_ Celebrar? Você ficou maluca, mulher?

Dante então se soltou do agarre dela e virou, ficando face a face com a esposa.

_ Sim… Nossos dois filhos estão em casa… Salvos e saudáveis. E agora… Poderemos nos focar em apenas descobrir o culpado…

Ele analisou o que ela dizia, e fez um pouco de sentido para ele. Dante começou a viajar em seus pensamentos e não notou que Amanda enlaçou seus braços em seu pescoço beijando-o. Ele se surpreendeu com o toque dos lábios da esposa, mas não se apartou, segurou a cintura dela e correspondeu ao beijo, da forma mais doce que ele conseguia fazer. O beijo não durou muito tempo, mas foi o suficiente, para sentirem o amor um do outro.

Depois de se separarem, ela o abraçou pela cintura e descansou sua cabeça no peito dele. Dante a segurou junto de seu corpo e começou a pensar em como descobriria o culpado de tudo. Era indescritível a necessidade que ele tinha de proteger sua família, nem que para isso precisasse abrir mão de sua própria vida.

-/-/-

Heero não parou de andar de um lado ao outro depois que saiu do escritório onde estava reunido com seus pais e o médico e sem dar-se conta acabou indo parar no Jardim onde teve seu primeiro beijo com Relena. Ao notar onde estava essa foi sua primeira lembrança e recordou inclusive o quanto ela ficou revoltada pela forma que ele a beijou.

_ Dois tapas…

Sussurrou lembrando-se da agressividade da princesa. Olhou ao redor, o cheiro de ar puro dali o acalmava, sentou no tronco de uma árvore tombada e ficou embaixo de outra árvore quase sem folhas, demonstrando a chegada do outono.

_ Não sei por que, mas senti que o encontraria aqui…

Ele olhou para o lado e a viu. Seu sorriso iluminou mais ainda o lugar, seu cabelo meio preso deixando os fios loiros refletirem o sol, seu vestido rosa e branco dando-lhe uma beleza pura, fez o coração dele acelerar e ela se aproximou. Heero estendeu a mão pra princesa e quando ela a aceitou, ele a puxou, fazendo a moça sentar entre as pernas dele. A beijou delicadamente. Relena se surpreendeu, mas se deixou levar por pouco tempo, afinal ela também o amava e o desejava, mas teve medo de serem descobertos.

_ Heero… - Falou em meio ao beijo, tentando se separar do agarre forte dele. - Podem nos ver.

_ E eu com isso?

Ele a soltou e falou irritado, o que fez a jovem estranhar seu comportamento.

_ Porque está assim? Por Lúcius?

_ Relena… Eu já…

_ Heero… Lúcius vai recuperar a memória e logo você poderá descobrir quem está por trás disso tudo… E então poderemos ficar juntos.

Os olhos brilhantes dele se apagaram de um instante ao outro, Relena sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ver a frieza estampada no rosto dele. O rei se levantou, separando-se bruscamente dela e caminhou para o outro lado, colocando uma distância de uns três metros entre eles, ficou um tempo de costas para ela, e a princesa sentiu um temor se apossar de seu coração.

_ Heero…

_ Você… - A voz dele era mais rouca que de costume e podia-se notar a força quem ele estava empregando para controlar suas palavras. - Quer dizer… Que vai voltar para ele?

Heero não olhou para Relena nenhum segundo, ele ficou tão incomodado com as palavras dela anteriores que preferia se manter longe e não mostrar sua face fria e sem amor.

_ Eu… Nunca disse isso.

_ Disse que quando ele recuperasse a memória… Poderíamos ficar juntos.

_ Oficialmente falando… Heero?

Ela levantou do tronco e foi até ele, era incrível o fato de que o homem mais assustador do reino, nunca a assustava. A princesa se sentia tão protegida por ele, que simplesmente, nenhuma reação dele, nenhuma atitude, nada poderia intimida-la. Ela o abraçou por trás e Heero contraiu cada musculo de seu corpo, no intuito de se manter firme e não ceder aos encantos dela que tanto mexiam com ele. Mas seu principal motivo era de não tomá-la como mulher naquele instante e informar ao reino inteiro que ele estava roubando a esposa do irmão e mataria quem se opusesse.

_ O que você quer?

Ele engoliu em seco.

_ Confie em mim…

_ Não suporto mais isso. Não vou aguentar imaginar você com ele.

Finalmente, já mais calmo, o rei se virou e encarou sua amada. Segurou o rosto da princesa entre suas mãos e olhando nos olhos dela, declarou.

_ Você é minha! Apenas minha…

_ E isso jamais vai mudar… Heero… Nunca me entregarei para Lúcius. Jamais amarei a ele ou a qualquer outro homem… Confie em mim… Eu só não considero prudente me separar dele em sua atual situação.

Ele soltou o rosto dela e a segurou pelos braços, passando as mãos na extensão entre os ombros dela e o antebraço, e olhou para o céu, tentando se convencer a aceitar o pedido dela, a se acalmar e encarar aquilo com sua frieza habitual. Relena sem pedir permissão levou sua mão esquerda até o rosto dele e tocou, fazendo Heero a encarar novamente, ela então sorriu e o puxou para baixo selando seu amor com um terno beijo, que começou lento e conforme foi aumentando sua paixão, acelerou sua velocidade. Heero abaixou um pouco ficando na altura do rosto dela e a enlaçou pela cintura. Ele a levantou do chão e a princesa abraçou seu pescoço com as duas mãos e o beijo começou a ser mais urgente, até que se separaram para tomar ar, a contra gosto dele, em especial.

_ Confia em mim?

_ Se você prometer continuar comigo… E sempre que tiver uma possibilidade…

Não era necessário completar a frase, ela havia entendido o que ele quis dizer e aquilo a fez sorrir. A princesa assentiu com a cabeça e voltou a beijá-lo. Não poderia se sentir mais feliz, do que quando estava com ele. Depois de mais um beijo cheio de ardor, ela soltou os braços ao redor dele o que o fez coloca-la no chão novamente. A princesa acariciou o rosto de seu amado e sem mais nada a falar e apenas com um sorriso, se despediu voltando para dentro do castelo. Heero a viu se afastar, com a mesma face neutra, mas com o olhar brando.

-/-/-

Lúcius estava sentado na poltrona de seu quarto, o cabelo solto e molhado do banho, a parte de baixo da roupa colocada corretamente, mas sua camisa aberta e solta de qualquer jeito, ele tinha o queixo apoiado em sua mão direita e olhava para o céu através da grande janela, observando os pássaros voando e vendo como as nuvens passavam. Seu sentar era sem pose ou nobreza, apenas ali atirado e aparentemente desanimado.

Batem na porta uma, duas, três vezes e ele não reagiu. Então a visita simplesmente abre uma fresta e vendo-o vestido, entrou. Relena fechou à porta a trás dela e se dirigiu tranquilamente até o esposo. Parou ao seu lado e ele não a olhou, a jovem seguiu o olhar dele e viu os pássaros voando e o lindo céu que brilhava anunciando o bom clima. Sorriu pensando nisso e sentindo-se feliz, pela primeira vez em muito tempo.

_ Sempre achei o céu atrativo…

A voz grossa, mas jovem do marido foi ouvida e o comentário fez a princesa estranhar.

_ Sempre? Como sabe?

Ele não se intimidou e continuou sem olhar para ela.

_ Eu sei disso.

_ Quer dizer que sua memória está voltando?

Um brilho surgiu nos olhos da jovem e sua voz soou muito animada.

_ Não creio. - Ele deu de ombros. - Mas, sei que sempre gostei do céu.

O entusiasmo dela se apagou, mas sua esperança se manteve intacta.

_ A que devo a honra de sua visita?

Finalmente ele olhou para ela e Relena sorriu em retribuição.

_ Vim ver como estava…

_ Estou ótimo.

Lúcius sentou corretamente na poltrona e cruzou as pernas olhando para a princesa, sua movimentação fez com que sua camisa se abrisse mais revelando o peitoral forte do príncipe. Relena ficou sem graça e lembrou-se da noite em que deveria ter consumado seu casamento, mas por um milagre nada ocorreu. Desviou seu olhar e afugentou os pensamentos antes de se voltar novamente para ele.

_ Eu… Gostaria de poder te ajudar em algo…

_ Como pensa me ajudar princesa? Acaso tem algum remédio que me faça recuperar a memória?

_ Não. Infelizmente não…

_ Então não sei como poderia me ajudar… Você… Disse mais cedo… Que era minha esposa?

_ Em realidade… Foi sua mãe quem nos apresentou. Mas, sim. Isso não muda o fato de eu ser sua esposa.

_ Então… Porque lhe sinto tão distante de mim?

A princesa ficou desconcertada com a pergunta. Como iria se explicar para ele? Não desejava que ele recuperasse a memória começando pelas partes ruins de sua vida. Sentiu medo de abrir a boca, mas precisava dar uma explicação.

_ Princesa… Responda-me.

_ De fato… Não sei como responder-lhe esta pergunta.

_ O que acha de começar pela verdade?

_ Exatamente por nunca haver pensado em mentir-lhe, que não consigo responder.

_ Para um casal, estamos demasiadamente formais um com o outro…

_ Sim, milorde…

Lúcius estreitou os olhos e viu o quão sem graça ela estava, levantou da poltrona e foi até a esposa, a proximidade fez a princesa recuar até que ela sentiu seu corpo encostar na cômoda atrás dela e ficar presa ali, sem poder ir mais para trás. O príncipe se aproximou, ficando a milímetros do rosto dela e apoiou suas mãos no móvel cercando a loira por todos os lados. Ela inclinou o corpo para trás tentando se afastar um pouco do marido, que insistia em encurtar o espaço entre eles.

_ Porque foge de mim? Acaso…

_ Acaso o que?

_ Acaso ainda não lhe fiz minha mulher?

_ Milorde…

_ Responda.

_ Não temos intimidade.

As palavras dela o perfuraram, ele se sentiu insultado com a revelação e Relena o encarou com altivez, mas sem ser dura.

_ Como? Como é possível que não tenhamos intimidade? Acaso se recusa a se entregar a mim?

Ele falava entredentes e aquilo fez a loira estremecer, em todos os anos que conhecia o príncipe, ele nunca pareceu tão irritado com ela por algum motivo, como naquele instante.

_ Sinto muito… Mas prefiro continuar esse assunto quando o senhor já tenha recuperado sua memória. - Ela falava com segurança e calma.

_ Não vai sair daqui, princesa. Quero a verdade

_ Como disse… Não tenho nada para aclarar na atual situação.

_ Se não existe nenhum motivo para que não seja minha… Dispa-se e deite na cama, que desejo tê-la agora!

Relena sentiu o coração disparar de aflição. O sangue da moça gelou e ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo, aquilo não parecia uma broma e nem tão pouco uma encenação. Lúcius ordenou que ela se deitasse com ele naquele instante e ela não sabia mais o que dizer. Passou por sua cabeça que ele poderia força-la, já que aquele príncipe estava muito diferente de seu amigo de infância. Os olhos dele eram duros e frios de repente e a jovem sentiu as lágrimas, se aproximarem de seus olhos, mas se negou a derrama-las. Por mais medo que sentisse naquele momento, Relena jurou para si que nunca mais seria fraca e não seria jamais intimidada por seu marido de novo e nem por ninguém. Negar-se-ia até o fim e se ele tentasse forçar algo, armaria um escândalo até que alguém a socorresse.

_ Vamos… Eu dei uma ordem para minha esposa. - Ele estava perdendo a paciência. - Tire sua roupa e deite nua na cama… Quero ver seu corpo e faze-la minha.

_ Sinto decepciona-lo milorde… Mas isso não irá acontecer.

Os olhos firmes da princesa e sua face decidida fizeram o príncipe se aproximar mais do rosto dela, atitude que teve como reação a jovem virar o rosto. Ele então parou e recuou, soltando as mãos e libertando-a de seu agarre. Relena sentiu uma mescla de alivio com surpresa. Os olhos dele fizeram-na acreditar que ele a forçaria, mas ela alegrou-se em ver que ali ainda restava algo de seu amado amigo de infância. Lúcius a observou de cima a baixo e deu as costas para ela.

_ Poderia se retirar, por favor… Desejo estar só.

Sua voz era controlada e ela resolveu não contestar. Relena segurou a saia e mesmo que ele não a visse, ela se curvou em uma reverência e seguiu em direção à porta, abriu e depois de dar uma ultima olhada para ele, saiu.

_ Relena… - Lúcius sussurrou após ouvir a porta se fechar.

-/-/-

Heero estava com seus quatro amigos, mais Zechs e Noin treinando na sala própria para as atividades esportivas. O ambiente era bom e descontraído. Quatre treinava esgrima com Trowa, enquanto Duo e Wufei estavam na linha tênue entre um treino com espadas e realmente se matarem. Heero treinava seus golpes de savate em uma espécie de saco de pancada e Zechs e Noin também treinavam com a espada, ele ajudava a noiva refinar seus ataques.

Um movimento e um barulho chamou a atenção dos sete que estavam concentrados em seus afazeres. Lorde Macben invadiu o local acompanhado de Jian e dois guardas do reino que corriam tentando para-los gritando que eles não tinham permissão para entrarem sem antes serem anunciados. O lorde e seu acompanhante ignoraram completamente as advertências e todos olharam a cena com muita atenção, inclusive Heero que era o mais afastado da porta de entrada se aproximou mais do grupo, seu olhar era frio e intimidador, estava louco por explicações.

Todos os rapazes estavam sem a parte de cima de suas roupas, deixando seus peitorais bem definidos a mostra. Noin usava uma calça e uma blusa justa que ia até o umbigo, deixando o restante de sua barriga a mostra. Ela olhava para Heero e para o lorde, sabendo que a situação ficaria muito tensa.

_ Você!

Gritou Macben ignorando todos que ali estavam, inclusive, o rei e sacando sua espada, apontou para Trowa que o encarava com descaso.

_ Como ousa cortejar minha noiva?

O lorde se aproximou até a ponta de sua espada ficar a poucos centímetros do cavaleiro que em nada se sentiu intimidado. Todos os amigos ali presentes tiraram os olhos do lorde e o depositaram sobre Trowa. Ao verem a face tranquila do amigo, voltaram a olhar para o lorde e esperaram pela próxima atitude. Até então, ninguém se manifestou.

_ Responda seu insolente.

_ Quer que eu responda?

_ Como se atreve ser tão petulante? Eu vou te ensinar bons modos…

O lorde se lançou sobre Trowa, mas as espadas de Duo e Quatre interceptaram seu ataque, só os dois se moveram por serem os mais próximos, Quatre estava à direita do cavaleiro e Duo a esquerda. Os amigos desarmaram facilmente o lorde que arregalou os olhos em temor ao ver o olhar assassino do loiro e do de trança. Jian observava a cena com tédio e Wufei não tirava seu olhar de canto de sobre o rapaz, esperando para ver se seu oponente de noites atrás ousava se manifestar.

_ Com que direito invade meu castelo e ameaça meu amigo… Lorde Macben!?

Heero entrou na frente de Trowa e encarou o lorde de frente, o olhar do rei fez o homem suar frio, mas não podia se dar ao luxo de recuar.

_ Esse… Digo… Ele cortejou minha noiva. E ainda me enviou um recado pela serva que contratei para protegê-la.

_ Protege-la? Você contratou aquela mulher para manter a Teyuki como prisioneira!

Trowa se manifestou pela primeira vez e avançou sobre o lorde, mas foi impedido por Heero que estendeu seu braço o proibindo de seguir. O lorde se enfureceu mais.

_ Teyuki? Para você ela é senhorita Teyuki!

_ E você não deveria nem ao menos cita-la.

Trowa o mirava com uma mescla de desprezo e irritação.

_ Já basta!

A voz do rei foi ouvida e o silêncio tomou conta. Zechs e os três cavaleiros que assistiam a cena estavam prontos para agir a mando de Heero em qualquer momento, Jian parecia com sono, já havia bocejado algumas vezes e Noin analisava a situação o mais tranquila possível.

_ Eu exijo a cabeça desse rapaz, meu rei.

Falou o lorde entredentes e Heero o encarou altivo.

_ Quem se crê para me exigir algo?

_ Eu… Eu…

O homem perdeu seu chão e ficou sem reação ao olhar mortal que recebeu.

_ Aqui… Você não faz exigências… - Heero soltou Trowa e caminhou até ficar a poucos centímetros do lorde. - Quem manda nesse castelo e nesse reino é meu pai e eu! Que fique claro na sua mente… Lorde.

Macben engoliu em seco, ele olhava para cima, pois Heero era bem mais alto que ele. As últimas palavras o rei pronunciou bem baixinho, soando como uma ameaça ao homem em sua frente.

_ Jamais quis lhe faltar ao respeito, meu rei… Mas ele me insultou e colocou em questão a honra de minha noiva.

O lorde baixou o tom de voz e tentou ser o mais calmo possível, falar no grito não o ajudaria em nada frente à Heero.

_ Eu não tenho nenhuma dúvida com respeito à honra da senhorita Teyuki. Alguém aqui tem?

Heero perguntou e todos que estavam na sala com exceção dos dois guardas, Jian e o lorde, responderam em uníssono.

_ Não!

_ Então creio que o senhor pode começar a se acalmar.

_ Sinto muito, meu rei. Mas ainda peço que esse homem seja punido. Afinal eu sou um lorde. Quem ele é para me enfrentar dessa maneira, se sentindo igual?

_ Esse homem, a quem se refere é um cavaleiro do reino, filho de um Duque e para finalizar meu amigo. E tão nobre quanto o senhor… Lorde.

O homem baixou a cabeça sem graça com o que escutou. Trowa mantinha seu olhar arrogante direcionado ao seu confrontante e Heero teve uma ideia.

_ Trowa… Quais são seus interesses com a senhorita Teyuki?

O rei se virou para o amigo que foi pego de surpresa com a pergunta.

_ Bem… Os melhores. Posso assegurar.

_ Ela é minha noiva!

_ Ficarei feliz em mudar esse quadro.

O cavaleiro olhou com deboche para o lorde que sentiu seu sangue ferver. Heero meditou um pouco mais naquelas palavras e apontou um dedo para o amigo e lançou lhe um olhar, que dispensara as palavras, fazendo com que o homem de olhos verdes e cabelos marrons entendesse a advertência e apenas assentisse em concordância.

_ Lorde… Acompanhe-me até o escritório. Tenho um assunto que tratar contigo!

Heero falou para o homem, mas não o olhou, passou por ele, trombando de ombro, o que fez o homem perder um pouco do equilíbrio. Pegou sua camisa e a vestiu ao passo que andava para fora da grande sala. O lorde lançou novamente um olhar mortífero para o cavaleiro e após ouvir Heero o chamar pela última vez saiu do local acompanhado de Jian, que mudou sua face de tédio para frio, ao ver que o chefe se virava em sua direção, tentado demonstrar seu falso apoio ao lorde.

Zechs aproveitou a oportunidade para repreender corretamente os guardas que não impediram o lorde de entrar sem ser avisado. Wufei ficou incomodado com a presença de Jian e Quatre e Duo trocaram olhares confusos sobre toda aquela cena que presenciaram. Noin ficou pensativa em seu canto, observando Trowa de longe, tentando decifrar qualquer reação que ele desse.

Heero entrou no escritório e deu ordens para que não fosse interrompido por ninguém. O lorde o seguiu e Jian ficou do lado de fora. O rei fez sinal para que o nobre sentasse e ele ficou em pé do seu lado da mesa. Encarou fixamente o homem em sua frente e foi direto ao assunto.

_ Eu quero que você cancele o casamento com senhorita Teyuki Yukiame.

O lorde arregalou os olhos com a ordem e sentiu uma mescla de ódio com receio se apoderar dele.

-/-/-

Kelly andava pelo corredor do castelo com uma bandeja em mãos onde tinha chá e duas xícaras, ela portava o pedido da rainha que estava conversando com o conde na biblioteca. Porém, como era inevitável, ela teve que passar pela frente do escritório e sua surpresa foi inexplicável, quando seus olhos se encontraram com os de Jian.

_ Então você realmente trabalha no castelo?

_ Melhor que trabalhar para um homem tão desprezível como o lorde…

As palavras venenosas dele não surtiram efeito na moça, que devolveu a provocação com arrogância. Mas, tão pouco incomodou o rapaz que esboçou um sorriso sarcástico.

_ Você não faz ideia de quem é meu verdadeiro chefe… Aliás… Você faz sim. Você fugiu dele…

Ele riu se divertindo com o desgosto que a moça mostrou em sua face.

_ Por quê? Por que fez aquilo comigo?

O guarda que estava em frente à porta prestava atenção na conversa observando-os de rabo de olho. Os dois falavam a uns cinco metros dele e suas vozes não eram altas, mas o homem de sentinela conseguia escutar uma palavra ou outra.

_ Eu precisava de dinheiro… E ele me ofereceu uma excelente quantia por você.

_ Eu sou sua… Ah esquece. Não vale a pena falar com você!

Ela respondia entredentes e sua vontade era de bater nele com a bandeja em suas mãos, mas conteve sua ira. Sabia muito bem que aquele não era o momento de arrumar confusão.

_ Onde está Mei?

Kelly voltou a perguntar.

_ Em um lugar seguro…

_ E onde é?

_ Não te interessa… Contente-se em saber que ela está ótima. Eu posso dar a ela o que ela precisar, diferente de você… O que poderia dar a ela sendo serva do rei?

_ Dignidade. Agora saia da minha frente! Se não quer me contar onde ela está, tudo bem. Descobrirei de qualquer forma.

A morena seguiu seu rumo, mas antes que saísse de perto dele foi impedida por seu agarre. Jian a segurou pelo braço com força e a encarou com desprezo e deboche.

_ Ele sabe que você está aqui.

Kelly sentiu o medo percorrer seu corpo, mas não se intimidou. Olhou para o rapaz ao seu lado e respondeu com a mesma forma que ele lhe falou.

_ E eu com isso?

_ Ele logo virá buscá-la… E você novamente será dele…

_ Quem virá buscá-la?

Uma voz grossa e intimidante rompeu a conversa no meio de forma brusca. Os dois olharam para trás a fim de ver quem se intrometia na conversa e se surpreenderam ao ver Wufei parado a poucos passos deles. O cavaleiro encarava Jian com ódio. Alternava seu olhar entre o rapaz, a moça e a forma pouco delicada que o rapaz usava para segurar o braço dela. Pela forma que Jian apertava, Wufei não teve duvidas que devesse estar machucando-a, mas ela nem sequer demonstrava dor.

_ Solte-a ou corto sua mão fora.

O cavaleiro apontou a mão de Jian com a ponta de sua espada. O rapaz de beleza selvagem suspirou e soltou a moça. Kelly sentiu alívio pela chegada do moreno, mas também medo de que ele pudesse castiga-la pela cena.

_ O que deseja? Esse assunto é entre eu e ela.

Jian encarou Wufei com atrevimento, o que apenas irritou mais o cavaleiro.

_ Se torna meu assunto a partir de agora!

Wufei encurtou o espaço entre eles e encarou a Jian.

_ Quer realmente entrar em uma briga comigo? - Wufei perguntou.

_ O que eu queria fazer eu já fiz…

_ E seria? - Wufei fez cara de deboche. - Intimidar uma mulher? Se quiser arrumar problema, enfrente a mim. Ficarei muito feliz em cortar você em pedaços.

Jian riu e Kelly se irritou da forma que Wufei se referiu a ela.

_ Quem disse que preciso de seu socorro milorde?

Wufei olhou para ela incrédulo e Jian sorriu satisfeito.

_ Prefere que eu o deixe machucá-la?

_ Eu sei muito bem me defender… - Ela então tirou os olhos do cavaleiro e mirou o rapaz que a enfrentava, e com olhos felinos avisou. - Principalmente de você… Você não me assusta mais!

_ Vejo que não mudou nada, Kelly.

O rapaz falou, satisfeito com a discussão armada entre o cavaleiro e a moça.

_ Cala sua boca ou arranco sua cabeça agora.

Wufei quase rosnou para ele de ódio e voltou a falar com ela.

_ Eu não permitirei que ninguém te machuque.

_ Agradeço a preocupação… Mas ficarei bem.

A morena voltou a andar para seu destino inicial. Jian a olhou satisfeito e Wufei irritado. Depois, o cavaleiro se voltou novamente para o homem que iniciou a discussão.

_ Se aproxime dela novamente e eu faço você se arrepender de ter nascido.

_ Sinto decepciona-lo milorde, mas eu não tenho medo de você.

_ Fico feliz em ouvir isso.

Wufei sorriu e intrigou o rapaz.

_ Por quê?

_ Porque se você tivesse medo, provaria que não passa de um covarde qualquer... O que não me daria nenhum gosto em te matar. Mas como tem coragem… Eu vou adorar arrancar pedaço por pedaço da sua maldita pele.

O cavaleiro passou por ele trombando ombro com ombro e sem olhar para trás seguiu o caminho que Kelly seguira. Jian ficou um tempo olhando para o lugar que estava o cavaleiro e sentiu seu sangue ferver. Não poderia deixar aquilo passar. Wufei seria com certeza alguém que cedo ou tarde ele pretendia matar. E da pior forma que ele pudesse imaginar. Respirou fundo e soltou o ar lentamente, se acalmando, depois se encostou à parede e ficou a espera do lorde sair.

-/-/-

Macben passou tanto tempo olhando para o rei que já começava a sentir seu pescoço doer por estar olhando para cima. Heero não mudou sua expressão e tão pouco se moveu, continuou firme em sua posição e a espera de uma resposta. Então o lorde reagiu.

_ Deixe-me ver se entendi bem… Vossa majestade deseja que termine meu relacionamento com a senhorita Teyuki?

O homem falou levantando da cadeira, ainda sem assimilar o assunto. Heero apenas assentiu, com uma face de desanimo.

_ Com que direito o senhor me pede isso, majestade?

_ Com o direito que eu quiser… Não preciso de permissão para pedir-lhe não, ordenar-lhe que cancele a boda.

_ Majestade… Com todo o respeito que o senhor merece. Eu não vejo motivos para cancelar essa boda. A senhorita é muito linda e me atrai como mulher… Fora isso, empreguei muito dinheiro nela.

_ Certo… De quanto estamos falando?

O lorde encarava ao rei com horror aos olhos, e por dentro o desespero e o ódio se apossando dele.

_ De quanto estamos falando?

_ Sim… Qual o seu preço para desfazer esse equivocado compromisso?

O lorde viu Heero se sentar na poltrona do rei e encostar, relaxadamente no encosto, olhando-o com um ar de tranquilidade, mas ao mesmo tempo intimidador. O lorde teve vontade de matar ao rei ali mesmo, aproveitando que Heero o chamou para conversar, mas não se deu ao trabalho de arrumar-se devidamente e nem se armar. Pensou algumas vezes em cravar sua espada no peito do rei, mas sabia que em seguida seria enforcado.

_ Se… Vossa majestade tem algum interesse em minha noiva… Estou de acordo em ceder-lhe a primeira noite. Mas, não penso em desfazer o noivado.

Heero desencostou e olhou firme para o lorde que manteve sua expressão firme.

_ A primeira noite… Acaso pensa que eu exerço esse tipo de pratica ridícula? Eu não tenho nenhum interesse na senhorita Yukiame. Realmente ela é muito linda, mas é só.

_ Se não é isso? Por que devo cancelar a boda?

_ Lorde… Não finja que não sabe. Tenho observado lhe muito e sei muito bem o tipo de homem que tenho a minha frente…

A forma que Heero falou, desprezando de todas as formas o lorde, fez com que o nobre sentisse o ódio carregar seu corpo.

_ O que insinua?

Perguntou irritado.

_ Não insinuo nada… Agora, ponha seu preço.

Macben sorriu irônico.

_ Duvido que seu pai, o rei Dante, concorde em que o senhor retire ouro do cofre do reino, para comprar uma mulher para seu amigo.

Heero esboçou seu sorriso sádico de canto de boca e Macben perdeu o seu de seu rosto.

_ Sabe lorde… Nota-se que o senhor pouco sabe sobre mim…

Heero levantou e colocou o peso de seu corpo sobre as mãos apoiadas a mesa.

_ Eu não necessito do ouro de meu pai, e muito menos tirar o dinheiro do reino. Além de rei de Sank eu tenho outro reino que é inteiramente meu… Assim como o dinheiro. Portanto, ou coloca um valor ou eu coloco.

_ Não vou colocar um valor…

Macben ficou sem graça pela descoberta. Ele conhecia a história de Heero, mas nunca havia realmente parado para analisar o quão poderoso era o homem a sua frente. Ele gelou com a ideia de que eles poderiam estar enfrentando o inimigo mais difícil da vida deles e o mais mortal também.

_ Muito bem… O que acha de eu pagar-lhe dez mil moedas de ouro, e não o prendê-lo por desacato ao rei?

_ Desacato ao rei?

_ Sim… Afinal tenho oito testemunhas que presenciaram sua forma grosseira de atrapalhar meu treino e como você não acatou minhas ordens quando mandei se afastar de Trowa.

_ Majestade… Ele cortejou minha noiva.

Macben levantou a voz de repente e Heero bateu a mão com força na mesa, colocando em vigor toda sua altivez.

_ E eu vou presenteá-lo com sua ex-noiva. Façamos o seguinte… O senhor tem até o fim da semana para me responder a oferta. Se quiser o dinheiro que lhe ofereci, ótimo. Se quiser fazer uma contraproposta, faça… Mas…

Heero o encarou com uma frieza que Macben sentiu medo em até o último fio de cabelo.

_ Se tentar casar com ela, obrigá-la ou ficar com ela… Saiba que eu estarei te vigiando… E garanto, lorde… Que nem você e nem ninguém, vai querer ter a mim como inimigo.

_ O senhor já não está me vendo como inimigo, majestade?

_ Nesse momento, estou tratando-o como um comerciante. Você possui algo que eu quero e eu te pago por isso. Está claro?

_ Perfeitamente…

_ Que ótimo… Tenha um bom fim de tarde lorde Macben. E lembre-se… Até o fim da semana.

O lorde não falou mais nada, reverenciou o rei e saiu do escritório. Olhou para Jian e o rapaz entendendo, seguiu ao chefe e ambos deixaram o castelo. Jian percebeu que Macben estava transtornado e se perguntou o motivo, mas não se atreveu a expor sua dúvida.

Heero saiu do escritório e passou pela sala de treinamento, os amigos o encaram com curiosidade, mas ele nada disse, pegou sua espada e saiu direto para seus aposentos, apenas fazendo uma parada, para pediu a uma serva que preparasse seu banho.

-/-/-

O restante da tarde foi tranquilo em Sank. O jantar se tornou o momento mais tenso de todos, pois estavam todos na mesa e Lúcius não parou de encarar rosto por rosto dos que ali estavam. Heero apenas observou as reações do irmão e lançou olhares furtivos em direção a Relena que estava ao lado dele. Dante também analisou friamente o filho mais novo e Amanda o observava com os olhos brilhando de alegria por tê-lo de volta.

Duo e Quatre mantiveram uma secreta conversa sobre o paradeiro das meninas, com algumas observações de Trowa de tempos em tempos. Noin e Zechs assistiam o quadro todo que ali estava se apresentando a eles e pensavam o quanto tinham sorte de estarem juntos e se amarem. Manifestavam isso com trocas de olhares de cumplicidade e ele acariciando a mão da noiva. Wufei estava totalmente perdido em seus pensamentos. Não prestou atenção em nada e nem tão pouco se importava. Pensava em Kelly e Jian, se perguntava qual tipo de relacionamento eles tinham e quem era a pessoa que deveria vir buscá-la e porque ela era sempre tão arisca com ele. Aquilo o incomodava muito mais do que ele tinha coragem de admitir.

O jantar terminou em silêncio praticamente, com as vozes podendo apenas ser ouvidas em alguns momentos quando se eram feitas perguntas do tipo: A comida está de seu agrado? Deseja mais alguma coisa? Após se levantarem da mesa cada um tomou seu próprio rumo deixando apenas um cortês, boa noite aos demais.

-/-/-

Wufei chegou à porta do quarto das empregadas, não sabia bem como havia ido parar lá. Sua última lembrança é de haver saído para caminhar após o jantar e pensar nos últimos acontecimentos, e quando percebeu estava de frente ao quarto onde Kelly dormia. Levantou a mão para tocar a porta, mas voltou a baixa-la. Pensou algum tempo sobre se deveria ou não bater e desistiu. Deu meia volta para voltar ao seu quarto e acabou encontrando o olhar confuso da morena que ele tanto procurava.

_ O que faz aqui?

Ela questionou intrigada, olhando para ele e para porta de forma sincronizada.

_ Eu…

Ele ficou sem fala, por algum motivo ela causava esse efeito nele.

_ Pretende terminar sua frase hoje? Estou cansada e quero dormir.

Ela tentou passar por ele e ir para seu quarto, mas Wufei a impediu segurando-lhe o braço. A moça olhou para ele, depois para seu agarre e devolveu o olhar para ele. O cavaleiro a encara fixamente, o agarre não era forte, ela poderia se soltar o momento que quisesse, mas não o fez.

_ Gostaria de falar com você…

Sua voz era calma, o que era estranho vindo dele, mas ao mesmo tempo soou forte e rouca o que lhe deu um charme especial e a jovem sentiu seu sangue ferver, mas controlou-se muito bem.

_ De que quer falar?

_ Eu ainda não entendo o motivo de sempre ser tão arisca comigo…

_ Eu apenas não sou como você está acostumado.

_ O que quer dizer?

_ Você trata as mulheres como fracas… Eu não sou fraca.

_ As mulheres são fracas… Para isso existem os homens… Para protegê-las.

_ Então, o que me diz da lady Lucrezia Noin? Pelo que eu saiba ela até mesmo enfrenta exércitos com você e sua equipe.

_ Lucrezia é uma exceção a regra…

Wufei ficou sem graça pela lembrança. Passou a mão nos cabelos e soltou o braço da jovem. Kelly notou e sentiu-se satisfeita.

_ Existem muitas exceções à regra… Só você não sabe disso.

Ela falava com ele em um tom bem próximo a um sussurro. A proximidade deles fazia o coração de ambos bater forte e acelerado. A distância de suas faces era de milímetros. Wufei voltou a olhar para ela e seu corpo começou a esquentar.

_ Então é isso? E se eu prometer não mais te julgar como frágil?

_ Você apenas estaria constatando um fato… Boa noite, milorde…

Ela então virou em direção ao quarto e quando estava prestes a entrar ouviu ele a chamar.

_ Kelly… Quem está atrás de você?

A morena encarou de volta o cavaleiro e viu em seus olhos uma mistura de súplica, que ela julgou ser por respostas, e desejo, que ela entendia que ele sentia, pois com ela era igual, só não admitiria. Wufei a encarava, passando seus olhos pelos delas, descendo até a boca, depois percorrendo o corpo e voltando para os olhos amendoados da moça a sua frente. Kelly, nada falou, seus olhos o percorreram por inteiro e pararam em seus lábios, depois se fixaram nos olhos puxados e negros do cavaleiro e com altivez ela abriu a porta e entrou, trancando-a com chave. Wufei soltou o ar, sentiu-se frustrado. Bagunçou o cabelo e seguiu seu caminho de volta a seu quarto.

-/-/-

No dia seguinte, o sol entrou agressivamente pelas enormes janelas dos quartos, dando bom dia a todos que ainda dormiam. Relena acordou ainda sonolenta e sentindo-se incompleta. Olhou para o lado e lembrou-se da manhã anterior, a qual pode acordar nos braços de seu amor. Mas, devido à volta de Lúcius ela não achou prudente passar a noite com Heero. Deveria ser discreta até o dia que pudesse se separar definitivamente de Lúcius. Sorriu, lembrando o olhar do rei no corredor quando ela passou por ele e não o beijou.

_ Por favor, Heero… Não me odeie.

Riu infantil, achando aquela face muito doce, por uns minutos se perguntou se havia realmente visto aquela expressão no rosto de seu amado ou tudo não passou de uma ilusão. Decidiu espantar os pensamentos e se levantar para mais um dia. Escolheu rapidamente um vestido, como estava se sentindo feliz, pegou um de seus favoritos, ele tinha a saia roxa e a parte de cima lilás com branco, um decote amplo, mas não vulgar e seus ombros ficavam de fora ao passo que seus braços eram cobertos por mangas longas. Suas servas não demoraram em chegar e ajudá-la com o banho.

-/-/-

Heero despertou e ficou um tempo olhando para o teto. Estava sem camisa e o lençol jogado cobrindo do quadril para baixo apenas. Ele pensava em Relena e em Lúcius.

_ Inoportuna hora a sua de perder a memória, meu irmão.

Ouviu baterem à porta e nem se incomodou em responder. O visitante foi insistente e ele continuou ignorando, até que ouviu a porta se abrir e levantou a contragosto a cabeça para ver quem era o incômodo. Viu Duo entrando e voltou a deitar, sabendo que nada que dissesse faria o amigo sair.

_ Bom dia Heero…

Duo, como sempre, com seu bom humor e Heero, como sempre, com seu temperamento congelante.

_ O que deseja?

_ Bom… Já que pelo visto sua noite mal dormida e eu tenho uma leve suspeita da razão disso…

Heero olhou para o amigo com um olhar assassino e o de trança deu uma risadinha e continuou ignorando a advertência recebida.

_ Fez você acordar de mal humor… Gostaria de expor a você uma excelente ideia que eu e os rapazes, incluindo Zechs tivemos.

_ E porque você veio me acordar para falar isso?

_ Porque eu sei que você seria incapaz de me matar…

Heero revirou os olhos e jogou o lençol de lado, levantando da cama. Duo satisfeito em acordar o amigo continuou.

_ Como eu dizia… Tivemos uma ideia que poderá nos ajudar a desmascarar ou ao menos nos dar uma pista de quem é o culpado de tudo...

O comunicado ganhou a atenção de Heero que parou para ouvir a informação. A serva que havia preparado o banho do rei tocou na porta para avisar que tudo estava pronto, Heero a dispensou e foi tomar seu banho, enquanto Duo sentado em uma cadeira um pouco distante dele narrava tudo.

-/-/-

Após o café da manhã, Heero acompanhado dos quatro amigos foi para seu escritório, revisar alguns papéis do reino, quando batem à porta e ele ordena que entre, era Relena que pedia licença para prosseguir e Heero levantou ao vê-la.

_ Mandou me chamar?

Pergunta para Heero.

_ Sim. Quero que organizem um dia de festa comemorando a volta do príncipe. Quero que o reino todo seja convidado e os aliados também... Com jogos, banquete e tudo o mais que for necessário.

_ Perdoe-me a duvida, mas não estamos em guerra?

Relena estranhou. E Heero esboçou seu peculiar sorriso de canto. Os outros quatro o imitaram, enquanto assistiam a cena e a princesa gelou.

_ Sim... Mas o retorno do príncipe não deve passar em branco.

Os cinco tramavam algo, ela tinha total certeza disso, resolveu que deveria esperar para descobrir, já que mesmo que insistisse muito, jamais lhe contariam nada.

_ Muito bem... E para quando seria?

_ Hum... Para dentro de dois dias.

_ Heero. – Ela se assombrou tanto com a data que simplesmente esqueceu a formalidade, que supostamente deveria exercer frente aos demais. – É impossível organizar uma festa dessa magnitude em tão curto espaço de tempo.

_ Acho que é um tempo bom para isso. Usufrua de quem quiser para ajudá-la, chame minha mãe, ela adora realizar festas... Chame Lucrezia para te ajudar, peça a Kelly que seja seu braço direito, convide suas amigas... Enfim. Prepare a festa para o domingo.

_ Mesmo assim... Precisaríamos de uma grande quantidade de mão de obra empenhada nisso.

_ Ofereça um pago extra aos camponeses que te ajudarem nisso.

A princesa suspirou em desistência, nada que dissesse o faria mudar de ideia.

_ Muito bem. Começarei os preparativos imediatamente.

_ Ótimo!

O rei voltou a sentar, agora com um ar muito tranquilo. A princesa assentiu e virou para partir, mas antes que deixasse o cômodo, se voltou para Trowa com um amplo sorriso nos lábios.

_ Senhor Trowa, gostaria de agradecê-lo imensamente.

Trowa se endireitou em um salto, ele estava quase sentado sobre uma cômoda que estava perto a porta de entrada.

_ E por qual motivo princesa? – Estranhou.

_ Já fiquei sabendo da forma como o senhor desafiou lorde Macben em defesa de Teyuki...

_ Ah sim? E como soube?

_ As novidades nesse reino correm rápidas. E devo dizer que foi algo que me deu uma enorme satisfação. O lorde nunca me caiu bem e fiquei muito feliz em saber que terá alguém que poderá coloca-lo em seu devido lugar.

Trowa esboçou um leve sorriso e fez uma pequena reverência.

_ A seu dispor, sempre que necessitar, princesa.

Ela riu.

_ Obrigada milorde. Sei que Teyuki estará em ótimas mãos.

O comentário dela deixou o rapaz sem fala. A princesa voltou a se despedir e deixou o cômodo.

_ E desde quando você se descobriu apaixonado pela jovem Teyuki... Trowa?

Duo começou o assunto olhando debochadamente para o amigo. Trowa ignorou o sarcasmo do de trança e resolveu responder sinceramente.

_ Não sei... Creio que o tempo que passamos viajando com o rei Dante, me fez refletir.

_ Só penso que ela é jovem demais…

Wufei resolveu se manifestar. E Duo encontrou a oportunidade de provocar o amigo, já que tinha sentido muita falta disso enquanto esteve fora.

_ Ah sim? E a Kelly? Está em uma idade boa?

_ O que quer insinuar?

Wufei respondeu entredentes para o de trança.

_ Fiz uma pergunta, simples e clara... Kelly está em uma boa idade?

_ Cuidado em falar dela…

Respondeu ameaçadoramente e tentou avançar em Duo que nem se moveu do lugar. Quatre entrou na frente do asiático, Trowa se divertia com a situação e Heero assistia com a cabeça apoiada na mão.

_ Calma Wufei... O Duo só fez uma pergunta. Afinal, você acabou de falar da idade da Teyuki.

Trowa se manifestou e Quatre o encarou em reprovação.

_ Fique a vontade para não ajudar... Trowa. – Falou o loiro.

_ Qual o problema? Não posso me expressar?

_ Pode. Mas já não viu o quanto Wufei está nervoso? – Quatre falou para o amigo e voltou-se visivelmente irritado para o asiático. – E você trate de se acalmar. Foi você quem começou a se meter onde não foi chamado.

Heero então levantou a cabeça surpreso com a reação do amigo, aliás, todos ali estranharam muito. O rei quebrou o gelo.

_ Quatre... Está tudo bem?

_ Sim. Só estou cansado dessas provocações. Nem parecem amigos.

Até Wufei se acalmou. Aquilo a sua frente nem sequer parecia com Quatre.

_ Quatre... Você está me deixando preocupado. – Falou Duo.

O loiro desistiu e voltou a sentar, passou a mão no rosto e resolveu falar.

_ Estou preocupado.

_ Com o que? – Wufei quis saber.

_ São tantas coisas, vocês não percebem? O reino está sendo atacado, tiveram a ousadia de entrar aqui e sequestrar o príncipe; Trowa está desafiando um lorde em favor da Teyuki; Heero... Desculpe-me que fale, mas você está tendo um caso com sua cunhada! E... E eu não tenho tido nenhuma noticia da Hadja...

_ Ah bom... Ufa. Agora tudo faz sentido. – Falou Duo soltando o ar, fingindo alívio. – Você está preocupado que a senhorita Hadja não tem aparecido. Espere um pouco que vou lá busca-la para você.

Levantou de sua cadeira e caminhou em direção à porta, mas foi impedido por Wufei que o parou e o empurrou para que voltasse a sentar. Quatre olhou com desânimo para Duo.

_ Quatre... – Heero voltou a falar. – Entendo suas preocupações. Creio que todos têm pensado nelas, mas quanto a Relena, isso é problema exclusivamente meu.

_ Aí que você se engana Heero, é gravíssima essa situação. – Quatre até baixou um pouco mais a voz.

_ Por quê? Eles se amam! – Interviu Duo.

_ Eu entendo isso perfeitamente. – Quatre olhou rapidamente para o de trança e voltou a encaram Heero. – Sei bem que entre você e Relena existe um grande amor... Notei isso desde o primeiro dia, mas ela ainda é casada. E Lúcius voltou.

_ Ela não o ama. E Lúcius armou para obriga-la a se casar! – Heero ficou nervoso.

_ Tudo bem... Mas como você pretende lidar com isso? Afinal seu irmão, nesse instante não pode responder por nenhum ato, já que está sem memória. – Trowa entrou na conversa.

_ Deixem esse assunto para mim...

_ Sinto muito. Normalmente eu concordaria com isso, porém dessa vez, sou obrigado a dizer que entendo a preocupação de todos aqui. – Wufei falou de forma direta. – Se tiver um problema com a lei, nós não permitiremos que nada te aconteça, portanto, o assunto também nos diz respeito.

_ Tudo bem... Já vi que não me deixarão em paz. – Heero decidiu falar e encerrar a conversa. - Saibam que Relena é minha. Pertence somente a mim. Eu fiz dela minha mulher e vou lutar contra tudo e todos para ficar com ela. Assim que Lúcius recuperar a memória, darei ordens para que o casamento deles seja anulado e me casarei com ela.

_ Essa é sua decisão? – Duo perguntou.

_ Sim. E nada e ninguém me farão mudar de ideia!

_ Muito bem. Lutaremos por isso. Aconteça o que acontecer! – Quatre concluiu e todos assentiram.

_ Agora que o assunto está aclarado... Por que não voltamos a falar do romance do Wufei com a Kelly?

Duo voltou para suas provocações e Quatre e Trowa riram, Heero voltou a relaxar e encostou-se a sua poltrona esperando para assistir a reação de Wufei, que por sua vez passou a mão no rosto tentando acalmar a irritação que começava a tomar conta dele.

_ Por que pensa isso? – Wufei estava se sentindo muito irritado.

_ Ah bom... Não sei... Talvez pelo fato de você ter trazido ela para cá a qualquer custo, ter duelado com um estranho durante o baile em defesa dela e em todo o momento estar olhando pra ela ou conversando... E, ah sim, Não podemos esquecer-nos de como você foi "delicado" com aqueles estupradores...

_ E daí?

_ Nada. Só desejo que você assuma…

Todos os amigos encararam o asiático que sentiu sua raiva aumentar, em especial pelo fato de que sentiu seu rosto enrubescer por ter sido descoberto. Duo não suportando mais segurar começou a rir incessantemente, Quatre e Trowa sorriram com a situação, Heero meneou a cabeça em negação, achando-os impossíveis de aguentar. Wufei encarava o de trança com ódio.

-/-/-

Kelly saiu para pegar água no poço e escutou um burburinho vindo de trás de uma moita alta e densa, estranhando resolveu olhar para ver quem era. Para o caso de serem bandidos, pegou um pedaço de tronco grosso, caído ao chão e foi até o local, pé ante pé, tentando ser o mais silenciosa possível. Ao chegar bem perto das plantas ouvindo o sussurrar que mais parecia uma discussão, pulou em frente aqueles rapazes e se não fosse seu rápido reflexo teria acertado uma pancada em Cléo e Hadja que gritaram.

Kelly arregalou os olhos, confusa. As damas estavam vestidas feito dois jovens rapazes camponeses. Elas tinham os longos cabelos presos em um rabo de cavalo baixo, com um lenço amarrado no topo da cabeça e um chapéu sobre ele, camisa, calça e botas masculinas, não se esquecendo de nenhum acessório que completasse o visual. As moças caíram de bunda no chão e olharam a serva, ainda assustadas.

_ Kelly… - Disse Cléo. - Está tentando nos matar?

A ruiva levou a mão ao peito sentindo o coração pular forte. Kelly soltou o pedaço de árvore no chão e levou as mãos a cintura olhando incrédula para as moças. Hadja levantava do chão ainda ofegante pelo susto e batia a mão na roupa tentando limpar a terra.

_ As senhoritas podem me explicar o que fazem aqui… E vestidas de homem?

_ É uma longa história… - Cléo informou.

_ Nós fugimos de casa! - Hadja deixou claro.

_ Ou não tão longa assim… - Concluiu a ruiva, por fim.

Kelly riu discretamente, e chegou à conclusão que as damas daquele reino eram muito independentes. Meneou a cabeça e continuou.

_ E por que fugiram?

_ Meu pai e o da Hadja acham que é perigoso vir ao castelo por enquanto…

_ E pensaram que poderiam nos trancar eternamente em casa… Doce ilusão.

Hadja revirou os olhos e por fim sorriu vitoriosa. Cléo concordou com a amiga.

_ Tentamos entrar em contato com Teyuki, mas não pudemos… Então viemos nós.

Cléo informou.

_ Como está Quatre? - Hadja olhou com olhos temerosos para a morena. - Por favor, Kelly… Me diz que ele está bem.

A serva estranhou a pergunta. A dama segurou na mão dela e seu olhar se tornava cada vez mais desesperado por notícias.

_ Você não sabe?

_ Sei o que?

Hadja sentiu o medo se apossar dela. Cléo pousou uma mão no ombro da amiga e outro sobre as mãos de Kelly que Hadja segurava e pediu também por uma resposta.

_ Kelly… Hadja está sem dormir direito há dias… Diga-nos, por favor, como está o senhor Quatre?

_ Que estranho… A princesa escreveu várias cartas para você, senhorita Hadja…

_ Por quê? Ele piorou? Não me diga que ele…

_ Calma…

A morena apertou a mão da dama de volta e sorriu para dar a informação.

_ Ele está ótimo… Acordou faz alguns dias e já está cuidando de muitos assuntos que dizem respeito ao reino.

Hadja soltou o ar e sua tristeza foi gradativamente se transformando em alegria, ao mesmo tempo em que uma lágrima escorreu de seus olhos. A felicidade não lhe deixava escolher se ria ou chorava, sentiu um alivio tão grande se apossar dela, levou suas mãos ao rosto e o escondeu, por alguns segundos, depois o descobriu e tinha os olhos molhados e um amplo sorriso nos lábios. Ela limpou as lágrimas e abraçou fortemente a Kelly e depois a Cléo. A primeira via a cena com satisfação e impressionada com a alegria que viu nascer nos olhos da dama. A segunda sentiu o alívio da amiga e também teve vontade de chorar, mas preferiu sorrir.

_ Onde… Onde ele está?

Hadja tentava se controlar ao passo que perguntava a Kelly, de forma incontrolável, sobre seu amado.

_ A última vez que soube, estava com seus amigos e o rei Heero no escritório…

Sem dizer mais nada a dama passou por ela e saiu correndo na direção indicada, apressada. A moça foi seguida por Cléo que queria acompanha-la. Kelly pensou que se alguém não as reconhecesse de longe, ela poderia explicar o que estava ocorrendo. As duas moças disfarçadas de homem, passaram pelos corredores levantando suspeitas e a atenção dos guardas. Por sorte Kelly pôde explicar de quem se tratavam, senão elas teriam sido paradas algumas vezes.

As jovens chegaram à porta do escritório e bateram várias vezes a espera de uma resposta. Heero e os quatro amigos que ainda mantinham o bom humor da conversa de antes estranharam as batidas frenéticas que ouviram. Heero se pôs de pé e ordenou que entrassem. Hadja abriu a porta passou o olhar pelo rosto de todos que ali estavam que por sua vez se surpreenderam ao vê-la naqueles trajes, e parou sobre Quatre, que estava sentado em uma das poltronas de visita frente à mesa. O loiro a olhou de cima a baixo e franziu o cenho ao ver sua dama vestida feito um camponês.

_ Senhorita Hadja…

A morena tirou o chapéu e o lenço de sua cabeça, e Quatre levantou ao vê-la chorando, a dama sem pensar em nada correu até o cavaleiro e o abraçou. Quatre a segurou no ar quando ela literalmente se jogou sobre ele. O cavaleiro entendeu então o motivo das lágrimas e começou a acariciar o cabelo, sedoso e brilhante, da moça, sentindo o perfume dela. Hadja estava suspensa do chão e pouco se importava que houvesse outras pessoas no cômodo. Ela afundou o rosto na curva entre o pescoço e o ombro de Quatre e sussurrou para só ele escutar.

_ Tive tanto medo de te perder…

O cavaleiro sorriu com a declaração e apertou ainda mais o abraço, tentando demostrar para ela que ele estava ali e não iria a lugar nenhum. Os quatro amigos ficaram compenetrados na cena que nem notaram que havia mais duas damas no recinto, desde o inicio. A cena era linda e mostrava um amor tão grande que dispensava as palavras. Duo então olhou para o lado e viu em baixo daquele chapéu, olhos verdes esmeraldas, desviando o foco do casal se abraçando e pousando sobre ele com altivez.

Cléo então retirou o chapéu e o levou até a cintura, fazendo uma reverência masculina para o cavaleiro, que riu de forma silenciosa para não estragar o momento do casal abraçado. Duo então olhou para os companheiros e informando que ia se retirar, com sua mirada, seguiu até a ruiva, que o abraçou em recepção. Duo, nem se importou com a presença dos demais e depositou um beijo delicado, mas cheio de sentimento nos lábios da moça. Depois foi até o ouvido dela e sussurrou algo:

_ Eu normalmente não me interesso por rapazes, mas com você eu abro uma exceção.

Ela riu baixinho com o gracejo e o beijou novamente, depois ele a segurou pela mão e deixou a sala. Heero deu sinal para os demais amigos e eles começaram a sair um por um, a fim de dar mais privacidade para Quatre e Hadja. Kelly e Wufei trocaram olhares e nada disseram, saíram juntos, sendo os últimos da fila, com ele deixando-a passar primeiro, fechando a porta ao sair.

Heero e Trowa seguiram para um lado, discutindo sobre a festa que dariam e Kelly e Wufei, seguiram para outro em silêncio absoluto. Ela estava indo para a cozinha e ele resolveu segui-la, com a desculpa de que iria tomar um café.

Hadja finalmente levantou sua cabeça e olhou para o cavaleiro, que ainda a segurava. Depois de escutar a porta se fechar e supor estarem sozinhos, ela decidiu falar com ele, mas ao olhar para os olhos doces de seu amado, as palavras desapareceram de sua mente, Hadja encurtou um pouco a pouco a distância entre seus lábios, deixando claro para ele sua vontade e o loiro, entendendo o recado, não esperou mais.

Quatre tocou seus lábios nos dela, primeiramente de forma doce e carinhosa, depois foi se tornando mais ardente, o beijo começou a ser mais lascivo, o cavaleiro sentiu a moça enlaçar sua cintura com as pernas e ele afrouxou um pouco seus braços ao redor dela para se ajeitar melhor, um braço ele desceu até a cintura dela, sustentando-a, e com a outra mão ele soltou o cabelo da morena, enlaçando seus dedos pelos longos fios.

Hadja se entregava completamente àquele beijo, seu corpo estava queimando por dentro e se pudesse nunca se soltar dele, o faria. Com uma mão segurou o rosto do cavaleiro para não se separarem e o com a outra, brincou com o cabelo liso dele. A declaração de sentimentos foi dispensada e ambos gostariam de se fundir naquele momento, mas isso seria improvável. Quatre encostou-se à mesa atrás dele, dividindo o peso e eles finalmente se separaram a procura de ar. Hadja sorriu, sentindo seu rosto arder e Quatre sorriu de volta de forma sedutora, acariciando o rosto da moça.

_ Eu não irei a nenhum lugar… Ficarei com você sempre…

_ Promete? - Ela perguntou. - Promete que nunca me deixará?

_ Eu juro.

Os dois voltaram a se beijar e passaram algum tempo namorando. Não tinham o que falar, não naquele momento. Decidiram ficar abraçados e se beijando até que alguém os procurasse.

Duo e Cléo imitaram os amigos e foram para o jardim, ele sentou no tronco de árvore tombado e ela se sentou no colo dele. O casal passou a tarde trocando juras de amor, abraçados e se beijando. A cumplicidade deles era admirável e invejável. Os casais foram interrompidos por Kelly, que foi lhes anunciar que o jantar seria servido e as damas eram convidadas de Heero, para se juntarem a eles a mesa.

O jantar foi animado, principalmente pela declaração de Quatre e Duo que expuseram publicamente seus interesses nas damas Hadja e Cléo. O romance deles era cativante. As jovens também tentaram conversar com o príncipe, com o intuito de fazê-lo recuperar a memória, já que elas foram informadas da triste realidade, mas Lúcius pouca atenção deu para elas. Seu olhar era diferente naquela noite. Ele estava mais sério e não parava de olhar para Heero e Relena durante o jantar.

-/-/-

Depois de jantarem, Duo e Quatre foram levar suas respectivas namoradas de volta à suas casas. Trowa que não sentia nenhum pouco de sono resolveu ir dar uma volta em seu cavalo, pegou sua espada e sua capa preta e saiu para um passeio ao redor do reino. O tempo estava fresco, mas o cavaleiro não se importou com o vento gelado que acertava seu rosto. Cavalgou sem rumo e quando percebeu, viu-se diante da mansão Yukiame.

Seu cavalo, Hevyarms, parecia inquieto, como se quisesse que seu dono fizesse algo, Trowa passava a mão no pescoço do animal tentando acalma-lo. O cavaleiro depois de muito tempo conseguiu atingir seu objetivo e voltou a focar seus olhos na propriedade. Trowa começou a cavalgar ao redor dos muros, verificando se tudo estava em ordem e viu uma árvore bem fácil de ser escalada e encostada no muro. Desceu do cavalo e o amarrou em um galho dela, depois escalou o tronco e quando chegou ao topo, pode confirmar o quão fácil era invadir aquele lugar.

_ Fique comportado Hevyarms…

Trowa pulou o muro e esgueirando-se pelas sombras alcançou a porta dos fundos da mansão, era de madeira maciça, forçou a maçaneta e constatou o quão nula era a segurança da família, a porta estava destrancada e ele entrou facilmente na cozinha.

_ Árvore facilitando o acesso ao topo do muro, sem guardas e porta destrancada… Pergunto-me como ninguém nunca entrou aqui.

Expôs em um sussurro sua indignação. Pensou em voltar para o castelo, mas algo o dizia que não custava nada confirmar se Teyuki estava bem. Resolveu então começar sua procura pela mansão, não tinha ideia de onde ficava o quarto da jovem, mas decidiu que o encontraria. Saiu da cozinha e com passos de gato, saiu à procura dos quartos. Passou pela sala de visita, seguiu por um longo corredor e chegou ao hall de entrada, subiu as escadas e começou a procurar pelos quartos. Abria porta por porta tentando o máximo de silêncio, até que finalmente, na última porta, encontrou a moça. Entrou e fechou a porta atrás dele.

Ele observou o quarto rapidamente e focou na jovem dormindo. Ela estava com seu cabelo longo espalhado pelo travesseiro, a coberta já não a tampava corretamente, limitando-se em ficar apenas sobre a perna esquerda, deixando a direita a mostra, sua camisola branca era iluminada pela luz da lua e a dama estava realmente tranquila em suas feições, como se nada pudesse incomodá-la. Trowa se aproximou mais da jovem e tocou o lençol, sentiu vontade de acariciar a pele branca dela, mas se conteve.

_ Não posso…

Ele decidiu ir embora do quarto e quando já estava abrindo a porta ouviu uma voz doce.

_ Quem está ai?

Ele virou o rosto para ver a jovem, agora sentada na cama, segurando o lençol sobre ela, tentando se esconder. Seus olhos eram apreensivos, a voz dela era baixa e a falta de luz sobre a porta do quarto escondia o cavaleiro que estava encoberto pela escuridão total. Trowa pensou em seguir seu caminho, mas sabia que poderia deixá-la muito assustada se simplesmente saísse sem dar uma justificativa. Fechou novamente a porta do quarto e caminhou até a luz que entrava da janela, vendo a expressão aterrorizada no rosto dela aumentar com o som dos passos dele na direção dela.

_ Sou eu, senhorita Teyuki… Trowa Barton.

Resolveu anunciar sua presença antes mesmo de atingir a luz, o que fez a moça soltar o ar de alívio e o lençol também. Teyuki sorriu aliviada, passando a mão no rosto e levando-a até o coração, se acalmando do susto.

_ Desculpe, não foi minha intenção…

_ O que faz aqui?

Ela o interrompeu, assim que recuperou consciência do que realmente estava acontecendo.

_ Em realidade… Vi uma grande falha na proteção de sua casa… E, portanto, resolvi entrar e confirmar que estava tudo bem.

_ E porque está em meu quarto?

_ Eu…

_ Esquece… Realmente não importa.

_ Você está bem?

Teyuki sentia-se incomodada, mas não era por ele, e sim por saber que ele não foi vê-la, por querer vê-la, e sim porque havia uma falha na segurança. Trowa por sua vez, entendeu que o problema era com ele e baixou a cabeça, agradecendo a pouca luz, para que ela não visse sua face de desapontamento.

_ Foi um erro. Peço que me perdoe…

O cavaleiro deu meia volta e saiu do quarto. A jovem demorou alguns segundos para ver que ele estava partindo e reagir. A dama levantou rapidamente e deixando de lado seu robe e chinelo, saiu correndo atrás de Trowa que já estava descendo as escadas.

_ Trowa!

Forçou a voz para que seu sussurro pudesse ser escutado e para sua alegria, assim se sucedeu. O cavaleiro parou no fim da escada e a mirou. Teyuki desceu os degraus encurtando o espaço entre eles, segurou Trowa pela mão e o puxou para que entrassem na biblioteca. Ela fechou a porta com chave, antes de voltar a encará-lo. O cavaleiro apenas observou em silêncio.

_ Desculpe-me… Não era minha intenção…

_ A senhorita não deve se desculpar… Eu nunca deveria ter invadido sua casa e muito menos seu quarto.

Ela o olhou confusa.

_ Não foi o fato de haver estado em meu quarto que me incomodou…

_ Então?

_ Foi o fato de ter estado ali apenas porque achou a seguridade da mansão ruim, e não por querer me ver…

Ela declarou e baixou a cabeça envergonhada. Trowa sorriu e se aproximou dela. Segurou o queixo da jovem e levantou o rosto dela.

_ Eu só entrei porque quis te ver…

Os olhos da moça começaram a brilhar, um arrepio percorreu seu corpo e ela viu naquele instante uma oportunidade que, talvez, não fosse ter nunca mais.

_ Trowa…

_ Sim…

_ Eu não quero passar o restante da noite sozinha…

As palavras dela, apesar de possibilitarem mais de um entendimento, para ele não houve nenhuma dúvida. Ele entendeu perfeitamente o pedido da moça e acariciou o rosto dela com a mão ao passo em que pensava em sua decisão.

_ Você… Tem ideia do que está me pedindo?

_ Sim… Tenho total consciência disso…

_ E tem certeza que é o que deseja?

_ De todo meu coração… Se tenho que ter minha primeira vez… Quero que seja com você… Trowa eu…

O cavaleiro não deixou a jovem terminar de falar e a beijou. Dessa vez, não era ele que recebia um beijo de surpresa e sim ela. Trowa a puxou para mais perto de seu corpo e desceu suas mãos pela cintura dela, passando pelo bumbum e ao chegar à coxa, a puxou para cima, fazendo a jovem cruzar as pernas atrás dele. Com ela agarrada nele, e sem interromperem o beijo, caminhou lentamente, até o sofá que estava no meio da sala, que ele havia decorado a posição quando entrou no cômodo.

Ele ajoelhou sobre o móvel e a baixou até que ela pudesse se deitar. Separaram-se para ele desamarrar a capa que portava, sob os olhos atentos da jovem. Trowa deixou cair no chão à peça de roupa, seguida de sua espada e abriu seu colete e camisa. Teyuki passou as mãos pelo peitoral nu e forte de Trowa, com um carinho e cuidado, como se ela tocasse uma divindade.

_ Eu te amo tanto…

A voz dela saiu de forma sensual, o que fez o corpo de Trowa se excitar, o cavaleiro, sorriu malicioso e voltou a beijar a jovem, agora com mais ânsia. Ele a apertava contra seu corpo, retirando gemidos da jovem. A dama abriu a boca, dando passagem total a ele e Trowa a puxou para seu colo. Ele sentou no sofá e ela sentou sobre ele com uma perna de cada lado, eles ainda estavam vestidos e o cavaleiro a acariciava ainda sobre a camisola.

A morena já não aguentava mais esperar, começou a retirar as roupas de seu parceiro, sentindo o calor aumentar dentro dela, Trowa já estava totalmente nu na parte de cima e com a parte de baixo aberta, graças a morena, que se sentia impaciente.

_ Calma…

A voz dele era rouca e sensual, o que fez a jovem ter seu desejo acentuado.

_ Trowa…

Ele entendeu o recado e passou a mão pelas pernas dela e lentamente começou a retirar a camisola da moça, depois a vendo pela luz da lua que entrava pela janela, observou com cuidado o corpo bem modelado que ela tinha. Com uma mão segurou um dos seios dela, o acariciando com cuidado e viu a jovem fechar os olhos, aproveitando o momento. Depois, ele a retirou de cima e terminou de se livrar de suas calças e botas, para então voltar a ajoelhar no chão, frente a ela.

A dama, não perdia a oportunidade de observar aquele homem, notando cada pedaço bem trabalhado daquele corpo e o quão excitado ele estava. Estremeceu com o fato de que em breve o teria dentro de si, que se fundiriam em uma única carne, e sofreu ao lembrar que em breve não seria mais dele. Mas, não permitiria que nada atrapalhasse sua felicidade naquele momento e logo, apagou aquela memória triste.

Trowa beijava o seio dela ao passo que retirava a última peça de roupa que faltava, a calcinha. Ele subiu a mão pela parte interna da coxa dela, sentindo a pele macia e lisa sob seus dedos até chegar a seu intimo, e o tocou. Teyuki gemeu e pediu que ele a tomasse. Trowa levantou do chão e subiu no sofá posicionando-se entre as pernas dela e a possuiu. Entrou lentamente para que a jovem pudesse se acostumar com a dor e depois esperou que ela desse permissão para continuar.

A dor sumiu e deu espaço para o prazer, Teyuki e Trowa finalmente se amaram e selaram o sentimento que havia entre eles, os beijos, os movimentos constantes de vai e vem, o abraço, as caricias, tudo deixou claro que entre aquele casal não existia apenas a luxúria do momento, mas sim um sentimento incontestável. Teyuki se tornou mulher nos braços de seu amado e nada e ninguém poderia inverter aquele quadro.

Trowa perdeu todas as dúvidas que ainda tinha com respeito a seus sentimentos por ela, e chegou à conclusão que poderia passar a vida inteira fazendo amor com ela, beijando-a e sentindo-a sua que nunca iria se arrepender ou se cansar. E Teyuki por sua vez, apenas confirmou o que seu coração já havia lhe informado, antes.

Continua...


Ola pessoal tudo bem?

Não coloquei notas iniciais dessa vez, pois não achei necessário.

Espero que tenham gostado do capitulo e me mandem muitas reviews. Ok?

Recebi as respostas das minhas repostas, de algumas de vcs... E prefiro responder depois pessoalmente (entenda via chat) pq algumas coisas que li... Requerem uma conversa depois. :)

Mas, quero agradecer o carinho de todas que tem acompanhado minha fic. E principalmente agradeço muito, o carinho e confiança que vcs tem em mim.

Espero nunca decepcioná-las.

Quem ainda não me mandou review do 18, saiba que não perdoo... kkkkkkkkk Pode mandar assim mesmo. rsrs

Enfim, creio que disse tudo, aguardo os comentários ansiosamente e obrigada por tudo mesmo!

Meninas, amo muito vcs! ;) Beijinhos e REVIEWS!