23. Agonia.

A noite fria não era o que assustava a moça que corria desesperada, sem se importar com os galhos finos que arranhavam seu rosto no percurso de sua fuga. Seu vestido azul havia sido reduzido a retalhos por conta dos rasgos, provenientes dos tombos e sua luta em liberar-se do agarre de seus algozes.

Seu corpo inteiro sangrava por finos e doloridos cortes, seu cabelo e sua pele se misturavam entre o vermelho dos ferimentos, com o marrom da terra e lama. Em sua corrida, voltou a tropeçar, indo de encontro ao chão cheio de pedras, galhos e folhas secas. Ignorou a dor e se obrigou a levantar ao ouvir as vozes dos homens que a perseguia.

Dos olhos cor mel, nublados de pavor, as lágrimas caiam involuntariamente e tentava a todo custo afastar da mente o terrível cenário que havia presenciado a momentos atrás. A casa de seu pai havia sido queimada com o corpo eviscerado dele dentro. O ferreiro lutou bravamente contra os bandidos, com o intuito de proteger sua filha, porém a cena tão horrível a impediu de correr antes, mesmo ouvindo os gritos de seu pai, para que fosse embora.

Suas pernas só recobraram vida, após ver o pai morto e as chamas consumindo o lugar que antes era chamada de lar pela jovem.

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Sentado em sua poltrona, a atenção do rei era toda voltada para a carta que escrevia com sua pena de cisne, a mente concentrada e os olhos azuis frios refletiam as chamas da lareira que crepitava, para esquentar a fria noite. Sozinho, já deveria ser meio da madrugada e não havia conseguido dormir, precisava resolver sua situação o mais rápido possível, ou não iria relaxar.

Heero guiava sua mão, parando para molhar um pouco mais a ponta na tinta e se concentrava em passar toda sua necessidade para as letras bem trabalhadas. Aquela era sua chance de acabar com seu martírio e não pretendia desperdiça-la. Enquanto assinava seu nome e lacrava a carta, selando-a com o emblema de Sank, escutou baterem na porta.

O guarda entrou anunciando que o jovem mensageiro havia chego. O rei deu ordens para que o deixassem entrar. O guarda saiu, deixando sua majestade de frente para um rapaz delgado, de cabelo claro e olhos escuros, que o reverenciava em respeito, mas, não se atrevia a olhar o rei, por medo de ser considerada uma afronta.

— Você não é o mensageiro real…

Heero sentenciou, apesar de saber que essa era a verdade, já que por ordem dele, havia sido chamado outro que não fosse o mensageiro oficial do reino.

— Não majestade… Meu irmão mais velho costuma se encarregar das entregas reais, mas por vosso pedido, eu vim em seu lugar.

— Quantos anos tem garoto?

— Tenho dezoito meu rei…

— Seu nome?

— Phillipe Miller…

— Olhe para mim, rapaz… - levantou o rosto, se armando de coragem, erguendo a cabeça e mostrando seu valor, satisfazendo Heero internamente. - Me diga Phillipe Miller, você estaria disposto em sair de viagem para fazer uma entrega sigilosa, porém de suma importância?

O rapaz assentiu com veemência.

— Será uma honra servi-lo meu senhor!

— Lhe pagarei muito bem pelo serviço, porém não deve dizer a ninguém para onde vai e nem a que irá. Nem ao menos a seu irmão ou mãe ou pai…

— Como ordene majestade.

— Posso confiar em você?

O rapaz pela primeira vez se atreveu a olhar nos olhos do rei, nem que fosse apenas por um segundo, mas deveria assegurar a seu senhor que ele era honrado.

— Tenho orgulho de servir ao rei de Sank e minha palavra é algo da qual me orgulho completamente meu rei. Enquanto viver, nunca o defraudarei.

— Ótimo. Conto com sua discrição e confiarei em sua palavra. Deverá partir ao amanhecer, dois soldados lhe acompanhará, velando por sua segurança, e deverá voltar em companhia deles me trazendo a resposta. Não volte sem a resposta!

— Como ordene meu rei…

— Os soldados que lhe buscará em casa daqui algumas horas, lhe informará seu destino.

Heero pegou um saquitel com uma boa quantia em dinheiro e entregou ao rapaz.

— Esse valor é apenas para a viagem, para que coma e durma, se precisar comprar algo extra, creio que terá o suficiente. Não há necessidade de me devolver nada. Em seu retorno, não fale com ninguém, me procure, apenas a mim, e lhe pagarei por seu serviço. Esse é um assunto apenas entre nós. Ficou claro?

— Claro como a água.

— Ótimo. - o rei entregou a carta nas mãos do rapaz. - Não a perca, não deixe ninguém abrir e não desvie de seu caminho. Se algo acontecer de errado, me envie alguma mensagem, mas escolha com cautela suas palavras.

Com uma reverencia o rapaz se despediu e deixou o castelo na calada da noite, partindo sob as sombras para não ser notado. Heero escolheu os soldados, confiáveis para acompanharem o rapaz em sua missão, deixando ordens que saíssem com os primeiros raios de sol e se recolheu à seus aposentos, incomodado por não poder passar a noite com sua amada.

-/-/-

O coração batendo rápido, o suor escorrendo pelo rosto e as pernas fraquejando pelo cansaço. A castanha implorava por socorro, internamente, já que se expelisse seus gritos como desejava, acabaria por delatar sua posição e isso era tudo o que não poderia acontecer. Sozinha, contava exclusivamente com a mata densa e a noite sem lua para se camuflar. Até o fato de ter a pele bronzeada em uma cor dourada, lhe pareceu uma bendição naquele momento.

Engoliu um soluço ao recordar o terror no rosto de seu pai, e os olhos perdendo o brilho quando sua vida foi arrancada cruelmente. As risadas sádicas dos malfeitores ainda ecoavam em sua mente, e desejou ardentemente, naquele instante ser um homem, forte e habilidoso para fazê-los pagar por tal atrocidade.

Pagar… Essa era a palavra chave.

— Se tão somente eu conseguir chegar ao castelo…

Sussurrou como se uma luz se acendesse em sua mente. Tinha certeza que o rei tomaria as rédeas da situação e os culpados sofreriam as consequências, impiedosamente.

Olhou ao redor e não vendo ninguém voltou a correr, se distanciando daquela pequena caverna que a mantinha segura há segundos atrás, estava desesperada e escolhendo um caminho, torcendo para que fosse o certo, correu com o máximo de força que ainda tinha nas pernas.

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Um camponês de cabelo castanho escuro até os ombros, olhos igualmente escuros, tristes. Caminhava a passos lentos, porém decididos em meio à noite. Sua mão segurava firmemente o lampião para iluminar seu caminho, se olhasse atentamente podiam-se ver as marcas de ferimentos e fraturas mal curadas, alguns dedos tortos que calcificaram no lugar errado, após haverem sidos quebrados inúmeras vezes. Seus pulsos exibiam inúmeras cicatrizes.

Seu rosto pálido revelava uma vida dura, deixando à mostra as várias rugas que escondiam o pouco da beleza que antes possuía, agora era um homem que se considerava apenas uma casca, com uma única razão de viver, sua filha. A idade de quarenta anos não condizia com sua aparência tão deplorável, de um homem que em um passado teve tudo, agora era alguém digno de lástima. Sentimento esse que odiava despertar naqueles que o rodeava.

Seu corpo magro demonstrava a situação financeira dele, mas não se queixava, nunca o fez em realidade. A única coisa que sempre teve em mente era proteger sua filha, e para isso, não media esforços. Com o corpo cansado, o coração magoado por saber que nunca mais exerceria sua tão amada profissão de pintor, e a determinação de manter a salvo sua filha, ele continuou subindo o terreno levemente inclinado, até que pode avistar o pequeno grupo de homens, fortemente armados e em meio deles, o senhor dos mesmos. O homem que era o culpado de sua mente não relaxar durante as noites.

— Está atrasado meu amigo…

A palavra: amigo, naquela sentença fez o camponês enjoar. Ele odiava aquele homem, mas mais ainda odiava tudo o que ele o obrigava a fazer. O nobre como sempre coberto por seu manto azul, com o capuz cobrindo o rosto, se escondendo em meio às sombras. Poucos realmente conheciam a identidade dele e o camponês era uma dessas poucas pessoas. Porém não poderia correr o risco de ser visto e reconhecido por ninguém, mantendo assim as devidas providencias para não se mostrar.

— Faria me um grande favor, milorde, de não me chamar amigo… Ser chamado por vos de cachorro me agradaria mais.

O camponês era audacioso até demais, mas sua insolência só conseguiu arrancar uma boa gargalhada do outro, que como sempre se divertia em atormentar o pobre a sua frente.

— Sério… Fico feliz de saber isso, já que sua aparência realmente me lembra mesmo a de um cachorro sarnento.

Soltou com desprezo no tom. O recém-chegado baixou ainda mais o olhar. Humilhação era algo constante em sua vida desde alguns anos. Se armando de coragem, deixou de lado aquele comentário e começou a falar.

— Para que me chamou?

— Deveria morder sua língua Maximilliam… Ou devo lembrá-lo de que eu tenho todos os direitos sobre você.

Maximilliam baixou ainda mais seu rosto, sentindo o aperto no coração por aquelas palavras. Era a mais pura verdade, infelizmente. Quando ele havia se tornado prisioneiro por conta de suas dívidas, foi esse maldito homem que o liberou de seu cativeiro e fez com que as torturas acabassem. Porém, o preço cobrado por esse socorro foi tão alto que ele por um minuto, gostaria de não ter sido salvo, porém só de imaginar o perigo ao qual teria exposto sua filha, Heiren, esse pensamento desaparece com rapidez.

— Quero saber onde encontrar mais garotas, adequadas.

— Não sei…

Ao dizer isso levou um tapa de costas de mão de um dos guardas do homem de capuz com tal força, que cambaleou.

— Pois então encontre novas garotas… - o líder ignorou o ocorrido e continuou em um tom de voz controlado. - Tenho compradores exigentes para elas. E faça isso logo.

Sem se despedir ou falar mais nada saiu dali, escoltado por seis guardas a subiu a uma carruagem que estava a uns dez passos largos deles. Maximilliam viu o homem entrar e logo o cocheiro tocou os cavalos e junto com a escolta, os homens começaram a desaparecer na escuridão.

O camponês caiu de joelhos levando as mãos ao rosto, sentindo as lágrimas escorrendo. Odiava ajudar aquele bandido, e já pensou inúmeras vezes em ir embora dali ou até mesmo ir até o rei Dante. Porém, se ele se aproximasse do castelo seria descoberto, se tentasse fugir, seria logo interceptado. E as palavras daquele homem, ditas no dia que o "salvou", ainda ecoavam em sua mente: — Enquanto você trabalhar para mim, e não tentar fugir ou me trair... Garanto a segurança de sua filha. Caso contrário, ela será a primeira que terei o prazer de tomar, violar e então… Decidirei se a venderei pelo melhor preço ou a manterei em cativeiro sob tortura.

— Eu sinto muito… De verdade sinto muito por cada vitima… Mas, eu não posso fazer nada.

Enxugando as lágrimas com pesar, levantou e começou a andar o caminho de volta á casa. Tinha que voltar logo, antes que sua menina percebesse que ele havia saído. E no caminho começou a se perguntar, como a muito não fazia, se haveria alguma chance daquele tormento acabar de vez.

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O folego já estava acabando, as pernas começou a falhar, o medo aumentava junto com a adrenalina e o tempo parecia se acabar, as vozes dos homens que a seguiam, parecia cada minuto mais próximas. Chegou ao limite da floresta e sorriu ao ver ao longe o castelo. Faltava um longo percurso ainda, porém já estava feliz em saber que havia escolhido o lado certo.

Respirou apressadamente tentando levar ar para os pulmões, a mão direita sobre o peito, às lágrimas que nunca abandonaram os olhos, nublavam um pouco sua vista, mesmo assim a pequena chama da esperança se apossou de sua mente e esse foi seu maior erro. Aquele pequeno minuto que parou para saborear a oportunidade de ser salva, a condenou completamente.

Levou a perna direita à frente para começar a correr de novo, sentiu seu braço esquerdo ser aprisionado em um forte agarre e puxada bruscamente para trás, saindo do campo aberto e sendo lançada para dentro da floresta com força, o que a fez cair de costas sobre o chão de terra com folhas secas. Olhou ao redor e seis homens a observavam com risos sádicos no rosto, três deles seguravam tochas para iluminar o local e podiam ver com perfeição o pânico nos olhos da jovem, que já não mais segurava o choro, e começou a soluçar.

— Qual seu nome mulher?

Perguntou um deles.

— Anee… Senhor... Por favor... Tem misericórdia… Deixe-me ir.

Ela rogou com a voz entrecortada, se colocando de joelhos. Porém isso apenas fez com que eles rissem mais.

— Veremos se você é uma boa mercadoria… E então decidiremos.

Aquele que começou a falar com ela, desamarrou as calças e as baixou. Anee engoliu em seco ao entender o que aqueles homens pretendiam. Por milésimos de segundos, lembrou o quão calma tinha começado aquela noite, o quão felizes estavam seu pai e ela, contando piadas, enquanto jantavam, até que aqueles malditos adentraram o sua casa e o inferno começou.

— Vamos nos divertir muito, querida.

A voz pastosa do bandido a tirou de seu devaneio e logo se sentiu ser imobilizada por dois deles, enquanto o que antes falava, começou a manuseá-la sem pudores e a moça pode sentir o hálito quente dele em seu rosto, antes de ser beijada de forma agressiva. Gritou quando ele abandonou seus lábios. Gritou com todas as forças, aquela era a hora de pedir socorro, nem que fosse proveniente dos lobos.

O bandido tentou tapar a boca dela, não por medo de alguém ouvir, já que não havia essa possibilidade, porém porque os gritos o incomodavam, e ela o mordeu com tanta força que arrancou sangue da mão dele. Irado com a atitude dela, bateu no rosto dela e a castanha sentiu como o sangue saia de seu nariz.

— Cale a boca sua vagabunda…

As lágrimas caiam e ela chorava copiosamente, ao passo em que ele retomou as asquerosas caricias ao corpo da mulher e rasgava a roupa dela para ter acesso total ao jovem e bem formado corpo da camponesa.

-/-/-

O homem da capa azul com capuz entrou em seu quarto e parou abruptamente ao ver o príncipe Lúcius sentado em uma poltrona brincando com uma adaga. O ruivo apenas levantou os olhos, que antes estavam fixos na ponta da arma, ao ouvir a porta se abrir. Mesmo assim, não se mexeu, levantou a cabeça e não esboçou nenhuma reação.

O homem, ainda coberto pelo capuz, terminou seu percurso logo depois de se recuperar da surpresa, e fechou a porta do quarto para não ser interrompido. Em momento algum fez qualquer movimento em tirar sua capa, apenas seguiu até uma mesa e se serviu de uma taça de vinho tinto, bebendo em seguida. Lúcius o seguia com o canto do olho, impacientou-se e começou a falar.

— Onde estava?

Mesmo coberto pelo capuz, o jovem príncipe pôde sentir o olhar mortal do homem sobre si, mas não se intimidou.

— Desde quando eu tenho que lhe dar satisfação, garoto?

O ruivo se ajeitou melhor na poltrona e guardou a adaga, encarando por completo o outro, convencido.

— Eu tenho direito de perguntar o que eu quiser… Ou devo lembrá-lo de que sou o príncipe?

— Pergunte se quiser, não tenho que responder. E devo lembrá-lo que você não tem poder nenhum sobre mim? Já me basta ter que fingir respeito e submissão a seu pai… Dante.

O homem praticamente rosnou, ao citar o nome do soberano do reino.

— Algum dia vou descobrir a razão de você odiar tanto meu pai?

— Algum dia…

Virou o corpo em direção ao príncipe e sentou-se ao pé da cama, com o rosto ainda coberto, resolveu descobrir o que o infante fazia em seus aposentos.

— Fale de uma vez…

— O que?

Perguntou fingindo-se de confuso.

— O que você quer? Estou cansado e quero dormir…

— Saiu para fazer mais alguma maldade?

— Deveria tomar cuidado com o tom que emprega perante mim, garoto…

Sua voz autoritária soou um tom acima do normal.

— E você acha que me põe algum medo?

— Não faça com que eu queira me livrar de você como quero fazer com seu irmão…

— Como se você fosse capaz de fazer algo contra o Heero.

O de capuz riu roucamente, com pouca graça, em uma mescla de irritação com nervosismo, perante a provocação do ruivo.

— Seu irmão… - rosnou, levantando-se rapidamente e completamente alterado. - Está me irritando a um nível que ele e você não imaginam… É bom começar a se despedir dele, por que em breve eu vou matá-lo.

— Perdoe-me por duvidar…

O homem encarou o ruivo, que se colocou em pé, lentamente. Caminhou até a jarra e se serviu de um pouco de vinho antes de continuar seu raciocínio.

— Para tocar no Heero, você deverá passar primeiramente por cinco homens. Os melhores guerreiros que Sank já teve…

— Cinco?

— Inclua meu estimado cunhado…

Levantou a taça em direção ao que estava perto da cama e logo bebeu.

— Cunhado por pouco tempo…

O tom debochado que o outro usou para relatar o fato, não passou despercebido e irritou profundamente o príncipe.

— Me juntei a você, porque me prometeu a Relena. Me garantiu que me ajudaria a tê-la… E até agora…

— Não jogue em mim sua incompetência. - Lúcius encarou com ódio o homem. - Você se casou com ela, a força. Bastava ter completado o serviço e a tomado a força.

— Acha que sou um monstro? - colocou a taça sobre a mesa, empregando mais força que o necessário. - Eu não sou capaz de violar uma mulher.

— Ela é sua mulher. Só estaria fazendo valer seus direitos. - falou calmo, porém firme.

— Ela não me quer…

Baixou os olhos com pesar, focando no líquido avermelhado da taça.

— Em compensação ela esta totalmente disposta em satisfazer os desejos carnais de Heero.

A Afirmação capturou novamente a atenção do ruivo.

— Você não tem provas disso.

— Não preciso. A tensão sexual que eles emanam ao estarem perto um do outro não deixa espaço para dúvidas…

Voltou a baixar a cabeça. Não tinha como negar, esse era um fato que até mesmo o homem mais cego do mundo poderia ter visto. Heero e Relena possuíam uma eletricidade tão absurdamente alta, que era possível sentir a tensão apenas ao entrar no mesmo ambiente em que estavam.

— Naquela noite... Era para ela ter sido minha.

Não precisou especificar a noite a qual se referia, o outro integrante do cômodo conhecia cada detalhe e sabia a que dia ele mencionava.

— Sim, seria… Se não houvesse sido tão estúpido em beber do vinho…

O ruivo ergueu rapidamente o rosto em direção do homem, se dando conta por primeira vez a algo que ele não havia pensado até a presente data.

— O vinho…

— Sim… Era apenas para ela beber. E não você. Se assim tivesse sido, ela teria dormido e você a teria tomado. Porém você teve que fazer besteira…

— Você… - ainda horrorizado com a constatação, continuou sentindo o rebuliço interno com aquele esclarecer. - Você pretendia que eu a tomasse, enquanto dormia? - esperou uma resposta que não veio. - Que espécie de degenerado você pensa que sou? - gritou.

— Da espécie apaixonado… - respondeu em tom normal, apesar de não ter gostado da forma exaltada que o outro falou. - Você não declara aos quatro cantos que a ama? Que ela é a mulher da sua vida? Se tivesse tomado um pouco mais de tempo em tentar convencê-la de que te desse uma chance, ao invés de se meter na cama da primeira mulher fácil que te cruzava em frente, talvez tivesse conseguido algo mais concreto.

— Não mude de assunto… - rosnou

— Não estou mudando! - gritou.

Ambos estavam se alterando rapidamente e aquilo não estava agradando ao de capuz, que por sua vez respirou algumas vezes antes de retomar sua fala.

— Era uma jogada perfeita. Ela tomaria o vinho, dormiria, e logo você a faria mulher e ainda nem precisaria se preocupar em excitá-la e temer que ela sentisse dor, por sua primeira vez. Na manhã seguinte ela não seria mais donzela e não teria volta… Mas não… Você tinha que beber…

— Quantas mulheres você já tomou dessa forma?

Perguntou, sentindo o gosto amargo do nojo, desprezando o homem a sua frente. Sabia que ele era uma pessoa ruim, mas aquilo o estava incomodando muito.

— Nunca… Gosto de ouvi-las gritar… Seja de prazer ou desespero.

Riu satisfeito e Lúcius fez uma careta de repúdio.

— Você é mais doente do que eu pensava.

— Cuida tuas palavras garoto… Minha paciência tem limite.

O silêncio reinou por um tempo no lugar, um olhando o outro. Até que algo na mente do de capuz o impulsionou a continuar.

— Se tanto se preocupa por sua amada Relena, porque não a solta? Dizem que o verdadeiro amor quer ver o outro lado feliz, mesmo que não seja ao seu lado…

— Não!

A resposta firme e agressiva do príncipe, somada com seus olhos injetados de ira, fez o de capuz sorrir.

— Ela é minha… Não a entregarei para o Heero. Relena ficará ao meu lado para sempre!

— Mesmo que você seja constantemente traído?

— Ela será minha… Cedo ou tarde! Apenas minha. E você me ajudará, é só por isso que te ajudo…

Ao dizer essas últimas palavras o ruivo deu a meia volta e a passos largos e apressados se retirou do quarto, batendo com força a porta ao sair. O de capuz soltou o ar, relaxado sorriu.

— Agora sim me deixou orgulhoso. Um homem tem que tomar para si o que quer, seja por bem, ou por mal…

Olhou um pouco mais a porta antes de se virar para se arrumar para dormir.

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O homem se levantou satisfeito e com um sorriso amplo no rosto, observando a moça que jazia imóvel deitada na terra. Seus olhos focados em um ponto qualquer no meio das árvores, vazios. As lágrimas caiam constantemente, mas ela não emitia nenhum som. Os olhos mel estavam apagados de qualquer brilho. Sua voz parecia haver desaparecido após tanto gritar e nunca receber o socorro desejado.

O homem se vestiu sem desviar os olhos do delicado e escultural corpo nu da castanha. Ele havia sido o último. Os seis homens haviam abusado dela, de todas as formas que quiseram, incontáveis vezes e ele havia sido o último a se satisfazer. Anee não se movia, em algum momento de sua agonia, havia apagado completamente sua mente. Não havia esperança, ninguém foi por ela e nem sequer iria.

— Miliardo…

Sussurrou o nome daquele que sempre amou, desejou e esperou. Em sua vida se arrependeu de muitas coisas. Dizem que quando se está para morrer, toda a vida passa como um filme por sua mente, e ela sentia sua vida desvanecer pouco a pouco, e com isso cada detalhe, cada caminho equivocado, escolha mal feita se mostraram em sua frente.

Talvez se ela tivesse tentado mais, não tivesse se envolvido com o príncipe, talvez tivesse procurado um caminho diferente, até mesmo ter se casado com alguém de sua classe social… Questões, dúvidas, detalhes que nunca seriam respondidos ou concertados. Ali estava, jogada ao chão em meia a floresta, em uma noite fria, sem lua e solitária, após presenciar a morte de seu pai, a destruição de tudo que tinha e passar pela pior humilhação que uma mulher poderia passar.

— O que fazemos com ela?

A voz pastosa mais pareceu um sussurro para seus ouvidos, não prestava atenção neles, já não mais. Após apagar sua mente e emoções, se desligou por completo, não importava mais o que faziam com ela. Ela só tinha um desejo em mente. A morte. E gostaria que ao menos isso lhe fosse entregue rapidamente, sem dor.

— Acha que nosso senhor vai querer ela? Veja-a… Esta mais morta que viva.

— Acha que não se recupera mais?

— Acho improvável… Mas devo dizer que ela é boa demais… Fazia tempo que não tinha uma mulher tão boa para cavalgar.

O comentário chulo do homem fez seus comparsas rirem e concordarem entre si. Ela ouvia sem ouvir. As lágrimas continuavam gotejando, seu corpo imóvel, parecia morto, sentia-se morta, mas infelizmente ainda respirava.

— Me mata…

Alcançou dizer em um murmúrio que eles não ouviram.

— O que acham de recomeçarmos? Já estou ficando excitado de novo.

Ela alcançou ouvir e compreender o que o último disse e suas palavras ecoaram em sua mente, uma, duas, três, milhares de vezes seguidas. Não entendeu a resposta dos demais, mas quando percebeu que o homem começava a baixar suas calças de novo, não teve dúvidas, todo inferno, todo aquele martírio começaria de novo. Desesperada em impedir isso e recobrando um pouco de suas forças, tomou uma decisão, que pensou ser a mais correta no momento.

Baixou levemente o olhar e notou a espada e a adaga do homem caída ao seu lado, sem parar em pensar uma segunda vez em sua decisão, levantou o mais rápido que consegui, sentando na terra, munida de uma força, uma adrenalina que se apossou dela naquele momento critico e sacando a adaga a fincou com toda sua força em seu próprio peito.

As risadas cessaram e os seis homens se calaram com a cena que viram. A mulher, cansada de sua tortura, se matou. Observaram como a adaga fincada até o cabo em seu coração apagava os olhos dela. O sangue começou a escorrer pelo canto da boca e pelo buraco aberto pela perfuração. O corpo tremeu em um espasmo e a luz se apagou completamente, antes que as costas dela voltassem a tocar o chão, caindo flacidamente sobre a terra.

Os seis ficaram sem reação, nunca haviam esperado aquela atitude, nunca imaginaram aquele final. Uma noite que começou trágica, teve um final inesperado. E lá no fundo algum deles sentiu uma pequena pontada de ressentimento pela jovem que eles tanto atormentaram naquela noite.

-/-/-

Pelo corpo pesado e o sono inexplicável, Heero acreditou que não fazia nem três horas que havia pegado no sono, e agora se colocava em pé apressadamente, vestindo-se em tempo recorde, com direito a armadura e todas suas armas. Olhou pela janela, o céu começava a clarear preguiçosamente.

Lembrando-se do desespero do guarda quando foi acordá-lo, informando que havia visto fumaça ao norte, pegou sua espada e saiu do quarto, no caminho, seus amigos se juntaram a ele, Miliardo e Lucrezia também se uniram ao grupo e saíram do castelo, encontrando seus cavalos já selados, subiram e partiram imediatamente o mais rápido possível em direção ao local indicado.

As chamas estavam se apagando aos poucos, porém a fumaça preta ainda era densa, se aproximaram, atentos a procura de algum sinal de batalha, mas só encontraram os restos, cinzas e sinal de que o inferno se apossou do lugar, havia rastros de sangue, e em meio ao fogo puderam distinguir a silhueta de um corpo. Aquilo deixou o grupo muito irritado, em especial a Heero.

— Senhor… Pegadas.

Uns três soldados acompanharam eles, um deles, o que foi informar sobre as chamas. O homem encontrou pegadas no meio a lama, Heero e seu grupo se dirigiram até o homem, confirmando o que ele havia anunciado.

— Quatre e Duo, fiquem com os soldados e comecem a listar os estragos e perdas, vejam se existe mais vitimas e desaparecidos.

— Certo.

O loiro e o de trança concordaram em uníssono, e o rei, junto com os demais, seguiram as pegadas para dentro da floresta. No caminho encontraram retalhos de tecido, presos em galhos, gotas de sangue em folhas e conforme avançavam o cheiro metálico se tornava pouco a pouco mais forte. Chegou um ponto da densa floresta em que se viram obrigados a desmontar dos cavalos.

— Soldado, fique e cuide dos animais.

— Sim, majestade.

Com a ordem dada, Trowa, Wufei, Miliardo, Lucrezia e Heero sacaram suas espadas e as empunhando, seguiram o caminho. A cada passo, a certeza de que encontrariam algo que não gostariam de ver, era maior.

Andaram por um bom tempo, até que o cheiro começou a ser incomodo demais, Noin levou a mão para cobrir o rosto, assim como Trowa e Miliardo, apenas Wufei e Heero, tentaram ignorar o cheiro da morte, se mantendo mais alertas que realmente focados no odor.

Os aglomerados de corvos foi o primeiro de viram, Trowa e Wufei se adiantaram e espantaram as aves de rapina, com o intuito de ver o que havia em baixo. A cena era assustadora. O corpo de uma mulher nua jazia toda aberto, as vísceras a mostra por seu ventre aberto.

— Mordida de lobo…

Constatou Wufei para a explicação dos órgãos expostos. Se agachou e continuou com seu relato, Ele e Trowa analisavam a cena mais próximos ao corpo. Perto da cabeça estava Miliardo, quem não emitiu nenhum som, Lucrezia e Heero a dois passos a direita do capitão da guarda, um pé atrás do mesmo.

— Pela perfuração no peito, eu digo que ela morreu com uma adaga no coração, pela forma que vejo a mão, ou ela tentou tirar a arma, ou ela enfiou...

— Ela foi violentada.

A voz de Trowa cortou o raciocínio de Wufei, conseguindo a atenção de todos, menos do capitão. O de rabo de cavalo olhou o amigo, que apenas apontou o chão, provando o que disse. Ali puderam constatar os restos de sêmen, o que justificava perfeitamente a roupa rasgada e o corpo exposto, completamente nu e com as pernas separadas.

— O que aumenta a possibilidade dela ter se suicidado…

O moreno levantou e percorreu o rosto de todos os presentes. Lucrezia sentiu um aperto no coração com a imagem a sua frente que por primeira vez, apesar de estar mais que acostumada em ver pessoas mortas, se compadeceu pela jovem ao ponto de lutar com as lágrimas que encheram seus olhos, inesperadamente. Mas, o que chamou a atenção do moreno, foi Miliardo.

O capitão da guarda estava pálido feito à neve, com a boca levemente aberta e os olhos fixos no rosto aterrorizado da mulher caída a sua frente.

— Miliardo… Tudo bem?

A pergunta de Wufei chamou à atenção dos demais do grupo, que olharam para o loiro minunciosamente, a espera de uma resposta que não veio.

— Miliardo?

A voz de Heero o forçou a articular alguma resposta.

— Anee…

Foi praticamente um sussurro, mas foi escutado claramente por todos os presentes.

— Você a conhecia?

Trowa expôs a pergunta que rondava a mente de todos os demais homens.

— Anee Stefens…

A voz feminina se manifestou, não em forma de pergunta e sim de constatação. A mulher recordou uma conversa que teve com seu amado, onde Miliardo lhe narrou o interesse que a jovem em questão alimentava por ele, mas assegurando a guerreira de que era um sentimento unilateral, apenas proveniente do lado dela. O capitão não falou nada. Não precisou, era óbvio. O loiro estava em estado de choque e aquilo foi a gota d'água.

Pela primeira vez e surpreendendo a todos os amigos, que eram mais como irmãos dela, a morena chorou. A face de guerreira por primeira vez em sua vida foi quebrada e as lágrimas escorreram sem barreira. Heero que estava ao lado da mulher a puxou para um abraço. Noin acomodou a cabeça na curva do pescoço do rei e se deixou ser consolada pela pessoa que nunca consolou ninguém, mas que naquele momento, teve vontade de acolher sua irmã de coração.

Zechs não conseguia se focar em sua amada, por mais que quisesse. Sentia-se de alguma forma responsável. Não que ele tivesse feito algo para que aquele cenário macabro ocorresse, mas no fundo de seu ser, sentiu que falhou em proteger a jovem. Ele se sentiu culpado por cada vez que não usou tanta delicadeza para rechaçar os sentimentos da jovem. Ele sempre gostou da camponesa, não como ela desejava. Seu coração foi tomado pela guerreira que chorava nos braços do amigo a apenas a alguns passos dele há muito tempo, desde que a viu. Mesmo assim gostava da camponesa, como uma amiga, mas era um gostar ao fim.

E o fato de vê-la ali, morta e pensar em todo o inferno que deve ter passado, fez com que um sentimento assustador de culpa o invadisse e se não fosse bom em controlar seus próprios sentimentos, talvez até chorasse. Queria tanto tomar Lucrezia em seus braços e confortá-la pessoalmente, mas por alguma estranha razão, se sentiu envergonhado.

— Trowa… Mande prepararem um caixão, vamos enterrar os corpos.

Informou Heero e o castanho avançou pelo caminho que os levou até ali, para mandar um soldado a buscar o carpinteiro para montar o caixão.

— Wufei você se ocupa disso com Trowa, esta bem? Vou mandar dois soldados para ajudá-los. - o moreno assentiu. - Miliardo volte para o castelo.

— Mas…

O capitão tentou falar algo e foi logo interrompido pela voz autoritária de Heero.

— Não é uma sugestão. É uma ordem. Volte para o castelo!

O capitão assentiu e cabisbaixo deu a meia volta e seguiu o caminho de Trowa.

— Agora eu deixo tudo nas mãos de vocês… Vou levar a Lu para descansar…

Heero, sem soltar à morena, deu a meia volta, com a mão na cintura da guerreira começou a guiá-la para fora do local. Ao saírem da floresta, puxando seus cavalos, Zechs percebeu o que não havia notado antes. A casa que havia sido reduzida a cinzas era a casa do ferreiro, pai da jovem Anee. A dor no peito do capitão se tornou ainda maior. Era um bom homem que morreu e aquilo fez com que uma ira se apossasse do loiro.

— Esse devia ser o pai dela.

Falou para Heero, apontando com sua espada - que ainda carregava na mão - para o corpo carbonizado, que retiraram do meio dos destroços.

— Direi que o enterrem junto à filha. Agora vá…

Zechs assentiu e montou no Tallgeese para logo em seguida partir a toda pressa em direção ao castelo. Lucrezia se desvencilhou de Heero, um pouco mais calma, e observou seu amado partir, sem olhar para trás. Heero aproveitou a oportunidade e chamando Duo e Quatre em um canto, contou aos amigos tudo o que havia sucedido, justificando assim a razão da morena chorar e acalmando a preocupação que se refletiu nos olhos deles, ao verem a amiga sair da floresta. Deu ordens para que cuidassem de tudo, inclusive do enterro dos corpos, cuidando em deixar pai e filha juntos. Deixou ordem para os soldados auxiliarem a Wufei e partiu.

Ajudou Lucrezia a subir em seu cavalo e após imitá-la sobre o lombo de Zero, partiu a passo moderado acompanhado lado a lado da mulher, quem se manteve calada todo o percurso.

-/-/-

Miliardo se refugiou diretamente em seu quarto após chegar ao castelo, não queria ver ninguém, precisava de um momento sozinho, sentia-se culpado, por mais que não o fosse e precisava colocar sua mente em ordem. A lembrança do corpo daquela jovem camponesa que um dia havia sido tão vivaz, morta. Seguida pela visão de sua amada chorando, aquela que fazia seu coração disparar com apenas sua presença, que precisou dele e não o encontrou não o deixava em paz.

Sentiu-se incapaz. E incapacidade era um sentimento que nunca havia conhecido. Estava machucado, e precisava se ajudar, antes de ajudar a qualquer pessoa. Naquele momento não entendeu a razão pela qual Heero o havia mandado embora, mas agora sentia que devia agradecer ao amigo. Ele realmente não estava com estômago para lidar com o assunto naquele momento.

Seus pensamentos desapareceram com uma batida baixa, porém firme na porta que foi o suficiente para o capitão ouvir. Foi o tempo do homem levantar a cabeça que estava sendo sustentada pelas mãos - enquanto seus cotovelos apoiavam nas pernas - sentado aos pés da cama, e viu sua irmã colocar a cabeça para dentro do quarto.

Com aquele sorriso doce e tão característico da princesa, ela pediu em silêncio permissão para entrar. E o diminuto sorriso do capitão somado com fato dele não ter emitido nenhum som em recusa, foi o suficiente para ela entender que poderia seguir em frente. Com graça entrou e fechou a porta com delicadeza. O som do salto batendo no chão de pedra era o único som do ambiente. Mas logo desapareceu, quando ela passou a andar sobre o tapete.

Miliardo apoiou o queixo nas mãos e observou à irmã se aproximar dele e logo se sentar ao seu lado. Ela apoiou a mão no ombro masculino, como forma se fazer presente e logo entrelaçou o braço esquerdo no direito do irmão e deitou a cabeça no ombro forte do loiro. Miliardo encostou-se por inteiro nela e ficaram em silêncio por um tempo. A mente do capitão se acalmou e a companhia um do outro foi o suficiente por alguns minutos, até que ela quebrou o silêncio.

— Me disseram que você havia voltado e não falou com ninguém…

Fez uma pausa e ele nada disse.

— Disseram que parecia deprimido… E que ocorreu outro ataque ao reino.

Outra pausa, sem resposta vocal. Mas, ele se mexeu e ela sabia que isso o fez recordar algo. Logo o capitão levou a mão da irmã até os lábios e beijou com carinho.

— Quer conversar sobre isso?

Levantou a cabeça para olhar o irmão, sua voz era doce, controlada e embargada pela preocupação. Conhecia Miliardo como ninguém. Passou a maior parte de sua infância correndo atrás dele e aprendeu a admira-lo. Era seu confidente e amigo. Alguém a quem ela devia tudo e por quem ela faria tudo.

— Foi… - ele começou e titubeou. Logo soltou o ar pesadamente e retomou. - Terrível.

Ela assentiu o instigando a continuar o relato.

— Era Anee… Anee Stefens.

A princesa puxou em sua memória e se recordou da jovem camponesa que um dia cruzou no corredor do castelo, totalmente apaixonada por seu irmão.

— Me lembrei dela… Ela era muito linda. - e como se a realidade lhe viesse em cima, ela entendeu o que o irmão estava tentando dizer. - Ela esta… Morta?

Arregalou os olhos surpresa, que aquela pudesse ser a realidade. Miliardo assentiu e respondeu, reafirmando a resposta.

— Sim… Foi horrível. A cena foi horrível…

— Eu… Sinto muito.

E ninguém poderia duvidar da veracidade de tais palavras, que foram pronunciadas com tamanho pesar. O capitão apenas lhe dedicou um triste e diminuto sorriso, antes de voltar a olhar para a mão da irmã que estava segura, junto a dele.

— Esses… Monstros… O pior é que me sinto culpado.

Relena franziu o cenho com aquela descoberta. Era ilógico para a jovem princesa.

— Eu não vejo razão para tal. – sincero-se.

— Ela me amava…

— E? O fato de ela te amar, não significa que você seja culpado de algo. Os culpados estão lá fora, causando terror e estrago ao reino. E tenho certeza que quando você, Heero e os rapazes os encontrarem, pagaram por cada desgraça cometida. E pelo que posso ver de vocês, pagaram muito caro.

Zechs riu sem graça.

— Se os pegarmos, você quer dizer… Eles estão sempre um passo a frente.

Aquilo irritou a princesa. Esse homem ao seu lado poderia ter a aparência, voz, cheiro e o nome de seu amado irmão, mas não era ele. Miliardo nunca se mostrava pessimista e com baixa autoestima. Ela se levantou e se agachou em frente a ele, para conseguir olhar em seus olhos.

— Nunca… Ouça bem. Nunca, repita isso. Eu confio em vocês. E sei que encontraram os culpados e cobraram cada morte injusta. Mas, não quero vê-lo cabisbaixo. Miliardo… Você é um dos homens mais fortes que vi em toda minha vida. A morte de Anee foi uma fatalidade, terrível, triste, mas é só. Você não tinha como adivinhar. E tenho certeza absoluta que se por algum momento você apenas tivesse imaginado que algo assim ocorreria, não duvido que tivesse ficado de guarda a noite inteira na porta da casa dela.

A risada triste dele a calou e como resposta ela sorriu.

— Desde quando minha irmãzinha tem tanta fé em mim?

— Desde sempre!

Os olhos dela estavam cheios de carinho e compreensão.

— Ela me amava… Eu nunca consegui corresponder a isso. Amo a Lucrezia com todas as minhas forças.

— Sei disso. E não é sua culpa. No coração não podemos mandar… Veja minha situação.

Ela ergueu uma sobrancelha e torceu a boca, com quem diz: Veja minha deplorável situação. E ele riu dessa vez com graça.

— Você está encrencada irmãzinha…

— Obrigada por dizer o óbvio.

Fingiu um falso aborrecimento pelo comentário do irmão e este riu com mais animo. Conseguindo que o loiro começasse a relaxar ela sorriu gentilmente.

— Fiquei tão desnorteado… Anee me amava, confiava em mim e eu não pude, ao menos, salva-la desse fim horrível. - Relena segurou forte a mão dele. - Ela deve ter sofrido tanto… Existe a possibilidade de que ela tenha se matado.

Com essa revelação, a loira deixou escorrer por seu rosto angelical uma lágrima, de pura tristeza. Sentiu a dor de seu irmão. Entendia com perfeição o que ele estava passando e podia imaginar a bagunça que deveria estar a mente do mais velho. Porém, mesmo assim não poderia aceitar que ele se culpasse de algo que não tinha nenhuma parcela de culpa.

— Ela...

— Lucrezia estava lá… - cortou a irmã e continuou. - Ela ficou tão impressionada com a cena… Juntando ao fato de reconhecer a Anee… Ela chorou. Nunca tinha visto a Lu daquele jeito. Ela é sempre tão forte... Tão guerreira. E nem ela aguentou. Chorou e eu não tive força para consolá-la, para tomá-la em meus braços e abraçá-la… Heero quem teve que cuidar dela.

A mais nova apenas ouvia os relatos. Ficou impressionada e orgulhosa em saber que seu amado havia cuidado de sua cunhada, mas logo sua mente se focou em seu irmão, destruído, a sua frente.

— Tenho certeza que Anee não te culpa e Lucrezia entende perfeitamente o que aconteceu com você.

— Será? - olhou com dúvida para a loira. - E se ela também me julgar culpado por Anee e não querer mais saber de mim? Eu deixei uma garota inocente, desamparada e posso perder a única mulher que amo, por ser incompetente demais.

Relena se colocou em pé abruptamente, ganhando a atenção do mais velho. Deu as costas para o capitão e quando voltou a encará-lo, sua feição estava fechada em uma mescla entre nervosismo e decisão.

— Já chega! - soltou. - Não aceito te ver se lamentando. E tenho certeza que Anee também não aceitaria se estivesse viva. Quando amamos alguém, verdadeiramente, queremos acima de tudo ver essa pessoa feliz. Quer honrar a memória dela? - perguntou o encarando nos olhos. - Erga essa cabeça, levante dessa cama e vá se explicar com a Lu. Logo em seguida, coloque toda sua força em localizar e capturar esses monstros. Faça-os pagar! Mas, não se lamente mais. Não aceitarei isso!

Miliardo ergueu as duas sobrancelhas em espanto e se levantou, ereto, como todo um príncipe sem título. Um nobre em seu mais perfeito exemplo, viril e imponente. O irmão ao qual ela sempre admirou. E com um sorriso de canto ele perguntou.

— Desde quando você se tornou tão altiva e decidida irmãzinha? Acho que já vi essa expressão no rosto do Heero. Ele está te influenciando demais.

Seguraram um o olhar do outro por uns segundos até que ambos começaram a rir, relaxando por completo seus corpos. Logo ela caminhou até ele e o abraçou pela cintura. Miliardo a enlaçou com força e sussurrou um obrigado antes de depositar um fraternal beijo na cabeça da menor.

Foram tirados de seu momento com algumas batidas fortes na porta, que se abriu logo em seguida, deixando a mostra a poderosa imagem do rei Heero. O moreno se surpreendeu ao ver Relena ali com o irmão, mas sua face não demonstrou nenhuma mudança. Entrou e fechou a porta, caminhando até os irmãos, ficando a dois metros de distância dos mesmos, que permaneciam meio abraçados.

— Como se sente?

Heero indagou. Miliardo e Relena trocaram um olhar cumplice e o loiro sorriu.

— Bem melhor. Obrigado.

Heero assentiu.

— Lucrezia esta em seu quarto.

Miliardo sorriu e após depositar um beijo no rosto da irmã, a soltou. Passou por Heero, colocando a mão no ombro do amigo, naquela forma tão deles, de agradecimento, cumprimento e até mesmo de expressar a afeição que sentiam entre eles, para logo sair do quarto deixando o casal sozinho.

Heero olhou para sua amada, que o observava com um sorriso travesso e olhos brilhantes.

— Devo sentir ciúmes?

Ele provocou e era alargou o sorriso achando graça.

— Do Miliardo? Sempre!

Ele a encarou com um sorriso arrogante de canto, logo estendeu a mão e ela aceitou, sendo puxada bruscamente até ter seu corpo colado ao do rei. Heero segurou o rosto da princesa entre suas mãos, olhando atentamente aqueles olhos brilhantes que sempre o enfeitiçaram. Ela o segurou pela cintura a espera do porvir.

— Eu amo você!

E com essas palavras pronunciadas pelo moreno, ele a beijou com fervor. Aquele desejo reprimido, a saudade que sentiu dos lábios daquela mulher, da pele, do cheiro dela, tudo lhe veio em cima com uma força incontrolável e tê-la a sua mercê naquele momento era algo que não poderia expressar o quanto o alegrou.

A loira sentiu a força da paixão de seu amante de forma abrupta, de inicio, aquele ataque desesperado até a deixou sem reação e a forma com a qual ele tomava seus lábios, causou certo desconforto, porém logo os ânimos começaram a se relaxar e por mais que o desejo não tivesse diminuído, a força empregada diminuiu. Ela começou a acompanhar os movimentos de seu amado e o beijo se tornou necessitado para ambos os lados. E quanto mais se beijavam, cheios de paixão, mais do outro queriam.

A falta de ar se fez insuportável e separaram os lábios, porém não se soltaram e mantiveram as testas colada uma na outra e os olhos fechados, enquanto a respiração estava entrecortada.

— É uma pena que esse seja o quarto do seu irmão.

Ela riu com o comentário e se atreveu a olhar para ele, o abraçando mais forte.

— Por quê? Acaso pretendia fazer algo indevido comigo, milorde?

Fingiu uma falsa inocência e Heero sentiu um desejo enorme de mandar ao inferno o fato de estar no quarto de Miliardo.

— Não me provoque princesa…

— Eu seria incapaz, meu senhor.

Ele capturou o lábio inferior dela com os dentes, mordendo de leve e ela sentiu a excitação percorrer todo seu corpo. Necessitava estar com ele, sentir seu corpo forte se apossar do dela, fazer amor com aquele homem que tanto amava e desejava.

— Acho que deveríamos sair daqui. - recapacitou.

— Eu quero você! - ele concluiu.

— E eu você… Mas aqui e agora, não é hora e nem lugar.

Heero suspirou frustrado. Ela estava mais que certa sobre isso. E não viu a hora de sua carta chegar a seu destino e ter a resposta o mais breve possível. Quando a tivesse para ele oficialmente falando, tomaria um dia, não... Uma semana, melhor, um mês. Apenas para se perder nos braços daquela mulher que o deixava louco. Ela vendo que ele não a soltava, declarou.

— Eu te amo!

Heero a olhou nos olhos, apreciando aquelas três palavras que aquecia de forma única o seu frio coração. Voltou a beijar sua amada. Expressando toda volúpia que sentia por ela, e em um anúncio carnal, que ela era dele e de ninguém mais. Após algum tempo, trocando beijos ardentes, cheios de promessa e inibindo todo o apetite sexual que sentiam um pelo outro, se obrigaram a abandonar o cômodo. Antes que cedesse a tentação correndo o risco de serem descobertos. Cada um saiu separado do outro, esperando um pouco para que ninguém os visse juntos, tomando caminhos opostos e com pesar pela distância, mas alegria por saber o quanto eram correspondidos um pelo outro.

-/-/-

A morena se olhou no espelho pela última vez. Havia trocado sua roupa de batalha por um vestido preto com detalhes em renda. Manga longa, de ombros de fora em um decote canoa. O vestido possuía detalhes de formas rococós em cinza na saia e no meio do corpete, porém nada chamativo, ajudando a acentuar o negro do todo. Seu cabelo curto estava bem penteado e sua franja jogada para o lado direito, presa por uma presilha de diamante. Os brincos eram conjuntos da presilha, de tamanho médio, adornando as laterais do rosto da bela dama. Os lábios levemente rosados e os olhos azuis escuros delineados, porém ainda mantinham o brilho deixado pelas lágrimas.

Estava triste. Na realidade não sabia ao certo o que havia ocorrido a ela, se sentia uma estúpida por haver chorado daquela forma por uma desconhecida, não tão desconhecida, porém alguém com qual nunca havia interagido, não havia conversado, conhecido e ainda era apaixonada pelo homem que ela amava. Seu homem, seu noivo e seu futuro marido. Aquele por quem ela tomou a decisão de que seria o homem que queria ao lado para sempre.

Suspirou pesadamente, se sentia cansada. Muito cansada. Sua mente viajou de volta aquela imagem grotesca e seu coração voltou a apertar. O sentimento de frustração que rondava Heero e seus amigos, era o mesmo que não a deixava em paz. Queria encontrar logo esses monstros e acabar de uma vez com esse pesadelo. Apesar de saber que a vítima nutria sentimentos por seu homem, não conseguiu deixar de sentir compaixão por ela.

Dor que só piorou ao imaginar o quanto ela devia ter sofrido, o quanto talvez houvesse gritado por socorro quando aqueles malditos e inescrupulosos a violentaram sem piedade, mataram seu pai… Dor essa que a levou a morte, que pelo que puderam observar, alivio esse tão desejado que foi cumprido por suas próprias mãos.

— Eu sinto muito…

Já era a décima vez que ela pronunciava as três palavras para o vazio. Não havia ninguém para ouvi-la, porém desejava que a jovem camponesa pudesse escutar, de alguma forma e perdoá-la por não ter podido ajudá-la. Mas, não podia seguir se enganando eternamente. Uma das coisas que mais a afetou, a magoou e desestruturou, não foi o cenário assustador e sim ver nos olhos de Miliardo aquela culpa, aquele sentimento de vulnerabilidade, aquele desespero ao encontrar a jovem ali.

— Será que em realidade ele a amava?

Certas perguntas precisava expor em voz alta, pois senão poderia sentir que não eram reais, que tudo não passava de uma alucinação. Mas o incrível, é que mesmo falando, elas não se tornavam reais. Sua mente estava confusa. Nunca desejaria um final daquele a alguém e saber que ela, podendo ter salvado aquela jovem, não estava no lugar e hora certa no momento certo a deixava desapontada com ela mesma. Era uma mescla de sentimentos contraditórios que a invadia e mesmo assim, só desejava uma coisa ser abraçada por aquele que a negou consolo, por estar mais necessitado que ela naquele momento.

Estava tão perdida em seus devaneios, com o olhar fixo em suas mãos unidas frente a seu corpo, com a imagem refletida pelo espelho de corpo inteiro que se sobressaltou com a batida mais forte na porta. Pela forma do som, imaginou que quem quer que fosse já estava cansado de esperar uma resposta. Virou o rosto a tempo de ver a porta se abrir cuidadosamente, e por ela poder vislumbrar o rosto de arcanjo de seu amado capitão da guarda, que abriu sem esperar autorização, por estar preocupado pela falta de resposta.

— Posso entrar?

A voz forte e rouca do loiro fez com que a imagem que ela via tão concentradamente, ao olhar o rosto dele se fizesse real. Mesmo assim, apenas assentiu. Receoso ele entrou e fechou a porta antes de se dirigir até ela, parando a escassos centímetros de sua amada, mas sem tocá-la.

— Me… - ele começou e ela apenas o olhou nos olhos. Azul escuro encontrando azul céu. - Me desculpe!

E ele foi tão sincero em suas palavras que uma lágrima solitária escorreu do olho direito da guerreira. Lucrezia não suportando mais a distância, eliminou o espaço entre eles e o abraçou com força, se aferrando ao pescoço do homem, que a rodeou pela cintura, firmemente, demonstrando o quanto necessitava dela.

— Eu… Eu…

Tentou falar, precisava dizer a ele que o amava... Que sentia muito pela morte de Anee, que gostaria de ter podido salvá-la, que queria ter conseguido consolá-lo, porém as palavras não saíram.

— Não precisa falar nada, meu amor… Eu sei!

E a compreensão por parte dele a fez se sentir ao mesmo tempo completa e vazia. Seria possível tamanho contraste?

— Eu gostaria…

Começou se separando um pouco do agarre forte do homem, desejando olhar nos olhos dele, mas quando pensou que conseguiria falar algo, foi calada por um beijo intenso, onde ele deixava claro que a queria, a necessitava desesperadamente. Só ela e mais ninguém. Deixou-se guiar por aqueles lábios experientes, desejosos, quentes e que tinham o dom de aplacar todos os seus medos.

Perdidos em seus anseios, no calor dos corpos juntos, da macieis dos lábios e da necessidade de se tocarem eles conseguiram apagar a dor e o vazio que havia rondado seus corações naquela manhã. O beijo se tornava cada vez mais exigente e pleno, queriam estar juntos, precisavam sentir que eram completados um pelo outro, mas não naquela hora, sentiam que seria uma desonra a memória da vítima naquele momento. Porém não abririam mão de explorar os lábios e a boca por completa um do outro, naquele furor da paixão, transmitido por aquele beijo.

Zechs percorreu a as costas daquela que tanto ansiava, subindo até capturar o rosto delicado da mulher entre suas mãos. Com as mãos posicionadas entre a mandíbula e a nuca, aprisionando-a para que não se separasse dele. O homem precisava desse contato, desse momento, queria senti-la com todo o seu corpo, queria ter a certeza de que ela não poderia fugir e nunca mais seria de ninguém. Era um sentimento sufocante e só naquele momento conseguiu compreender a extensão do mesmo.

Naquele momento ele se rendeu conta de algo que não havia notado antes. O medo. O medo que o percorria, o pavor em pensar que algo poderia acontecer a sua amada, que se ele falhasse em algum momento ela poderia ter o mesmo fim da jovem que ele não pode proteger e aquilo o estava corroendo. Não poderia permitir que isso ocorresse, nunca. Lucrezia Noin era sua. Sua noiva, sua mulher, sua amiga e em breve sua esposa, trazendo com isso todos os direitos que ele ansiava por gritar ao mundo e deixar claro a qualquer maldito que se atrevesse a olhar para ela.

Miliardo nunca havia sido tão possessivo. Só era superprotetor com sua amada irmã, mas Lucrezia despertava nele um sentimento novo e cheio de ramificações que o sufocavam quando não a tinha em seu raio de visão e o destroçava por dentro ao não tocá-la, mesmo que fosse apenas um toque inocente. Mas, tê-la em seus braços era a parte favorita do capitão. O beijo se tornava cada instante mais ardente e uma coisa levava a outra. A morena baixou suas mãos envolvendo seu homem pela cintura forte e estreita dele, apertando as mãos em suas costas fortes e largas, sentindo os músculos por baixo da bata preta.

À distância até a cama da mulher era tão curta e estavam sozinhos, perdidos em sentimentos, desejos e o mais puro e verdadeiro amor. Quando o loiro forçou o corpo de sua amada - levando uma mão na cintura dela para segurá-la - obrigando-a dar um passo atrás, foram interrompidos por uma forte batida na porta. De má vontade se separaram. O capitão apoiou sua testa na dela, sem abrirem os olhos, ambos tentando recuperar o fôlego e um pouco da compostura que havia desaparecido, ao passo que a excitação tomava conta deles.

— Entre…

A voz forte do capitão foi ouvida, após eles conseguirem se controlar o máximo possível. E a contra vontade se soltarem, porém, ele não permitiu que ela se afastasse, mantendo-a presa por suas mãos unidas, com os dedos entrelaçados. A porta se abriu e um soldado entrou, pedindo desculpas pela intromissão. O ar era repleto de tensão sexual reprimida, o que fez o homem se sentir incomodado, ao notar o quão indesejado ele era aos olhos do capitão.

— Eu só vim informar que a família Stefens já foi sepultada. Vossa majestade, o rei Heero pediu que lhe informasse meu senhor.

— Está bem soldado… Onde foram enterrados?

— Perto da colina, junto com as demais vitimas…

E o capitão e a guerreira sabiam que as vitimas citadas, eram todas as pessoas que haviam morrido nos últimos ataques ao reino. Heero havia pedido que encontrassem um campo aberto e verde, bonito, para que aquelas pessoas inocentes pudessem ter o merecido descanso. Zechs assentiu e o homem reverenciou a ambos, saindo em seguida. Precisava sair dali e dar a privacidade merecida ao casal.

— Quer ir se despedir dela?

A voz feminina, carregada de carinho, chamou a atenção do capitão. Zechs encarou a mulher a procura de algum sinal de insegurança e ciúmes, mas tudo o que havia encontrado era carinho e compreensão. O que ele não sabia era que toda a vulnerabilidade dela havia desaparecido no momento em que ele a beijou tão fugazmente.

— Lucrezia eu…

Mas, não pode completar o raciocínio, pois a morena o calou, primeiramente com o dedo índice sobre os lábios masculinos e logo depositando um suave beijo nos mesmos.

— Eu sei. Eu entendo…

E como resposta ele a abraçou com todas as forças, escondendo o rosto na curva do pescoço da mulher, sentindo aquele perfume doce e convidativo.

— Você vem comigo?

Perguntou sem levantar, sentindo-se receoso pela resposta, sem compreender a razão.

— Se você quiser… Com certeza!

E essas palavras aqueceram o coração do cavaleiro. Ele ergueu o rosto e a beijou com carinho e cuidado, de leve, sem se aprofundar e se perder novamente naquele encanto de luxúria. Precisava se manter lúcido um pouco mais. Logo se separou e agarrando forte a mão dela, saiu do quarto a levando junto.

-/-/-

Sentado atrás da grande mesa de madeira escura, o cavaleiro concluía sua carta. Com uma letra cursiva e firme, ele assinava seu nome no final da folha: Treize Kushrenada. Após dobrar o papel, o selou com o emblema do reino Wing. Levantou elegantemente de sua cadeira e caminhou até o mensageiro que o esperava em pé, perto da porta.

— Entregue o mais rápido possível e volte com uma resposta.

— Sim milorde.

Com essa despedida o homem se retirou rapidamente do cômodo, se dirigindo em imediato para seu cavalo. Treize desviou o olhar para as chamas que crepitavam na madeira, produzindo um acolhedor calor para o dia frio.

Caminhou até mesa e retirou de um pequeno baú o pedaço do brasão encontrado naquela noite, observou o metal, tentando recuperar algo mais daquela imagem. Uma batida na porta o despertou e logo viu sua doce Lady Une entrar.

— Vim buscá-lo…

Ele sorriu de canto, galante. Aquela mulher trazia uma alegria desmedida para seu coração, com apenas seu olhar, o som de sua voz e o sorriso brilhante em seus lábios.

— A comida está pronta?

Perguntou erguendo uma sobrancelha, aumentando seu olhar travesso para a dama, que notou o duplo sentido impresso na pergunta, porém, apesar de se sentir sem graça, ignorou o acelerar de seu coração e o revolto que iniciou em seu ventre. Ergueu um pouco mais o rosto e sorriu.

— Só a espera do senhor… Milorde.

Treize sorriu satisfeito, regozijando-se com o rubor no rosto da dama... De sua dama.

— Pois então, acabou a espera.

Ele guardou o metal de volta ao baú e caminhou até sua amada, ao se aproximar, levou a mão direita até o rosto dela, acariciando delicadamente aquela bochecha suave e branca, contrastando com o castanho escuro do cabelo longo que emoldurava o rosto oval. Ela deitou a cabeça sobre a mão dele e isso despertou a necessidade do cavaleiro. Treize se debruçou sobre ela e capturou os lábios da mulher com os seus. Desejava sentir o gosto dela, e dizer que ela lhe pertencia.

Não foi algo demorado, foi algo doce, carinhoso e leve, porém que serviu para aumentar a necessidade que sentiam um do outro. Ao se separarem, ele estendeu o braço para que ela agarrasse e se retiraram do escritório a caminho do salão.

-/-/-

Zechs e Noin chegavam até a colina, preenchida por inúmeras cruzes feitas de madeira sobre alguns montes de terra mexida. O capitão desceu do Tallgeese e foi ajudar sua amada, que estava de vestido, como toda uma dama, a descer do cavalo dela. De mãos dadas caminharam em direção a Quatre e Duo, que terminavam de conversar com alguns homens, que por sua aparência, haviam sido os responsáveis por enterrar os corpos. O cavaleiro loiro ao lado do de trança, entregou algumas moedas de prata na mão dos homens e os despediram, que saíram felizes pelo generoso pago.

Zechs se aproximou dos novos amigos e Lucrezia sorriu aqueles por quem sempre teve um carinho fraternal. Ela levava em sua outra mão um buquê com flores. As mais lindas que ela pode encontrar.

— Vocês estão melhores?

Perguntou Quatre com sua característica amabilidade, e com olhos preocupados. Duo guardou silêncio a espera da resposta. Lucrezia sorriu e Zechs assentiu satisfazendo a curiosidade dos dois, com suas feições muito mais relaxadas de quando havia visto os amigos mais cedo.

— Onde ela foi enterrada?

O capitão perguntou e Duo apontou os dois montes de terra sob a sombra de uma árvore florida eram fáceis de distinguir em meio aos demais.

— A direita está ela e a esquerda seu falecido pai.

O de trança explicou e voltou a olhar o casal. Zechs manteve os olhos sobre os túmulos e Lucrezia entendeu que ele gostaria de dizer algumas palavras, sozinho. Ela apertou levemente a mão do homem, roubando sua atenção para si.

— Vá… Eu irie logo.

Ele assentiu e agradeceu com o olhar. Com um movimento de cabeça se despediu dos rapazes e soltando as mãos de sua noiva caminhou a passos lentos e decididos até o local indicado. Noin o observou se distanciar, podendo sentir os sentimentos daquele imponente homem com sua ausência.

— E você minha querida… Está bem?

A guerreira desviou o olhar do amado, bem a tempo de ver Quatre lhe estender a mão, ao passo que perguntava por seu bem estar. Ela aceitou a mão do amigo, que a puxou para mais perto e a abraçou com esmero. Ela correspondeu o cuidado e sentiu Duo colocar uma mão sobre seu ombro, deslizando o polegar em uma carícia gentil.

— Estou melhor rapazes… Nem ao menos sei o que me ocorreu.

— Não precisa pensar muito para descobrir. - o de trança começou. - A cena era horrível. Gostaria de me encontrar com quem fez aquilo… Minha gadanha está sedenta. - riu divertido com sua própria piada malvada.

Quatre revirou os olhos com falso enfado pelo comentário do amigo e Noin meneou a cabeça, sem nada a comentar. Duo era seu amigo, seu irmão de coração durante a vida inteira, aquilo não a surpreendia, mas bem a deixava feliz por um lado. Ela conhecia o caráter dos amigos que tinha e sabia que eram homens de honra, íntegros o suficiente para considerar aquilo algo inaceitável de todas as formas. E sabia muito bem que todos eles nutriam uma sede de revanche contra os bandidos, muito forte.

Miliardo se agachou em frente o túmulo da direita. Seus olhos percorreram a terra fofa. A cruz simples de madeira fincada na terra, a grama verde que rodeava os túmulos, o tronco da árvore que jazia imponente, destacando sua presença e proporcionando sombra para quem quisesse dizer algumas palavras em despedida. Os olhos azuis céu olhavam com suma atenção a tudo, ate mesmo os insetos que percorriam o local, ignorando a tristeza dos que ali chegavam.

Após longos segundos de silêncio mortal a voz forte do capitão foi ouvida, baixa e sincera.

— Eu… Sinto muito. Anee, eu gostaria de poder falar algo diferente… Não gostaria de estar aqui, falando para o ar, tudo aquilo que eu deveria ter dito antes…

Uma pausa e ele tomou ar, tentando controlar suas emoções. Passou os olhos em volta do cenário a sua frente, sem sequer olhar realmente.

— Eu sinto muito por nunca ter podido retribuir seus sentimentos. Teve uma época, logo quando nos conhecemos, que eu desejei ardentemente poder sentir o mesmo por você, porém não consegui… Você para mim, sempre foi apenas uma amiga, pela qual possuía um carinho fraternal. E eu sinto muito mais de não ter estado ali para te proteger.

Voltou a puxar o ar com força, tentando controlar os inúmeros sentimentos misturados dentro dele.

— Eu jamais teria permitido que você e seu pai passassem por isso se eu tivesse imaginado… Nada que eu diga tem justificativa. - sacou sua adaga e fez um corte rápido na mão direita, deixando o sangue cair, tingindo a terra de carmim. - Mas eu juro, por meu sangue, que encontrarei a esses malditos e os farei pagar… Não descansarei até encontrar os culpados dessa atrocidade… Eles rogaram por misericórdia e tudo o que encontraram é a lamina da minha espada, quando os matar sem nenhuma consideração. Eu prometo!

Completou seu juramento bem a tempo de sentir a delicada mão de sua amada sobre seu ombro esquerdo. Zechs a segurou com a mão esquerda e levou até os lábios, depositando um delicado beijo, antes de se colocar em pé. Noin sorriu benigna para seu noivo e logo, separando as flores em dois buquês menores, se curvou em depositar cada um sobre um túmulo. Depois em silêncio fez uma pequena prece.

— Desejo que descanse em paz, Anee…

Olhou ao redor e decidiu que daria ordens para que levassem flores para cada um dos túmulos da colina. Zechs a abraçou pela cintura e após se despedir pela última vez da jovem e seu pai, deu a volta, caminhando em silêncio com sua dama em direção aos dois cavaleiros que assistiram a cena, parados no mesmo lugar a uns dez metros do casal. Iriam se juntar a eles e voltar para o castelo.

-/-/-

Relena estava sozinha debruçada na soleira da sacada observando o sol que pouco a pouco perdia sua força no horizonte, deixando um espetáculo de cores pelo céu, algo convidativo, lindo e triste se observasse pelo lado que significava que mais um dia acabava anunciando a chegada de uma noite fria. Perdida em seus pensamentos, e desejando em silêncio um adeus para a jovem que se foi, a princesa trocou seu vestido rosa claro por um negro como a noite com detalhes em renda e uma faixa cinza aderindo sua fina cintura. Como forma de prestar seu devido respeito em memória dos que perderam a vida, naquela noite fatídica.

— Sozinha? Onde esta seu séquito de seguidoras?

Sobressaltou-se ao ouvir a voz varonil atrás dela. Relena se virou bruscamente encontrando o olhar esmeralda, penetrante, do príncipe a observando atentamente. Após recuperar-se do susto ela lhe dedicou um sorriso sincero, carregado de bondade, algo tão próprio dela. Aquele gesto causou um rebuliço no interior do infante, aquecendo seu coração, ao mesmo tempo em que era inundado por um abismo ao lembrar-se de que ela não o amava. Aclarou a garganta e desviou os olhos dos dela, seu longo cabelo vermelho se mexeu com o movimento inesperado. Se aproximou mais e debruçou na soleira ao lado dela e fixou o olhar no horizonte com o cenho franzido.

— Por que está tão nostálgica?

Tentou quebrar o gelo, iniciando a conversa. Relena suspirou pesadamente e voltou a olhar para o por do sol.

— Hoje faleceu uma pessoa que apesar de não ter tido nenhum tipo de convivência, era alguém conhecida e isso me entristeceu.

O anuncio, fez com que ele a olhasse novamente.

— Quem morreu?

— Não tenho certeza se você a conhecia… Mas, seu nome era Anee Stefens. Ela era uma co...

A pronúncia daquele nome fez com que o mundo ao redor se tornasse totalmente silencioso. As palavras seguintes pronunciadas pela princesa não foram ouvidas. Ele permanecia atento a ela, vendo os lábios rosados se moverem, contando sobre quem era a jovem, mas ele não conseguia atinar para nada. De repente Relena se voltou para ele, franziu o cenho e o encarou estranhada.

— Lúcius? - nenhuma reação. - Lúcius? - tentou um pouco mais forte. - Lúcius!?

Falou mais forte ainda, tocando o braço do homem ao seu lado que se sobressaltou.

— Você está bem?

Ela perguntou e ele demorou um pouco para focar nela.

— Como disse?

Perguntou confuso e ela torceu a boca em desagrado.

— Ao menos ouviu o que eu disse?

— Sim, claro meu amor… Mas… - tentou fingir indiferença ao continuar perguntando. - Como ela morreu?

Relena baixou os olhos, triste, magoada e ele pode palpar o quão amargo seria o relato.

— Ela foi encontrada em meio à floresta. Puseram fogo na casa dela com o pai dentro e ela tentou fugir, mas a interceptaram. A violentaram e não sabemos se a mataram ou se ela não aguentou e acabou tirando a própria vida.

Lúcius não era e nunca foi apaixonado por Anee. Seu relacionamento para com a camponesa era estritamente carnal. A moça o excitava e ele a tomava com juras e promessas que nunca pretendeu cumprir, garantindo que faria de tudo para uni-la com o capitão da guarda e naquele momento se conscientizou do quão canalha havia sido. Enganou e iludiu uma garota que tinha tudo para ser feliz, conseguir um marido e construir uma família. A culpa apertou o coração dele de tal maneira que sentiu falta de ar, porém precisava disfarçar.

— Foi… Foi um ataque?

Relena assentiu.

— É incrível, como eles sabem os locais que estão a mercê, ou será que eles fazem com que fique a mercê? - indagou para si, antes de voltar a olhar para o marido. - Lúcius, você está bem? Você está tão pálido.

Ele a olhou por longos segundos, atentamente. Sua mente maldizendo aquele maldito ao qual se uniu. Não conseguia assimilar que uma jovem tão linda e viva tenha morrido de forma tão cruel. Como ele poderia aceitar que aqueles bandidos tenham escolhido ela para satisfazerem suas malditas necessidades baixas. A ira começou a corroê-lo por dentro se misturando a um sentimento de culpa e uma sede por vingança.

— Princesa… Desculpe-me… Mas terei que ir.

E sem prévio aviso, segurou a loira pelos ombros e a puxou para um beijo rápido e firme. A moça apenas arregalou os olhos, não tendo tempo nem de se opor ou reclamar pela atitude do ruivo, foi solta da mesma forma que foi pega. E o viu dar a volta e caminhar apressado pelo corredor do castelo, se distanciando rapidamente dela.

Relena olhou de um lado ao outro, preocupada que alguém pudesse ter visto e que fosse com a fofoca para Heero. Tudo o que ela menos queria naquele momento era ter problemas com seu amado. Seu subconsciente interpretava Heero como marido e não o inverso. Confiando de que ninguém havia presenciado aquele arrebato do príncipe, voltou a olhar para o horizonte, dando adeus aos últimos raios de sol, com um aperto no coração, sentindo-se incomoda.

Continua...


Olha a agressividade... Não vale me jogar pedra.

Se me matarem acabou The Brothers, Doce Tentação, Beautiful Lie e Um Novo Amor. Já estão avisadas!

Sim, eu sei... Esse capitulo foi muito carregado e tenso.

Mas, como eu sempre digo, tudo tem um porque e não dou ponto sem nó. Logo tudo se encaixa. mwahahaha

Sei que nem todas gostavam da Anee, mas me deu uma dó e um peso de consciência por isso. Tadinha! :'(

Bom, por agora, eu gostaria de saber o parecer de vcs... Oq vcs acham que essa morte trará de bom e de mal?

Na opinião de vcs, oq irá ocorrer a seguir? Alguém arrisca a identidade do de capuz?

Lúcius o conhece... E foi revelado um mistério na conversa, não?

Enfim, quero suas opiniões e estou ansiosa pelas reviews, lindas que tanto amo. :D

Próxima parada Beautiful Lie.

Pra quem eu não disse: Feliz Ano Novo e que 2015 seja um ano perfeito pra vcs! Façam acontecer! :3

Beijões da Liquinha... hehehe

04/01/2015