24. Sentimentos.
— Você!
O príncipe andava apressadamente pelo corredor do castelo e ao avistar um dos soldados, o apontou e com voz altiva e sem o mínimo de cuidado o chamou, obrigando o jovem parar bruscamente e reverenciar sua alteza.
— Em que posso servi-lo meu senhor?
Perguntou humildemente, confuso com aquela forma indelicada de haver sido chamado.
— Onde foram enterrados os corpos das vitimas do ataque dessa madrugada?
O soldado se endireitou e estranhou a pergunta, observou detenidamente a face do príncipe, a procura de algo que pudesse justificar aquela tão inédita pergunta, porém nada encontrou.
— Responda de uma vez soldado.
— Perdoe-me alteza… - sobressaltou-se com sua própria besteira. - Todos os corpos foram enterrados junto com os demais, de outros ataques. Na colina ao sul, meu senhor.
— Mande me prepararem um cavalo… Vou sair.
Sentenciou e o soldado após uma reverencia, girou sobre seus calcanhares para cumprir com a ordem dada. Lúcius deu a volta para ir em busca de sua capa, pois a noite prometia ser fria, quando deu de cara com Heero, que silencioso, se aproximou e ouviu toda a conversa do irmão com o homem que antes estava ali. O rei encarava friamente o ruivo, que se sobressaltou com sua presença.
— Pretende sair meu irmão? - a voz firme do moreno foi ouvida e o mais novo apenas assentiu. - Gostaria que não o fizesse.
— E por que não?
Heero olhou pela janela, o escuro cobria o céu pouco a pouco, tingindo-o de um véu negro, e a lua estava fraca, em sua forma minguante. Voltou seu olhar para o irmão e com tédio, começou a explicar.
— Estamos em época de guerra… Inúmeros inimigos tem rondado o reino. Você já foi vitima de um sequestro… Acho que o príncipe passear sozinho, de noite, seria o mesmo que pintar um alvo em suas costas meu irmão.
— Agradeço a preocupação… - sorriu irônico. - Mas não há necessidade. Sei cavalgar com perfeição.
— E?
Heero o encarou a espera de algo que justificasse tamanha estupidez dita pelo mais novo.
— Não serei pego facilmente.
Sentenciou e Heero inclinou a cabeça para a direita, encarando o irmão com sua face inalterada. Depois voltou ao normal e bufou, cansado daquilo.
— A estupidez não combina com sua personalidade meu irmão… E gostaria de lembrá-lo, de novo, que já foi capturado antes… - de repente, Heero parou e seu olhar mudou por um leve segundo, se aproximou dois passos do irmão, ficando mais perto do mesmo e falou, analisando as expressões do outro. - Ou será que esqueceu? Assim como diz ter esquecido de tudo…?
Lúcius arregalou os olhos, pego de surpresa, mas logo se recuperou, assumindo seu sorriso arrogante e devolveu o olhar ao mais velho, altivo.
— Aonde quer chegar?
— Não me faça duvidar de você meu irmão.
Heero advertiu.
— Era exatamente o que você mais gostaria, não é? Seria perfeito para me tirar do caminho.
— Lúcius… Pode, por favor, me explicar à razão de tanto ódio contra mim?
Com um passo para trás, o ruivo riu nervoso, mordaz. Levou a mão esquerda na cintura e com a direita passou pelo rosto, sentindo a irritação o consumir por dentro, voltou a olhar para Heero, que permanecia imóvel, tranquilo e frio, observando todas as reações espalhafatosas do ruivo.
— Eu estou cansado… Exausto… De saber o quão poderoso é você, meu querido irmão. - suas palavras saíram venenosas, cruéis.
— Até que enfim… Fazia tempo que eu esperava esse momento.
— Sim. E agora? O que fará?
— Primeiramente, tenho observado que ninguém tem lhe comparado a mim.
— Claro que não… Isso foi antes de você chegar. Agora o grande Heero veio, com seu poderio salvar o povo de Sank. Eu sou apenas o irmão fraco, que não é bom com a espada, deixado de canto como um inútil.
Despejou com rancor e se sobressaltou ao ver o mais velho sorrir de canto altivo.
— Segundo, isso prova que um... - levantou a mão e esticou um dedo em forma de contagem. - ou sua memória voltou… - Lúcius se deu conta que se precipitou e Heero esticou o segundo dedo. - Ou dois... Você nunca esteve sem memória. - o ruivo engoliu seco. - Qual das opções é a real meu caro irmão?
— Eu…
O moreno ergueu a mão e calou o ruivo, que sentia o coração a mil, movido pelo medo.
— Poupe-me sua resposta, porque eu já conheço a verdade.
— O que quer dizer com isso?
— Eu realmente me preocupo com você meu irmão… Por mais que você não acredite, mas te informo que não admito traição. Até agora, tenho passado por cima de muita coisa, levando em conta que você possa estar magoado ou confuso, por culpa dos erros de nosso pai. Como rei, Dante é excelente. Como pai, ele tem inúmeros defeitos e por mais que você duvide, eu os conheço…
— A sim? - perguntou incrédulo, debochado.
— Sim… Lembro-me perfeitamente de minha infância… - Lúcius se calou e baixou levemente o olhar. - Agora se seu problema é empunhar uma espada? A mesma sala de treinamento que uso, está a sua disposição e se precisa de ajuda, estarei disposto em te ajudar. Não se esconda atrás de suas desculpas, porque é exatamente isso que são, para não se esforçar em mudar.
— Quem vê até pensa que você me considera…
Heero revirou os olhos, cansado de gastar saliva.
— Pense o que quiser… Falei sinceramente. Não me decepcione. É melhor para você… E não saia do castelo, por seu bem.
Passou ao lado de Lúcius e voltou a caminhar, parando bruscamente no meio do caminho e voltou a falar, sem se voltar para o mais novo.
— Avise ele que vou pegá-lo. Eu sei quem é. E não terá lugar onde conseguirá se esconder de mim!
Com sua última afirmação, voltou a seguir seu caminho, deixando o ruivo de olhos arregalados e boca entreaberta olhando para um ponto qualquer ao lado oposto do qual Heero saiu. Aquilo o pegou de surpresa e ele nunca imaginou que Heero pudesse estar tão perto da verdade, ou melhor dizendo, saber a verdade. Engoliu em seco e chegou à conclusão que breve, teria que sair de cima do muro e realmente escolher seu lado. E um sentimento novo se apossou do coração do príncipe, algo novo, algo que o desconcertou. Passando a mão no rosto, afugentando esse rebuliço interno, seguiu seu rumo, ainda tinha um tumulo para visitar, ignorando completamente a advertência do rei.
-/-/-
Ignorando a toda ordem, dispensando qualquer guarda e escolta, Lúcius montou seu alazão de pelagem avermelhada e correu a toda velocidade para fora dos muros do castelo. Tomando tudo o que podia do animal, ele cavalgou fugazmente, sentindo o ar frio noturno golpear seu rosto. Estava sozinho e não só fisicamente. Sentia uma opressão em seu peito, queria gritar, queria se desesperar. Precisava de socorro, só não sabia como pedir.
As imagens de tudo o que aconteceu nos últimos tempos, lhe atacaram a mente. Estava perdido. Todo o mundo, todo aquele reino imaginário, feliz e cheio de satisfação que ele criou em sua mente desmoronou. Tudo estava vindo água a baixo. Precisava de algo em que se sustentar. Precisava de ajuda. Alguém que se compadecesse, alguém que o salvasse de si mesmo. Uma voz angelical que dissesse que tudo estava bem e que ele poderia lidar com tudo, como aquela criada por sua imaginação para ajudá-lo a dormir.
Precisava espairecer. Achar uma saída. Parar de fugir, pela primeira vez…
Perdido em pensamentos, não se deu conta de nada que se passava ao redor, até que seu cavalo empinou bruscamente, relinchando. Despreparado, perdeu o equilíbrio, indo de encontro ao chão. Atordoado, não teve tempo de reagir antes de ver seu corcel desaparecer velozmente no caminho contrário ao que seguiam, voltando em direção ao castelo. Sentindo a dor aguda no corpo e a cabeça dando voltas, percorreu o local com os olhos, em busca de uma explicação para aquela reação do cavalo.
Um segundo a mais, perderia o pequeno risco formado pela fuga de uma serpente. Amaldiçoou em voz alta a sua sorte. Levantou do chão, a duras penas, e prestou atenção em seu corpo, analisando os locais mais doloridos. Percorreu o local, estava no nada. Mas, conseguiu se localizar e chegou à conclusão que estava perto do local onde haviam enterrado os corpos das últimas vitimas.
Levantou a perna para começar a andar e descobriu uma dor nova, não entendeu como não a tinha sentido antes, porém o fato é que ela existia. Cambaleando e resmungando baixo, se arrastou até um tronco de árvore tombado e sentou. Tirou a bota esquerda, constatando que seu tornozelo estava um pouco inchado. Amaldiçoou pela segunda vez.
— Sabe… Pela primeira vez, tenho que admitir que meu irmão estava certo. Devia ter ficado em casa…
Soltou o ar pesadamente e com os cotovelos apoiados sobre as coxas, soltou o peso da cabeça nas mãos. Cansado.
Não soube quanto tempo passou, mas o frio começou a se tornar cada instante mais agressivo, alguns trovões distantes foram ouvidos, e o vento se tornou mais forte. Para completar o quadro, escutou passos nada preocupados em se camuflar a se aproximar. Levou a mão direita na empunhadura de sua espada, bem a tempo de ver uma jovem saindo do meio das árvores que o rodeava.
Não a reconheceu. Estava escuro e a pouca luz que tinha proveniente da lua, banhava mais a ele que a moça escondida ainda pelo arvoredo. Reconheceu se tratar de uma mulher pela silhueta que pode notar. A jovem parou em seco ao vê-lo. Por alguns instantes o local ficou tão silencioso, que se não fosse pelo barulho do vento, Lúcius pensaria que tinha perdido a capacidade de ouvir. Ela não reagia.
— Quem está ai?
Inquiriu altivo, endireitando as costas, expondo seu olhar mais duro e decidido. Pode notar a duvida nela por sua atitude corporal, vendo-a hesitar, dar um passo para trás, depois voltar a dá-lo para frente, indecisa. Logo seus ombros se relaxaram e ele pode ouvir um sonoro suspiro. Ela caminhou em sua direção, de cabeça erguida. Decidida, porém temerosa. E conforme avançava, ele pode reconhecer aos poucos os traços daquela camponesa.
— E eu pensando que essa noite não poderia piorar.
Bufou meneando a cabeça, enquanto pronunciava as palavras com aspereza. Falou baixo, porém não tanto para esconder seu desgosto, causando uma tristeza instantânea na jovem, que sentiu um aperto no coração, mas se controlou em parecer inabalada.
— Pois não se incomode por mim alteza… Retiro-me de imediato.
Com sarcasmo na voz e uma pequena e rápida reverencia, feita com má vontade, a castanha se virou para partir. Incomodado com a petulância da jovem, o infante se colocou em pé de um salto, com o intuito de dizer algumas boas palavras à garota, mas pesou errado, soltando o peso sobre o pé ferido, e tudo o que conseguiu foi soltar um gemido grave de dor e quase cair sentado novamente. Aquilo a alertou e ela se virou rapidamente para ele, preocupada.
— Você está bem?
Ela praticamente correu os escassos quatro metros de distância até ele e se ajoelhou na grama, com o intuito de observar de perto o tornozelo a ver se poderia ajudar de alguma forma.
— O que pensa estar fazendo, camponesa?
Rude, dando ênfase na última palavra, ele indagou com desgosto, puxando a perna para se livrar do toque da jovem. Heiren respirou fundo umas cinco vezes, tentando controlar seu súbito desejo de pegar o primeiro pedaço de madeira que encontrasse e bater na cabeça do ruivo.
— Estou apenas tentando ser gentil e ajudar alguém que necessita. Mas, claro… Sua alteza real é incapaz de entender o significado de compaixão.
— Deveria medir suas palavras se não deseja acabar decapitada.
— Ao menos morreria com educação.
— Insolente!
Ele a agarrou pelo braço e a trouxe para perto dele, suas faces a poucos centímetros de distância. O verde destelhando ira enquanto os castanhos mesclavam-se entre a surpresa e o orgulho, com um pouco de temor. Era uma guerra de caráter, de soberbia, nenhum querendo ceder ao outro. Muito menos ele, um príncipe, admitir que talvez, apenas talvez, tivesse sendo um tanto agressivo demais.
O cheiro de couro mesclado ao almíscar e sândalo causou um torvelinho de sensações na jovem. Seu coração acelerou com a proximidade e o perfume tão embriagante que emanava do nobre. Era hipnotizante e estava eliminando gradativamente todas as forças dela, deixando-a a cada segundo mais suscetível a vontade dele.
O ruivo pode notar as mudanças sutis na castanha, ajoelhada perante ele. Estreitou os olhos ao mesmo tempo em que esboçava um diminuto sorriso, se divertindo em ver o quanto ela se derretia perante ele. Puxou o ar e pode sentir o cheiro freesia e almíscar misturados à terra molhada invadir seu olfato. Percorreu o corpo dela e notou que estava coberta por terra, se perguntou se seria pelo trabalho, mas logo se pegou imaginando como seria sem esse rastro de sujeira…
— Bonita.
Heiren arregalou os olhos com a palavra que saiu da boca dele e logo aderiu à cor do cabelo do homem a sua frente, sentindo o rosto queimar. Ele notou a mudança e começou a gargalhar, soltando-a de qualquer maneira, ato que a fez cair sentada.
— Ei…
Reclamou com o cenho franzido, esquecendo seu rubor.
— Que? Insolente.
Ele perguntou com a sobrancelha erguida, altivo e com um sorriso de deboche no rosto. Ela se incorporou e sentou ao lado dele, sem tocá-lo. Curiosa, perguntou.
— O que… - ficou tímida. - O que é bonita?
— Você.
Ela o encarou com olhos arregalados, boquiaberta.
— Sim… Por baixo dessa camada grossa de sujeira, me parece que é bonita…
Desnorteada, era a palavra que melhor a definiu naquele instante. Não soube o que responder, se sentiu perdida completamente. Não sabia se agradecia ao elogio ou se o mandava ao inferno por tê-la chamado de suja. Sem uma decisão tomada, engoliu em seco e suspirou forte, procurando calma, enquanto escolhia a opção: ignorar.
— O que? Sua boca rápida não vai proferir nenhuma resposta?
Riu divertido, ganhando um olhar assassino dela.
— Vossa alteza é sempre tão insuportável?
— Ai esta… A camponesa de língua afiada, já estava me preocupando, pensando que estivesse doente.
Ele sorriu presunçoso e ela soltou o ar que não notou estar segurando. O silêncio se instaurou no local. Calados, evitando se olharem, perdidos em seus pensamentos. Ela fixou os olhos em suas unhas cheias de terra e se sentiu acanhada. Por primeira vez, desejou estar limpa e apresentável perante ele. Lúcius notou a mudança de humor da jovem e finalmente sentiu o peso da quietude. Aclarou a garganta, chamando a atenção dela, querendo acabar com aquela situação incomoda que começou a se instalar.
— Porque esta por aqui tão tarde? Não sabe que é perigoso?
Ela assentiu, desviando os olhos do rosto dele, focando na grama, em uma pequena formiga que passeava por ali.
— Eu sei. Eu li o anúncio real que todos, em especial as jovens deveriam ficar dentro de suas casas durante a noite, porém uma amiga minha morreu e eu precisava dizer adeus.
Aquela informação ganhou a atenção dele.
— Amiga?
— Sim… Seu nome era Anee… A filha do ferreiro.
E aquela informação causou um aperto no coração do ruivo, Lúcius tencionou a mandíbula e agradeceu ao fato dela não o estar olhando. Então ela conhecia a moça, sua ex-amante. Toda vez que o traziam para aquela maldita realidade, se sentia um lixo humano.
— Eu soube… - sua voz falhou e recomeçou a frase, tomando cuidado com as palavras. - Eu soube que ela foi morta de forma cruel, pelos bandidos que atacam o reino.
— Sim… - a voz soou embargada e grossa, devido o choro que engoliu. - Somente monstros fazem o que esses malditos fizeram.
Ele a olhou de esgueira e notou o quanto ela se fazia de forte. Distraída, ela se sobressaltou ao ver perante ela um lenço branco, de linho, que ele lhe estendia, sem olhá-la. Com um sorriso tímido, dirigido a ele, e vendo-o desviar o rosto para o outro lado, sem perder a compostura, ela aceitou a oferta e enxugou uma lágrima solitária que escorreu naquele momento.
Cada vez que o encontrava, a oscilação de emoções que sentia eram tão intensas. Ele conseguia lhe mostrar inúmeras facetas, tão distintas. Era vertiginoso e ao mesmo tempo tão cativante. Se perguntou como seria vê-lo sorrir. Mas, não aquele sorriso pronto de realeza, nem o irônico, tão pouco o maldoso. Apenas o sorriso real, do homem Lúcius. Ela poderia apostar tudo que tinha que deveria ser completamente apaixonante.
— Obrigada. - finalmente agradeceu.
— Sem problema. - respondeu curto.
— Vocês sabem quem são os bandidos?
Arriscou uma conversa mais complexa. E ele a encarou desconcertado. Ela estava perguntando a ele sobre assuntos reais? Ninguém faz isso. Para todos, ele não passa de um inútil que não serve para mais nada a não ser beber, comer, aparecer em festas e dormir com prostitutas ou com alguma idiota que estivesse disposta. Ela estranhou o olhar dele, não compreendendo o significado, mas resolveu não questionar sobre isso, mantendo-se calada a espera da resposta a sua pergunta.
— Esta me… - quase pergunta em voz alta, mas logo recapacitou, mudando de postura. - Meu irmão tem suas suspeitas… Mas, ele crê que existem cúmplices encobertando.
— Se é assim, os cúmplices devem ter o mesmo final dos que executam. - ele a encarou, pasmo. - Se encobertam monstros como esses, devem ser iguais e compartir a mesma índole corrompida.
Concluiu com rancor.
— E se a pessoa não for como eles, apenas esta calado porque deseja muito algo, mas não sabe conseguir de outra forma a não ser se juntando a eles?
— Se essa pessoa guarda um pouco de bondade e caráter em seu coração, deveria dar-se conta de que nada poderá justificar essas atrocidades.
Ele baixou levemente a cabeça, pensativo. Aquelas palavras ecoavam por sua mente, se sentia enojado, irritado, confuso.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som do galope de cavalos se aproximando. Pela força e altura do som, pode constatar que se tratava de um pequeno grupo. Ergueu a cabeça a tempo de ver seu irmão encabeçando a tropa composta por seus amigos pessoais e o capitão da guarda. Heero suavizou a feição ao ver o irmão, são e salvo, mas entranhou ver a jovem camponesa ao lado dele. Os cavalos pararam perto deles e o príncipe se colocou de pé, Heiren correu em auxilia-lo e dessa vez não foi rechaçada. Duo vendo a situação quebrou o silêncio.
— Interrompemos? Se quiserem podemos voltar depois…
O comentário fez Miliardo, Quatre e Trowa engasgarem ao reprimirem o riso, Wufei esboçou um sorriso e disfarçou, Heero ignorou sem desviar os olhos do casal, tentando entender. Lúcius revirou os olhos e ela olhou para o chão, voltando a ficar vermelha.
— Como me encontraram?
O infante resolveu imitar o irmão e ignorar.
— Um soldado disse que você tinha partido nessa direção, e eu supus…
O rei respondeu dando de ombros, sem dar muita importância ao assunto. Lúcius sorriu.
— Cada dia que passa, fico mais impressionado com sua inteligência meu irmão. - provocou e Heero sorriu em resposta. - E como sabia que precisava de socorro?
Perguntou tentando desviar a raiva que sentiu com o sorriso de satisfação do irmão. O fato de não conseguir irritá-lo com facilidade o deixava cada vez mais frustrado. Heero apenas apontou com o polegar por cima do ombro e finalmente Lúcius notou seu cavalo, que havia escapado e corrido de volta para o castelo após sua queda.
— Como você disse irmãozinho… Sou inteligente!
A gargalhada de Duo e a risada discreta dos demais enervaram a Lúcius. Nem mesmo Heiren conseguiu segurar a graça. Incomodado o ruivo soltou-se do agarre dela e calçou a bota novamente, antes de mancar até o cavalo. Miliardo, vendo a dificuldade do príncipe, desmontou para ajudá-lo a subir em seu alazão. Uma vez montado, Lúcius enfocou em Heiren.
— Ei… Camponesa insolente… Obrigado por sua companhia, agora pode se retirar.
O grupo todo olhou para ele, depois para ela, que ergueu a cabeça, arrogante, e enfrentou o olhar dele com um pequeno sorriso de canto.
— Foi um verdadeiro desgosto, alteza. Tenha uma boa noite.
A resposta dela o fez rir animadamente. Heero ergueu uma sobrancelha, algo se passava e estava ficando intrigado.
— Aonde mora?
A pergunta tão autoritária do rei fez com que Heiren respondesse sem demora ou titubeio.
— Ao sul, majestade.
— Venha…
Para o espanto de todos, ele esticou a mão para ela, que receosa aceitou. Puxando-a com força, Heiren colocou o pé no estribo que ele liberou para ela e com impulso subiu ao cavalo, posicionando-se atrás de Heero. Lúcius assistiu a cena, incomodado. Algo gritava dentro dele que aquilo não estava certo. Ela retirou o pé do lugar, permitindo ao rei se posicionar novamente e sem nenhuma palavra dita em voz alta, o grupo deu a volta, partindo para o sul.
O caminho até a casa dela foi incomodamente quieto. Lúcius não deixou de observar o quadro que se formou com Heero e Heiren sobre o cavalo, ela segurando ao redor da cintura dele, que mantinha os olhos no caminho, sem se imutar, enquanto ela estava visivelmente sem graça. Heero por sua vez, sentia cada mudança de humor que seu irmão emanava, mesmo sem observá-lo. Notando o olhar do ruivo sobre si.
Os demais apenas observaram.
Ao chegarem ao local indicado, Heero a ajudou a descer e quando ela já estava com os pés no chão, informou que em outra ocasião viria visitá-la, pois havia um assunto pendente do qual precisavam conversar. Com receio ela assentiu e o grupo se despediu, colocando-se em marcha novamente. Heiren entrou em casa e chamou pelo pai, descobrindo que estava sozinha. O que estava se tornando uma frequência. Sentou no banco de madeira e começou a refletir sobre sua noite e o desaparecimento do pai.
— Porque a levou em casa?
A voz do príncipe quebrou o silencio durante a volta ao castelo, eles não corriam, cavalgavam a passo lento.
— Era o mínimo, já que ela lhe fez companhia. Fora isso, não é bom uma jovem bonita andar sozinha de noite, com tudo o que tem ocorrido. E para completar minhas razões, eu precisava mesmo descobrir onde ela morava para cumprir com o encargo de nosso pai.
Lúcius assentiu.
— Por que saiu do castelo alteza?
Quatre indagou.
— Precisava de ar…
A resposta não foi grosseira, foi até tranquila demais, porém todos notaram que não era totalmente verdade. Heero pensou em reclamar o desacato do irmão por tê-lo desobedecido, porém sabia que controlar Lúcius era algo que não cabia a ele. O caminho de volta ao castelo foi completado sem mais perguntas, regado por piadas feitas por Duo e a risada da maioria. Por primeira vez Lúcius se sentiu a vontade em meio aquele grupo.
Ao chegarem, um soldado ajudou o príncipe a desmontar e a chegar a seu quarto, onde foi atendido por um médico.
-/-/-
O céu estava limpo e claro, mas o sol era fraco. Uma manhã gelada. Kelly estava sentada em frente de sua penteadeira, escovando pela vigésima vez seu longo cabelo liso, perdida em pensamentos, nem sequer notando o que fazia. Agia de forma mecânica, enquanto os olhos ficavam perdidos em um ponto qualquer em seu reflexo.
Naquela manhã ela acordou agitada, incomodada. Tomou o café da manhã em companhia de todos, mas não prestou atenção em nada que era dito durante a refeição. Pode sentir o olhar do cavaleiro Wufei sobre ela e em algum momento devolveu a atenção. Ambos mantiveram seus olhares presos um no outro, mas logo Duo chamou atenção acabando com o momento.
Agora pensando nisso e em toda sua vida, sua trajetória até chegar onde jamais pensou chegar, Kelly se via perdida em sentimentos, emoções, lembranças. Se recordou de seu sequestro, de como da noite para o dia foi traída, perdeu contato com sua irmãzinha, a quem sempre amou com todo o coração. Como conheceu Wufei.
Parou de escovar o cabelo ao se lembrar do cavaleiro. Seu olhar firme, agressivo, a forma como ele a olhava, como quem olha sua alma. Tocou os lábios ao lembrar-se do beijo que trocaram naquela noite, fechando os olhos no processo, tentando resgatar a sensação que teve ao sentir os lábios masculinos sobre os seus, possessivos, dominadores, sedentos, adentes...
— Wufei…
Um sussurro escapou de seus lábios em meio ao transe.
— Sim?
A voz forte e rouca do cavaleiro a assustou, a morena abriu os olhos de imediato, após dar um pequeno pulo no banco, de susto. Primeiro olhou o reflexo do moreno de rabo de cavalo no espelho, depois virou o corpo para encará-lo de frente, ficando em pé no processo e o encarando de forma agressiva.
— Não aprendeu a bater antes de entrar? - ríspida.
— Na realidade, milady, eu bati… Várias vezes. Mas, como não respondia, me atrevi a abrir para constatar que não estava… Então, lhe vi sentada e entrei para chamá-la, foi quando a escutei pronunciar meu nome.
A pele branca tomou uma conotação rubra imediatamente, com o fato dele tê-la ouvido. Wufei disfarçou a vontade de sorrir. Ele havia presenciado o suficiente, para saber que ela pensava nele, a tinha visto tocar os lábios e fechar os olhos, principalmente a forma carregada de desejo com a qual ela pronunciou seu nome. Porém, já convivia com a morena tempo o suficiente para saber que se dissesse a ela tudo o que tinha presenciado, poderia dar adeus a todas as chances de uma aproximação.
A dama disfarçou, sentindo-se envergonhada, mas preferiu não demonstrar, aderindo uma atitude altiva, olhou para o cavaleiro e perguntou a razão dele estar ali.
— Eu sei.
— Sabe o que?
— Eu sei que Jian é seu irmão.
Piscou algumas vezes, enquanto encarava o olhar sério do homem. Ficou sem fala, para logo suspirar, denotando seu enfado.
— Pensei que pudesse confiar na discrição do rei.
— Heero teve seus motivos para me contar
— Ah sim? E qual seria?
— Tentar me impedir de matá-lo.
Abriu a boca para falar, mas se calou. Realmente não sabia como responder aquela informação tão espontânea. Baixou a cabeça, pensativa.
— Kelly… - ela o olhou. - Porque não confia em mim? Pensei que já tivesse lhe dado inúmeras provas de que estou do seu lado…
— Não… Não é fácil. - a voz saiu quase inaudível.
— O que aconteceu? Me conta… Deixa eu te ajudar.
Pronunciou as palavras de uma forma tão sincera e gentil, que chegava a destoar com sua aparência tão imponente e agressiva. O moreno deu alguns passos a frente, encurtando a distância entre eles, temeroso de que ela se afastasse, porém para sua surpresa, ela permaneceu imóvel e eles ficaram bem próximos.
— Wufei… O que quer de mim?
— Tudo…
Ela olhou dentro dos olhos escuros do cavaleiro. A observava fixamente, seus olhos brilhando de uma maneira diferente, a dama se surpreendeu ao sentir, o toque da mão dele em sua bochecha esquerda, perdida no olhar dele, nem notou que ele se movia. O toque era quente e delicado. Fechou os olhos por um momento, apreciando a sensação que a pele dele lhe brindava.
Sentiu-se ofegante e abriu os olhos de súbito quando sentiu o roçar dos lábios dele sobre os seus. Sem reação, voltou a fechá-los quando notou que ele dava inicio a um beijo suave, delicado e lento. Não conseguiu se controlar e segurou nos braços fortes do cavaleiro, que se apossou de sua cintura.
O beijo começou a se tornar mais sedento, ambos puxaram o corpo um do outro, enquanto seus lábios iniciavam uma dança repleta de desejo. Se queriam, se ansiavam, porém o orgulho sempre havia sido maior. Mas, depois de tanto, isso se tornou irrelevante.
Wufei a abraçou possessivamente, procurando tomar tudo o que pudesse, desejava há tanto tempo tê-la assim, que pensou ficaria louco. A morena separou os lábios, dando espaço para que ele se apossasse de tudo. Decidiu que já não tinha sentido resistir. O sentimento era mútuo e não poderia negar que a fazia sentir-se segura. Segura de uma forma que nunca imaginou sentir-se.
Quando sentiram a falta de ar se separaram, mas não se distanciaram. Permaneceram abraçados de olhos fechados, sentindo a respiração um do outro, com suas testas unidas.
— Me aceite… Fica comigo. Seja minha… Quero que seja minha mulher.
A forma rude e autoritária com a qual ele fez o estranho pedido a obrigou a rir.
— Deveria entender isso como um pedido de casamento?
— Hum…
E o resmungo significava um sim, seguido de um leve assentir a fazendo rir divertida.
— Eu…
— Apenas diga sim.
A interrompeu de forma autoritária. Kelly estreitou o olhar, pensando em responder a altura. Odiava que lhe dessem ordem. Aprendeu a ser independente depois de tudo que passou na vida e após ter sido constantemente traída, porém, notou uma urgência, um desespero recheado de sinceridade e necessidade no olhar do moreno que não conseguiu iniciar uma discussão.
— Vou pensar.
E foi a vez dele estreitar o olhar, contrariado.
— Por que pensar?
— Talvez… Uma dama de…
Ela não pode terminar de falar, nem tão pouco concluir seu próprio pensamento, por culpa do beijo imprevisto e iminente que ele deu. O coração da morena voltou a disparar e ela decidiu, naquele momento, que não poderia mais lutar contra seus próprios sentimentos.
Envolveu o pescoço do cavaleiro com os braços, aprofundando o beijo e sentindo por primeira vez, que estava no caminho certo. O desejava tanto quanto o inverso e não podia mais negar.
-/-/-
Apesar de ser começo de tarde, o dia era nublado e frio, mas isso não afastava a sensação agradável de estar lendo no jardim, apreciando a calma, o silêncio e o ar fresco que arrematavam o momento de paz da princesa.
O vento soprou um pouco mais forte e o movimento da flor ao lado da jovem a desconcentrou das letras que seus olhos azuis percorriam a obrigando a desviá-los e focá-los na flor. Imediatamente, sua mente viajou em um momento do passado e não pode evitar sorrir.
Aquela rosa cor-de-rosa foi o primeiro presente que Lúcius lhe havia dado. Eles ainda eram crianças, tinha se passado um mês desde que ela conheceu o príncipe, ela passou a frequentar com mais frequência à corte, por ordem real. E sempre, por alguma estranha razão, queria brincar com o jovem infante.
Desde que o conheceu, sentiu que atrás daquele orgulho gigante, existia um menino assustado com o mundo a sua volta e quis ajudá-lo. Claro, que na época ela não pensava assim, essa era uma analise feita anos depois, talvez a tivesse fazendo exatamente naquele momento em que recordava o episódio, mas só sabia que na época, tudo que queria era ver o príncipe sorrir.
Mas, o pequeno de cabelo vermelho sempre a olhava de cima, fingindo enfado com sua presença, mas inexplicavelmente, estava sempre por perto de onde ela estava. E essa revelação à fez sorrir, divertida.
Nesse dia, o que recebeu a rosa, foi um dia peculiar. O menino estava desaparecido, ninguém o encontrava em nenhum lugar. A menininha correu a procura dele, preocupada, mas algo a dizia para seguir ao estabulo. A razão dessa intuição ela nunca descobriu, e acabou atribuindo ao fato de que ele gostava de ficar olhando os cavalos, assim como ela.
Mas, o importante é que ela seguiu o caminho certo e o encontrou ali, escondido, todo sujo de pés a cabeça e o cabelo todo bagunçado, em nada parecido ao pomposo infante que era normalmente e que nesse dia, em especial, deveria ser. Já que era a festa de aniversário do rei Dante. Ele estava encolhido em um canto, abraçando as próprias pernas, tremendo de frio, ou medo, ou talvez ambos. Ela franziu o cenho ao pensar na verdadeira razão dele estar tremendo naquele momento. E examinando o ocorrido friamente, nesse instante de sua vida, acreditou que sobre todo, era de medo.
Voltando a lembrança, ela pensou em como ficou assustada e aliviada ao encontrá-lo. Se aproximou devagar até ele e por primeira vez, ele a olhou com a guarda baixa, quase em uma suplica por socorro. E o coração da menina se apertou. Ela sabia que ele estava encrencado e não precisava dizer nada.
— Eu cai…
Foi a única coisa que ele disse antes de começar a chorar e ela soube que o rei ficaria muito irritado pelo estado dele. Com uma expressão decidida no olhar ela o abraçou, com toda a intenção de se sujar muito, surpreendendo o menino que ficou sem reação. Não satisfeita, pegou terra com as mãozinhas e passou no corpo e rosto.
Satisfeita com seu estado deplorável, sorriu e segurou a mão dele, fazendo-o segui-la. Ainda sem entender ele se deixou ser guiado, por alguma razão, sem nenhuma resistência. Em pouco tempo, as duas crianças se encontravam frente a frente com o rei, que por sua vez fuzilava o filho com o olhar. O menino não tinha coragem de encarar o pai, fixando os olhos no chão.
— Majestade, peço que me perdoe… Eu fui brincar com o príncipe Lúcius, e acabei derrubando-o. Depois, me pareceu tentador, continuar a brincar na terra… Peço que me perdoe o inconveniente.
A confissão tão firme da jovem surpreendeu a todos e para admiração de todos Dante sorriu pequeno, disfarçando logo a seguir para que ninguém visse. Mas, foi tarde demais. Ela havia notado e seu coração que antes estava disparado por ser à primeira vez que mentia em sua vida, se acalmou com o alivio que sentiu ao saber que tinha conseguido livrar o amigo do castigo certo.
O rei meneou a cabeça, derrotado, e deu ordens de que dessem um banho em ambos e os preparassem para a festa, dando meia volta e partindo sem nada a dizer, nem sequer uma repreensão. Foi nesse momento em que ela olhou para o príncipe e sorriu travessa e feliz.
— Pronto… Agora tudo esta bem.
Declarou com os olhos azuis cristalinos, brilhando. Lúcius apenas disfarçou e após assentir se retirou, seguindo sua ama, com a mesma pose arrogante que o caracterizava. A menina ia retrucar, mas no fim, apenas riu baixinho, sendo levada por outra serva.
Naquela mesma noite, durante a festa ela ganhou a rosa, seguida de um sorriso genuíno do garoto, como um verdadeiro agradecimento. E a história foi contada muito tempo depois como a primeira traquinagem da gentil e delicada filha do conde Peacecraft.
— No final foi engraçado…
Sorriu boba, enquanto sussurrava para o vento.
— O que foi engraçado?
A pergunta inesperada a tomou de surpresa, fazendo a princesa quase pular com o susto. Ao se virar rapidamente viu Lúcius a observando com total atenção e por uma pequenina fração de segundos, pensou ver o jovenzinho de sua lembrança no lugar do homem que a encarava tão penetrantemente e sorriu tímida, antes de desviar o olhar novamente para a rosa.
— Não deveria estar repousando?
O ruivo entortou a boca em uma careta de desgosto com a pergunta da loira, em seguida sentou ao lado dela.
— Meu tornozelo já está ótimo e sinceramente, estou cansado da cama.
Ela assentiu e o silêncio reinou no ambiente. Mas, não era algo incomodo, ao contrário, foi aconchegante como há muito tempo ela não sentia ao lado dele. O piado dos pássaros e o chiar do vento eram a única coisa que se ouvia até que ele decidiu acabar com a calada.
— Eu estava me lembrando de quando me apaixonei por você…
Relena levou algum tempo antes de digerir aquela informação. Não soube decidir o que a surpreendeu mais, se era a revelação que ele contava ou a contradição com o fato de que ele não deveria se lembrar de nada. Mas, decidiu não interromper. Com o cenho levemente franzido, olhou para o ruivo o instigando a continuar, colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha, atenta a qualquer reação facial dele.
A face masculina demonstrava uma nostalgia significativa. Ele com certeza lembrava com detalhes o momento que ia relatar e disso ela não teve dúvidas.
— Era tua festa… Teu momento. Você completava dez anos aquele dia e também estava sendo apresentada oficialmente a corte como uma dama de alta linhagem.
Ela desviou o olhar por pouco tempo ao recordar o dia e sorriu. Era uma boa recordação.
— Você tinha sumido durante todo o dia, e eu fiquei totalmente desnorteado. Não sabia o que me ocorria… Mas, já estava notando há um tempo o quão desejava te ver e estar ao seu lado. Você estava se tornando a minha razão de acordar todos os dias. Queria te ver, conversar com você, brincar com você e até mesmo provocar você.
— Você era insuportável às vezes…
Comentou estreitando os olhos azuis e vendo-o sorrir, ao recordar o dia em que ao vê-la conversar com outro garoto, jogou um balde de água sobre eles e saiu correndo, sendo seguido por uma furiosa Relena.
— Era divertido. Eu conseguia arrancar inúmeras reações distintas tua.
Ergueu uma sobrancelha altiva, fazendo-o gargalhar e logo parar, retomando o relato.
— Então, eu comecei a implicar com tudo e todos naquele dia e não sabia explicar o motivo de tamanho mau humor…
— Então… - instigou.
— Bem… - ergueu a cabeça ao céu e sorriu saudoso. - Tudo fez sentido no momento em que você entrou no salão de festa após ser anunciada… Você vestia um vestido rosa, como a cor daquela flor que te dei no dia que me salvou do castigo por estar todo sujo. E seus olhos azuis brilhavam com uma intensidade nova… E na hora em que você me viu, sorriu de uma maneira tão espontânea e verdadeira… Bom… Foi nesse momento em que me dei conta de que estava completamente apaixonado por você.
Ficou desnorteada, não sabia se estava admirada com a confissão, surpresa com a riqueza de detalhes que um menino de catorze anos prestou atenção ou molesta com o fato de que a suposta perda de memória não passava de uma mentira.
O silêncio tomou conta de novo, mas dessa vez as emoções no ar estavam revoltosas e inquietas. Por um tempo ele não notou a mudança de espirito da mulher ao seu lado, por estar perdido em reviver aquele instante tão significativo para ele, mas decidiu olhá-la e foi ai que tudo veio à tona.
A princesa estava com uma expressão séria, olhando fixamente para suas mãos que seguravam firmemente o livro que antes lia tranquilamente, pousado sobre seu regaço. O vento mexia os fios loiros escuros de um lado ao outro e apesar de tocarem insistentemente seu rosto, ela não se movia como se estivesse em estado de choque ou totalmente dispersa a tudo.
— Relena?
A face feminina se moveu até que os azuis encontrassem o verde. O coração dele bateu mais forte e mais rápido. Seu inconsciente gritava que havia cometido um erro muito grave, mas ainda não tinha notado qual.
— Eu… Não sei o que responder… - parou, escolhendo as palavras. - Quando você me surpreendeu, eu estava lembrando o episódio que menti ao rei por você, para justificar seu estado… - o príncipe ficou estático, deixando-a continuar. - Logo a seguir, você me conta algo que é novidade para mim e me da detalhes que… No mínimo são surpreendentes. Mas… Eu não sei… Em que me apegar nesse momento. O que me deixou mais perplexa…
— Relena…
— Lúcius… Eu gostaria de te falar tanta coisa, debater os momentos que passamos: os divertidos, os tristes os… Mas…
— Relena, eu.
— Sabe… Eu queria dizer que estou feliz de ter essa conversa com você e que é bom finalmente, sentir que meu amigo esta de volta, mas… Você não deveria… Não se lembrar de nada?
E como se o mundo viesse a baixo, o príncipe entendeu onde havia cometido seu engano. Passou a mão no rosto, sem saber como contestar aquilo.
— Eu… Bem… É que eu… Lembrei.
A olhou e ela o encarava com desanimo.
— Você sempre foi um ótimo mentiroso… Menos comigo.
Baixou a cabeça triste.
— Eu sinto muito…
— A quem você esta escondendo? Você sabe quem esta por trás de tudo isso?
Sem reação, sentiu que o banco queimava e levantou em um pulo, andando de um lado ao outro, perturbado.
— Eu…
— Enquanto todos te menosprezavam e duvidavam de você, eu nunca duvidei. Eu sempre acreditei em você em sua capacidade em seu caráter…
— Relena, por favor…
— Lúcius. - se colocou em pé. - Não me faça acreditar que a única errada em todos esses anos fui eu.
Ele parou de andar de um lado ao outro e a olhou, atentamente, dentro dos olhos. Ela estava decidida, mas ele também.
— Por que nunca me amou?
Aquilo a tomou desprevenida.
— Como?
— Por que nunca me amou?
— Lúcius eu… - disfarçou, incomodada. - Não mude de assunto.
— Eu mereço, eu preciso saber. Há anos eu faço essa pergunta, me faço essa pergunta, não encontro à resposta. Eu fiz tudo para você me amar… O que há de errado em mim?
E então foi a vez dela se sentir encurralada. Passou a mão direita na testa, desceu pela bochecha e levou uma mecha de fio loiro para trás da orelha, de novo. Sinceramente, não sabia o que dizer. Ela mesma não sabia muito a razão, só sabia que não o amava. Ao menos não como um homem.
— Responde.
— Quando eu tinha quinze anos, cheguei a acreditar que sim… Que estava me apaixonando por você. - suas palavras ganharam a atenção do ruivo. - Mas, foi à época na qual você mais começou a sair para os bordéis e estava sempre cortejando uma garota diferente e algo dentro de mim se quebrou. De inicio, achei que fossem ciúmes, mas logo entendi que não. Eu senti ciúmes sim… Mas, do meu amigo que já não ficava tanto comigo.
— Quer dizer, que se eu tivesse estado com você nessa época, te dado mais atenção, você teria me amado como homem?
Perguntou atônito.
— Não sei… Sinceramente… Creio que talvez pudéssemos ter namorado, mas no final, não acredito que tivesse me casado com você. Ao menos não por amor. Como agora.
Foi verdadeira e isso doeu mais que o engano de nunca ter tido uma oportunidade real.
— Eu lhe devo desculpas… Na realidade, deveria implorar seu perdão… Eu disse que tentaria te amar e te dar uma oportunidade real, para que ficássemos juntos…
— Sim.
Confirmou entredentes, sentindo o rancor consumi-lo.
— Mas, não fui capaz… Cada vez que te via, era como ver meu irmão, como se fosse Miliardo… E eu… - se calou, sabendo que estava prestes a falar demais. Mudou as palavras. - Eu não consegui te dar a chance que pediu.
— Não era isso que você ia dizer. - constatou. - Fala a verdade… Você, o que?
Com os olhos inundando de lágrimas, se encheu de coragem para encará-lo e respirando fundo, obedeceu.
— Eu me apaixonei por outra pessoa.
— Tem certeza disso?
— Não. Paixão é uma palavra fraca para definir o que realmente estou sentindo… Eu o amo. Com todas as minhas forças, de todo meu coração e alma!
As lágrimas escorreram livremente pelo rosto angelical, mas sua expressão convicta não mudou nem por meio segundo e os azuis não abandonaram os verdes, fortalecendo ainda mais a veracidade da confissão.
Foi ele quem desviou o olhar, se sentindo incapaz de sustentá-lo.
— Heero… Meu irmão, certo?
A pergunta foi retórica, mas ainda assim ela confirmou com um "sim" confiante e um leve aceno de cabeça.
— Até onde você foi com ele?
— Como?
A pergunta a tomou desprevenida e pode observar como ele se voltava para ela, magoado, sentindo sua raiva através do olhar que lhe concedeu. Perdida, mas disposta a acabar de uma vez com as mentiras, respondeu.
— Eu me entreguei a ele.
E não precisou dizer mais nada. Ele a encarou com uma mescla de tristeza, decepção e ódio. Mas o ódio não era contra ela, por uma incrível surpresa para ele mesmo, o ódio que sentiu foi de si mesmo. Se sentiu assustada pela primeira vez perante ele, se indagando sobre se tinha tomado a decisão certa em falar a realidade. Mas, estava verdadeiramente cansada de mentiras, cansada de viver uma falsidade e se pudesse diria a todos que apesar de seguir casada com Lúcius, era a Heero e só a ele, a quem pertencia.
— Ele estava certo…
Afirmou para si, em voz alta, olhando para o chão e ela ouviu.
— Ele? Ele quem?
A olhou novamente.
— A ninguém que te interesse!
Decretou e deu meia volta, saindo a passos apressados se afastando velozmente da princesa que ficou paralisada em seu lugar, sentindo o coração apertar fortemente, e as lágrimas escorrerem livremente por seu rosto, involuntárias.
Perdida, seus olhos desfocaram das costas masculinas que desapareciam com os passos largos do homem e dançaram olhando para todos os lados, sem realmente ver nada. Se perguntando se fez o certo, mais uma vez, mas algo dentro dela lhe respondia que sim.
— A males que vem para o bem…
Seu pai dizia isso para ela sempre que passavam por algum problema e ela era nova demais para entender o que realmente acontecia ao redor. Olhou para o céu e sentiu o coração apertar um pouco mais.
— Sinto que as coisas ficarão muito ruins pai… Muito mesmo, antes de melhorarem.
Acabou soltando o peso do corpo, caindo sentada no banco onde tudo começou. Um momento que começou feliz, regado de boas memórias, acabou com uma tensão tão forte e uma tristeza o rondando, porém, muitas coisas necessárias foram ditas. Foi o que disse a si mesma, mas nada acalmava aquela sensação ruim.
-/-/-
Como um possesso, Lúcius passava por todos nos corredores ignorando qualquer chamado ou cumprimento. Cada um que olhava para o rosto do príncipe desviava de seu caminho, receoso pela agressividade do ruivo.
Abriu a porta do escritório onde Heero costumava passar boa parte do dia e não encontrando ninguém a fechou com fúria. Continuou seu caminho, passando em frente à sala do trono, onde seu pai atendia ao povo, deu uma olhada rápida ao redor e não encontrando a quem buscava, continuou.
Passou por vários lugares até que chegou à sala de treino, seus olhos esmeralda percorreram o local atentos a todos os rostos, até que não encontrando, ainda, a pessoa desejada, se contentou ao ver quatro faces conhecidas. Se aproximou dos cavaleiros com pressa.
— Onde ele está?
Perguntou com rispidez, ganhando a atenção, confusa deles. Duo foi o primeiro a se manifestar.
— Como é?
— Eu perguntei onde ele está…
Repetiu pausadamente, irritando ao grupo, que fechou a cara, o único ainda se mantendo calmo era Quatre, que se prontificou.
— Imagino que esteja se referindo ao Heero…?
— A quem mais seria?
— Posso saber o porquê de tanta grosseria?
Trowa não conseguiu se manter calado.
— Não. Agora diga… Onde ele está? - os rapazes ficaram calados. - É uma ordem soldados, respondam.
Wufei estreitou o olhar e apertou a mandíbula, tenso.
— Como pode ver, ele não está aqui…
Respondeu ríspido, quase desafiando o príncipe com o olhar, sentindo o sangue ferver. Em socorro, Quatre se prontificou em apaziguar a situação. Para acalmar o amigo, colocou a mão no ombro do moreno de rabo de cavalo e olhou para o ruivo, tentando relaxar sua expressão e fazer com que o clima amenizasse. Ao redor do grupo, alguns soldados, que até então treinavam, pararam seu trabalho para assistir a discussão.
— Heero terminou de treinar antes de nós e já se retirou, alteza…
— Onde ele foi?
Finalmente os olhos verdes do ruivo desviaram dos escuros de Wufei, para darem atenção aos azuis do loiro.
— Não sei ao certo… Talvez descansar um pouco.
E sem nenhum agradecimento Lúcius se retirou, dando as costas aos quatro amigos, que o observaram partir com diferentes sensações.
— O que será que aconteceu para o principezinho estar tão irritado?
Duo perguntou com seu jeito despreocupado, juntando as mãos atrás da nuca. Trowa olhou ao amigo de trança e sorriu entre maldoso e brincalhão.
— Não sei. Achei que só o veria assim no dia que descobrisse sobre Heero e Relena.
Baixou o tom de voz no final, para que só os amigos escutassem, e todos riram, voltando a seus afazeres. Quando como que por uma fração de segundo eles pararam o que estavam fazendo e se entreolharam. Finalmente preocupados, cogitando a idéia de que, talvez, o infante tivesse descoberto a relação.
— Não… Não pode ser isso. Ou pode?
O castanho de olhos verdes voltou a falar, respondendo ao seu próprio comentário. Mas a dúvida estava plantada e a sensação de temor não os abandonou mais.
Lúcius não parou de andar nem por um segundo, seu caminhar era tão rápido, que estava quase correndo pelos corredores e todos que o viam, sabiam que algo muito ruim estava se passando. A dor no tornozelo, a muito foi esquecida.
Vestindo apenas uma calça, Heero secava o cabelo café com uma toalha. Após o treino pediu que lhe preparassem um banho e levassem algo para ele comer a seu quarto. E agora, meio vestido, se preparava para comer. O peito ainda nu deixava os músculos bem definidos à mostra. Estava cansado, mas nada que uma boa comida e uma hora de sono não resolvesse.
Deixou a toalha de lado e colocou uma camisa enquanto sentava em frente à badeja de comida que lhe levaram. Antes de colocar a primeira porção de comida na boca, a porta de seu quarto se abriu violentamente. Mal teve tempo de se colocar em pé, quando viu Lúcius se jogar sobre ele e lhe acertar um soco na cara, que o pegou desprevenido, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sobre o divã que ficava perto de sua cama, ao mesmo tempo em que a porta se fechava sozinha por causa da força com a que foi aberta.
— Espero que tenha uma boa justificativa para isso…
Heero levou a mão à boca, ao sentir o gosto de sangue, o irmão conseguiu abrir um pequeno corte no seu lábio inferior no canto direito. O azul se tornou glacial e levantou devagar, sem perder de vista sua presa, que era como olhava para o ruivo naquele momento.
Cego pela ira ignorou o temor que percorreu sua espinha dorsal com a forma assassina que o mais velho lhe encarava. O silêncio reinou por alguns instantes, só se ouvia a respiração agitada de ambos, causada pela adrenalina.
— Maldito… Como se atreveu a por as mãos em minha mulher?
Heero estreitou os olhos e esboçou levemente um diminuto sorriso de canto, de forma ameaçadora.
— Sua mulher? - sorriu um pouco mais. - Como se atreve? Relena nunca foi e nem será sua. Querendo você ou não, aceitando ou não… Ela sempre foi, é e sempre será apenas minha!
Informou entredentes e a trégua acabou.
Sem demora, o ruivo voltou a atacar, com mais um soco, que dessa vez foi agilmente desviado pelo moreno, que contra-atacou com um soco de direita aberto, acertando a costela esquerda do mais novo, obrigando-o a se dobrar de dor.
— Está pensando que pode me enfrentar?
Perguntou o moreno ao mesmo tempo em que seguia com um chute frontal no estômago do irmão, que caiu no chão de quatro em busca de ar. Heero se mantinha em pé, olhando-o por cima, a espera que seu adversário recuperasse o fôlego.
— Você se acha muito superior, não é mesmo?
Respondeu cortadamente e ganhou a atenção total do mais velho.
Nesse momento a porta do quarto voltou a abrir, e por ela entrou os quatro cavaleiro, que viram a cena com assombro, preocupados. Tentaram falar algo, mas com apenas um movimento de mão, o rei os calou e mandou que ficassem fora do caminho.
— É isso que te incomoda? Minha… Superioridade, como você diz?
Lúcius se colocou em pé, ainda sentindo as dores dos golpes.
— Eu não suporto você… Sempre ouvi o quanto Heero era o melhor em tudo e agora você se atreve a tocar a minha mulher também?
— Então era isso mesmo… Ele descobriu.
A voz de Duo atraiu a atenção de todos no cômodo e o olhar que Heero lhe dirigiu o fez se calar de imediato. O de trança engoliu em seco. Trowa deu a volta, fechou a porta e se colocou em frente ela, como um guarda. Os três amigos o observaram, um pouco confusos.
— Eles precisam se acertar!
E as atenções regressaram para os irmãos que voltaram a se encarar.
— Como eu dizia… Ela não é e nunca foi sua. Ela foi prometida para mim e eu poderia te acusar de traição e decretar sua morte. Se dê por feliz de não fazer isso?
— E posso saber o porquê, do misericordioso - usou toda ironia que pode para dizer a palavra. - Heero não me acusar?
— Porque apesar de você ser um completo idiota, ainda é meu irmão.
A seriedade que empregou ao responder deixou o mais novo perdido.
— Eu não entendo de onde vem tanto ódio contra mim, mas eu tenho certeza que não fiz nada contra você. A sua inveja é totalmente injustificável.
— Não é! - gritou. - Eu cresci a sua sombra. - atacou com um chute médio que acertou o vaso de flores que caiu e se quebrou, após o moreno desviar. - Sempre ouvi sobre o quão admirável você é, as suas conquistas, os seus feitos… - mais uma tentativa de chute que foi defendida habilmente. - Até que descobri que além de tudo, você teria a mulher que amo…
Arriscou um soco no contra-ataque da defesa e acabou caindo sobre a mesa e derrubando toda a bandeja com a comida e vinho no chão. Heero o observou do alto.
— Sabe… Você tem potencial. Tem força, conhece os golpes, mas não sabe usa-los e é muito lento. Eu ouvi dizer que você nunca deu a atenção devida às aulas de combate e pensei que eram boatos falsos, mas vê-lo lutar me decepciona.
Lúcius se levantou atordoado e humilhado. Se sentia envergonhado completamente. O único momento em que conseguiu acertar o irmão foi quando o pegou de surpresa. Olhou com rancor para o moreno, que abrandou seu olhar e o mudou para um de decepção.
— Eu posso te ensinar se quiser… - franziu o cenho para as palavras do irmão. - Eu posso lapidar você. Te transformar em um guerreiro de verdade e não essa vergonha com pernas que é nesse momento.
— Como se atreve. - se indignou.
— Só falo o que vejo! - esnobou. - Você é um completo idiota Lúcius. Sou seu irmão. Voltei de guarda baixa e pronto a ser o irmão que você não teve durante todo esse tempo e o que você faz? Rouba o que é meu, me ataca, me agride, e se une a um monstro que quer destruir o reino de nosso pai!
Gritou, por primeira vez, espantando a todos os presentes.
O ruivo arregalou os olhos, como se levasse um balde de água fria na cabeça, sentiu que o mundo sob seus pés se abalou. E por primeira vez começou a se questionar sobre suas ações e se perguntar se realmente estava certo todo esse tempo.
— Sabe o que é mais triste em você?
— O que? - quis saber, magoado.
— É que você tem tudo, sempre teve… Não precisou passar por nada que muitas pessoas passam e ainda assim se sente injustiçado. Suas razões não são fortes e nem justas.
— Relena…
— Relena é minha! Sempre foi. Você quis inverter a situação, mas como pode ver… Não da pra mudar o que é para ser. Ela me escolheu, mesmo casada com você.
O de olhos verdes virou a cabeça para olhar os quatro cavaleiros que estavam estáticos ao lado da porta, mas não viu surpresa no rosto deles, sabendo assim, que já sabiam de tudo.
— Fui o único idiota em tudo isso…
Informou a si mesmo, cabisbaixo.
— Não. Você foi ganancioso e estupido.
Ergueu a cabeça e o verde viu o azul ártico. A paciência do mais velho acabou.
— Venha… - se colocou em posição de combate. - Não queria me bater? Agora lute.
Lúcius soltou a corrente que prendia sua capa, deixando-a cair ao chão. Depois retirou a blusa grossa, ficando apenas com camisa fina de baixo, assim como o irmão. A troca de olhares entre eles foi breve e o mais novo foi o primeiro a atacar.
Precipitadamente, Lúcius lançou um chute na linha da cintura que foi defendido pela perna de Heero, que encurtou a distância e acertou um soco no rosto do irmão, fazendo-o perder o equilíbrio e quase cair. Mas, não se deu por vencido e tentou de novo, avançando com um soco que foi desviado pelo herdeiro, que jogou o corpo para trás acertando um chute alto de direita no irmão, que só não foi a nocaute, porque escorregou no tapete dando um passo para trás, o que diminuiu a intensidade do golpe, mas ainda assim o atordoou.
O mais velho tentava o máximo controlar sua força. Queria dar uma lição no irmão, mas não machuca-lo seriamente, apesar de tudo.
Aproveitando-se disso, desferiu vários golpes em sequência de socos e joelhadas, levando o mais novo a cair desfalecido. Quatre entrou na luta, segurando a Heero, com medo dele não ter notado que o irmão estava fora de combate e Duo foi tentar acordar o príncipe.
Sem demora o ruivo recobrou a consciência e Foi ajudado por Duo e Quatre. Trowa e Wufei se colocaram ao lado de Heero.
— Espero que tenha aprendido a lição, meu irmão. E te informo… Eu vou acabar com esse casamento falso seu com a minha mulher. Se quiser que isso acabe bem, te aconselho a você mesmo por um fim nessa bufonaria.
— Ou?
— Ou talvez minha boa vontade acabe.
Machucado, Lúcius começou a andar em direção a porta.
— Mais uma coisa… Eu falei a sério. Se quiser aprender realmente a lutar, e se tornar um guerreiro de verdade, me avise.
Com uma última olhada em direção ao mais velho, com uma mistura de sentimentos que o moreno não soube decifrar, o ruivo se retirou, fechando a porta sem bater.
Quando os cinco amigos estiveram sozinhos, o rei levou a mão até a boca, tocando novamente o machucado.
— Ele bate forte...
Avisou, fazendo os demais rirem enquanto um pequeno brilho de satisfação e orgulho se formava nos frios olhos azuis.
-/-/-
O sol já tinha se posto e a lua reinava glamorosa no céu. Era uma noite fria e clara, torturando os dois soldados que estavam de vigília, porém facilitando sua missão com a possibilidade de enxergar perfeitamente seu alvo.
A cabana em meio ao pasto, solitária estava silenciosa, prova de que seu morador não se encontrava. Mantinham-se escondidos em meio às arvores, atentos a todos os sons que poderiam vir tanto da floresta, quanto do caminho de terra que levava até a isolada cabana.
O frio começava a aumentar com o passar do tempo e eles buscavam calor em meio à capa de pele, mas sonhavam com uma boa sopa quente e uma boa taça de vinho tinto para se aquecerem. Por tanto, desejavam em silêncio que seu alvo aparecesse logo.
Como se Deus tivesse escutado suas preces, ouviram o barulho de uma carroça, e pelo som sabiam que não estava vazia. Puseram-se em alerta de imediato. Conforme ela se aproximava, puderam ouvir as vozes animadas dos que nela viajavam. Dentre as vozes, a de uma garotinha pode ser distinguida.
Se entreolharam tendo a certeza que se tratava de quem procuravam.
Sem muita espera, a carruagem entrou no raio de visão deles e como imaginaram, não foram notados.
Havia três pessoas nela, o cocheiro, Jian - o homem que estavam vigiando - e a menina que ouviram a voz. Se existia alguma dúvida, ali ela se esfumou. Era a prova de que precisavam. Agora tinham toda a informação que o rei necessitava e sabiam que seriam recompensados pela tarefa bem sucedida.
Há dias que visitavam o braço direito do lorde Mcbean com o intuito de encontrar a garota, mas finalmente, essa noite foi de sucesso total.
Aguardaram pacientemente a que a menina e o rapaz descessem da carroça e pagassem o cocheiro. Quando entraram na casa, ainda esperaram que a carroça se afastasse consideravelmente. E então, como felinos silenciosos, se afastaram do lugar, indo em busca de seus cavalos que ficaram no meio da flores, para que não chamassem a atenção de nenhuma maneira.
Sem terem sido descobertos, partiram rumo ao castelo com a satisfação da boa noticia.
Continua...
Oieeee... Voltei! :D
Sim... Eu sei que demorei horrores, sorry, mas vocês sabem que não tem porque se preocuparem, tardo mais não falho. :D
E não vou deixar nenhuma fic inconclusa! Podem ficar tranquilos. S2
Esse capítulo foi tenso de escrever porque foi cheio de verdades e sentimento... u.u
Mas, espero que tenha ficado satisfatório, já que no final, ficou como eu quis... :D
Agradeço a todas que me ajudaram a destravar... De verdade, não sei o que faria sem vocês... :3
Para os que não sabem, tenho uma obra nova de Samurai X (Rurouni Kenshin), aos que se interessarem, ela esta no meu perfil, estou publicando tanto em português quanto em espanhol. :D
Gostaria de tomar um tempo para responder a Guest: Linda, no sé de donde eres, pero me encanto recibir tu review. Espero que continue escribiendome. Puedes escribir en español, ten entenderé... :D No te preocupes, aun que me tarde, no voy a parar hasta que tengas el final. :D Espero nuevas tuyas, te respondo por acá ya que no tengo otra opción. ¿Vale? Besitos y hasta pronto. ;)
É isso, pessoal... Escrevam minhas amadas reviews e me digam sua nova visão de Lúcius... Tudo o que vocês tem a dizer... Jessie, espero que não me mate. ;P
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Amo você! S2
