N/A: Suspense, romances e alguns assassinatos.


Capítulo 31

Hipóteses


29 de novembro de 2007


Sakura, Kitagawa, às 18h25min.

Acordei sentindo a vista doer como se minhas pestanas fossem absurdamente pesadas. Imediatamente veio as lembranças, as cores borradas e apagadas, o laranja, o branco, o cinza, o vermelho do sangue. E também, inconscientemente, o cheiro de ferrugem, provocando-me a camada turva e úmida sobre minha vista, mesmo que ordenadamente estivesse enchergando nada.

(...)

- Ela conseguiu dormir?

Não sabia do que falavam e de quem se referiam. Não estava ainda totalmente desperta e por isso aquelas cores, vozes e sombras eram irreconhecíveis para mim.

- Sim, Gaara-san me falou que é normal, ela entrou em estado de choque depois que... Você sabe.

Tenten-chan. Claro. Referiam-se a mim.

(...)

Então era verdade. Senti minhas bochechas úmidas.

- Você sabe o que aconteceu? - a outra voz era de Rock Lee. Onde estava Gaara?

- Tenten? - a chamei,

- Ela acordou.

Escutei a cortina ser arrastada e imediatamente me localizei na enfermaria do colégio. Tenten já estava sobre mim, me ajudando a levantar. Percebi que estava muito cansada, a vista ainda pesada, e as bochechas úmidas. Percebi que chorava enquanto dormia.

- Está tudo bem? Você quer água?

Eu neguei com a mão.

- Está tudo bem, sem água. - me sentei sobre a cama. Tenten e Rock Lee estavam diante de mim, os dois com uma expressão preocupada.

Percebi o peito doer e a pergunta travar na garganta, não queria perguntar. Não queria saber se ele tinha realmente morrido.

Suspirei pelo nariz.

- Vou aceitar a água.

Tenten rapidamente me atendeu, com uma atenção exagerada. Aquilo me fez senti melhor do que a água que descia pela minha garganta. No entanto, eles continuavam ali ainda com uma expressão tensa no rosto, como se me esperasse falar qualquer coisa, e assim pudessem adivinhar o meu estado.

- Onde está Gaara? - perguntei, e entreguei o copo de vidro para Tenten.

- Ele está com a polícia. - Lee me respondeu e logo depois curvou a cabeça em direção à porta. Inclinei-me um pouco e vi a figura de um homem de paletó e expressão sisuda. - Depois você terá que ir com eles.

Aquilo não me surpreendeu. Obviamente aconteceria. Levantei-me com um repentino desejo de resolver aquilo, entretanto fui impedida por Tenten que facilmente me colocou para sentar novamente.

- Não tenha pressa.

Nos encaramos, ela com as sobrancelhas curvadas, eu, provavelmente, ainda lenta pelo sono.

- Há quanto tempo estou dormindo?

- Uma hora apenas. Ainda bem que conseguimos te trazer para cá. Kitagawa ficou um caos após a polícia ser chamada.

- Quem chamou?

- Provavelmente Gaara ou Naruto.

- O que aconteceu? - ignorei a resposta.

- Eu não sei direito. Só sei que você entrou em estado de choque. Te encontramos no corredor, sentada, Gaara falava com você, mas você não respondia. Nessa hora eu cheguei e também tentei despertá-la, mas nada. Gaara e Naruto enquanto isso falavam no telefone, provavelmente chamando a polícia. Logo depois que a polícia chegou as salas foram evacuadas. Só estamos aqui com você, por que, antes da polícia chegar, Gaara me pediu para te levar com a ajuda do Rock Lee.

Então eu tinha entrado em choque. Surreal... Realmente muito surreal não se lembrar de nada. Levei minhas mãos até as têmporas, como sempre acontecia quando eu queria organizar minha cabeça. Percebi estar repentinamente muito quente e sufocada pelas roupas que vestia, comecei então a desabotoar a gola de minha blusa sentindo-me finalmente mais livre.

- Você quer que eu te traga meu uniforme?

Olhei para Tenten e logo depois para Rock Lee, os dois, assim como eu, estavam fantasiados, ela de chinesa e Lee com as roupas de antes. Pareciam tão preocupados comigo que nem aparentavam estar incomodados com aquelas roupas, inclusive diante do sufoco. Notei que eu tinha bons amigos e consequentemente senti minhas glândulas lacrimais incomodando meu nariz.

Droga, não quero chorar aqui.

- Não, tudo bem. - eu respondi finalmente, minha voz em um fio patético. Então Tenten me abraçou como se soubesse que eu estava prestes a chorar e eu simplesmente chorei enquanto a abraçava também.

Ficamos um minuto assim, meu rosto afundado na curva de seu pescoço. Podia sentir a textura macia de sua blusa e um aroma de flor natural como se estivesse cheirando-a ali mesmo. Então me veio o cheiro enjoativo de ferrugem e flores que rapidamente reconheci, mesmo que antes eu não tivesse percebido, como semelhante a da sala de artes plásticas.

Afastei-me rapidamente, de maneira que Tenten me encarou atônica. Fitei seus grandes olhos castanhos, o rosto oval e no alto na cabeça um coque adornado com uma flor exuberante e rosa, pelo qual rapidamente reconheci. Dália, a mesma flor que Gaara e eu compramos na floricultura no mês passado.

- Esta flor... Onde você a conseguiu? - perguntei ansiosa.

- Ah... Está flor? - ela retirou do cabelo e a colocou entre nós duas. - Neji me trouxe.

- Te trouxe? Ele comprou...?

- Oh não. - respondeu rapidamente. - ele trouxe de casa, insistiu que sempre vivia comprando flores e que essa não seria nada.

- Ele frequentemente compra Dália? - perguntei de uma maneira bastante patética. - E por que ele te deu logo essa?

- Eu não sei dizer, mas ele me disse que a casa dos Hyuugas tinha um cheiro enjoativo de flores. Até ficou feliz em se livrar de uma, mesma que isso obviamente não fizesse diferença... Acho que ele estava querendo ser engraçado, ou mal-humorado de propósito.

- Ele só queria ter uma desculpa para dar uma flor à Tenten-chan, óbvio. - Rock Lee entrou na conversa. No entanto, eu mal conseguia me interessar pelas suposições maliciosas dele.

- Claro que não. Ele há algum tempo tem comprado flores para a prima, desde que o tio faleceu. Só é... Como posso dizer... É normal para ele.

- Jacintos. - a interrompi. - Vocês compraram Jacintos também?

- Como você sabe Sakura-chan?

Não sei quanto tempo fiquei encarando Tenten, só pensava o quão cega eu estava até então. Em realidade eu tinha me esquecido quase que completamente a situação da floricultura. Não somente pelo pouco tempo que tinha, mas por que, eventualmente, me parecia impossível descobrir quem era o estudante. Primeiramente por que era uma descrição muito genérica, e segundo por que qualquer um poderia tê-lo comprado sem ser, necessariamente, cúmplice de um assassino.

Mas era de Neji que estávamos falando. E para intensificar ainda mais a situação, se tratava de alguém que comprava, desde o assassinato de Hiashi, as mesmas flores do ritual para Hyuuga Hinata.

Repentinamente me senti péssima. Eu não deveria estar pensando sobre isso enquanto Sai... Enquanto ele... As palavras não podem concretizar mentalmente, como se fosse difícil pensar ou me lembrar sobre aquilo. Levei minhas mãos ao rosto, sentindo a pressão no nariz, e o incômodo no alto da testa, tudo me indicando que estava prestes a chorar mais uma vez.

- Sakura-san?

Voltei-me para Rock Lee e Tenten que me fitavam curiosos. Provavelmente eu tinha os olhos marejados e vermelhos, o nariz entupido e a pele manchada pela maquiagem borrada.

- Está tudo bem?

- Sim... Desculpa, eu só estava pensando no que eu tinha me esquecido... É um pouco surreal para mim.

- Com certeza. - Tenten concordou muito rapidamente. - Melhor você descansar, ainda terá que ir a polícia e isso será cansativo e...

- Tenten. - a chamei e ela parou de tagarelar. - Está tudo bem, vai ficar tudo bem...

Eu disse para ela, entretanto era totalmente consciente de que o desejo daquelas palavras era muito mais voltado para mim mesma.


Gaara, em frente ao colégio Kitagawa, às 19h33min.

Nos primeiro vinte minutos, logo depois que a polícia chegou, Kitagawa tinha se transformado em um caos de pessoas, famílias e alunos perguntando sobre tudo e todos enquanto a equipe tentava retirá-los do edifício. Foi necessária a chegada de outra equipe para conseguir realizar a evacuação, recolher todos os nomes e possíveis relatores do que tinha acontecido. No total eram sete pessoas que pareciam ter visto algo de relevante para o caso, e isso incluía a Haruno, o Uzumaki e principalmente a mim, pois fui o primeiro a ligar para polícia, ou melhor, para o Detetive responsável pelo caso, meu pai.

"- Iremos conversar depois, não saia daqui." - meu pai me falou, o tom neutro e inalterado como se estivesse acostumado demais com aquela situação. Naquele momento a ambulância já tinha se retirado do local, e, no entanto, a maioria dos alunos continuava lá procurando informações inúteis sobre o assunto.

"Alguém morreu? Quem? Não acredito, o Sai? O garoto pintor?"

Eram os murmurinhos entre os estudantes e familiares que insistiam em ficar na entrada enquanto buscavam alguma informação. Principalmente os pais que não tinham encontrado ainda entre o caos algum filho estudante de Kitagawa. Quando por fim, ficou explicito de quem se tratava dentro daquela ambulância e após várias advertências da diretora, a maioria se retirou, restando apenas alguns oficiais da polícia, um ou outro estudante, a maioria dos professores e eu, encostado no carro do meu pai esperando ele voltar.

Eu deveria estar ao lado da Haruno, mas, assim como Tenten havia me informado, ela ainda se encontrava dormindo na enfermaria e, inevitavelmente, eu seria mais útil ali com meu pai do que com ela inconsciente na cama. Depois que eu finalmente conversasse com ele, eu tentaria ver como ela estava realmente.

Baguncei os cabelos. Já estava preocupado com aquilo. Ela com certeza não estaria nada bem quando acordasse. Só de me lembrar da maneira como ela ficou ao encontrar o corpo de Sai era mais explicativo que o fato em si.

No momento que entramos na sala, ela ficou com os olhos estáticos sobre a figura pálida no chão, logo depois deu um passo para trás pedindo irracionalmente qualquer espécie de suporte, até que me encontrou e permitiu-se cair no chão. Quando tentei segurá-la pelos braços, eu pude ver seus grandes olhos verdes ainda arregalados, os lábios entreabertos e a respiração irregular. Ela tinha entrado em choque. E eu, por pelo menos 10 segundos, fiquei sem reação, em uma estranha sensação de pânico e impotência, até que Naruto soltou um palavrão e eu me dei conta que ele não conseguia falar com a policia.

Eu não pensei em Sai morto naquela sala, nem no assassino, nem no importante detalhe de que ali, bem diante de mim, estava o meu primeiro cadáver fora de uma geladeira. Eu simplesmente peguei Haruno pelos braços, a levei até o corredor, tentei despertá-la e diante da péssima tentativa deixei Tenten aos seus cuidados e fui providenciar aquilo que eu deveria ter feito logo de início.

Liguei no celular privativo de meu pai.

"Um assassinato em Kitagawa, e você já sabe o resto."

Eu disse calmamente, somente com aquelas poucas palavras, pois eu sabia que seriam suficientes para o meu pai.

- Merda Kakashi-sensei! - escutei Naruto reclamar enquanto olhava enfurecido para a tela do celular. Depois disso ele voltou-se para mim perguntando. - Conseguiu falar com a polícia?

- Eles já estão vindo.

- O que iremos fazer agora? - ele não se deu nem o direito de estar mais aliviado, assim como não me permitiu responder sua pergunta. - Eu tenho que achar alguém, você fica aqui e qualquer coisa me avise, ok?

Concordei com a cabeça, e sem dizer mais nada, ele saiu rapidamente. Pensando agora sobre isso, me pergunto por quem Naruto procuraria. Provavelmente a Hyuuga.

Em seguida liguei para a ambulância, falei com Tenten e Rock Lee para levar a Haruno até a enfermaria, e por fim, pois, afinal eu tinha que fazê-lo, eu entrei na sala.

Senti de imediato o cheiro de flores, mas somente o percebi por que estava muito atento aquele detalhe. Como me encontrava diante de um crime onde eu já supunha um padrão de comportamento do assassino, minha mente, naturalmente, procurava as informações já concebidas. E minha surpresa foi ver que o corpo de Sai estava em uma posição fetal, a sua volta as flores desorganizadas e algumas delas até amassadas. Jacinto, por exemplo, tinha suas pétalas roxas espalhada pelas suas costas, indicando-me que ele tinha sido arrastado até o centro do ritual previamente elaborado. Ou talvez ele tivesse sido colocado ali ao centro, com as flores a sua volta, mas em algum momento ele tinha reagido...

Aquilo me fez andar rapidamente até o seu corpo pálido e nu. Na realidade eu não tinha parado para pensar, simplesmente tinha seguido até ele e mudado sua posição, mesmo ciente de que seria um erro fatal para a construção da cena do crime. Vi primeiramente as marcas no pescoço, uma linha grossa e arroxeada me indicando que ele tinha sido, provavelmente, sufocado por uma corda. Primeiramente perdeu a consciência enquanto reagia ao assassino e logo depois foi arrastado novamente ao ritual, onde, outrora, se encontrava possivelmente dopado. Olhei depois em volta procurando uma janela aberta, mas estava tudo devidamente trancado, rodeado de quadros ainda inacabados.

Minha lembrança seguinte era que, ainda perto do corpo, escutei um gritinho feminino. Virei-me e me deparei com um grupo de alunas acompanhadas de uma professora que identifiquei ser responsável pelo departamento de artes plásticas. Depois da chegada da policia, acabei descobrindo que elas retornaram, pois não tinham conseguido entrar antes, e decidiram ir até a professora em busca de uma chave secundária. Concluindo, elas tinham interrompido o ritual... Só conseguia me perguntar por que o assassino tinha se colocado naquela posição de risco. E então me lembrei de Ino, e que Sai estava sendo provavelmente cauteloso diante de todos acontecimentos com a namorada... Era uma possibilidade bastante plausível, e que impedia o assassino de abordá-lo em uma situação melhor... E ainda havia, é claro, a questão da arte, da vaidade, do desafio.

- Gaara - ergui a vista do concreto para o rosto de meu pai. Ele estava a alguns passos de distância e me encarava. Sua expressão, sempre tão indolente, desta vez estava diferente, o que em realidade não me surpreendia em nada. - Precisamos conversar.

- Claro. - respondi calmo, meus braços cruzados, nenhuma expressão no rosto. - Agora?

- Agora, você se tornou uma das principais testemunhas.

- Sei como funciona isso... Precisamos fazer disso formal?

- Não agora. - ele me respondeu desanimado. Em seguida deu a volta no carro, onde me apoiava e fomos em direção a um canto mais afastado. Paramos lado a lado, nós dois olhando o prédio de Kitagawa. Só tinha percebido o quanto tinha escurecido naquele instante de silêncio.

- Assustado?

Demorei um pouco para respondê-lo, primeiramente pela surpresa, e segundo por que ainda era incerto se me encontrava assustado ou não. Eu não sabia dizer, pois ainda me recordava do momento em que me deparei com aquela sala. E logo agora, tudo me parece surreal demais para tornar concreto o meu medo. Era como acordar de um pesadelo, e se ver na cama, respirando aflito, mas consciente de que não era necessário temer, pois por si só não era real.

- Na realidade não agora.

- Claro... Isso é péssimo. Você não irá parar com isso, não é?

Então finalmente estávamos sendo diretos. Era muito óbvio que meu pai já soubesse de minha tentativa de solucionar esse caso, ou melhor, de entender o que significavam todos aqueles assassinatos. Também já imaginava que em algum momento teríamos que conversar sobre isso, mas nunca pensei que seria em tais circunstâncias.

- Só quero entender o que estava acontecendo. - resolvi dizer, por que era estúpido tentar adiar a situação.

- Não se trata de entendimento, Gaara. - ele deu uma longa pausa, e mesmo que eu não estivesse o vendo, eu podia sentir algo pesado em sua afirmativa. - Não é uma questão de curiosidade egoísta. Pessoas estão morrendo.

Virei-me para encará-lo, pois diante do que dizia, eu queria muito saber como ele estava se expressando. Surpreendentemente não havia nada em seu rosto sisudo e magro, apenas os olhos fundos, fitando frontalmente, enquanto sua voz soava calma e neutra.

Não havia qualquer equilíbrio. Nada que me comprovasse que ele estava sendo sincero e não um hipócrita realizando mero trabalho. E, no entanto, sabia de sua sinceridade, delegando os fatos como realmente eram e me vi novamente como ele. Erámos incrivelmente iguais.

- Eu sei. Eu pensei no início que não seria mais que uma maneira de ocupar meu tempo, mas simplesmente fui levado.

- Você e aquela garota. E vocês só são dois adolescentes curiosos, sem qualquer motivo para fazê-lo.

- Não é totalmente verdade. - me apressei, pois de fato não era. Meu pai em resposta apenas se virou para mim, e eu soube que ele não dava nenhuma credibilidade ao que eu dizia.

- Você poderia ter morrido, sabe disso, não sabe?

- Sim, eu sei... De qualquer modo, não precisará se preocupar tanto, o ciclo foi fechado, não há mais ninguém pelo qual ele possa prejudicar.

Minha intenção era fazê-lo falar sobre a Nuvem Vermelha. E eu sabia que ele estaria ciente disso. Entretanto a máxima resposta que eu tive foi o completo silêncio enquanto meu pai colocava as mãos no bolso. Por um segundo eu pensei que ele ia puxar uma carteira de cigarros, mas me recordei que desde a morte de minha mãe meu pai tinha parado de fumar. Eu olhava para baixo, de maneira que seu só puder ver seus sapatos formais virarem em minha direção. Retornei a encará-lo, e por fim percebi que ele me observava, nenhuma expressão na face, somente a pergunta:

- O que vocês sabem?

Meu pai era imprevisível. Agora entendo por que a Haruno às vezes se irritava com minha inexpressão.

- Não muito. Mas acreditamos que alguém tem copiado o mesmo crime, algo que envolvesse Uehara Hiromi. Vocês já sabem disso, não é?

Eu estava totalmente convicto dessa teoria, de maneira que minha voz soou mais como uma afirmativa do que uma pergunta.

- Não sabemos, não foi comprovado que Uehara Hiromi cometeu alguma coisa.

- O que mais você sabe?

A pergunta que eu esperava.

- Do que exatamente ela foi acusada?

A relutância de meu pai era apenas um momento de silêncio. Exatamente como eu fazia quando reavaliando minhas opções.

- Há alguns anos, Hiromi estava vinculada, de uma maneira, ou de outra, com todas as vítimas. Na época totalizaram seis e esperávamos mais uma. Entretanto a sétima vitima nunca aconteceu, e depois de um tempo, esperando mais alguma informação, decidimos deixar o caso. - suas palavras soaram pesarosas apesar da inexpressão na face. - A equipe ficou bastante desanimada, pois nossa principal suspeita era aparentemente inocente... Ou pelo menos até que fosse dito o contrário.

- E então os assassinatos retornaram. Do ponto zero... Hiromi foi presa, mas mesmo assim os assassinatos continuaram.

- Para prendê-la a acusamos de tráfico, o que não era totalmente mentira, mas ela cometeu suicídio... Você e aquela garota já devem saber. - eu levantei uma sobrancelha, pois não havia sentindo negar. - De qualquer modo Hiromi sempre tinha um álibi, e para fazer tudo que foi feito era necessário pelo menos um cúmplice. Na época ela só tinha um recém-namorado em liberdade semiaberta, no máximo colegas de laboratório e uma colega de quarto.

- O namorado era traficante... - comentei suavemente e vi as mãos de meu pai apertarem dentro da calça.

- Pensamos nele, principalmente devido ao histórico. Mas era impossível que ele estivesse se envolvido com tudo aquilo sem que a polícia acabasse não sabendo. - Meu pai deu uma pausa e pela primeira na noite eu vi suas sobrancelhas franzidas. - Eu nunca entendi aquilo. Hiromi era bastante vinculada a Yusuke, mesmo ela sendo uma estudante da Universidade de Tóquio, de classe social distinta e com uma educação totalmente diferente...

Percebi que o uso dos primeiros nomes de ambos significava que meu pai estava familiarizado e intrigado com aquele caso há anos e que mesmo depois de tanto tempo ele nunca tinha de fato o abandonado.

- E, no entanto - ele continuou - Yusuke parecia totalmente desinteressado nela, me surpreende que eles estivessem juntos até o fim.

- Você parece familiarizado com a Uehara.

Meu pai olhou rapidamente para mim incomodado. Voltou sua atenção para o chão e em seguida retornou a me encarar.

- Ela cometeu suicídio assim como sua mãe. Estava envolvida com um grupo suicida, pelo qual a polícia nunca conseguiu legitimar. Quando a vi pela primeira vez eu soube que ela não era assassina, mas tudo me dizia o contrário. E então ela se matou, e eu só entendi por que depois.

Meu pai tinha me dito tudo aquilo me encarando, sem pestanejar ou relaxar a vista. Tive a vaga sensação de que não se tratava apenas de Hiromi, mas também de minha mãe, de sua função como marido, pai e policial, tudo falho e incompleto.

Aquilo me perturbou de uma maneira indescritível.

Vimos então, naquele instante, uma mãe abraçada com sua filha passando pelos portões principais - a mulher chorava parecendo incapaz de largá-la. Perguntei-me mentalmente por que as pessoas não conseguiam ser racionais quando se tratavam dos próprios filhos. Voltei para meu pai, como se eu não quisesse compartilhar com ele aquela cena por mais tempo.

- Há também o poema que explica a ordem e a morte das vítimas. A descrição do ritual, a ordem das flores, o guia do assassino. - Escutei meu pai suspirar pelo nariz, mas continuei. - No entanto, Sai está fora dos padrões...

- Vocês sabem de muito pelo que vejo. Não sei como deixei isso chegar tão longe.

- Desde quando você sabe?

- Que eu sei?

- Que eu e a Haruno estamos envolvidos nisso.

- Desde a lanterna que vocês deixaram no apartamento da Uehara. Foi algo tolo e tiveram sorte de que eu tivesse decidido passar por lá depois do trabalho.

Lembrei-me vagamente da pessoa que tinha entrado também no apartamento de Hiromi. Tinha me esquecido quase que completamente daquilo.

- Foi muito fácil supor que meu próprio filho estava atrás do assassino da rosa. Esconder isso do restante da equipe me custou tempo e muita discussão com Kakashi.

Assassino da Rosa.

Então era assim como a polícia o chamava. De certa maneira era também um pouco ridículo. Perguntei-me por que exatamente eles tinham se especificado na rosa vermelha, mas me mantive calado, pois desejava dar continuidade ao raciocínio.

- Não foi planejada, a situação simplesmente fluiu. - me justifiquei sinceramente, mesmo que soubesse que não havia razão para tal.

- E por isso vocês também invadiram o apartamento de Hidan? - sua voz era seca, entretanto foi exatamente por isso que eu soube. Ele estava irritado. - Aquilo foi estúpido, aquilo não foi nada como "fluidez" Gaara. Correr atrás do principal suspeito de uma série de assassinatos não é nada esperto. Colocou-se em perigo e até mesmo aquela garota, você sabe disso, não sabe?

Então nos encaramos, e eu vi as sobrancelhas de meu pai franzidas pela segunda vez.

Era estranho. Era realmente estranho tudo aquilo. Não por que meu estivéssemos tendo aquela conversa.

Ele estava preocupado. De maneira sincera.

- Eu sei.

Por um milésimo de segundo pensei em pedir desculpas, no entanto sabia que não havia sentido.

- Sabe, claro. E por isso também vocês irão parar com isso agora. - ele deu uma pausa e enfiou as mãos no bolso novamente. - Agora. – repetiu, seus olhos castanhos demonstrando dureza e autoridade.

- Irei conversar com a Haruno...

- Isso é bom. - por fim retirou as mãos do bolso e inclinou-se em direção aos portões de Kitagawa. - E saiba que iremos sair de viagem pelos próximos dias.

- Para onde?

- Visitar o túmulo de sua mãe.

- E você irá deixar o caso assim?

- Isso realmente importa? Kakashi-san me manterá avisado, iremos viajar também, por que há coisas que quero resolver por lá.

- Por que logo agora? - perguntei, pois para mim ainda era estranho que ele decidisse uma viagem logo agora.

- Não importa. Eu quero você longe desse caso. - não me parecia razão suficiente, mas eu não disse nada e apenas o fitei. Ele levou então as mãos aos cabelos - exatamente da mesma maneira que eu fazia - e olhou para baixo. Os olhos opacos e melancólicos por um milésimo de segundo, até que por fim me encarou. - E quero também visitar a sua mãe.

Era a primeira vez em anos que citávamos sobre minha mãe em uma conversa. Senti-me muito incomodado com aquilo, algo que eu conseguia perceber fisicamente em minha garganta e era denunciado no momento em que levei minhas mãos aos cabelos. Soube naquele exato instante que meu pai se sentia de maneira igual... Talvez de uma maneira ainda pior.

- Converse com a garota antes de ir para casa. A acalme e a prepare para amanhã. Teremos uma longa conversa.

- Tudo bem. - eu disse e por fim me recordei que a Haruno provavelmente precisaria de mim agora. E que era, por outras razões também, um péssimo momento para viajar. - Quando iremos de viagem?

- Depois de amanhã provavelmente.

Ele se retirou sem dizer mais nada. Quando deu um terceiro passo voltou-se para mim.

- E nada de cigarros. Não levará um cigarro sequer para essa viagem. - disse, retornou para frente e eu me perguntei como ele sabia que eu era fumante.

Ele sabia da minha moto, que estava perseguindo o Assassino da Rosa, mas com certeza não era para ele saber que eu fumava. Nem minha irmã sabia.

- Como você sabe?!

A pergunta, alta quase em um berro, tinha saído antes de eu perceber. Meu pai voltou-se novamente para mim, a expressão dura, sisuda, tão característica de nós dois e respondeu.

- Sempre te observo, como eu não saberia disso?

Eu pisquei. Pensei imediatamente em minha mãe, na última lembrança vaga que eu tinha dela. Estavámos em uma sala com cheiro de madeira e cafeína, ela sentada no sofá tomando, em uma grande caneca, café. Eu sabia que era café pelo seu aroma e por que naquele momento meu pai reclamava, mesmo que de uma maneira neutra e distante, de seu vício.

"Largue de fumar então." ela disse sem sorrir.

Não entendo por que logo agora eu me recordava disso.


Sakura, Kitagawa, às 19h48min.

Não queria café, mas Tenten insistiu que sim e que o conseguiria facilmente em uma das máquinas do andar inferior; o prédio já estava quase que completamente evacuado, e aparentemente não havia riscos. Mesmo assim eu pedi para que Rock Lee a acompanhasse, e ele rapidamente aceitou, sendo sempre tão educado.

Passaram-se alguns minutos e foi no momento em que finalmente decidi não aguentar ficar mais tempo ali, que fui surpreendida pela presença de Gaara.

Nos encaramos apenas um segundo. Um segundo apenas, até que minha vontade de chorar voltou e eu me recordei de Sai, do cheiro de ferrugem, das cores laranja e amarelas. Era ainda inaceitável para mim que tudo aquilo tinha acontecido daquela maneira... Bem abaixo de nós, sem que ninguém tivesse feito absolutamente nada para interferir.

Abaixei a vista e recuei um passo. Me abracei intuitivamente sem entender por que o realmente fazia, só sabia que de alguma maneira me sentia quebrada por dentro, assustada. Não tinha coragem de olhá-lo, era ingênuo e sem sentido, mas a sensação que me rodeou naquele rápido instante era que olhar para e Gaara legitimava a morte de Sai.

- Haruno... - sua voz soou baixa, ele deu um passo em minha direção, e eu dei outro. No instante seguinte ele segurava meus braços com força. - Haruno. - sua voz era mais firme. - Olha pra mim.

Me senti ridícula. Por que eu estava fazendo aquilo? Há poucos instantes eu estava mais estabilizada, minha vontade de chorar cessara, mesmo que a angustia continuasse ali.

- Desculpa. - pedi sem saber por que.

- Não peça isso.

Ele simplesmente me abraçou. Um rápido momento até que disse:

- Ele está vivo. Sai está vivo.

Senti minha respiração deslizar pelo meu peito escapando lentamente pelo meu nariz. Veio então a sensação de ardência nos olhos, o tremor nos cantos dos lábios ressecados e as palavras martelando em minha cabeça:

Está vivo.

Está vivo.

Afundei a face na curva do pescoço de Gaara e me permitir chorar novamente.

- Ele ficará bem.

Sai estava realmente vivo. Não havia acontecido nada. Ele estaria bem. E em algum momento aquele sorriso sarcástico voltaria.


N/A: Descrever como alguém lida com morte é complicado. Caramba como foi complicado pensar em como a Haruno reagiria diante da suposta morte do Sai. E ainda mais quando ela soubesse que ele estava vivo! Então eu imagino, assim como foi um pouco semelhante comigo, que a reação seria de negação, representada na proteção do próprio corpo. Bom... Não sei se teve muito sentido para vocês esta última cena... Mas pensem, que pelo menos eu não matei o Sai! haha' bem certo que ninguém achou ruim a morte dele, só acharam que era apenas uma das várias possibilidades de assassino que acabava de se retirar do mercado. É uma pena que tirando a Bianca Caroline ninguém lamentou a pseudo morte dele (resmungando)... Tudo bem, acho que afinal eu não consegui desenvolver um Sai muito popular.

E caramba eu já disse que amo o pai do Gaara? Pois então, eu provavelmente tenho um abismo por todos os sunanianos do Kishimoto haha'. Acabei de inventar uma nacionalidade.

Responderei os comentários no decorrer da semana. Mas agradeço desde já todos eles, suas lindas e lindos.

Um grande beijo de tangerina

Oul K.Z