26. A decadência de um príncipe.
O vento castigou a face clara, os olhos verdes lacrimejaram por conta do frio intenso, ajeitou a capa de pele sobre os ombros e de cabeça erguida caminhou até seu corcel, devidamente selado, segurado por um pajem. Suspirou e amarrou sua bolsa de couro na sela. Tudo o que conseguiu juntar no pouco tempo que teve foi alguns poucos pertences pessoais, uma boa soma em dinheiro e uma troca de roupa.
Montou o animal e sem olhar para trás deu inicio a sua partida, sendo escoltado por dois guardas que tinham por ordem, leva-lo sã e salvo até seu destino.
Seguiu seu caminho sem prestar muita atenção em nada, sua mente lhe lembrando sobre cada equívoco e acerto, sabendo que poderia ter feito mais, melhor, aceitado a realidade de coisas das quais tentou ignorar, mas que agora era impossível de desprezar. O cavalo acelerou o passo acompanhando o ritmo dos outros dois e antes que pudesse notar, parou em frente a seu novo lar.
A estalagem era simples, com uma taverna acoplada a ela.
O cheiro da terra molhada, misturada com o chiqueiro atacaram suas narinas, o ruído de risada e conversa mesclaram-se com o som dos animais, levando-o a ter total compreensão de que já não estava no castelo de Sank.
Desceu do semental e teve o tempo exato de tirar sua sacola para sentir a pelagem passar por ultima vez por seus dedos até que seu cavalo, um velho amigo, fosse levado embora pelos soldados, abandonando-o ali, sozinho e perdido.
Olhou ao redor e sentiu vontade de chorar. Mas, não. Não derramaria nem uma gota, já havia passado da hora de assumir riscos e provaria a seu pai que tinha valor.
Ergueu a cabeça com supremacia. Como sempre disse, uma vez nascido nobre, a realeza nunca seria tirada dele. Os olhos verdes passearam pela escuridão da noite e sentiu as primeiras, tímidas gotas de chuva resvalarem em seu rosto, mas sabia que era algo passageiro, não chegaram para ficar. Com passos firmes e espaçados chegou até a porta de madeira - desgastada pelo tempo - e a empurrou com a mão espalmada.
Em um primeiro momento passou despercebido pela massa, no entanto isso acabou quando sua voz ressoou pelo recinto. A voz firme, educada, com as palavras bem pronunciadas, não demorou em perceberem que algo estava deslocado ali.
O silêncio tomou conta e o ruivo endireitou ainda mais as costas. Sem perder a suntuosidade pediu por um quarto.
— Por quanto tempo pretende ficar, alteza? – obviamente foi reconhecido.
— Tempo indeterminado. – jogou uma moeda de ouro sobre o balcão e o proprietário assentiu em concordância.
— Como desejar senhor... Siga-me.
Não se chateou em observar os curiosos que o analisavam, seguiu o homem de cabelo branco escada acima, decidido e altivo.
-/-/-
Devido aos últimos acontecimentos no castelo, todos se retiraram cedo aquela noite. Foram poucos os que se atreveram a continuar perambulando pelos corredores naquele frio e entre sua maioria eram servos com deveres inacabados.
Cada nobre recebeu o jantar em seus aposentos e cada um tentou assimilar o ocorrido de mais cedo da melhor forma que pôde. No entanto, nem todos estavam tristes ou preocupados. Mas, entre amigos e familiares o sorriso desapareceu.
O silêncio esmagador que se apossou do ambiente deixou até mesmo as paredes de pedra incomodadas com a tristeza opressora. Amanda se deitou chorando sem conseguir falar com o esposo, e apesar de entender a decisão de Dante, não conseguia ignorar a dor dilacerante que sentia seu coração. Por mais indiferente que quisesse se mostrar tão pouco o rei estava interessado em conversas, se sentia magoado, decepcionado e até traído.
O herdeiro de Sank não conseguiu dormir, não teve nem mesmo ânimo de trocar de roupa, já era a terceira volta que dava pelos corredores e a terceira vez que passava em frente à porta dos aposentos de sua amada. Dessa vez, parou e decidiu fazer-lhe uma visita.
A futura esposa do jovem rei estava sentada em sua cama meio tombada sobre o travesseiro, pronta para dormir, mas sem nenhum sono, chorando copiosamente com o lenço em mãos, revivendo cada detalhe da última reunião, tentando encaixar cada pedaço que não pôde compreender, porém sem sucesso.
A porta de seus aposentos se abriu, e Heero entrou sem se incomodar em pedir permissão. Fechou a porta ao passar e parou observando-a. Se já estava triste, não podia negar que aquela cena agravava ainda mais a situação em seu peito. Seus olhares se cruzaram e sem pronunciarem palavra alguma, ele se sentou ao lado dela - acomodando-se semideitado no travesseiro - e a puxou para um abraço cuidadoso. Relena se aninhou com a cabeça no peito dele e se sentiu protegida e amparada pelos braços fortes do noivo.
Ficaram quietos, ele acariciava os longos fios dourados e sentia o perfume adocicado da prometida, enquanto ela se apegava ainda mais ao abraço dele, respirando o aroma de almíscar misturado com couro que ele emanava. Era seu paraíso, seu porto seguro e não precisavam de mais nada para se sentirem completos.
Os minutos passaram lentamente.
— O que será dele? - a voz angelical rompeu a quietude.
— Não sei. - constatou o fato e sua voz saiu baixa e grave.
— Por que ele fez isso?
— Também queria saber.
— Heero… - levantou a cabeça para olhá-lo. - Lúcius não sabe se cuidar, ele sempre esteve amparado pela segurança do castelo… - soou ainda mais aflita.
Sorriu diminuto e passou uma mecha dourada atrás da orelha da moça antes de depositar um cálido beijo em sua testa, puxando-a a seguir para que voltasse a deitar em seu peitoral. Respondeu-lhe:
— Lúcius nunca havia sido posto a prova, mas isso não significa que não saiba se cuidar.
— É estranho ver a fé que você tem nele apesar de tudo o que ele fez…
— Até hoje não compreendi o ódio que meu irmão sente a meu respeito, ainda assim, vejo nele uma grande capacidade, um olhar diferenciado… Lúcius é ignorante sobre o tamanho de seu próprio potencial.
A loira assentiu em concordância.
— Não se preocupe. Ele vai tomar a decisão certa e finalmente voltar para casa e assumir de volta seu devido lugar. — Como sabe? – ela questionou incrédula.
— Porque ele só tem duas alternativas… Ou se conscientiza e ajuda a família ou… - fez silêncio pesando suas próximas palavras.
— Ou? - insistiu receosa.
— Ou padecerá junto com todos os traidores.
Seu olhar ficou vazio com sua conclusão e ela estremeceu ao imaginar um novo embate entre irmãos, um mais perigoso, mais mortal. Nenhum dos dois desejava essa segunda opção. Porém, temiam não poder descartá-la… Ainda.
-/-/-
Ouviu a porta se fechar atrás de si e a realidade começou a se tornar palpável. Observou o quarto, pequeno, com espaço exato para cada móvel, a roupa de cama simples, feita com tecido barato, a madeira da janela rangendo com a força do vento que era barrado por ela e o cheiro leve de mofo que suas narinas sensíveis detectaram, fez de sua atual situação muito mais verídica.
Colocou a sacola sobre a cama e sentou sobre a mesma, com os olhos fixos na porta fechada e se apegando ao silêncio que aos poucos era interrompido pelas vozes longínquas dos que se divertiam na taverna adjacente, foi deixando sua mente vagar até os últimos instantes passados em seu antigo lar.
Após o anúncio real não teve tempo de assimilar o decreto, sendo imediatamente escoltado por dois guardas que o ladearam até a saída da sala do trono e da porta para seus aposentos. Ao entrar, os homens mantiveram a porta aberta enquanto ele começava organizar suas coisas. Ainda pasmado, tentando compreender o que estava realmente se passando, recordou-se do silêncio absoluto que preencheu o salão com a decisão de seu pai, apenas os passos puderam ser escutados naquele momento.
Foi tirado de seu ensimesmamento ao escutar a voz autoritária de seu irmão ao se dirigir aos guardas que o mantinha sob vigilância, com uma simples ordem: — Retirem-se! - E os viu obedecer prontamente, Heero entrar no quarto, os quatro cavaleiros fixarem guarda no corredor e a por fim a porta se fechar deixando-os sozinhos dentro do recinto.
Se encararam e o mais velho emanava irritação através do olhar.
— O que pensar estar fazendo? - inquiriu.
— Pegando minhas coisas, pelo menos as que posso carregar, como ordenou nosso pai. - calmo, alfinetou.
— Interessante os momentos que você escolhe para obedecer, por que não decidiu fazer isso quando ele te perguntou quem esta por trás de todo esse inferno, impedindo tudo isso? - austero e álgido.
Parou sua ação e se questionou mentalmente a mesma coisa.
O moreno esperou como se soubesse o que se passava na cabeça do ruivo, contudo o tempo não parava.
— Volte lá, desculpe-se com o rei e conte o que sabe…
— E acha que isso mudará algo? – usou de escárnio.
— Acho! - retrucou confiante e direto.
— Então, ainda tem muito que aprender sobre Dante. - desdenhou.
— Ou talvez você que até agora não entendeu nada. - replicou com segurança.
Piscou várias vezes, estava novamente no quarto da hospedagem e levou alguns segundos em notar que, o que chamou sua atenção, foram as batidas incessantes à porta. Levantou preguiçosamente e abriu, encontrando uma humilde senhora - com bondade no olhar - oferecendo-lhe uma bandeja com um prato de sopa, um pedaço generoso de pão e um copo com vinho.
— Meu esposo pediu que lhe trouxesse o jantar, imaginou que sua alteza fosse preferir comer no reservado.
Com um timbre cansado e ainda assim gentil, a velha camponesa informou, e ele deu-lhe passagem para que ela entrasse. Com passos curtos, dificultosos, no entanto apressados entrou e colocou a comida sobre a cômoda, dedicou-lhe uma ligeira reverencia e partiu.
Fechou a porta á chave e pegou a comida antes de voltar a sentar-se na cama. Ao passo que levava a primeira colherada à boca, retornava a seus recordos.
— Você se acha muito esperto, não é mesmo? - reclamou aborrecido para o moreno.
— Quando vejo atitudes como essas vindas de você, não acho, tenho certeza. - revidou soberbo.
— Então, por que não aproveita sua vitória completa, meu irmão? Conseguiu tirar de mim a mulher que amo e ainda se livrar de mim em definitivo. O que ainda faz aqui?
— Confesso que estou com vontade de continuar te batendo. - estressou. - Primeiramente, eu não tirei a Relena de você, ela nunca foi sua e você que tentou forçá-la a ficar ao seu lado. Apenas isso, seria motivo suficiente para te odiar e querer te matar, mesmo assim, não sinto nem um e tão pouco farei o outro. Segundo, se quisesse me livrar de você, já teria feito há muito tempo e sem ter que passar por toda essa dor de cabeça querendo te ajudar. E por fim, você está sendo tão ignorante que não notou estar escolhendo deliberadamente o lado errado, bem como não percebeu de que nada adianta forçar alguém que não te quer a ficar com contigo.
Deu uma pausa e o mais novo engoliu em seco, calado, abismado.
— Preste muita atenção. - retomou informativo. - Aproveite esse tempo longe de todos e comece a analisar sua vida, pese suas decisões e pense se valeu a pena. Quando você chegar à conclusão óbvia de que cometeu um erro e quiser voltar, contando a verdade, me procure… Eu faço nosso pai te ouvir e te devolver seu lugar.
Deu meia volta e começou a andar rumo à saída.
— O que te faz pensar que eu chegarei a essa conclusão? E não em uma em que eu esteja certo e você o errado? - provocou.
Parou de frente para a porta e segurou a maçaneta antes de olhar o ruivo para responder.
— Porque acredito que você seja inteligente e possua um lado bom. Apenas quem sabe amar, tem a decência de confessar um erro e liberar a amada de um compromisso equivocado, para vê-la casar-se com outro.
Silêncio. Lúcius ficou sem palavras ou reação, apenas observando o irmão saindo do quarto.
— Quando terminar de arrumar suas coisas, Quatre e Trowa lhe acompanharão até a saída do castelo.
E com essas palavras partiu seguido de Duo e Wufei deixando o irmão a mercê de sua própria consciência...
Colocou o copo vazio sobre a bandeja. Havia comido tudo e só então, notou quão faminto estava e finalmente se saciou. Foi obrigado a admitir que a comida era muito saborosa e ficou curioso sobre quem seria o cozinheiro.
Devolveu a louça para cima da cômoda e resolveu se ajeitar para dormir, havia tido agitação demais para um dia e precisava descansar e espairecer a mente, a fim de pensar. Mas, a verdade era que sabia que o irmão estava certo e aquilo tudo só protelava o inevitável.
-/-/-
A cada minuto, o céu se tornava mais escuro e o clima mais frio e nada de Heiren chegar a casa, o que deixava Maximilliam cada segundo mais preocupado.
Desde aquela tarde em que recebeu a visita do jovem rei, se sentiu inquieto e procurou se ocupar como pôde. Pegou o dinheiro que recebeu e saiu à feira comprar ingredientes para o jantar, gastou bem pouco e deixou o restante para a filha fazer as compras necessárias.
Preparou uma sopa de legumes, comprou pão e peixe, tirou água do poço e organizou tudo para fazer uma surpresa à sua menina, porém com a demora dela a comida já estava fria e aquilo o estava enlouquecendo.
Cansado de esperar, buscou seu abrigo disposto a sair em procura dela, quando escutou a porta se abrir.
— Pai… - silêncio. - cheguei… - sussurrou atônita.
Max que correu para entrada a fim de vê-la, perdeu a vontade de repreendê-la ao ver o rosto confuso, ainda assim iluminado de alegria, de sua filha ao ver a mesa que ficava logo na sala na entrada, farta do bom e do melhor. Ele riu.
Ela piscou várias vezes, estranhada, e apontou o jantar antes de olhar o pai que a observava, regozijado.
— De onde veio tudo isso? - finalmente acordou do impacto e fechou a porta, entrando em casa.
— Um anjo nos deu de presente. - soou emocionado.
— Como?
— Eu já explico tudo, antes tire o casaco e vá se lavar para podermos comer enquanto você me explica a razão de chegar a essa hora.
Concordando com a cabeça ela obedeceu e logo ocupou seu lugar - de frente para seu pai - à mesa, começaram a comer como a muito tempo não faziam, com grande apetite.
— E no fim, o porco escapou, tivemos que correr atrás dele e montar uma armadilha para apanhá-lo. Mas, graças a isso... – suspirou exaurida. - Foi metade do meu dia para o lixo e acabei atrasando demais com a plantação. E como você sabe que a família de Howard é uma das que melhor me paga, então não podia sair sem terminar o serviço. - concluiu cansada.
— Entendi. Mas, da próxima vez não demore tanto ou mande alguém me avisar, estava prestes a sair em sua procura. - censurou ao mesmo tempo em que sentia um grande alivio.
— Desculpa pai. - baixou a cabeça, chateada.
— Tudo bem. - sorriu e foi retribuído.
— Agora… Me conta o nome de nosso anjo da guarda?
— Sua majestade o rei Heero Yui.
A moça - que já havia terminado de comer, mas ainda estava brincando com a colher na boca -, ficou boquiaberta, com os olhos arregalados pela impressão e a mão mole, o que fez o talher cair sonoramente sobre o prato vazio. Maximilliam esperou pacientemente a filha assimilar a novidade.
— O… O que? - a voz saiu fraca.
— Você ouviu, não estou com vontade de ficar eternamente respondendo, enquanto você fica repetindo a mesma pergunta. - zombou.
— Pai! - acordou do choque, expressando-se indignada e ele riu.
Mais alguns segundos se passaram quietos, com ela observando os pratos vazios e as travessas cheias de sobras, pensativa. Então, se aventurou a continuar a conversa, receosa.
— O que ele queria?
Silêncio. Sem resposta, levantou o rosto e encontrou o semblante sério de seu progenitor. Max colocou sobre a mesa um pergaminho - que ela imaginou que deveria estar no banco ao lado dele, porque até aquele momento não o havia visto -, e o empurrou até ela. Antes que decidisse se devia ou não lê-lo, ouviu a voz forte do pai.
— Você foi convocada para se explicar perante o rei Dante. - pausa. – Heiren... Como ousou ameaçar o rei? - criticou autoritário.
— Eu não o ameacei. - quase gritou, injuriada.
— Você falou que por você ele poderia morrer. - retrucou.
— O que não é o mesmo que ameaçar. - bufou inconformada.
Cruzou os braços sobre a mesa, olhando para o lado.
— É um desrespeito altamente inaceitável declarar algo assim sobre nosso regente.
— E por quê? Sou obrigada a gostar dele?
— Dante Yui não te fez nada…
O tapa que a moça deu na mesa calou seu pai.
— Você acha pouco o que ele te fez? - subiu a voz.
— Heiren! - chamou a atenção. - O rei não me fez nada... E sim, outra pessoa.
— Ele ignorou meu apelo por socorro e não te salvou… - sentiu a voz falhar com o pranto fechando sua garganta. Não derramou nenhuma lágrima.
— Ele não soube de nada. - informou.
Franziu as sobrancelhas castanhas e estranhou. Aquilo a fez recuperar um pouco mais a compostura.
— Como você pode saber? - controlada, falando com um tom abaixo do normal.
— Eu nunca duvidei disso e sua majestade me confirmou durante sua visita.
Calou-se sem palavras, ressentida. Por fim, entendendo uma realidade diferente da que viveu a vida toda.
— Eles… - piscou seguidamente, inconformada. - Me garantiram que o rei seria avisado imediatamente…
— Mas não o fizeram.
— Quem garante que ele não mentiu?
— Heero Yui?
— Talvez Dante possa ter mentido para o filho.
— Não mentiu.
Silêncio. Ficaram se encarando e ela sentiu novamente a vontade de chorar, só que se manteve forte.
— Eu sei mais do que você imagina, minha menina… - falou docemente, segurando a mãos dela sobre a mesa. - Coisas que para sua segurança não posso revelar. No entanto, te asseguro que sua majestade, o rei Dante desconhece o incidente e não é merecedor de seu ódio.
Olhou-o, abismada.
— Pai… - começou com o intuito de averiguar mais e foi calada por um gesto com a mão, feito por Max.
— Não perca seu tempo em perguntar, porque não direi nada. Essa é a garantia de sua segurança. E para finalizar esse assunto, você irá se apresentar na corte e implorar perdão perante o rei. A seguir, esquecer esse assunto de vez. Felizmente, o filho mais velho está bastante interessado em te ajudar e com isso você irá colaborar. - ela fez menção de replicar e ele a cortou, continuando com o raciocínio, elevando levemente a voz, completando com firmeza. - Você tem dois dias para cumprir a intimação antes que os guardas venham te buscar a força.
Levantou do banco, começou a guardar as sobras e retirar os pratos.
— Pai…
— É uma ordem Heiren. - concluiu. - Agora me ajude a arrumar tudo, que amanhã o dia será longo.
Em silêncio ela se pîs em pé e passou a organizar tudo, não havia mais o que ser dito. A camponesa não se atreveria a reclamar, não naquele momento por mais que cada partícula de seu corpo pedisse por isso.
Apesar de possuir uma personalidade forte, sabia bem que uma ordem direta como aquela de seu pai, deveria ser cumprida de imediato. Não negava ter ficado magoada e curiosa ao mesmo tempo, só que não tinha nada a ser feito.
Max por sua vez ficou taciturno, triste em não poder contar toda a verdade para sua menina, como gostava de chamá-la. Detestava brigar com ela, ainda assim, preferia isso do que a possibilidade de viver sem ela. Se algo acontecesse a sua filha, suas razões de continuar vivendo acabariam. Decidiu que era o suficiente de conversa por um dia, no seguinte começaria dando a ela o restante do dinheiro presenteado por Heero, o que creia que a deixaria muito animada.
-/-/-
Esperou pacientemente até que Relena entrasse em sono profundo para, então, poder levantá-la de seu peito e deitá-la cuidadosamente sobre a cama, cobrindo-a a seguir. Depois se retirou do quarto pé ante pé. Não conseguiu evitar um modesto sorriso cheio de sentimentos ao olhá-la uma última vez antes de fechar a porta.
Suspirou fundo, o ar frio noturno começou a importunar, finalmente sentiu os efeitos do dia e seu corpo demandou descanso. Não pensou duas vezes em seguir rumo a seu próprio quarto, aproveitando a chance para ocupar sua mente com coisas banais - com o intuito de limpá-la um pouco - como, por exemplo: Ocupariam seu quarto ou o dela após o matrimonio? Será que ela iria enfeitar demais seu quarto?
Riu exíguo de suas tontas questões.
Chegou até seu aposento e antes que pudesse adentrar, viu a porta do dormitório de Lúcius se abrir e por ela sair seu pai.
Encararam-se. Dante se viu descoberto, mesmo assim não se importou, mantendo-se imutável.
Silêncio absoluto.
— Não deveria estar dormindo? - a voz do pai soou estranha, até mesmo rígida demais.
— Estava a caminho disso. - pausa. - Pensei que já estivesse deitado… - curioso.
— Não consegui dormir. - a voz se normalizou.
— Quer companhia?
O ruivo olhou seriamente para o filho mais velho, não negou e nem tão pouco concordou. Pensou na oferta e quando decidiu responder, notou que Heero já se encontrava a seu lado esperando-o cautelosamente, pronto para suportar o tempo que fosse necessário.
Bufou em uma mescla de admiração e incomodo. Não conseguia conceber como aquele homem, que passou vinte anos longe, podia entender tudo e todos com apenas um olhar.
Seguiram rumo ao balcão, que estava a uns passos de distância, e concentraram-se na noite. Estava fria, calma e com o vento soprando forte, no entanto as estrelas brilhavam intensamente, reforçando o esplendor do céu. O pai apoiou as mãos sobre a mureta de pedra e o filho o imitou.
Calados de novo. Ambos apreciadores da quietude e amantes da paz de espírito que a mesma lhes trazia.
— Eu vim para esse exato lugar durante o nascimento de vocês… - Heero o encarou, surpreso interiormente e interessados no olhar. - Enquanto sua mãe gritava de dor durante o parto, a parteira me proibiu entrar, disse que homem só atrapalhava… Ela me irritou e a considerei insolente. - pausa. - Contudo, esqueci-me de tudo ao vê-los e saber que sua mãe estava bem.
Heero sentiu alegria e disfarçou a vontade de sorrir com a novidade. Manteve a compostura e olhou rumo ao horizonte, aquela pintura no chão formada de casas, plantações e verde… Muito verde. Era estranho sentir aquela atmosfera amena e cúmplice ao lado de seu pai. Resolveu aproveitar o inédito e não se manifestou dando espaço para o rei fazer o inesperado: Expressar-se abertamente.
— Quando você nasceu, foi uma alegria geral… - continuou. - Houve banquete e música. E conforme você foi crescendo, todos os olhares se voltaram a você. De inicio você era um bebê muito sorridente e me recordava demais meu irmão… - calou-se, inseguro de continuar. Bufou e seguiu. - Um dia, irritado com alguns assuntos do reino, me atrevi a perguntar a sua mãe se ela tinha certeza de que você era meu filho.
— E ela? - incrédulo, instigou.
— Em resposta, ela calmamente pegou um vaso que ganhamos de casamento e arremessou em cima de mim com toda a força que tinha. Foi o tempo exato de sair da frente para vê-lo se espatifar na parede atrás… Ela sempre teve ótima pontaria.
Dante soltou a última frase quase como um sussurro, escondendo a diversão interna que sentia com o recordo. Pela primeira vez em todos aqueles anos de consciência de seus atos, Heero se sentiu a vontade para rir na frente do pai. Foi uma risada controlada e genuína, surpreendendo seu progenitor que esperou o filho se aquietar. Por fim, retomou o relato.
— Em seguida, ela me deu o maior sermão e me advertiu para nunca mais duvidar de sua fidelidade.
Descontraído, Heero perguntou.
— E o vaso?
— Mandei colarem pedaço por pedaço e o guardei, mas nunca mais esqueci de que não devo duvidar de sua mãe. – Heero achou graça. - No dia seguinte, ainda aborrecida comigo, ela me procurou na sala do trono e me informou, altiva: "Dante, estou grávida de novo e pelo que me consta o filho também é seu!" Deu meia volta e se foi seguida da ama que carregava você no colo. - o moreno não perdia nenhuma expressão do pai, a espera de algo que quebrasse a seriedade. - Aquela notícia fez os problemas desaparecerem. Na manhã seguinte, comuniquei a sua mãe de que se o bebê fosse outro homem, iria se chamar Lúcius.
— Ela não reclamou?
— Não. Era minha vez de escolher, o seu foi escolha dela.
Calaram-se e Dante franziu o cenho, pensativo.
— Quando seu irmão nasceu eu me vi refletido por alguns segundos, ele levava os meus olhos e cabelo… Festejamos… - o moreno prestava toda atenção. - Quando eu o levei para te apresentar, você ficou todo empolgado e quis brincar com ele, mas ainda não podia e eu disse não. – contou simplesmente. - Você fechou a expressão, baixou os braços que havia estendido querendo carregar seu irmão, e simplesmente me disse: Sim, senhor. Depois fez uma reverencia e saiu. Você tinha três anos e me deixou impressionado.
— Hum… - Heero nada disse, apenas ficou pensativo.
— Desse dia em diante as coisas começaram a mudar, eu passei a superproteger seu irmão e cobrar demais de você.
— Sim… Isso me ajudou a ser melhor.
Assentiu e não trocaram olhares, falavam para frente, com suas posturas rígidas e majestosas. Dante enrijeceu levemente a face, algo rondando sua mente o incomodava. — Seu irmão ficou muito mimado.
— Lúcius é adulto e deve responder por seus atos. – franziu rapidamente o cenho.
— Quando Arturo pediu para te levar com ele, pensei em negar, no entanto, eu vi como isso poderia ser bom para que ambos pudessem se desenvolver. – A expressão relaxou momentaneamente e logo ele recuperou a frieza. - Você estava sempre alerta e nem questionava minhas ordens. Cuidando de seu irmão feito uma sombra…
— Fiz o que deveria fazer… - informou decidido, sem lamentações, prático.
— Então, pensei bem e cheguei à conclusão de que seria bom para você sair de perto por um tempo. No fim foi mais tempo do que planejei. - declarou. - Queria que você conseguisse sua própria personalidade, naturalmente.
— Pai…
— Ainda assim, enquanto você crescia e se tornava um exemplo, Lúcius acabou sendo paparicado demais e isso acabou com ele. Talvez devesse ter tido mais pulso firme... Talvez agido diferente.
— Por quê?
— Deveria ter-lhe dado outras responsabilidades e obrigações a cumprir. Porque o que eu cobrava dele não era uma postura de príncipe. E sim que ele fosse um segundo Heero.
O primogênito ficou em estado de choque. Calados, ambos ficaram imóveis apreciando o silêncio e perdidos em pensamentos.
— E esse é o resultado. Traído por meu filho. Veremos se esse exilio resolve essa situação.
Dante concluiu guardando para si seus sentimentos. Expressando-se friamente, com sua usual máscara, da qual já não conseguia se livrar. Heero não disse nada, não precisou. Entenderam-se perfeitamente e aquilo bastou.
Estiveram mais uma meia hora em silêncio total, antes de se despedirem e cada um seguir para seu quarto. Dante decidiu apagar aquele sentimentalismo que queria se apossar dele e descansar de uma vez. Heero por sua parte começou a encaixar melhor as peças e entender de onde vinha tanta raiva por parte de Lúcius.
Foi um milagre para ambos descobrirem que podiam dormir. Não demoraram nem cinco minutos acordados após deitarem-se.
-/-/-
O castelo foi regado pela quietude, todos estavam adormecidos em seus aposentos e apenas uma pessoa permanecia desperta.
Sentado em uma poltrona, bebendo sua segunda taça de vinho, com os olhos azuis passeando de um lado ao outro na escuridão de seu aposento - que a única fonte de luz que possuía era uma pequena e solitária vela acesa na mesa ao lado dele -, a mesma onde ele apoiava a bebida, estava Cássius.
O jeito alegre e simpático havia desaparecido para dar espaço a uma áurea obscura, carregada de mistérios do passado e presente. Pensativo, com a camisa branca aberta no peito, a calça frouxa e o cabelo castanho longo solto, o barão não movia nem um músculo do corpo ou face.
Ouviu baterem na porta, três batidas secas. Não precisou permitir que entrassem, porque a mesma se abriu e por ela passou os dois guardas que anteriormente escoltaram seu sobrinho até a estalagem. Os homens se curvaram em respeito ao nobre e entraram fechando a porta atrás deles. Não caminharam muito por conta do breu.
— Por que demoraram tanto? - o irmão da rainha questionou, molesto.
— Perdoe-nos, senhor. Estivemos esperando que o rei e o herdeiro fossem dormir… Eles ficaram um bom tempo conversando.
Cássius assentiu e gesticulou impaciente para que prosseguissem.
— Nós levamos o príncipe até uma hospedagem no centro da aldeia. Ele ficará lá por tempo indeterminado.
— E ele levou muita coisa?
— Apenas o que pode carregar, como ordenado pelo rei.
Sentiu o ódio o inundar com aquela última palavra, mas manteve a compostura.
— Fiquem de olho nele. Lúcius pode ser bastante imprevisível e eu não quero isso.
— Sim, senhor. - em uníssono.
— Quero saber cada detalhe, se ele recebe visitas, de quem, tudo…
— Sim, senhor.
— Agora se retirem.
Com uma última reverência, os dois saíram.
Os olhos do barão ficaram vazios, perdidos em um ponto qualquer na janela de vidro fechada. Olhando sem olhar, balançando a taça, fazendo o liquido dentro dela girar.
Não conseguia se tranquilizar cada partícula de seu corpo gritava, que aquela decisão de Dante havia sido um mal pressagio e ele não poderia desmoronar e nem cair. Isso nunca. Suspirou e esvaziou a taça em um gole.
Levantou da poltrona e caminhou rumo à cama, deitou sobre seu lado direito e ficou observando o retrato pendurado na parede, onde podia-se visualizar ele e sua irmã quando jovens.
Continua...
Ola povo lindo. :3
Olha... eu estou tão estressada, tensa e cansada, que se vcs ainda acharem algum erro, favor me desculpem. Terminei a correção quase não vendo oq fazia. Mas, como não queria protelar mais tempo para publicar... Ai está.
Acho que agora concluímos que Lúcius é burro. kkkkkkkkkk (O indivíduo é meu e xingo ele quando quiser. XD)
Mas, acho que será ótimo essas férias forçadas. :)
O cap ficou bem curto comparado aos outros de 12 mil palavras, mas senti que já havia informação demais...
Então, mereço reviews? Alguma teoria de conspiração para me contar? XD
Obrigadão a Co-Star por toda ajuda, incluso com a "batida de martelo" na cena do Dante.
É isso, to podre, exausta, carregada e ta me dando sono. i-i
Espero os comentário logo, pq estou mesmo ansiosa e preciso de boas novas. :)
Amo vcs... S2
28/06/2016
