N\A: Espero que gostem, suspense, romance e alguns assassinatos.

Para quem não se lembra exatamente da história de AUR, no meu perfil tem um blog com resumo dos capítulos, caso alguém tenha curiosidade em revisar, só ir lá.


Capítulo 36

Verdade II


04 de dezembro de 2007


Hinata, Agosto de 2007.

Aquela dor no peito era tão latente que, por um instante, achou que um buraco brotava no meio da sua caixa torácica. Enquanto andava pelos corredores de Kitagawa notou a porta de metal que isolava o pessoal de limpeza. O tom escuro da porta lhe recordou repentinamente a cor do revolver do seu pai, herança de um tio, com mais significado familiar do que um uso em si. Perguntou então, se caso ela a usasse, ele continuaria a guardando em sua gaveta. Era o terceiro pensamento de suicídio que lhe ocorrera àquela manhã, era um raro momento em que esquecia aquele buraco no meio do corpo.


- Eu não acho que você deva fazer isso.

Ela não estava pensando em se jogar dali, apenas observava a água enquanto imaginava-se fazendo parte daquela imensidão de moléculas de oxigênio e hidrogênio.

- Não, não é isso. - respondeu rapidamente antes de saber quem era. Viu, há alguns metros de distância, um jovem homem, os cabelos brancos protegidos por uma toca de frio. Sua expressão era gentil.

- Se não era isso o que era?

- Eu... Eu... - ele se aproximou enquanto ela tentava articular qualquer coisa decente.

- Estava pensando em fazer parte de algo maior que você mesma?


Sentia-se um pouco desconfortável sentada ali diante de um homem que acabara de conhecer. Mas não podia culpá-lo, pois instintivamente o havia seguido assim que ele deu as costas diante do seu silêncio.

- Sabe. - ele começou, enquanto procurava algo em sua bolsa. Retirou dali um suco de caixinha. - Quando eu era mais novo eu conheci uma mulher que escreveu um poema.

Hinata, que tinha os olhos nas mãos, virou-se rapidamente em sua direção. Ele em resposta apenas tomou um gole da sua bebida, e naturalmente perguntou:

- Então você o conhece, o poema das flores?

- Você conheceu a autora? Ela fazia parte da Aurora?

Um discreto sorriso surgiu no rosto pálido. Hinata não tinha notado o quão profundo eram seus olhos negros.

- Sim, mas eu era muito novo. Só fui retornar a lê-lo, há alguns anos, quando uma amiga de infância o mostrou sem querer.

(...)

- O que você entende pelo poema? - ele perguntou após uma pausa de silêncio.

- Como assim?

- Você sabe que aquele poema pode significar muitas coisas, certo?

- Sim… Me falaram que ele tenta nos salvar, mas penso que ele não é suficiente. Não entendo por que elas insistem em ler e usá-lo como justificativa.

- Suas companheiras da Aurora?

Hinata o encarou por um instante em silêncio. Analisou sua face e o olhar seguro e tranquilo. Há alguns instantes se sentia extremamente envergonhada, mas aquela pergunta, indicando que ele conhecia Aurora, a fazia querer saber mais sobre ele. Ela compreendia os motivos de quem participava do grupo. O desejo de morte tinha muitas vezes a necessidade de ser expressado, como se todo mundo desejasse deixar algo para trás. Entretanto, nunca entendera aqueles que só queria ajudar no processo do suicídio. Chegava a pensar que era apenas loucura.

Ele era um facilitador. Talvez ele fosse louco também.

- Você é um…

- Não. Não quis me envolver com isso, apesar de entender a mente de você e suas companheiras.

- Não são companheiras, elas só sabem falar das próprias dores.

- Entendo. E o que elas entendem pelo poema?

- Que elas podem se salvar com ele…

- Eu também acho isso, mas não por que ele nos faz querer viver, mas por que ele nos arranja coragem… de se juntar a algo maior.


Sakura, estacionamento, às 22h16min.

Desliguei o celular sentindo o coração palpitar. Quando levantei a cabeça vi Hinata me encarar esperando uma resposta. Enquanto estive no telefone com pai de Gaara ela tinha um aspecto muito mais concentrado, ou melhor, menos insano.

- O que eles disseram?

- Disseram… Que devemos apenas esperar, que eles farão o que for possível, mas que não é para gente se envolver.

- Como assim?

- Pediram para te levar para casa, que Neji-san já está sabendo de tudo.

- Eu… eu…

Eu suspirei bem alto.

- Eu concordo com você, Hinata. Mas o que podemos fazer?

- Não sei… eu não quero ficar aqui esperando. - ela levou as mãos ao coração.

- Por enquanto vamos sair daqui. Não quero voltar para casa, pois fica muito longe do centro e como sua casa não é uma opção, podemos ir para uma loja de conveniência, e pensar em algo lá.

Ela concordou com a cabeça, e seguimos para a saída do estacionamento. No lado de fora seguimos até uma loja de conveniência que ficava duas quadras de distância.

Só havia um jovem atendente entediado na loja e mais dois jovens comprando cerveja. Enquanto Hinata se sentava em uma das bancadas viradas para rua eu fui buscar dois chocolates quentes. Eu não sentia fome e suspeitava que Hinata também não.

Olhei o relógio. Quinze minutos desde que conversei com o pai de Gaara. Para mim tinha passado muito mais. Observei Hinata que olhava as próprias mãos me perguntando se ela realmente era a chave para solução desse caso e a salvação de Naruto e Gaara. Sua expressão pálida e doente me fez duvidar.

Mas em minha atual condição eu não poderia duvidar da polícia.

"- O GPS que estava com meu filho foi retirado, eu já imaginava que isso aconteceria, mas tinha esperança que ainda teríamos alguma indicação. Não sabemos onde ele está, e a única pessoa que poderia ir até ele é Hinata, você tem que convencê-la a achá-lo. Fazer com que ela se encontre com ele, sem levantar suspeitas."

Eu não tinha opção e por isso me ajeitei na cadeira deixando de lado meu chocolate quente pela metade.

- Hinata-chan, se sente melhor?

Ela concordou com a cabeça e tomou mais um gole de sua bebida. Percebi suas bochechas mais rosadas e mãos estáticas, sem o tremor que as acompanhava desde que falamos com Kabuto-sensei.

- Estamos sem alternativas, por isso precisamos pensar juntas. Nos precisamos saber onde Kabuto se encontra.

- Para avisar a polícia? Não sei se…

- Não. - a interrompi. - Não a polícia, devemos ir lá sozinhas, pode ser ainda pior chamar a policia.

Tentei soar calma para que ela acreditasse em mim. Era óbvio que a policia era nossa solução mais palpável, mas eu temia que se ela soubesse dos enormes riscos, ela denunciasse nossos planos para Kabuto.

- Eu entendo, eu não quero só aguardar a polícia.

- Eu também, e eu queria que você nos fizesse algo.

- Como assim? - ela parecia atônica.

- Eu quero que você ligue para Kabuto-sensei. Eu quero que você o localize para a gente ir lá, sem ajuda da polícia, do contrário não poderemos fazer nada.

Ela pareceu relutante e assustada a princípio, e como incentivo, eu segurei suas mãos e a obriguei me encarar.

- Você consegue, eu irei te ajudar. Você entende que eles dependem disso?

Os olhos dela ficaram ainda mais marejados, entretanto, quando ela piscou, eu senti que ela aceitaria fazê-lo.

- Mas ligar para quê? Por que ele aceitaria nos encontrar?

- Precisamos pensar nisso também, você é a pessoa que mais o conhece, o que você acha que o convenceria?

Ela tragou saliva, piscou diversas vezes.

- Ele depende de mim. - disse por fim. - Mesmo que ele tenha matado todos eles, ele depende de mim para terminar tudo.

- Como assim?

- Naruto me falou e eu acredito que seja verdade, tudo que ele fez não foi culpa minha, mas foi feito para eu alcançar o meu limite…

- E então "dormir" assim como no poema.

- Isso. Naruto-kun me fez prometer que eu nunca faria isso independente do que acontecesse. Que eu não deveria cumprir com o desejo dele…

Antes de ela terminar uma ideia me passou pela cabeça. Hinata era o grande prêmio, a única morte que ele não poderia definir, se culpar, se responsabilizar, mas que era totalmente manipulada e ao mesmo tempo independente dele. Era o ponto final do ritual, o momento que ele respirava e enchia o ego de realização.

Sem a morte de Hinata, todas aquelas mortes não tinham significado.

- Hinata, você não pode dizer que está comigo. Diga que fugiu e que precisa ver Naruto, do contrário...

Eu puxei o ar com as narinas e levei as mãos até as suas. Era arriscado.

- Negocie com ele o seu próprio suicídio.


Gaara, Arakawa, às 22h20min.

- Ela não faria isso. Minha mãe jamais participaria de um grupo suicida, ela… - fiquei sem fala pensando que eu tinha poucas lembranças de minha mãe. Eu não conhecia seu caráter, apenas a afabilidade, a neutralidade, as palavras frias e calmas. Eu simplesmente não sabia, só queria acreditar. - Ela não poderi...

- É isso que te assustou? - ele levantou-se e logo em seguida se abaixou - Não fique alterado por isso. Sua mãe nunca participou do grupo, sua mãe na realidade descobriu esse grupo por uma garota no Orfanato em um trabalho voluntário. Na época eu só tinha 14 anos e ela me tratava como um jovem tímido que precisava conversar. Ela realmente tentou ajudar todos nós, principalmente essa garota, e eu suspeito que ela fez tudo aquilo para ajudar a si mesma. E penso que foi por isso que ela escreveu aquele poema… - Kabuto curvou os lábios minimamente - Mas essa garota ainda cometeu suicídio, poucos dias depois que sua mãe foi embora, e ela provavelmente se matou pela culpa.

É incrivelmente irônico me sentir mais calmo diante daquelas palavras. Significava que minha mãe tinha ao menos tentado, e se não fosse por causa daquela garota, se não tivesse conhecido Kabuto, se tudo fosse um pouco diferente, ela ainda estaria viva.

- Eu realmente fiquei decepcionada com sua mãe, ela tinha realmente muita fé na gente, mas aquele poema, deus, ele era tão magnificamente dualmente interpretado, que era capaz de qualquer coisa. - ele suspirou voltando a se levantar - Então não culpe sua mãe, a culpa é de quem interpreta aquele poema.

- Ela escreveu para ajudar e você usou para…

- Não, calma. Você esta pulando uma parte do processo. - Sua mãe escreveu, e qualquer um pode interpretá-lo. Hinata-chan aceitou de uma maneira, ela aceitou como a maneira de conseguir força.

- Não...isso é... - quis gritar, mas sentir minha garganta arranhar, restando apena uma respiração alta. - Você estimulou Hinata, você decidiu por ela...

- Não. Claro que não. - ele me encarou como se eu estivesse dizendo uma tolice infantil. - Hinata-chan escolheu cada um deles. Pelas razões e reconhecimento dela.

- Ela não pediu para você matá-los.

- Sim e eu nunca ousaria culpá-la pelo que fiz, ela só se responsabiliza indiretamente pela minha orientação. E pelo próprio suicídio, claro.

-Isso não tem sentido, você não dá nenhuma alternativa a ela.

- Claro que eu dou, eu não dou nenhum alternativa para as flores dos poemas. Nisso, para essas pessoas, Jiraiya-san, Iruka-san, Deidara-san… todos eles, todas suas mortes, elas sim, foram manipuladas. Mas eu realmente me importo com isso? Eu não importo com isso, eu me importo é com a Hinata-chan, assim como me importei com sua mãe, Gaara-kun. - ele deu uma longa pausa - Sua mãe também conheceu Hiromi, e eu suspeito que foi ela quem levou o poema para o grupo Aurora. Mas Hiromi sempre foi mais fraca, eu tentei ajudá-la, mas ao fim ela nunca conseguiu ser amada pelo o namorado, ela nunca se mataria pela culpa, e por isso eu nunca consegui terminar o ritual. Eu me sentia tão ridículo por não conseguir convencê-la, alguém que eu conhecia desde minha infância…

- Ela se matou, você sabe disso.

- Sim, ao fim eu fiquei sabendo das datas determinadas, se eu soubesse disso, eu teria matado menos gente, e só esperado o momento certo. Mas o meu erro foi ter depositado tanto tempo em Hiromi, aquilo deixou a polícia em minha cola. Precisei ir embora para o exterior, alguma pós-graduação. Maldito pós-graduação, se eu soubesse que matar aqueles conhecidos de Hiromi me obrigaria a sair do país com um pretexto tão trabalhoso... Você tem sorte de não ter que fazer essas coisas. - ele deu uma pausa como se eu esperasse eu dizer qualquer coisa, mas diante do silêncio ele apenas piscou, deu uma olhada até Naruto desacordado no chão e voltou-se para mim. - Mas ao fim, isso me ajudou em algum sentindo, um professor na Tailândia me ensinou a ser um excelente professor. Claro que não o convencional… - senti vontade de rir, mas o movimento faria sentir ainda mais dor na boca. - Mas pense comigo, eu dei o que ela precisava, ela necessitava coragem, autoconhecimento, deixei claro o quão leviano é viver.

Me recordei de Hinata com seus olhares pro chão, a voz baixa quase inaudível. Pensei o quanto aparentemente frágil e estúpida ela parecia ser, e quanto forte ela foi para se manter viva até agora, com um psicopata como aquele dizendo toda essa conversa existencial absurda.

- Por que você a escolheu? - perguntei.

Ele parecia realmente animado com essa pergunta. Me lembrei das palavras de meu pai.

"- No pior dos casos, o mantenha ocupado tempo suficiente para conseguirmos agir."

- Por que ela é inteligente, e também por que ela esteve envolvida com a Aurora e particularmente encantada pelo Poema das Flores.

- O grupo…

- Sim, foi realmente bom saber que ela participava de um grupo recheado de meninas esperançosas, fracas e iludidas com as próprias condições.

- Você esteve envolvido com o grupo…

- Não! - percebi que ele não gostava de ser mal interpretado. Eu poderia usar aquilo para ocupar mais um tempo. - Não nessa época, conheci o grupo de fato apenas esse ano. Conheci Hiromi ainda no orfanato, ela comentou comigo sobre o grupo, mas participar só foi possível quando Hidan se disponibilizou a apresentar o funcionamento do grupo.

Era muito surreal que existisse um grupo como aquele. Um absurdo que ele se mantivesse tão bem estruturado como meu pai me descreveu. Com padrinhos suficientes para que cada menina tenha o seu próprio facilitador

- Você entende que o grupo não serve para mim? Eu não podia fazer algo para facilitar o processo, compreende? Eu realmente queria ajudar todas elas a se jogarem de seus terraços escolares, disparar armas roubadas, usar navalhas no pulso. Eu queria libertá-las... E nenhum deles seria capaz de entender isso…

- E por isso você matou Hidan...

- Exatamente! Hidan era tão fascinado por suicídio quanto eu, mas não era um assassino. E quando ele percebeu o que eu estava fazendo e deixando rastros que denunciava a Aurora, ele começou a pesquisar sobre mim, verificando como todos aqueles assassinatos estavam acontecendo. Ele precisava descobrir quem estava usando o nome da Aurora e depois de invadir necrotérios, ser abordado por professores, ameaçar a tal Yamanaka, descobrir a respeito de vocês dois, ele chegou até mim e eu tive que matá-lo. Eu realmente não sei o que poderia ter acontecido comigo, se eu não o tivesse matado naquele apartamento universitário… Você sabia que ele era sociólogo, uns trabalhos fantásticos sobre crime e violência em Tóquio.

- Você… você já sabia de mim e da Haruno?

- Claro que sim...

O telefone vibrou e repentinamente o aparelho era o centro das atenções. Kabuto olhou a tela, a face inexpressível, até que um sorrisinho discreto surgiu. Seria a polícia tentando negociar?

- Senti saudades de sua voz… - disse suave e gentil. - Senti saudades de você também. - repentinamente sua expressão fechou-se e seus olhos ficaram opacos. - Você está com alguém, Hinata-chan?

Então era a Hyuuga. A hipótese de meu pai assim como a minha, era que Hinata não era ciente da série de assassinatos até que Naruto revelou quem era Kabuto. Mas ouvindo a maneira como ele falava, começava a pensar que nossas conclusões eram muito superficiais.

Ele riu pelo nariz e em seguida cruzou os braços.

- Eu não confio mais em você.

Quase tive vontade de rir diante daquele dilema.


Sakura, Centro de Tóquio as 22h30min.

- Não estou pedindo para você confiar sensei. Eu… eu… sei de tudo… Naruto-kun me contou e eu sei que você depende de mim para que o ritual seja realizado. Você precisa… - ela suspendeu a respiração por um instante. - você precisa que eu diga quem são suas vitimas não é? Eu decido… quem você mata.

Peguei minha caderneta e escrevi Sai no papel.

- Sai não está morto, a papoula não está morta Kabuto-sensei. Eu tenho uma sugestão para que você possa finalizar tudo isso…


Gaara, Arakawa, às 22h30min.

Kabuto lambeu os lábios e seus olhos brilharam novamente, não de expectativa, mas de sincera curiosidade e interesse. Fosse o que fosse que Hinata estivesse falando era algo que o interessava.

- Você pretende me indicar outra vítima? E para que você faria isso?

Logo em seguida ele girou os olhos.

- Naruto-kun realmente é importante para você. Mas isso é bom, muito bom, torna tudo mais legítimo. Perder sua vida pelo o outro… e você sendo tão egoísta assim ao ponto de oferecer a vida de outro, estou impressionado.


Sakura, Centro de Tóquio as 22h30min.

- Eu só quero ver Naruto. Eu realmente só quero vê-lo, eu preciso vê-lo - Vi lágrimas brotando em suas pestanas e eu nunca me senti tão satisfeita em ver alguém chorar, mesmo naquelas circunstâncias. Isso tornaria tudo mais real. - Eu... Eu posso vê-lo sensei?

Mostrar submissão talvez ajudasse. Então os olhos dela arregalaram.

- Não sensei, não, não quero enganá-lo eu só quero vê-lo.

Droga. Ele não ia cair nessa. Peguei minha caderneta e mandei-a dizer:

- Se você não me levar até você sensei, juro que irei viver todos os meus dias, e... Seu ritual jamais será finalizado... Mesmo com Naruto morto.

Escrevi para ela falar mais.

- Irei viver trancada em meu quarto, pensando em você, pensando nele, mas nunca irei morrer por sua causa, sabendo que é minha culpa.

Por um instante eu pensei que ela era sincera e que todas suas palavras se tratavam de uma promessa.

- Sensei, eu nunca irei me matar. Não, até que você me leve até você e eu veja com meus próprios olhos Naruto ser morto.

Então eu percebi que era verdade. Não era uma encenação.


Gaara, Arakawa, às 22h32min.

Kabuto ficou estático por longos cinco segundos após desligar o celular. Não piscou uma vez sequer, nem demonstrou nada alem de uma face inexpressiva. Isto me preocupa mais se ele estivesse sorrindo.

- O que aconteceu?

Era estranho eu perguntar, o mais estranho ainda foi ele voltar em minha direção e me olhar como se eu fosse um amigo intimo.

- Sai não morreu. - ele revelou por fim. Eu imaginava que o fato de Sai estar vivo não interferia em nada sua decisão de matar Naruto e depois se livrar de mim. E por isso, quando ele pareceu pensar seriamente sobre isso, eu soube que algo de muito ruim aconteceria, mesmo não sabendo por que.

- Acho que você pode substituí-lo.

Suas palavras saíram com leveza e naturalidade como se fosse um plano B muito fácil de ser executado. E talvez por isso eu sentisse meu sangue gelar ainda mais.

- Eu… Eu não combino com a Papoula…

- Não importa, isso é só uma questão de interpretação. Com certeza, se dependesse de alguma garota idiota você poderia passar facilmente pela Orquídea, não acha?

- Isso não tem sentido. O ponto de referência é a Hyuuga.

- Sim, e ela acabou de oferecer o seu pescoço em troca de rever o namorado antes de morrer. E adivinha, eu concedi.

- Isso só pode ser armação Kabuto!

- Eu sei. Eu sei que é muito provável que ela esteja me enganando. Mas o que eu tenho a perder? Eu só quero terminar tudo isso.

- Você vai acabar sendo preso.

- Isso não importa. Nada importa agora. Você acha que eu tenho alguma espécie de afeição pela minha liberdade? Se eu fugi na época de Hiromi foi apenas por que eu sabia que eu nunca terminaria isso aqui.

Me senti tremer. Kabuto estava pouco se importando se ele poderia morrer ali mesmo.

- Agora, o que nós podemos fazer? - ele perguntou diretamente para mim. Minha expressão deveria estar muita assustada e incrédula agora, por que ele riu e continuou: - Exatamente isso.

Ele não deixou de sorrir quando retirou da bolsa um revolver, e também não me fitou quando disse:

- Não terei tempo para montar outro ritual. Com Jiraiya a situação foi tão caótica quanto.

No instante que ele sorriu, veio o som oco, em seguida a dor dilacerante em meu ombro. Eu gritei. Era como um rasgo que queimava, tão quente que o calor parecia impregnar sobre o sangue que deslizava sobre minha blusa.

- A intenção não era te matar, então relaxe, não tentarei acertar no lugar certo. Afinal elas devem chegar daqui a pouco.

Enquanto ele falava eu tentava enxergar a quantidade de sangue que estava sobre minha roupa, tentando imaginar se seria assim que eu morreria.


Sakura, Centro de Tóquio às 22h45min.

As palavras dele se resumiram em um simples: Ponte de Arakawa, 200 metros de onde você conheceu o seu amado Uzumaki. Era um lugar óbvio considerando que ele tinha matado todas suas vítimas anteriores no mesmo local em que a Hyuuga conheceu com exceção de seu pai. Iruka no café, Deidara na exposição, Jiraiya em Arakawa, Sai em Kitagawa.

- Por que não pensamos nisso? - eu sussurrei enquanto entramos em um vagão em direção a Arakawa. Seriam no mínimo 15min para chegar lá.

Hinata não me respondeu, não por que ela não tenha escutado, mas por que ela estava atenta em mutilar as próprias unhas.

Descemos na estação de Arakawa, e seguimos até o lugar combinado. Me sentia tensa e gelada, e quanto mais eu me aproxima, mais minha respiração ficava nítida em meus ouvidos. Quando chegamos à parte do gramado um homem em uma bicicleta passou por nós, nos ignorando completamente. Hinata o acompanhou com os olhos arregalados até que ele sumiu da paisagem. Ela entraria em pânico a qualquer instante e aquilo só me deixou ainda mais perturbada.

- Hinata-chan, nós…

Um grito me interrompeu e no mesmo momento eu paralisei. Demorei apenas um instante para reconhecê-lo. Era Gaara. Meu corpo se moveu antes de minha mente, comecei a correr rapidamente sem me ater a nada a minha volta.

Percebi Hinata logo atrás de mim, e apenas quando me aproximei da ponte eu parei para pensar.

Eu tinha que manter a calma.

Outro grito. Esqueci-me de tudo.

Minha respiração irregular. A ponte há metros de distâncias, os pontinhos de luzes ao longe. A grama úmida, o cheiro do rio, o silêncio mórbido da noite.


Gaara, Arakawa, às 23h02min.

Um tapa em minha cara me fez acordar. Estava zonzo e extremamente fraco para reconhecer seu rosto de imediato, mas quando sua voz soou bem próxima de mim eu me dei conta de tudo.

Do tiro em meu ombro e na quantidade de sangue que eu estava perdendo. Não pensei que a tontura viria tão rápida, talvez fosse o misto de desespero de morte e todas as informações pelo qual fui bombardeado.

Senti meu braço ser levantado e gritei sentindo como se os músculos do meu braço estivessem se destruindo.

- Realmente…

Ele disse bem próximo do meu rosto, quando levantei a vista para vê-lo minha visão estava torta e fosca.

- Gaara!

Sua voz soou fina e distante e mesmo assim eu fui capaz de reconhecê-la. Pensei em me virar para ver se ela realmente estava ali, mas a dor foi maior. Gemi e senti minha boca seca.


Sakura, Centro de Tóquio às 23h05min.

Pensei em correr em sua direção, mas Kabuto de pé com a arma abaixada lado a lado ao corpo me fez parar. Hinata que estava a poucos passos de distância de mim, não relutou, seguiu correndo até o corpo de Naruto caído há alguns metros dali entre mim e o professor.

Olhei para Gaara e o viu com a cabeça em minha direção os olhos semicerrados, a mandíbula apertada fortemente, foi então que vi um circulo vermelho em seu ombro e eu soube que Kabuto tinha errado o tiro.

- Esse desespero todo pelo amor. As vezes eu me pergunto seriamente como é ter essas sensações. – Kabuto tinha os olhos em Hinata. Ela pegava o rosto de Naruto entre as mãos e chorava copiosamente, dizendo irracionalmente que estava tudo bem. – Ao mesmo tempo eu reconheço que é um impulsionador de vida. Amar. Amar em desespero.

Ele dizia tudo aquilo apenas olhando para os dois. O rosto tranquilo como se não estivesse preste a matar alguém. Gaara gemeu, seu rosto levantou-se por um breve instante e então caiu. Ele estava inconsciente e uma aflição quase material tomou conta de mim.

- Isso não tem sentido. - minha voz saiu antes do meu pensamento. - Ele não pode ser um sacrifício, ele é… ele não pode…

Kabuto me encarou. Desta vez sua face parecia estática e levemente cansada.

- O que você sugere que eu faça então?

Senti meu corpo gelar e minhas pernas paralisaram. Não estou conseguindo raciocinar. Olhei Gaara, olhei Kabuto, a ponte ao fundo, a sensação de perigo, de morte, de que tudo daria errado. Onde estava a polícia, era para ela está aqui, era para o pai de Gaara estar aqui…

- Sakura…

Meu nome em um gemido me fez voltar à realidade. Gaara me chamava. Ele virou o rosto para cima e descansou como se estivesse cansado de mais para mantê-la ereta. Pensei em ir até ele, mas Kabuto levantou a arma em sua direção.

- Não faça isso, não faça isso, não tem sentido. – disse irracionalmente.

- Ela disse, ela afirmou que ele seria uma ótima papoula e eu concordo completamente. - vi seu dedo se mexer milimetricamente sobre o gatilho. - Imagina, tudo começou graças à mãe dele, e ele me ajudará a encerrar…

- Isso não tem sentido nenhum Kabuto! - gritei descontrolada, lagrimas brotando em desespero.

- Provavelmente sim, mas para a poesia do momento não é necessário ser tão lógico. - pude perceber sua face tranquila borrada pelas lagrimas. Em minha cabeça rodeava as palavras morte e sangue como tudo aquilo que ele, diante de mim, já tinha feito - E se de fato não precisamos disso, o que eu deveria fazer com ele?

- Não o mate - supliquei e uma lágrima deslizou. O desespero não o convenceria, como nada que eu dissesse.

Repentinamente ele abaixou a arma e estreitou os olhos, como se tentasse me analisar gentilmente.

- Eu gosto de você Sakura-chan, você é forte, educada e ao mesmo tempo inteligente e maquiavélica. - ele deu uma pausa e o discreto sorriso em seu rosto sumiu. - E nesse exato momento você não é nada, não pode fazer nada, se lembrará de todos os dias desse dia, aqui em Arakawa em que eu tirei a vida de duas pessoas que você ama e então eu perpetuarei nas suas lembranças.

- Você… você é doente…

- Sabe, uma das grandes razões para eu te me aproveitado desse momento é por que eu sabia que você seria uma das mais atingidas… Não que eu tivesse alguma espécie de carinho ou notasse frequentemente na representante de classe Haruno Sakura… Mas as coisas fluíram tão bem, que eu me empolguei ainda mais.

Ele levantou o rosto, deu um passo em minha direção e repentinamente parou. A face tranquila como se estivesse preste a dizer um ensinamento sobre a vida.

- Eu não posso simplesmente ignorar como tudo se encaixa… e por isso, Sakura-chan, domine todos seus sentidos agora, e viva esse instante…

Esse instante…

Ele ergueu o braço repentinamente e a sensação que eu tive é que podia sentir tudo a minha volta em seus mínimos detalhes: o movimento do seu braço, dedos e lábios, o puxar do gatilho levando seu corpo para trás; o vento gelado, o silêncio preenchido por um rápido som oco e outro estalido.

Dois tiros.

O grito de Gaara, o corpo de Kabuto jogando-se para trás. Demorei um instante para perceber que ele estava caído no chão. Quando ouvi pessoas se aproximando, soube de imediato que era a polícia, mas eu não conseguia pensar em nada. Eu só deslizei minha vista até Gaara, ele gemendo e movendo-se no chão, repentinamente rodeado por duas pessoas enquanto seu pai se aproximava correndo.

- Garota...

Escutei alguém me chamar em seguida me segurar pelos braços. Mas eu não reagi, não disse nada.

- O tiro foi na perna!

Alguém próxima a Gaara gritou e eu instintivamente pensei em me mover até ele, mas uma voz desconhecida me fez parar.

- Ele vai ficar bem, você não pode ajudá-lo.

Gaara estava bem e naquele instante eu não poderia fazer nada.

- Vamos te levar para o hospital também.

A mesma voz falou, mas eu não respondi. Eu estava completamente indiferente a tudo. Como se tudo estivesse longe demais para me tocar.

- Traga uma equipe para cá também!

Alguém passou ligeiramente a minha frente se aproximando do corpo jogado no chão.

Então me bateu essa necessidade. Eu queria vê-lo, eu precisava por alguma razão ver Kabuto.

Larguei-me daqueles braços e dei um passo, e mais dois. A grama rodeando-o, o sangue impregnando sua camisa clara. Algum policial o segurava pelo braço, mas ele não gemia, ele não parecia sentir dor, apenas estava contra o chão agarrando a terra entre os dedos enquanto tentava se mover.

Sua face pálida e suada estava tranquila e satisfeita, como se morrer não fosse doloroso.

Como um suicida, Kabuto dava as boas vindas à morte.


N/A: Penúltimo capítulo postado. E eu nem acredito que estamos tão próximo do fim T.T. Na realidade eu já estou com o próximo capítulo pronto, mas como ele ficou bem grandinhao para colocar tudo junto, eu deixarei para postá-lo na próxima semana (dependendo dos comentários ate mesmo bem antes).

Eu achei esse final bastante corrido, com essa morte trágica e ao mesmo bonita. O que me chateou mais foi a falta de oportunidade de Naruto ter se vingado, mas pensando bem, Naruto tem muitas coisas mais puras para nos oferecer. Inclusive me falaram que ele nunca matou no anime/mangá, e eu nunca tinha me dado conta disso. De qualquer forma, ficaram confusos? Algo passou que vocês não entenderam? Perguntem que terei o imenso prazer de responder :D

Irei responder todos os comentários gentis das pessoas que ainda se lembravam dessa fic no próximo capítulo. Que dessa vez será rápido, mesmo.

Um grande abraço

Oul K.Z