Oiee... Olha só... Voltei antes de vocês esfriarem os acontecimentos do capitulo anterior. Viram só? Milagres existem. hehehehe
Então, atendendo o pedido da Jessica Yoko, a cena Dante e Amanda vai pra você! eeeeeeeeehhh
Agradeço a Co-Star, que é a dona dos direitos do personagem Dante, por ter dado sua aprovação na cena. ;)
E... Co-Star, é pouquinho, mas tem algo da Mei pra você. ;)
É isso, nos vemos no fim do capitulo! S2
30. Uma véspera agitada.
Apesar de haver ameaçado durante todo o dia com cair uma forte chuva, só no começo da madrugada é que puderam contemplar a tempestade. O vento era forte e a água abundante, enquanto os raios iluminavam o céu e os trovões acabavam com o silêncio da noite.
As chamas amarelas refletiam nas íris negras e profundas do mercenário que as observava concentrado. Na mão esquerda o bilhete que a irmãzinha deixou em despedida quando foi se encontrar com a mais velha, todo amassado. Já havia lido e relido várias vezes. E não havia gostado.
Irritava-se só de pensar que descobriram onde ele morava, e levaram sua irmã, que esperou por tanto tempo ter a seu lado. Lembrou-se de como seu contratante — já que não considerava o homem como seu chefe —, manteve a menina em outro lugar, até ter certeza de que ele trabalharia em seus planos. Quando conseguiu convencê-lo de que a poderia entregar-lhe, vinha algum idiota daqueles cavaleiros e a levava para junto de Kelly.
Isso era inadmissível. Não poderia partir, agora teria que continuar no jogo até o final. Amassou o papel, irritado. Faria Kelly pagar por seu atrevimento e ousadia. Porém, isso mostrava que ela tinha aberto a boca, sobre alguma coisa referente a eles e o que o deixava mais incomodado era não saber até que ponto ela havia dito.
Não era a hora ainda. Precisava planejar bem seu próximo passo. Ainda não havia terminado de conquistar o que buscava, o dinheiro ainda não saciava sua ganância e não aceitaria ruir agora que estava tão perto de tudo o que queria. Teria que se acalmar e estudar bem os seus próximos passos.
Dinheiro trazia poder e poder era tudo o que almejava.
Kelly pagaria, Mei voltaria para ele e conseguiria realizar seu sonho. Bastava continuar com sua atuação impecável de fiél braço direito e subordinado irrepreensível.
Seus pensamentos nocivos foram interrompidos com o abrir da porta da cabana. Não se molestou em olhar para ver de quem se tratava. Essa era apenas mais uma das razões de seu humor estar péssimo. Seu contratante, o fez aceitar a presença daqueles dois idiotas que estavam invadindo sua casa e por esse lado, apenas por esse lado, ficava feliz da Mei não estar ali.
O Tenente Otto e o assassino por encomenda Davhand entravam como se a casa fosse deles, rindo de alguma piada que não interessava a jian, sacudindo as roupas encharcadas pela tormenta.
— Que frio! — comentou o ex-tenente da guarda real. — Como está Jian?
— Estava melhor antes de vocês chegarem. — expressou ríspido.
— Acho que alguém parece irritado — Davhand fomentou, sendo ignorado pelo anfitrião.
Ambos morenos se encararam, os olhos negros de Otto focaram-se em Jian, enquanto o os olhos cinza do assassino giraram de maneira tediosa e divertida.
— Tem algo de comer? Estou faminto. — Otto mudou o tema, olhando ao redor.
— Tem pão duro e cevada. — Jian respondeu monótono.
— Que? Só isso? E o que você comeu? — escrutinou.
— Eu comi carne, pão, vinho e entre outras coisas, no castelo. — declarou satisfeito, e sem olhar, imaginando a cara de indignação do ex-tenente.
— E por que não trouxe comida pra gente? — esbravejou.
Jian se levantou da poltrona, caminhando tranquilamente rumo a seu quarto, disposto a deitar-se.
— Eu sou pago para te aceitar na minha casa e não para te alimentar. Isso é problema seu. — fechou a porta do quarto na cara deles.
Otto amaldiçoou baixinho, irritado com o desdém do mercenário. Voltou-se para o colega e o encontrou esfarelando um pedaço de pão em meio a cevada para então, comer. O encarou horrorizado com aquela mistura tão bizarra e pouco atrativa. Sentindo-se observado, Davhand ergueu o olhar, curioso.
— Qual o problema? É comida e eu estou com fome. Simples assim! — e levou uma colherada na boca, fazendo uma careta que o outro não soube interpretar.
Otto desistiu de questionar, pegou um pedaço de pão e o levou até a boca, mastigando-o incansavelmente para poder digeri-lo.
-/-/-
A chuva se tornou moderada, permitindo ao homem deixar o conforto da carruagem para enfrentar o frio e a água, seguindo em direção à taverna, que se situava nos domínios de Sank, porém um tanto afastada do miolo principal. Levou uma hora para chegar até ali, não por ser muito longe, mas devido ao clima e o caminho irregular.
Abriu a porta, sentindo o choque térmico ao adentrar o local. Já era metade da madrugada e por tanto, poucos se encontravam ali, o que facilitou o mesmo em visualizar a quem buscava.
Caminhou firmemente até seu alvo e sem delongas, sentou-se na cadeira de madeira, de frente para o homem.
Miksien que estava o tempo todo encarando seu copo de vinho desviou os olhos para o recém-chegado com uma mescla de tédio e desânimo.
Bufou.
— Você demorou! — queixou-se.
Uma risada seca e grossa foi ouvida através do capuz que ainda lhe cobria o rosto. Nada que o lorde dissesse o preocupava ou incomodava. Conheciam-se há tempo demais para deixar qualquer comentário o perturbar ou minar, que fosse um pouco, aquela estranha amizade.
— Tira logo essa capa. — ordenou o loiro. — Sabe que me irrita…
Sua frase foi completada pelo amigo, que falou ao mesmo tempo em que soltava o cordão em volta do pescoço e se livrava da capa encharcada pela chuva.
— Conversar sem ver os olhos da pessoa. — declarou com desdém, como quem já está familiarizado com o mantra tantas vezes repetido. — Já sei! — Cássius ergueu as mãos em sinal de paz.
Silêncio. Ambos se encararam, pensativos, decidindo quais as seguintes palavras a serem ditas.
— Sinto muito por sua perda… — o barão quebrou o gelo. — A morte de Macbean foi uma terrível tragédia. — o olhar cheio de pesar, as sobrancelhas grossas e castanhas, franzidas, tentavam transmitir suas condolências da maneira mais sincera que podia aparentar.
Miksien assentiu, aceitando aquelas palavras.
— Você melhor do que ninguém sabe o quanto eu detestava Macbean. — Cássius assentiu. — Mas eu não posso aceitar sua morte. Tenho que encontrar o culpado por isso e fazê-lo pagar. — os olhos do lorde encarnaram de ódio.
Cássius apenas meneava a cabeça em concordância, incentivando o amigo.
Silêncio.
— Exato. Seu nobre pai, lorde Eliott que em paz descanse, te ensinou muito bem. — Cássius aceitou um copo que o copeiro lhe trouxe para compartilhar a jarra de vinho com o loiro. — A família deve ser honrada e protegida sobre todas as coisas. — se serviu, bebendo um longo gole.
— Sim. E é por isso que necessito que me ajude a descobrir quem o matou.
Teatralmente, Cássius colocou o copo vazio sobre o tampo de madeira grossa, com um pouco mais de força que o necessário, exibindo uma marcada expressão de incredulidade, expôs.
— Acaso possui alguma dúvida? — questionou agressivo, sussurrando de forma sigilosa. Miksien se curvou um pouco mais sobre a mesa para ouvi-lo com total clareza. — É muito óbvio. Com certeza foi meu cunhado ou meu sobrinho. Até mesmo arrisco dizer que deve ter sido Heero, para abrir caminho para aquele amigo dele, Sir Trowa Barton da cavalaria de Wing, que declaradamente é interessado na noiva de seu irmão, a dama Teyuki Yukiame. — se serviu mais uma vez. — Eu nem sequer coloco minha mão no fogo por ela, acho até mesmo que ele já a provou e seu irmão quase se casou com uma moça que já não é donzela. — completando a atuação, jogou a postura para trás, bebendo o vinho sem desviar os olhos do lorde.
Miksien ficou introspectivo. Lembrou-se de sua conversa com Dante e Heero naquela tarde e sua mente puxou o momento que um cavaleiro de cabelo castanho e olhos verdes se moveu inquieto, quando ele tocou no nome de Teyuki. Não teve dúvidas, de que esse devia ser o tal Trowa do qual o barão falava.
No entanto, se lembrava da face de Dante e Heero, e não lhe pareceu que eles estivessem mentindo sobre a morte de seu irmão. As palavras do rei soaram demasiado sinceras e seguras, quando ele relatou o ocorrido, deixando óbvio o fato de não terem nada a ver com o incidente. Por outro lado, Cássius era seu amigo desde a infância. Esteve ao seu lado em todos os momentos mais marcantes, fossem bons ou ruins. Até mesmo, lhe brindou total apoio quando seu estimado pai faleceu de maneira tão abrupta e inexplicável, deixando-o frente à regência total dos bens, patriarca da família e responsável por seu irmão menor.
Foi nesse momento em que firmaram sua maior aliança. Uma que perdurava até o presente momento e que pretendiam manter até a morte.
Parou um instante e seus olhos inquietos, que passavam por todos os lugares, se focaram no amigo por breves segundos. Será que ele estava seguro do que dizia ou apenas cegado pelo ódio que tinha do cunhado? E agora do sobrinho mais velho também.
— A escolta de meu irmão ainda está desaparecida… — retomou o tema. — Devo encontrá-la. Tenho certeza que com isso descobrirei a verdade. — declarou.
Cássius parou o movimento do copo por um segundo e disfarçadamente respirou fundo, depois o depositou sobre a mesa e sorriu.
— Pois espero que os encontre logo. Assim, podemos vingar a morte de seu irmão como se deve. — bateu a mão sobre a mesa, decidido e entusiasmado.
Mesmo que por dentro sentisse o sangue gelar e esperava que tudo tivesse saído como o planejado. Olhou ao redor em busca de algo e logo focou-se no loiro, mudando brevemente de assunto.
— Eles vieram? — averiguou.
Miksien sorriu com arrogância, entendendo perfeitamente a quem o barão se referia.
— Óbvio que sim… Aonde vou, eles me acompanham. — sorriu malicioso. — Afinal, eles têm que cumprir o dever deles… Garantir minha segurança.
Brindou com Cássius, que abriu um sorriso largo, acreditando que aquela era uma excelente notícia, já arquitetando um plano para usar a guarda pessoal do amigo — os quatro integrantes sanguinários —, para se livrar da equipe especial de Heero.
Após uma risada mútua de pura cumplicidade. Resolveu seguir para os negócios.
— Como estão as vendas? — Cássius frisou a última palavra e Miksien bufou.
— Baixas. A queda de Oz sob o mando de Heero, somado a fama dele como implacável em busca de desmantelar o "comércio", — enfatizou a palavra — está se espalhando e amedrontando nossos compradores. Oz era nossa maior sede de trabalho, lá tínhamos todo o controle necessário. Agora está sediada pelos subordinados de Heero. O duque Kushrenada está à frente de levantar o reino, acompanhado do general Chang. O filho dele, Sir Treize Kushrenada os está comandando desde Wing.
— Sir Treize Kushrenada? — o barão estranhou
— Sim. Ele faz parte da cavalaria de seu sobrinho e ficou a cargo de Wing, quando o mesmo veio para Sank. Não sabia?
— Sabia que alguém havia ficado a mando, mas não quem. — informou conclusivo.
— É ele… Andei o investigando, dois anos mais velho que Heero, tem a idade do capitão da guarda de Sank, Miliardo, certo? — Cássius afirmou. — está namorando uma jovem nobre que salvaram dos calabouços de Oz, ouvi rumores de que irão se casar. — pausou, tomando um gole de sua bebida. — Meus informantes declaram que sua lealdade à Heero é inquebrável. — encerrou.
— E nossos compradores estão assustados? — voltou para a parte que lhe interessava.
— Alguns até mesmo disseram que preferem mudar de vendedor a entrar na mira de Heero.
Cássius bufou. Aquelas não eram boas notícias, tinha que se livrar do sobrinho rapidamente. Colocou-se em pé, jogando a capa húmida sobre os ombros. Miksien, apenas o acompanhou com o olhar.
— Precisamos tirar a pedra do caminho, rápido. Esse é um negócio altamente lucrativo e não quero perdê-lo. — o barão declarou e viu o lorde erguer o copo em um brinde velado, reafirmando sua união ao esquema.
Com uma despedida muda, feita por um movimento de cabeça, Cássius voltou a cobrir o rosto com o capuz e partiu, deixando o lorde sozinho e mergulhado em pensamentos sobre aquele encontro.
Miksien iria encontrar a escolta de seu irmão a qualquer custo e descobrir a verdade. Paralelamente, deveria achar uma forma de derrubar Heero e levar para cama lady Lucrezia. Sorriu lascivo ao recordar as feições delicadas, porém intensas e decididas da nobre soldado. Nunca havia se interessado por nenhuma mulher e agora que encontrou alguém que despertava em si tais desejos, não a perderia para ninguém, nem mesmo para o insignificante capitão da guarda.
Terminou o vinho de seu copo e deixou uma moeda como pagamento sobre a mesa, antes de enfrentar a chuva e o frio para voltar à mansão de seu falecido irmão.
-/-/-
Dante estava sentado em sua poltrona no quarto, de frente para a janela observando o céu — límpido, azul e brilhante, era uma manhã reconfortante e não tão fria, agradável —, e se lembrando do encontro com Miksien no dia anterior.
Lembrava-se de ter ouvido seu pai comentar sobre Elliot, Lorde da colina do norte e pai de Miksien e Macbean. Elric os classificava como não confiáveis. No entanto, como nobres, não podiam ser excluídos da corte.
Arturo um dia lhe falou que Miksien era como um fantasma... Todos sabiam de sua existência, mas era raro vê-lo, ele não gostava de frequentar festas das quais não era o próprio anfitrião.
Também tentava se lembrar de algo que Amanda lhe falou, mas não conseguia.
— Ah, então você está aqui...
Sentiu as mãos quentes e delicadas da esposa o acariciar, desde os ombros até os braços e logo voltar para o ponto de início e começar a massageá-lo.
Como ela estava as suas costas e não podia vê-lo de fato, se permitiu fechar os olhos e regozijar-se com aquela sensação deliciosa que o acalmava.
Amanda sempre teve mãos de fada a seu ver, porém, nunca lhe disse isso.
E apreciava aquele ato que não só o ajudava a relaxar, como a pensar melhor.
— Estava te procurando. — declarou feliz.
E Dante rosnou baixinho, queria aproveitar o momento em silêncio absoluto. Ainda assim, aceitava que ela era digna de sua atenção, mesmo que a contragosto.
— Para quê? — exigiu saber.
— Seria pedir demais um pouco de atenção do meu esposo? — indagou nada intimidada com o tom ríspido dele.
Dante bufou abrindo e revirando os olhos, enquanto a rainha mordia o lábio inferior segurando o riso, divertida. Conhecia-o bem o suficiente, para não deixar-se abalar.
— Exatamente, o que quer?
— Você está tão estressado. — declarou ignorando a pergunta. — Isso não te faz bem. Você ouviu o médico real da última vez, já não tem idade para ficar tão tenso.
Intensificou sua massagem tentando acalmá-lo e Dante gemeu em uma mescla de prazer e frustração, por sabê-la certa.
— Sinceramente, não me importo com o que o médico diz. — declarou austero.
— Mas eu sim. — informou brava, parando os movimentos das mãos por primeira vez. — Não estou pronta para perder meu marido, ainda.
Silêncio... Nenhum podia ver o rosto do outro, mas sentiam suas auras.
— Não vai acontecer. — e foi toda a resposta que deu a ela. De forma clara e direta, quase sem emoção.
Dante se levantou e olhou a esposa. Amanda nunca perdeu a beleza e a jovialidade, mesmo com o passar dos anos. A seus olhos continuaria sendo aquela dama alegre e brincalhona que corria pelos cantos do castelo, em busca de uma nova aventura e sempre protegida por seu irmão mais velho, Arturo. Rivalizando com Cassius que gostava de monopolizá-la a cada oportunidade.
Será que ainda sentia algo de ciúmes?
Soltou o ar pelas narinas com força, afugentando tais memórias.
— Tenho que ir. — declarou pronto para partir.
Amanda bloqueou a passagem dele, com um brilho de alegria nos olhos.
— O que pensa estar fazendo, mulher?
— Monopolizando um pouco meu marido.
Informou com descaso e deslizou a mãos pelo peitoral do esposo, em uma carícia suave e possessiva ao mesmo tempo. Ansiosa, se aproximou mais, colando os corpos, aspirou o perfume masculino e ronronou feito um gato carinhoso e ansioso por atenção.
— Você precisa relaxar... E eu sei perfeitamente fazer isso. — traquinas. Sim, continuava a mesma.
— Pare com isso... Tenho assuntos pendentes.
— Sempre tem.
Concordou magoada, soltando as mãos nas laterais do próprio corpo. Dante se irritou, sem ter certeza se era a situação com Amanda, ou se consigo mesmo.
Lembrou-se de algo e decidiu perguntar.
— Você conhece lorde Miksien, não é?
Ergueu a cabeça e afirmou com o gesto.
— Me fale dele.
Ergueu as sobrancelhas e pensou rápido. Altiva, caminhou em direção à cama, desabrochando os botões do vestido.
— Direi tudo o que meu rei deseja saber, com o máximo de detalhes que eu possuir, no entanto, antes gostaria que... — mordeu o lábio inferior de maneira sugestiva, com um brilho intenso nos olhos. — Compartilhássemos alguns minutos a sós.
Deu um leve tapinha com a mão sobre a cama, convidativa e sedutora, despertando uma reação imediata no corpo do esposo. Dante suspirou pesado. Não havia forma de sair dali naquele momento e se fosse justo consigo mesmo, tampouco queria. Por que não poderia ceder ao desejo da esposa e satisfazê-la por apenas alguns minutos? Deu meia volta, livrando-se da túnica e puxando Amanda para um beijo duro e ardente, mais necessitado do que jamais admitiria.
Sem demora, se desfizeram do máximo de roupa que conseguiram, Dante a deitou sobre a cama, ficando por cima, possessivo e tradicional como ditava sua personalidade. Sentia-se embriagado pelo perfume da esposa e lembrou-se do quanto ela conseguia desestabilizá-lo no íntimo. Era inegável que a amava, mesmo que não expressasse o fato de forma verbal.
As carícias se misturaram com gemidos e logo o prazer os consumia. Se fizeram um, como há um tempo não faziam e quanto a isso, culpava a rotina e os compromissos diários, que minavam tanto seu tempo, quanto suas energias. Ainda assim, nesse momento soube que o mesmo sentimento que o levou a escolhê-la como esposa, perdurava firme e forte em seu âmago.
Com o clímax, desejou expressar a esposa o quanto a amava e estimava. Afinal, nunca foi adepto de palavras, sempre buscando as ações acima de tudo.
Amanda sorriu extasiada e satisfeita. Dante tombou para o lado esquerdo da esposa, ofegante, ainda recuperando as forças e ela se aninhou no peito dele, feito uma jovenzinha que havia realizado seu sonho de estar nos braços de seu grande amor.
Passou a mão pelo peitoral nu do rei e sorriu, depositando um beijo suave na pele dele, puxando um pouco mais da essência masculina para ficar gravada na memória. Fechou os olhos e sorriu realizada. Dante passava a mão pelas costas da esposa, sentindo a pele sedosa sob seus dedos, sentindo-se afortunado por tê-la.
Seu momento de cumplicidade e mansidão foi interrompido por duas batidas na porta. Dante franziu o cenho indagativo sobre quem poderia ser e Amanda riu manhosa.
— Deve ser o nosso café da manhã, pedi que o trouxessem. — ele assentiu. — Estava confiante de que conseguiria minha audiência particular com meu rei. — gracejou e depositou um beijo delicado sobre os lábios do esposo, antes de se levantar e vestir seu robe.
Dante meneou a cabeça, achando-a impossível e nada comentou. Levantou da cama e foi para trás do biombo que tinha ali ao lado, para se vestir novamente, enquanto ouvia a esposa atender a serva e logo dispensá-la. Quando voltou, a esposa já ocupava uma das poltronas da pequena mesa de dois lugares que possuíam no quarto, perto da janela.
Sentou-se de frente para ela e começaram a comer em silêncio por um tempo, até que a rainha se lembrou da pergunta do esposo.
— Você quer saber do lorde Miksien, certo? — o viu confirmar de maneira tranquila, enquanto mastigava. — Lorde Miksien é o melhor amigo de meu irmão desde a infância… Eram inseparáveis e Cássius esteve ao lado dele em todos os momentos, inclusive na morte do pai de Miksien, Lorde Eliott.
Dante assentiu e terminou sua xícara de café antes de limpar os lábios com o guardanapo de pano e se colocar em pé.
— Sabe a que se dedica Miksien?
— Até onde eu sei, ele herdou a ostensiva fortuna de seu pai, com isso a fazenda e a criação de animais. A herança dele superava a de Cássius e a minha, e eu soube que ele passou a se dedicar ao comércio, aumentando ainda mais o que já tinha e sei que meu irmão se juntou a ele em algo… Porém, não sei dizer a que se dedicam. Cássius nunca me contou e eu não gosto de ficar na presença de Miksien, por tanto, meu trato com ele sempre foi escasso.
Dante assentiu. Depositou um beijo no topo da cabeça da esposa como agradecimento e despedida.
— Por que pergunta dele? Faz tantos anos que não o vejo ou escuto seu nome…
— Ele chegou ontem a Sank.
E essa foi à única coisa que teve como resposta. Seu coração se apertou e teve um mau pressentimento. Observou o marido partir, austero, para fora do quarto, rumo a suas obrigações de regente.
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Heero abriu a porta do quarto, pronto para o café da manhã e levou um susto ao dar de cara com seus quatro amigos parados, paralelamente o olhando. Todos possuíam um sorriso de lábios fechados no rosto.
Todos, inclusive Wufei, o que causou um espanto maior no príncipe herdeiro e até mesmo, certo desconforto com aquela cena.
— O que fazem aqui? — os olhos azuis cobalto percorreram rosto por rosto, desconfiados.
— Viemos lhe dar bom dia. — Duo aumentou o sorriso.
— Sei… — Heero não acreditou, mas decidiu sair do quarto. — Bom dia. — ao sentir-se seguido, parou e olhou de novo para os quatro. — O que querem?
As faces sorridentes não haviam sido desmanchadas e a cena já estava causando um arrepio no regente. Duo olhou para os amigos, exageradamente assombrado, boquiaberto. Trowa lhe devolveu o olhar de esgueira, mantendo o sorriso. Quatre não o olhou, mas o percebeu pela visão periférica e aumentou ainda mais a face alegre, alargando o sorriso, expondo os dentes. E Wufei transformou o sorriso simples em um levemente irônico.
Duo se voltou para Heero e piscou algumas vezes, antes de aclarar a garganta e responder.
— Não sei a que se refere, apenas viemos acompanhá-lo para o desjejum.
Desconfiado ainda mais, Heero não respondeu, virou em seus calcanhares e continuou andando, porém, em lugar de seguir para a escada, contornou o corredor no sentido contrário.
— Aonde vai? — Quatre se manifestou por primeira vez.
— Buscar Relena para descermos.
Os quatro trocaram um olhar espantado e aceleraram o passo até o amigo. Sem perder o ritmo, Duo emparelhou com Heero, passando o braço pelas costas dele e apoiando a mão no ombro esquerdo do príncipe, exercendo uma leve pressão, o obrigando a mudar de rumo. Quatre se uniu ao de trança, fazendo o mesmo que ele, cruzando as costas de Heero e apoiando a mão no ombro direito do mesmo. O loiro ajudava Duo a fazer Heero retroceder e tomar o caminho contrário.
— Sabe Heero… Você não deveria ir lá agora. — começou Duo.
— Acho que deveríamos descer e comer para iniciar um longo dia. — aclarou Quatre.
— Soube que a princesa já está comendo. — Wufei colaborou.
— Além do mais, já estamos atrasados para o café. — finalizou Trowa.
Puxando o ar com força pelas narinas, Heero estancou. E sem olhar para o quarteto exigiu saber.
— Sabe o que é… — Duo iniciou de novo.
— De acordo com a Hadja…
— E a Cléo…
— E a Teyuki.
— A Kelly só me pediu para colaborar com eles. — Wufei pontuou.
— O noivo… — retomou Quatre.
— Não pode ver a noiva… — Trowa continuou.
— Durante vinte e quatro horas antes do casamento. — finalizou Duo.
Heero bufou e olhou para os dois que estavam ao seu lado.
— Do que estão falando? — rosnou.
— Parece que é um tipo de tradição. — Wufei informou sem poder ocultar o gracejo e o desdém no tom de voz.
— As meninas irão comer com ela no quarto da princesa. — Trowa respondeu a pergunta não exteriorizada. — E nós devemos mantê-los afastados durante o dia todo.
Sentindo o sangue ferver com aquela novidade ridícula, Heero olhou para as mãos dos amigos, que não o haviam liberado.
— Soltem! — ordenou e prontamente foi obedecido, deu a volta e encarou o de trança e o loiro com as mãos em alto, como sinal de rendição. Bufou irritado e deu meia volta descendo as escadas apressadamente.
— Mas… — Duo tentou expressar algo, porém, foi cortado por Wufei.
— Vocês despertaram o complexo de divindade dele. — sarcástico.
Quatre olhou para o de rabo de cavalo e logo para Trowa que deu uma explicação curta e direta.
— Não toque!
— E por que isso? — questionou Duo coçando a nuca.
— Vocês o impediram de ver a mulher… Queriam o que?
Wufei expôs e saiu andando, divertido com a situação. Trowa imitou o amigo, com o sorriso na cara, Quatre deu de ombros e também continuou, deixando de lado o problema e Duo revirou os olhos antes de seguir em frente.
— O que essas meninas nos obrigam a fazer.
-/-/-
Chegaram à mesa onde estava servido o café da manhã e apenas encontraram Miliardo em uma conversa sussurrada com Lucrezia a seu lado direito, e o conde Auden ao esquerdo, que se limitava a comer em total mutismo.
Heero ocupou seu lugar e seus amigos também, chamando a atenção dos que já estavam à mesa, menos do conde, quem apenas olhava o próprio prato. Uma serva se aproximou para servi-los de café e leite.
— Onde estão o rei e a rainha? — Heero exigiu saber.
— Tomaram o desjejum em seus aposentos, alteza.
Ele aceitou aquilo como resposta e agradeceu a moça que se retirou. O ambiente se animou com a conversa dos amigos e logo ele os interrompeu para dar uma notícia.
— Lucrezia… — chamou a atenção dela e todos se calaram. — Você está liberada da sua ronda de hoje, fique no castelo e tire o dia para descansar. Eu vou cobrir seu turno, já que não tenho porque ficar aqui. — relanceou os amigos, que seguraram o riso.
Miliardo e Lucrezia que já tinham sido colocados em dia sobre as últimas traquinagens, trocaram um olhar compreensivo com o príncipe e riram discretos.
— Certo. Muito obrigada Heero. E não se esqueça de que deve levar Heiren até a pousada de Lúcius. — o recordou, gentil.
Heero assentiu.
— Farei isso após o café, ficamos de nos encontrar na porta do estabelecimento.
Ninguém comentou mais nada e Heero ergueu os olhos para Auden, incomodado com o silêncio do homem.
— Se tem algo que lhe incomoda conde, estou à disposição para ouvi-lo. — chamou a atenção do mais velho, enquanto dava um gole em seu café. — Se tem algo a reclamar, faça-o diretamente a mim. — e finalizou, deixando claro que sabia o que incomodava o sogro.
O clima na mesa se tornou tenso de imediato. Miliardo sabia o que estava acontecendo, ao contrário dos demais que ficaram perdidos, trocando olhares para ver se alguém poderia acabar com sua curiosidade. Auden olhou para o genro, inexpressivo.
— Não tenho nada a falar com sua alteza. — se colocou em pé. — Com sua licença, eu já terminei e preciso terminar um relatório para seu pai. — com uma reverência, se retirou.
Heero o acompanhou com o olhar, sério, se focando no cunhado por último.
— Eu vou falar com ele, pode deixar. — depositou um beijo na mão da noiva e se retirou para seus compromissos.
Os amigos encaram Heero, indagando com o olhar, sem serem saciados com uma explicação. O príncipe sentia que o dia não havia começado bem. Comeu em silêncio e logo partiu. Os quatro rapazes que ficaram, olharam para Lucrezia com exigência e ela riu.
— Certo… Vou descobrir através do Miliardo e logo conto a vocês.
E isso foi o suficiente para acalmá-los por um tempo.
-/-/-
— Pai!
Miliardo corria pelo corredor, tentando alcançar o pai que já estava avançado em alguns metros e sem nenhuma intenção de diminuir o passo.
— Pai espera!
Tentou de novo e viu o conde parar abruptamente e encará-lo com uma expressão irritada. Miliardo não se intimidou, terminou de encurtar o espaço que os separava e com os braços abertos, inconformado, exasperou-se.
— Até quando vai continuar assim. — quis saber. — Entendo sua frustração e o fato de estar magoado, porém Relena se casa amanhã. Você não conversa com ela desde a decisão do rei. Pai…
— Não se envolva nisso. — repreendeu apontando para o filho. — Você sabia da relação deles e tampouco me contou.
— Eu não podia falar, não era meu segredo. — passou a mão pelo cabelo platinado e acabou soltando alguns fios do rabo de cavalo.
— Então, saiba que agora também não lhe diz respeito. Esse assunto é entre sua irmã e eu e não quero que venha reclamar-me nada. Entendeu?
A voz autoritária e ríspida com a qual o pai censurou seu primogênito, deixou claro ao capitão que aquela não era uma boa hora para discutir o tema e menos o local adequado. Seu pai estava muito sensível ainda com o tema e resolveu deixar para depois.
Ergueu as mãos em forma de rendição e assentiu antes de levar as mãos à cintura, e com a mandíbula tensa, observou o pai seguir seu caminho, deixando-o com uma sensação de impotência para trás.
Olhou para o céu pedindo a Deus forças e ajuda por sua irmã, antes de dar meia volta e se focar em sua rotina.
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Os pássaros gritavam agitados em meio à floresta. Os corvos rondavam o local, tentando encontrar uma brecha para se aproximarem. Os urubus vigiavam desde as árvores mais altas, esperando os restos mortais daqueles dois soldados estarem no ponto e os intrusos se afastarem do local.
O cheiro podre já começava a aparecer, fraco ainda, mas existente. Porém, isso não parecia incomodar o homem que estava ao lado dos corpos, o tronco inclinado para frente, analisando com cuidado os cadáveres. Ouviu o cavalgar de um cavalo se aproximando e endireitou-se.
Seu corpo era esguio, a pele dourada, o cabelo grisalho bem curto, combinava com os olhos cinza bem claros, destacados com as olheiras extremamente fundas. O rosto magro evidenciava os ossos do crânio. O corpo tão delgado fazia com que sua aparência remetesse a de um doente ou alguém privado de comida. No entanto, com certeza, este não era o caso dele. A roupa inteira — calça e túnica de manga longa — na cor preta, não ajudava o quadro.
Olhou na direção do recém-chegado e viu seu parceiro controlar o cavalo que bufava nervoso.
Como se fosse proposital, o cavaleiro era o oposto dele.
Seu corpo inteiro era uma rocha de grandes músculos — muito bem trabalhados e desenvolvidos — até mesmo o pescoço era largo e podiam-se ver algumas veias grossas saltando. O rosto másculo repleto de marcas de expressões e sol. O cabelo loiro escuro preso em um rabo-de-cavalo alto, sem franja, cada fio em seu devido lugar. Os olhos negros, opacos, não passavam uma sensação de vivacidade. Ao ver a cena, sua primeira reação foi a de abrir seu característico sorriso amplo, expondo todos seus dentes que logo se fechou, entediado.
Desmontou seu Alazão, que parecia, propositadamente, combinar com suas vestes inteiras vermelhas, desde a calça até a túnica sem manga, proposital para mostrar os braços tonificados.
— São esses? — questionou o parceiro que encontrou os corpos. Sua voz soou forte e agressiva.
— São as escoltas desaparecidos de Macbean. Parecem terem sido assaltados, mas arrisco dizer que forjaram para parecer isso.
— Não queriam que eles falassem. — o loiro concluiu e o colega confirmou.
A risada gutural do grandão ecoou pelo silêncio, enquanto o outro observava os defuntos, entediado.
— Emof… — o de vermelho chamou o amigo, tirando-o de seus pensamentos. — Ajude-me a amarrá-los para os levar até lorde Miksien. Cumprimos com nosso dever.
Deu a volta para buscar as cordas, quando Emof o chamou.
— Oorlog, eu tenho uma sensação estranha com respeito a esse reino. — o que foi chamado o observou de cenho franzido, era a primeira vez que ouvia algo assim do de amarelo.
— Como o que?
— Não sei explicar… Mas, algo está diferente. Não é como os outros locais por onde passamos. Aqui eu sinto um real perigo, um que é contra nós.
— Uma coisa de cada vez. Agora, vamos levar o lixo para casa. Depois... Eu protejo você!
Ganhou um olhar de tédio do delgado que fez Oorlog soltar uma gargalhada estrondosa. Ambos terminaram de amarrar os pés dos mortos e seus cavalos se encarregaram de puxá-los até a casa de Macbean. Andaram a passo lento, para não perderem nada dos cadáveres que de pouco em pouco, entravam em estado de composição.
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Heero entrou na taverna adjunta à pousada onde estava morando seu irmão, acompanhado da jovem Heiren. Do lado de fora, o soldado Rellan vigiava o local e os cavalos. Ainda aborrecido com a novidade dos amigos, Heero decidiu não chamar nenhum deles para acompanhá-lo e como parceiro escolheu o jovem soldado de caráter gentil e altamente prestativo.
Chegaram ao local e encontrou a camponesa a espera, pronta para começar seu novo trabalho. Foi o tempo de Heero cumprimentá-la e já adentraram o estabelecimento. Parou por alguns segundos, apresentando a jovem para o dono do lugar e anunciando que a mesma teria passagem livre daquele dia em diante e sem demora começou a subir as escadas, direto ao quarto de Lúcius.
Heero bateu na porta e esperou. Ouviu um burburinho e se aproximou mais da madeira, escutando com maior clareza umas risadinhas do outro lado, seguido de alguns murmúrios divertidos. Logo ouviu… Uns gemidos? Revirou os olhos e suspirou cansado, não tinha tempo pra isso. Olhou para Heiren e com um movimento de mão, colocou-a a suas costas, ergueu a mão novamente e golpeou com mais precisão e força.
Os sons que vinham de dentro cessaram e não demorou em escutar a voz irritada de Lúcius exigindo saber quem era.
— Heero. Abre a porta! — não falou nervoso, mas firme e nítido.
Silêncio. Logo alguns sons estranhos, algo caindo e por fim a porta se abriu, deixando uma jovem loira passar — visivelmente envergonhada — com parte da roupa em mãos, enquanto tentava fechar o vestido, de cabeça baixa reverenciou a Heero e saiu correndo pelo corredor. Heiren observou a cena, boquiaberta, sem tempo de sentir qualquer o sentimento que não fosse compadecimento pela jovem, que estava mais vermelha que a pimenta.
Sem decoro, Heero entrou no quarto, dando sinal para a camponesa esperar do lado de fora, vendo o irmão se cobrir apressadamente. O que agradeceu mentalmente, pois tudo o que não precisava é ver o irmão nu.
— Irmão? — irônico. — A que devo a honra de uma visita tão importante? — sorriu altivo.
— Vejo que já se adaptou. — ignorando o asteísmo, devolveu a provocação.
— Não me diga que está com inveja do meu potencial com as mulheres? — riu.
Altivo e com um sorriso de canto, Heero declarou finalizador.
— Nem um pouco. Estou mais do que satisfeito com a mulher que tenho. — ergueu uma sobrancelha desafiando o irmão a retrucar.
Lúcius perdeu a graça e bufou incômodo. Uma vez mais Heero ganhava a partida e de acordo com sua tabela mental, a possibilidade de virar o jogo estava abaixo de zero.
— O que quer? — exigiu saber, fazendo o mais velho rir vitorioso por dentro.
— Quantos anos ela tem? — apontou para a porta, referindo-se a menina que saiu correndo. — Parece tão jovem, vai responder por ela? — não estava com vontade de deixar a provocação de lado.
— Se eu fosse responder por cada mulher que passou em minha cama, eu teria um harém. — regozijou-se. — E ela já tem dezessete e veio porque quis. — informou.
Heero assentiu por reflexo, o achando impossível.
— Muito bem, só que agora terá que se controlar. — Lúcius franziu o cenho, estranhando. — Você a partir de hoje estará mais acompanhado do que sozinho.
Lúcius sentou na cama, desencostando do travesseiro — onde estava meio deitado, confortavelmente, enquanto falava com o irmão — e encarou o moreno com curiosidade.
— A que se refere?
Em vez de dar a resposta de imediato, resolveu explicar antes.
— Lembra que você exigiu que Heiren se apresentasse perante o rei para explicar-se?
— A plebeia? — perguntou retoricamente e riu. — O que houve? Ela foi condenada a morte?
Heero sorriu mordaz.
— Quase… Coitada, foi designada a servir você. — respondeu sério, com tom zombeteiro.
Lúcius gargalhou, caindo de costas sobre o travesseiro, supôs que aquilo fosse uma piada e não aguentou, rendendo-se à diversão. Com um esboço maldoso de um sorriso no rosto, Heero, pacientemente esperou o irmão se acalmar.
Abraçando a barriga, respirando com dificuldade, o infante começou a se acalmar, as lágrimas caiam por sua face branca, enquanto ele tentava enxugá-las. Suspirou em busca de ar e focou-se no irmão mais velho, que tinha o queixo sutilmente elevado em uma pose altiva e segura. Sem perder o sardonismo.
— Essa foi ótima meu irmão… — Lúcius ainda sentia os resquícios da explosiva risada. — Agora, falando sério. O que aconteceu? — sério. — Ela foi punida?
A pergunta final do irmão fez Heero visualizar uma faísca de preocupação que não lhe passou despercebida e lhe deu uma sensação de satisfação em confirmar que estava no caminho certo, não que tivesse alguma dúvida disso.
Apoiou a perna direita sobre um baú e curvou o corpo para frente, depositando o peso do tronco no antebraço sobre a coxa.
— Você decidiu falar a verdade? — questionou perspicaz.
— Não sei a que se refere. — respondeu ao mais velho, mentindo.
— Vai esperar mais pessoas morrerem?
— E como sabe que ele está envolvido nisso?
— Você sabe essa resposta. Não acho que seja estúpido.
Apesar de não ser o momento, o sentimento de satisfação que envolveu Lúcius ao sentir-se elogiado pelo irmão o deixou sem reação. Heero não demonstrou nada e continuou falando.
— Coisas horríveis têm acontecido. Junte-se a mim, ajude-me a provar a verdade e eu garantirei seu lugar de volta ao castelo e ninguém mais apontará o dedo para você, me encarregarei disso pessoalmente.
— Cuidado irmão, desse jeito acabarei acreditando que você gosta de mim. — desdenhou, porém ficou pensativo.
Heero suspirou e endireitou-se.
— Heiren explicou toda sua história e como foi enganada por lorde Macbean. — Lúcius franziu as sobrancelhas ruivas, atento a novidade. — Pode depois pedir que ela te conte os detalhes. — respondeu a curiosidade demonstrada pelo irmão. — Levando em consideração o passado dela e o fato da mesma não ter tido más intenções em suas infelizes palavras. Nosso pai resolveu perdoá-la e lhe dar um cargo de apotecária do reino, já que seu conhecimento em plantas é impressionante. No entanto… Para que ela assuma esse cargo, deve provar seu valor e lealdade à coroa...
Lúcius acompanhou o caminhar do mais velho até a porta, abri-la e puxar para dentro a camponesa de quem falavam.
— Sendo assim, a partir de hoje, Heiren estará encarregada de te servir durante todo tempo, abandonando seu posto apenas para voltar para casa e descansar. — o infante observava a moça tímida, com assombro estampado no semblante. — Seja bom com ela.
— O que?
Pensou em colocar-se em pé, mas lembrou a tempo de que não tinha nada posto da cintura para baixo, obrigando-se a ficar sentado, coberto até a cintura, com o peito a mostra. Antes que Lúcius continuasse seu chilique, Heero lhe fez um gesto com a mão, calando-o.
— É uma decisão do rei. O dever dela é cuidar de você e o seu é respeitá-la. — concluiu.
— Mas… O que essa plebeia pode me oferecer? Ela vai acabar envenenando minha comida.
Resmungou e Heiren ergueu a cabeça, ultrajada, flechando-o com o olhar, sentindo a fúria se apossar dela. Levou as mãos até a cintura e perdendo o embaraço, se impôs.
— Te envenenar? Como se atreve a dizer isso? Eu seria incapaz de algo tão atroz.
— E por um acaso quer que eu acredite nisso, plebeia insolente?
— Não sou insolente, apenas não aceito que me trate como inferior.
— Mas eu sou o príncipe. — apresentou com satisfação, apontando para si mesmo e logo levando as mãos para trás da nuca.
— Grande coisa… Aposto que não sabe nem tirar água do poço sozinho, por isso o rei Dante me enviou aqui, para ser sua ama. — enfatizou a última palavra.
— Isso é uma falta de respeito. Eu não aceito ela aqui, Heero leve-a… — quando virou o rosto para encarar o irmão, encontrou o local vazio.
A face de confusão do infante fez a jovem olhar para trás e também se surpreender, olharam todo o local e ela abriu a porta para confirmar que de fato, sorrateiramente Heero partiu, deixando-os a sós, em sua insignificante discussão.
Trocaram um olhar cheio de significado, seria uma convivência bem complicada. Ainda assim, ela não conseguiu ignorar completamente o calor que a tomou ao vê-lo seminu e saber que o veria todos os dias. Em contrapartida, por mais que seu semblante mostrasse incômodo, em seu interior era todo o contrário. Lúcius se encontrava mais do que satisfeito com a novidade.
Primeiro, porque mostrava que seu pai não o abandonou totalmente e segundo, porque por mais que não fosse admitir em voz alta, apreciava a presença daquela camponesa rebelde e de língua solta.
— Seria bom que tentássemos conviver harmoniosamente. — Heiren expôs sem graça.
— Vire de costas — ordenou e ela estranhou. — A não ser que queira me ver nu, tenho que me vestir.
Vermelha como a cor do cabelo do príncipe, virou rapidamente para a parede, perdendo o sorriso de deleite e cheio de malicia do infante, que se prontificou a vestir-se.
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— Não! — Relena sentenciou.
— Sim! — Cléo insistiu batendo o pé, decidida.
— Eu já disse que não. Já basta toda essa armação que vocês tramaram essa manhã com os rapazes, agora quer que eu desobedeça meu futuro esposo, justo na véspera do meu casamento?
— Ah… Para com isso. Exatamente por ser o último dia que você tem para se rebelar é que temos que aproveitar. — Cléo emburrou, dramatizando.
— A propósito, de quem foi a idéia dessa… Tradição? — Relena olhou para a ruiva com uma sobrancelha erguida, já imaginando a resposta. Viu a mesma perder a postura e segurar a risada, confirmando sua teoria. — Foi o que pensei. — finalizou.
— Mas, Duo me ajudou bastante. — sorriu arteira. — Vamos Relena, é a última oportunidade que temos em ficarmos todas juntas.
— Que exagero… Você fala como se eu fosse morrer. Deixa o drama para Hadja.
— Ei… Deixe-me fora disso! — a citada se manifestou com falso ultraje e diversão.
As amigas riram com a situação, relaxadas. Fazia tanto tempo que não compartilhavam de um momento tão ameno.
Relena estava arrumando suas coisas para mudar-se ao quarto de Heero no dia seguinte. Apesar de ser obrigação das servas, quis fazê-lo pessoalmente, pois havia vestidos que já não usava e pretendia separá-los para doação.
Cléo estava sentada em uma poltrona brincando com a escova de cabelo da dona do aposento, enquanto Hadja e Teyuki estavam sentadas sobre a cama, dobrando os espartilhos que Relena conservaria.
— Relena… — fez manha. — Todas já aceitaram... Até mesmo a Kelly vai levar a Mei. — completou Cléo.
— Falando em Kelly, onde ela está? — a princesa quis saber.
— Mei queria conhecer o castelo e ela a levou explorar. — Teyuki comentou sorridente, como se narrasse a maior aventura do momento.
As quatro trocaram um olhar de ledice pela mais nova amiga, que por fim pode realizar um grande sonho, reencontrar a irmãzinha.
— Não mude de assunto! — a ruiva esbravejou, recuperando o tema anterior.
Relena revirou os olhos, ao mesmo tempo em que Hadja e Teyuki se entreolharam coniventes com a travessura e Cléo expressava uma resoluta careta de revolta.
— Você realmente quer que eu tenha problemas com o Heero antes mesmo de me casar? — soltou a saia que tinha em mãos e as levou até a cintura. — E se ele decidir que não me quer mais como esposa?
Silêncio. As três damas arregalaram os olhos, assombradas. Entreolharam-se sérias. E por fim, explodiram em uma gargalhada que preencheu o ambiente, deixando de lado toda postura de damas requintadas, fazendo Relena ficar confusa. As amigas riram até perderem o ar. Até lágrimas saíram dos olhos de Teyuki. Irosa, Relena exigiu saber o motivo da graça.
— O… Heero… Jamais… Te deixaria! — Hadja tentou explicar em meio ao riso, falando de maneira truncada, devido à falta de oxigênio. — Ele nos mandaria a forca antes de romper com você. — levemente mais calma, pode completar o raciocínio sem pausas.
Relena enrubesceu e passou os olhos por todas as meninas presentes, vendo-as assentir em concordância, enquanto controlavam a respiração, procurando recomporem-se.
Ouviram uma batida na porta e logo à mesma se abriu. Kelly pediu licença, adentrando acompanhada de Mei, ambas estranhando a situação, porém, sorriram.
— O ambiente aqui é bom. — a voz fina e infantil de Mei comentou, enquanto a irmã questionava o que sucedia, com um olhar inquisitivo.
— Depois a gente explica… — Cléo respondeu. — A Relena acabou de fazer uma excelente piada. — ganhou um olhar mortal da futura rainha. — Então, Releninha… — expôs seu melhor sorriso, cheio de intenções e charme. — Vamos?
Suspirou. Sentia-se falando com a parede.
— Sim Relena, vai ser divertido. — Kelly colaborou com a ruiva, ganhando um olhar incrédulo da noiva.
— Você também? — fez bico. — Se o Heero descobre… — comentou introspectiva, meneando a cabeça em negação.
— Ele não irá descobrir. — Cléo falou com propriedade. — Duo pretende arrastar ele e os rapazes para um passeio essa noite.
— E você acha que ele consegue? — Teyuki duvidou, vendo a amiga sorrir malandra.
— Ele sempre consegue! — orgulhosa.
— Ainda assim é perigoso. — Relena soltou desanimada, sua convicção começava a esmorecer e a vontade de sair falar mais alto.
— Não vamos longe. — expôs Hadja. — Iremos até a clareira atrás do castelo, alguns dos ciganos que trabalham com meu pai vão acompanhados de suas esposas e levaremos a peça mais importante de todas... — levantou o indicador e parou o relato, fazendo suspense ao mesmo tempo em que expressava um olhar de obviedade.
— E qual seria? — Relena arqueou as sobrancelhas, sorrindo de lado, faceira.
— Lucrezia! — Kelly revelou com picardia.
Relena passou de rosto em rosto, às vendo sorrir conluiadas.
— Estão dizendo que a Lu está ciente e aliada a vocês nessa loucura? — incrédula.
— Não. — Teyuki se prontificou a explicar. — Estamos dizendo que vamos levá-la conosco. Primeiro porque ela nunca saiu com a gente e já passou da hora de mudarmos isso, e segundo, porque ela é uma guerreira excepcional e vai saber cuidar de nós perfeitamente, também terá como retaguarda os homens do senhor Fayad. — as garotas balançaram a cabeça, afirmativamente.
Relena sorriu altiva e sarcástica, duvidosa.
— E podem me esclarecer como vocês pretendem convencer a Lu a desobedecer a ordem direta do Heero? Que além de ser o rei ao qual ela é leal, também é como o irmão mais velho dela.
— Sequestrando-a. — Kelly franziu o cenho, encarando a princesa como se a resposta fosse exageradamente óbvia.
Todas encararam Relena com ar de superioridade, sorrindo com a revelação de seu plano. A princesa ergueu as mãos em forma de rendição, ouvindo o alvoroço de satisfação das meninas por terem ganhado a primeira batalha do dia.
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— Ainda não entendi o que viemos fazer aqui.
Heero comentou entediado, entrando naquela taverna lotada de pessoas e burburinho, cansado, após um dia agitado fazendo ronda, burocracia, atendendo aos súditos, enfrentando o irmão e suas lamúrias sem sentido… E sem poder ao menos vislumbrar sua noiva.
Suspirou e antes de ouvir uma resposta, deixou o corpo cair sobre um dos lados do longo banco de madeira, da última mesa do estabelecimento, a mais reservada e com visão total e privilegiada do ambiente.
Sem demora, Duo gritou para o copeiro trazer sua melhor cerveja para os cinco.
Heero fez uma careta com o escândalo do amigo que estava sentado à sua frente. Quatre, ao lado do herdeiro, trocou um olhar divertido, devido à cena, com Trowa que estava a sua frente e logo olhou para Wufei, sentado na ponta, que meneou a cabeça desejando uma vez mais matar o de trança.
— Vamos Heero, melhore essa cara. Vamos ter um momento tranquilo como antigamente. — sentenciou Duo.
— Sinceramente me sinto estranho, mediante a tudo o que tem passado…
Quatre expressou uma careta de dor e não pôde terminar seu raciocínio, devido ao golpe que recebeu na canela de Duo, sob a mesa de madeira.
Trowa riu, Wufei passou a mão pelo rosto, exasperado e Heero viu o amigo a seu lado e logo olhou para o que estava a sua frente, com um olhar estreito.
— Quatre tem razão… — censurou o de trança. — Não estamos em tempos de diversão.
— Da para pararem por um minuto? — Duo estressou. — Não estou pedindo nada demais. Faz tempo que não saímos e amanhã é seu casamento, vamos comemorar só um pouco entre nós? — olhou de rosto em rosto, em seu melhor momento de repreensão, logo abrindo um sorriso. — Além do mais, você não só está ganhando uma esposa, como nós estamos ganhando uma irmã e rainha.
O moço chegou com as cinco canecas e bastou colocá-las sobre a mesa, para Quatre erguer a sua, convidando a todos para um brinde.
— Que viva a rainha Relena!
O gesto foi prontamente imitado pelos demais, logo chocando as canecas com a de cada um e por fim bebendo um longo gole.
Mesmo que não fosse completamente visível, Heero sorriu orgulhoso, mais com os olhos do que com os lábios. Agradecia os amigos que tinha e o apoio incondicional que sempre recebeu de todos.
— Então Heero, como foi com o Lúcius? — Trowa questionou.
— Na verdade… Parece igual, mas algo mudou. Estava mais acessível do que a última vez que lhe propus unir-se a mim.
— Acha que ele finalmente abre a boca? — Wufei se manifestou por primeira vez.
— Espero que sim… Se bem que sinto que a convivência com a Heiren será muito interessante pra mente dele.
— Pobre garota… Por favor, um minuto de prece por sua pessoa. — Duo gracejou com o semblante sério.
Três riram e Quatre se vingou, devolvendo o chute que antes receberá. A cara de dor do amigo de trança intensificou a risada dos demais e finalmente, Heero sentiu que seu corpo começava a relaxar. Talvez Duo estivesse certo, precisavam de um momento calmo, como antigamente.
Infelizmente, só faltava a Lucrezia.
— Onde está o Miliardo? — Quatre perguntou e ouviu a resposta imediata.
— Cheguei. — o capitão puxou a cadeira da outra ponta e se acomodou, suspirando de cansaço.
— Como foi a ronda? — Heero quis saber, ao mesmo tempo em que erguia a mão e silenciosamente pedia uma nova rodada para o copeiro.
— Tranquilo… Felizmente, esses últimos dias as coisas parecem calmas.
— Cuidado com essas palavras, trazem mau agouro. — comentou Wufei, bebericando sua cerveja.
O silêncio imperou no ambiente… E Logo foi interrompido por Duo fazendo alguma piada sem sentido e sacando uma risada geral. Mesmo assim, interiormente, desejavam que nada ocorresse, mesmo que com os atentados também pudessem vir pistas novas, o povo estava assustado e machucado demais para receber mais um ataque.
A conversa voltou a ser leve e amena, com eles comentando sobre suas façanhas.
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— Aonde vamos?
Lucrezia franziu o cenho com desconfiança. As meninas invadiram seu quarto, com uma história muito estranha, na qual alegavam que a rainha precisava com urgência de um chá, feito de uma erva que nascia na clareira atrás do castelo. Porém, que elas precisavam ir pessoalmente buscá-lo, devido ao fato de só elas conhecerem a planta, e não saberem explicar como a mesma era. Então, para que Heero não ficasse bravo, queriam que ela as acompanhasse.
— Já dissemos… Buscar a erva para o chá. — respondeu Cléo.
— E por que não me deixaram trazer nenhuma escolta? — a guerreira estreitou o olhar, vendo as meninas se entreolharem de maneira suspeita.
— Porque não há necessidade disso. — concluiu, Teyuki.
— Somos um grupo de mulheres, falando de coisas de mulheres, eles ficariam entediados. — Hadja continuou.
— E está uma noite tão linda e calma. — completou Kelly.
— É bom respirar um pouco de brisa noturna. — a voz doce de Mei fez todas sorrirem antes do silêncio preencher o grupo.
— E por que você não diz nada, Relena?
Lucrezia viu a cunhada se sobressaltar ao ser chamada.
Heero sempre lhe dizia que ela era péssima mentindo, portanto preferiu não se envolver na conversa das garotas e passar o mais despercebida possível, temendo que ao abrir a boca, todo o plano desmoronasse. Exatamente, como pressentia estar prestes a fazer, naquele instante…
— Bem… Estou sem assunto e está uma noite tão agradável, que me distrai apreciando o caminho. — sorriu nervosa.
Lucrezia fechou os olhos — sem deixar de andar —, aspirou o ar — enchendo os pulmões —, deu mais alguns passos e estancou no lugar.
— A verdade, agora! — sua voz soou calma, porém demandante.
Abriu os olhos encarando-as de maneira fixa, avaliando o espanto e a lividez no semblante das demais. No entanto, antes que alguém voltasse a falar, ouviram a comemoração de um grupo que se dirigiam a elas.
Todas viraram a tempo de ver uma fogueira acesa e um pequeno grupo de pessoas bebendo e assando um animal de médio porte. Hadja foi a primeira em reagir, saltitando álacre em direção aquelas pessoas, abraçando e cumprimentando com total familiaridade. Seguida por Cléo, Teyuki, Relena, Mei com Kelly e uma atordoada Lucrezia, sendo as três últimas devidamente apresentadas àquele grupo de ciganos que formavam parte da tripulação do senhor Fayad — pai de Hadja —, que não haviam saído em viagem com seu capitão, por essa vez.
— Vocês deveriam ter me dito a verdade. — Lucrezia censurou Relena, após ter sido tudo esclarecido.
Seu tom não deixava claro para a cunhada, se era de raiva ou diversão, mesmo assim, Relena lhe ofereceu um sorriso arreganhado, meio forçado, em uma mescla de graça e sem graça.
— Eu também fui manipulada para estar aqui hoje, por que você deveria ser a exceção? — a noiva fingiu o ultraje, arrancando uma risada da cunhada.
— Não sejam descorteses, venham juntar-se aos outros. — Cléo repreendeu ao mesmo tempo em que as puxava para a festa.
Internamente, Lucrezia agradecia o fato de Heero e os rapazes não estarem no castelo e pedia que não o deixasse descobrir sobre essa saída, ou teria problemas por permitir que as mesmas deixassem a segurança dos muros.
As cunhadas se uniram a farra bem na hora em que o trovador entoava uma canção. Bernabé cantava a romântica história de uma bela princesa, que foi feita de refém em seu próprio castelo e viu seu amado cavaleiro escalar os altos muros para resgatá-la. A trova deixou encantada todas as mulheres, tanto apaixonadas pela trama de coragem e amor, como pelo som suave e delicado da melodia.
Porém, a surpresa maior para algumas desavisadas, foi ouvir a terna voz de Teyuki se juntando a música, pontuando os momentos mais impactantes da cantiga. Sua voz delicada e imponente trazia um equilíbrio tão harmônico que fez o momento ainda mais especial.
As três amigas mais antigas sorriram com aprazível nostalgia, há tempos que não a ouviam cantar e era sempre relaxante. Lucrezia e Kelly se entreolharam extasiadas pela descoberta, enquanto Mei se regozijava com a apresentação, com os olhos brilhantes.
Quando a carne ficou pronta, as conversas iniciaram. Hadja e a tripulação começaram a narrar acontecimentos fantasiosos demais, ao ponto de serem totalmente questionados sobre sua existência.
— E foi assim que em meio à tempestade, surgiu o maior Kraken existente em meio aos mares. — Bernabé contava de forma entregue, colocando corpo e alma em seus gestos e voz. — Causando uma onda feroz que balançava o navio agressivamente. — olhou para a filha do capitão, de maneira suplicante. — Lembra-se desse dia, Had?
— Como poderia esquecê-lo? — a dama franziu o cenho, segura e firme em aderir a peta. — Eu era nova, mas como esquecer um episódio tão marcante e assustador? — seu semblante decidido arrancou uma risada de todas as mulheres presentes e um olhar satisfatório do contador.
— E como vocês fizeram para se salvar? — Mei se interessou pelo conto, ansiosa por mais.
— Lorenzo foi lançado ao mar. — enfatizou com suspense o detalhe e apontou o grande homem de espessa barba negra, com um lenço azul na cabeça, que virava em um único gole, todo o conteúdo de seu copo. — No entanto, o que a grande lula marinha não sabia, era que ele sempre está preparado, acompanhado de seu machete. — Lorenzo levantou o grande facão em prova. — Então, ele nadou até um dos tentáculos e feriu a besta.
— Mas, isso não a enfureceu ainda mais? — Relena expressou sua melhor cara de espanto e Lucrezia engoliu a risada, desacreditada que a princesa estivesse dando corda para invenção, sem querer admitir a si mesma que a trama era sensacional e estava se divertindo imensamente.
Precisava se manter em alerta, seu lado racional e responsável não conseguia relaxar.
— Sim, minha doce Relena. — a princesa sorriu pelo afeto recebido e Bernabé continuou — Exatamente por isso que todos nós partimos para a batalha juntos.
— Menos o Roman. — a voz de trovão de Lorenzo interrompeu o relato. — Ele deu a desculpa de que Had necessitava ser protegida e fugiu para dentro da cabine do capitão com ela. — provocou o jovem e bem apessoado rapaz, que estava quieto atiçando o fogo e observando em silêncio a filha do capitão.
— Ei… — a exclamação injuriada de Roman causou uma gargalhada geral. — Eu era novo e sim, a filha do chefe precisava ser protegida… — cruzou um breve olhar com Hadja, que sorria divertida, e abaixou o rosto tímido e rubro.
O ato surpreendeu a moça, fazendo todos os demais adultos do recinto sorriram maliciosos com a cena, menos Mei que não havia entendido exatamente o que estava se passando, acreditando que o mesmo ficou sem graça por estar em evidência.
— Ainda bem que podemos contar com você para mantê-la salva. — Lorenzo finalizou e todos riram.
Alguns pela troça feita com o mais novo dentre os ciganos, enquanto as amigas riram em uma mescla de nervosismo. Hadja engoliu seco e em sua mente veio o cavaleiro que tanto ama, sentindo-se triste por não poder corresponder ao jovem, no entanto, Quatre já estava enraizado em seu coração.
— Continuando… — Bernabé puxou para si o foco uma vez mais. — Foi nesse momento de fúria do animal, que todos pegamos nossos arcos e lançamos as…
Nessa hora que o inesperado aconteceu.
Pressentindo o perigo, com o os sentidos ligados a cada minucioso detalhe e com um reflexo altamente aguçado, Lucrezia se levantou abruptamente, virando o corpo e levantando a mão, conseguiu interceptar a flecha que fora lançada em sua direção.
O ambiente se tenso de imediato. Os homens sacaram suas armas e empurraram as mulheres para trás deles, formando um círculo ao redor de todas, menos Lucrezia que seu olhar seguiu o caminho de onde veio o ataque. Há uns quinze metros havia uma árvore e pode ter o vislumbre do homem sobre ela. Olhou para a flecha e soube que ele não tinha intenção de atacá-la e sim testá-la ou chamar-lhe atenção.
— Cuidem das garotas! — ordenou sem olhar ninguém e correu rumo ao local, vendo um risco branco pular de cima da copa da árvore para o chão e o reconheceu.
Não demorou nada para encontrar-se frente a frente com o homem que conhecera no dia anterior. Aquele imponente homem, de pele negra como a noite e feições sóbrias a encarava de cima, porém em nada a intimidava. Lucrezia escorregou a mão direita para um dos compartimentos em que guardava suas facas de arremesso, pronta para lançá-las ao menor movimento do adversário.
— O que quer? — seu olhar era frio, encarava o homem como uma leoa, pronta para exterminá-lo sem a menor piedade.
— Posso entender porque ele quer você… — a voz calma de Smow soou baixa e audível, enquanto os olhos negros percorriam o corpo feminino.
— Não me interessa o que ele quer. Quero saber o que faz aqui e por que disto? — abriu a mão e deixou cair a flecha.
— Só queria saber se os rumores sobre você eram verdadeiros.
Ela sorriu arrogante e ergueu ainda mais a cabeça, nada intimidade pela grande diferença de altura. Apesar de não ser uma mulher baixa, não podia negar que o homem sobre passava seu tamanho com boa diferença.
— Cuidado… Os rumores podem ser eufemistas. — o encarou com descaso, despreocupada e cheia de segurança.
Aprendera que em batalha, mesmo que sentisse medo, não deveria demonstrá-lo. O problema é que não sentia nenhum temor. Ainda assim, sabia reconhecer um adversário perigoso e esse gritava problemas pelos poros, só que não tinha intenção nenhuma de deixá-lo intimidá-la.
— Nos encontraremos de novo milady… E será melhor que aceite o lorde, ou terei que submetê-la a isso. — esboçou um sorriso tranquilo, celerado.
— Não pense que será tão fácil.
E ali estava uma promessa inquebrável. Voltariam a se encontrar e ambos sabiam que cedo ou tarde, acabariam medindo forças e habilidades. A pergunta era... Quem sobreviveria a isso? Ambos estavam seguros de saírem vitoriosos.
Lucrezia esperou o homem desaparecer em meio à escura floresta, antes de voltar correndo até o grupo. Infelizmente a diversão acabou e tiveram que se despedir. Ela ergueu os olhos ao céu e soube que mesmo se não tivesse tido a interrupção já era hora de partir, já estavam perto da meia noite e não podiam voltar depois dos rapazes ou teriam de explicar-se e sabia que Heero não aceitaria desculpas.
Os homens escoltaram a damas até metade do caminho, deixando-as o mais próximo possível, não indo até o final por pedido de Lucrezia, que não queria que algum guarda visse e fosse correndo com o falatório.
O caminho foi feito em silêncio, todas olhavam para Lucrezia com preocupação.
— Lu… — Relena começou e foi rapidamente calada por um sorriso gentil da cunhada.
— Está tudo bem meninas… — respondeu prontamente. — Não tem com que se preocuparem. Isso não é destinado a nenhuma de vocês e podem ficar tranquilas, que eu me encarregarei de resolver.
Olhou para o céu uma última vez antes de passarem pela grande porta, olhou para o soldado de plantão e sorriu gentil para Rellan que entendeu o recado de manter o segredo da saída furtiva. O rapaz pesou o fato de vê-las intactas e decidiu colaborar.
— Eles ainda não voltaram. — anunciou e todas sorriram em agradecimento para ele antes de lhe darem boa noite e se retirarem para seus aposentos.
Ao chegarem ao corredor dos quartos, Lucrezia parou e se voltou a todas as demais.
— Nada aconteceu essa noite. — declarou. — Não saímos do castelo e eu não encontrei ninguém.
— Lu… Você vai me desculpar. — Relena tomou a palavra. — Mas, eu prefiro mil vezes enfrentar a fúria do Heero do que te ver em perigo. Esse homem te atacou pelas costas.
— Concordamos com a Relena. — Kelly expôs em nome de todas e Lucrezia sorriu agradecida e comovida.
— Essa briga é declarada e eles sabem que serei perseguida por eles…
— Quem são eles? — Teyuki quis saber.
— Aquele homem era o guarda costas do lorde Miksien, irmão de Macbean. — a dama prendeu a respiração, só de lembrar-se da família do ex-noivo já ficava tensa. — E o lorde mostrou grande interesse em mim, o que fez esse homem vir me procurar. — pausa. — Mas, não precisam se preocupar por isso… Sei me defender e não sou tão orgulhosa para não pedir ajuda se precisar.
— Promete? — e se surpreendeu ao ouvir todas as amigas perguntam em uníssono.
Sorriu quase rindo e ergueu a mão direita, enquanto levava a esquerda até o coração.
— Prometo! — declarou sincera.
E foi abraçada por todas com tanto carinho que se sentiu realmente parte do grupo, até mesmo Mei se juntou ao abraço grupal.
-/-/-
Meia hora depois os rapazes chegaram.
Miliardo ficou para trás a fim de organizar a ronda da madrugada para depois ir dormir.
Duo caminhava com um braço em volta do pescoço de Quatre e o outro em volta do de Trowa, rindo exageradamente, visivelmente bêbado. Seu falar arrastado e os amigos praticamente o carregando para seu quarto, estava dando dor de cabeça em Wufei.
Já Heero segurava a vontade de rir, meneando a cabeça em negação, percebendo a verdade por trás da cena. Terminou de subir as escadas que davam acesso aos quartos e parou focando o olhar na porta da noiva.
Suspirou chateado, não a viu durante todo o dia. No entanto se obrigou a caminhar rumo para seu quarto, afinal, no dia seguinte se casaria e não passaria mais nenhum dia de sua vida sem ela, então poderia esperar umas horas mais. Isso não apagava a vontade de vingar-se dos os amigos em sua primeira oportunidade.
Com um sorriso cheio de significado devido a seus planos, foi direto para seus aposentos.
Wufei parou em frente à porta de Kelly, ergueu a mão para tocar, mas desistiu. Pensou ser muito tarde e lembrou-se que Mei deveria estar com a irmã. Deu meia volta e seguiu direto para o próprio quarto. O dia seguinte seria muito agitado.
Quatre fez menção de abrir a porta, mas Duo o impediu, cambaleando para fora do apoio dos amigos, agradeceu.
— Bom... Rapazes, creio que estou suficientemente bem para trocar-me sozinho… — riu.
— E de onde você tirou que íamos te trocar? — Quatre ergueu uma sobrancelha com confusão.
— Só íamos garantir que você caísse de boca no chão do seu quarto. A fim de minimizar a vergonha na manhã seguinte. — Trowa expôs com maldade e o loiro segurou a risada. Depois do chute, não estava a fim de ajudar o de trança.
— Quatre… Não esperava isso de você. — falou Duo com ultraje, meneando a cabeça em negação. O citado deu de ombros e virou-se para partir.
— Certeza que consegue chegar até a cama? — Trowa quis saber.
— Sim, sim…
Duo o despediu com um aceno de mão e tropeçando, entrou. Ao fechar a porta do quarto, sorriu com malícia ao ver sua amada ruiva sobre a cama, o observando com volúpia.
— Está bêbado, meu senhor? — provocou-o, mordendo o lábio inferior.
— Ora… Eu não fico bêbado fácil… Só achei um pretexto para voltar logo. — caminhou feito um felino, com passos lentos e cadenciados até a cama.
Cléo o esperava sobre a coberta, usando apenas em sua camisola de renda, no olhar o desejo faiscando. Foi o tempo de chegar até a cama, Duo gatinhou até sua noiva e a beijou com fervor. Ansioso por provar os lábios carnudos e avermelhados.
-/-/-
Quatre parou por uns segundos frente à porta do quarto de Hadja, queria saber se ela estava bem, porém, não fazia idéia de onde a amada estava dormindo. Abriu a porta para certificar-se de que tudo estava normal, sabia que a mesma não estaria ali. Ela já não ocupava o próprio quarto desde que Otto havia entrado nele.
Nada de anormal, fechou a porta e deu a volta para ir dormir, cruzou com Trowa que devia já ter terminado com Duo e o observou indo em direção ao quarto de Teyuki. Soltou o ar pelo nariz, rindo e seguiu seu caminho.
Trowa olhou de um lado a outro e entrou sem bater, crendo que a encontraria dormindo, se surpreendeu ao ver o olhar de diversão no rosto da dama, ao desviar os olhos do livro e focar-se no intruso.
— Se perdeu cavaleiro? — a pergunta dela o fez rir.
— Isso é maldade, eu queria te acordar. — caminhou até a cama, se livrando das armas, botas, colete…
Teyuki colocou o livro sobre a mesinha de noite e ajoelhou no colchão, a espera do amado.
— Sabe que você está se tornando um especialista em invadir quartos? — ele riu mais ao recordar que foi assim que tudo começou entre eles.
— Sinto muito milady, mas nem com a porta trancada poderá me manter para fora do seu.
Ajoelhou-se sobre as cobertas, já com a roupa interior e a puxou para um beijo necessitado e ávido. Precisava senti-la, tocá-la e fazê-la entender que só pertencia a ele.
Continua...
Hehehehehehee Então? O que vocês tem a dizer? :D
Agora, o quarteto de Miksien está completo, esse capitulo teve um pouquinho de tudo. XD
Já vimos que a Lucrezia estará protagonizando seu próprio problema. E vimos mais traquinagens da galerinha. kkkkkkkkk
No entanto... Coisas muito significativas foram ditas por ai... Alguém as viu? :D
Estou muito ansiosa pelas reviews de vocês... E espero de coração que possam me dizer o que acharam. Ok?
Se alguém tem algum pedido, faça! ;)
Beijinhos no coração!
18/03/2018
