31. Parte 01 - Desadormecer.

Os raios de sol ainda não tinham aparecido, quando Heiren já andava de um lado ao outro organizando suas coisas para começar o dia. Foi para cozinha em busca de algo para comer, Heero havia lhe informado que ela poderia comer na taverna o quanto quisesse que as contas seriam pagas por ele no fim do mês, no entanto ela não se sentia à vontade em abusar da gentileza.

— Heiren? — a voz sonolenta de Max lhe chamou a atenção.

— Bom dia pai, desculpe acordá-lo. — deu um beijo na bochecha do mais velho e voltou a se servir de pão e leite.

— O que faz acordada tão cedo?

— Sua alteza real, o príncipe Lúcius exigiu minha presença ao raiar do dia. — reclamou irônica.

— Por quê?

— Quem entende aquele ruivo mimado?

Deu de ombros, contrariada. Maximilliam riu, a jovem havia chegado à noite anterior chamando o príncipe de seu novo apelido: Ruivo mimado. E foi assim que ela passou o jantar, enfurecida com a maneira dele tratá-la.

Por tanto, com uma cara de quem não dormiu bem durante toda a noite e com um mau humor contido, Heiren engoliu um pedaço grande de pão e virou um copo de leite. Depois foi até o pai e lhe depositou um beijo de despedida, para em seguida, sair rumo a seu novo trabalho. Vestiu a capa contra o frio, em meio o caminho, como sempre.

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O sol nasceu, mas nem sequer uma fresta de luz adentrou o quarto do infante. Lúcius dormia placidamente, sob as pesadas mantas que o protegiam do frio. Virou-se de bruços e abraçou o travesseiro, se acomodando mais, respirando de maneira suave e contínua. E por suas feições amenas, podia-se jurar que ele estava tendo um sonho muito agradável.

Heiren bateu na porta várias vezes e por não receber resposta, decidiu girar a maçaneta. Estranhou que a porta estava destrancada e entrou. Tudo estava um breu, franziu o cenho e tateou o caminho até a janela, abrindo-a imediatamente. Quase ficou cega quando a luz invadiu o recinto e um gemido frustrado lhe atraiu a atenção.

Olhou para a cama e surpreendeu-se ao ver Lúcius dormindo, ele apertou os olhos e logo se acomodou para fugir da claridade, encontrando um novo refúgio, se cobrindo mais um pouco e relaxando novamente o semblante.

O olhar de Heiren estreitou e a fúria começou a crescer dentro dela, puxou o ar pelo nariz, em busca de autocontrole, as mãos se fecharam em punho, tão fortemente, que as falanges ficaram brancas e por fim, tudo desapareceu. Sorriu e abrandou todo o corpo.

Os olhos castanhos passearam pelo aposento, em busca de algo que ela não sabia exatamente o que era, até que encontrou. Com um sorriso, macabramente, carinhoso no rosto, caminhou até uma pequena cômoda e na mão esquerda segurou um copo — com água até a metade —, e na outra, a alça da jarra cheia. Olhou de uma a outra, indecisa e deu de ombros, virando o conteúdo do copo para dentro da jarra.

Sorriu ardilosa e caminhou de retorno até a cama, despejando — despreocupada — toda a água da jarra na cara do príncipe.

Com um grito rouco, Lúcius deu um salto, sentando na cama abruptamente, passando a mão pelo rosto para tirar o excesso de água e logo pelo cabelo encharcado. Quando conseguiu abrir os olhos, focou as íris esverdeadas, ardentes de cólera, na moça que lhe oferecia o mais resplandecente sorriso encantado.

— Como se atreve sua insolente? — esbravejou.

— Oh, alteza… Desculpe-me. — expôs a feição de preocupação, mais falsa que conseguiu. — Eu cheguei bem na hora que me pediu e bati várias vezes, entrei, abri a janela e nada de sua alteza acordar. Então, como havia ordenado — deu ênfase na última palavra. — que eu estivesse aqui com os raios de sol, e o senhor estava dormindo, imaginei que deveria acordá-lo.

— Você… — apontou para ela e se levantou, caminhando rápido, prensando-a contra a parede, crendo que a intimidaria, porém, tudo o que encontrou no olhar marrom foi audácia e brasa. — Vai me pagar por isso. — sussurrou, seus rostos bem próximos.

— Não estou impressionada. — respondeu no mesmo tom de voz.

Havia uma diversão sádica na forma dele a avaliar. O verde percorreu o rosto feminino, seus traços delicados e airosos, contrastando com sua posição social. Era o que se podia chamar de um diamante bruto, bela em meio ao carvão. Sentiu seu corpo esquentar e sorriu acintoso. Mordeu seu próprio lábio inferior, antes de se afastar dela.

— Vou te educar… Assim como se educa um animalzinho selvagem. — ergueu o queixo altivo.

— E eu irei te ensinar boas maneira. — bateu uma palma na outra, sarcástica. — Alteza! — sorriu triunfante.

Ignorando-a, Lúcius deu meia volta e começou a juntar toda a roupa que encontrava pela frente, depositando tudo nos braços da moça, que por sua vez, o observava confusa, com o cenho franzido.

— O que está fazendo?

— Estou separando a roupa que você irá lavar. — sorriu empafiado.

Heiren soltou o ar pela boca indignada, rindo de raiva contida. Estreitou o olhar para ele, se autoquestionando, sobre que havia de errado consigo para gostar de um ruivo mimado como aquele. Travessa, soltou o montante de roupa no chão e levou as mãos à cintura. Seu ato atraiu a atenção do infante, que a encarou revoltado.

— O que pensa estar fazendo? Não sabe reconhecer uma roupa de alta qualidade? Cada tecido desse vale uma fortuna, sua atrevida!

— Não acha mesmo que carregarei tudo isso? Acha? — ergueu uma sobrancelha. — Lavarei sua roupa, mas não irei carregar tudo isso nos braços, além de pesado, obstrui minha visão. Você irá comigo. — decidiu, e antes que ele falasse algo, terminou o raciocínio. — Agora se me der licença, irei buscar seu café da manhã, e uma cesta para colocarmos as roupas que realmente necessitem ser lavada. — saiu do quarto.

Sem palavras e amaldiçoando sua existência, Lúcius se abaixou para recolher as roupas e viu que realmente nem tudo necessitava ser lavado, haviam roupas que nem sequer haviam sido usadas em meio as sujas. O pior é que não poderia dizer que foi um erro, havia sido proposital para dar mais trabalho à camponesa.

— Plebeia insolente e inteligente. — bufou — Isso que é castigo. — riu sem graça.

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— Ao entardecer será celebrada a cerimônia, a seguir será o comunicado real a todo povo, que por sinal, estão ansiosos por isso. Após será o jantar e por último, a consumação assistida.

Relena assentiu as palavras da serva, o nervosismo a consumindo, remexendo as mãos com inquietude.

— Obrigada.

A jovem a referenciou, pronta para sair, quando ouviu novamente a voz da futura rainha.

— Me responda algo, por favor. Com total sinceridade. — com um movimento de cabeça, a serva a instigou a prosseguir. — Sei que vocês ouvem o que falam... Eles me odeiam?

— A quem se refere, senhorita?

— Ao povo.

A moça sorriu gentil.

— O povo a admira e acha que será uma excelente rainha. Como não souberam com exatidão o que aconteceu entre a senhorita e o Infante, ninguém a julga, apenas se comenta o quão perfeitos você e sua alteza real — o príncipe Heero — ficam juntos. Até mesmo, foram inventadas teorias românticas para justificar o amor de vocês.

Relena sorriu, suspirando aliviada. Logo, seu rosto se entristeceu de novo.

— E a corte?

Titubeou, preocupada. Sentimento que só piorou ao ver o olhar da serva, travando uma briga interna, em busca das palavras certas.

— Eu diria que nem tudo está perdido. Ouvimos alguns bastante entusiasmados com o casamento e confiantes de que, se o herdeiro a escolheu deve ser o certo. Baseado no bom senso que ele apresentou até agora.

— Porém...

— Outros temem que, se a senhorita traiu o infante com seu cunhado, quem garante que logo não trairá o rei com alguém mais. Fora que, mesmo os que julgaram Lúcius como o único culpado, temem que a senhorita seja facilmente manipulada, como já foi uma vez por ele. Preocupados com sua ascensão como rainha.

Mordeu o lábio inferior, segurando a vontade repentina de chorar, magoada e assustada com tudo o que teria de enfrentar. Não poderia esmorecer. Precisava se manter firme e provar a todos que aprendeu com seu erro e seria uma governante exemplar. Não só fiel e leal a seu povo, como principalmente a seu marido, a quem escolheu e ama com entrega total.

— Obrigada. Pode ir.

Com um sorriso de compaixão e boa-fé, a moça se retirou após reverenciar a jovem.

A porta se fechou e Relena virou de costas para a mesma, focando-se no céu azul. Ouviu a porta se abrir novamente e virou suspirando, acreditando que a moça havia esquecido de dizer-lhe algo.

— O que... — calou-se ao encontra-se com o olhar duro de seu pai.

Auden fechou a porta atrás de si e se aproximou alguns passos da filha, vendo-a engolir seco, receosa. Porém, em nenhum momento quebrou o contato visual. Orgulhoso, teve que assumir para si mesmo que ela amadureceu muito, estava mais forte e mais segura.

— Bom dia. — quebrou o gelo.

— Bom dia pai… — esboçou um sorriso tímido.

— Está ocupada? Podemos conversar?

— Claro que sim. — apontou para uma poltrona. — Sente-se.

Sentaram-se, paralelamente, em poltronas separadas e o silêncio se instaurou no recinto. Alguns minutos se passaram, ambos perdidos em seus sentimentos. Uma batida na porta atraiu atenção de pai e filha.

— Entre… — Relena falou alto o suficiente para lhe ouvirem.

— Lena, nós… — as palavras de Hadja morreram ao ver que a amiga não estava só. Recuperando a compostura, cumprimento cordialmente o conde para depois se desculpar. — Desculpem… Não queria incomodar.

— Não o faz. — anunciou o homem. — Bom dia milady.

Hadja sorriu docemente para o homem e focou-se na amiga, transmitindo-lhe força, olhar que tirou um sorriso carinhoso da princesa.

— Eu vim lhe buscar para o café da manhã, mas… Acho que vou pedir que lhes tragam o desjejum. O que acham?

Pai e filha trocaram um olhar cúmplice e Relena agradeceu à morena, pedindo que ela fizesse tal como sugeriu. Satisfeita, Hadja pediu licença e partiu.

O silêncio voltou a inundar o ambiente.

— Como se sente? — a pergunta de Auden fez Relena o encarar duvidosa. — Com o casamento. — esclareceu e ela sorriu.

— Preocupada. — sincera. — Amo a Heero de todo meu coração, com todas minhas forças de uma maneira inexplicável e verdadeira…

— Mas, o que você assusta é ser rainha.

O pai concluiu o raciocínio da filha, fazendo-a olhá-lo emocionada.

— Você sempre me conheceu tão bem… — foi uma afirmação que o fez assentir.

— Sempre fomos muito unidos, Relena. — pausa. — Eu não entendo por que não confiou em mim.

— Eu quis. — segurou as lágrimas. — Tudo o que eu mais quis, quando você voltou daquela viagem, foi correr para seus braços e chorar… E pedir socorro…

— E por que não o fez? — ela sentiu a mágoa guardada nas palavras dele.

— Eu fui muito tonta… — as lágrimas caíram e Relena passou a mão, limpando-as. — Lúcius me disse que se eu não me casasse com ele naquela noite… — engoliu seco. — Ele se mataria e eu entrei em desespero. — Auden franziu o cenho. — Lúcius parecia tão derrotado, tão entristecido, que temi que verdadeiramente o fizesse. Nunca me disse o porquê dele estar daquele jeito, só sei que, embotada e confusa eu realizei o desejo dele. Imaginei-me tendo de explicar para o rei e a rainha, que o filho deles se suicidou e eu não fiz nada para impedir. — sentiu o choro fechar sua garganta.

Auden esticou a mão e segurou a da filha. Um gesto que ela retribuiu e agradeceu imensamente.

— E depois?

— Lúcius me pediu que não disséssemos nada. Pediu que eu ficasse quieta…

— Ele te ameaçou? — contraiu a mandíbula com a revolta da simples possibilidade e Relena negou com a cabeça.

— Não. No entanto, não significa que não tenha me sentido assim. — suspirou. — Me senti fragilizada, me senti perdida, errada, magoada, sozinha... — pausou. — Quando o rei Dante exigiu a verdade, tive um ímpeto de contar tudo, de explicar que eu não queria estar casada com ele, que aquilo tudo era um equívoco… Mas…

— Mas?

— Tive medo dele cumprir com a ameaça de se suicidar e me calei.

Auden sentiu o coração apertar pela filha. Tudo aquilo se passava com ela e ele nem esteve perto o suficiente para consolá-la e lhe dizer que não precisava temer.

— E Heero?

Ela sorriu tímida e carinhosa, limpando mais o rastro de choro, e seu olhar ganhou um matiz de vida.

— Quando Heero chegou… — riu. — Acho que me apaixonei de imediato por ele.

— Tanto assim? — foi obrigado a sorrir, ao ver o resplendor voltar ao rosto dela, vendo-a assentir.

— Desde que nos encontramos, ele me encheu de força... — parou, pensou. — Claro, meio que nos estranhamos um pouquinho, também.

— Por quê?

— Ele é… Imponente demais. Às vezes me deixava sem chão, como se eu fosse engolida por sua presença. — calou. — Porém, ele começou a me instigar. De início achei que ele havia me odiado, mas não. — riu de novo. — Ele queria ver quem eu era… Heero foi a primeira pessoa a ver tão profundamente em mim, que notou quão despedaçada eu me sentia.

Havia tanta admiração na voz da filha, que o conde, não conseguiu interrompê-la.

— Quando ele me olhava como se eu fosse sua mais nova caça, em lugar de me intimidar, ele despertava uma reação de audácia em mim. Eu me sentia forte, corajosa e quanto mais eu crescia e me reestruturava, mais ele continuava. Como se…

— Como se fosse exatamente o que ele queria. Que você se tornasse forte e inabalável, inquebrável.

— Exato! — sorriu para o pai. — Heero me fez o que sou hoje. E por mais que eu sinta muito, de todo meu coração, ter te magoado ao ter me tornado amante dele, ainda estando casada com Lúcius. Sou sincera em dizer, que não me arrependo disso. Não gosto de traição e teria preferido mil vezes que as coisas tivessem passado de maneira distinta. Ainda assim, não me arrependo de ter escolhido ele, de estar me casando com ele, de ter me entregado a ele.

Foi tão justa em suas palavras, tão honesta, que Auden não conseguiu refutar nada, nem mesmo censurá-la. Assentiu. Havia visto o amor nos olhos do príncipe herdeiro, direcionado à sua filha e agora via o mesmo nos olhos dela para com ele. Era o que sua falecida esposa gostaria.

— Eu…

— Não precisa explicar. — interrompeu o raciocínio do pai. — Você não me criou assim e entendo que se sinta decepcionado e também por isso te dei espaço. Eu sabia que a melhor hora que teria para me explicar seria…

— Quando eu te procurasse. — ela sorriu docemente para ele. — Você sempre soube lidar comigo. — afirmou.

— E com Miliardo também. — completou altiva.

Auden se colocou em pé, puxando Relena para imitá-lo e a abraçou fortemente.

— Você será uma grande rainha. Não tenha mais medo. Você já se tornou forte o suficiente para isso. — sussurrou no ouvido dela e Relena chorou contida.

— Obrigada! — riu ao se afastarem. — Claro que eu confesso que fui muito burra e manipulável, até chegar aqui. — se envergonhou.

— Mas aprendeu e cresceu. Isso é o que importa minha filha. — limpou uma lágrima do rosto angelical.

— Eu te amo, pai!

— Eu também te amo, filha. Você e Miliardo são o mais valioso no mundo para mim!

Ela o abraçou, envolvendo o tronco masculino com os braços, apoiando a cabeça no ombro do pai, sentindo-se novamente uma criança acolhida e protegida por seu primeiro herói.

Agora sim, o dia estava começando bem.

Duas servas levaram duas bandejas de café da manhã para eles. E a comida foi feita em total harmonia, com anedotas do passado, onde relembraram momentos vividos entre eles. Momentos felizes e simples.

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Lúcius olhava de esgueira de um lado a outro, tentando se esconder sob o capuz de sua capa, querendo passar despercebido e desejando que ninguém aparecesse naquele lado do rio, enquanto ele estivesse ali. Ainda se sentia envergonhado de ter carregado o cesto de roupas sujas até ali, sentindo uma vontade gigantesca de bater naquela camponesa selvagem.

— Relaxa um pouco, alteza… Ninguém irá aparecer, viemos bem longe para manter sua imagem intacta. — riu divertida, ganhando um olhar mortal do príncipe.

— Fica quieta e lava. Quero ir embora logo. Imagina se me veem. — resmungou.

— Você reclama demais.

— E você é lenta demais.

Heiren bufou e o encarou com o olhar estreito. Desde que chegaram ela não deixava de lavar, enquanto ele ficava ali parado feito uma estátua no mesmo lugar, tentando se esconder sob o tecido para não ser reconhecido, sem fazer absolutamente mais nada que não fosse reclamar e apressá-la.

— Falta muito? — perguntou pela quinta vez, desde que chegaram.

— Não. Essa é a última.

Comentou com descaso e fez Lúcius a encarar com o cenho franzido.

— Última? Mas, você disse que era… — calou. Entendendo por fim que ela o estava enganando todo o tempo. Olhou por cima do ombro de Heiren e viu que ela já não estava lavando nada e pelo visto, fazia um bom tempo. — Sua…

Segurou a vontade de insultá-la e a viu começar a gargalhar, enquanto se colocava em pé. Avançou alguns passos em direção à moça, que recuou e começou a fintar em um jogo de pernas e braços, tentando driblar o príncipe que avançava feito um touro bravo para cima dela, perdendo a compostura. Heiren avançou pela direita dele, confiante de que seria mais rápida, porém, fez um péssimo cálculo e Lúcius a interceptou, agarrando-a pela cintura e colando as costas femininas em seu tórax trabalhado.

— Eu preciso pensar em um castigo bem adequado a você, plebeia insolente.

Seu tom de voz sussurrado e próximo ao ouvido, à fez perder a graça do momento e sentir o corpo todo se arrepiar. A face branca ficou rubra e as íris dilataram, mas ele não viu, pois ela estava de costas para ele. No entanto, a descarga elétrica que passou pelo corpo da jovem o atingiu e Lúcius pode sentir a mudança na aura feminina.

— A-alteza… — sentiu a boca secar e as palavras saíram com dificuldade dos lábios femininos e aquilo agradou o infante. Lúcius sempre amou o efeito que causava nas mulheres.

Um grito infantil foi ouvido e acabou com clima. Ambos se soltaram abruptamente e olharam na direção de onde vinha o som desesperado, podendo visualizar um garotinho de não mais de seis aninhos, correndo em direção a eles.

Heiren correu até a criança, ajoelhando-se para recebê-la em um abraço consolador. Esperou o menino parar de soluçar em meio ao choro para perguntar o que estava acontecendo.

— Minha mamãe… Ela… Ela foi atacada por dois homens… Lá. — apontou com as pequenas mãozinhas o outro lado de uma grande pedra que separava os ambientes da margem do rio. — Ela me mandou correr… — e voltou a chorar, enfiando a cabecinha na curva do pescoço de Heiren.

— Alteza… — encarou a Lúcius, suplicante. — Precisamos fazer algo.

O ruivo se aproximou em toda sua distinção, fazendo sombra sobre os dois abraçados e encarando o horizonte, na direção apontada pelo garotinho. Sua presença chamou à atenção da criança, que ergueu os olhinhos castanhos, admirando boquiaberto a imagem do faustoso desconhecido. O cabelo preso num rabo-de-cavalo ondeava com o vento forte, a feição varonil fechada em uma expressão sisuda, centrada. Era um quadro admirável para o menor, que o olhava maravilhado, julgando-o tão poderoso.

Desvencilhou-se da moça que o acolhia e abraçou fortemente a perna do príncipe, que o encarou com assombro.

— Senhor anjo, por favor… Salve minha mamãe! — rogou.

Lúcius e Heiren ficaram pasmos, a segunda se recuperando mais rápido da impressão, segurou a vontade de rir, olhando para o lado oposto, a fim de esconder a graça.

— Vamos! — a ordem foi dada.

Lúcius se encheu de coragem e caminhou a passos largos, seguido pela criança. Heiren saiu de sua inércia e correu para alcançá-los. Não era hora de brincar, a situação era séria e ela teria outra hora para explicar ao menino que ele havia se equivocado de irmão.

Não demoraram em chegar onde a criança indicou, os gritos desesperados da mulher podiam ser ouvidos a metros de distância. A imagem era horrível. A mãe do garotinho estava com saia erguida até a cintura e a parte de cima do vestido aberta, sendo manuseada por um dos homens e tendo seus braços imobilizados pelo outro, enquanto se debatia e impunha resistência.

A cena era tão forte que Heiren puxou a criança para si, obrigando o menino olhar para ela e não se voltar para cena.

— Faça algo, alteza. — sua voz soou mais alta do que o previsto, alertando os estupradores.

Os homens mal encarados se voltaram para eles, viram Lúcius com desprezo e sorriram ao se focar em Heiren. Tão bela e tão jovem, aumentou ainda mais a libido deles.

— Veja isso, Ronka. Temos companhia. — disse o primeiro, saindo de dentro das pernas da mulher.

— E uma suculenta companhia, Rocen. — completou o outro, soltando os braços da mulher, fixando-se na camponesa.

A mulher ao sentir-se liberada se arrastou para trás, distanciando-se dos homens e fechando sua roupa como pôde, baixando a saia e buscando um mínimo de dignidade, enquanto observava a cena que se formava a sua frente vendo o filhinho agarrado naquela moça que parecia ser o novo alvo dos bandidos.

— Lúcius…

Deixando de lado os honoríficos, Heiren sussurrou temerosa, sentindo o medo percorrer suas veias. Lúcius sentiu o sangue ferver e caminhou um passo à frente, posicionando-se a frente dela, obstruindo a visão dos pervertidos e ganhando total atenção.

— Quem são vocês? Como se atrevem a atacar essa mulher? — sua autoridade foi ignorada.

— O que faremos com ele Rocen?

— É bonito, tem bom corpo… Acho que podemos levá-lo e vendê-lo, têm muitos homens que preferem a companhia masculina e pagam bem pelos bem apessoados. Um tipo desses iria fazer sucesso e daria até para leiloá-lo — respondeu ao parceiro, com um sorriso malicioso.

— Como se atrevem, insolentes! — Lúcius se indignou.

Os homens avançaram sobre ele e Heiren, que soltou o menino instigando-o a correr até a mãe.

Rocen atacou Lúcius que imediatamente sacou sua espada da bainha, infelizmente sua ação saiu um tanto torpe devido à falta de treino adequado, e se encontrou analisando o porquê dele ter recusado a oferta do irmão em treiná-lo. Seu pequeno segundo de desfoque mental no combate o fez passar por sua segunda vergonha, fora facilmente desarmado, vendo com assombro sua espada ser jogada na grama e o cara caindo sobre si, que perdeu o equilíbrio e foi, irremediavelmente, de encontro ao chão.

— Me solta seu asqueroso de mau-hálito! — gritou Heiren.

Lúcius a enxergou de esgueira, vendo a moça pisar com toda força no pé de seu atacante, depois empurrá-lo e sair correndo, pulando no pescoço do homem que agredia Lúcius, enfiando os dentes no trapézio do facínora, arrancando sangue e grito de dor do mesmo.

Rocen se debateu e ela caiu batendo as costas no chão.

— Ronka, não consegue controlar uma fêmea? — exasperou-se, vendo a mesma cuspir o resto de sangue que ainda tinha em sua boca, sorrindo maldosa para ele.

— Ela é selvagem demais. — anunciou o outro, se aproximando.

Lúcius aproveitou o momento de distração e levantou pulando no Ronka e agarrando pela cintura o jogou no chão, colocando-se sobre ele, desferindo inúmeros golpes na cara do perverso, que não estava conseguindo se defender.

Rocen deu um forte tapa com o dorso da mão no rosto de Heiren, deixando-a atordoada — após acertar sua têmpora —, enquanto a mesma ainda estava no chão. Logo a seguir avançou até o infante, chutando-o na lateral do corpo, arrancando o ruivo de cima de seu amigo, a quem estendeu a mão para ajudá-lo a levantar. Ronka tinha o nariz fraturado e o sangue jorrava copiosamente.

— Já vi que vocês vão nos dar trabalho… — Rocen cuspiu no chão, levando a mão até a mordida, sentindo o local arder. — Mas, tudo bem… Assim fica mais divertido. — riu cruel.

— Desgraçado… — Ronka insultou, encarando Lúcius com ódio. — Ele quebrou meu nariz.

— Bate forte. — concluiu Rocen. — Isso é bom… Tem senhores que gostam de domar os ariscos.

Riram mais, satisfeitos. Lúcius sentia a costela, a dor era imensa, mas a vontade de sobreviver era maior.

— Recupera sua espada! — a ordem fora dada de maneira vigorosa.

Todos olharam para o rumo de onde a voz masculina e autoritária foi ouvida, encontrando Heero sentado confortavelmente sobre seu corcel, observando atento à cena. Ele parecia cômodo, tão cômodo que Lúcius se questionou desde quando o irmão estaria ali assistindo tudo.

— Vamos Lúcius, levante e recupere sua espada. — repreendeu o mais novo. — Têm duas mulheres e uma criança que dependem de você. Lute!

— Quem é você? — Rocen inquiriu.

— Calado! — Heero o encarou com desdém. — Não lhe permito falar comigo. Seu adversário é meu irmão. — apontou com o queixo para o ruivo.

Lúcius por sua vez, aproveitou a interrupção do mais velho e rastejou até sua espada, levantando-se com dificuldade, a mão esquerda segurando a costela de mesmo lado, sentindo a dor aguda o preencher, no entanto, sem desistir, ergueu a espada em forma de combate.

Rocen olhou para o ruivo e riu zombador. Ronka por sua vez, ainda estava irritado por ter sido agressivamente golpeado.

— Faremos assim. Eu vou domar esses dois aqui e depois pegar você. — apontou para Heero, que por sua vez abriu os braços o desafiando a tentar.

Rocen se voltou para Lúcius, que o ameaçava com a espada, sacando sua adaga subestimando a arma do príncipe e a luta começou, um avaliando o outro, observadores. O bandido com um sorriso confiante no rosto e Lúcius tentando se concentrar.

— Abaixa a espada! — a voz do irmão soou, ele obedeceu e acabou impedindo Rocen de perfurá-lo com a adaga.

Admirou-se ao notar que Heero previu o ataque antes mesmo de acontecer. Surpreendeu-se por finalmente começar a ter um pequeno vislumbre das habilidades de combate do mais velho.

— Abaixa! — mais um comando obedecido e o soco passou reto.

Uma faísca de deferência por Heero começou a nascer dentro de si e passou por fim, cogitar a idéia de no futuro ser treinado por ele.

— Foco na luta! — Heero repreendeu, tirando-o de seus devaneios e por pouco Lúcius não foi agarrado por Ronka, que decidiu ajudar o amigo. — Dois contra um... Isso está ficando divertido. — sussurrou para si.

— Covardes… — comentou Lúcius, retoricamente.

Uma vez mais os dois criminosos trocaram um olhar cúmplice entre si, focando-se em Lúcius, que passava os olhos verdes de um a outro, atento, a espera do menor sinal. A respiração irregular, a adrenalina em alto, o medo sendo fortemente controlado dentro de si. Aquilo não era um treino, ninguém iria se conter para não machuca-lo, não haveria um médico de plantão a sua espera se por um acaso machucasse uma unha. Não. Nada e nem ninguém viria lhe socorrer e não só sua vida, mas as de inocentes estavam em jogo, ele não podia cair.

Nem mesmo Heero parecia interessado em descer do cavalo para lhe acudir… Será que ele viria se visse que estava prestes a morrer?

E em meio a esse questionamento, Ronka fintou e Rocen avançou, passando a defesa de Lúcius, caindo por cima dele e tentando fincar a adaga bem no olho.

— Parece que a vontade de me vender para um degenerado qualquer, morreu. — resolveu fazer troça, enquanto segurava o braço do homem com toda sua força, a voz saindo esganada, forçada, os dentes fechados, a mandíbula tensionada e os lábios se mexendo com dificuldade.

— Bonito assim, mesmo sem um olho eles iram pagar por você, principezinho. — então eles sabiam quem ele era? Ou descobriram quando Heero o anunciou como seu irmão?

Rocen estava chegando bem perto do olho esquerdo de Lúcius, a tensão pairava no ar, Ronka incentivava o amigo, com gritos e urros de ânimo. Porém, as forças do homem sobre o infante acabaram quando ele sentiu um golpe com força total em sua costela direita, o que o fez rolar para o lado do infante, caindo no gramado.

— Não perde a oportunidade! — Lúcius ouviu o comando do irmão e obedeceu.

Ergueu seu tronco, agarrou a adaga que Rocen deixou cair e o apunhalou no coração, imediatamente. Enquanto o homem engasgava no próprio sangue, todos seus sentidos estavam em alerta, passou os olhos ao redor, vendo como Ronka ainda estava estático e sem reação após presenciar a morte do parceiro e aproveitou esse momento de distração para recuperar sua espada e atacá-lo.

O sangue fervia em suas veias e o coração batia forte no peito, reverberando em seu ouvido. Era sua chance, finalmente acabaria com aqueles malditos que se atreveram a matar e estuprar e vender e… e… E era exatamente o que estava acontecendo no reino durante aqueles últimos tempos. Era exatamente o que ele fazia e seu irmão tentou lhe avisar.

Foi com essas revelações em mente, que enfiou sua espada — até então virgem de sangue — no estômago de Ronka e o viu vomitar vermelho. O ódio e fúria se apossaram de Lúcius bem no momento em que ele observava os olhos do homem se apagando aos poucos e deslizava ainda mais a espada, gritando com o rancor contido por tanto tempo, expurgando toda aquela frustração acumulada e guardada e semeada.

Ronka caiu no chão, deslizando da espada que Lúcius ainda mantinha firmemente segura pela empunhadura. A respiração começava a se acalmar lentamente e a adrenalina abandonar seu corpo de maneira brutal, causando-lhe tremores pelo corpo. As pernas fraquejaram, caindo de joelhos no chão. Respirando pela boca, conscientizando-se de que acabava de cometer seu primeiro homicídio… Duas vezes.

Ergueu a cabeça e viu Heero caminhando até ele, foi então que percebeu que quem lhe salvou não foi o irmão, olhou para trás e viu Heiren ainda caída e entendeu. Ela devia ter juntado os dois pés para acertá-lo com tamanha força, devido à posição em que encontrava. Duas vezes… Aquela garota o salvou duas vezes no mesmo dia. Riu sem graça de sua própria descoberta.

— Bom trabalho… Muito bom, na verdade. — Heero lhe estendeu a mão e ele a agarrou, levantando.

— Por que não me ajudou? — quis saber. Não havia mágoa, reproche, raiva… Nada de ruim, apenas curiosidade.

— Porque eu não precisava. — Lúcius estranhou, franzindo o cenho. — Eu vi quando tudo começou. — a expressão do mais novo, com a revelação de que ele estava ali desde o início do confronto fez Heero rir. — Eu pensei em lutar, pensei em entrar na briga… Porém, eu vi você conseguia. Heiren também é uma excelente guerreira. — lançou uma olhadela no rumo da moça que começava a se erguer do chão, ignorante da conversa entre os irmãos, que falavam baixo, entre eles. — Você precisava ver que conseguia. Então, eu ajudei… Sem me envolver realmente.

Envergonhado, olhou para o chão. Crente de que quando erguesse o olhar veria a face altaneira de Heero, debochado. No entanto, quando o fez, viu apenas seriedade e um olhar de… Orgulho?

Heero o tocou no ombro, dando um firme tapinha em felicitação e esboçou um diminuto sorriso de lábios fechados. — Se saiu muito bem, Lúcius! — e foi tão sincero que o mais novo se sentiu aceito, como a muito tempo não o fazia, como desejava.

— Heiren? — Heero a segurou pela mão, estabilizando-a. — Está bem? — preocupou-se.

— Estou sim. — sorriu agradecida em resposta.

— Quer se juntar a Lucrezia? — sorriu com o olhar, e passou a mão na cabeça dela, feito um irmão mais velho.

— A idéia até que é interessante. — riu divertida, gracejando e o contagiou internamente.

— Rellan? — chamou e por primeira vez todos notaram o soldado auxiliar que o acompanhava. — Ajude a todos chegarem bem a seus destinos e mande alguém vir limpar isso. — ordenou ao rapaz que rapidamente se curvou, colocando-se em total disponibilidade. — Se precisarem de algo, mandem ele me avisar.

Heiren assentiu e Heero foi se certificar de que mãe e filho estavam bem. Felizmente a única coisa que encontrou foi o medo desaparecendo aos poucos e a vergonha que a mulher ainda sentia. Sem embargo a gratidão estampada no rosto e o olhar de admiração que ela e o filho lançavam em direção de Lúcius. Instigou o menino a ir ver o ruivo e após explicar a mulher que Rellan iria garantir seu retorno em segurança, partiu, montando novamente seu cavalo.

Uma última troca de olhares entre irmãos, silenciosa, foi sua despedida. Heero empreendeu seu caminho de volta ao castelo, imaginado qual seria a cara de seu tio ao saber que sem querer, lhe facilitou o acesso ao irmão? Riu de como as coisas estavam mudando e logo poderia acabar com todo esse inferno.

-/-/-

Heero chegou sozinho ao castelo. Miliardo franziu o cenho, estranhando a falta do soldado que acompanhava o cunhado.

— O alfaiate já está aqui a sua espera, para os últimos ajustes de sua roupa. — comentou logo que Heero se juntou a ele ao topo da escada.

— Obrigado. Tive um imprevisto, por isso estou atrasado. — comentou ao acaso.

— Um imprevisto? Está tudo bem? Onde está Rellan?

— Rellan ficou para trás atendendo um pedido meu. Uma mulher e seu filhinho foram atacados.

— Em plena luz do dia?

Miliardo ficou assombrado com a novidade, franzindo ainda mais o cenho, enquanto mantinha o passo apressado flanqueando a Heero, rumo à escadaria que os levaria aos aposentos. Como resposta Heero assentiu. Avistando o pai a alguns metros deles, parou de maneira ereta o mirando de maneira austera.

— Onde estava? Está atrasado. Um rei não deve se atrasar nunca. — repreendeu o primogênito.

— Perdoe-me pai. — o reverenciou, respeitoso. — Tivemos um contratempo. Estava explicando a Miliardo que houve um ataque perto do rio, na parte norte, onde uma mulher e seu filho pequeno foram interceptados por dois homens com intenções… Nefastas. — achou uma palavra mais abrangente para a escória que encontrou.

Miliardo, Dante e Auden — que estava ao lado do rei em silêncio, observador — se entreolharam, de repente preocupados com a audácia em plena manhã ensolarada.

— Você interferiu, imagino. — Auden ousou perguntar, quase reclamar, devido à impressão. — Desculpe… Não quis soar exigente. — se retratou ao ver o olhar que o filho lhe dedicou.

— Não se desculpe. — Heero tomou a palavra, colocando a mão no ombro do cunhado, tranquilizando-o. — Não me pareceu ofensivo e nem me ofendi. E respondendo a sua pergunta. Não. — anunciou surpreendendo a todos. — Nem sequer desmontei do cavalo. Nem mesmo Rellan que me acompanhava.

— Como assim?

A voz de Dante pareceu mais dura e ameaçadora. Não era admissível que seu filho não fizesse nada para salvar inocentes, no entanto o mesmo parecia sereno e verdadeiro. Impossível refutar sua resposta.

— Eu realmente não fiz nada. Lúcius fez!

E Heero tomou seu tempo em apreciar a cara de estupefação que os três fizeram, se fosse um pouco mais parecido com Duo, há essa hora provavelmente estaria gargalhando com a cena. No entanto, tudo que fez, foi sorrir com os olhos, levantando suavemente os cantos dos lábios fechados e as sobrancelhas em um ar de diversão.

— Lúcius? — Dante testou. — Seu irmão, Lúcius?

— O único que conheço.

— Espera um pouco. — Miliardo resolveu se meter, pedindo desculpas por isso. — Mas, seu irmão mal sabe manejar uma espada. Está dizendo que ele lutou com dois homens, sozinho? — pausa. — E venceu?

— Uhum. — foi toda a resposta, ainda curtindo a satisfação do ocorrido.

— Explique com detalhes!

Dante exigiu e Heero puxou o ar, preparando-se para o relato. Buscou ser o mais fiel possível a tudo, entrando em detalhes e não escondendo nada, por mais terrível que parecesse. Pelas expressões, em especial de Auden e Miliardo, soube que os três conseguiam visualizar tudo conforme ele narrava. A face de Dante era uma mescla de surpresa e agrado, sem perder a costumeira austeridade.

— E foi por isso que deixei Rellan, para auxiliá-los. — concluiu.

Silêncio.

— Lúcius matou alguém? — Miliardo não se importou em pedir permissão, simplesmente perguntou, ainda impressionado.

— Sim. Ambos! — o silêncio voltou a reinar e Heero acreditou que já era o suficiente por hora. — Agora se me permitem, me retiro. Devo conferir a roupa para meu casamento que será em poucas horas.

Curvou-se perante o pai e despediu-se do sogro e do cunhado, deixando o trio assimilar as últimas novidades. Aproveitando-se da estupefação alheia para não ser corrigido por sua falta com o horário a cumprir.

-/-/-

Heiren e Lúcius chegaram por fim até a pousada. Após muito discutir com Rellan, o príncipe conseguiu convencer o homem a se encarregar apenas da mulher e seu filho, enquanto eles voltavam para casa juntos. Passaram a recorrer às roupas lavadas e fizeram o caminho de volta em total silêncio.

Ao chegarem ao local, os olhares se pousaram neles de imediato. As roupas do príncipe estavam salpicadas de sangue e terra, sua aparência sempre impecável estava maculada e seu semblante decaído, apesar de sua postura nobre permanecer intacta.

Passou reto por todos, não se importando de que o vissem carregar o cesto, seguiu de cabeça erguida rumo à escada, nem ao menos notou que Heiren tentou recuperar as roupas lavadas inúmeras vezes. Estava desnorteado e desligado do mundo.

Entrou no quarto, seguido da moça que apenas o observava, quieta, atenta a cada nuance do monarca.

— Quer… Que eu busque algo para comer? — arriscou se sentindo deslocada, como se por primeira vez, não pudesse ser ela mesma.

A voz hesitante da jovem o desadormeceu e o obrigou a encará-la, piscando várias vezes, sem ter ouvido nada do que ela disse anteriormente.

— Perguntei se quer almoçar. — entendeu e se prontificou a esclarecer. De repente sem vontade de provocá-lo.

— Você sabia? — perguntou monótono, fazendo-a estranhar.

— O que? À que se refere?

— Você sabia... O que eu me negava a ver?

— Ah… Tudo bem… Não faço idéia a que você se refere?

Lúcius meneou a cabeça em negação e depositou o cesto sobre a cômoda perto da porta de entrada.

— Quero comer sim. Peça para nós dois. — sentou na cama e escondeu o rosto entre as mãos, derrotado.

— Está bem. — Heiren pegou o cesto, iria levá-lo para estender as roupas no varal. — Com licença, voltarei em breve.

Ele não respondeu e ela se retirou discretamente. Lúcius necessitava estar só e Heiren iria lhe providenciar o tempo que pudesse para que ele aclarasse a mente.

Ouviu a porta se fechar e teve uma vontade súbita de quebrar tudo. Destruir cada peça que havia ao redor. No entanto, a suprimiu, engoliu seco e sentiu o ódio implodir dentro de si. Os olhos verdes ficaram escuros e as mãos tremeram. Quando fechava as pálpebras podia ver o brilho dos olhos escuros daqueles malditos se apagarem.

Era esse o fantasma que diziam que se apegava ao corpo de um, após o mesmo cometer seu primeiro assassinato?

Mas, poderia chamar aquilo de assassinato? A palavra remete a algo tão ruim e cruel, sem embargo, ele apenas lutou em prol de si e de terceiros.

Terceiros… Era a primeira vez, da qual tinha consciência, de que ágil em prol de alguém mais que não fosse a si mesmo. De que se importou em salvar uma pessoa que nada poderia lhe dar em troca, pelo simples fato de ajudar.

Era isso que Heero queria dizer? Tantas vezes o irmão lhe chamou a atenção para que ele visse as coisas mais além do próprio umbigo e agora, no momento em que estava mais exposto que nunca, foi quando a verdade lhe atacou de maneira implacável.

Relena… Hoje era o dia do casamento dela com o irmão. Um dia ele havia a convencido se casar e ser sua esposa. A base de chantagem, ameaça, sem se importar com os sentimentos dela, sem querer saber se ela o amava assim. E na verdade sabia. Sempre soube que Relena o via como um irmão, como um melhor amigo. E até esse sentimento puro ele estragou.

Olhou para as próprias mãos, se sentindo envergonhado.

— Tudo o que você toca, arruína.

Sussurrou. Afinal era para ele mesmo ouvir. Estava só, exatamente como buscou ficar e finalmente pode perceber a triste verdade. O choque e a dor da verdade. Afastou a todos que lhe estenderam a mão, a todos que se importaram e quiseram relevar seus equívocos.

— Até chegar a isso. — concluiu.

Afastou a todos… Menos aqueles que realmente deveria ter afastado.

Endireitou o corpo e encarou o espelho de corpo inteiro a sua frente e por primeira vez, desprezou o que viu. Sentiu nojo de alguém e o pior é que esse alguém era seu reflexo.

— Por mais que você odeie admitir… — conversou com sua imagem. — Teu irmão tentou te avisar. — aceitou por fim.

Continua...


Oie... E ai galerinha linda que tanto amo, como estão? Como foram de Páscoa? Como segue a vida? Contem-me! XD

Bom... Esse é o dia do casamento, como puderam notar. Anteriormente, eu não ia cortar o capitulo em dois... Ele iria ser grande como o 30 e teria tudo, desde todo esse momento do Lúcius como o casamento HeeLena. Porém, como puderam ver, esse momento do Lúcius foi muito significativo, assim como será o casamento real, então, para nenhum momento ofuscar o outro, decidi cortar em duas partes. Então, na parte 02, teremos o tão esperado casamento! \o/

Escrever esse capitulo do Lúcius e da Heiren foi uma grande diversão e um quebra cabeça sem limites. XD

Então, aguardo, ansiosíssima pela review de vocês. Por favor, me digam com detalhes tudo o que acharam...

Também aproveito para dar as boas vindas a Merrick15, bem vindo e aguardo ansiosa por sua review. Espero que tenha apreciado HeiLu. XD

Bom... É isso... Aos amantes do casal HeiLu... como Jessica Yoko e Co-star, espero que tenham gostado desse momento e não poupem nas reviews.

E para quem aguarda o casamento, não se preocupem, que já é no seguinte. S2

Beijos e beijos... Até loguinho e passem por Beautiful Lie também! hehehehehe

07/04/2018