35. Irreversível.

— Tem certeza disso? — o cenho franzido revelava a incomodidade que sentiu com a notícia.

— Sim senhor. Era sua alteza o príncipe Lúcius. — declarou o soldado.

O tom de voz baixo, segredando ardiloso, os olhos negros não se aquietavam, acompanhando os movimentos de cabeça, que buscavam incessantemente por qualquer sinal de intruso.

Não podiam ser descobertos.

Em meio à madrugada, em um canto escuro, nos pés de uma escada que, virando-a, dava acesso ao corredor da guarita dos soldados, Cássius se encontrava com um de seus aliados para receber os últimos informes sobre as ordens do rei para encontrar Miksien. No entanto, não se alegrou nem um pouco em descobrir que seu sobrinho havia ido até a propriedade dos Yukiames. Aquilo não lhe soava nada bem.

— E o que ele fez? — exigiu saber.

— Não sei. — murmurou. — Apenas alcancei a vê-lo quando já estava partindo. — avisou e posicionou-se em prontidão, obediente e submisso frente a seu líder.

Puxou o ar com força, dilatando as narinas e sentindo a irritação o inundar. Havia cogitado deixar de lado seus planos anteriores para com o mais novo Yui, porém, aquilo lhe fazia reviver as primeiras intenções. Cruzou os braços sobre o peito e relanceou o céu, através da janela que lhes proporcionava luz lunar.

— Não vai demorar a amanhecer. Avise os demais que fiquem prontos para minhas ordens. — olhou o subordinado, vendo-o assentir. — Vou para meu quarto, em poucas horas tenho um enterro para assistir. — finalizou, dando a volta.

— As ordens senhor.

Com essas últimas palavras o soldado Eiden se retirou para o lado contrário do barão.

Esgueirando-se com cautela pelas sombras, Cássius chegou a seu quarto, encontrando-se com Emera dormindo nua, placidamente em sua cama. A princesa nem notou a ausência do amante logo de cair rendida aos braços de morfeu após uma sessão intensiva de prazer carnal.

A observou por alguns instantes, erguido aos pés da cama, apático. A mulher era linda, o cabelo loiro-dourado, feito o trigo, brilhante, espalhado pelo travesseiro, os olhos fechados escondendo aquelas íris que mais pareciam um par de Tsavoritas.

Tão formosa e insignificante a seus olhos.

Desviou-se para a esquerda focando-se no quadro onde estava ele e sua irmã. Amanda sempre tão vivaz e sorridente. Uma beleza tão pura e genuína que não deixava de encantá-lo. Caminhou em direção à pintura, tocando o rosto jovial da rainha de Sank, acariciando-o com reverência, os olhos azuis brilhando intensamente ao percorrer os traços tão atrativamente femininos.

Soltou o ar com ímpeto e voltou-se para a cama, decidido. Extinguiu a distância em duas passadas largas e subiu na cama, despertando a bela adormecida e tomando-a uma vez mais com beijos fogosos, afogando aquele desejo tão árduo que o consumia por completo. Não se importava se ela estava cansada ou disposta, a necessitava naquele instante e a teria.

Mesmo que não fosse exatamente ela.

-/-/-

— Heero! — exasperou-se, ansiosa e cansada.

— Shhh… Calma. — falou manso, com um timbre divertido por trás da voz. — Estou quase terminando. — anunciou convicto e voltou a focar-se em sua missão.

Já devia ter passado mais de quinze minutos que estavam ali, com Relena apoiando-se na grande cômoda ao lado da porta, enquanto o marido se aventurava em passar o cordão do espartilho dela, casa por casa, calmamente, deixando-a aflita.

— Pronto. — anunciou feliz, divertindo-se interiormente com aquela brincadeira tão insignificante, arrancando da esposa um suspiro de alívio.

— Até que enfim. — sussurrou.

— O que? — estreitou os olhos, deitando a cabeça para o lado, tentando ver o rosto feminino.

— Nada não. — riu de nervoso. — Agora puxe.

Heero desviou dela para os cordões, puxando levemente, sem se esforçar e deixando o espartilho frouxo. Relena girou os olhos, incrédula.

— Não é possível que com toda a força que você tem, não seja capaz de fazer melhor... — o recriminou, segurando a ímpeto de rir.

— Mas se eu apertar mais, como fará para respirar? — ergueu as sobrancelhas, sabido.

Não resistiu e riu, meneando a cabeça, divertida com a situação inusitada.

— Não me disse que eu não precisava chamar as meninas? Que você poderia me ajudar a colocar isso? — apontou para a peça de seu vestuário, foco daquela discussão matutina. — Então puxe. Te prometo que ficarei bem.

— Isso é desumano, como vocês mulheres conseguem usar isso? — resmungou e Relena mordeu o lábio inferior para segurar a gargalhada.

Uma batida na porta, sincronizada e propositalmente cadenciada, chamou a atenção do casal e Relena virou a cabeça para trás, questionando-o sobre o que significava e a razão dele não ir atender.

— É o Wufei. — comunicou sem importância, enquanto se focava em apertar, levemente, um pouco mais o cordão. — É o código para me dizer que já estão prontos e nos esperam para comer e partir.

A moça assentiu e logo estressou.

— Heero puxa logo isso, só falta nós dois. — ordenou e foi à vez dele em revirar os olhos e sem nenhum esforço, obedeceu, espremendo-a como desejava, dentro daquela peça que para ele mais parecia um artigo de tortura.

Relena tomou seu tempo para controlar a respiração, definitivamente ele era o mais eficaz em apertar aquilo, de todas as pessoas que lhe ajudaram ao longo da vida e foi tão fácil, que nem teve tempo de se preparar psicologicamente.

— Satisfeita? — sussurrou no ouvido dela, provocando-a, com aquele sorriso de lábios fechados, debochado. Uma nova faceta que só ela teve o prazer de conhecer.

— Bastante. — a voz saiu em um murmúrio ofegante e riu, achando-o terrível.

Terminaram de se vestir, trocando beijos, sorrisos e carinhos recatados, o mais rápido que conseguiram para se juntarem aos demais no café da manhã.

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Com os verdes fixados no céu, a brisa fresca da manhã o obrigando a esconder-se mais sob a capa de pele que levava sobre os ombros e o cheiro de comida se apoderando se seu olfato, mas não despertando o apetite. As olheiras fundas e enegrecidas circulavam os olhos, denunciando uma noite não dormida e o corpo pesado de cansaço, contrastando com a mente inquieta.

Lúcius se sentia embotado.

— Você precisa comer um pouco… — ouviu a voz dela, mas não quis olhá-la, envergonhado demais consigo mesmo.

— Estou bem assim. — soou fraco, porém decidido e Heiren sentou ao seu lado naquele tronco, observando a alvorada.

— O que fará? — o cenho franzido com as sobrancelhas elevadas denotava sua preocupação para com quietude alarmante dele.

— Vou ao enterro. — informou. — Teyuki provavelmente quererá sepultar os pais no campo-santo de seus ancestrais. — Heiren anuiu compreensiva e Lúcius a encarou. — O que fará?

— Acho que irei até a colina destinada aos mortos dessa guerra sem sentido, visitar o túmulo de uma amiga minha…

— Anee? — os verdes se nublaram de uma tristeza tão profunda que Heiren acreditou ter imaginado.

— Sim… — sorriu fraco. — Você se lembra de que eu falei dela naquele dia que nos encontramos de noite… — foi mais uma afirmação que uma pergunta, ainda assim ele assentiu em concordância, escondendo a verdade, uma vez mais. — Ela era uma grande amiga, uma das melhores… — esmoreceu entristecida.

— Vá vê-la. — soou doce. — Logo que me despedir do senhor Hideki e sua esposa, vou te buscar. — avisou.

— Você parece ter muito carinho por eles.

Levantou balançando a cabeça em afirmação. — Eles eram bons para mim.

Heiren nada mais disse, apenas viu Lúcius subir em um cavalo selado, que ele havia alugado para o dia todo, e partir rumo ao nascer do sol, apressado, solitário, apagado.

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O silêncio era ensurdecedor, mesmo que não estivesse tudo quieto. O sacerdote fazia seu monólogo, as pessoas se compadeciam atentos a ela, ouvindo as pregarias, temerosos até mesmo em sussurrar. Trowa se mantinha ereto e estoico a seu lado, apoiando-lhe sem vacilar.

Hadja a sua direita, era abraçada pelo pai, que a enlaçou com carinho, permitindo que a unigênita chorasse serenamente. Seguindo os dois estava Cléo, no mesmo estado de espírito que a filha do comerciante, abraçada ao noivo. Ela havia enviado uma carta a seus pais relatando o ocorrido, já que os mesmos estavam em viagem com seus irmãos.

No lado contrário à órfã, se encontrava o rei Dante e sua rainha Amanda. Atrás dela, o barão Cássius junto com a princesa Emera e o restante do local foi preenchido pela nobreza do reino e algumas pessoas que estimavam o casal assassinado. Todos escoltados por um número considerável de soldados reais, comandados por Quatre, que ficou atrás de todos, em serviço, alerta ao mínimo sinal de problema, observando com pesar as meninas, em especial a atingida e seguidamente, sua noiva.

Sandrock e os demais cavalos relincharam e ele olhou para trás, sabendo que se aproximava alguém. Surpreendeu-se em ver Lúcius parando a uma distância prudente, sem desmontar de seu corcel, observando fixamente o enterro e por fim, notando a mirada curiosa de Quatre sobre si.

O cavaleiro deixou sua posição e foi até o infante, reverenciando-o com polidez.

— Não vai descer? — segurou a rédea, abaixo do focinho boca-de-leite¹, mantendo o cavalo parado para Lúcius.

— Não creio ser bem-vindo. — comentou com pesar e Quatre notou.

— Sinceramente, penso o contrário… — os olhos verdes baixaram até o loiro. — Estou certo de que a senhorita Teyuki apreciará muito. — não havia burla ou mentira naquelas palavras e Lúcius sentiu a garganta fechar, embargada pela emoção.

— Obrigado. — comovido e verdadeiro. — Mas, creio que meu pai não irá apreciar. — sem graça e Quatre titubeou, receoso em se meter naquele conflito familiar.

— Talvez precisem conversar…

Uma trovoava alertou a todos e inquietou os animais, fazendo com que os dois olhassem para céu, surpreendendo-se como as nuvens enegrecidas se juntavam ligeiramente.

— Creio que será em outra oportunidade. Preciso ir a outro lugar. — tirou uma carta de dentro da túnica. — Poderia, por favor, entregar isso a Tey? — Quatre tomou o que lhe ofertava. — São minhas mais sinceras condolências.

— Considere feito. — afirmou. — Também direi a ela que esteve aqui.

— Obrigado Quatre. — olho no olho. — Meu irmão é um homem sortudo por ter amigos como vocês. — por primeira vez, não soou invejoso e sim admirado.

— E nós por termos a amizade dele. — sincero. — Deveria tentar… Assim que ele voltar de Wing. Heero sempre teve um carinho enorme por você.

Com essas palavras, o cavaleiro deu a meia volta e seguiu para sua antiga posição, sabendo que o velório já estava no fim. Lúcius matou a dúvida sobre a razão de Heero não ter cabeceado a o resgate da família Yukiame, porém, tomou o caminho de partida com outras questões em mente, alienado ao fato de sua breve aparição, não ter passado despercebida por seu tio Cássius.

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Desequilibrou-se pelo golpe recebido e suas costas acertaram com força a madeira espessa da mesa, fazendo com que ele se inclinasse levemente sobre a mesma, o que facilitou para que o segundo golpe de seu adversário o atingisse certeiro na boca, quebrando um de seus dentes e obrigando-o a saborear o próprio sangue. Jian estava possesso sobre Otto, feito um animal raivoso, ansioso em aniquilar a insignificante existência do tenente com os próprios punhos, investindo pela terceira vez.

Otto em uma breve recuperação conseguiu rodar o corpo e sair do cercado, para em seguida inclinar o corpo e entrar com o ombro na cintura de Jian, empurrando-o rumo à parede da cabana, enquanto sentia os pingos do sangue de seu oponente molhar suas costas. Durante a cometida Jian contra-atacou com uma cotovelada nas costas do comparsa, mas logo perdeu o ar com o impacto ao chocar-se contra a madeira.

Aproveitando-se da brecha, Otto desferiu uma sequência de socos, minando o abdômen do asiático. Jian urrou de dor, empurrando o soldado e acertou-lhe com um chute na perna, que o fez oscilar. Ganharam distância e se prepararam para continuar, quando a porta se abriu com ímpeto. Davhand, alertado pelo estrupo², jogou fora o cigarro de palha e entrou, já imaginando o que encontraria e avançou apartando a briga, observando como ambos homens estavam amassados, rasgados, cheios de hematomas e sangrando, o tenente pela boca e o asiático pelo nariz quebrado.

— Posso saber a razão disso? — esbravejou, olhando de um a outro.

— Esse louco começou. — Otto apontou para o anfitrião, que o encarava encolerizado.

— Se voltar a falar da minha irmã… — apontou o dedo na cara o tenente, ameaçador.

— O que você disse? — Davhand questionou irritado.

— Apenas disse que a menina com dez anos já é bonita, e que sem dúvida ela poderá ser usada como moeda de troca para forjar alianças futuras.

Jian avançou e Davhand se interpôs em meio a eles, impedindo um novo assalto.

— Já basta! — ordenou olhando para Jian e logo focando em Otto. — Ninguém vai usar Mei para nada. Guarde suas opiniões indesejadas para si.

Contrariado e estressado, Otto pegou sua capa e saiu para espairecer, enquanto Jian foi até a bacia, despejando água da jarra dentro dela, para lavar o rosto, logo depois de tentar endireitar o nariz quebrado.

Davhand passou a mão no rosto e no cabelo, sentindo o cansaço se apoderar dele. Tinha que encontrar um meio de falar com Cássius, ou aqueles dois iriam acabar se matando e isso não convinha para os planos do barão.

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A velocidade do alazão diminuiu conforme se aproximava da camponesa. Lúcius mal esperou o cavalo parar completamente para saltar de sua cela e terminar o caminho a pé, permitindo que o animal fosse comer um pouco de grama, enquanto ele ia visitar, por primeira, vez o túmulo de Anee e encontrar com Heiren.

— Como foi lá? — perguntou assim que percebeu ele parar a seu lado, sem desviar os olhos da cruz de madeira, onde estava escrito o nome da amiga.

— Bem… Triste. — finalizou, olhando para o mesmo ponto que a moça.

O silêncio tomou conta do ambiente, o soprar do vento era o único som que permeava, nem mesmo os animais pareciam querer se manifestar naquele dia. Era algo tão estranho, a calma e a paz daquele local parecia opressora e sufocante.

— Ela estava grávida. — comentou trivialmente, ignorante ao efeito que aquelas três simples palavras causaram em seu acompanhante. — Ela estava se encontrando com alguém, de quem nunca me disse o nome, mas se descobriu grávida pouco antes de morrer.

Lúcius sentiu as pernas fraquejarem, o pânico estampou seu semblante, as articulações se dobraram e seu corpo caiu de joelho, ofegante, sentido o coração apertar e a capa o sufocar. Heiren se alarmou, agachando ao lado dele, buscando auxiliá-lo, alarmada.

— Lúcius o que você tem? — os olhos castanhos, ansiosos, o percorriam com minúcia.

Ele não disse nada, apenas fechou os punhos, arrancando um punhado de terra com as mãos. O desespero o consumindo, a garganta seca e as lágrimas escorrendo por seus olhos, sem permissão, em um choro mudo e inconsciente. Heiren começou a buscar o cavalo com os olhos, o avistando a alguns metros.

— Me espere, vou buscar o cantil de água. — se apressou em levantar e correr.

Assim que Heiren se afastou, a voz de Lúcius começou baixinha, em um mantra, embargada pela tristeza e pesar.

— Perdoe-me… Por favor, perdoe-me… — soluçou fraco. — Por que não me disse? Por que não me procurou? — pausou. — Meu filho… — a voz falhou, entredente, doída, e o cenho franziu em incompreensão.

— Lúcius, aqui...

Chegou caindo de joelho, oferecendo a ele o cantil que foi instantaneamente negado. O infante ergueu a cabeça — antes abaixada, fixando a terra — e focou-se novamente no nome da vítima.

— Eu sinto muito! — chorou consciente, expurgando sua tristeza, suas mágoas, seus pesares. Sentindo a culpa de tudo o que fez, durante tanto tempo.

— Do que você está falando? — não entendia, olhava para ele e para o tumulo, sentindo a melancolia do momento, o arrependimento e finalmente arregalou os olhos, as peças se encaixando no enigma. — Era você? — questionou decepcionada e o viu olhá-la com a autoria do crime esculpida em seu rosto.

— Eu não sabia… Juro! — ergueu a mão para tocar o rosto feminino, mas ela se colocou em pé, afastando-se, confusa com tudo o que estava sentindo e pensando.

— Eu, não entendo... — expôs sincera. — Você... A amou? — quis saber.

— Não. — honesto. — Porém jamais a teria deixado carregar meu filho sozinha. Teria cuidado dela. — olhou para a cruz. — Deles.

— De verdade? — questionou atenta e ele vacilou.

Lúcius franziu o cenho, desviando o olhar, de repente inseguro de suas próprias palavras. De fato ele teria assumido como um homem aquela situação? Sendo como era? Na verdade, provavelmente não e quem teria cuidado de tudo seria seu pai ou Heero, enquanto ele estaria bebendo e dormindo com outra qualquer.

A verdade resplandeceu em sua fisionomia e Heiren obteve sua resposta. Ainda assim, também soube que ele mudou muito desde então.

— Eu não te culpo. — Lúcius ergueu os olhos assombrado. — Eu posso passar minha vida te odiando por não tê-la tratado com o respeito que deveria, mas você não tinha como saber que ela seria atacada. — suspirou. — Além disso, Anee nunca se referiu a você com raiva e creio que ela não te culparia também. — levantou e deu um passo para frente e ela recuou mais um. — Mas agora, eu preciso pensar e digerir tudo isso. — gesticulou para o túmulo, ele e por fim a si mesma, formando um circulo entre eles.

Deu meia volta e começou a caminhar rumo a sua casa, deixando-o com a palavra na boca e a desolação pairando sobre sua cabeça, sem norte, olhando para o chão, para o montículo de terra, para cruz de madeira, o nome, as árvores, as demais sepulturas, o cantil de água abandonado no chão e finalmente para suas próprias mãos.

Sim, seus olhos finalmente se abriram para o terror que se tornou sua ignóbil existência.

-/-/-

A carruagem parou em frente aquela solitária cabana no meio do nada, que abriu as portas antes mesmo do cocheiro descer de seu banco para abrir a porta para ele.

Cássius estreitou os olhos ao ver Jian recebê-lo com o rosto todo machucado.

— O que foi agora? — questionou desanimado.

— Quero a cabeça daquele tenente imprestável. — ainda que falasse entredentes, soou monótono e completamente lúcido.

O barão bufou e assentiu em concordância antes de apontar o dedo para o asiático.

— Mas só depois que eu executar meu plano. — alertou. — Otto ainda me será útil e tenho que ter todas as peças necessárias, caso contrário tudo pode desmoronar.

Foi obrigado a se conformar com aquilo, satisfeito que em um futuro próximo, poderia matar lentamente aquela escória. Começaram a caminhar rumo ao interior, quando Davhand apareceu, abrindo a porta e reverenciando polidamente ao nobre.

— Que bom que chegou vossa graça. — ergueu a cabeça. — Esse dois vão se matar. — apontou o anfitrião com um cabeceio.

Cássius sorriu debochado, olhando de esguelha para o subalterno a seu lado, que se mantinha estoico.

— Onde está Otto? — perguntou para o mais velho, a sua frente.

— Foi dar uma volta para espairecer. — desviou os olhos rapidamente para Jian e focou-se em responder.

— Espero que ele não demore muito, tenho uma encomenda para ele que deve ser executada o mais breve possível. — anunciou, passando pelos homens e adentrando a casinha.

Davhand trocou uma olhadela com Jian e deu passagem para o dono entrar primeiro, em seguida passou os olhos ao redor, certificando-se de que não eram vigiados, cumprimentou com um movimento de cabeça ao cocheiro e por fim, acelerou para dentro, refugiando-se do frio.

-/-/-

Arrastou-se para casa, pensativa, abatida, intrincada. Tantos sentimentos misturando-se e o coração doendo, desolado. Chutou as pedrinhas pelo caminho, enquanto tentava inutilmente pensar em que deveria fazer...

Conforme se aproximava de casa, sentia o cheiro familiar daquele mingau que seu pai fazia de maneira única, tão saboroso e convidativo que lhe acalmou a tristeza. Correu ultrapassando os relevos do caminho tão conhecido e entrou em casa sendo recebida pelo sorriso caloroso de Maximilliam.

— Chegou cedo… — foi mais uma constatação que uma pergunta.

— Foi um dia ruim, mas estou bem. — sincera e decaída, revelou e foi direto para a bacia, lavar as mãos e rosto para comer.

— Vossa alteza lhe fez algo? — preocupou-se e relaxou ao vê-la negar.

— Me contou algo...

Serviu duas tigelas do tamanho de uma metade de coco para eles e sentaram-se frente a frente comendo em silêncio. O tema permeando no ar, enquanto o pai analisada o momento de se aprofundar naquela ferida recente.

Os conteúdos de seus potes acabaram e as colheres foram abandonadas de lado, antes de Max quebrar o gelo e aventurar-se naquela conversa que pedia a gritos que fosse iniciada.

— Quão grave foi o… relato?

— Muito. — não conseguiu olhá-lo, insegura.

— Foi algo recente?

— Não exatamente. — refletiu duvidosa. — Foi a um tempo não muito distante, mas…

— Mas muita coisa tem acontecido em curtos espaços de tempo, certo?

Heiren assentiu e Max suspirou levemente.

— O que ele disse? — sem delongas, narrou para o pai todo o último momento que tiveram em frente do túmulo de Anee. — Como ele parecia?

— Surpreso, magoado... Arrasado.

— Em poucas palavras, arrependido. — anuiu para o pai. — Heiren… Você me comentou o quanto ele mudou esses últimos dias, certo? — afirmou de novo. — O que exatamente te aflige?

— Ele foi um monstro com ela… Anee era minha melhor amiga.

— Foi um monstro? Ele a forçou algo? — ganhou a atenção da filha. — Alguma vez ela contou para você quem era ele? — a viu negar. — Ele parece sentir genuinamente o peso de suas ações. — pausou. — Tanto o amor, quanto a amizade, são cultivados dia a dia, se no primeiro obstáculo abandonamos o que dizemos sentir pela outra pessoa, devemos nos questionar o quão verdadeiro aquele sentimento era.

— E se ele não mudou de verdade? E se no futuro ele fizer algo assim comigo?

— Você o está acompanhando constantemente. Seja um pouco imparcial e analise a situação.

— Pai…

— Eu sou velho, não estúpido. — olhou-a dentro dos olhos. — Sei que não o vê apenas como amigo e sim, que tem sentimentos muito mais profundos com respeito ao infante. Eu posso ver o brilho no seu olhar mudar com apenas a menção do nome dele. — pausou. — Isso me preocupa, porque temo que devido à diferença de classe, você não possa realizar esse sonho.

Heiren abaixou a cabeça, escondendo a infelicidade com aquele fato que ela não esquecia.

— Ainda assim, sei que podem se tornar grandes amigos e quando a amizade é sincera, você pode discutir, discordar, reclamar… No entanto, aquele sentimento que passa pelo fogo e se mantém vivo, se torna inabalável. — olharam-se. — Você tem todo o direito de estar decepcionada com ele e tudo o que descobriu. Agora, pare e reflita, se ele merece ou não uma segunda chance, e a resposta ditará a veracidade e intensidade de seus reais sentimentos para com ele. Seja de amizade ou amor.

Levantou-se de seu lugar e serviu-se de água, bebendo do copo de uma vez só.

— Se me der licença vou cochilar um pouco, estou com muito sono.

Max sorriu compreensivo para a filha, antes de dar a volta e partir para seu quarto, sabendo que ela precisava estar só para pensar no que deveria fazer. Relanceou a janela e viu um vulto se esconder em meio aos arbustos. Não deu maior importância, pois já sabia do que se tratava.

-/-/-

Encarava o horizonte com suma atenção aos detalhes. A mistura de cores que tingiam o céu em seu entardecer, o reflexo contra a mansa água do lago, o movimento do topo das árvores, o sol fraco e alaranjado… Tudo era tão onírico.

Sentia-se melancólico e entorpecido. Não parecia real, não sentia nada, era como se seu corpo e mente tivesse desligado e por mais que pudesse andar, falar e ter todos os funcionamentos normais, não se sentia vivo. Em sua mente um emaranhado de coisas o atacou. Lembranças de um passado recente, onde ele foi mau-caráter, mimado, falso, cruel… Sim. Sentia-se cruel.

Se estiver interessado, posso te ajudar. — lembrou-se de seu irmão, na primeira visita que lhe fez, logo em seguida de ter sido expulso do castelo.

E como seria?

Tudo é uma troca de favores. — foram as palavras que Heero usou e ele se interessou em ouvir… — Me ajude a desmascarar nosso tio. — recordou-se de como ficou surpreso com aquela frase tão direta. — Ainda não sei quais são os interesses reais dele e nem até que ponto ele está sozinho em toda essa armação, mas eu sei que é ele. Eu sei que você sabe e quero que me ajude a revelar a verdade.

Primeiramente, o que te faz crer que nosso tio é um traidor? E segundo, se estou aliado a ele, porque acha que te ajudarei? Ou melhor, que não direi toda a verdade para ele assim que você partir?

Sua convicção em sentir-se tão sabido derrubou-se com a resposta do irmão, que lhe surpreendeu mais do que aceitaria admitir em toda sua vida. Heero, com toda sua imponência ergueu a cabeça e com seu característico e insuportável sorriso confiante lhe respondeu calmamente.

Primeiro, posso farejar uma escória assim que a vejo. Passei muito tempo observando as pessoas para aprender a identificar os sinais. Segundo, porque você está assustado. Nunca pensou que seu castelo de areia fosse desmoronar e eu te vi com Relena… Muitas vezes e sei que a ama genuinamente. — o viu engolir seco. — Tem algo de bom em você Lúcius… Eu afirmo isso. Cuidei de você desde que nasceu até que tive que partir e eu sei que você tem esse lado justo e sabe que pessoas inocentes estão morrendo e tudo para alimentar a vaidade de nosso tio. Ele não se importa com você e nem com ninguém. — Heero deu um passo em direção à porta. — Pensa nisso. Se quiser me entregar, tem dois vigias dele lá na taverna, fique a vontade. De qualquer maneira eles morreram antes mesmo de pensar em me atacar.

Depois partiu, deixando-o à mercê de sua própria consciência. Algum minuto mais tarde desceu para pedir uma bebida e encontrou uns homens levando dois corpos para fora do estabelecimento, chegou a reconhecer um deles. Eram, de fato, dois subordinados de seu tio.

Voltou à realidade e passou a mão pelos fios ruivos, bagunçando o rabo-de-cavalo, desolado como sempre. Odiava ter que aceitar, Heero sempre acertava.

Agora, mais um peso para suas costas, mais um sangue escorrendo em suas mãos devido à negligência e cumplicidade. Tudo causado por culpa de seu egoísmo, soberba, egolatria…

— Um filho… Meu filho. — as lágrimas se juntaram em seus olhos, sem caírem.

O sentimento sofria uma mutação, passando de tristeza à revolta. De angústia à indignação. Cansou de ser um insignificante peão no tabuleiro, seu irmão lhe ofereceu uma oportunidade e estava na hora de cogitá-la seriamente. Mesmo que não pudesse sentir um real sentimento de pai naquele momento, já que tudo parecia irreal, sentiu a dor dilacerante da vergonha seguida de perda. O sol se ocultou e a claridade desaparecia rapidamente. Enxugou os rastros secos do choro e de postura ereta, deu a meia volta e recuperou sua montaria para voltar à pousada.

Tinha que ter tudo bem pensado para quando seu irmão voltasse de viagem.

-/-/-

Quando a carruagem e a escolta pararam em frente o imponente e elegante castelo de Wing, os guardas e os que ali se encontravam empurravam-se em comoção para saudar seu rei que finalmente voltava.

Os sorrisos e alegrias eram contagiantes ao ponto de fazer Heero sorrir caloroso e acenar ao povo que o recebia. Nobres chegavam e logo Treize apareceu no topo da escadaria, descendo-a em um trote constante e juntando-se a Heero em um abraço fraternal e sincero, logo dele desmontar.

— Finalmente te vejo meu amigo. — o líder provisório mesurou com emoção.

— É bom vê-lo meu irmão. — o rei devolveu o carinho com veracidade.

Alguns mais achegados se aproximaram e começaram as receptividades. Começando pelos conterrâneos até que se iniciaram as apresentações dos novos rostos, que assistiam tudo extasiados pela receptividade tão agradável.

Todos desceram da carruagem, deixando para trás Relena, resguardada a espera do marido, que finalmente se desvencilhou e foi busca-la. Abriu a portinha e lhe estendeu a mão, para auxiliá-la a sair. O silêncio e expectativa silenciou o local e a todos, até que expressões de fascinação cresceram em uníssono ao verem a beleza angelical daquela que o rei atendia com tamanha reverência.

— Povo de Wing... — após depositar um beijo no dorso da mão da esposa, dirigiu-se aos que os cercavam. — Meu povo. Eu lhes apresento, minha rainha. Relena Peacecraft de St-Pier e Yui.

Aplausos e vivas foram ouvidos e Relena lhes agradecia com seu benigno e resplandecente sorriso, cheio de gratidão por ser tão bem aceita.

Continua…


¹Focinho boca-de-leite é uma singularidade, uma marca de nascença do animal, significa que na parte baixa da cabeça, ou seja, o focinho (narinas e boca) são inteiro branco, destoando da cor natural do bicho.

²O termo "estrupo" é um substantivo comum masculino, sendo um antigo sinônimo de tropel, ruído ou tumulto. A palavra é usada para indicar situações barulhentas ou tumultuosas.

O recordo ao qual Lúcius se refere em seu momento em frente ao lago está no capítulo 27.

29/11/2018