Capítulo 2 - 15 anos

Uma semana antes da minha festa de 15 anos, papai tinha contratado uma renomada equipe de eventos. Por não ter um namorado, nem gostar de ninguém, a escolha do acompanhante da terceira valsa levou-me a optar por Mike.

Cada ano que passou, fiquei mais próxima a ele. Eu gostava de estar com ele, de rir com ele, de tocar com ele. Estar perto dele era fácil. E sempre soube que ele era possessivo comigo. Às vezes, até Emmett pensava que tínhamos alguma coisa por estarmos sempre juntos, por ficarmos horas vendo clips, criticando músicas, e por sermos tão carinhosos um com o outro. Era meio errado nutrir o sentimento de Mike por mim, mas além dele ser boa companhia, assim eu escapava dos flertes.

No dia da festa, enfrentei spar desde as oito da manhã. Até hoje, tudo que precisava fazer, tentava me virar em casa, até pintar o cabelo de castanho, já que o louro da família me deixava muito aguada. Todavia, por ser festa, precisava de trabalho profissional. Para o meu alívio, depois de prender o cabelo, fazer depilação, unhas e limpeza de pele, fui liberada, sob a condição de que voltasse mais tarde.

Ao chegar em casa, notei surpreendida que os meninos tocavam no estúdio e me dirigi até lá. Como papai contratou uma banda famosa para tocar à noite, não iríamos tocar.

—Surpresa! — Pulei em cima do pescoço do Mike, que estava em frente a um microfone.

—Bells! — Virou-se espantado. —Você não devia estar se arrumando?

—Consegui fugir. — Sorri arteira. —Vim tocar com vocês, será que eu posso? — Brinquei manhosa. —Que música era essa que vocês estavam tocando? E quem era que estava cantando se a Alice não está aqui?

—Era eu. — Emmett respondeu repentinamente. Estava tudo estranho, Mike em frente ao microfone, quando deveria estar na bateria, e Emmett tocando teclado, quando era um fominha por guitarra.

—Nossa, estava tão diferente. — Franzi o cenho, desconfiada.

—Por causa da equalização. — Mike se intrometeu com nervosismo.

—Qual era a música? — Sentei em cima de um cubo.

—Uma composição minha. — Emmett disse. —Estou trabalhando nela ainda. Quando ficar pronta eu mostro. — Falou ainda fazendo alguns acordes no teclado.

—Credo, por que o Mike pode ouvir, e eu não? Sou sua irmã há mais tempo que ele! — Chantageei e abracei o pescoço de Emmett.

—Desencana, Bella, quando chegar a hora você ouve. — Respondeu, olhando de canto para Mike.

—Tudo bem. — Concordei fingindo chateação e cruzei os braços.

—Bella, eu queria muito falar com você. — Mike falou, parecia tenso.

—Pode falar.

—Tchau, crianças— Emmett saiu sorrindo, nos deixando a sós.

—Eu queria te pedir uma coisa. — Mike sentou-se em minha frente e pegou minha mão.

—Para de drama, Mike! Peça logo. — Sorri, soltei-me e sentei em frente ao teclado, fazendo umas notas. Ele ficou ao meu lado, hesitante.

—Bella, nos conhecemos desde que tínhamos doze anos de idade. Eu aprendi a tocar bateria para ficar mais perto de você. Sempre fomos amigos, nós três...

—Elabore, Mike! — Sorri impaciente e comecei a tocar a música que estava na partitura no teclado.

—Bella, você gosta de alguém. Er, tem vontade de ficar com alguém?

—Você sabe que não. — Rolei os olhos. —Senão, não precisava mentir por aí que você é meu namorado.

—Já que você não gosta de ninguém, nem está interessada em ninguém, me deixa ser seu namorado de verdade, pelo menos hoje à noite.

—Por quê? — Parei de tocar e olhei para ele, desentendida.

—Porque eu quero. Eu adoro você. Você é tudo que eu tenho. Vocês são os irmãos que eu não tive. E como você não quer namorar ninguém, fica comigo. — Suplicou desajeitado.

—Mas eu sempre fico com você. — Contestei confusa. Tinha algo estranho no ar.

—Não do jeito que eu quero... Não custa nada. — Ele implorou, e por um segundo tive pena dele.

—Tudo bem. — Aceitei sem realmente entender e dei um murrinho em seu braço. Ele sorriu enigmático, pôs o braço sobre meus ombros e saímos do estúdio, depois nos despedimos, e eu fui para meu quarto descansar.

Deitada em minha cama, olhei para o teto e involuntariamente tive a recordação de Edward. Já fazia um bom tempo que não pensava nele, naqueles olhos tristes e distantes. Se eu soubesse onde ele morava, teria mandado convite.

Às 21h00, estava junto ao meu pai para receber os convidados, usando os cabelos soltos em cachos, uma saia levemente rodada, corpete tomara-que-caia cheio de pedras, e uma tiara de pratas com diamantes, estilo princesinha. Inicialmente, só tinha chegado o pessoal do cerimonial e uma moça com dois adolescentes, conhecida do papai, a qual ele me apresentou. Era uma ruiva muito bonita, na faixa de trinta anos, talvez. E já tinha filhos adolescentes. Esme o nome dela. E seus dois filhos chamavam Rosalie e Jasper. Dois adolescentes louros e bonitos, a menina na faixa de uns quinze anos, e ele uns treze. O garoto tinha olhos bem familiares, castanhos cor-de-mel. Devia tê-lo visto em algum lugar, pensei intrigada. Parecia familiar.

Depois de cumprimentá-los, saí para a área externa e aproveitei para ficar um pouco sozinha, enquanto o restante dos convidados não chegavam. Nunca fui muito ligada à ostentação, mas meu pai fazia questão de festas pomposas, que saíssem em revistas e tudo mais. A piscina tinha luzes neon no fundo, com a cascata ligada, e banquinhos em volta. A área externa estava ornamentada com flores naturais e luzes coloridas.

Eu andava e suspirava, um pouco nervosa, um pouco ansiosa. Observava o movimento de manobristas, seguranças, e sentia um inexplicável incômodo na boca do estômago. Foi quando já ia voltar para o salão que, inesperadamente, vi um vulto perto de uma árvore e algo em sua postura me chamou a atenção. Reconheci imediatamente.

—Edward! É você? — Juntei as sobrancelhas e me aproximei dele, devagar.

—Oi, Bella. — Cumprimentou friamente.

—Com quem você veio? — Dei um sorriso, animada. —Você faz parte do cerimonial?

Ele balançou a cabeça em negativa. Parecia frustrado por ter me encontrado. —Minha mãe foi obrigada a vir, esqueceu? — Explicou sem humor. — Ela é funcionária, e então, teve que vir. — Apontou aborrecido para o salão.

—Por que você veio? — Inquiri chateada pelo seu tom seco. —Você não era obrigado a vir, se não queria. — Tentei manter o orgulho na voz.

—Por que ela está com um problema no braço e não pôde dirigir. — Explicou amargo.

—Rá, com certeza você tinha um programa muito melhor em casa— Ironizei, para esconder minha decepção.

—Obviamente, sim. Algo mais interessante que ficar vendo os ricos esbanjarem poder, jogando dinheiro fora. — Apontou para mim com desdém. —Poderia, por exemplo, estar lendo e estudando para ter um futuro onde minha família não precise ser obrigada a ir à festa de riquinhos para agradar os patrões.

Com o embate de suas palavras, instantaneamente, abaixei a cabeça, com a garganta cortada, completamente ofendida com o tom de acusação e desprezo em sua voz. Depois olhei firmemente em seus olhos e sussurrei entre dentes. —Você não conhece a gente para falar assim de nós. Meu pai não é um rico esbanjador, e nós somos uma família. Toda família faz festa de suas filhas. — Argumentei na defensiva. Ele poderia até ser grosso comigo, mas eu não agüentaria ninguém falar do meu pai. Ele é tudo na nossa casa, mesmo tendo pouco tempo. Nos criou com dignidade, com amor e nos ensinou a amarmos uns aos outros. —Você não devia falar de quem você não conhece! — Virei e ameacei sair.

—Eu conheço pessoas como vocês. — Escarneceu.

Eu congelei um tempo, pensando numa resposta mordaz. No mesmo instante, desisti de argumentar e , antes que percebesse, estava correndo rumo ao banheiro. De frente ao espelho, respirei fundo várias vezes, dominando minha frustração, tentando me convencer que sua opinião não significava nada. Cinco minutos depois, voltei para o salão e agi como se nada tivesse acontecido, ainda que me magoasse sua amargura e implicância.

Com uma capa de serenidade no rosto, recebi e cumprimentei as pessoas que eu não conhecia. Já os conhecidos, abraçava entusiasmada, principalmente os amigos da Califórnia. As 22h30, eu já tinha recebido todos os convidados, a banda tocava uma música ambiente, e enquanto isso os convidados conversavam.

Com o passar do tempo, eu já tinha esquecido totalmente o ocorrido de mais cedo. Sempre fui boa com isso, superar contratempos. Então comia e conversava animadamente, não importando se Edward estava ou não lá. Entretanto, depois de um tempo borboleteando, o percebi inexplicavelmente me observando da porta. Obstinada, fingi não ver e continuei o que fazia. Porém, em pouco tempo já estava nervosa por me sentir observada, tendo que me controlar e não ir confrontá-lo para saber qual era a dele.

Tentando ser indiferente, fui falar com uns amigos que estavam perto da porta e, disfarçadamente, olhei-o de canto, para conferir se ele ainda me olhava. Sim. Olhava. Cada passo que eu dava, ele acompanhava com os braços cruzados no peito. Aff, situação chata!

Não consegui esconder meu constrangimento e quase tropecei em meus próprios pés ao tentar fingir controle. Depois, distraída, olhei novamente para ele, e surpreendentemente ele fez um gesto com o dedo me chamando. Não estava mais tão sério, percebi. Até sorriu, quando eu perguntei surpresa se era eu mesma.

Não devia, mas sacrificando o amor próprio fui mesmo assim.

—Que foi? — Perguntei com altivez na voz.

—Não te dei seus parabéns. — Disse com a voz macia. Por um segundo fiquei abalada, decifrando desacreditada o que ele tinha dito. Depois cheguei a uma conclusão: Ele era louco, só tinha essa explicação.

—Não precisa. Você não queria vir! — Retruquei com um sorriso afetado.

—Vamos lá fora para eu falar com você. — Ele sorriu torto, parecendo um menininho querendo mostrar algo.

—Não! — Ofeguei, balançando a cabeça. —É minha festa. Tenho que ficar aqui. Além disso, não vou permitir você me deixar para baixo outra vez!

—Deixe-me consertar isso. — Pediu persuasivo. —Me dá uma chance. — Sussurrou, e agora eu estava realmente chocada com o seu comportamento dúbio. Eu questionava seriamente sua capacidade mental. Ou ele tinha problemas ou só queria me tirar do sério.

—Cinco minutos. — Impus e saí com ele do salão, atrás dele, me autocensurando pela falta de orgulho.

Depois de alguns passos, paramos no canto fora do salão.

—Desculpe-me, Bella. Você não merece tudo que eu te falei. — Disse em um sussurro. Ele era bipolar. Só tinha essa explicação. Devia sofrer de DPM: Distúrbio de personalidade múltipla. Não tinha como uma pessoa há pouco mais de uma hora ter me tratado de um jeito hostil, depois, sem mais e nem menos pedir desculpa.

—Você não precisava ouvir aquilo. — Continuou. —Eu não queria estragar a sua festa. — Parou um pouco e passou a mão no cabelo. —Só estou um pouco ansioso. Estou estudando muito para conseguir umas coisas e isso me deixa tenso. Fico sempre com uma sensação de perda de tempo. — Suspirou. —Mas já que vim, não quero que você fique triste comigo. — Hesitou, embaraçado. —Er, semana passada, minha mãe falou do seu aniversário e pediu que eu fosse a Port Angeles comprar um presente. Então, quando você receber o presente da nossa família, família Hale, saiba que fui eu quem escolheu, personalidado. — Sorriu bajulador.

—Tá bom. — Respondi desconfiada, esperando o momento em que ele mudaria o humor de novo e falaria algo rude.

—Não achei que seria obrigado a vir. — Continuou. —Então quando ela disse que eu tinha que vir, fiquei realmente irritado. — Defendeu-se, olhou nos meus olhos, com um sorriso quente irresistível, e passou a mão no cabelo, que não era mais lisinho, era cortado arrepiado. —Mas agora que estou aqui, vi que foi bom ter vindo. Foi muito bom vir te desejar feliz aniversário. Você está linda. — Adicionou persuasivo, inclinou-se e pegou naturalmente em uma mecha do meu cabelo. No mesmo instante senti o sangue se acumular em minha bochecha. Nas nossas últimas conversas ele foi tão indócil que um ato gentil era, no mínimo, agradável.

—Obrigada por ter vindo. — Agradeci sincera e finalmente sorri, sem rancor.

—Então estou desculpado? — Persistiu com um risinho matreiro.

Por segundos, me distraí com seu sorriso, admirando-o. Ele não tinha mais a aparência infantil. Seu rosto ficou mais másculo, o olhar sagaz e sedutor. Instantaneamente, lembrei da sensação de eletricidade percorrendo meus dedos ao tocar sua pele dois anos atrás e suspirei.

—Tudo bem. — Assenti, percebendo sua sinceridade, e adicionei brincalhona. —Eu não vou ficar com raiva do meu namorado no dia do meu aniversário. — Disse com um risinho coquete.

—Então deixa eu te dar o seu abraço de feliz aniversário. — Ofereceu espontâneo. Eu oscilei, mas dei um passo à frente. Ele abriu os braços e passou em volta dos meus ombros, num gesto amigo. —Vamos esquecer as diferenças. — Pediu, com o rosto em meu ombro.

Envolvi os braços em sua cintura e notei que ele não era mais o menino magro que conheci, tinha ganhado corpo, seu peito ficou forte. E o perfume era, hmmm, bom. O mesmo daquele dia, suave, limpo, infantil. A fragrância era lavanda, verde, florais.

Sem que eu percebesse, meu nariz descansou em seu pescoço, e, atraída, movi-o até sua mandíbula. Parecia tão certo estar em seus braços. Meu coração palpitava. Sentia-me flutuando. Hesitante, levantei a mão e acariciei seu rosto, tempo em que ele movia os dedos tranqüilamente nos cachos dos meus cabelos.

Depois de um instante, ele me afastou com o semblante sereno e apertou suavemente minha bochecha.

—Acho que se passaram mais de cinco minutos, Bella. — Lembrou com um sorriso caloroso. —Você não pode ficar fora da sua festa tanto tempo assim. — Segurou meu ombro e me fitou detidamente.

—Er, é verdade. — Balbuciei, fora de órbita. —Tenho que ir. A gente se vê depois. — Dei dois passos atrás, andando de costas. —Não vá embora. — Exigi. Ele concordou e continuou onde estava, sorrindo o sorriso mais lindo que eu já vi em minha vida.

Narrado por Edward

Deixei-a ir e sentei em um banco em frente à cascata, pensativo. Ainda que eu soubesse que não poderíamos ser amigos, eu cansei de tentar ficar longe. Por dois anos evitei encontrá-la, deixando de ir às confraternizações de trabalho da minha mãe. Porém, não vê-la nunca amenizou o que eu sentia. Desde o dia em que a conheci, não consegui mais parar de lembrar-me do seu sorriso. Na menor distração, eu lembrava, com fascínio, do seu jeito descontraído e do modo como ela agia genuinamente simples mesmo sendo a filha do Sr. Cullen.

É utopia qualquer pensamento envolvendo-a em minha vida, sei disso, ainda que só amizade. Sinceramente, queria repeli-la, para o meu bem, por isso tratei-a daquele modo mais cedo. Entretanto, após destilar nela a minha fúria contra o seu pai, senti-me mal. Vê-la indiferente, aumentou minha frustração. Em vista disso, tomei a decisão de, ao menos, amenizar a situação. Esse foi o motivo de procurá-la.

Narrado por Bella

Sorrindo boba, voltei para o salão, sentei em uma mesa com uns amigos, depois fui falar com Emmett que me encarava com cara de poucos amigos, próximo a mesa de guloseimas.

—Quem era aquele cara que você estava conversando lá fora, Bella? — Inquiriu com as sobrancelhas arqueadas.

—Um amigo. — Dei de ombros e coloquei um bombom de nozes na boca, despreocupada.

—Ele é filho de funcionária. — Disse como se fosse repulsivo.

—E...? — Incitei.

—É pra você ficar longe.

—Ele é só meu amigo. Estava me dando os parabéns. — Disse naturalmente. —Quem é a mãe dele?

—Acho que ela é uma funcionária de Forks. — Explicou —Parece que meu pai e ela são amigos de muitos anos, e seu amigo está lá sentado na mesa dela agora. Só pode ser filho. — Apontou com descaso para uma mesa dos fundos. Eu acompanhei seu olhar e vi Edward sentado com a mulher e com os adolescentes que meu pai me apresentou no início da noite. —Vou te falar uma coisa: não dá idéia para esses caipiras. Além disso, não brinca com a cara do Mike. Entendeu?

—Ai, ai, Emmett! Não tenho nada com o Mike. — Me defendi, entediada.

—Não é o que ele acha.

—Quer saber? Não vou falar nada. Tenho que subir e me arrumar. — Dei as costas impaciente. —Faz favor, avisa para o papai que dentro de vinte minutos o cerimonial pode anunciar que eu vou entrar.

—Tudo bem.

Falei com mais alguns convidados e subi. No meio do corredor, dei de cara com a minha irmã Jéssica aos amassos com um dos cadetes bombados, desviei os olhos e segui para o mezanino.

Às 23h15 a cabeleleira do cerimonial tinha retocado a maquiagem e deu os últimos ajustes no meu cabelo. Troquei a roupa por um vestido de princesa lilás, com um tecido transparente na barriga, coloquei um colar e um bracelete que combinavam com a tiara, olhei no espelho e me senti linda.

Fiquei em um local escuro, dentro de uma espécie de gaiola de acrílico e alumínio, esperando a hora de descer. De lá, dava para assistir tudo que acontecia embaixo. Primeiramente minhas irmãs entraram com o meu irmão, fizeram a coreografia, e foram seguidos pelas damas e cadetes.

A próxima seria eu. Suspirei, ajustei o sorriso, a música trocou, e eu desci lentamente, com focos de luz em cima de mim e as pessoas batendo palmas. Olhei para Edward, seus olhos aumentaram um pouco, e ele sorriu. De novo, me senti linda.

Depois da entrada do papai com o anel, o cerimonial avisou que tinha uma surpresa para mim, e outra música começou, instante em que minha mãe apareceu. Eu fiquei surpresa, pois ela disse que não viria. Então passaram um clip com fotos de fases minhas, após isso, seria o meu momento de fazer a homenagem surpresa ao meu pai. Tive um impasse. Não tinha preparado nada para dizer a minha mãe. Por isso, precisava pensar rápido e levantar uma solução.

—Boa noite. Agradeço a cada um dos convidados. Aos convidados do papai, aos amigos da nossa família, aos meus professores. — Sorri, encontrando nesse instante o olhar de Edward. —Essa festa não seria nada sem vocês. — Adicionei fervorosa e fui aplaudida.

—Agradeço a você, mãe, a vocês meus irmãos, por existirem em minha vida. Sem vocês eu não seria quem eu sou. Não seria feliz como sou. Quando falo irmãos, incluio você. — Olhei para Mike e sorri.

—E enfim, quero agradecer a você, papai: Carlisle Cullen. Você é meu exemplo de vida. Quando crescer, quero ser igual você. — Sorri e pisquei brincalhona. —Justo, honesto, trabalhador. Você não é apenas um pai. Você é tudo para mim e para os meus irmãos. É um exemplo de complacência. Eu te amo muito. — Disse com emoção, novamente fui aplaudida. —Bom, hoje é minha festa de 15 anos e eu escolhi homenagear você. — Expliquei carinhosa, e a banda começou a tocar a introdução. —Essa música é uma composição de seus filhos: Alice, Jéssica, Emmett e eu.

Ele sorriu, orgulhoso. O baterista fez virada, e eu comecei.

Você mudou a sua vida. Você viveu pra nos fazer feliz, você me ensinou que o amor, é maior, do que pude imaginar. A minha vida você fez brilhar, como essa luz que vem dos seus olhos, por isso eu amo ouvir a tua voz, que saber, eu amo você...

Após a minha canção, o clima de emoção pairou no ar. Abracei meu pai, o cerimonial assumiu e nos convidou para iniciar a valsa. Dancei com ele, sendo conduzida seguramente. Olhei para os fundos, e Edward permanecia lá, avaliativo. Suspirei e percebi que eu gostaria muito de dançar com ele.

Dancei com Emmett, que me rodopiou sorrindo. E então, sorridente, comecei a última dança, com Mike. Logo que terminássemos, todos poderiam invadir a pista, enquanto isso eu iria subir para me trocar pelo vestido de baladinha.

—Está gostando? — Mike perguntou enquanto alisava minhas costas, de um jeito carinhoso.

—Sim. Estou feliz. — Sorri realizada.

—Está lembrando que somos namorados? — Perguntou e pegou uma mecha do meu cabelo.

—Não sei por que você insiste. Somos mais que amigos, Mike.

—É minha vontade, não custa nada. — Insistiu.

—Tudo bem. — Dei de ombros.

—Posso beijar minha namorada? — Perguntou, inclinou e segurou meu queixo.

—Não! — Balancei a cabeça e olhei para todos os lados, com medo de alguém, qualquer pessoa, ter visto. — Nem pensar. — Bati irritada em seu ombro.

Ele sorriu divertido. —Tá, você ainda me beija.

Rolei os olhos e olhei de novo para o salão. Edward não estava mais em sua mesa, embora sua mãe estivesse. Continuei procurando-o, e, de repente, há algumas mesas de distância, avistei-o. Ele sorriu torto e fez sinal perguntando se eu dançava com ele. Sem pensar, acenei que sim.

Terminei de dançar com Mike, Edward aproximou, apoiou a mão em minhas costas e iniciou a valsa.

—Você era tão tímido há dois anos. Nunca imaginei que gostasse de dançar. — Comentei admirada com a sua desenvoltura na pista.

—Minha mãe nos obrigou a aprender. Quando ela está de folga, põe música e dança conosco.

—Hmmm, legal. — Murmurei e inspirei novamente seu perfume. —Eu tenho que subir. — Avisei chateada. — Tenho que trocar de roupa.

—Vai mudar de roupa de novo? —Afastou-me e me avaliou. —Está tão bonita.

—Não dá para dançar até de manhã com essa roupa e esse salto fino. — Resmunguei, já sentindo uma dorzinha no pé. Não podia ficar. A balada já ia começar, exatamente a meia noite. E eu não tinha mais do que dez minutos para me arrumar. — Tenho que ir mesmo. — Lamentei.

—Quando você voltar, não vou estar mais aqui. — Avisou. — Então parabéns de novo e até uma próxima. — Tocou suavemente meu rosto.

Ah, não. Não queria que ele fosse embora. Podia ser que eu nunca mais o visse, afinal ele já tinha dezessete e no máximo em um ano, ele já iria para a Universidade.

—Não vai ainda, não. — Pedi manhosa. —Me espere. — Adicionei. —Se me esperar, eu fico aqui na festa só um pouquinho e depois a gente foge lá para fora. — Propus com um sorriso arteiro.

Ele pareceu surpreso com o pedido, depois sorriu, parecendo indeciso. Eu aproveitei isso.

—Se você não lembra, hoje é meu aniversário e você me prometeu algo há dois anos. — Sugeri com uma piscada, perplexa com minha coragem.

—O que? — Riu curioso. — Não me lembro.

—Espere, que eu te falo. — Soltei-o na pista, sem lhe dar chance de pressionar, e subi as escadas correndo.

Arrumei-me rápido, vesti um vestido de couro preto, colado e tomara-que-caia, uma bota confortável cano longo, soltei o cabelo e escureci a maquiagem. Desci apressada e a banda ajustava os instrumentos. O gelo seco já subia, o jogo de luz foi ligado e a banda iniciou com anos 60. Não seria um bailinho se não tivesse túnel do tempo.

Olhei em todos os lados procurando Edward e encontrei-o encostado em uma pilastra no meio do salão, olhando-me. Fiz sinal com a palma da mão para ele esperar, e ele sorriu. Então, sim! Ele ia me esperar!

Juntei-me a pista já pulando e agitando os braços, peguei os óculos, bracelete e fru fru que foram distribuídos, e fui dançar perto de Alice e Jéssica. De vez em quando eu olhava para o lado, e ele continuava lá, de braços cruzados. Dancei várias músicas, aplaudi a banda, mas estava ansiosa. Eu tinha que conseguir fugir das meninas e ir para perto dele. Logo, na primeira oportunidade que tive, falei que ia ao banheiro, disfarcei e desviei o caminho. Aproveitei que estava escuro, puxei-o pelo braço e andamos apressados rumo ao jardim lateral. Chegamos lá ofegantes. Parecíamos crianças que se escondem de alguém.

—Então, o que eu te prometi dois anos atrás? — Ele quis saber, logo que paramos.

Ai meu Deus! Tinha que ser eu a tomar atitude?

Tentando ganhar tempo e coragem, pus a mão no meu peito e esperei a respiração normalizar. Eu já tinha decidido o que queria.

—Bella, O que eu prometi há dois anos? — Repetiu com o olhar aguçado, realmente curioso. Será que ele não sabia mesmo!?

—Que quando eu completasse 15 anos me daria meu primeiro beijo. — Falei em um fôlego só, enquanto a coragem não me abandonava.

Ele ficou parado, com o ar preso. Parecia congelado. Nossa, quê que tinha? Só um beijo! Com certeza ele já tinha beijado outras nos últimos dois anos.

Estranhamente hesitante, ele deu um passo atrás. —Olha, Bella, eu não vou te beijar. — Foi o que ele respondeu.

Como assim? Como um garoto passa quase a festa toda me encarando, flertou comigo e agora se esquiva de um beijo!?

—Por quê? — Perguntei ofendida pela rejeição. Será que ele tinha uma namorada?

—Tem muitas respostas, mas a principal delas é por você ser filha do Sr. Cullen. — Explicou e tocou o meu rosto com carinho. Provavelmente percebendo a mágoa.

—Não consigo entender o seu ressentimento com o meu pai. — Resmunguei, olhando para o chão, frustrada.

—Não vamos falar sobre isso. Já vi que você o ama e não quero mais estragar o seu aniversário.

Eu respirei fundo, derrotada e, por um instante, me permiti sentir seus dedos deslizar em meu rosto. Eu não podia aceitar que terminasse assim. Ele também devia ter algum interesse, no mais, não teria ficado me cercando a noite toda. Seria só por arrependimento por ter me tratado mal no início da festa? Não creio.

—Você não me deu um presente de aniversário. Devia me dar. — Comentei com bico teimoso. —Quem me deu foi sua mãe.

—Mas fui eu quem escolheu. — Segurou meu queixo. Se ele não queria me beijar, por que olhava tanto para a minha boca?

—Mas não foi nada seu. — Acusei, com uma idéia pulsando em minha mente.

—Eu não trabalho, Bella. Não disponho recursos para comprar presentes. — Disse frustrado, tirando a seguir a mão do meu rosto.

—Eu não quero nada que lhe custe dinheiro. — Dei um passo à frente. Ele se afastou. Mesmo assim, encurralei-o, quando ele encostou-se a parede, e olhei-o com determinação. —Eu quero beijar você. — Sussurrei tentando soar sensual, mas, inexperiente, não sabia o que fazer a seguir.

Ele me olhou com semblante de indecisão, relutância, tortura e pavor. Tirei proveito da vulnerabilidade, aproximei-me a ponto de ficar centímetros dele, peguei no seu rosto e acariciei sua bochecha, o polegar deslizando no lábio inferior. Ele ficou quieto, olhando nesse tempo para o chão.

— Eu prometi te esperar para ser o primeiro. — Lembrei, fechei os olhos, levei a mão a sua nuca e encostei o nariz em sua bochecha, familiarizando-me com a sensação de dois anos, a eletricidade percorrendo minha pele. Ele soltou uma respiração profunda.

—Eu não estou fazendo nada. — Murmurou baixinho.

Rá! Que isso?! Seria timidez? Medo do meu pai?

—Eu estou... Ponha a culpa em mim. — Disse baixo, na altura do seu ouvido.

Ele estremeceu, passou a mão no cabelo e parou de olhos fechados, a respiração ofegante e quente em meu ombro.

Aparentemente, ele travava uma luta interna. Mas eu não iria lhe dar a chance de fugir. Rocei seu pescoço com o nariz, precisando de estímulo para prosseguir, sabendo que se me afastasse talvez minha determinação se esvaísse. Depois dei pequenos beijos abaixo da orelha, na bochecha. Minhas mãos estavam geladas e trêmulas de nervosismo, contudo prossegui determinada. Beijei a mandíbula, segui para o canto dos lábios. E ele não reagiu. Parecia permitir-se usar. Encostei finalmente minha boca na sua, dei uns selinhos, então lembrei em pânico que não sabia beijar. Nunca aprendi. Sequer treinei com a laranja!

Como por instinto, busquei calma e fui beijando de leve os seus lábios, convidando-o, instigando a responder, no tempo que acostumava com a textura, criando intimidade. Todavia ele não abriu a boca. Encostei mais ao seu corpo, ouvi uma longa arfada e senti que ele cedeu, colocando uma mão na minha cintura.

Eu não sabia mais o que fazer, mas lembrei vagamente dos beijos de novela. Abri a boca no seu lábio superior, passei a língua bem devagar, e teve efeito, pois senti sua respiração aumentar o ritmo. Continuei tentando, era bom, os lábios dele eram doce, a respiração gostosa. Aos poucos, fui me sentindo dona da situação e experimentei partir sua boca com minha língua. Em resposta, ele apertou a minha cintura, gemeu indefeso e abriu a boca devagar, como se estivesse se rendendo. A seguir, correspondeu delicadamente, sugando meu lábio inferior bem devagar.

Ainda era um beijo muito tímido, mesmo assim eu sentia calafrios percorrerem as minhas costas.

Após uns minutos, pressionou firme minha nuca, e foi aumentando a intensidade do beijo, sugando meu lábio mais confiante, mordiscando, soltando um sonsinho que parecia um ronronado.

Eu experimentei inserir mais um pouco a língua em sua boca, explorando internamente, ele recebeu, acariciou-a com a sua, e eu senti um tremor me invadir da cabeça aos pés, queimando na boca do estômago. Era como se um mini elevador subisse e descesse pelo meu corpo.

Ele desceu uma mão para base de minhas costas, apertou-me delicadamente contra o seu corpo, no qual senti a rígidez, e ofeguei ao notar pela primeira vez a óbvia excitação masculina, ficando fascinada com meu poder e com sua entrega. Daí em diante, não consegui controlar minhas reações, passei a mão por seu peito, afaguei-o e o ritmo das carícias só aumentou.

Eu queria mais.

Buscando ar, parei de beijar a sua boca e, sem pensar muito, desviei os lábios para o seu pescoço. Não era mais hesitantemente, parecia fora de mim, puro instinto. Mordisquei-o e não me dominava, só pensava em sentir seu gosto em minha língua, prender meus dentes em sua pele.

Após um tempo de exploração, ouvi um murmúrio bem baixo e sem firmeza.

—Para, Bella, por favor. — Parecia um aviso, ou uma súplica, mas não era exatamente isso que ele queria, pois desceu as mãos para meu quadril, comprimiu a carne possessivamente, conduziu os lábios a minha orelha e deslizou a língua atrás. Meu corpo desfaleceu e tremeu com a exploração e, a cada choque que me percorria, eu arqueava contra ele. Deus, o que era isso? Mordi os lábios sufocando os sons de gemidos, deitei o pescoço, e seus beijos molhados desviaram para garganta, a seguir desceram ávidos e cálidos para o colo exposto, explorando-o.

Em completo deleite, abri dois botões de sua camisa, inclinei e devolvi os beijos da clavícola ao pescoço. Foram minutos e minutos sem fim de exploração, mordidelas provocativas e silvos. Era excitante e a cada segundo eu me sentia ferver.

Travando uma luta por controle, ele me afastou, olhou-me com olhos quentes e atacou, faminto, a minha boca, agora num ritmo bem diferente, lambendo meus lábios e mordiscando, tenso, ansioso. Enquanto isso nossas mãos vagavam um pelo outro. Eu não sabia como o acompanhar, mas espelhei-o e, nossa, era extasiante! Uma exigência natural e instintiva do corpo. De repente, meu corpo parecia gelatina quente. Tudo era correntes e sensações húmidas, e eu queria saber até onde ia essa ansiedade prazerosa.

O beijo cresceu sensual, em imposição de domínio, e sua mão moveu ansiosa no meu quadril, me erguendo e friccionando a ele num ritmo sinuoso. Nós nos completávamos, tudo estava sintonizado, sua boca era gostosa, sua língua provocante, eu mordiscava, sugava, ele buscava a minha língua, segurava a ponta com os dentes. Ofegávamos por ar, mas não nos soltávamos, como se não pudéssemos perder um segundo.

Após um tempo bem longo, ele estremeceu estranhamente, ouvi um som abafado em sua garganta, ele chupou meu lábio inferior, mordeu langorosamente e prendeu, suspirando e mordiscando, ainda tremendo. Aos poucos, foi se acalmando, respirando mais lentamente, separou da minha boca e me abraçou com a cabeça em seu peito. Seu coração batia descompassadamente.

Ficamos calados por alguns minutos. Minha coragem tinha esvaído.

—Que primeiro beijo bom. — Sussurrei sorrindo em seu pescoço.

Ele ficou em completo silêncio, beijando meu cabelo. Quando já tinha esquecido o que tinha comentado, ele sussurrou rouco.

—Foi meu primeiro também.

—Não precisa mentir. — Censurei. Tinha sido um beijo muito bom para ser seu primeiro.

—É sério. Nunca ninguém teve coragem de me atacar assim. — Sorriu e me afastou para me ver. —E eu realmente não preciso mentir. — Puxou-me para outro beijo lento, de lábios, gentil, no qual me deleitei novamente, curtindo tudo, cada novidade da descoberta deliciosa de lhe beijar.

—BELLA! — Era Emmett gritando, e, sobressaltada, dei um pulo para me afastar dos beijos. —TÁ TODO MUNDO TE PROCURANDO LÁ DENTRO! — Apontou irado para o club. —O QUÊ VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI?

—Já estou indo. — Respondi desorientada, ajustando nesse tempo meu vestido que tinha subido. —Edward... — Olhei-o embaraçada, pensando em pedir que ele me esperasse para falarmos.

Emmett interrompeu.

—BELLA, VEM LOGO! — Gritou de novo. Argh, que Emmett mais mal educado!

—Então vem comigo, Emm. — Pedi, temendo o olhar que ele lançava a Edward.

—Tá! — Respondeu com um rosnado e me puxou, encarando Edward. —FIQUE LONGE DELA! — Apontou o indicador para Edward e saiu me arrastando enquanto eu olhava para trás.

—EDWARD — Gritei. — ME ESPERE! — Pedi quando chegava à porta de entrada.

Ele moveu a cabeça brevemente, assentindo, sério, depois seguiu rumo aos banheiros externos.

Ao entrar atordoada no salão, notei que todos tinham parado de dançar. Pareciam me esperar. Eu não entendi o que acontecia, mas vi que Emmett se posicionou em frente ao teclado da banda e começou a introduzir uma música. De repente, ouvi uma voz:

—Bella, eu fiz essa música para você. É de coração. Uma homenagem do seu namorado.

Desacreditada, cerrei os olhos em direção a Mike em cima do palco e balancei a cabeça com censura. Por isso aquela conversa de 'sou seu namorado'.

—Sorri, Bella, disfarça. — Alice cochichou em meu ouvido.

Preocupada com o que Edward entenderia, olhei para trás e o vi entrar e encostar à porta. Eu não sabia como olhar para ele, como explicar aquilo. Ele parecia surpreso. Até eu estava.

A música se iniciou:

...Eu posso te dar tudo... Nenhum outro poderia te dar mais amor ... eu posso lutar por você, eu morreria por você, sabe que é verdade...

Enquanto cantava, ele sorriu para mim e me chamou para o palco com o dedo.

—Vai, Bella, não seja difícil. Coitado! — Alice disse me empurrando. Às vezes tinha vontade de matar a minha irmã.

Sem opção de negar, eu fui. Quando Mike terminou de cantar, as pessoas gritaram: Beija, beija!

—E aí, Bella, posso beijar você agora? — Perguntou pretensioso e segurou meu queixo.

Ah, você me paga Mike! Armou para mim. Pensei enfurecida.

—Você sabe que não somos namorados. — Falei entre dentes, forçando um sorriso para disfarçar minha insatisfação.

—Você disse uma hora atrás que tudo bem. Então continue fingindo. — Ele disse com olhar satisfeito.

Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo.

—Relaxa, Bella. — Levantou meu rosto e encostou os lábios nos meus. Bem rápido, mas tempo suficiente para eu me remeter com pesar a minutos atrás.

Todos aplaudiram após o beijo. Foi horrível! Até meu pai sorria, Alice pulava e assoviava. No mesmo instante, olhei para a porta e Edward não estava mais lá. Imediatamente, pedi para o pessoal da banda voltar a tocar e desci correndo para procurar-lo.

Emmett veio atrás de mim, me chamando, e eu não dei ouvidos.

Procurei em todos os lugares possíveis, jardim, fundos, lateral, e ele não estava. Por fim, fui ao estacionamento. Ele estava perto de um carro com sua família e já ia entrar.

Ansiosa, corri para chegar antes que ele saísse.

—Edward, não vá! — Pedi, quando rompi a distância.

—Não temos mais o que fazer aqui. — Respondeu inexpressivo, sem olhar para mim.

—Por favor, não vá. Eu ainda quero falar com você. — Insisti. Eu precisava me explicar.

Ele passou as mãos nos cabelos ansioso e olhou-me com os olhos frios. —Bella, não...

Decidida a não deixá-lo sair sem falar comigo, parei na porta, impedindo-o de fechar, e não importei com o fato de estar dando show.

—Fala com ela, Edward. Não seja mal educado. — A mãe dele pediu.

Ele levantou impaciente, fazendo-me dar um passo atrás, bateu a porta atrás de si, depois saiu andando pelo estacionamento.

—Me responde, pelo amor de Deus, Bella, qual é a sua? — Perguntou irritado, ainda sendo seguido por mim. —O que você quer de mim? — Parou e me encarou.

—Me dá seu telefone, fala onde você mora. — Pedi estalando os dedos, tentando controlar a ansiedade.

—Pra quê? — Pôs a mão na cintura, cético. —Não vê que somos de mundos diferentes, temos vidas diferentes. Por favor, me deixe em paz! A gente foi um erro. Esquece que essa noite existiu. — Falou e deu as costas, mexendo nervosamente no cabelo.

—Não! — Teimei. —Eu não quero esquecer! Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha noite. — Tentei convencê-lo, segurando em um braço seu.

—Mais uma mentira, Bella? — Perguntou sarcasticamente, olhando com repulsa para minha mão no seu braço —O seu namorado está lá dentro te esperando. Você devia ter mais consideração por ele depois daquele showzão lá dentro! — Zombou e se afastou para que eu o soltasse.

—Ele não é meu namorado! — Grunhi.

—Vocês se merecem! Ele é um idiota e você uma mentirosa que brinca com a cara das pessoas. — Murmurou com um ódio inexplicável. —Mas é bom que você saiba: eu não sou um de seus brinquedinhos. — Aumentou o tom.

—Eu não penso que é. — Suspirei derrotada. —Também não menti para você.

—Não!? — Arqueou a sobrancelha. —Duas vezes só hoje. — Murmurou e deu as costas. —Mas eu não acreditei em nenhuma delas. Eu não sou tão fácil assim de ser iludido. — Argumentou com amargura, depois olhou de volta para mim, com acusação no olhar. —Tudo na sua vida deve ser uma mentira, não é?!

—Quer saber, você acredita se quiser. Eu não estou mentindo, mas você é muito dono da razão. Então que se dane! — Bati uma mão na outra e fiz menção de sair. Emmett, que estava me observando desde que saí do salão, se aproximou e se pôs em minha frente protetoramente, lançando olhar de ameaça para Edward.

—Eu não falei para ficar longe da minha irmã?!

—É ela quem não sai de perto de mim! — Edward respondeu na mesma altura, devolvendo o olhar ameaçador.

Confuso, Emmett me olhou com indagação. Eu afirmei sua pergunta muda, abaixando os olhos. Ele suspirou. —De qualquer maneira, seu caipira, se eu ver você a menos de cem metros da minha irmã, você vai sentir as conseqüências!

—Para, Emmett! Não ameace ele! — Abracei Emmett, empurrando-o com meu corpo. Não queria que as coisas ficassem piores.

—Pode deixar, eu nunca, se depender exclusivamente de mim, vou chegar perto dela. E não é por medo de você, é porque a presença de vocês me faz mal! — Edward falou em um tom de repulsa, depois foi embora.

Emmett percebeu que eu estava arrasada e me abraçou mais calmo.

—Eu não estou acreditando nisso, Bella? Você gosta desse caipira esquisito?

—Não, não é isso. É a situação que é muito chata. — Respondi nervosa.

Emmett beijou a minha testa e seguimos rumo ao salão.

—Bella, eu não sei do que se trata, nem quero saber. Só sei de uma coisa, é sua festa e você tem um papel a cumprir: se divertir. Então lave o rosto e volte para a festa que a gente vai dançar até amanhecer. — Propôs animado, deixou-me na porta do banheiro e voltou para o salão.

Quando voltei para a festa, tocava hits do Pit Bull e o pátio estava enlouquecido. Sem opções, resolvi curtir. A festa bombou até seis da manhã. Dançar sugou todas as minhas forças e mágoas. Momentaneamente esqueci os acontecimentos.

Acordei por volta de duas da tarde, zonza e cansada. Encontrei todos acordados e esparramados preguiçosamente nos sofás da sala, vendo tv. Meu pai estava uma poltrona na varanda, lendo o jornal.

—Bom dia— Dei um beijo nele e sentei em seu colo. —O que achou da festa, papi?

—Emocionante.

—Cadê a mamãe? Ela não quis ficar aqui em casa? — Fui até Alice e peguei o pote de biscoitos no seu colo.

—Não. — Meu pai respondeu. —Ela veio com um namorado e preferiu ficar no hotel. Ah, vocês vão sair com ela hoje à noite, ok? Ela vai embora amanhã.

—Tudo bem.

Sentei ao seu lado e iniciei um assunto que me deixou curiosa. —Pai, quem era aquela mulher que o senhor apresentou ontem no começo da festa? Eu sei que ela é sua funcionária, mas você a conhece de onde?

Emmett que assistia TV, olhou para mim com suspeita.

—Somos amigos de infância. É uma longa história. — Papai respondeu evasivamente.

—Eu quero ouvir. — Insisti, peguei um biscoito e comi.

—Vou resumir. Tive uma paquera com ela quando éramos adolescentes, depois brigamos e cada um de nós ficou com um amigo do grupo. Éramos muito crianças. Eu fiquei com sua mãe, e ela com o Phil. Meses depois ela e sua mãe engravidaram. Quase na mesma época, ainda no ginásio, com apenas dezesseis anos.

—Mas você gostou dela quando ficaram? — Quis saber, curiosa.

—Ah, Bella, era coisa de adolescente. — Mudou a página do jornal, fugindo do assunto.

—E depois? — Pedi ávida. — Conta detalhes. Como ela veio trabalhar na sua empresa? — Pus o pé sobre a mesinha de centro.

Emmett, que nos observava, parecia irritado com o meu interrogatório, levantou e foi para cozinha.

—Olha só, as duas eram da mesma sala, amigas e grávidas. Phil era pobre e não gostava de estudar, mesmo assim, Esme casou com ele. Logo que isso aconteceu, fui estudar na Califórnia. Sua mãe só foi quando a Jéssica estava com dois meses. Um ano depois que o filho de Esme nasceu, ela ganhou uma bolsa na Califórnia, e Renée propôs que ela ficasse na nossa casa, porque ela não tinha como pagar estadia. Assim, Esme morou conosco e vinha ver o filho mensalmente, que ficou com a avó. Ela era muito batalhadora. Trabalhava nas folgas em uma lanchonete para mandar o dinheiro para a família. Era muito difícil para ela. Phil não ajudava com dinheiro, vivia com mulheres e só queria saber de jogo e bebida. Então depois da segunda filha, ela se separou dele.

Eu o ouvia sem piscar, percebendo que a história deles era muito profunda.

Papai continuou: Sua mãe nessa época fazia artes/dança, e sempre viajava com a companhia da faculdade, mesmo já tendo vocês três quase bebês. Passou a não dar mais certo para nós, e ela quis ir embora. Eu pedi para o meu pai comprar um apartamento para ela, e Esme foi morar com ela até terminar a faculdade. Mesmo assim, eu não perdi o contato com Esme, porque ela fazia Jornalismo também, e eu estava cinco semestres a frente dela. Então ela sempre me pedia livros ou alguma ajuda com a matéria.

Notei por um pequeno instante um brilho pesaroso no seu olhar. Ou talvez fosse só impressão.

— Depois me formei e assumi as empresas do meu pai, perdendo assim o contato dela por anos. Só uns cinco anos atrás que ela me ligou pedindo emprego, aí eu a coloquei no escritório de Forks como assistente. Então a Sra. Susan se aposentou e, como Esme é muito competente, deixei o escritório de Forks e Port Ângeles nas mãos dela. Ela faz um excelente trabalho. Só é ruim porque ela não tem muito tempo. Assim como eu, ela tem que viajar muito. — Explicou, depois olhou estranhamente para o horizonte. —Sabe que só ontem descobri que ela teve mais um filho? — Comentou reflexivo. —Ela deve ter continuado se encontrando com Phil mesmo separados. — Completou pensativo.

—Assim como o senhor saia com minha mãe depois de separados? — Comentei maliciosamente, fazendo alusão ao nascimento de Alice dois anos depois de separados. Ele riu.

—Sim.

—Interessante essa história, pai. — Que mundo pequeno- pensei.

—Porque o interesse por Esme?

—Achei-a bonita. — Respondi sugestivamente e balancei as sobrancelhas, risonha.

—Ai, filha, esquece. — Balançou a cabeça em negativa, torcendo os lábios em uma careta. — Ela é funcionária. — Disse solene. Ele tinha uma política bizarra de não envolver-se com funcionários.

—Mas que preconceito é esse? Você já teve até um romance com ela!

—Não é preconceito. Existem coisas que não dá para misturar, são mundos diferentes, vidas diferentes. Somos adultos agora. Tudo mudou. Ela é... Funcionário é funcionário. — Levantou-se aparentemente nervoso. Eu estranhei isso.

Olhei para o Emmett, e ele estava sorrindo com a resposta, depois se aproximou sorrindo e disse conspirador: —Pai, depois vou contar um episódio para o senhor.

Olhei para ele ameaçadoramente, levantei e voltei para meu quarto. Lá, fiquei pensando na história que ouvi, pensei na noite anterior... Queria tanto que Edward não ficasse com aquela impressão.

Suspirando, passei horas pensando nos nossos beijos, nas sensações. Seria inesquecível.

Onze meses se passaram. Jéssica, com dezoito anos, se formava no Secundário e iria começar Biologia aqui, em Seattle. Emmett, com dezessete, também se formava, por ter pulado uma série, e em poucos meses iria para UCLA, na Califórnia. Alice, com treze anos, continuava o bebê da família, manhosa e queridinha do papai. Já eu, faltava um mês para completar dezesseis. E a ansiedade estava a mil para tirar a carta de condução. Mike continuava vindo todos os dias para me ver e ensaiarmos para tocar na formatura de Emmett, cada dia mais ousado comigo. Vivia dizendo que iríamos nos casar um dia e sempre tentava roubar beijos. Era errado aceitar. Mas se ele gostava de mim, não iria magoá-lo.

Às vezes, me surpreendia pensando em Edward. Já tinha passado algum tempo que o vi, e eu suspirava por ele como se fosse o dia anterior. Em qualquer minuto de distração, pensava no calor, perfume, na sensação eufórica de estar em seus braços. Talvez fosse só uma fixação adolescente. Todavia, doía saber que nunca mais o veria.

Em um sábado de manhã, fazíamos o lanche matinal, eu, Emmett e meu pai, e algo que meu pai disse chamou minha atenção.

—Emmett, preciso que você vá a Forks hoje. Dei folga para o motorista e não posso ir. — Pediu e levantou a xícara com café amargo aos lábios.

—Fazer? — Emmett perguntou com a boca cheia de pão.

—Buscar uma pessoa no escritório.

—Sem problema. — Respondeu, já acostumado a cumprir tarefas para meu pai.

—Até mais tarde, crianças. — Carlisle despediu-se com um beijo em cada um.

Eu continuei comendo, pensando nesse tempo em uma maneira de persuadir Emmett.

—Emmett, deixa eu ir com você? — Pedi fingindo desinteresse, enquanto passava nutella na torrada.

—Pra quê? — Questionou desconfiado.

—Passear. Estou à toa hoje. — Respondi com um dar de ombros.

—Nem se anime. Não tem a menor chance de você encontrar o caipira. — Censurou. Ele era esperto e já tinha percebido minha intenção.

—Por quê? Talvez eu pegue o endereço dele com a mãe dele. — Sugeri cinicamente.

—Eu não acredito que você vai procurar aquele cara depois do que eu vi no estacionamento. — Balançou a cabeça, cético. —Se valorize, Bella! Você não está com o Mike? — Acusou indignado.

—Putz, quantas vezes tenho que dizer que não estou com Mike! — Joguei a mão no ar, impaciente. —E eu não vou atrás dele, tá! Quero só sair com você, posso? — Dissimulei e lancei meu olhar pidão, tentando enganá-lo.

—Acho que eu te conheço muito bem para acreditar nisso. Como você tem mau gosto! — Cruzou os braços zangado, mas já estava cedendo.

—Emmett, dá um tempo! Me espere que eu vou me arrumar. — Sorri vitoriosa e subi.

A viagem durou duas horas, por causa da travessia de ferry boat. A cidade era tranquila e verde, com cara de interior. O escritório local das Organizações Cullen Comunicações, Notícias e Publicidade era localizado no único prédio moderno da cidade. Lá trabalhavam doze funcionários na redação do jornal local e programação local da rádio CWN. Entramos, cumprimentamos todos, e a mãe de Edward sorriu para mim de um jeito estranhamente íntimo. Enrubesci, lembrando da cena que ela viu no estacionamento.

—Oi, Esme. — Emmett estendeu a mão. —Meu pai me mandou buscar alguém.

—Espera um pouco que eu vou dar um telefonema.

Ela saiu da recepção, usou o celular, depois voltou e pediu para aguardarmos uns minutos. Sentamos e assistimos TV, enquanto esperávamos. Após um tempo, olhei distraída para o estacionamento e meu coração disparou ao ver um carro parado com duas pessoas dentro. Edward e seu irmão caçula. Ele entrou sorrindo na recepção, mas quando nos viu, fechou a cara e passou direto para falar com a mãe.

—Oi, mãe. — Cumprimentou-a com um beijo.

—Oi, Edward. Não vai falar com as visitas? — Apontou para nós.

—Bom dia. — Cumprimentou sem nos olhar, não esperou que respondêssemos e caminhou para a porta, aborrecido. Foi chata a situação. Não imaginei que isso aconteceria depois de quase um ano. —Jasper, pega logo as suas coisas do carro que eu estou com pressa. — Avisou ao irmão e saiu, sem se despedir.

Esme nos olhou sem jeito. E eu não podia deixar as coisas ficar assim. Não ia perder essa oportunidade, ainda que massacrasse meu orgulho. Emmett percebeu meu olhar de determinação e me lançou um olhar reprovador. Ignorei-o, levantei, abri a porta de vidro e fui atrás de Edward no estacionamento. Eu até que podia relevar, mas não sou de me acovardar. Não queria que quando nos encontrássemos, ainda que por um acaso, ele virasse o rosto e fingisse que não me conhecia. Precisava confrontá-lo.

—Edward, deixa eu falar com você. — Tentei alcançá-lo, andando rápido.

—O que você quer? Já estou mandando um mascote para vocês brincarem! — Falou entre dentes, e continuou andando.

Eu não entendi.

—Do que você está falando? — Parei e pensei um pouco, depois voltei a andar atrás dele. —Seu irmão vai para minha casa? Perguntei confusa.

—Eu não sei por que minha mãe se presta a isso. — Resmungou reflexivo, apontando revoltado para o escritório.

—Edward, abaixa a guarda. — Pedi. — Aja como uma pessoa normal um minuto.— Exigi já cansada de andar atrás dele. —Eu preciso falar com você. — Adicionei implorativa.

Ele parou e se virou. —Bella, eu não já pedi para você me esquecer? Por favor, me deixa em paz! Volta lá para o seu reino encantado, lá pro seu príncipe. Me erra! — Desdenhou grosseiramente.

Instantaneamente me irritei e alterei o tom. —Droga, me deixa falar!

—Eu não quero ouvir! — Rugiu na mesma altura.

—Mas eu quero falar! — Gritei e apontei o dedo em riste. — Não foi você que foi julgado e crucificado sem chance de defesa!

Ele abriu a boca para refutar, eu encarei-o, ele deu um bufo, encostou-se ao carro, insatisfeito, e olhou para o relógio.

—Você tem um minuto. — Disse hostil e ficou batendo o indicador no relógio de braço.

—Tá... — Tentei ficar calma. E agora? Qual era mesmo o meu brilhante argumento? —Er, era verdade, você foi meu primeiro beijo. — Balbuciei. Que patético começar por isso!

—Essa eu já sei, passa para a próxima mentira. — Disse friamente. —Aliás, não me interessa!— Fez um gesto de pouco caso batendo uma mão na outra. —Mas você ainda tem vinte e oito segundos. — Voltou a olhar no relógio, impaciente.

—Eu não namorava o Mike. — Tentei de novo.

—Essa também não me interessa. Mas... me responde. — Arqueou a sobrancelha, zombeteiro. —E agora, você já namora ele? — Inquiriu sarcástico.

—Ele acha que sim. — Respondi sinceramente.

Ele desencostou do carro e abriu a porta. —Quer saber, Bella, seu tempo acabou, e eu realmente não me importo. Você não precisa ficar tentando explicar uma coisa que nem é importante para mim.

—Mas é importante para mim que você saiba a verdade! — Insisti. Ele interrompeu sua entrada e ficou um tempo olhando para o chão.

—Eu me pergunto por que você encarnou em mim. — Refletiu distraído. — Acho que você é só uma menina mimada que acha que pode ter tudo o que quer, e está intrigada porque eu não dou a mínima para você. — Olhou-me de viés. —Não vai funcionar comigo, Bella!

—Eu não estou te pedindo nada. — Esclareci simplesmente. —Só não quero que você vire o rosto quando me encontrar. Quero poder ser sua amiga.

Ele pôs a mão na cintura e olhou-me atenciosamente. —Qual a parte de mundos diferentes que você não entendeu? Quantos amigos caipiras, baixa renda e filhos de funcionários fazem parte da sua agenda de amigos?

A pergunta direta me pegou de surpresa e, sem respostas, abaixei o olhar. Ele ficou calado, me estudando, depois suspirou.

— Eu sei me colocar no meu lugar, Bella. Você devia fazer o mesmo. — Aconselhou diplomático, mas notei alguma emoção oculta. —Agora tenho que ir. Vou me mudar em alguns dias e tenho coisas para fazer. — Adicionou mais acessível e virou novamente para entrar no carro.

—Para onde vai se mudar? — Interrompi-o, tentando ainda prolongar a conversa.

Ele me olhou incrédulo da cabeça aos pés.

—Você não vai desistir desse negócio de amiga, né?

—Não. — Torci os lábios num sorriso culpado. — Não, enquanto não mostrar que não sou essa menina mimada que você pensa.

Ele balançou a cabeça e colocou as duas mãos no teto do carro, de costas para mim.

—Tá... — Pausou um pouco, encostou-se ao carro e cruzou os braços. —Respondendo a sua pergunta, eu ganhei uma bolsa integral, com direito a dormitório e alimentação na Universidade George Washington. —Começou e torceu os lábios. — Também fui contemplado por outras duas, Princeton e Harvard, mas preferi G.W. por estar localizada em Washington D.C. — Eu observei sua boca se mover e involuntariamente me concentrei nela, fascinada. —Sabia que o campus fica a quatro quarteirões da Casa Branca? — Perguntou mais descontraído, eu assenti e encostei de lado no carro, atenciosa. — Vou fazer Ciências Políticas. Em poucos dias estou me mudando para lá. — Concluiu orgulhoso.

—Nossa! Legal! — Exagerei no entusiasmo. E estimulada pelo clima ameno, resolvi fazê-lo elaborar, aproveitando que se soltou nesse assunto. —Por que Ciências Políticas?

Ele pausou um pouco, depois respirou fundo. —Porque eu quero escrever meu nome na história. Quero ser importante, influente. Ter poder. — Disse solene, com olhos sonhadores. —E vou ser o melhor.

—Com certeza você vai! — Apoiei fervorosa, dando murrinhos divertidos no ar. Ele sorriu da minha brincadeira.

—Sabe como eu fiz essa escolha? — Perguntou animado.

—Como?

Ele me olhou avaliativamente, talvez estudando meu interesse.

—Um dia, com nove anos de idade, fui contemplado para uma excursão de alunos do país à Casa Branca. Fui o único escolhido do estado de Washington. Lá, vi uma sala oval e quis entrar. Porém, fui impedido. Depois a professora explicou que só altos graus hierárquicos ou Conselheiros da República tinham acesso. Desde então, estabeleci que um dia faria parte dessas pessoas.

—Uau, você é bem determinado. — Comentei admirada.

—Sou mesmo. Vou acabar com as injustiças no mundo.

—Você acha que quando chegar lá, não vai ser igual aos políticos de lá? Injustos como você diz?

—Vou mudar exatamente isso. — Declarou convicto.

—Sabe o que acho de você? — Perguntei séria. — Você devia viver mais. Você se fixa muito no futuro e não vive o presente.

—Eu não tenho presente, Bella. O que eu sou? — Apontou para si. —Se eu não lutar, nunca vou sair daqui. Vou terminar como minha mãe, trabalhando muito, sem bens e ainda funcionário de alguém a vida toda. Eu não quero isso!

Incentivada por sua guarda baixa, aproximei-me mais dele e murmurei. —Eu gosto de você hoje. Assim como você é, porque por trás desse muro, você é bom. — Disse docemente, depois suspirei ansiosa. — Você não tem medo de mudar? De ficar uma pedra? De perder seu coração?

Ele não respondeu e segurou o olhar um tempo, insistentemente.

—Você me surpreende, Bella. — Comentou e juntou as sobrancelhas, olhando-me como se eu fosse um microorganismo sob a lente de um microscópio. —Eu queria saber quem você é. Ou é uma pessoa indulgente e perceptiva ou é uma excelente atriz tentando me iludir.

—E quem está ganhando? — Dei um sorriso expectativo.

—Está empatado. Estou em dúvida.

—Se você me der uma chance, você pode descobrir. — Aproveitei a deixa.

Ele sorriu torto, levantou a mão ao meu rosto e afastou uma mecha de cabelo. —E como eu vou descobrir isso? — Sussurrou com um surpreendente sorriso de canto sedutor. Eu tive que lutar com todas as forças para não sucumbir à vontade de ficar na ponta dos pés e lhe roubar um beijo. Isso é amizade, Bella. Controle-se.

—Me dá seu telefone. — Ofeguei com o coração galopando fortemente. De repente o clima tinha se transformado e eu sentia eletricidade no ar. Ele passou um tempo olhando minha boca, tempo em que eu tremia de antecipação.

—Faz melhor, me dá o seu. —Pegou o celular. — Como vou me mudar, não sei se vou ficar com o mesmo número. Deixe que eu te ligo. — Propôs prestadio. Eu recitei o número e, depois de vê-lo anotar, sorri.

—Então somos amigos? — Estendi a mão, amistosa, e unimos palma com palma.

—Acho que sim. — Sorriu concordando. E dessa vez fui eu que fixei o olhar detidamente em sua boca e molhei incosciente os lábios, pensando no seu gosto doce, cálido. Será que ele ainda lembrava? Foi ele a interromper o meu pensamento. —Tenho que ir. —Avisou num murmúrio baixo, me encarando, e só então percebi que ainda segurava sua mão.

—Ah... — Soltei-a, pesarosa pela perda de contato. —Então até mais. — Eu disse e dei dois passos hesitantes atrás.

—Até mais. — Respondeu sorrindo e entrou no carro.

Caminhei de volta ao escritório feliz e tive a impressão que ele sorria quando o carro virou a esquina. Ao entrar, Emmett olhou-me acusadoramente.

—Vamos. — Sorri, cínica, e pendurei em seu pescoço.

—Filho, nada de sol, nem piscina por enquanto. — Esme advertiu o caçula lourinho e o abraçou amorosa.

—Tá, mãe! — Respondeu encabulado.

—Emmett, depois eu vou ligar para o seu pai. — Esme disse, Emmett assentiu, nos despedimos e partimos.

No decorrer dos dias, descobri que Jasper veio para Seattle com o fim de tratar de um problema no sangue que os médicos de Forks não obtiveram sucesso. Pelo que soube, Esme só recorreu ao meu pai depois de esgotar todos os recursos. Logicamente ele se prontificou a ajudá-la não só indicando um bom médico, como arcando com as despesas, além de ter persuadido-a a deixar Jasper ficar conosco, já que ela não tem parentes aqui em Seattle.

Desde que chegou à nossa casa, ele passou por uma bateria de exames, onde revezamos para levá-lo á clínica, eu, Emmett, Jéssica e, de vez em quando, o motorista do papai.

Por ser férias escolares, passamos um bom tempo com Jasper, fosse jogando, vendo tv. Em poucos dias ele familiarizou. O menino é hiperativo. Tem quatorze anos, mas parece ter dez. Ele nos espia trocando de roupa pela fresta da porta, amarra o espelho no tênis para olhar por debaixo da nossa saia. É um anjo mau. Mas adorável.

Após duas semanas em nossa casa, brincávamos de corrida de carros no Xbox, e aproveitei para perguntar algo a ele sobre Edward.

—Como é o seu irmão?

—Ele é bicha. —Respondeu distraído. — Não gosta de mulher. Tem um monte de menina a fim dele e ele não dá nem idéia. — Disse focado no jogo.

—Ele é legal? — Manobrei o controle, concentrada.

—Muito estressado e mandão. Gosta de silêncio o tempo todo. Acredita que ele fica trancado em casa comendo os livros, enquanto poderia estar pegando meninas? Ele é um maníaco obcecado. Muito organizadinho. — Fez uma careta. —Tipo assim: a roupa dele é muito ordenada, dobrada. Entende? Acho que não tem jeito para ele. Tadinho, ele é bicha mesmo. — Zombou com fingido lamento.

Instantaneamente, comecei a rir. Jasper, com toda sua irreverência, era hilário.

—É ele quem cuida de vocês?

—Agora não, mas quando éramos mais novos, sim. Ele quem me levava à escola, ao parque. Mas ele era muito chato. Deus me livre. — Dramatizou. —Não me deixava correr, nem bater nos muleques. Pelo menos ele tem uma vantagem em ser bicha, é ele quem faz a comida mais gostosa lá em casa. — Parou abruptamente e gritou. —Tu é ruim, hein, Bella! Ninguém consegue ganhar do bonzão aqui! — Disse ao ganhar o jogo. Animada, pulei em cima dele e fiz cócegas, contente com sua adorável companhia.

No dia seguinte, domingo de manhã, acordei com uma mensagem no meu celular.

Mensagem número desconhecido 08h00am.

Bella, amanhã vou viajar e provavelmente só volte para casa em oito meses. Eu queria ver o meu irmão antes de ir, mas não quero ir a sua casa. Tem como avisar para ele me encontrar em algum lugar? Edward.

Sonolenta, aproveitei para colocar o número dele em meus contatos e escrevi a mensagem de volta.

Tem sim. Que horas você vem? Há um local aqui perto. Segue o endereço. Envie o horário. Rua: 1525 2nd. Parque Sky.

Suspirei involuntariamente ansiosa e enviei a mensagem. Minutos depois outra mensagem chegou.

Mensagem Edward 08h10am

Vou chegar aí às 9hs. Me encontre lá. Obrigado.

Após ler, sentei abobalhada na beira da cama e reli a mensagem três vezes. Me encontre lá? Franzi o cenho pensativa. Bom, se ele não quisesse me ver, pediria só para o Jasper ir, logo... ele quer me ver!