Uma semana depois, chegávamos do cinema, eu e Alice, joguei minha bolsa no sofá e meu pai nos encontrou ao pé da escada.

Oi, pai. — Cumprimente-o e o beijei no rosto.

Oi, meninas. Como foi o passeio? — Perguntou com a sobrancelha arqueada.

Foi legal, vimos Nárnia 3. — Respondi e Alice subiu.

Bella, eu usei o computador do seu quarto porque o meu estava travando e eu precisei fazer uma pesquisa. —Ele me olhou desconfiado, como se quisesse ler minha reação.

Deus, estava perdida! Meu pai usou o meu computador e na tela inicial tinha uma foto em que eu estava sorrindo, sendo rodada no colo de Edward em frente à Casa Branca...

Capítulo – Não quer, qualquer desculpa serve

Encarei-o firme, lutando para esconder o pânico. Não tinha dúvida de que ele tinha notado, e precisava de tempo para capitular uma desculpa.

—Tudo bem pai, pode usar quando precisar. — Tentei esconder o nervosismo, mas eu sabia que a intenção não foi pedir minha permissão.

—Você quer conversar, Bella? — Propôs cauteloso.

Eu tinha que pensar rápido. Devia aproveitar a deixa e expor o que eu pensava, não mentir.

—Pai... Er... Eu preciso te falar... E-eu não consegui... não estou conseguindo. — Gaguejei, olhando nervosa para minhas mãos.

—Eu sabia que você não conseguia completamente, mas eu acho que você parou de tentar. Manter fotos de vocês dois, é se iludir. — Aconselhou preocupado.

Ele não tinha se atentado aos detalhes da foto, era óbvio. Certamente nem abriu a pasta das minhas fotos.

—Pai... Eu não vou mais tentar... — Segurei o olhar nele, determinada.

Ele deu um longo suspiro e aproximou-se nervoso.

—Bella, eu não vou aceitar! — Aumentou o tom. —Vou ligar para Esme agora e pedir que ela o mantenha longe de você.

—Pai, o senhor não acha que já fez muito mal a Esme, não? — Confrontei-o, sem elevar o tom.

—Do que você está falando? — Uma ruga de tensão apareceu no seu rosto.

Eu dei de ombros tranquila e sentei no sofá. —Nada. Só acho que ela não vai ficar feliz em ver o senhor de marcação com o filho dela. Acho que a história de vocês é longa demais para o senhor acabar com uma implicância em cima de algo tão simples. — Esperei, torcendo que o significado das minhas palavras o atingissem.

—Você está envolvida com ele de novo? Estão saindo? —Questionou sem se alterar— Eu pensei que era só uma foto.

Bem, ele não tinha percebido absolutamente. Em todo caso, eu podia preparar o terreno para a verdade.

—O senhor não iria entender... Mas precisa saber que eu gosto dele, e ele gosta de mim. Não sabemos o que vai ser de nós, só que nos gostamos. — Disse de uma vez, esperando-o diluir.

—Vocês estão namorando? — Abriu a boca incrédulo, a mão na cintura.

—Não. — Lamentei com uma torcida de lábio. — E não é por que eu não queira, eu já falei isso para o senhor. —Disse sinceramente.

Ele deu um bufo exasperado e balançou a cabeça.

—De qualquer maneira, Bella, eu ainda não aceito. Não o quero aqui. Você não vai a casa dele. Então não vejo como isso ir pra frente. — Recitou e se preparou para deixar a sala.

—Pai... —Chamei-o com olhar humilde. — Eu amo o senhor, e o senhor é meu pai amigo, merece saber a verdade. Se eu perceber que ele me quer, eu enfrentarei tudo para ficar com ele. Eu venceria qualquer julgamento ou preconceito para ficar com a pessoa que escolhi. — Disse a última parte pausadamente para que minhas palavras falassem além da conversa.

Ele me encarou boquiaberto por longos minutos, balançou a cabeça chateado e deixou-me sozinha.

Três semanas depois que voltei da Capital, fiz duas tentativas de falar com Edward. Em todas, ele estava ocupado. Fazia dias que eu também não recebia notícias de Jasper. E como tudo estava muito corrido na escola, eu entendi a distância dos dois, por também estar ocupada. Numa sexta-feira, depois de fazer todas as minhas tarefas de casa, suspirando de saudade, deitei em minha cama e disquei o número de Edward.

—Ooi... —Cumprimentei-o manhosa. —Saudade de você.

—Oi, Bella— Respondeu sério e desanimado.

—Recebeu meu presente? — Dias antes eu tinha enviado presentes por correio e estava ansiosa em saber se ele gostou.

—Recebi e já devolvi. Você deve estar recebendo de volta aí. — Disse frio.

—Por que eu não posso te dar presente e a sua colega de classe pode? — Questionei, consciente que iria começar uma discussão.

—Porque sei que o presente dela não custou cem, e os seus com certeza custaram mais de mil. O preço é o primeiro motivo. O outro é que você sabe que eu não quero que compre nada pra mim. — Enumerou sem alterar o tom frio e impessoal.

—Poxa, foram comprados com carinho. Eu vi você em cada um deles. Era importante que você usasse. — Tentei convencê-lo manhosamente.

—De qualquer maneira, eu já devolvi. Os dê ao seu pai. — Concluiu com desdém ofensivo.

—Tudo bem. Então até mais. — Despedi chateada, pronta a desligar. Não precisava ouvir piadinhas em relação ao meu pai.

—Bella... —Chamou-me. Eu fechei os olhos e respirei fundo. — Desculpe. Estou cheio de trabalhos, estou de cabeça quente, em semana de prova, então deixa que eu te ligue depois. — Pediu parecendo arrependido.

—Edward, você nunca liga... — Acusei com a voz triste.

—Eu vou ligar.

—Não precisa dizer algo que não vai fazer. Se é pra me deixar esperando, melhor não prometer. — Tentei ser amável, mas estava aborrecida.

—Bella, por favor, não seja difícil. — Ele pediu mais carinhos.

Suspirei derretida. —Tá... Seu coração ainda está aqui? — Deitei na cama, com o coração apertado.

—Enquanto o seu estiver aqui, o meu vai estar aí.

—Então tá. Estuda. Vê se melhora esse humor. Eu estou morrendo de saudade de você.

—Eu também. — Sussurrou docemente.

—Um beijo, aliás, mil beijos da cintura pra cima. — Voltei ao entusiasmo inicial da conversa.

—Obrigado, Bella. Só você mesmo para alegrar o meu dia... Outros pra você. — Ele sorriu triste. Meu anjinho estava tão pra baixo... Não entendi o motivo, e não era por causa dos presentes.

Na semana seguinte recebi os presentes de volta pelo Fedex e os guardei, ciente de que um dia ele aceitaria. Desci e encontrei Alice deitada no sofá da preguiça.

—Alice você tem falado com Jasper? —Perguntei com um pouco de culpa por não ter ligado para o meu amigo há meses. O que aliviava é que pelo menos continuei depositando o dinheiro dos remédios como prometi.

—Falei ontem. Ele está doente de novo.

—Nossa, tem o maior tempão que eu não o vejo. Acho que eu vou lá amanhã, é sábado e eu vou aproveitar para matar a saudade. Vamos? — Sentei no sofá em sua frente.

—E o que nós vamos falar para o meu pai?

—Eu não vou mentir. — Foi o que eu respondi e deitei para ler um livro, enquanto ela lia o dela.

—Oi, pai! — O beijei e abracei quando ele apareceu na sala, chegando do trabalho. —Amanhã eu vou a Forks. — Avisei.

Ele me olhou de cima abaixo com olhar de desaprovação, certamente imaginando que Edward estaria em casa.

—Bella, nós já conversamos sobre isso... — Olhou-me sério.

—Pai, ele não está em casa. —Aclarei com um rolar de olhos. —Está na Universidade. Eu vou ver o Jasper que está doente de novo.

Ele me olhou com o cenho franzido.

—Estranho... A Esme nem me disse nada. — Refletiu surpreso.

—Vai ver ela não quer mais te incomodar depois daquele último episódio na casa dela... — Dei de ombros e mudei uma página. —Talvez vocês não sejam mais tão amigos como eram antes daquilo. — Sugeri propositalmente.

—Mas ela me trata normal quando a gente se encontra. — Continuou pensativo.

—Lógico pai, amigos, amigos, negócios a parte. Ela na empresa é só sua funcionária. E funcionário é funcionário. — Repeti as palavras dele da nossa conversa.

Ele ficou calado uns segundos. Eu lia um livro e continuei. Só minutos depois ele voltou a falar.

—Bella vou com vocês amanhã. Que horas vocês vão?

—Umas nove saímos daqui. — Respondi surpresa com o efeito instantâneo, principalmente por ele cogitar faltar serviço no sábado.

No dia seguinte, ele nos deixou na casa da Esme e avisou que mais tarde nos buscaria, após ir ver alguns amigos. Estavam em casa somente Rosalie e Jasper. O garoto estava deitado no sofá com a aparência pálida.

—Oi, irmão! —Dei-lhe um beijo no rosto. — Por que está deitado? Nunca vi o atentado quietinho assim! —Comentei preocupada.

—Estou cansado, com algumas dores. — Resmungou e deitou a cabeça no meu colo. Estranhei. Ele nunca foi de reclamar de fraqueza.

—Como estão os remédios? Está indo ao médico? — Perguntei preocupada com o resultado dos exames que eu tinha visto há dez meses, o qual dizia que a doença dele poderia virar leucemia.

—Sim, mas minha mãe disse que não estou conseguindo melhorar. Eu também sinto isso. — Murmurou triste.

—Edward sabe que você está assim? — Perguntei já imaginando o motivo do mau humor do meu anjinho.

—Sabe. Minha mãe disse para ele semana passada. —Confirmou minha suspeita.

—O que os médicos dizem? — Acariciei seu rosto.

—Ah, Bella. Os médicos daqui não sabem dizer nada. —Reclamou indignado.

Na sala tinha um vídeo game antigo, e disposta a desviar o tema, eu o chamei para jogar. Ele animou-se mais. Devia estar sendo difícil para ele que era hiper-ativo não poder jogar bola ou sair. Eu, ele e Alice jogamos o restante da manhã e Rosalie fez almoço. Comemos macarronada, depois assistimos um filme esparramados no carpete, sobre as almofadas, com cobertores nos pés.

Durante todo o tempo, Alice olhava com os olhos tristes e passava as mãos nos seus cachinhos de ouro carinhosamente. Era ruim vê-lo naquele estado, ainda mais quando nos acostumamos a vê-lo sempre aprontando.

Na metade do filme, o telefone tocou e Jasper atendeu.

—Oi, cabeção... Tô bem. Estou com duas gatas aqui me alisando... Sua mulher e Alice... Não, ainda não chegou... Deve estar chegando. Dia de sábado ela chega mais cedo... Jogamos, assistimos, agora estamos deitados debaixo do cobertor os três abraçadinhos... Almoçamos... Almoçaram... A Rose fez macarronada... Eu estou bem... Sim... Não se preocupe... Tá... Para de ser bicha!... Pra você também. —Rolou os olhos. —Bella, ele quer falar com você. — Jasper me entregou o telefone.

—Oi. — Atendi e sentei sem jeito no sofá.

—O que vocês estão fazendo aí? — Perguntou direto, parecendo surpreso.

—Nossa, Edward! Isso são modos de começar a falar com alguém no telefone? — Censurei-o brincalhona. —Eu não conheço só você nessa casa, sabia? —Brinquei. — Vim visitar o meu irmão. Ele nunca disse pra você que fizemos um pacto de irmãos, não? Eu estava com saudade dele. — Sorri e pisquei conspiradora para Jasper.

—Como ele está? Como está a cara dele? — Perguntou baixo, com excessiva preocupação na voz.

A fim de ter privacidade e falar mais à vontade, peguei o telefone e fui para a cozinha.

—Hum... Acho que não tão bem. Se ele está fazendo algum tratamento, não tem adiantado. Ele está muito pálido e sentindo dor. — Segundos depois de ter falado, arrependi por ter sido tão sincera.

Ele ficou um tempo calado, depois quebrou o silêncio. —Eu me sinto mal, Bella, por não poder fazer algo. —Resmungou melancólico. —Eu não estou conseguindo fazer nada.

—Não! —Chamei sua atenção. —Você tem que se concentrar aí. Você tem que tirar notas boas, se não você perde a bolsa.

—As minhas notas estão boas. Eu é que não estou bem.

—Não se preocupe... Aqui vai dar tudo certo. — Queria acalmá-lo, mesmo que eu mesma estivesse preocupada.

—Como não me preocupar, Bella? A minha família não tem ninguém! A minha mãe não tem tempo. Dá vontade de desistir de tudo e voltar pra casa para ajudá-la. — Sua voz estava carregada de dor.

—Não faz isso... Lembra dos seus planos, lembra de quem você vai ser. Isso aqui vai passar. No final vai dar tudo certo. — Disse carinhosamente. Eu não podia deixá-lo desistir.

Segundos se passaram, e eu ouvi um suspiro longo.

—Bella... Obrigado por ter ido aí. Agora eu vejo que vocês não são umas riquinhas mimadas, e... Obrigado por ter me ouvido. Você é a melhor amiga do mundo. — Disse com uma voz um pouco melhor.

Eu sorri. Pelo menos consegui animá-lo um pouco. Só não entendi por que ele disse que nós não éramos umas 'riquinhas mimadas.'

—Edward, você nem abriu o presente que eu te mandei... — Reclamei manhosamente, mas depois percebi que não era uma boa hora.

—Bella, não vamos falar sobre isso agora, por favor. — Pediu sem mudar o tom de voz.

—Faz assim, eu já comprei, e é importante pra mim que você use, mas se você não gostar, dê tudo ao Jasper. De qualquer maneira eu vou deixá-los na sua cama.

Ele suspirou vencido. —Tudo bem. Não quero mais brigar por isso. Você quem sabe. — Parecia somente querer encerrar o assunto.

—Edward... Estou com saudade... — Murmurei. Ele não respondeu. —Eu vou deitar na sua cama, abraçar as suas roupas e mexer nas suas coisas pra matar a saudade de você. — Disse manhosa.

—Ai, Bella, só você mesmo para me fazer rir... — Sorriu mais descontraído. —...Eu também estou com muita saudade de você. De uma maneira quase insuportável. — Revelou sussurrado.

Bem, isso eu sabia que era verdade.

—Fique bem, tá? Aqui vai dar tudo certo... —Encerrei, preocupada com a conta de telefone interubana. — Depois eu vou te ligar. Um beijo.

—Pra você também. — Despediu com a voz melhor. —Manda um beijo para Alice e Rose. Até mais.

Desliguei e fiquei parada com o telefone na mão por uns instantes, encostada ao balcão. Segundos depois olhei para trás e Rosalie me olhava parecia ter algum tempo.

—Você gosta dele né, Bella. — Ela afirmou, não perguntou.

—Sim, muito. — Respondi suspirando. —Ele mandou um beijo... Er, eu posso ir ao quarto dele?

—Lógico. Fica à vontade. —Apontou para o corredor, e eu segui até lá.

Sentei na cama, tirei os presentes da minha bolsa e coloquei no criado. Era um relógio, um óculos e um perfume. Eu sei que exagerei em ter comprado tantas coisas. Mas é que sempre que vou comprar algo para mim, estou com ele nos pensamentos. Não foi muito caro. Não tem motivo para o drama. O Ray-Ban comprei porque ele não tem, o relógio porque eu não gostei do dele, e o perfume Polo... Bom, ciúmes não, mas se ele pode aceitar presentes de uma colega de classe, ele pode aceitar o meu... Ou, os meus. Sorridente, deitei em sua cama e abracei o seu travesseiro, me entregando a saudade.

—Olá, Bella—Ouvi o som do meu nome e abri os olhos. Era Esme.—Seu pai avisou que daqui a pouco busca vocês aqui. —Esfreguei os olhos sem graça por ter sido pega cochilando na cama de Edward, mas ela foi discreta e não comentou.

Disposta a fazer amizade com ela, introduzi um assunto que interessava a nós duas. —Esme, queria falar com você sobre o meu pai. — Sentei na cama e ela puxou a cadeira para sentar em minha frente.

—Sabe, Esme, meu pai é bom. Ele pensa que aquilo que ele fez foi para o meu bem. — Comecei.

—Mas ele não tinha o direito de... Bem, você tem idade para discenir o que quer. Na sua idade eu tinha.

Eu apertei minhas mãos uma na outra, lendo o momento oportuno para defender meu pai.

—Ele é meu pai e quer o melhor para mim. Mas eu estou conseguindo lidar com ele. Lentamente, mas estou. — Dei uma pausa para continuar —Mas agora eu queria falar sobre a história de vocês. Papai me contou que vocês se relacionaram quando jovens... — Parei e organizei minhas idéias. —Não tem nada a ver eu falar isso, é até egoísmo meu, mas eu fico pensando que se meus avós não tivessem implicado com vocês, e se você não tivesse terminado com o meu pai, eu não teria Edward hoje. — Disse torcendo que ela entendesse aonde eu queria chegar.

—Você está dividida né, Bella, entre o amor do seu pai e o que sente pelo meu filho. — Ela disse ternamente.

—Eu sei como lidar com o meu pai. Com Edward é que às vezes eu tenho dúvidas. — Murmurei triste.

—Se você gosta do Edward, tenha paciência com ele. Eu sei que ele gosta de você. Ele se prende assim por minha culpa, talvez eu não tenha mostrado um retrato do amor e do relacionamento como uma coisa boa para ele.

—Estou tentando ter... Estou lidando com uma pessoa não se permite se entregar totalmente, e ele tem que aprender a confiar em mim.

Esme assentiu pensativa e saiu em silêncio. Eu deitei de novo e abracei o travesseiro de Edward. Algum tempo depois ela apareceu na porta. —Seu pai já chegou. Está lá fora.

Saí do quarto e meu pai aguardava em pé na porta da sala.

—Onde você estava, Bella? — Inquiriu com o semblante fechado.

—No quarto. — Respondi simplesmente, sem intenção de provocá-lo.

—Ele está aqui? — Apontou para o quarto com um estranho nervosismo.

—Não, pai! —Balancei a cabeça. —Eu só estava deitada na cama dele.

—Curtindo dor de cotovelo. — Jasper comentou divertido e continuou vendo TV. Tinha que ser ele! Olhei-o com olhar fulminante. —Admite, Bella! Tem vergonha de falar que estava dormindo abraçadinha com o travesseiro do meu irmão? — Zombou.

Meu pai me olhou sério alguns minutos, depois relaxou os ombros impotente. Talvez começasse a ver que não podia fazer nada. Que mesmo Edward estando longe, eu tinha uma ligação forte com ele.

—Carlisle, senta que eu estou fazendo um lanche. — Esme ofereceu, e ele sentou sem relutar na sala pequena.

Carlisle observou Jasper curiosamente então perguntou para Esme como estava o tratamento.

—Parece que está lento. Os remédios não estavam ajudando e agora os médicos testam outro. — Respondeu e sentou-se ao meu lado.

—Ele ainda está se tratando em Seattle? —Questionou e levou a chícara aos lábios.

—Não, ele está se tratando aqui em Forks mesmo.

—Por quê? —Parou a chícara no ar. — Todo mundo sabe que os tratamentos de Seattle são de primeiro mundo.

—Por que ficou muito difícil e caro levá-lo pra lá. Então resolvi voltar o tratamento pra Forks mesmo. —Defendeu-se de queixo erguido.

—Difícil e caro?! — Ele juntou a sobrancelha indignado. —É saúde, Esme! Com saúde não tem isso!

—Sim, mas eu não moro em Seattle e nem tenho como bancar o custo. — Retrucou na mesma altura.

Nós assiastíamos a cena virando o rosto de um ao outro.

—E da outra vez você teve que se preocupar com isso? — Ele se levantou nervoso, mas falando baixo. —Jasper, se arruma que você vai pra minha casa. — Ordenou, e todos nós assustamos com a sua reação. —Esme, eu pensei que nós fôssemos amigos. Isso que você fez é até um pouco de falta de consideração. Eu não me prontifiquei em tudo que fosse necessário? Custava você ligar? Até as meninas podiam vir buscar ele aqui, se não tivesse ninguém para levar. — Disse indignado.

Esme parecia em choque, mas o encarou com valentia.

—Carlisle, não fala assim comigo porque aqui é minha casa. E Jasper só vai sair daqui com minha autorização. — Determinou calma, sem deixar de encará-lo.

Eles se olharam calados uns minutos, medindo-se. Meu pai abaixou a cabeça.

—Desculpe, é que se fosse um filho meu eu estaria desesperado, então como se trata de saúde... — Se justificou mais tranquilo.

Segundos tensos se passaram. Podia se sentir uma energia forte na sala enquanto se olhavam.

—Ele pode ir. — Ela concedeu com um suspiro cansado, parecendo a ponto de explodir de tensão. Depois se escondeu lá dentro uns minutos e voltou com olhos vermelhos e com as malas de Jasper.

—Como ele está na escola? — Meu pai perguntou a ela quando saíamos.

—Talvez ele perca o ano. Está tendo muita falta por estar com dores. —Explicou estressada, olhando Jasper com pesar.

—Organize a documentação escolar dele para estudar em casa e ir a escola só fazer provas. Quando uma criança está em tratamento existe um regime escolar especial. Você já sabia disso, né? — Ela assentiu. —Já devia estar fazendo. — Disse sério.

—Sim, mas eu estou sem tempo de resolver essas coisas.

—Então tire folga. —Aconselhou. — Com certeza tem algum dia na semana que é de menor movimento, então tire. É seu filho. — Lembrou incisivo. Ela suspirou resignada e concordou com um aceno, depois se despediram com um beijo no rosto e um abraço que demorou tempo demais. Entramos no carro e ela observou-nos da frente da casa até sumirmos. Eu tive certeza que ela admirou a ação do meu pai. Eu estava orgulhosa dele.

Dois dias depois, segunda-feira, meu pai pediu que o motorista levasse Jasper ao hospital com um pedido de exame que ele conseguira no domingo com seu amigo médico. E como eu sabia da angústia de Edward, decidi que precisava avisá-lo que o menino estava conosco.

—Alô. — Ele atendeu sussurrado após o quarto toque.

—Oi, Edward. —Cumprimentei animada.

—Fala rápido, Bella, por que eu estou em sala de aula e saí só para te atender.

—Ah, tá. Meu pai trouxe o Jasper pra minha casa. —Avisei de uma vez. —Ele pediu sua mãe para trazê-lo naquele dia que eu fui à sua casa. — Disse eufórica, querendo dar mais um pouco de esperança para ele.

Ele ficou em silêncio do outro lado da linha.

—Está aí, Edward? —Olhei para a tela para conferi se tinha caído a ligação.

—Sim, Bella. — Assentiu inexpressivo.

Eu continuei a falar. —Hoje ele foi fazer os exames e vai se tratar aqui com o amigo do meu pai. Você está mais feliz?

—Sim... E surpreso. —Ofegou aliviado. — Não pensei que ele faria isso estando com problemas com minha mãe.

—Eu estou feliz. —Eu disse. —As coisas estão dando certo. Eu não disse que ia dar?

—Sim. Você disse. — Concordou com a voz doce.

—Vou deixar você voltar para sala. Se você quiser conversar com o Jasper, liga no telefone residencial. Vou te mandar o número por mensagem. Ah, se você não quiser ligar em um horário em que meu pai esteja em casa, é só ligar antes das oito, tá!?

—Tudo bem.

Por um instante, fiquei chateada com o monólogo. —Poxa, eu pensei que você ia ficar mais feliz, mas você está tão monossílabo. — Reclamei triste por ele não gostar de conversar no telefone.

—Bella, eu estou fora de sala, no corredor. — Justificou sussurrado.

—Tudo bem. Você não vai tirar o meu bom humor. De qualquer maneira, eu estou contando as horas pra te ver. Vou te dar muitos, milhares de beijos. — Disse animada, e ele finalmente sorriu.

—Eu também. — Respondeu sem jeito.

—Eu também o que? Está contando as horas ou vai me encher de beijos. — Perguntei esperançosa e feliz.

—Os dois.

Eu sorri e despedi manhosa e contente. Eu era assim. Me dava. Não conseguia ser diferente.

Nos dias que se seguiram a agitação voltou a minha casa. Não como antes, da primeira vez que Jasper veio. Mesmo assim, tinha movimento de novo. Como o garoto tinha que estudar sozinho, quando eu e Alice chegávamos da escola, ensinávamos algumas matérias que ele não sabia. Também passávamos muito tempo jogando com ele. E assim os dias se passavam.

A minha música ganhou em 3º lugar no festival de música da cidade, na categoria romântica. Fiquei feliz. Mas o meu maior objetivo já tinha sido alcançado, que foi mostrá-la ao Edward.

Com duas semanas que o garoto estava em minha casa, fui ao hospital com Esme pegar os resultados dos exames e levar Jasper para consultar. Após pegar os resultados no laboratório nos dirigimos ao consultório do hematologista.

—Bom dia. Você sumiu hein, rapaz! — O médico cumprimentou Jasper com um tapinha nas costas. —Ficou de vir de dois em dois meses e não veio.

—Pois é, ficou um pouco difícil para mim. — Jasper respondeu ao sentar.

—As senhoritas são as irmãs? — Perguntou a mim e Esme.

—Não. Eu sou a mãe. — Esme respondeu encabulada.

—Eu sou Charles, o médico que acompanhou seu filho no inverno passado.

Cumprimentaram-se, e eu observei que o médico era muito charmoso e olhava Esme de uma maneira encantada.

—Bom, as coisas agravaram no estado do rapaz aqui. Eu havia dito que os remédios poderiam adiantar ou não. Nesse caso, o quadro acelerou. — Explicou didaticamente. —Vou falar o que ele tem na linguagem técnica. Caso vocês não entendam me interrompam. — Adotou uma postura séria. —Ele está com uma doença que é caracterizada pela produção excessiva de células brancas anormais, que superpovoam a medula óssea. Isso resulta na diminuição da produção e funcionamento de células sanguíneas normais. Dependendo do tipo, a doença pode se espalhar para o baço, fígado, sistema nervoso central e outros órgãos e tecidos. Você esta sentindo dor de vez em quando, Jasper? — Perguntou, Jasper assentiu. —Pois é, por esse motivo... Os danos à medula óssea resultam na falta de plaquetas no sangue, as quais são importantes para o processo de coagulação. Isso significa que pessoas com essa doença podem sangrar excessivamente. As células brancas do sangue, que estão envolvidas no combate a agentes patogênicos, podem ficar suprimidas ou sem função, colocando o paciente sob risco de infecções. Portanto todos os cuidados devem ser dobrados. Ele não pode se cortar ou ficar exposto a bactérias.

Esme ficou sem sangue no rosto, e eu pasma com a explicação.

—Mas há um tratamento? — Esme perguntou desesperançada.

—Há. É um tratamento caro, longo e dependemos muito das respostas do corpo do paciente. — O médico respondeu cauteloso.

—Qual vai ser o tipo de tratamento?

—Nós vamos começar com pílulas, elas vão dar enjôos matinais e os cabelos dele podem começar a cair.

—Mas é certeza que agora vai melhorar?

—Todo tratamento depende do organismo do paciente. — Ele fitou-a com bastante cuidado. —De qualquer maneira ele vai ficar aqui na casa do Carlisle, sim? Por que ele pode precisar de atendimentos emergenciais.

O caminho para minha casa foi tenso. Esme estava nervosa, e Jasper parecia não ter entendido a gravidade da situação. Embora o médico tivesse tentado amenizar, ficou claro para mim. Jasper tem leucêmia e os comprimidos serão uma espécie de quimioterapia.

Esme ficou o restante da tarde com o filho deitado em seu colo. Por vezes ela suspirava e deixava uma lágrima cair.

—O que aconteceu, Bella? — Alice me perguntou preocupada quando fui à cozinha.

—Ele está com uma doença grave.

—Nossa! O meu pai podia chegar logo para dar um apoio. — A baixinha comentou.

—Já liguei para ele. Deve estar chegando. — Respondi e voltei com um copo d'água para Esme.

Papai chegou vinte minutos depois, deixou Jasper comigo e Alice na sala, e levou Esme para o escritório. Passaram uma hora lá, e quando ela saiu estava melhor.

—Jasper, você vai ficar aqui até terminar o tratamento. — Ela informou, parecendo exausta.

—Tudo bem. — Para ele tudo estava bem. De fato, não entendia pra que tanto alvoroço.

—E sua mãe vai vir ficar com você pelo menos uma vez por semana. —Carlisle adicionou. — Não é Esme? — Tocou em seu ombro como um bom amigo. Ela assentiu.

Mais dias se passaram e Jasper começou a ter enjôos matinais pelo efeito dos remédios. Também emagreceu, mas o médico avisou que isso seria previsto. Teve dias de febre, o que trouxe muita preocupação para nós e para Esme. Mas Jasper não perdeu o bom humor. Pelo contrário, ele nos dava forças.

O médico vinha sempre que meu pai ligava, mas eu percebi que depois que ele encontrou Esme em uma quarta-feira, ele começou a vir exatamente as quartas ver o menino.

Certa noite, conversávamos na sala eu e Esme, e resolvi verificar se a minha suspeita era fundamentada. —Esme, é impressão minha ou Dr. Charles está te... Sei lá... De olho em você?

Ela sorriu embaraçada. —Você é muito observadora. —Confirmou. —Mas eu não estou interessada, por enquanto. Tenho muita preocupação e pouco tempo.

—Hmmm, você respondeu 'por enquanto', sinal que corresponde ao interesse.

—Talvez... Talvez eu deva tentar novamente. Estou cansada de ficar só.

Fitei-a um tempo, curiosa sobre seus sentimentos pelo meu pai. —Esme... Você sabia que eu passei um fim de semana com Edward na capital? — Perguntei. Ela balançou a cabeça negando. E se ficou surpresa, disfarçou. —Pois é, Edward me explicou o motivo dele não gostar do meu pai... — Parei para observá-la. Com esse fato ela pareceu surpresa, pois seus olhos arregalaram-se. Voltei a falar calmamente. —Então... Eu queria saber se você não gosta mais do meu pai. — Perguntei um pouco arrependida em ter envolvido Edward, quando ele confiou em mim.

— Edward contou tudo? —Franziu o cenho.

—Sim. Que você saiu com meu pai algumas vezes, mesmo depois de terem suas famílias. —Esclareci.

Ela me pareceu aliviada.

—Bella, eu penso que me submeti ao meu sentimento por seu pai todos esses anos por culpa de na adolescência ter saído tão rápido com alguém e ter engravidado. Mas hoje eu sei que nunca íamos ficar juntos de qualquer maneira, por isso me libertei desses sentimentos. Todo o amor de adolescente que eu tive por ele foi enterrado. — Disse convicta.

Intimamente frustrada com a declaração, resolvi mudar de assunto. —Esme, Edward sabe da nova condição do Jasper?

—Não exatamente. Achei melhor não preocupá-lo falando do câncer.

—Eu também acho melhor. — Concordei. Edward já era estressado demais sem saber, imagine se soubesse.

Nos decorrer dos dias, Mike voltou a vir regularmente a minha casa, porque quando estava namorando a Lauren vinha menos. Ele sempre dava muita atenção ao Jasper. E quando tínhamos tempo, ficávamos no estúdio onde eu ensinava Jasper a tocar baixo. Se o garoto aprendesse, nós teríamos uma banda completa.

Era mais um dia de aula e eu me arrumava para descer quando entrou no meu quarto uma figura eufórica.

—BELLA! Eu tenho uma coisa pra te contar que você vai ficar abismada. — Era minha irmã Jéssica, que estava elétrica e ria de alguma coisa sem parar.

—Conta Jéssica... — Pedi com suspeita. Ela não era muito de segredos.

—Você não sabe o que eu fiz ontem à noite! — Comentou animada, como se tivesse cometido um assalto.

—Conta logo que está me deixando curiosa! — Sentei e mandei ela ficar quieta.

—Advinha com quem eu fiquei? — Disse como se fosse uma coisa de outro planeta.

—Não sei! Fala logo!

—Com o Mike! — Respondeu rindo muito.

—Sério? Mas o menino é dois anos mais novo que você! — Censurei admirada.

—Sim, mas o quê que tem? Eu sou uma alma caridosa. — Disse sem parar de rir. —Eu estava conversando com ele lá na cozinha, perguntando sobre as namoradas e se ele ainda gostava de você. E você acredita que eu descobri que ele era virgem? Então fiquei com dó dele e fiz o favor! — Gargalhou descontrolada. Eu fiquei admirada. Um favor!?

—Então vocês não estão ficando, ou foi só uma noite?

—Uma noite nada, quinze minutos! — Gargalhou de novo. —Mas eu estou pensando em ensiná-lo. Ele é muito gatinho e com o tempo vai ficar bem gostosinho. — Sorriu.

—Credo Jéssica! Que horror! — Censurei admirada com a declaração.

—Qual é Bella? Para de ser certinha! A vida passa. A juventude não dura para sempre. A gente tem que aproveitar! — Sorriu de novo como se estivesse explicando o ciclo da água.

—Coitado do meu amigo... Foi usado... — Fingi horror.

—Para de ser boba, Bella, ele gostou. — Sorriu e se preparou para sair.

Antes dela deixar a porta, lembrei de algo importante. —Jéssica, você se cuida? — Perguntei preocupada.

—Lógico Bella, sou estudante de biologia, se eu não me cuidasse, né! — Rolou os olhos e saiu.

Fazia mais de um mês que Jasper estava em minha casa, e Edward não tinha dado sequer um telefonema. Nem para mim, nem para o irmão. Isso me deixava revoltada. Cansada da esperar, resolvi ligar. Chamou uma vez e ele atendeu.

—Fala, Bella.

—Oi, Edward. Por que não ligou para o seu irmão? — Cobrei direta e fria.

—Por que liguei para minha mãe e ela disse que ele está bem. — Respondeu sem notar o meu tom.

—Mas ele é seu irmão. Você devia ligar para ele. — Fui incisiva.

—Eu não queria incomodar mais ainda vocês. —Justificou.

—Realmente, o que incomoda mais é o seu orgulho! — Disse duramente, cansada de tratá-lo com paciência.

Ele ficou calado uns segundos. Eu voltei a falar.

—Sabe, Edward, eu gosto do Jasper, de verdade, e ele não nos incomoda em nada. Amo-o como irmão. Todos aqui o adoram. Ele alegra a minha casa. Não considere o que estamos fazendo como 'um favor', por que a gente faz de coração. Tem outra coisa, até sua mãe está se dando bem com a gente, dorme aqui em casa alguns dias sem problema. Só você que não esquece as diferenças! Por favor, liga pro seu irmão. Se você não quer ligar na minha casa, pode deixar que eu vou comprar um celular para ele hoje. É isso que você quer? — Disse esperando que ele tivesse absorvido metade do que falei.

Deu-se uma pausa de silêncio, e eu já achava que a ligação tinha caído, mas então ouvi um suspiro.

—Bella, pede para Jasper atender lá em baixo que eu vou ligar. — Disse pausadamente.

—Nossa, Edward, você só pega no tranco! Tchau. — Desliguei sem esperar que ele respondesse e desci para avisar ao Jasper. Ah, qual é?! Ter que implorar para o cara ligar para o irmão que está doente! Só eu mesma para agüentar!

—Jasper, seu irmão vai te ligar daqui a pouco. — Avisei e fui para a cozinha fazer um lanche. Minutos depois o telefone da sala tocou e Jasper atendeu. Eu ouvi a conversa sentada no balcão.

—Oi... Tô bem... Um pouco enjoado... Ah, ele me mimam mais que vocês... Todos são muito bons para mim... Não tem coisa melhor que isso, já acordo ganhando beijo da tua mulher. Se você não casar com ela, eu caso. — Sorriu. —Ah, o Mike voltou a beirar a casa, viu! Se eu fosse você cuidava mais dela... Tá bom, tá bom, eu tô me cuidando. Vou melhorar, pode deixar... Cara, já te falei que tu é muito gay? Tá bom, também estou com saudade... Está na cozinha... Vou chamá-la. BELLA! QUER FALAR COM VOCÊ. — Me gritou.

Voltei para sala e atendi com a boca cheia de biscoito. —Fala... — Disse indiferente. Ainda não tinha perdoado as teimosias arrogantes dele.

—Bella, desculpe, eu não estou sendo correto. — Pediu humilde. —Obrigado por tudo. Eu sei que você está dando uma força para minha família. Sei que por trás do gesto do seu pai teve alguma influência sua. Então obrigado. — Disse carinhosamente.

Eu suspirei, facilmente desarmada.

—Não é de graça. Vou cobrar. — Disse já se derretendo.

—Um dia eu pago tudo com juros e correção. — Declarou fervoroso, sem entender minhas segundas intenções.

—Não é algo que o dinheiro possa pagar. — Comentei insinuante.

Ele sorriu compreendendo. E o que seria? — Quis saber malicioso.

—Daqui um mês você vai saber. Quando mesmo você vem?

—Eu já estou quase dispensado. Alguns professores já me liberaram, mas eu vou aproveitar e fazer o curso de aperfeiçoamento em língua italiana. Talvez demore mais de um mês.

—Ah... Está perto de eu fazer dezessete. Vamos completar quatro anos. Podíamos ter uma comemoração especial. — Sugeri travessamente.

—Não vai dar... Vou chegar aí depois do seu aniversário. — Lamentou chateado.

—Comemoramos no seu então, já que o seu é uma semana depois do meu.

—Eu não vou garantir. Não tenho certeza de quando chego.

—Tudo bem, a gente fala sobre data depois. — Dei uma pausa. —Edward... Você tem pensado em mim... Tem sentido minha falta? — Perguntei manhosa.

Ele suspirou. —Muito mais do que eu queria. — Revelou penoso.

—Então tá bom. Você já alegrou o meu dia. —Expus, com alto astral. — Mil beijos molhados na sua boca, no seu rosto, no pescoço, no ouvido...

—Hum... Onde mais? — Perguntou sorrindo.

—Onde você quiser. — Sugeri brincalhona.

—Hei, não sugira isso. — Alertou insinuante, depois sorriu carinhosamente. —Maluquinha.

—Por você... E eu? Não vou ganhar? — Fingi chateação.

—Só um... Estou recebendo mil beijos, e é muita coisa... —Dramatizou. — Então um beijão na boca.

Despedi contente, suspirei e desliguei com um sorrisão no rosto, a seguir joguei-me de costas no sofá. Jasper ao me olhar pôs o dedo na garganta e fez careta, fingindo que ia vomitar.

No fim de semana seguinte, quando cheguei de um passeio com Alice e Jasper, encontrei o meu pai sério, subindo a escada.

—Bella, vá ao meu escritório que eu quero falar com você em cinco minutos. —Ordenou sem dar chance de questionamento.

—Tudo bem. —Concordei desconfiada.

—Ih, fudeu. — Jasper brincou ao notar o clima.

—Nossa, Bella, o que será? — Alice perguntou temerosa.

—Não sei. Eu não aprontei nenhuma esses dias. — Falei e subi para o meu quarto.

Assim que entrei, percebi que meu computador estava ligado. Alguém havia mexido. Deixei a bolsa na cama, saí para o escritório do meu pai, e lá estava Emmett, que tinha chegado para o fim de semana, e ele.

—Bella, hoje nós vamos ter uma conversa sem rodeios e definitiva. — Papai começou, atrás de sua mesa oval.

—Tudo bem. — Concordei apreensiva.

—Depois daquele dia que eu vi aquela foto no seu computador, fiquei em dúvida se era montagem ou real, então como Emmett está em casa, pedi para ele dar uma olhada no seu PC. —Explicou, pegou um pen-drive e colocou em seu notebook. Minha pulsação correu e olhei furiosa para Emmett. Como ele pôde ter cometido mais essa traição? Ele não me olhou de volta. Manteve a cabeça baixa.

Imediatamente, as fotos se abriram uma a uma. E diante do nervosismo, um riso histérico queria sair da minha garganta. A primeira foto a abrir foi de Edward deitado na cama com um lençol na cintura. As fotos seguintes pouco deixavam para dúvidas. Olhei envergonhada para os dois, e eles pareciam desconcertados com o que as fotos insinuavam. Deus, será que meu pai iria prejudicar a vida de Edward agora? Será que ele ia fazer alguma ocorrência policial? Pensei desorientada.

—Bella, eu estou perplexo com o que vejo... — Papai voltou a dizer, desgostoso.

Bem, eu não tinha mais o que negar. O correto era enfrentar a realidade. De fato, era até melhor que ele tivesse descoberto. Talvez incoscientemente esse tenha sido o motivo de ter deixado as fotos lá.

—Sabe, filha, o que me decepciona é a situação... Você não precisa disso. — Apontou para o PC amargurado. Emmett não teve coragem de levantar os olhos para mim. —Emmett me falou uma vez que era você quem vivia atrás dele. Disse que assistiu a briga de vocês na sua festa e que o filho da Esme te acusou de perseguição. Você precisa mesmo disso? — As fotos continuaram a passar vagarosamente. Depois de rever uma foto no parque, local onde Edward começou a abrir o coração, tive argumentos para nos defender.

—Pai, ele gosta de mim... — Disse seguramente. Porque na minha casa era assim, falávamos o que sentíamos.

—Você acha, Bella, que ele gosta de você? Se ele gostasse mesmo de você não teria permitido as duas vezes que você saiu escondida para ir atrás dele. — Acusou indignado.

—Mas ele não queria, aliás, nessa última vez ele nem sabia! — Defendi-o energicamente.

Ele esperou um tempo, com o indicador apertado na testa, cheio de preocupação. — É pior do que eu pensava. O problema aqui não é mais classe social, é amor próprio. Você precisa se valorizar! — Advertiu com uma torcida de lábio.

—Pai, eu gosto dele. — Insisti carinhosa.

—Notei, e isso é um problema muito grande. Eu vejo que você gosta demais dele, ao ponto de estar enfrentando sua família. Mas o que ele tem feito por você? — Suas palavras me atingiram como um tapa.

Abaixei o olhar, pesarosa. —Não há nada que ele possa fazer. — Declarei condescendente, referindo à divergente situação de distância e de dinheiro que nos coloca em extremos.

—Quantas vezes ele já ligou para você? Para falar diretamente com você?— Acusou mais uma vez, e dessa vez doeu muito. Eu não pude responder.

—É isso! —Ele suspirou exasperado. — É exatamente como pensamos, Emmett! — Ele olhou para Emmett. E, embora estivesse magoada pela traição de Emmett, notei que ele sofria com a situação. Ele estava entre o coração e a razão. Eu, o coração, e meu pai a razão. Mas eu não deixaria meu pai me convencer fácil.

Respirei fundo e ergui os ombros. —Pai, sabia que quando gostamos de alguém, devemos lutar para ficar com ela? Mesmo que haja adversidades, mesmo que ninguém acredite, devemos lutar? —Segurei o olhar nele, determinada. —Eu não quero chegar à velhice frustrada por não ter lutado por algo que eu queria. — Expus torcendo que algo do que eu disse tocasse sua memória.

—Filha, ninguém luta sozinho. —Lamentou carinhosamente. — Se um não quer, não tem como lutar.

—Mas quem disse que ele não me quer? —Inclinei-me sobre a mesa.

—Você. Você mesma. Por diversas vezes você tem me dito que se ele te quisesse, você o namoraria. —Expôs tranquilamente. —Mas o que é pior, é que ele não te quer e aproveita de você mesmo assim!

—No que ele está aproveitando de mim? — Franzi o cenho incrédula com sua insinuação.

—Eu não nasci ontem. — Resmungou chateado. —Por mais liberal que eu seja, saber que minha filha dormiu no quarto de um hotel com um homem é nauseante. Você está de castigo até completar dezoito anos!

Abri os olhos em pratos. Quer dizer que ele achava que eu tinha 'dormido' com Edward no sentido figurado e não gritou, nem me mandou para uma turnê com a minha mãe? Estava assustada.

—Pai, o senhor já pensou que eu posso estar aproveitando dele? — Sugeri com um risinho dissimulado. Já que ele insistia em ser o pai amigo, eu iria conversar abertamente.

Ele me olhou atônito. —Então é isso. É o 'ficar' moderno que a Jéssica tanto defende. Sem compromisso, sem cobranças. —Enumerou nos dedos.

—Sim, muitas pessoas ficam anos assim... Sem cobranças, sem planos. — Acusei indiretamente. Ele mesmo fez isso com Esme.

Ele congelou, provavelmente fazendo uma análise de si. E secretamente fiquei surpresa com o meu poder manipulação.

—Tudo bem, Bella, eu só espero que você não sofra com isso. —Suspirou derrotado. —Vou te avisar: as coisas não mudaram. Eu não aceito. E espero não vê-lo, nem pegar vocês dois juntos por aí. Ou eu não respondo pelas minhas ações. — Ameaçou sério, mas não vi violência em sua expressão. Eu não respondi nada. Já tinha confrontado o bastante. Levantei para deixar o escritório.

—Bella... Mais uma coisa. —Chamou-me. — Não fique com raiva do seu irmão. — Ele olhou complacente para Emmett —Ele fez o que pedi, e eu sei o que é melhor para a família. — Passou a mão no ombro do Emmett.

—Tudo bem. — Olhei para Emmett indiferente. —Já estou acostumada.

Antes de tocar a maçaneta lembrei de algo. —Pai, você sabe se Esme saiu com Dr. Charles? —Perguntei propositalmente. — Jasper disse que ela chegou, e eu não a achei. — Ele juntou as sobrancelhas interessado. Se ainda tivesse algum pequeno interesse nela, iria reagir.

—Não. — Respondeu intrigado. —Eles estão saindo? — Perguntou casual.

—Não sei, mas eu vejo que ele não tira os olhos dela. Ela bem que podia namorá-lo né? Ela é tão sozinha. — Comentei e saí despreocupada.

Narrado por Edward

Sentado na cabine da biblioteca da Universidade com três livros na minha frente, debatia-me com um questionamento. Tinha acabado de receber a notícia de que fui indicado pelos professores a iniciar assistência política no Senado. Uma indicação que é recebida por um estudante em mil, a qual eu não devia hesitar em aceitar, pois faz parte do caminho que tracei. Entretanto não acreditei que a realização viesse tão rápido.

Obviamente a minha dúvida se dá por saber que devo sacrificar meus sentimentos. Afinal, aceitar, põe de lado meus planos de ir em casa semestralmente, porque o período de recesso no Capitólio não acompanha as folgas escolares. Em absoluto não é justo com ela pedir mais isso: ver-me uma vez por ano ou menos, pois a dedicação aos cursos extras de línguas talvez não me permita.

Portanto, o certo é dar um basta. Não há esperança para nós. Não nesse momento.

Só não sei como me despedir se não consigo lhe dizer adeus... Não com o tanto que ela significa. Não com as memórias que se fixaram em minha mente. Eu a vejo em tudo. No meu quarto, em minha cama, nos jardins da Casa Branca, em cada parque que eu vou, em cada jardim... Sou um fraco e temo ficar louco com essa obsessão.

Divagando mentalmente, fui tirado do devaneio inconsciente pelo vibrar do telefone.

—Edward, Ryan tudo bem?

—Tudo, e você? O que te faz me ligar em período de férias? — Sussurrei para não incomodar os estudantes das cabines próximas.

—Estou ligando para o meu amigo, não posso?

—Pode, é que não é comum. — Comentei com suspeita.

—Então vou logo ao assunto. Falei de você para o meu pai, e ele se interessou muito em te conhecer. Vem aqui na minha casa?

—Não posso. —Neguei imediatamente. — Estou fazendo um curso extra, termina em três semanas. —Não era meu interesse ser apadrinhado por ninguém. Que motivo tinha Ryan para me apresentar ao seu pai?

—Edward, meu pai pode te ajudar em alguma coisa, conseguir um lugar em que você aprenda muito e se destaque. —Tentou me convencer. —Cara, tudo ali é indicação. Não pense que vai para um bom lugar se você não aceitar um empurrãozinho. Eu sei que é só uma espécie de estágio, mas você tem que se destacar. — Insistiu. E ele tinha razão. Um direcionamento ajudaria muito. Além disso, o pai dele já é um senador, com certeza tem muita coisa para passar.

—Eu vou ver. Se eu resolver te ligo. — Adiei, a fim de ter tempo para pensar.

—Er, Edward...? —Hesitou. —Eu sei que você não tem como bancar o custo de vir à Califórnia, então vou pedir para o meu pai trazer você no jatinho dele. Ele vem toda quarta e sexta. Decide aí e me liga.

Narrado por Bella

Uma semana depois

Terminei o banho para descer para o café da manhã contente por Esme ter aceitado o convite de comemorar conosco meu aniversário de dezessete numa casa de festas à noite, e quando vesti a calcinha, uma figura abusada entrou no meu quarto sem bater. No susto, me tampei com as mãos e gritei.

—Hei, fora daqui! Num tá vendo que eu estou trocando de roupa?! — Era Jasper, que agora estava careca por causa dos remédios.

Ele não ligou para meu escândalo e se sentou na cama.

—Vim te dar os parabéns. — Continuou sentado.

Praguejando, fui ao banheiro e coloquei o roupão. Ele sorriu cínico, apontando a mão para mim com falso desdém.

—Eu já enjoei de ver isso. Sabe que eu tô preocupado comigo... Tô com medo de quando sair com uma mulher e ela for fazer streep pra mim, eu falar só assim: veste a roupa que isso não me atrai mais. — Dramatizou cinicamente. — Eu vejo tanta mulher pelada! É você, minha mãe, a Rose, Jéssica, Alice... Xii, enjoei!

Impotente ante seu alto astral, terminei de me vestir no banheiro e abri os braços para receber meu abraço.

—Vem aqui, atentadinho! — Apertei-o. — Vamos sair agora pela manhã para comprar umas coisas pra gente?

—Okay. Estou com três mil em uma conta e não sei o que fazer. — Sugeriu com um dar de ombros.

—Não vai gastar a toa. Se você não está precisando, guarde. Ou compre um notebook pra você. — Propus.

—E o que você quer de presente? — Bajulou. Nos últimos meses, ele tinha pedido para eu não depositar mais o dinheiro, pois meu pai estava bancando todo o tratamento. E parte do dinheiro que depositei anteriormente, ele não gastou por completo. — Eu posso comprar alguma coisa pra você com o seu dinheiro?

—Uma lembrancinha pode. — Concedi com um sorriso. —E o dinheiro é seu, não meu.

Ao descermos as escadas, logo vi um buquê de flores na mesa de centro. No cartão tinha o nome do Mike.

'Para alguém que eu vou amar incondicionalmente a vida toda... Como amiga.'

Suspirei contente com a nossa amizade, guardei as flores e saímos, eu, Jasper e Alice. Em três semanas seria o Natal, então as lojas estavam cheias de gente e de opções. Eu queria muito comprar roupas para Edward, mas ele não aceitou nem mesmo os presentes que eu já tinha dado. Imagine roupas!

Andamos de loja em loja, e, à medida que o dia passava, eu fiquei mais chateada com ele. Queria ter recebido uma mensagem de aniversário dele logo ao amanhecer. Não custava nada. No decorrer do dia, recebi muitas mensagens e telefonemas dos meus amigos. E dele, nada. Eu começava a aceitar que tudo que o meu pai me disse era verdade. Edward realmente nunca se importou. Sempre fui eu quem o procurou. Talvez eu me cansasse um dia disso.

Sete horas da noite Edward não tinha me ligado ainda. Bom, eu é que não ia ligar para ele. Era meu aniversário, poxa! Mais horas se passaram, arrumei-me para sairmos e deitei no sofá, esperando o tempo passar para irmos para boate.

Enquanto Jasper jogava com Emmett e Alice, fiquei olhando para o visor do meu celular, deprimida pela desilusão, vendo a esperança dele ligar esvair minuto após minuto. Todos perceberam minha espera, inclusive o meu pai.

—Oi, Mike! Você vai!? — Ofeguei surpresa quando ele apareceu arrumado e me abraçou na hora que estávamos saindo.

—Lógico! Você me convidou! — Respondeu sem me soltar do abraço.

—Então vamos! — Decidi me animar.

Antes que chegássemos à porta, o telefone da casa tocou.

—Bella, pra você... — Meu pai atendeu e me entregou com uma careta de desgosto.

—Quem é? — Perguntei sem esperança, pois Edward nunca ligaria no telefone da casa.

—É o filho da Esme. — Olhou para Esme que estava perto da porta.

Peguei o telefone toda desconcertada e segui para um canto. Ninguém tirou os olhos de mim.

—Oi. — Falei baixo e sem graça.

—Parabéns, Bella! — Sua voz estava alegre. Esse não era um comportamento normal.

—Por que não me ligou no celular? — Sussurrei cautelosa sobre aquela atitude singular.

—Porque eu quis que soubessem que eu te liguei. Fiz mal? — Pareceu em dúvida.

—Não! Só fiquei surpresa. Obrigada duas vezes então, por isso e pelos parabéns. — Relaxei mais, contente.

—Espero que você continue assim: esperta, resolvida, determinada e que não desista de mim. — Desejou sorrindo.

—Com certeza. — Sorri satisfeita, porém um pouco constrangida pelos olhares.

—Sua mãe está aqui. Estão todos aqui na sala me esperando para sair. Ela quer falar com você. — Disse ao vê-la gesticular.

—Vocês vão sair?

—Sim, um beijo e eu vou passar para ela, tá? —Despedi, porque não era um bom momento para conversar.

—Poxa, Bella! só um beijo? — Insistiu e fingiu chateação.

Eu suspirei de felicidade, embora suspeitasse por ele nunca agir assim. Esme já estava ao meu lado.

—Mil. — Sorri, disfarçando. Jasper fazia careta e pôs a mão no abdômen fingindo enjôo.

—Onde? — Ele persistiu, percebendo meu embaraço e gostando.

—Não posso falar... —Dei um risinho insinuante e tímido.

—Então mil para você, dividido em quatro partes iguais, da cabeça aos pés. — Sorriu divertido.

—Acho que prefiro que fique devendo. —Virei de costas para a platéia.

—O quê? Não quer meus beijos, dona beijoqueira?! — Ele sorria incansavelmente.

—Não por telefone.

—Então põe na minha conta. — Propôs meigamente.

—Vai ficar cara. Está com saldo bem devedor. — Tentei soar séria.

—Em no máximo duas semanas chego aí e pago. — Prometeu.

—Não vai chegar antes do seu aniversário? —Eu quis saber frustrada.

—Acredito que não. Ainda vou ver com a professora de língua italiana. Pode ser que ela me dispense das aulas. — Deu uma pausa. —Eu queria muito estar com você hoje, estou morrendo de saudades. — Disse carinhosamente.

Franzi o cenho estranhando sua facilidade de se declarar. Parecia ter bebido. —O que você tem hoje, anjinho? Bebeu? — Perguntei desconfiada.

—Não muito, por quê? Só estou feliz. As coisas estão dando certo finalmente. Você está se tornando quase adulta. Meu irmão está se tratando. Minha vida está progredindo, então é isso. — Enumerou animado.

Com um sorriso bobo, suspirei e sentei no braço do sofá. —Faz quatro anos. — Insinuei, testando se ele se lembrava.

—O quê? Que eu me apaixonei por você? — Sorriu. E agora eu tinha certeza, ele tinha bebido e muito.

—Idem. — Sorri desconcertada.

—Estou te atrapalhando, né? Você quer sair... O Mike vai? — Mudou o tom na última frase.

—Sim, todos aqui em casa vão. Inclusive sua mãe. Só Rosalie que não quis vir. Mas eu também convidei. —Disse para colocá-lo a par da situação aqui, que se encaminhava a harmonia.

—Ah...Então pode ir... Parabéns de novo... Até logo, minha Bella. — Continuou amável.

—Até. Vou passar para sua mãe. — Entreguei para Esme e saí saltitante de alegria.

Meu pai não disse uma palavra enquanto esperávamos no carro por ela. Eu sorria esperançosa por Edward ter feito algo que quebrou as regras. Ligou para mim e disse sem pressão que era apaixonado por mim. Talvez haja esperança para nós, afinal.

Capítulo - Quando não quer, qualquer desculpa serve

Narrado por Edward

Terça-feira, três dias depois do aniversário de Bella, sentei à minha mesa na sala de aula do curso de aperfeiçoamento em língua italiana, em período integral, e esperei que a Sra. May entrasse enquanto folheava o livro. Logo que ela entrou, dispensou uma aluna de suas aulas e se aproximou da minha mesa.

—Sr. Hale, o senhor está dispensado das últimas aulas. Caso queira, pode se retirar a partir de agora. — Informou.

—Obrigado, Sra. May, mas eu prefiro ficar até completar a semana. — Respondi baixo.

—Não vejo motivo para você estar aqui. Essa é uma turma para aprendizes. Você já fez esse curso antes? — Indagou-me pensativa.

—Não, senhora, mas eu venho estudando a língua escrita em períodos vagos. Além disso, a língua falada aprendi com minha avó. — Disse desconcertado por causa dos olhos especulativos que estavam sobre mim.

—Bom, de qualquer maneira eu não vejo motivo para o senhor estar aqui, fique como quiser. — Voltou-se à frente da sala.

Passei o resto da manhã entediado por estar estudando algo que eu já li e reli, além de conhecer a língua. Esperei o horário do almoço e procurei encontrar a Sra. May em um local onde eu pudesse esclarecer uma dúvida, longe dos olhares curiosos.

—Posso falar com a Senhora? — Parei-a no corredor. Ela assentiu. —Se eu me retirar das aulas, vou perder os créditos?

—Com certeza não.

—E o diploma pelo curso, ainda vou receber? — Perguntei tentado a aceitar a proposta.

—Sim, Sr. Hale. Eu estou dispensando o senhor porque não acho necessária a sua presença até o fim do curso. Não vejo por que não lhe conceder o diploma.

—Obrigado, Sra. May, então eu aceito ser dispensado. Boas férias.

Despedi-me e fui para o meu quarto. Bom, era terça-feira, então eu poderia ir à Califórnia antes de ir para Washington, portanto restava-me ligar para Ryan e avisar que iria.

A viagem no jatinho de luxo do senador Jonathan Evans foi tranqüila. Ele conversou em boa parte do tempo com os seus assessores. Saímos da capital às três da tarde, em duas horas chegamos ao destino. O motorista da família nos recebeu no aeroporto da cidade. De lá, nos dirigimos à residência.

Ryan nos recebeu, e eu fiquei admirado com a grandeza e beleza de sua casa. Era de um fino acabamento e de decoração moderna. Ele me levou ao quarto de hóspedes e pediu que eu descesse para o jantar às sete horas. Às seis e meia eu desci.

—Por que não quer ficar o resto da semana? — Ryan insistiu na pergunta ao sentarmos numa sala opulenta.

—Por estar sentindo falta de casa. — Argumentei, tomando um drink que ele tinha preparado.

—Eu podia ir com você, conhecer aquelas bandas. — Sugeriu empolgado.

—Hmmm, creio não ter boas acomodações. — Torci os lábios em dúvida.

—Eu fico no hotel. Você mora perto da Bella?

Eu me movi no sofá, tenso.

—Em Forks não tem hotéis de boa qualidade, e eu não moro perto dela. Ela mora a duas horas da minha casa. — Expliquei, disposto a dissuadi-lo.

—Bom, eu posso ficar na casa dela. —Determinou animado. —Ela pediu para eu construir um som pra ela. — Mal terminou a frase, ele pegou o celular e discou.

—Oi, Bella!... Tudo... Tem um quartinho sobrando aí na sua casa?... Estou querendo passar uns dias por ae. Eu estava pensando em montar o seu som... Que bom!... Tudo bem, devo chegar aí amanhã a tarde... Não, eu vou saber chegar aí... Beijo! — Desligou e olhou para mim. —Resolvido. Amanhã cedo saímos daqui. — Disse satisfeito.

—Tudo bem. —Assenti curioso com seu motivo de ir a Washington, mas não podia responder nem o motivo de eu ter ido à Califórnia! — Você vai de carro? — Perguntei ao calcular mentalmente as horas de viagem.

—Sim. — Respondeu e nos dirigimos à mesa de jantar.

A família se reuniu e o jantar foi servido. Eram seis pessoas sentadas à mesa. Durante o jantar o pai do Ryan falou sobre o andamento de projetos de lei, a perspectiva das futuras eleições. E consegui visualizar através dos pontos levantados o dia a dia no poder americano. Ele falou sobre a faculdade que estudamos, George Washington. Disse que estudou na mesma, e que lá estudou grande parte dos políticos renomados dos Estados Unidos. O fato não era novo para mim. Esse foi um dos motivos da minha escolha por ela.

Algum tempo depois, percebi que durante o jantar a irmã do Ryan me fitava insistentemente. Ela estava posicionada entre o namorado e o pai, e por mais que eu me esforçasse em mudar a direção do meu olhar, meus olhos se encontravam involuntariamente com os dela. Ela sorria de canto, me deixando incomodado.

Terminamos de jantar e nos dirigimos eu, Ryan e seu pai a uma sala de estar, onde bebemos e conversamos. Realmente o assunto política não interessava ao meu amigo, mas ele nos acompanhou. O senador mostrou interesse em meus pontos de vista, ouvindo minhas idéias e aprovando os meus fundamentos. Após algumas horas de diálogo, nos despedimos e me dirigi ao meu quarto.

Entrei e fechei a porta, quando me virei, um vulto se jogou em meu pescoço, encontrando a minha boca e me forçou com a língua. Tentei afastá-la com delicadeza, e ela se apertava mais. Empurrei-a num impulso de defesa, e a força empregada a fez cair no chão. Acendi a luz. Era a irmã do Ryan.

—Desculpe-me. — Estendi a mão para levantá-la.

Ela deu um sorriso de canto e se levantou. Nenhum segundo se passou e, sem uma palavra, ela empurrou-me na cama e subiu em cima de mim, alcançando a minha boca. Eu a segurei, tentando afastá-la, e ela apertava forte o meu pescoço, invadindo a minha boca num movimento impetuoso de língua, enquanto puxava os meus cabelos. Por um segundo ela conseguiu atuar contra a minha vontade. Se eu não domasse as reações instintivas no cérebro, meu corpo iria me trair.

—Sai! — Empurrei-a com violência, ela se desequilibrou, mas parou em pé.

Meu desejo era insultá-la de todos os nomes possíveis, expulsá-la a pontapés, mas controlei a revolta.

—Tem como a senhorita dar licença que eu preciso dormir? —Fechei as mãos em punho, nervoso.

Ela me olhou cinicamente. —Você não gosta de mulher? — Perguntou insolente.

—Não... Estou a fim. — Respondi abrindo a porta pra que ela saísse. Se eu dissesse que o problema era ela, eu não poderia prever a próxima reação.

—Você é gay? — Ela sorriu. —Você e meu irmão... — Interrompeu-se sugestivamente.

—Tem como me dar licença? — Disse entre dentes, perdendo a paciência.

—Você não pode ser gay. — Apontou para minha braguilha, fechou a porta que eu segurava e tirou a roupa, ficando de calcinha e sutiã, depois deitou de lado na cama, de frente para mim.

A única mulher que tinha presenciado naqueles trajes foi Bella. Tão diferentes... Essa era bonita, mas Bella tem um corpo que me atrai como ímã, meus olhos saltam, meu corpo responde a ela mais que imediato. Será amor ou só paixão o que sinto por ela?

Fui arrastado para realidade quando senti a blusa sendo arrancada de dentro da calça. Imediatamente empurrei-a, enojado e deixei rapidamente do quarto, direcionando-me ao banheiro social do térreo.

—Ryan, eu estou com um problema. Tem como você descer? — Liguei ofegante do banheiro.

Minutos depois ele apareceu.

—Não tem como dormir naquele quarto... — Apontei para cima e passei a mão no cabelo.

—O que aconteceu? —Franziu o cenho curioso. — Você parece que viu um fantasma! — Sorriu. Eu me encostei à parede.

—Sua, er,... irmã foi... lá... — Balbuciei desconcertado.

—Rá! Esqueci de te avisar! Ela sempre faz isso! Mas geralmente ninguém fica assim! — Ele sorria zombeteiro. Eu cruzei os braços constrangido com a situação. —Vamos dormir no meu quarto. —Propôs, e eu o segui em silêncio impotente. —Você precisava ter visto a sua cara! A roupa amarrotada e torta, o cabelo bagunçado. Estava hilário! — Ele ainda sorria quando entramos no seu quarto.

—Tá, Ryan, que horas sairemos daqui? — Mudei bruscamente de assunto, evadindo-me de desfiar o tema. Nunca um homem em sã consciência teria fugido como eu.

—Você achou minha irmã feia? — Ignorou a pergunta anterior.

—Não.

—Você ofendeu o ego dela. Ela sempre foi cobiçada em qualquer lugar que foi. Duvido se ela vá engolir essa. — Refletiu enquanto tirava uns lençóis do armário, depois os estendeu no grande sofá acolchado no canto do luxuoso quarto.

—Sorte que não vou vê-la mais. — Sentei-me no braço do sofá.

—Sabia que meu pai faz tudo que ela quer? Por isso ela é assim, tão geniosa. Acha que pode ter tudo! — Comentou reflexivo, depois sentou na cama e me olhou sério. —Você nunca foi de sair com mulheres. Era por causa da Bella? — Questionou e me jogou um travesseiro.

—Em partes sim. — Fui reticente, indisposto a conversar.

—O que vocês sentem é muito forte, né? — Presumiu.

Eu estaria disposto a falar de qualquer assunto, menos desse, que revelava a delicadeza no meu relacionamento.

—Ryan, me desculpe, mas esse não é um assunto que eu goste de conversar. — Esquivei-me educadamente. Ele compreendeu, pois encerrou o tema, me entregou o cobertor e apagou a luz.

A viagem até Forks seria de aproximadamente seis horas, e como saímos de Berkeley, Califórnia, às sete horas da manhã, até às duas da tarde estaríamos em Washington.

Conversamos um tempo, depois enquanto a estrada se passava, encostei a cabeça no vidro e refleti silenciosamente sobre minha vida. Não sabia como seria daqui para frente. Pensar, fazia meu peito comprimir. Não queria continuar falhando e estragando tudo. Tinha um interesse especial que ela tomasse as decisões do tempo que havia de vir.

—Edward, você vai a Seattle também? —Ryan tirou-me do ponto distante dos meus pensamentos à existência de fato.

—Ainda estou decidindo. Para ir para Seattle, passo antes pelo caminho de Forks, então talvez eu passe em casa e pegue o carro. — Disse em dúvida.

—Você não devia ir logo ver sua namorada? — Arqueou a sobrancelha com interesse.

Bem, ele não parecia querer importunar, só conversar. Eu optei por ser franco. —Não somos namorados. A família dela não me aceita. — Expliquei, e imediatamente arrependi-me de expor a assertiva.

Ryan não pareceu surpreso ou estranho ao fato, mas tentou estender o tema. —Por que eles não te aceitam?

—Imagine... — Torci os lábios, desgostoso.

—Classes sociais? — Ele instigou, ciente da resposta.

—Um dos motivos, mas... —Suspirei. — Eu realmente não gosto de falar nesse assunto, Ryan. —Lamentei. Ele assentiu, e o assunto foi esquecido.

Passamos em Forks, peguei o carro da minha mãe e nos dirigimos a Seattle. Durante as quase duas horas seguintes, aproveitei o momento para pensar no que fazer. Não podia ir a casa dela, isso era fato, pois iria prejudicá-la com a família. Porém, já fora mostrado com o último telefonema que não nos afastamos. Logo, eu deveria ir á casa dela...

Mas, e depois? Ela ficaria só todo o tempo em que eu estivesse fora?

Estávamos a dois quarteirões de sua casa quando decidi, por fim, ir vê-la. Meu coração pedia. Tudo em mim pedia. Sentia-me afortunado pela simples sensação de reencontrá-la. Meu cérebro era invadido pelo êxtase que só a felicidade proporciona. Uma sensação que ultimamente só a sua presença me tornava oportuna.

Encostei perto do parque próximo a casa dela e esperei Ryan.

—Você vai ou não? — Perguntou ao encostar o carro ao lado do meu.

—Sim, só que tenho que ligar para ver se é uma ocasião favorável. — Peguei meu celular e disquei. Dependeria dela dizer se minha visita era apropriada. Antes de apertar send, olhei distraidamente para o parque e algo lá me chamou atenção. Na quadra coberta tinha quatro pessoas, duas sentadas e duas andando de patins. Reconheci imediatamente. Eram Mike e Bella, andando de patins despreocupados, e Alice e Jasper sentados próximos, com um notebook na mão. Uma imagem clara demais para ser confundida.

—Vamos?! —Ryan chamou impaciente. Eu me abstive de ligar.

—Encosta ali e me espera. — Apontei para frente do meu carro e voltei os meus olhos para quadra.

Bella sorria descontraída. Parecia à vontade e feliz... No lugar onde deveria estar... Com quem lhe era proporcional... Mike... Ele sim, era a pessoa ideal para ela. Se por uma armadilha do destino eu não tivesse entrado na vida dela, era com ele que ela estaria.

Eles apostavam corrida, ela alcançou fim da linha e se entregou a um abraço efusivo que por um minuto tive inveja de ser ele e não eu... Meu corpo estremeceu com decisão que tomei. Uma dor lacerante me atravessou, mostrando-me que eu deveria ser forte o bastante para vê-la seguir o seu caminho feliz.

Imediatamente acelerei o carro, e Ryan me seguiu, depois paramos em frente à residência dos Cullens.

—Ryan, eu vou embora. —Avisei inexpressivo— Você liga para Bella e avisa que já chegou. — Usei uma capa de impessoalidade para ocultar minha tristeza.

—Você não vai vê-la? — Abriu a boca incrédulo.

—Não. —Disse incisivo. — E eu queria te pedir um favor... — Acrescentei sem certeza, mas precisava ir em frente. —Não fala para ela que eu vim aqui, nem que eu cheguei.

Ele balançou a cabeça assentindo, e eu acelerei, sentindo-me um covarde, um fraco. Todavia era melhor do que me despedir. Não iria conseguir explicar meus motivos, meu pessimismo, minha falta de fé. Não iria conseguir dizer que descobri que a amo de um modo tão grande que quero sua felicidade acima da minha, coisa que ela não tem sido ao meu lado, por causa do meu medo da derrota. Por isso a deixo ir. Entregá-la de mão beijada a Mike é perceber que não sou digno dela, quando ela tem tão próximo alguém que ela mereça. Alguém que a família dela ama, que faz parte da mesma classe social, alguém que está sempre presente na vida dela, desde as aulas até em casa, em seus aniversários, viajando, tocando em sua banda. Quando eu poderia fazer isso com ela?

De fato, eu não o odeio. Pelo contrário, o admiro pela persistência e o invejo pela proximidade.

Narrado por Bella

Passei um bom tempo sentada sobre uma caixa de som no quarto de Emmett atenta aos detalhes da instalação de som que Ryan discutia com Emmett, depois os deixei e desci para preparar um lanche.

—Oi, Esme! —Cumprimentei surpresa em encontrá-la na sala. — Estão indo para o hospital? — Perguntei e só depois percebi que Jasper estava com uma mochila nas costas. —O Jasper vai embora?

—Eu vou levá-lo para o fim de semana. — Respondeu inexplicavelmente desconcertada.

—Por quê? Passa o fim de semana aqui você! Bom que a gente sai de novo. Semana passada foi tão bom. Chama a Rose e vem. — Convidei e sentei no sofá em frente a ela.

—Tenho umas coisas para fazer. — Esme respondeu reticente.

—Ah, tá bom. Edward deu notícia? —Mudei de assunto. — Queria saber quando ele vem. —Comentei certa de que quando ele chegasse o traria em casa. Nada de ficar escondido.

Esme desviou os olhos dos meus.

—Ele chegou ontem, Bella. — Respondeu sem graça.

Eu juntei a sobrancelha confusa.—Por que ele não veio buscar o Jasper então? — A pergunta foi mais um pensamento alto.

—Não sei.

Nos instantes seguintes, minha mente trabalhou arduamente levantando motivos dele não ter vindo. Não entendia... No meu aniversário ele ligou, me deu altas esperanças e uma semana depois chega e nem me avisa! Além de tudo, não veio buscar o irmão, o que seria uma boa estratégia para me ver, se ele quisesse. Rá! Com certeza ele estava bêbado aquele dia... E realmente ele nunca, nunca, vem atrás de mim... Papai tem razão.

Respira, Bella, sem pânico.

—O médico deixou Jasper ir? — Questionei com a voz levemente alterada pela revolta interna.

—Eu avisei a Charles que se Jasper passasse mal, ele voltaria. —Explicou cautelosa. — Com Edward em casa fica mais fácil de locomovê-lo. —Sorriu simpática.

—Mas Jasper vai ficar lá as férias toda? — Fingi neutralidade, mas lamentava que o menino ficasse longe de nós.

—Estou pensando ainda. Ele está melhor esses dias, e como está indo ao hospital só uma vez na semana, tem como o irmão dele trazê-lo, se preciso.

—Ah, meu pai já sabe?

—Sim, eu já liguei para ele.

Inconformada, levantei e fiquei em frente ao menino que em pouco tempo se tornou parte da família. —Jasper, se cuida tá. — O abracei carinhosamente, já acortumada a cuidar dele. No instante seguinte, Alice também veio se despedir dele com um abraço.

—Qual é gente! —Ele ralhou zombador. — Que clima de velório é esse!? Eu estou indo pra casa! Vocês agora querem me aprisionar aqui, é?! — Brincou, divertindo-se às nossas custas.

Depois de rirmos com suas brincadeiras presunçosas, os deixamos no portão e eles se foram. Eu respirei fundo e engoli desgostosamente a decepção que tinha travado em minha garganta minutos antes.

No dia seguinte seria aniversário dele. E fazendo juz a pessoa educada que sou, sentei em frente ao telefone residencial e encomendei um telegrama para a telefonista: Feliz Aniversário. Tudo de bom. Nada mais que isso. Seria fria e impessoal.

Mais tarde, saímos eu, Alice, Ryan e Emmett para comprar os equipamentos que compunham o som e almoçamos na rua. Depois passamos o resto do dia envolvidos na montagem.

—Bella, Edward acabou de me ligar para ir a casa dele amanhã para o aniversário dele, você vai? — Ryan perguntou após terminar a ligação. Ah, iria ter comemoração, e Edward não me convidou!?

O frio que atravessou meu estômago foi instantâneo. —Não. — Sussurrei tentando não deixar transparecer a minha dor.

Saímos à noite para mostrar a cidade para Ryan, e o passeio me distraiu. No dia seguinte, embora eu estivesse chateada, lutei muito contra mim para não ligar para Edward. Meu amor próprio venceu e decidi que o correto era procurar alguma coisa para fazer.

—Emmett, hoje o sol tá lindo, vamos sair para fazer uma trilha? — Propus ainda na mesa do café da manhã.

—Eu também quero! — Alice saltitou de entusiasmo.

—Não sei... Pra onde vocês querem ir? — Perguntou desinteressado.

—Vamos para a praia da reserva! — Alice sugeriu animada.

—Não, lá é longe demais e não tem infra estrutura nenhuma! — Neguei na hora. Seria muita tortura pra mim.

—A gente leva as coisas, Bella. — Alice insistiu, e eu lancei um olhar de poucos amigos.

—Se vamos sair, prefiro ir à praia mesmo. Estou cansado e não estou a fim de fazer trilha. — Emmett disse ainda em dúvida.

Deitei sobre os braços na mesa, impotente. —Tudo bem. — Concordei desanimada.

—Vou levar o Mike. — Emmett adicionou e pegou o telefone para ligar. Eu não tinha escolha. O correto era relaxar e curtir.

Levamos um violão e fui tocando enquanto Alice cantava. Mike dividiu a atenção entre mim e Jéssica, carinhoso com nós duas. Chegamos à praia onze horas, encontrando-a cheia. Depois de organizarmos um local para nossas cadeiras de praia e toalhas, chamei Mike e fomos até as rochas admirar a paisagem.

Após um tempo de passeio, senti o telefone vibrar no bolso do short.

—Oi, Bella, é Edward. —Sua voz parecia apreensiva.

—Oi. — Falei sem entusiasmo.

—Obrigado pelo telegrama.

—De nada. — Disse bloqueando as emoções que congelavam minha espinha.

—Está tudo bem? — Perguntou após um silêncio prolongado.

—Está, e você? — Perguntei inanimada, torcendo que ele sentisse o quanto era ruim conversar com uma pessoa monossilábica.

—Estou bem.

Outra pausa de silêncio se fez. Eu não fiz o mínimo esforço de estender a conversa.

—Então tá, até mais. — Ele se despediu sem jeito.

—Até. — Despedi com a voz ligeiramente trêmula e desliguei o telefone rapidamente, arfando com o bolo na garganta.

Passados alguns minutos, consegui recuperar o bom humor e fui dar um mergulho. Divertir-me na companhia do Mike foi fácil. Agora eu sentia que não havia mais interesse.

Depois de um tempo, paramos para retocar o protetor solar, e Mike espalhou pelo meu rosto.

—Bella! — Virei o rosto, e Jake parou para falar comigo.

—Oi! —Cumprimentei-o entusiasmada.

—Perdida por aqui? —Girou a mão no ar, apontando em volta.

—Não. Vim a passeio com meus irmãos e com Mike. — Apresentei Mike, e ele o cumprimentou. —Aquelas são minhas irmãs e meu irmão. — Apontei para os outros. Jake cumprimentou todos, recebendo um olhar avaliador de Jéssica, depois nos afastamos para conversar num canto.

—Aquele dia você sumiu. — Comentei referindo ao dia que o conheci na praia.

—Pois é, depois de ver você e Edward discutindo a relação, eu tive que cair fora! — Ele sorriu. —Tem visto ele?

—Não. Tem uns meses que não o vejo. — Respondi desinteressada, pensando em sair desse assunto imediatamente.

—Ah, estou indo para a casa dele daqui a pouco. Vai ter uma reuniãozinha de amigos lá.

—Legal. — Tentei soar descontraída. —A minha irmã ficou interessada em você. — Fugi do assunto.

—Dá o meu telefone para ela, anota aí. — Ele me deu o telefone e despediu.

O resto da tarde se passou lentamente. As lembranças da última vez que estive na praia repetiram-se dolorosamente, e ainda que eu disfarçasse, eu me deixei abater pela tristeza. O tempo passou, eu voltei a caminhar na areia com Mike e no fim da tarde o meu telefone tocou. Olhei o visor e vi que era Edward de novo. Atender ou não atender? Questionei-me teimosa.

—Fala. — Atendi fria.

—Bella, você está na reserva? — Perguntou com a voz estranhamente animada.

—Sim. — Respondi sem mudar o tom.

—Por que não veio aqui? — Um frio percorreu meu estômago ao ouvir a pergunta absurda.

—Por quê? — Sorri sem humor. —Será porque eu não tenha sido convidada? — Ironizei amarga.

—Foi por isso ou por você estar com Mike? — Retrucou com acusação no tom.

—É. É sim. É por isso também! — Revidei enervada. Estava cansada disso.

Uma pausa de silêncio se fez, tempo que minhas mãos suaram. Foi ele a interromper: Bella, eu sei que não é... Desculpe.

Eu respirei fundo.

—Edward, pare de se desculpar por tudo! Você só tem dado fora! — Evidenciei impaciente. Ao meu lado meus irmãos me olhavam curiosos. —Olha, esse assunto já encheu. Então esquece e fica tudo bem. — Concluí, exasperada.

—Passa aqui... — Ele pediu humildemente, e eu senti meu peito arder... Era tarde!

—Edward... Por que você não me ligou quando chegou? — Perguntei amarga, sem ocultar o desapontamento na voz. Ele não respondeu. Eu continuei. —Porque não estava com saudade de mim, não é? — Dei uma pausa. —Porque eu não tenho tanta importância assim para você, não é? — Soou seco e triste. Ele não refutou. Eu suspirei vencida. —Edward, eu não vou passar aí. Estou cansada de ficar atrás de você, estou cansada de forçar uma situação que você não quer. Sinceramente, eu não consigo te entender, então: . .você. — Pontuei enfaticamente as últimas frases. —Parabéns e até mais.

Desliguei o telefone, respirei fundo e fechei os olhos, com a cabeça apontada para o céu. Que me olhassem! Não tinha nada para esconder de ninguém. É isso mesmo que todos ouviram. Acabou!

—Você está bem, Bella? — Mike me abraçou pelos ombros, solidário.

—Eu vou melhorar. Obrigada. — O abracei de volta, com a cabeça no seu peito.

Depois de nos organizarmos para ir embora, eu entrei no carro do Emmett, e antes que Emmett desse partida, o conversível do Ryan fechou a passagem.

—Já vai? — Ryan perguntou a Emmett, com Rosalie sentada displicentemente ao seu lado. —Tá cedo! Tem um pessoal vindo aqui para fazer um luau. — Informou empolgado.

—Estamos cansados. — Emmett respondeu. —Fica pra próxima.

—Então não vou voltar para terminar de montar o som. — Ryan dramatizou exageradamente. —Qual é! Eu não estou aqui o ano todo! Fiquem aí. Vamos curtir a noite! —Insistiu com um sorriso maroto.

—Vocês querem ficar, gente? — Emmett olhou pelo retrovisor.

Eu não respondi. Jéssica e Alice gritaram empolgadas que sim.

—Quem vem? — Emmett ponderou.

—Uns colegas dela. — Apontou para Rosalie que se mantinha em pose indiferente.

—Tá, a gente vai ficar um pouco. — Emmett concordou e sibilou baixinho conosco. —Caramba! O cara mal chegou e já está desfilando com uma loura dessas!

No mesmo instante, belisquei Alice no banco da frente e tive vontade de sorrir de seu comentário. Minutos depois chegaram doze pessoas com um violão. Entre elas, Edward, Jasper e Jake. Desci do carro apática e Mike me ajudou a estender nossas esteiras novamente no chão, perto do local onde sentaram em roda. Emmett se animou e pegou o violão, ignorando a presença de Edward. Bem, confesso que fiquei admirada em vê-lo ali. Não era bem a cara dele estar lá.

Alice sentou de um lado meu, Mike do outro e Jéssica deitou a cabeça na perna do Mike, enquanto isso cantavam músicas antigas do Michael Jackson. Eu apoiei o rosto no joelho melancólica demais para cantar. Após um tempo, Jéssica sentou e começou a flertar com Jake. E como eu sou uma boa irmã, passei o telefone dele para ela, e ela mandou uma mensagem. Em pouco tempo ele a chamou para sentar perto dele.

Em nenhum momento eu levantei os olhos para encontrar Edward.

Anoitecia, e era uma agradável noite de lua cheia. Alice chamou Jasper para sentar ao lado dela. A temperatura esfriou no meu corpo por eu estar só de short e biquíni, então me aproximei mais do Mike, que passou o braço em minha volta solícito. Deitei a cabeça no ombro dele e fechei os olhos.

Inesperadamente meu telefone vibrou no bolso do short. Olhei no visor e tinha uma mensagem do Edward.

Mensagem Edward 19:05 PM

Pelo amor de Deus, não me torture assim...

Levantei os olhos para fitá-lo, e ele estava de cabeça baixa, digitando outra.

Mensagem Edward 19:06 PM

Eu nunca te pedi nada... Fica comigo hoje.

Realmente ele nunca me pediu nada. A não ser para esquecê-lo, para deixá-lo em paz. Rá! Se ele queria ficar comigo por que não me procurou quando chegou!?

Escrevi uma resposta.

Não é uma boa idéia... Melhor não...

Recebi outra.

Mensagem Edward 19:08 PM

Um beijo e nada mais... Finja que ainda me quer... É meu aniversário.

Suspirei com o frio percorrendo meu estômago. Como eu queria beijá-lo! Ele nem sabia o quanto. Mas isso não seria correto. Acabou.

Escrevi mais uma e enviei.

Não precisamos nos magoar mais.

Mensagem Edward 19:10 PM.

Por favor, encontre-me perto do Jipe do seu irmão. Eu preciso de você. Saiu como uma súplica, quase implorativo. Meu Deus! E agora? Será que eu queria mesmo fazer isso?

—Me empresta a chave. —Cochichei no ouvido de Emmett. —Vou lá no carro buscar uma blusa de frio. —Ele parou de tocar, enfiou a mão no bolso e me entregou a chave.

—Quer que eu vá com você? — Mike prontificou-se amistoso.

—Não. Por favor, fique. — Encarei-o firme, rezando que ele entendesse. —Eu vou demorar um pouco. — Avisei e saí. Ele me acompanhou com o olhar até o momento em que cheguei ao carro.

Encostei-me ao jipe e esperei Edward. Ele mal chegou, não disse uma palavra, puxou-me para seus braços e me beijou avidamente, enfiando rápido sua língua em minha boca. Acariciei receptiva sua língua, ansiosa, e as famosas borboletas começaram a subir e descer em meu estômago, queimando como larva meu interior.

O beijo, o aperto, tudo foi diferente. Edward nunca foi de tomar iniciativas, mas ele pressionou meu corpo rudemente contra o carro do Emmett, encaixando nosso quadril. O beijo estava desesperado, faminto, enquanto passava as mãos pela extensão do meu corpo. Meu sangue ferveu e meu corpo respondeu rapidamente, devido à saudade que nos rodeava e ao desejo fundamentado pela distância. Eu o queria muito, meus lábios o pediam e se entregavam de uma maneira arrebatadora.

Após um tempo, afastei-o em busca de ar, e sem perda de tempo, ele pegou atrás da minha nuca e continuou beijando ardentemente minha orelha, mordiscando, com as mãos passeando em minha barriga, cintura, braços. Eu ficava aos poucos tonta, vendo estrelinha coloridas. Uma mão sua foi para os meus seios, por cima do biquíni, e apertou o bico, a outra segurou possessivamente no meu quadril, me moldando as suas formas. Eu arfava por ar, me sentindo mole, mas voltei para os seus lábios, morrendo por extrair dele tudo que eu tinha direito.

Ficamos ali por vários minutos, nessa ânsia um pelo outro. Meu corpo e meu cérebro só pediam mais.

—Bella! — Me virei em direção à voz enquanto ofegava. Era Emmett. —Eu... Eu vou fingir que não vi. — Balançou a cabeça e voltou de onde veio.

Edward me apertou ao carro e me abraçou forte.

—Feliz Aniversário, Edward... —Eu disse com um sorriso. — Você é muito importante para mim. — Adicionei sincera e o abracei novamente, apertado, esquecendo por um minuto da distância que nos separava. —Vamos voltar? — Sugeri, antes que eu fosse invadida pela dúvida e dor de não ter.

—Tem certeza...? — Não era uma pergunta, era um lamento enquanto ele me apertava mais no abraço. Meu coração doía. Eu poderia ficar com ele para sempre que não me sentiria satisfeita... Mas eu não dava mais conta... Tinha que existir algum orgulho em mim.

—Eu vou indo... — Soltei-me dele devagar e me virei para sair.

Ele segurou minha mão. —Bella... O que você espera de mim? — Seus olhos eran suplicantes, algo que eu não entendia. Ele decidiu por isso. O que eu esperava dele? Talvez o que eu esperei antes fosse segurança, mas isso ele não conseguiu me dar. Agora talvez eu não esperasse nada.

—Eu acho melhor não conversarmos. —Avisei. — Quanto mais conversarmos, mais iremos nos magoar... —Ele não me soltou, como se ainda esperasse. Eu decidi falar. —É, eu queria que você pensasse o que você quer de mim, Edward. — Comecei. —Porque eu já falei várias vezes o que eu queria de você. — Disse pausadamente. —Eu enfrento meu pai para ficar com você, faço mil coisas para ficar com você... E você não faz nada por mim... — Expliquei infeliz. —Eu até te esperaria para sempre, se soubesse que você quer que eu te espere, mas eu não vou mais esperar em vão... — Respirei fundo. —Foi um choque ontem quando sua mãe disse que você voltou... Pense comigo: eu te esperei três meses e no dia que você voltou nem um telefonema você me deu! Eu não quero isso pra mim! —Balancei a cabeça. — É doentio! Todo mundo percebe que você não está nem aí pra mim, até Alice pediu para eu não te ligar ontem! Chega! Eu já cansei! Não adianta eu acreditar na sua mudança, quando você não muda... Sabe, eu aprendi uma coisa esses dias: 'quando a gente não quer, qualquer desculpa serve'. Você vive inventando desculpas... Então eu já sei que você não me quer... Você é tudo pra mim, mas eu desisto. — Decidida, não olhei em seus olhos e voltei para a praia, onde me sentei ao lado do Mike.

Eu queria chorar, mas o meu restinho de amor próprio não permitiu. Após isso, ficamos somente meia hora na praia. Para não ter que me despedir, fui antes de todos para o carro. No caminho, todos perceberam que eu estava mal, inclusive Emmett, que não comentou nada sobre o ocorrido.

—Bonita é a menina que estava com Ryan. —Emmett comentou. — Que corpo! — Eu sorri silenciosamente. Enfim uma coisa que teve graça.

—Pena que é uma caipira né, Emmett! — Arreliei amarga, ciente que ele não sabia que Rosalie era irmã do Edward.

—Pois é né, Bella, tem gente que gosta. — Zombou. E para não descontar minha frustração em ninguém, preferi o silêncio.

Ryan ficou o fim de semana em Forks e voltou segunda para minha casa, acompanhado por Rosalie. Como eram férias, combinamos de ir ao cinema.

—Pra onde vocês vão? — Emmett perguntou ao descer as escadas e nos encontrar. Ryan explicou, Emmett se ofereceu para nos acompanhar e chamou Jéssica.

Já no Centro, lanchamos e assistimos a um filme. Do cinema resolvemos ir a um barzinho perto do lago. Em nenhum momento Emmett tirou os olhos de cima de Rosalie, chegou a ser constrangedor.

—Bella, faz favor. — Ryan me chamou em um canto. —O que você tem com esse cara? — Referiu-se ao Mike. —E o que quê tá rolando entre você e Edward? Que bagunça é essa? Eu me desgastei a toa lá na capital! Vocês pareciam tão bem! — Ryan disparou a falar.

—Eu desisti. — Dei de ombros. —Então acho que acabou.

—Por quê desistiu?

—Por vários motivos, mas o principal é por ele nunca me procurar.

—Mas você está bem? — Me olhou com interesse.

—Sim, e vou melhorar mais. — Disse com a convicção que eu não tinha. —Eu só preciso não vê-lo.

Voltamos para a mesa e conversamos animadamente. Antes de ir embora, Ryan combinou de voltar no final da semana para terminar de montar o som. Eu aproveitei e convidei Rosalie.

Meu irmão iria ter um colapso quando descobrisse que a mulher que ele babava era uma caipira filha de funcionário, exatamente o tipo de pessoa que para ele não servia para nós. Rezei para que ela viesse sábado! Se ele a visse passeando de biquíni pela casa iria cair o queixo.

A semana passou rapidamente. E cada vez que eu olhava o telefone, um pensamento ardia em meu coração. Se ele ao menos me ligasse...

Como combinado, sábado Ryan veio e trouxe Rosalie, que vestiu um biquíni minúsculo e deitou ao meu lado na esteira na beira da piscina.

—Rosalie, você está namorando Ryan?

—Não! Não gosto de relacionamentos impossíveis. —Respondeu imediatamente.

—Mas por que não daria certo? — Apoiei o rosto no braço. —Você é outra que se preocupada com diferenças sociais? — Perguntei incrédula. Só podiam ser irmãos!

—Fomos criados acreditando que cada um tem seu lugar, Bella.

Puxa, só não conseguiram fazer a lavagem cerebral no Jasper, pensei surpresa

O som foi instalado bem mais simples que o do Ryan, mesmo assim em todos os cômodos tinham pequenas caixas instaladas, com uma concentração maior na sala de festas. Emmett ficou empolgado e convidou uns amigos para curtir o som novo em nossa casa. O Ryan ficou.

Percebi que novamente Emmett não tirou os olhos da Rosalie, e, pela primeira vez em muitas festas, ele não ficou com ninguém. Ela agiu como se ele não existisse. Um troco rápido da vida.

No natal, meu pai convidou Esme para cear conosco, mas ela não veio. Foi bom não ter vindo. Não queria que Edward culpasse minha família também por deixá-lo sozinho em dia de Natal. Mandei antes os presentes em nome da família: um celular para Jasper, uma sandália para Rose e uma blusa para Esme. Para Edward mandei um livro sobre a biografia de Roosevelt. Se ele decidisse devolver, que devolvesse.

—Bella, Jasper acabou de ligar agradecendo os presentes. — Alice avisou, quando me encontrou na sala.

—Que bom. Eles disseram se gostaram? — Deitei no sofá enquanto o jantar ficava pronto.

—Sim, Jasper disse que adorou.

—Legal.

—Você está tão pra baixo, Bella. — Pegou minha mão, solidária.

—É só impressão. —Dei de ombros.

O decorrer da noite foi tedioso para mim. Não consegui ficar feliz. Eu tinha vontade de desistir de resistir e ir atrás dele. Bastaria procurá-lo que tudo se resolveria e ficaríamos juntos mais umas férias... Mas eu não ia fazer isso, repeti. Não podia me conformar com tão pouco.

Sem fome, belisquei a comida e me preparei para deixar a mesa.

—O que você tem, Bella? — Meu pai perguntou, enquanto comia o Tender.

—Vou deitar, pai. Estou cansada. — Avisei e levantei.

—Seu cansaço tem alguma coisa a ver com a família da Esme? — Inquiriu preocupado.

—Não! — Sibilei e me virei para sair.

—Filha, você é boa demais para ele. —Insistiu no tema.

—Não se preocupe. Já acabou. — Murmurei tristemente, de costas para ele.

—Com tantos garotos você foi gostar justo dele... — Criticou desgostoso. Eu não entendia a implicância dele. E o fato de querer continuar a conversar com todos presentes na mesa era muito constrangedor! Minha família toda me olhava com compaixão, mas eu não precisava que tivessem pena de mim.

—Aconteceu, a gente não escolhe de quem gostar... Boa noite. — Encerrei inanimada e subi.

Após telefonar para minha mãe para desejar um bom Natal, acessei minha caixa de e-mail e encontrei uma mensagem do Edward de dois dias atrás.

Mensagem Edward 22 de dezembro

Oi...

Bella, eu demoro a me acostumar a ficar longe de você, então quando chego novamente aqui, eu tenho certeza que não vou conseguir. Tenho vontade de desistir de tudo para ficar com você, mas desistir de tudo seria a arma que nos separaria futuramente, pois tiraria as minhas chances de um dia te merecer.

Penso e escrevo idéias soltas, e não escrevo nada, simplesmente porque eu estou perdido. Não sei o que pensar... Só não quero te perder.

É injusto esse pensamento, porque não quero perder algo que sei que não é meu. E não sei o que fazer! Não sei o que te pedir... Eu só queria que esquecesse tudo e ficasse comigo novamente... E ao mesmo tempo estou lutando para te dizer adeus.

Não sei o que acontece comigo. Na capital, vejo você em tudo, conto as horas para te ver... Mas quando chego aqui, dou de cara com a realidade de quem você é e vejo que estou lutando contra o destino.

Eu sinto sua falta. Quero muito você.

Eu nunca planejei me casar, ter muitos filhos e ser feliz para sempre como muitos caipiras daqui, mas quando estou com você, esse é o meu desejo, nem que eu continuasse sendo um caipira baixa-renda para sempre... É disso que eu tenho medo. Do que sinto quando estou com você. E eu não posso perder o foco.

Desculpe...

Edward.

Tamborilei os dedos na mesa e me debati sobre como responderia. O certo seria responder sem prolongar, decidi.

Não entendi o objetivo da mensagem, mas não importa. Siga os seus planos.

Fui fria e objetiva. Sinceramente não entendia qual era a dele. Será que ele queria dizer que gostava de mim, mas que não queria casar ou que não me queria no futuro dele? Puxa, quem disse que eu estou pedindo ele em casamento?

Bem, no futuro, ele deve querer ser rico, poderoso e SOLTEIRO. Deve ser isso!

Que seja!

Na segunda-feira, dois dias depois do Natal, eu dormia profundamente, quando uma voz distante invadiu minha consciência enevoada pelo sono

—Bella, acorda... Vim te dar um beijo.

—Oi, Jasper... — Acordei sonolenta, levantei e fui ao banheiro me arrumar, enquanto ele esperava deitado na minha cama. —Pronto. Novinha em folha. — Abracei-o calorosamente. —O que faz aqui?

—Vim consultar e passei aqui para ver vocês. — Respondeu sorridente.

—Veio com quem? — Perguntei, mas não tinha certeza de querer saber a resposta.

—Com o meu irmão. Ele está lá fora no carro.

—Humm, já viu Alice? — Tentei desviar o assunto.

—Sim, acordei ela também. Ela foi ficar com o meu irmão lá fora.

Bom, iria perguntar pela Esme, pensei. Com certeza ela também não estaria 'lá fora' com o irmão dele.

Continua...