Você é minha vida

Narrado por Bella

Ignorei o comentário de Jasper sobre seu irmão e peguei em sua mão.

—Vamos descer e lanchar? — Puxei-o para descer as escadas. Encontramos Emmett, que estava se preparando para sair, ele sentou-se à mesa conosco e nos fez companhia.

—Como estão os enjôos matinais? — Perguntei e coloquei pães na torradeira.

—Bem melhor. — Respondeu sem humor. Ele estava meio pra baixo.

—Mas você está comendo direito, está seguindo a dieta? — Questionei preocupada.

—Para, Bella! —Ralhou desanimado. —Está parecendo minha mãe! — Sorriu fracamente.

Imediatamente larguei o que estava fazendo e o abracei, morta de saudade dele.

—Você podia ter vindo no Natal. —Reclamei manhosa. —Minha casa estava tão ruim sem você. — Acariciei seu pálido rosto.

—Você queria ele ou o irmão dele, Bella? — Emmett gracejou, mas fiz pouco caso da brincadeira.

—Jasper, em tão pouco tempo eu já gosto mais de você do que de um irmão que eu tenho. — Insinuei fingindo severidade, mas no fundo amava e compreendia o zelo de Emmett.

—Eu também gosto de vocês como meus irmãos. —Jasper disse triste. —Vocês são muito bons para mim.

—O que há com você hoje? Está sério... Nenhuma brincadeira... — Analisei-o, desconfiada.

—Estou chateado. —Torceu os lábios. — Eu pensei que nós íamos ser parentes, mas você e o meu irmão não se resolvem.

Emmett continuou sentado à mesa sem mudar a expressão. Eu queria fugir do assunto.

—Ah, mas e você e Alice? Podem namorar. — Tentei descontrair, embora nunca tivesse percebido nada anormal entre os dois.

—É doida, Bella! Edward me mata! — Sobressaltou temeroso.

Eu balancei a cabeça incrédula. Mais essa agora! Além de tudo ia se intrometer na felicidade dos outros!? A cada minuto Edward me decepcionava mais. Seria ainda por não gostar do meu pai? Seria por causa de diferenças sociais? Via que Edward é mais preconceituoso que qualquer um de nós!

—Jasper, você é dono da sua vida. Você escolhe com quem você quer ficar. Não é porque o seu irmão é assim que você tem que ser. — Disse entredentes, sem esconder a revolta na voz.

—Com quem você veio, Jasper? — Emmett perguntou.

—Com o meu irmão. Ele está lá fora.

—E por que ele não entra? — Teve a audácia de perguntar, provavelmente por saber que eu tinha desistido.

—Esqueceu, Emmett?! 'cem metros de distância' e 'nunca vou atrás dela?'' —Repeti teatralmente, recitando o que Edward prometeu no dia em que brigamos na minha festa de 15 anos. Seria por isso que Edward nunca veio atrás de mim? Mas então por que aquela atitude na praia? Por que enfim ele tomou uma iniciativa? Inclusive a de me beijar sem que eu tomasse a iniciativa?

Emmett me olhou surpreso com minha amargura.

—Tchau, gente. Tenho que ir. — Avisou e subiu as escadas para ir ao quarto dele.

—Jasper, espera aqui que eu vou trocar de roupa. —Eu pedi, indisposta a passar o dia de pijama.

Saber que Edward estava lá fora era uma tortura, pensei enquanto subia as escadas. Tudo em mim pedia para ir lá pelo menos vê-lo. Mas não podia- repeti. Seria demais para meu domínio. Depois de vestir um short e regata, dei uma espiadinha furtiva da varanda do meu quarto e me surpreendi quando vi Emmett conversando com ele. Não pareciam hostis.

Desci desconfiada, e Jasper jogava na sala de jogos.

—Eita vício! — Comentei e sentei ao seu lado para jogar. —Leva para sua casa. — Apontei para o game, pois o da casa dele não era tão moderno.

—Não dá, talvez Edward não fique as férias todas aqui e, se ele for embora, eu tenho que voltar pra cá. — Respondeu sem tirar os olhos da tela.

—Quando ele vai? — Perguntei intimamente frustrada em saber que ele se ia.

—Depois do Réveillon. Mas ele não tem certeza ainda. Está dependendo de uma confirmação de vaga no dia dois.

Mesmo desiludida, não deixei a tristeza me abater. Ele tinha mesmo que seguir com a sua vida.

—Bella, vai lá fora que Edward quer falar com você. — Alice apareceu na sala e avisou.

Eu não vou. - resmunguei internamente.

—Ele está quase três semanas atrasado. — Disse com mordacidade e continuei jogando.

Jasper me olhou com censura e voltou a jogar. Depois de algum tempo, Jasper avisou: Bella, eu já vou. — Levantou para sair.

—Tá bom, se cuida. — Acompanhei-o e o abracei.

—Você não vai lá fora mesmo? — Questionou em tom de cobrança.

—Para o meu bem, é melhor não. Mande um beijo para sua mãe e para Rose.

—Tudo bem. Avisa para Jéssica que eu não fui acordar ela porque Alice disse que ela chegou quase de manhã.

—Ela vai entender. — Caminhei ao seu lado até a porta da sala.

Ele hesitou, olhando triste para mim. —Bella, vocês dois vão continuar nesse clima? —Apontou para fora.

—Jasper, eu não vou mais insistir. — Expliquei cansada do assunto.

—Ele quer falar com você. Ele é doido por você, Bella. — Insistiu, e um friozinho percorreu meu estômago ao ouvir.

—Bastava-me saber que ele gosta e quer, mas não é isso o que acontece. Para ele, gostar não é o mesmo que querer; e ainda que ele me queira, não é no futuro dele. Ele é muito fissurado nesse futuro e esquece-se de construí-lo a partir do presente. E se eu não me encaixo, não vou mais insistir. — Sentenciei obstinada.

—Você podia pelo menos ser educada. Ele não entraria aqui nunca sem a presença ou o convite do seu pai, então você podia ir lá, já que ele quer falar com você. — Argumentou sério.

Com minha resolução sendo enfraquecida, pesei minhas opções... Eu posso conviver com ele. Normalmente sou uma pessoa simpática e amiga. Realmente seria falta de educação não ir lá fora. E se eu não for, estarei fugindo, quando deveria enfrentar.

—Tá, você ganhou. — Sorri e saímos abraçados.

Edward estava na rua, encostado no carro. Alice conversava com ele sentada no meio fio, sob a sombra de uma árvore.

—Oi, Edward. — Forcei o sorriso no rosto. Eu estou bem. Eu posso fazer isso. Repeti mentalmente.

—Oi, Bella. — Cumprimentou timidamente.

—Alice, você viu meu boné da Nike? —Jasper perguntou conspirador.

—Sim. Vamos buscar. — Alice levantou com olhar dissimulado e puxou Jasper.

Eu encarei as costas de Jasper fulminantemente. Ficar sozinha com Edward não foi o planejado. Estava ferida e minha incisão não cicatrizara ainda. Era uma dor cortante, que oscilava entre a boca do estômago e o peito. O mar de sentimentos que julguei estar acalmado revoltava-se no íntimo. E abalada pela comoção, encostei-me ao carro, com medo de cair pela fraqueza em meus joelhos.

Como não sou covarde, resolvi ir em frente e enfrentar a situação.

—Queria falar comigo? — Iniciei com neutralidade educada.

—Sim... Só dar um oi e me despedir. — Explicou claramente nervoso.

—Já vai embora para Capital? — Tentei ser amistosa para não deixar o clima tenso.

—Sim. Estou com uma sensação de perda de tempo. Vou tentar fazer outro curso.

Eu balancei a cabeça em negativa incrédula. Bem a sua cara Edward! Não dar valor a coisas realmente importantes. Uma raiva que eu não queria sentir ganhava vida. Controlei-a porque atrás da raiva viria a decepção e atrás da decepção viria a tristeza.

—Ficar com sua família é perda de tempo para você? — Encarei-o acusadora.

—Não! — Respondeu na defensiva. —Mas você sabe que quanto mais cursos extras eu fizer, melhor para o meu currículo e mais rápido eu termino o curso. — Explicou-se movendo as mãos tensamente.

—Ah, eu tinha esquecido que você vive no futuro. — Espetei com amargura.

Eu devia aproveitar o momento e falar tudo que pensava, mas a minha real implicância não era com os projetos dele, era com a sua atitude.

—Eu não estou te entendendo, Bella. — Ele cerrou os olhos magoado.

—Você não vive o presente. Vive no futuro. —Citei pesarosa. —Espero que o seu futuro seja tão bom como você planeja. Espero que quando chegar lá, você se satisfaça financeiramente, familiarmente e emocionalmente, porque hoje, nada disso é satisfatório para você! — Disse num fôlego só, incapaz de ocultar o ressentimento.

—Por que você está falando isso? — Franziu o cenho e posicionou-se frente a mim. Nem eu sabia como tínhamos chegado àquele assunto. Não entendi o objetivo do meu argumento.

—Não sei. —Suspirei desolada. —Só acho que as pessoas devem deixar o futuro acontecer.

Uma pausa longa de silêncio de fez, e eu me perguntei o que ainda fazia ali. Doía estar lá. Não tínhamos mais assunto. Ele suspirou, pensativo, e passou a mão no cabelo. —Bella, você quer sair comigo hoje à tarde? — Sussurrou hesitantemente.

Enrijeci o corpo como se tivesse uma lâmina me percorrendo e engoli em seco, armando-me para me proteger. Como ele fica três semanas sem me procurar e agora aparece me chamando para sair! É tarde demais!

Respirei fundo, domei minha cólera e respondi calmamente. —Não... Não posso, não quero e não devo.

—Por quê? — Ele queria mesmo saber?

—Não posso, porque tenho ensaio pra tocar hoje à noite em uma festa; não quero, porque não temos mais nada, aliás, nunca tivemos! E não devo, porque não vou me permitir iludir novamente. — Disse firme, olhando fixamente para algum ponto na minha chinela. Não olhar para ele era o melhor jeito de me proteger.

—Então tudo bem... —Pareceu um lamento. — Eu já vou... Vem me dar um abraço. — Ele mal falou, segurou meus ombros e me puxou para um abraço forte, sem me deixar pensar.

Meu cérebro gritou alerta. Ficar assim tão próximo não era tolerável. Não sabia quanto tempo poderia resistir.

—Você vai quando? — Afastei-me do abraço sutilmente.

—Ainda vou confirmar meu nome na internet, mas provavelmente em seis dias.

—Mas você volta daqui a sete meses, né? — Dei mais um passo atrás, indo para zona segura.

—Talvez eu não volte em sete meses também, Bella... —Explicou cauteloso. — Fui indicado pelos professores para assistência política e o pai do Ryan vai ver se me encaixa em um lugar oportuno no Senado... Não sei quando volto. — Esclareceu com o canto do lado puxado num sorriso triste.

Um espasmo atravessou meu estômago, e um soluço ficou preso em minha garganta. Era isso... Por isso ele não veio me ver... Em todo o tempo o que ele queria era me dizer adeus pra sempre.

—Bem, então... — Suspirei, controlando a agitação interior. —Por isso você me chamou... Hoje é a despedida de verdade. — Meu queixo tremeu ao intuir isso. Até àquele instante eu estava presa à mágoa de ter sido rejeitada e não tinha me dado conta de que ele realmente se iria, e que eu não o veria mais tão cedo. Em um ano, se ele voltasse, eu deveria ir para alguma universidade na Califórnia. E, se dependêssemos do destino, não nos veríamos nunca mais.

Esse realmente era o fim.

Na mais deprimente das fantasias tolas, ainda sonhava que ele iria simplesmente me procurar, dizer que enfrentaria tudo para ficar comigo e que nos iríamos ficar juntos para sempre... Mas então descubro que é o fim, que ele em todo momento estava anunciando o fim.

—Sim. — Foi o que ele disse e abaixou a cabeça.

Respirei fundo e esfreguei os braços, com um frio repentino, ainda que tivesse um dia ensolarado. —Então tá, sem traumas... Dê notícia de vez em quando. — Tentei sorrir, bloqueando a dor de transparecer.

Antes que eu pudesse reagir, ele me puxou pela nuca e me abraçou ferozmente, com o coração batendo acelerado em meu rosto. Eu não o abracei de volta. Minha garganta doía, a respiração saía trêmula. Aquilo me massacrava, cortava minha alma. Estar em seus braços pela última vez era matar minha ilusão cruelmente. Eu precisava me libertar de tal escravidão.

—Deixe-me ir... — Pedi tentando me soltar. Ele me apertou mais no abraço.

Eu não queria ser tão fraca assim, mas todo o sentimento era maior que eu. Um soluço abafado irrompeu de minha garganta e as lágrimas guardadas há dias invadiram meu rosto sem minha permissão. Meu corpo tremia de uma maneira insuportável. Eu queria ir embora, mas seus braços pareciam ferro em minha volta.

—Por favor, me solta. — Limpei o rosto e o levantei para olhar em seus olhos. Surpreendi-me quando vi lágrimas ali. Seriam por pena de mim?

—Fique, Bella. — Ele suplicou com a voz cortada e voltou a me abraçar forte, beijando lentamente meu ombro, pescoço, cabelo.

—Edward, pra quê nos torturar mais se no final você acaba dizendo adeus sempre? — Forcei a mão para afastá-lo, mas ele ainda não me soltou.

—Por favor... — Ele implorou. —... Fica aqui comigo. — Sua voz era baixa e angustiada. Deus, o que eu mais queria era ficar... Sempre. Ele continuou, rouco. —Eu não estou pronto pra dizer adeus. — Beijou persuasivo minha bochecha, pálpebras.

—Então para de me dizer adeus! — Alterei o tom.

—Como, Bella? — Suplicou e me abraçou forte de novo, seu corpo todo tremendo.

Ele não muda, concluí. Ele inspira pessimismo e falta de fé. Eu queria que ele me dissesse que eu podia esperá-lo, que um dia ele voltaria. Matava-me saber que ele não acreditava em nós.

Ele passou uns minutos calado, com respirações longas em meu cabelo, enquanto eu mantinha o rosto sob o seu queixo, depois me afastou pelos ombros para falar comigo.

—Bella, por favor, esquece tudo... —Pediu com olhos intensos. — Desculpe-me... Desculpe por sempre dá fora, por ser um inseguro, por não ter consistência, por ter um sentimento ineficaz. —Enumerou pausado. —Eu preciso de você. Eu preciso de você mais do que tudo. — Enfatizou com humildade. Fiquei surpresa com a sinceridade e transparência em seus olhos.

—Até quando você precisa de mim. —Pressionei. — Só hoje? — Eu só queria ter esperança.

—Bella... Me dá um tempo... Deixa eu organizar a minha vida... Eu quero você pra sempre... Mas eu não posso te dar nada agora... Nada mudou. — Ele disse novamente inseguro.

—Eu não estou te pedindo nada, Edward. Eu não estou pedindo pra você casar comigo. Só quero convicção. — Murmurei vencida. Em seguida tive uma idéia. —Está na hora do Jasper comer, você quer almoçar aqui? — Apontei para minha casa. Se ele cedesse, era um bom sinal. O orgulho estaria sendo dissipado.

Ele me afastou, aparentemente em dúvida sobre minha mudança repentina de atitude.

—Hoje não, Bella. Seu pai não está em casa. Eu quero ir, mas sinceramente eu me sentiria mal fazendo isso... Entenda-me. — Pediu humilde.

Eu sabia que ele não aceitaria, mas fiquei surpresa com o fato dele dizer que queria ir. Seria alguma mudança? Bom, dessa vez ele tinha razão. Talvez fosse uma situação constrangedora comer na casa de alguém onde não se é aceito.

—Saia comigo mais tarde. — Ele propôs novamente.

—Por quê? Sinceramente eu não vejo o porquê... Não devemos retardar o inevitável. — Expliquei esgotada.

—Eu sei que você não vai entender, mas eu queria ficar mais tempo com você. Saia como minha amiga, deixe-me ficar perto de você. — Pediu carinhoso e persuasivo.

Eu queria jogar novamente na cara dele que ele não veio me ver quando chegou, que não me procurou, e que agora era muito tarde. Todavia minha resistência se esvaía, minha solidez já não existia e tudo que eu queria era estar ali, apertada em seus braços, sem forças e sem vontade de me soltar. Presa a ele não só fisicamente, mas com minha alma e essência ligada a ele.

Era exatamente isso que doía. Por isso ainda tinha que tentar me proteger. —Eu não posso, Edward. — Neguei com um sussurro.

Ele segurou meu rosto nas mãos. —Bella, por favor, mente que ainda me quer. Finja que ainda sou tudo pra você e que ainda acredita em nós... — Suplicou com olhos intensos.

—Será que você não vê que isso só me faz sofrer? A nós dois! Se você quer simplesmente se despedir, é só ir embora. — Disse fugindo do seu olhar. Iria doer muito mais se eu ficasse com ele fingindo estar tudo bem, quando o fim seria o mesmo.

Ele continuou insistindo. —Deixe-me viver essa ilusão só hoje. Deixe-me com a lembrança de que um dia existiu! —Havia quase desespero em seus olhos. E o fato de, pelo menos uma vez, ele insistir por mim, era um agridoce triunfo. Afinal, eu passei uma vida correndo atrás dele.

Eu podia fazer isso por ele, não podia?

—Eu vou. —Decidi serena. Ele teria meu corpo presente, mas eu guardaria meu coração. —Depois que almoçar e me arrumar eu te ligo. — Avisei sem empolgação. —Mas continuo pensando que não é uma boa idéia. — Completei, soltei-me de seus braços com uma sensação estranha de perda, caminhei para casa e virei para fitá-lo novamente. Ele parecia desamparado. Enquanto eu esperava o portão frontal fechar, separando-nos, a aflição de ficar longe dele me invadiu e todos os argumentos mentais para me manter longe entraram em conflito. Eu ainda o queria. Queria lutar por aquela pessoa complexa que aparentemente necessitava de mim, assim como eu dele. Mas o que devia esperar?

—Jasper, seu irmão quer ir almoçar. Se você for almoçar aqui, avisa lá para ele. — Disse enquanto subia as escadas para ir ao meu quarto. Jasper saiu e Alice subiu atrás de mim.

—Que cara é essa, Bella?

—Ele quer sair comigo, mas eu não vejo pra quê... Isso só piora as coisas. — Murmurei indecisa e deitei de bruços em minha cama, a cabeça apoiada no braço.

—Melhora essa cara. Vocês sempre curtiram o momento. É melhor você se permitir ficar feliz enquanto ele estiver aqui. — Ela deitou ao meu lado.

—Vai ser pior quando ele for embora... — Argumentei teimosa.

—Bella, você sempre soube que ele sempre iria, e se saiu muito bem com isso até hoje. O que vocês sentem é muito forte. Você não pode deixar de tentar, ainda mais sabendo que ele gosta de você.

—Mas ele não me ligou quando chegou! — Relutei. —Alice, ele foi injusto com a gente. Perdemos semanas que poderíamos estar juntos e felizes. — Resmunguei chateada, abraçando a boneca que ganhei deles de aniversário de 15 anos.

—Ele dá muito fora, mas desde o começo você já sabia disso! Foi você quem o escolheu.

—Eu só queria que ele fizesse alguma coisa por mim... — Resmunguei, com o coração comprimido.

—Se você olhar bem, ele já fez. — Levantou para ir se arrumar no quarto dela. —Ah! E não precisamos voltar para o ensaio. Desmarquei com Emmett, e ele achou foi bom. Ele está na casa de uns amigos dele.

Com movimentos mecânicos, tomei banho, me arrumei sem ânimo e deitei na cama de novo, querendo ter certeza se era isso mesmo que eu queria. Iria mesmo ficar com ele mais uma tarde, esquecer de tudo, fingir que estávamos juntos e amanhã a vida voltar ao normal? Não era bem o que eu queria.

Narrado por Edward

Após almoçarmos, percebi que se passaram mais de uma hora e Bella não ligou. A insegurança me invadiu no momento em que pensei que ela poderia não vir. Assim, ao entrarmos na sorveteria, insisti em pedir a sua presença ligando no seu celular.

—Bella, você está demorando... Você ainda vem? — Perguntei ansioso, com o antebraço apoiado na mesa e a testa descansando na mão.

—Ainda estou pensando... — Sussurrou sem convicção.

Meu desejo era implorar-lhe, ajoelhar-me diante dela, pedir que não me deixasse assim. Dizer que eu queria sentir minha Bella ali novamente, pois aquela estava tão distante... Fria.

—Eu preciso de você... Por favor, vem... — Eu implorei, com receio de sua rejeição. O que eu faria se ela dissesse não? O que seria de mim?

—E por que não me procurou antes... — Murmurou baixinho.

Eu senti a dor na sua voz que pairou sobre mim como uma lâmina cortante dando golpes. Eu não tive palavras. Meu desejo era revelar-lhe o quão fraco sou. Que tomo decisões egoístas procedendo com demasiada precipitação, quando não tenho forças suficientes para levá-las adiante.

—...Você só percebe que precisa de mim quando faltam poucos dias para ir embora? — Ela acusou e suas palavras doíam.

Angustiado, eu queria me abrir, dizer-lhe que me lancei em precipício ao tentar me afastar dela... E agora me sentia caindo em uma cavidade sem fim, onde só seus olhos poderiam salvar-me da angústia que me atormenta. Dizer que sofro, dia após dia esperando que ela ainda me salve, que ainda acredite em nós quando eu mesmo não tenho forças para afirmar.

—Por favor, Bella... Não sei mais como te pedir... Por mim, venha. — Supliquei mais uma vez.

Sabia que tinha milhares de coisas que eu poderia falar para lhe convencer, como por exemplo: que eu precisava de sua força, de sua vida e de sua alegria como de sangue em minhas veias; que sem ela o meu mundo se tornava vazio, sem um fim; que todos os meus objetivos caem por terra quando estamos distantes, pois hoje ela é o motivo principal do meu ponto de mira.

—Tudo bem... Onde vocês estão? — Aceitou enfim, com tristeza na voz.

Meia hora depois elas chegaram, e eu me levantei para recebê-las. Bella, com toda a beleza radiante, mantinha uma sombra triste no olhar. O seu sofrimento caía em mim como um golpe. Não desejava vê-la assim. Era suficiente que só eu sentisse aflição. Ela sentou-se ao meu lado, mas somente seu corpo estava presente. Beijei-a várias vezes na testa, passei os braços em seus ombros, mas ela estava apática. Um corpo sem vida.

—Bella, o que quer? — Tentei dissipar o clima tenso.

Ela parecia não estar interessada em nada no cardápio que tinha nas mãos, parecia não olhar para ele. Lembrei que da última vez ela tomou milk shake, então pedi um para ela.

Abracei-a, trazendo-a para mais próximo de mim, depois levantei o seu rosto para fitá-la. —Fica comigo... Volta a ser você... Estou sentindo a sua falta. — Pedi com carinho.

Matava-me aos poucos vê-la assim. Eu queria pedir seu perdão por tanta coisa, principalmente por isso... Por ser negligente com o nosso amor. Ou mesmo por não ser suficientemente forte para deixá-la seguir em frente e ser feliz. Além de tudo, queria pedir perdão por ter descoberto agora que a amava. E era um sentimento tão grande que me levava a ter atos miseravelmente egoístas, inclusive o de obrigá-la a ficar perto de mim, quando não deveria prolongar o sofrimento. Ainda assim, esperava que ela me perdoasse por não ter condições necessárias de manter-me longe, por não ter vigor, por estar debilitado com essa sensibilidade a ela.

—Eu estou aqui, Edward. Era isso que você queria, não? — Olhou-me distante. Eu não respondi.

Nos instantes seguintes, passamos a maioria do tempo calados. O vazio e a dor diminuíam quando ela se encontrava comigo. Só com a sua presença e serenidade meu coração manifesta contentamento e júbilo, enfraquecendo a minha dor como alívio. Por isso lhe implorei que viesse.

Saímos da sorveteria e paramos perto do carro delas. Eu não estava pronto para deixá-la ainda. Eu a queria mais.

Coloquei a minha mão em sua nuca e levantei o seu rosto para apreciá-la. Torturou-me a sua imagem. Tudo fazia mais mal do que eu queria que fizesse.

—Desculpe-me. Eu não queria fazer isso com você. — Eu tinha milhares de coisas para me desculpar, mas o maior motivo eu não me via com firmeza de ânimo de prosseguir... Era tão difícil revelar-lhe o grau de intensidade do meu sentimento. A timidez inveterada me retrai, encadeia e obstrui a faculdade de falar a totalidade de consciência íntima no espaço em mim. E esse é o maior motivo de merecer o seu perdão: amar-lhe demais.

—Desculpar pelo quê? Você não tem culpa de existir. — Sussurrou e tocou pesarosa meu rosto. Os seus dedos deixaram um rastro que me queimaram até a coluna e como raio atingiu meu peito. A sensação de ter sua pele encostada em mim trouxe júbilo a cada célula do meu corpo.

Abracei-a com furiosa ternura, como se me apegasse à vida nos meus últimos minutos de respiração. Ela voltou a falar, com a voz abafada pela minha camisa: Mas eu pensei que você quisesse esquecer tudo por uma tarde. — Murmurou baixinho. —Pensei que era para fingir que está tudo bem. — Adicionou, acolhida em meus braços.

—Não tem como ficar tudo bem com você assim. Você não é a minha Bella. — Beijei-a na testa, prolongando os minutos ao seu lado.—Eu sei que não devo te pedir isso, mas eu sinto falta da minha Bella ousada e cheia de iniciativa. — Afastei-a segurando em sua nuca.

—Eu não vou mais forçar uma situação com você, Edward. —Sussurrou olhando-me nos olhos. — Vou agir como você agia comigo: com pouco caso. Se você sentir vontade de me beijar hoje, beije. Só não espere mais iniciativas.

A principio, fiquei chocado com sua fria sentença. Minha vontade foi dar um passo atrás e deixá-la ir, devido ao receio de deixar-me irresistivelmente dominar por essa paixão que sentia, por esse afeto veemente onde ambos sofríamos danos e prejuízos. Todavia, privar-me desse amor novamente, era errar novamente o caminho.

Determinado, olhei seus lábios, que era tão convidativo e que me atraíam com um sentimento agradável de deleite, e os toquei com os dedos, sentindo a textura. Correntes de saudade e prazer subiram pela pele. Fechei os olhos para sentir a comichão.

Inclinei o rosto, ávido por beijá-la, e encostei meus lábios nos seus, com selinhos persuasivos. Languidamente passeei minha língua em seu lábio inferior, estudando-a, desejando aprofundar o beijo. Entretanto sua postura indolente me impediu de prosseguir.

Frustrado por sua falta de respostas, suspirei e me afastei. Alice propôs de irmos ao cinema, eu rapidamente concordei. Vimos uma sessão retrô do romance Antes que o dia termine. Durante o filme, notei lágrimas nos olhos de Bella novamente. Fiquei aflito em ver. Como se já não fosse suficiente a dor contumaz da distância, gradativamente eu sentia partir-me em estilhaços. Sua dor atirava-se a mim, fundindo-se com a minha, matando-me aos poucos. Não sabia quanto tempo mais poderia suportar.

—Não foi uma boa idéia esse filme. — Sussurrei em seu ouvido, ao ver suas lágrimas.

—Não, eu gostei, achei lindo. — Ela sorriu triste, tentando me convencer. —A história foi linda.

—Mas ele morre, então o fim não é tão lindo assim. — Argumentei, sentindo que ela poderia mudar o humor.

—Você não percebeu a mensagem? Ele tinha um dia para ser feliz com a pessoa que ele amava. — Elucidou pensativa. —Um dia para ser feliz. O hoje. — Refletiu enquanto caminhávamos para fora, de mãos dadas. Em silencio chegamos ao seu carro.

—Eu já tenho que ir embora. — Ela avisou e passou os braços em volta da minha cintura, amistosamente.

Percebi ali que nosso tempo, a medida arbitrária de duração de instantes, interrompia-se, chegando ao fim. E eu não estava preparado para dizer adeus. Então devia suplicar-lhe que não me deixasse, que me aceitasse: impróprio, desprezível e não merecedor... E que me salvasse com o seu amor.

Narrado por Bella

Qualquer um diria que eu não tinha mais motivos para estar triste. Mas eu estava. Minha tristeza era por saber que ele estava tão próximo e que estávamos tão longe ao mesmo tempo. Por saber que queria tocá-lo, queria seu corpo me aquecendo e queria ansiosamente cada beijo que ele depositava no meu rosto. Estava triste por me sentir feliz com cada minuto a mais que passávamos juntos naquela tarde, ainda que isso massacrasse meu orgulho.

—Deixe-me ir, Edward. — Pedi, tentando me soltar do seu abraço de ferro, pois eu ainda tinha que tocar em uma festinha. Ele não afastou.

—Antes sorria pra mim. — Ele levantou meu rosto. Eu sorri desanimada, mas não queria magoá-lo mais com a minha tristeza. Ele me olhou por longos minutos enquanto acariciava minha bochecha com o polegar. —Posso beijar você? — Perguntou cautelosamente. Eu fechei os olhos e deixei que ele entendesse. Ele me beijou ternamente, um beijo sério, tímido, de lábios, convidando...

Meu coração sofrido respondeu e acelerou, movido pela saudade. Desenvolvi o beijo, exigindo mais. Enlacei minhas mãos em seu pescoço, suguei seus lábios, acariciei delicadamente sua língua e gemi em sua boca quando ele pressionou meu quadril ao seu. Porém mais cedo do que eu esperava, ele retrocedeu, me beijou levemente e me abraçou forte, sorrindo de minha resposta apaixonada.

—Posso ir com você à sua casa? — Perguntou e acariciou minha nuca com os olhos brilhando do que qualifiquei como triunfo.

Eu estava atordoada por causa do efeito inesperado do beijo. E sua pergunta me deixou mais desorientada. —Pode... Mas...Er, meu pai vai chegar e vai te ver, e... Emmett deve estar lá. — Balbuciei em dúvida se queria realmente que ele fosse. Na atual circunstância, não achava que valia mais a pena enfrentar minha família.

—Eu não vou entrar. — Avisou e segurou meu queixo entre o polegar e indicador. —Não até que eles me convidem. — Afirmou seguramente.

—A casa é minha também. Eu te convido! — Ergui o queixo, rebelde. Eles não poderiam expulsar de lá um convidado meu, se eu levasse.

—Não, Bella, hoje não. Eu te deixo lá, fico um pouco e vou embora. Peça para Alice levar o seu carro e vem comigo. — Ele me pediu, enlaçou minha cintura e nos direcionamos ao local onde Alice estava.

—Hum... Melhoraram a cara! — Jasper insinuou sorrindo, e, sem que eu percebesse, estava sorrindo também.

Ter assistido àquele filme ajudou-me a lembrar que não devemos perder tempo com infelicidades. E o fato de ele estar comigo, insistindo em ficar perto de mim mesmo quando eu estava insípida, mostrava que ele queria uma oportunidade. Além disso, ouvi-lo dizer que vai à minha casa, não se preocupando com o fato do meu pai chegar ou não, entrou em meu coração com um fio de esperança que eu não esperava.

Ele estacionou o carro em frente ao portão, entrei em casa, peguei umas maçãs e voltei para perto dele. Encostei ao seu lado no carro, e ele segurava um souvenir global nas mãos.

—O que é isso? — Apontei o dedo, curiosa. Dentro do souvenir tinha uma miniatura da Casa Branca.

Ele sorriu sem graça. —É seu... Eu trouxe de presente de aniversário. — Entregou com cuidado. —Eu queria ter dar algo que fizesse você se lembrar de mim. Você sabe qual é o meu sonho. Eu queria que você olhasse para ele todos os dias, e... Pensasse em mim. — Disse pausadamente.

—Não precisava, Edward. Mas obrigada. — Apreciei o globo em minhas mãos. O sol de finzinho de tarde refletia um espetáculo de cores dentro dele. —Eu... Achei lindo! — Sorri enternecida, com o humor completamente recuperado.

—Tem outro... É o presente de Natal. — Guardou o que estava na minha mão no banco e pegou outro, escondendo por um segundo nas costas. —Eu não tive coragem de mandar. Você ainda recebe? —Perguntou hesitante. — Eu também trouxe de Washington D.C.. Acho que ele vai significar muito mais para você. —Disse solenemente e me entregou. Era um globo com a miniatura do parque National Mall, o que passamos umas horas antes de voltarmos para o hotel. Dentro tinha umas fotos boiando na água cheia de glitter. Pequenas molduras com nós dois sorrindo e beijando na Capital.

—Que lindo! — Ofeguei e enlacei empolgada seu pescoço.

—Você gosta? —Quis saber ansioso. —Eu queria algo que significasse para nós. E como nós dois temos uma história em parques e jardins, eu achei o ideal. Fiz com as fotos que você mandou para mim. — Ele explicou com expectativa.

—Eu achei lindo! Muito significante. Eu adoro presentes assim, que você tenha o cuidado de personalizar. Obrigada! — Agradeci e fiquei analisando os detalhes. —Se você soubesse como eu adorei! — Comentei como criança abobalhada. Ele sorriu relaxado. Talvez não tivesse o costume de presentear ou tenha ficado preocupado se eu ia gostar ou não.

Bom, estávamos ali, e como ele ficou, o ideal era arrumar um assunto.

—Você vai estagiar? — Perguntei quando ele guardou o globo dentro do carro.

—Não é estágio, é assistência. —Corrigiu orgulhoso. — Em estágio você vai para aprender, em assistência você é indicado quando é útil, tem desempenho. — Esclareceu. Era nítido que ele adorava falar sobre os seus planos. Agradava-me saber que ele conseguia.

—Em que você acha que vai ser útil? — Incitei-o a elaborar. Quanto mais assunto tivéssemos, mais prolongaríamos o momento.

—Bom, redijo discursos; traduzo e falo fluentemente a língua italiana, espanhola e francesa; e conheço História e política. —Enumerou despretensioso. — Além de estudar procedimentos legislativos. Agora preciso de prática. Se começar agora, em pouco tempo serei assessor. Mas não é suficiente para mim, são só os primeiros passos.

Abri a boca admirada com sua certeza quando se referia a Ciências Políticas.

—Mas o que você pretende fazer que eu nunca entendi? Você quer ser senador, presidente, o quê?

—Não. Eu não teria quorum eletivo para nenhum dos dois, afinal, não sou rico nem tenho sobrenome conhecido na política. Meus planos estão nas bases do poder. Em cargos indicados por competência. No Conselho presidencial, por exemplo, ou na Secretaria de Estado, como a Hillary Clinton, que representa o país internacionalmente. Desde que eu componha o Poder Americano, não importo. Posso ser até embaixador. —Explicou sonhador. — Não tenho um esquema traçado dos meios, só creio que posso. E tudo que pode ser sonhado não é impossível... Estou lendo o livro que você me deu, de F. Roosevelt, ele fala sobre algo assim: É melhor lançar-se à luta em busca do triunfo mesmo expondo-se ao insucesso, que formar fila com os pobres de espírito, que nem usufruem muito nem sofrem muito. Recitou solenemente.

—Uau, eu tenho certeza que você vai chegar lá! — Apoiei com dois teatrais murrinhos no ar, descontraída.

—Obrigado por acreditar em mim, Bella. — Ele segurou em meu pulso e pôs meus braços em volta de seu pescoço.

Talvez eu o amasse de verdade, pensei enquanto observava o brilho contente em seus olhos verdes... Sabia o quanto esse sonho dele o afastava de mim, mas torcia sinceramente que ele alcançasse. Quando você abre mão do seu egoísmo para deixar o outro feliz é porque você verdadeiramente o ama.

Ele voltou a dizer. —Você é a única e melhor amiga que eu tenho. — Abraçou-me apertado.

Percebi então que éramos verdadeiramente amigos. Não éramos ligados somente pela paixão que nos consumia, mas nossa relação era embasada em cumplicidade e harmonia. Introspectivo como ele era, nunca confiou em ninguém além de sua mãe. No entanto, ele tinha depositado em mim a sua fé.

Após uns minutos abraçados confortavelmente, percebi o carro do meu pai chegando. Eu afastei-me de um salto. Porém, era tarde demais. Papai já tinha nos visto. Ele nem chegou a estacionar na área interna da propriedade, parou em frente ao portão, desceu do carro e caminhou apressado em nossa direção.

Lembrei instantaneamente das palavras que ele disse na nossa última conversa, quando alertou que não aceitava e que não queria nos ver juntos. Estremeci em pensar vê-lo maltratar Edward novamente. Principalmente nesse momento que estávamos tão unidos.

Ele se aproximou afrouxando a gravata. —Boa noite, Edward. — Cumprimentou sério, e eu lhe lancei um olhar de súplica. Que ele não fizesse isso que eu estava pensando, que ele não maltratasse alguém tão importante para mim.

—Boa noite, Sr. Cullen. — Edward o cumprimentou firme, em resposta.

Papai concentrou sua atenção em mim.

—Bella, não quero vocês conversando no meio da rua. Já é noite. — Avisou. Franzi o cenho surpresa. Pelo jeito ele só estava preocupado com as aparências e com minha segurança.

—Já estou indo embora, Sr. Cullen. — Edward se antecipou e pôs a mão na porta do carro.

Eu torci os lábios desgostosa e flagrei meu pai olhando-me atenciosamente.

—Entre, Edward. Ou estacione o carro lá dentro. Só não quero que fiquem aqui fora. — Explicou neutro. Depois de trocarmos olhares surpresos e questionadores, Edward respondeu.

—Tudo bem, Sr. Cullen. Vou estacionar o carro lá dentro. — Respondeu formalmente. Abri a boca em choque, surpresa com a concessão. Era muita mudança para um dia só.

Papai abriu o portão no controle, estacionou na garagem frontal, e Edward seguiu para o estacionamento lateral. Encostamos-nos ao carro novamente.

—Por que você fez isso? — Perguntei ainda surpresa.

—Porque ele me convidou. — Explicou abrindo as mãos no ar. —E porque eu ainda quero ficar perto de você. — Adicionou como se fosse o óbvio.

—Só que nós estamos com um problema. — Torci os lábios em uma careta. —Eu tenho que sair para tocar hoje. — Expus chateada. Já que ele estava aqui, eu queria ficar com ele. Se ficasse a noite toda, conversando, pelo menos, eu ficaria feliz.

—Onde vocês vão tocar? — Ele questionou curioso.

—Numa festinha de fundo de quintal de um amigo do Emmett.

—Mas hoje é segunda! — Comentou admirado.

—Sim, mas é férias e aqui não tem isso. As pessoas fazem festa qualquer dia da semana. — Parei e ponderei minhas opções. —É aniversário, você quer ir? — Propus, embora soubesse a resposta. Além dele não conhecer ninguém, era uma festa de 'riquinho'. Ele não se misturaria nunca.

—Eu tenho que ir para casa. Jasper passou o dia fora. — Argumentou, mas não parecia ter certeza.

—Essa sua desculpa está furada, Edward. Aqui também é a casa dele. Está cheio de coisas dele aqui. — Sorri descontraída, mas eu não queria forçá-lo a nada que ele não quisesse.

—Não sei... — Ele pareceu tentado, o que me deu segurança em insistir.

—Vamos?

—Mas eu não me arrumei. Não tomei banho... — Apontou para a roupa. Pelo menos não tinha dito que não.

—Lá é coisa simples. Você está bem. —Aproximei dele e colei a boca de seu ouvido. —De lá podemos fugir... — Segredei travessa.

Ele sorriu malicioso e pôs a mão na base da minha coluna. —Está de volta! — Aumentou o tom teatralmente. — Minha Bella voltou. — Me puxou contra ele e encostou a testa na minha. —Sendo assim, eu vou. — Dispôs com um sussurro. Dei um selinho em sua boca e sorri. Meu coração aqueceu, já não sentia mais a dor. Permitir-me ficar feliz me devolveu o contentamento habitual.

—Tenho que ir me arrumar. Você quer entrar? — Apontei para dentro.

—Hoje não. Me dá mais um tempinho... — Pediu manhoso. —Eu prefiro ficar aqui no carro ouvindo música, tudo bem? — Ele parecia estar pedindo a minha permissão.

Era melhor não pressioná-lo, decidi com praticidade. Outro dia, talvez. —Tudo bem. Em meia hora eu volto. — Soltei do seu abraço, atravessei o jardim e entrei em casa. Meu pai estava sentado no sofá vendo TV. Eu passei por ele e dei um sorriso enorme em agradecimento. Em resposta, ele me fitou sério, depois balançou a cabeça em negativa. Mesmo assim, subi as escadas correndo e satisfeita.

Se eu tinha só um dia, era melhor ficar feliz. 'Melhor um dia feliz do que vários dias tristes.'BB. Recitei, depois lembrei de outro ditado. 'Qualquer felicidade é melhor do que ficar triste por alguém que não se pode ter.'BD

E ele estava aqui. Ele também queria ficar este dia comigo. Ele fazia, enfim, alguma coisa por mim. Não foi isso que eu sempre quis? O amanhã a gente resolvia depois.

Decidida, tomei banho, vesti uma saia cargo verde e uma blusa preta frente única. Em poucos minutos eu estava pronta e fui ao quarto do Emmett.

—Emmett, que horas temos que estar lá? — Perguntei enquanto terminava de arrumar meu cabelo no espelho dele.

—Nove.

—Vou levar os meninos, Edward e Jasper. — Avisei apressada.

—Tudo bem... Eu não quero me intrometer. — Deu de ombros. Eu fiquei desconfiada. De repente as pessoas resolveram baixar a guarda aqui em casa? Estranho.

Desci as escadas, eufórica. Jasper e Alice assistiam clip.

—Gente, vocês não vão se arrumar, não?! — Perguntei já do último degrau.

—Eu vou. Estou só esperando Jasper ir embora. — Alice avisou e levantou do sofá da preguiça.

—Jasper não vai. Eles vão conosco à festa. — Expliquei satisfeita.

—Sério? Edward vai?! — Jasper se empolgou pela primeira vez no dia.

—Siiiim! — Falei alto e abracei-o eufórica, dando pulinhos.

Estava calor, e eu pedi para irmos no meu carro, assim podia baixar a capota. Ele não se importou. Passamos no drive-tru, eu comprei pasteizinhos de banana e maça, e ele um Mcsalada. Eu percebia seu olhar intrigado enquanto eu comia, dirigia e cantava uma música da Britney, lançando sorrisos para ele. Estacionei o meu carro em frente ao lago e terminei de comer.

—Você está com o semblante bem melhor. — Ele comentou e apertou minha bochecha.

—Estou feliz! — Sorri como se fosse o esperado.

—Por quê? —Ele tomava um suco de laranja.

—Porque mesmo que você tenha entrado só no estacionamento, você entrou em minha casa. Então já evoluiu! — Disse com a boca cheia, e ele sorriu.

—Por que isso te deixa feliz? — Perguntou pensativo, ao tempo que comia o frango grelhado naturalmente.

—Por quê? Por soar sério e sair a impressão de ficante de rua. Eu gosto da firmeza que isso traz. — Revelei realizada. —Estou cansada de ações escondidas. Nunca precisamos disso em minha casa. Toda a vida fomos sinceros uns com os outros lá.

Ele ficou calado uns minutos, tempo em que terminávamos de comer.

—Por que seu pai me tratou melhor hoje? — Perguntou meditativo. Deitei-me atravessada, com a cabeça no peito dele.

—Não tenho certeza ainda, mas creio que embora ele não aceite 100%, ele percebe que eu fico bem quando estou com você. —Abri um Kinder Bueno que tinha na bolsa e dividi com ele.

—E você fica? — Me afastou para olhar.

—Ai, Edward, você ainda tem dúvidas? O quê que eu preciso falar mais pra você? Você já é convencido demais! — Fingi indignação.

Ele sorriu divertido. A seguir conversamos assuntos diversos enquanto beijava minha testa, passava os dedos pelo meu rosto, pescoço, braços.

—Por que seu rosto está quente? — Encostou o dorso das mãos no meu rosto.

—Você está tão perguntador hoje. —Gracejei rolando os olhos. —Porque estou com calor, claro.

Continuamos curtindo o céu, o vento, a noite... Estar ali era perfeito. Até o silêncio que pairou alguns instantes no ar não era de distância, era reconfortante. Palavras não eram necessárias para mostrar o quanto precisávamos um do outro.

Depois de um tempo, sem aviso, fechei a capota do carro.

—Não estava com calor, Bella? — Ergueu uma sobrancelha sem entender.

—Sim, mas eu quero privacidade. Estou com saudade de você. — Disse com olhar sugestivo, atravessei o banco e sentei-me em seu colo, com cada perna de um lado seu.

Ele retesou, claramente surpreso, mas em seguida pôs as mãos em minha cintura.

—Putz! Eu que estava morrendo de saudade de VOCÊ. — Apertou meu quadril com um sorriso malicioso.

—Então me beija logo...

Ele encostou de leve os lábios nos meus, deu selinhos lentos, vagarosos e singelos. Parecia matar a saudade, como se há meses não me beijasse e tivesse todo tempo do mundo.

Impaciente, aprofundei o beijo e inseri a ponta da minha língua, persuadindo-o. Ele segurou nos dentes e acariciou com a sua. Enfiei as mãos em seus cabelos e ditei o ritmo, inserindo mais, o apertando contra minha boca, como um sedento que busca por água.

Calma, Bella... — Me afastou para respirar.

Segurei o seu rosto e beijei cada canto com carinho, cada pedaço, matando a minha saudade antiga. Ele se recuperou e voltou com um beijo cálido, sugando com desespero, apertando minhas costas. Me senti arder, as veias pulsarem e dessa vez foi o meu ar que faltou.

Soltei-me para respirar e encostei minha cabeça em seu ombro.

—Tá difícil hoje... — Ofeguei.

—É a falta. — Seus olhos estavam cheios de desejo. —Senti tanta falta de você. — Afastou meu cabelo e beijou meu pescoço enquanto eu acalmava a respiração.

—Não parecia. Não veio buscar beijos quando chegou. — Eu lembrei, mas não havia mais mágoa. Foi só uma lembrança retrógrada que eu não queria pensar mais.

—Desculpe-me, Bella. Eu fui um covarde, pensei que iria conseguir viver sem...

—Psiu! — Encostei o meu dedo em sua boca e não o deixei terminar. —Não quero conversar agora. Não vamos estragar o clima conversando... Por favor. — Pedi. Conversar sobre nós não tinha ajudado muita coisa ultimamente, então melhor não. Encostei de novo meus lábios nos seus e o beijei calmamente. Eu só queria encerrar o assunto, mas ele estava faminto demais, um beijo calmo não era a sua intenção.

Ele aprofundou o beijo, sugando minha língua, com as mãos descontroladas apertando as minhas costelas, posicionando-me aonde ele queria. Depois massageou meus braços e ombros, ansioso. Eu grunhi, ávida por mais, queimando de desejo. Nosso corpo dava sinal de falta, saudade, precisão, e cada mínimo contato distribuía larva quente, fazendo com que algo em mim clamasse sempre por mais. Mais beijos, mais carícias, mais aperto, mais atrito. Ele acariciou a lateral das minhas pernas, subindo lentamente no joelho, e alcançou a minha coxa, sem soltar-me do beijo molhado.

Os seus dedos deslizavam na pele, indo até a parte descoberta pela saia levantada. Enquanto explorava minha boca com a língua, seu polegar traçou o caminho interno das minhas coxas, subindo lentamente. Eu estava amando a carícia, ansiando por tudo, porém não o permiti avançar mais. Hoje não. E coloquei delicadamente uma mão sobre a sua.

Insistente e faminto, ele grunhiu e colocou as mãos dentro da minha blusa, então acariciou minha cintura e barriga. Eu sorri mentalmente. Homem é sempre homem. Ainda que ele fosse um anjinho retraído, sempre tentava avançar, mesmo que para isso precisasse de consentimento.

Soltei-me de sua boca e encostei os lábios no seu pescoço para respirar. Eu sabia qual a sua intenção com a mão em minha barriga, o polegar já acariciando a parte inferior do meu seio. Alcancei o lóbulo de sua orelha e mordisquei, encorajando-o, a seguir alternei lambidas e mordidinhas até a base do pescoço.

—Vai começar a tortura? — Murmurou, e eu me deixei escapar um pequeno gemido quando sua mão espalmou meu seio por dentro da blusa. Arfei com a sensação de pele a pele e o mordi no ombro.

Ele acariciou num movimento lento de reconhecimento, analisando enquanto beijava meu pescoço. A sensação nova era extasiante. Fazia com que uma ânsia nova crescesse em meu ventre, fazendo-me ofegar e querer mais.

Gemi deliciada e voltei a beijar sua boca, um beijo molhado, quente, até lascivo, lambendo seu lábio, dizendo a ele o que eu queria que ele fizesse comigo no seio. Ele me apertava, com uma mão ainda acariciando leve o meu seio e outra na minha coxa, puxando-me sobre sua excitação.

Olhei em seus olhos, e ele estava com os olhos desfocados, controlando a respiração, então voltou a me beijar, e a outra mão que estava em minha coxa, entrou em minha blusa, acariciando com cuidado. Seu beijo foi ficando mais ansioso e suas duas mãos me apalparam mais firmemente, prendendo o bico nos dedos, apertando-os em suas mãos.

Depois de um tempo, ele direcionou as mãos para o nó em meu pescoço e olhou-me hesitante. —Posso?... — Sussurrou em minha boca, mordiscando meus lábios.

Sem tirar os olhos dele, o afastei e desabotoei a sua camisa. Ele se surpreendeu com a minha autorização e desatou o nó da minha blusa lentamente, mas não a deixou cair, ainda receoso. Voltei a beijá-lo, e ele ficou fora de si, com a respirando entrecortada.

A sua indecisão me divertia.

—Fala claramente, Bella, por favor... —Murmurou ofegante enquanto me beijava.

—Quietinho... — Voltei minhas mãos para a sua blusa, desabotoando todo o resto e tirei dele, em seguida passei as mãos em seu abdômen, peito e braços, não me desprendendo do beijo. Ele rosnava um som trêmulo e rouco.

Despudoradamente, desci com os lábios em seu pescoço, mordi o ombro, braço, afastei-me um pouco e passei a língua em seu peito. Sim, eu queria que ele fizesse isso. Sua timidez só o permitia ir até onde eu autorizasse, e esse era um novo passo. Ele se estremeceu, como se estivesse recebendo choques, e eu mordi seu peito. Impaciente, ele cravou os dedos no meu quadril descoberto pela saia que tinha subido para cintura, e me puxou contra ele, atritando sinuosamente nosso corpo.

Novamente, afastei para fitá-lo, e seus olhos queimavam. Vendo a sua dúvida, eu mesma soltei as alças da minha blusa e deixei que caísse, expondo meus seios para ele. Ele não tirou os olhos dos meus olhos, um pouco surpreso.

—Resolveu me enlouquecer de vez? — Murmurou entrecortado e me abraçou, com o rosto encostado em meus seios.

Destemida, levantei o seu queixo e voltei a beijá-lo. Sua respiração estava irregular, e me eu movia instintivamente sobre ele, com o bico do seio roçando em seu peito. Indefeso ante a intimação, ele voltou as mãos suavemente para meus seios. Eu arfava ansiosamente com cada toque, meu corpo regozijava e estremecia. Ele me beijou no queixo, garganta e novamente me afastou com olhar de desamparo ao mesmo tempo de fascínio, enquanto acariciava o bico com as costas das mãos.

Eu já era puro prazer, um prazer novo que eu descobri, que me incendiava. Ele desceu com a boca seguramente pelo pescoço, ombro, beijo de boca aberta, até que alcançou os meus seios com a sua boca. Eu suspendi o ar e sua língua delineou devagar o bico, chupando leve, o que me fez arrepiar, sentindo o fogo e o gelo crescer em meu interior. Eu suspirei e gemi, arqueando o corpo para lhe dar mais acesso, inconscientemente movendo em sua excitação e nos arrancando mais gemidos de deleite. Meus dedos deslizaram em seu cabelo, frenéticos. Ele grunhia em resposta e ficava cada vez mais ansioso, respirando ofegante.

Ele lambeu toda a extensão lentamente, parecia degustar. Se existissem ainda no mundo sensações melhores do que essas, meu corpo não iria agüentar. Ele mordiscou de lado, passeando com a boca por todo o feitio, gemendo rouco. Ele tinha um cuidado terno, como se eu fosse algo precioso e ao mesmo tempo desfrutável.

Meu corpo queimava, eu queria mais, muito mais...

Eu estava inquieta, não sabia exatamente o que queria. Em abandono, apertei sua cabeça, conduzindo-o a abrir mais a boca. Seus suspiros ficaram mais impacientes quando pôs o seio completamente na boca. Eu queria que ele me apertasse, que mordesse forte, que chupasse. Movi novamente sobre ele, em um comando invisível, buscando satisfazer algo desconhecido em meu ventre. Ele gemeu sofrido, lambendo e chupando forte, agora com o auxílio dos dentes. Eu já me sentia muito tonta, vendo estrelinhas... Deus, o que era aquilo? Era tão bom sua boca ávida tão dependente, como se tivesse se alimentando. Fazia-me sentir precisada, desejada, adorada. Um banquete ao faminto.

Minha mente estava enevoando, meus sentidos entorpecia, e eu comecei a tremer. Todavia, cedo demais, antes que eu tivesse satisfeita, ele freou, acalmando as sugadas, mas ainda permaneceu com a boca aberta nos meus seios, sugando o ar pesadamente. Parecia tentar controlar-se de um impulso, então me afastou delicadamente, com os olhos fechados.

Apoiou a testa no meu ombro, e depois de uns segundos, abriu os olhos, sorridente.

—Lindos! —Elogiou e continuou a passar os dedos levemente, concentrado. Eu corei diante do seu olhar aprovador, fiquei surpresa com a minha timidez momentânea. Depois de uma última mordiscada no bico túrgido, ele pegou as alças e as amarrou lentamente, me olhando e sorrindo.

—Algum problema? — Perguntei encabulada.

Ele me abraçou.

—Daqui em diante é demais pra mim. Posso não agüentar, e eu sei que não é o que você quer.

Com o corpo ainda em turbulência, sentei no meu banco, a respiração irregular.

—Obrigada por entender... Er, é novo... Interessante. — Sorri sem jeito em falar no assunto.

—Não é fácil... Também é uma descoberta para mim. — Ele sorriu, passando as mãos no meu cabelo.

—Estamos nos descobrindo juntos... — Comentei embaraçada.

—Sim.

—Por que você nunca teve ninguém assim? — Apontei para nós.

—Em grande parte foi porque eu não quis.

—Mas já chegou perto? — Perguntei com neutralidade.

—Começou com a curiosidade, né? — Vestiu a camisa. —Mas tudo bem, eu não tenho problema em falar isso pra você. Pensa comigo, eu não me interessei por outra mulher desde que eu tinha quinze anos. Com dezessete anos eu não tinha beijado ninguém. — Voltou a tocar o meu rosto. —Então com dezenove anos, a única mulher com quem eu cheguei mais próximo de uma cama foi com você.

—Você ficou a fim de mim desde quando você tinha quinze anos?! — Perguntei sorridente, lembrando o telefonema que ele deu no dia do meu aniversário.

Ele sorriu sem graça.

—Bella, na hora em que você começou a conversar comigo na sua festa de treze anos, eu me apaixonei perdidamente por você.— Disse fervorosamente. —Hoje eu resolvi que ia ser sincero com você, então vou falar tudo. Eu não consigo ter olhos para ninguém além de você. E fico me perguntando se isso é normal. Mas eu nunca conversei com ninguém sobre isso para trocar experiência.— Explicou ansioso. —Acho que não sei conviver com isso.

Eu observei-o pensativa. Cada palavra sua entrava novamente no meu peito e se alojava no meu coração. Droga, eu não devia me iludir fácil, mas vê-lo falar de sentimentos sem pressão deixava-me tão vulnerável. Sorri realizada com a declaração e ficamos algum tempo conversando e ouvindo música.

—Já são quase nove, temos que ir. Você quer dirigir o meu carro? — Ofereci, suspeitando que ele não fosse aceitar.

—Seu pai não brigaria? — Ele perguntou em dúvida.

Se eu mostrasse qualquer receio quanto a isso, ele não iria dirigir nem agora e nem nunca mais. Ele leva esse negócio muito a sério. Pensando assim, desci a capota do carro, saí e dei a volta para sentar no banco do passageiro.

—É sua. — Entreguei a chave-cartão enquanto ainda estava do lado de fora.

Ele parou uns segundos com a chave na mão, mas relaxou e passou para o banco do motorista. Qual o homem que não tem vontade de dirigir uma Mercedes conversível?

—Tem certeza que não tem problema? — Sorriu de canto, indeciso, quando enfiou o cartão para leitura.

—Sim, o carro é meu. — Assenti convicta.

Ele ligou o carro e manobrou, parecendo deslumbrado quando o motor roncou mais alto. Depois seguiu pelas ruas cautelosamente, conforme eu instruía. Talvez fosse diferente dirigir o carro da mãe dele, que era 1.0, sem nenhum acessório, e dirigir o meu que era um motor V8 do ano e completo. Tive que segurar o sorriso para não constrangê-lo.

—Edward, eu tenho duas perguntas para te fazer. —Eu disse para distraí-lo.

—Pode fazer. —Relaxou as costas no banco, já familiarizado com o câmbio automático.

—Por que você disse que sabe que nós não somos umas riquinhas mimadas no dia que você ligou e estávamos na sua casa?

Ele sorriu torto e balançou a cabeça, negando-se.

—Fala! —Insisti e pus a mão em sua coxa.

—Bom, eu sempre tive a imagem de pessoas ricas como soberbos e altivos. E vocês não. Parece que nem são ricos.— Explicou sorridente. —Sabe aquele dia na praia que você comeu a minha torta de frango? Ali eu me apaixonei por você novamente. Achei você muito natural. Sabe quando você foi tomar banho de mangueira na casa dos nativos? Eu observei cada movimento seu. Você se portou tão simples quando eu sei que sua casa é de luxo, que você viaja e fica em hotéis cinco estrelas. Mas você não se comporta como rica. E por último, naquele dia que você estava lá em casa, eu perguntei para Jasper se vocês almoçaram lá, e ele disse que a Rose fez macarrão pra vocês. Logo macarrão! Só faltava ter sido macarrão com salsisha. Foi? —Perguntou encabulado.

—Seu bobo. —Eu sorri e dei um tapinha em seu braço —Foi macarrão com queijo, molho vermelho e carne moída. Estava muito gostoso. Quase que eu pedi uma marmitinha para trazer para casa. —Comentei brincalhona. — As tias que trabalham aqui em casa cozinham bem, mas tem horas que eu enjôo. Elas inventam demais. Adorei o tempero simples da Rosalie.

—Eu achei interessante vocês terem passado o dia lá e comido na minha humilde residência. Isso me fez admirar mais ainda você e sua irmã. — Levantou a mão e acariciou minha nuca. Beijei seu pulso, achando espetacular a maneira como ele se soltava.

—Meu pai nos ensinou a ser simples... Chegamos.

—Seu pai não é tão ruim como eu pensava, Bella. —Disse e estacionou. — Pode ser que eu ainda me dê bem com ele. — Descemos juntos.

—Gostou? — Apontei para o carro, que subia a capota.

—A dona me dá muito mais prazer, mas ele é muito bom. — Sorriu satisfeito e pôs o braço sobre meu ombro.

Chegamos abraçados na festa. Emmett, Alice e Jasper nos esperavam na porta. Falamos com eles e entramos. Emmett foi simpático com Edward, nos apresentou aos seus amigos e foi preparar os instrumentos para começarmos a tocar.

—Você vai ficar aqui enquanto cantamos. — Mostrei um banquinho a Edward. —Quer que eu busque algo para você beber?

—Qualquer coisa. —Sentou.

—Vou buscar cerveja. — Avisei e fui ao bar. Mike estava perto e veio falar comigo. Depois de cumprimentá-lo com um abraço, chamei-o para apresentá-lo a Edward.

—Edward, você vai conhecer hoje formalmente meu amigo, amigo da família. Esse é Mike. — Apontei sorridente para Mike.

—Tudo bem? — Edward estendeu a mão, receptivo.

—Tudo. Você é o filho de uma funcionária do jornal? — Mike perguntou curioso.

—Mike, o nome dele é Edward. — Puxei sua camisa para baixo disfarçadamente, preocupada com o tom de seu comentário.

—Que foi, Bella?! Emmett que me disse que você estava com o irmão do Jasper. — Comentou sem entender o motivo da minha cautela. Talvez eu tivesse exagerado, mas acho que Edward não gostaria da alusão que a pergunta remetia. 'Filha do dono envolvida com filho de funcionária.' Publicamente pareceria um comentário meio depreciativo e, se ouvido, poderia incitar preconceito...Talvez eu só estivesse preocupada com Edward num mundo diferente do que estava habituado e quisesse protegê-lo de qualquer atitude preconceituosa.

—Tudo bem, Bella. — Edward me olhou e passou os braços em volta da minha cintura possessivamente. —Sou filho da Esme, funcionária do escritório de Forks. — Disse tranquilo.—Você está ensinando bateria para o meu irmão?

—Estava, mas ele agora está aprendendo a tocar baixo com Bella. — Mike respondeu amistoso.

Edward me olhou com olhar de indagação. Mike pediu licença e saiu. Edward me virou de frente para ele e me beijou no queixo. —Você toca tudo, Bella? — Perguntou admirado.

—Nem tudo. — Respondi presunçosa.

—Sou seu fã de carteirinha sabia? — Disse sorridente.

—Está me deixando bem convencida hoje? — Rolei os olhos, divertida.

—Você é a minha vida, Bella. — Me afastou para falar. —Eu preciso te convencer disso pra que você não me deixe sem viver.

—Nossa! Que lindo! Falando abertamente dos seus sentimentos! — O abracei satisfeita.

—Bella, já está na hora. — Alice chamou.

O deixei sentado e fui para o palco improvisado. De lá fiquei o observando. Ele me lançava sorrisos enquanto tocávamos. Emmett tinha comprado uma Fender nova e fazia solos enquanto eu permanecia na base com o teclado. Alice não tinha mais timidez como no começo da banda. Entre nós havia tanta harmonia que só com um olhar sabíamos o arranjo que o outro faria. Depois de uma hora de músicas, percebi Jéssica mais duas amigas perto de Edward e Jasper. Edward bebia, e elas não tiravam os olhos dele. Carne nova e de primeira. Lindo e com carinha inocente de anjo carente. Quem não iria querer?

Ele conversava com Jéssica, mas as outras se insinuavam insistentemente para ele, com suas saias de um palmo e decotes chamativos. Eu não estava mais me concentrando nas músicas, queria descer do palco e salvá-lo. Ciúmes não... Só queria livrá-lo dos tipinhos.

Enfim, Emmett deu uma pausa. Desci em direção a Edward, entrei como uma bala entre os cinco e me coloquei entre suas pernas, com os braços em volta do seu pescoço, demostrando que ele era meu.

—Se divertindo, amor? — Dei um beijo estalado em seus lábios. Ele me olhou assustado com a minha reação territorial.

—Sim, sua irmã é legal. — Respondeu e eu olhei de esguelha para Jéssica e suas amigas, com insolência.

A Jéssica era tão despreocupada e voada que não devia ter percebido meu ato possessivo.

—Que isso que está bebendo? — Perguntei ao vê-lo com um copo de drink.

—Sua irmã que trouxe. Acho que é margarita. É doce, experimenta. — Ofereceu e ergueu o copo.

Experimentei e vi que era forte. —Edward, não fica misturando bebida. Você ainda vai pegar estrada. — Alertei-o carinhosamente.

—Eu estou bem, minha Bella. É bem fraquinho. — Bajulou e inesperadamente me puxou para um beijo faminto, abrindo com voracidade a boca na minha. Correspondi, trocando carícias, mas imediatamente percebi que a bebida o tinha alterado. Beijar em público assim não era comum para ele. Soltei-me do beijo devagar.

—É fraquinho, mas você não é acostumado. — Comentei e imediatamente lembrei da segunda pergunta do carro que não fiz. —Edward você estava bêbado no dia do meu aniversário?

—Bêbado não. Eu tinha tomado uma lata de cerveja. — Abraçou-me apertado. —Bella, por favor, não vai de novo, não. Eu já estou morrendo de saudade de você. — Disse dramaticamente. Ele estava tão engraçado. Adorei-o assim, livre e aberto. Mas ele ainda ia pegar a estrada e tinha que parar de beber.

—Daqui a pouco termina. Me espera. — O beijei carinhosamente no rosto e puxei Jasper no canto.

Não deixe seu irmão beber mais não. Vocês vão pegar a estrada. — Cochichei preocupada.

—Para de ser chata, Bella! Ele bêbado está mais legal. Deixa o cara relaxar! Tu quer mandar em todo mundo, é?! — O atentado espetou sorrindo.

Voltei para o palco preocupada em deixar meu anjinho entre os diabinhos. Tocamos mais uma hora de músicas e percebi que Edward sumiu. Falei com Emmett que ia descer e fui atrás dele.

—Jéssica, cadê Edward? — Perguntei logo que a vi.

—Saiu com Jasper. Acho que procuravam um banheiro.

Procurei um banheiro e me informaram que as pessoas estavam usando os banheiros internos da casa. Encontrei um, e estava de porta fechada. Bati ansiosamente na porta.

—Jasper você está aí?

—Sim, o maníaco está mal. — Disse sorrindo.

—Abre! — Pedi, e ele abriu.

Edward estava péssimo, ajoelhado, passando mal. Esperamos ele se recompor, e chamei Jasper para me ajudar a levá-lo para o carro. Ele deitou com a cabeça no vidro até minha casa. Seria cômico se não fosse trágico.

Chegando em casa, o levamos para a cozinha e preparei uns remédios, deixando-o sentado com a cabeça apoiada na mesa.

—Chegaram cedo. Cadê os outros? — Meu pai pegou um copo com água e olhou em direção ao Edward, assustando-se automaticamente com a figura. —O que ele tem?

—Misturou bebida que não era acostumado.

Edward tomou o antiácido e um remédio para enjôo. Ele estava nocauteado.

—Pai, por favor, deixa eu levá-los em casa. Ele não tem condições de dirigir e Jasper não tem carteira. — Supliquei, preocupada.

—Não, Bella! De jeito nenhum, está tarde! — Negou aborrecido.

—Eu durmo lá, por favor. Ele não tem condições de ir assim. — Passei as mãos nos cabelos do Edward.

Meu pai ficou calado me observando enquanto eu olhava com compaixão para Edward e alisava seu cabelo e rosto.

—Espere aqui. — Papai pediu e saiu.

Será que ele pensava em ir deixá-los em Forks àquela hora da noite? Mas amanhã ele trabalharia. Se ele fosse lá, só voltaria umas quatro da manhã. Coitado, se ele fosse nem iria poder trabalhar. Além disso, iria ficar com raiva de nós dois por isso também.

Minutos depois ele desceu. —Bella, leve ele lá pra cima que ele vai dormir aqui. Eu acabei de ligar para a mãe dele e avisar. — Papai disse calmamente.

—Sério, pai? —Ofeguei aliviada. — Obrigada. — Ele subiu sem responder.

Levei Edward para o meu quarto e Jasper ficou com ele, conduzindo-o até a ducha de água fria. Jasper o ajudou a tomar banho, xingando-o em todo o tempo, mas com bom humor. Eu me arrumei para dormir no quarto de Alice. Até que eu poderia deixá-lo dormir no quarto de hóspedes, mas eu o queria no meu quarto e na minha cama. Jasper o enrolou com a toalha na cintura e o mandou sentar na cama. Edward estava mal e só queria dormir. Lembrei do hotel Crystal, que ele passou a noite com um lençol enrolado na cintura. Sorri... Tive saudade de lá.

Jasper trouxe uma bermuda velha e camiseta sua que mantinha aqui em casa e o vestiu enquanto eu escovava os meus dentes.

—Até parece que você nunca viu ele sem roupa né, Bella! Eu já sei que você dormiu com ele no hotel lá na Capital. Todo mundo lá em casa sabe. — O atentado arreliou brincalhão.

—Eu nunca o vi sem roupa não, viu! — Revidei divertida.

—Hmmm, vocês fazem papai e mamãe no escuro é!? — Sorriu zombador. —Ou meu irmão não gosta de mulher!?

—Ah, eu mato você! — Saí do banheiro para fazer cócegas no garoto. —Seu bobo! A minha vida sexual não te diz respeito. — Olhei para Edward e sorri, enternecida. —Mas você acha mesmo que eu quero vê-lo nu neste estado?! — Fiz careta apontando para toalha e gargalhamos.

Ainda sorrindo, Jasper iria ajudar seu irmão a vestir a camisa. —Deixe-o sem camisa. — Pedi. Era um desperdício deixar tamanha perfeição escondida. Essa imagem ia ficar no meu quarto, e eu precisava gravá-la graficamente.

—Além de tudo é tarada! Coitado do meu irmão. Estou com dó de deixar ele aqui. O quê que você não vai fazer quando eu sair?! — O atentado gracejou.

—Jasper, pelo amor de Deus! Que mente pervertida é essa!? Você estava tão quietinho hoje de manhã! Volta a ficar quietinho vai! — Disse brincando.

—Só se você terminar de novo com o meu irmão. — Ele expôs sério.

—Não foi eu quem terminei com ele. — Expliquei, admirada com a declaração.

—Mas era você quem não queria voltar pra ele. No dia do aniversário dele, ele já queria voltar pra você, você que não quis. — Argumentou.

—E quando a gente termina você fica triste? — Perguntei analítica.

—Bella, eu sei que o que eu vou falar é meio gay, mas eu adoro meu irmão e adoro você. Eu não gosto de ver vocês dois tristes. Vocês ficam muito mal quando estão longe um do outro. Qualquer pessoa a milhas de distância vê o quanto vocês são apaixonados. Você nem imagina o quanto admiro meu irmão, ele é um exemplo pra mim, e eu sinto que ele precisa de você igual de remédio. Então vocês deviam parar com essas frescuras e ficar logo juntos de vez. — Ele disse sério.

Pisquei contente com o que meu irmãozinho disse. Edward precisava de mim e todos viam? Muito bom.

—Jasper, pega escovas de dente novas lá no armário, por favor. Depois você pode ir para o seu quarto que eu fico com ele.

Enquanto ele foi ao armário, sentei na cama e passei creme nos braços do Edward, que estava entre o acordado e o dormindo. Passei creme em seu rosto, analisando cada detalhe. Meus olhos o exploravam. Estava agradecida por ele estar no meu quarto.

Deitei minha cabeça em seu peito e dei beijinhos carinhosos.

BELLA! PARA COM ISSO! ELE NÃO TEM CHANCE NEM DE SE DEFENDER! — Era Jasper importunando novamente.

—Você hoje vai tirar a noite pra me encher o saco é? Vá dormir, vai! Vou usá-lo mesmo, vou aproveitar! —Ralhei. — Tu acha que esse ser humano tem condições de ser usado?! — Olhamos juntos para o quadril de Edward, nos olhamos novamente, depois gargalhamos.

Jasper saiu e me deixou com o meu anjinho doce e difícil de entender, mas que eu dependia como o ar que eu respiro e como o sangue em minhas veias. Eu não devia deixá-lo nunca.

O chamei para escovar os dentes com minha ajuda, ele escovou mole, depois aspergi o meu perfume embaixo do seu braço, no seu peito e no pescoço. Ele ia amanhecer inebriado pelo meu cheiro - sorri.

Dormi no quarto de Alice. Por horas rolei na cama ao lembrar a nova sensação de mais cedo dentro do carro. Meu cérebro em determinados momentos jogava correntes elétricas espalhando por todo o meu corpo a sensação de prazer. Eu tinha que apertar as pernas uma na outra para aliviar a dor no baixo ventre.

Acordei cedo e fui vê-lo. Ele ainda dormia. Arrumei-me rápido, olhei o número das roupas dele e fui ao centro comprar umas roupas, porque as dele estavam sujas, e se eu o quisesse passando o dia comigo, ele tinha que ter roupas limpas. Bom, pelo menos era uma chance de comprar roupas para ele. Ele não ia ter como negar.

Comprei duas peças de calças, duas de blusas e um pacote de cuecas boxer. Mas por que duas peças de cada, e um pacote de cuecas? Perguntei-me intrigada. Bom, de repente eu não quisesse mais deixá-lo ir. Sorri com o pensamento.

Cheguei ao quarto, e ele ainda dormia profundamente. Desci, peguei suas roupas sujas e pedi que a funcionária as colocasse na máquina, depois peguei as roupas novas e esborrifei amaciante para tirar o cheiro. Preparei uns remédios para enjôo e dor de cabeça, juntei com as roupas novas, a escova de dente e uma maçã, e coloquei na mesinha próxima à cabeceira da cama que ele dormia.

Ao fim, escrevi um bilhete arteiro.

A nossa noite foi maravilhosa.

Nunca pensei que pudesse ser assim...

...Obrigada.

Você me completa.

Sorri divertida.

Continua...