Capítulo- Por favor, me perdoe

Bella

Olhei para o monitor como que hipnotizada, o olhar vago. As cenas do vídeo ainda se repetiam por trás de minhas pálpebras compulsivamente. Embora fosse uma cena forjada, o objetivo era me fazer temer a repercussão e interpretação, caso caísse na mídia. E eu tinha que tomar decisões. A primeira seria expor a situação a Edward. Se ele decidisse desistir do poder e enfrentar o processo, ele teria milhares de chances de sair livre. Em caso de condenação, meu pai usaria de seu dinheiro e influência para abrandar a pena imposta.

Mas ele seria feliz em ter que abandonar tudo? Perguntei-me tentando ver com neutralidade.

Seu futuro estaria arruinado, seu sonho frustrado, sem escolhas, sem chances. Anos de estudo seriam jogados ao vento, sua imagem comprometida. Desistir seria uma decisão forçada. Seria justo carregar esta escolha pelo restante da vida? Deixar de alcançar um objetivo por causa de um amor ou de um casamento?

Porque ficou claro na mensagem que se nos afastarmos ele conseguirá alcançar o poder. Suspirei nervosa diante das indagações, no entanto ele quem deveria decidir.

—Oi, amor, dormindo a essa hora? — Perguntou divertido ao me flagrar concentrada nas questões, a cabeça apoiada nas mãos e olhos fechados. —Como foi o dia? — Ele estava dentro do seu dormitório da universidade sem camisa, os cabelos molhados e semblante animado.

—Foi bom... E o seu? — Forcei um sorriso no rosto e empurrei o assunto para gaveta. Teríamos tempo depois.

—Foi bom. — Riu ansioso como se estivesse algo importante a falar. —Estou feliz. —Revelou com um sorriso tímido.

—Percebi. Mas por quê? — Estalei os dedos freneticamente, ansiosa.

—Meu dois projetos já passaram pelas duas casas. Agora só falta o presidente sancionar para virar lei. — Explicou animadamente. —Nossa, Bella, isso é muito bom pra mim.— Comentou extasiado. Vê-lo tão alegre com a concretização de seus sonhos fez um espasmo inesperado de dor atravessar minha espinha.

—Que bom, embaixador. — Apoiei-o com mais um sorriso forçado, tentando disfarçar meu temor. Ele parou de falar e estudou-me desconfiado. Eu precisava manter meu semblante composto para não passar a impressão errada de que eu não o apoiava.

— O pai da Sô está muito satisfeito. Acredita que ele fez questão de me agradecer na tribuna em frente a todos os parlamentares pelo projeto que eu cedi a ele? O reconhecimento foi gratificante! — Continuou a dizer. Eu baixei o olhar incapaz de congratular com ele enquanto assistia a ameaça aos nossos sonhos. —Está cansada, amor? — Questionou alerta.

—Um pouco. — Menti. Quanto mais ele falava, mais sua convicção em seguir em frente era ressaltada. Com um peso sobre os ombros, ajeitei o notebook e deitei encolhida de lado na cama.

—Então vá descansar que eu ainda vou fazer umas pesquisas antes de dormir... Está tudo bem? — Perguntou preocupado.

—Sim. Estou muito feliz por você.

—Então, ... Está lembrada que hoje faltam quarenta e sete dias? — Lembrou sorridente.

—Sei. Você saiu daqui hoje e disse isso assim que acordamos. — Comentei contente, mas em seguida meu coração doeu com a dúvida da realização.

—Então vá descansar. Amanhã nos encontramos em Seattle.

—Tudo bem. Rosalie e Emmett vão também para comemorarmos juntos o aniversário do Jasper.

—Que bom... Então te encontro lá. — Disse baixo, parecendo com menos ânimo. De certo ele percebeu que algo não estava bem e suspeitava que eu não apoiasse suas conquistas. Se ele soubesse que tudo que eu queria hoje era que tivesse um jeito dele chegar lá sem que nada o impedisse.

—Edward, eu estava me esquecendo de algo importante. —Lembrei num sobressalto. — Troque as suas senhas de novo e tente não usar aquele computador do Capitólio para falar comigo. Acho que a máquina de lá tem um espião. — Comentei ao lembrar ter recebido o vídeo direto do e-mail dele.

—Por que acha isso?

—Não sei. Geralmente esses computadores do governo são alvos de hackers, então é melhor não vacilar. — Aleguei uma desculpa para adiar a conversa. Eu não tinha mais certeza do que fazer. Sua empolgação com seus sonhos alcançados me desarmou.

—Mas nos meus e-mails não tem nada importante.

—Tem sim, por exemplo, aquelas fotos que eu tirei seminua lá. Já pensou se cai na rede? — Sorri um sorriso feminino e persuasivo.

—Ok. Você me convenceu. Não quero meu festim exposto para o mundo assim. — Brincou possessivo. —Vou fazer isso agora.

—Até amanhã, anjinho... Te amo. — Suspirei saudosa.

—O que há com você amor? —Ele pressionou. —Eu estou tentando deixar passar, mas eu sei que algo te preocupa. Fala pra mim. — Pediu ternamente. Se eu não me controlasse, lágrimas de impotência iriam brotar nos meus olhos sem permissão.

—Não é nada. Só estou preocupada com tudo que acontecerá lá em casa. — Justifiquei com um pretexto.

As palavras soaram com duplo sentido até pra mim. Eu não sabia realmente do nosso amanhã. Temia tudo que se armava tanto na vida da minha família como na minha.

—Foi você quem disse que no final dá tudo certo. Fique bem. Estaremos juntos sempre. — Garantiu solene.

—Então boa noite. Beijos. — Despedi e desconectei rápido, pois estava difícil me conter, principalmente depois de suas últimas palavras. Chorei encolhida em posição fetal, com muito medo de perdê-lo para o degradante poder americano.

No dia seguinte, cheguei a Seattle às nove da noite. Edward pegaria o voo em Washington D.C. às sete e meia, chegaria em Seattle por volta das onze da noite. Entrei no meu adorado quarto lilás na casa do papai, sentei em frente ao computador e loguei. Eu temia pelo que encontraria, pois desde o dia anterior não tinha acessado. Outra mensagem ocupava a caixa de entrada.

Mensagem quinta 23h40

Estou esperando uma resposta. Você não tem todo tempo do mundo.

Mensagem sexta 02h20

O que você seria capaz de deixar para trás para chegar ao poder americano?

À medida que lia, angústia duelava com ódio escuro no meu peito. Ela repetiu exatamente as palavras do pai. Sinal óbvio de que ela o manipulava, de que tudo foi realmente uma armação.

Mais mensagens ocupavam a caixa.

Mensagem sexta 11h13

Fico imaginando como seria interessante ver Bella Cullen, filha de um empresário bilionário, sendo revistada ao visitar o noivo no presídio federal de Maryland. Rsrsrs

Eu fechei as mãos em punho. Se a intenção dela era me levar ao limite, já cobrava efeito.

Mensagem sexta 18h

Decida-se... Aproveite bem o fim de semana... Será a última vez que ele será seu... Exijo que ele volte sem aliança na próxima semana.

Respirei fundo e por pouco não joguei o notebook no chão. Lágrimas se confundiram com água durante meu banho. Vesti um pijama longo, apaguei a luz e me envolvi com o edredom em bola. Cada minuto na cama sozinha pareceu uma eternidade. Meu cérebro rejeitava a idéia de ceder à ameaça.

Solucei tremulamente ao ouvir sua voz cumprimentando as pessoas no andar de baixo. Limpei o rosto e deitei de lado, frente à porta, fingindo dormir para não magoá-lo com a tristeza em meus olhos.

A porta estava semi-aberta quando ele entrou, trancou-a em silêncio, guardou sua pasta e foi para o banho. Com a toalha enrolada na cintura, ele sentou na ponta da cama. Eu tinha os olhos abertos, mas a sombra do abajur me protegia. Observei-o vestir-se. Tão lindo e doce, meu anjo esculpido. Sempre tive a impressão que ele foi feito exatamente para mim... Agora...

Edward

Desde o dia anterior suas atitudes me intrigavam. Algo a atormenta, obviamente. No entanto, não posso ver o motivo, quando nosso objetivo é enfrentar qualquer adversidade juntos. Seu comportamento atual está em desconformidade com os de hábito rotineiro. Um exemplo é que nas diversas vezes que nos encontramos aqui em Seattle, ainda que ela estivesse cansada, prontificava-se sempre a buscar-me no aeroporto com entusiasmo. Hoje, além de não ter ido, não me esperou acordada.

Vesti um short, desliguei totalmente o abajur e deitei ao seu lado, ela de costas para mim. Beijei sua nuca. Ela parecia em sono profundo.

—Está dizendo não para mim, ao usar esse pijama longo? — Condenei em seu ouvido, divertido. Era tão comum encontrá-la nua na cama que não pude evitar reclamar. Sorri ao sentir os pelos do seu rosto se eriçaram com o calor do meu hálito. Passei a mão na sinuosidade do seu quadril e parei-a em seu ventre. Ato seguido, aconcheguei-a mais a mim, o nariz em seu pescoço deliciando-me em seu aroma.

Seu corpo estremeceu num soluço, acendi a luz alarmado e a virei frente a mim para observá-la. Seu rosto estava úmido. Tirei o cabelo de seu rosto e notei que dos seus olhos brotavam lágrimas.

—Você está acordada. — Acusei. Ela não se moveu, somente soluçou silenciosa novamente, rejeitando compartilhar o que estivesse atormentando-a. Entretanto, iríamos nos casar, não podiam existir segredos entre nós. —Amor, fala comigo. — Limpei a umidade dos seus olhos com o lençol e distribuí beijos em seu rosto, consolando-a. Ela abriu os olhos.

—Estou nervosa, só isso. — Explicou com a voz rouca, abraçou-me e encostou o rosto em meu peito. Eu não podia aceitar sua tristeza. Não havia motivos.

—Há alguma coisa que eu possa fazer por você? — Questionei preocupado, beijando insistentemente sua testa e pálpebras.

—Só me abraça. Preciso de você... Vai passar... — Concedeu desconsolada. Aninhei-a em meu braço, fechei os olhos e argumentei mentalmente que era só nervosismo.

Bella

A noite se passou devagar, e eu não consegui desconectar a mente e dormir. Permaneci abraçada a ele, beijando seu peito, passeando as minhas mãos, decorando a textura, a temperatura, a cor.

Menti ao afirmar que nunca iria desistir dele. No entanto, é por acreditar tanto nele que preciso desistir. Se ele ficar comigo, ele perde duas coisas importantes: seu sonho e sua liberdade. Se ele ficar livre, ele só perde a mim, um amor... Ele não vai ser o único no mundo a perder um. Deixá-lo ir prova que eu sempre o incitei a seguir seus sonhos e continuo o apoiando.

Abracei-o forte novamente, vendo o sol entrar pelas persianas abertas. Beijei seu rosto lindo adormecido, sentei e me preparei psicologicamente para o dia que iríamos enfrentar. Vesti um short jeans, uma camiseta nadador, calcei uma sandália e o deixei no quarto dormindo. Após uma noite de tormenta, de choro e de angústia, eu estava disposta a enfrentar este dia. Faminta, preparei meu lanche e pus no meu rosto o melhor disfarce de tranquilidade. Meu pai, Esme e Jéssica já estavam lá embaixo alimentando os bebês, Seth e Susan.

—Pensaram que ter filhos seria fácil! — Brinquei, dei um beijo nas crianças e sentei no sofá para comer meu bolo.

—E você e Edward, não querem filhos cedo, não? — Jéssica perguntou. Eu engasguei dolorida com a pergunta e respirei fundo para responder. Não iria deixar que nada abalasse minha determinação. —Acho que não. Vou demorar um pouco. — Peguei Susan no colo e dei beijinhos debaixo do seu braço. —Se bem que eu adoro esses bebês.

Após uns momentos de descontração, procurei os olhos de Esme e fiz sinal que ela fosse à cozinha.

—Que horas você pretende falar? — Questionei baixinho, encostada à porta para vigiar nossa privacidade.

—Depois do almoço. — Respondeu tensa.

—Vai dar certo. Fique calma. — Tentei confortá-la. —Então mais tarde eu desço. Vou levar um lanche para o meu belo adormecido.

Eu preparei lanche numa bandeja, reprimindo a apreensão, subi para o quarto, e meu anjo tinha acordado, tomou banho e trocou de roupa. Coloquei a bandeja sobre a cama e juntei-me a ele, as mãos em volta de seu pescoço.

—Quarenta e cinco dias. — Declarou solene e deu-me um selinho. Eu sorri triste, a dor esmagadora do medo alastrando em meu peito... Eu não queria chorar...

—Que carinha é essa, Bella? — Levantou meu queixo desconfiado. —Quando você entrou, pensei que estava melhor hoje.

—E estou. —Garanti. —Vamos ficar a manhã todinha trancados aqui. — Avisei, escovei os dentes, depois deitei na cama. Não estava a fim de me socializar hoje. Eu o queria só para mim. Ele lanchou e deitou ao meu lado, a perna pesada e forte sobre mim.

—Adorei o shortinho, mas eu prefiro saias. — Ponderou brincalhão, ao tempo que passava possessivo as mãos em minhas pernas.

—Óh senhor, eu libertei um monstro! — Dramatizei e me contorci com suas mãos me fazendo cócegas.

—Você é minha, não? — Ele me virou de frente a ele e salpicou beijinhos em meu rosto. —Hmmm, já que vamos nos trancar aqui, vou descontar a noite de ontem aproveitando que você hoje está bem mais animadinha. — Ele sorriu sugestivo e mordiscou minha orelha.

Abracei-o, meu rosto em seu peito.

—Mais tarde. Agora eu quero ficar assim, abraçadinha a você. — Apertei-o no abraço.

Eu não queria que esta manhã passasse. Queria esquecer o mundo lá fora. Porém, mais rápido do que eu esperava, a manhã se passou e tivemos que descer para o almoço.

Esme

Quanto mais o tempo passava, mais pratos se esvaziavam, mais a angústia em meu peito aumentava.

—Vamos sair hoje à noite, Esme? — Carl, que conversava com Edward ao meu lado, propôs. —Já que não comemoramos o aniversário de Jasper na semana, poderíamos sair todos.

Eu assenti sem ânimo. Depois que eu revelasse, nada mais era certo sobre o futuro. Mais minutos se passaram. Edward lançava olhares sugestivos em minha direção. A sobremesa foi servida e Jéssica levantou para sair.

—Espere, Jéssica. Esme tem algo para falar. — Bella interferiu e olhou em minha direção.

Eu tremi de nervosismo. Todos me fitavam em expectativa. Mas como uma mulher que criou os filhos sozinha e enfrentou muitos obstáculos da vida podia acovardar-se ao ter a vida de seu filho em perigo? Respirei fundo e tomei forças.

—Bom, estamos comemorando o aniversário do Jasper. — Comecei hesitante. —Um filho que foi como um presente na minha vida, completou o que faltava em mim... Foi, er, o filho do meu amor. — Confessei emocionada. Edward apertou forte minha mão, solidário. Alice, prevendo o que aconteceria, pranteou baixinho. Bella a abraçou. Os demais obviamente não entendiam os motivos de emoção e nervosismo.

—Que fossa é essa, Alice? Nem parece que estão comemorando meu aniversário! — Jasper sorriu zombeteiro.

—Jasper, olhe para mim... — Pedi séria, incapaz de suportar mais tempo de apreensão. —Filho... — Evitei o olhar de Carlisle para as próximas revelações. —...Quando eu engravidei de você, eu tinha vinte anos... Estava separada do Phil há dois anos e morava na Califórnia, local onde você foi gerado... — Esclareci, e lágrimas caíram lentamente de meus olhos. —Seu pai foi o único homem que eu amei em toda a minha vida desde que eu tinha quatorze anos, que foi quando eu o vi pela primeira vez jogando basquete na escola.

O silêncio ressonou na sala por segundos angustiantes. Vi pelo canto do olho Carlisle levantar da cadeira e não ousei enfrentá-lo ainda.

—Por que isso agora, mãe? Eu não me importo quem é meu pai. A vida é sua. — Jasper comentou confuso, olhando de um ao outro na mesa.

Eu me equipei de coragem para o golpe final.

—Desculpe ter te escondido isso, mas seu pai é... Carlisle. —Concluí finalmente com um suspiro. Ouvi um barulho de móvel quebrando no outro lado da sala, mas não ergui o olhar. Jasper congelou em mudo estupor, os olhos sem vida em direção à Alice.

—Eu não quero ouvir isso. — Jasper pôs as duas mãos no ouvido e balançou-a, negando. —Diz que é mentira... Não... — Disse baixo, quase sem som, levantou da mesa e continuou balançando a cabeça.

QUANTOS SABIAM DISSO? — Carlisle rosnou, apontando os dedos em todas as direções, transtornado.

Encolhi-me covardemente sob o abraço protetor de Edward. Ele continuou.

—Esme, eu não acredito que você me escondeu mais isso?! — Acusou com ódio e caminhou ameaçador em minha direção.

Edward levantou-se da cadeira e se colocou estrategicamente entre nós, com cautela e consideração.

—Carlisle, acho que não é uma boa hora para conversar. — Edward interveio apaziguador.

Carlisle o ignorou a apontou o dedo em minha direção.

—Desde que você entrou em minha vida só trás mentiras! Maldita a hora que eu te conheci! Que inferno! Você não me merece, sua dissimulada e cretina!Tentou avançar em minha direção, mas Edward o conteve como um muro protetor.

—Chega, pai! — Bella levantou e o abraçou. — Pare de insultá-la. — Tentou acalmá-lo enquanto passava a mão no seu rosto. —Ela é a mãe dos seus filhos. — Ressaltou diplomática.

—Vocês todos estavam escondendo isso de mim? Quem mais sabia? — Olhou furioso de um a um dos presentes. Ninguém se manifestou. Alguns alheios estavam perplexos. Alice chorava. Susan iniciou um choro assustado ao ouvir o pai falando alto.

Tirei Susan da cadeirinha e a coloquei em meu colo. Carlisle recuou, e as lágrimas frustradas desciam de meus olhos.

Eu o perdi, percebi. Perdi-o para sempre.

—Esme, fora da minha casa! Pegue suas coisas e vá embora!Sentenciou hostil, apontando para rua.

Bella interveio novamente.

—Pai, o senhor está fora de si! É a mãe de seus filhos. Para onde ela vai? — Chamou-o a razão, desviando seu olhar ressentido do meu.

—Se ela não vai, eu vou! Decidiu alterado, soltou-se do abraço da Bella e pegou a chave do seu carro sobre o aparador.

—Edward e Emmett, os dois, atrás dele. — Bella instruiu decidida. Edward correu atrás dele.

Jasper

Porra! Isso não pode ser verdade, não pode ser. Como isso foi acontecer? Agora tudo se encaixa. Filho do Carl, irmão de verdade da Bella e... Por isso aquelas atitudes escrotas do Edward quando eu falava em namorar Alice. Por isso eles foram embora quando descobriram que eu estava namorando a... minha irmã. Merda, merda! Que merda que virou minha vida!

De costas para a mesa, negava aceitar essa tragédia, quando senti a minha cintura ser agarrada por trás. Descobri quem era pelo calor que percorreu minhas costas. Pela primeira vez na vida tive vontade de morrer.

—Jazz, olha pra mim. — Um sussurro e lágrimas molharam minha blusa. Eu não queria olhá-la.

Puta merda, eu queria pegar minha própria irmã! O anjo mal ria do meu desespero culpado.

Você agora ganhou um pai e mais irmãos de verdade - anjo bom se intrometeu tentando pacificar.

Calem a boca! Gritei mentalmente.

Pior é que o viadinho que mora em um canto do meu cérebro já queria chorar! Sentei no chão, tampei meu rosto com as mãos e chorei feito bicha.

—Jazz, por favor, conversa comigo. — Alice implorou e se ajoelhou, tentando levantar meu rosto.

—Você sabia, Alice, por isso estava me tirando o tempo todo? — Acusei. —Tu também é traíra! Eu fico de cara como você estava deixando eu te beijar sabendo que somos irmãos! — Ataquei para descontar minha frustração.

—Jazz... — Ela prendeu o meu rosto com força e me forçou a olhar para ela —Eu amo você mesmo assim. Sei que é pecado para algumas religiões e imoral, mas o que eu posso fazer se eu amo você mais que minha própria vida! — Resmungou chorosa. —Eu não me importo. Para mim não existe homem, mulher, irmão. Só existem pessoas que se amam e querem ficar juntas. —Defendeu com decisão. —Eu quero ficar com você.

Suas palavras bizarras lembraram que ela não tinha culpa. Ela era vítima, como eu. Minha dor não era motivada por ser filho do Carl, minha raiva era ser tão doido por minha própria irmã. Queria mandar o mundo pra PQP. Queria xingar, brigar, mas ela era quem que menos merecia isso. Pus as idéias no lugar, peguei a mão dela e a abracei protetoramente. Só dividindo a dor conseguiríamos passar por isso.

Edward

Saí apressado da sala para alcançar Carlisle antes que ele saísse do estacionamento. Parei em frente ao carro impedindo-o de avançar.

—Carlisle, espere, por favor. — Pedi. Ele girou o volante para escapar. Eu acompanhei os movimentos teimosamente.

—Edward, melhor você sair. Não quero conversar. — Pôs a cabeça para fora do carro impaciente.

—Eu vou com você. — Avisei, ainda parado a sua frente, com a mão no capô.

Ele congelou sem fala, olhando-me indeciso. Aproveitei o momento e abri a porta do passageiro. Ele não negou. Acelerou e deixou o estacionamento. Avistei Emmett vindo logo atrás no carro dele, mas fiz sinal com a mão que ele recuasse. Ele fez a volta.

—Para onde está indo? — Perguntei tranquilo logo que deixamos sua rua.

—Não sei... — Passou a mão no cabelo, nervoso. —Não consigo pensar... — Apoiou a cabeça com o antebraço na porta.

—Vamos para uma chopperia. — Sugeri. Era a melhor opção para distrai-lo.

—Você dirige? — Propôs e encostou o carro.

—Sim. — Assenti, desci e assumi a direção.

Dirigi em silêncio alguns segundos, sem acelerar muito para ganhar tempo.

—Por quanto tempo mais ela iria esconder isso? — Começou, magoado. —Por que ela só me contou agora? — Quis saber com misto de decepção e mágoa.

—Você quer saber sem mentiras? — Perguntei cauteloso. Ele desviou o olhar, chateado.

—Se pelo menos em você eu puder confiar. — Concedeu e recostou a cabeça no vidro do passageiro.

—Ela ia te contar há dois anos, na festa da Alice de quinze anos, porém, descobrimos que Alice estava, er... Se envolvendo com Jasper, então resolvemos deixar tudo para trás e impedir que acontecesse o incesto. — Esclareci pausado. Ganhei sua atenção.

—Alice e Jasper?! — Juntou a sobrancelha interessado.

—Sim. Eles se gostam. Mas então ela soube da condição de irmãos ano passado, quando terminou com ele.

Ele suspirou e olhou para fora do carro.

—Eu não entendo por que ela escondeu isso de mim. Jasper passou por necessidades na vida sem precisão! Ele é meu filho! — Protestou revoltado, jogando as mãos no ar.

—Carlisle, você nunca nos deixou passar precisão, lembra? — Enfatizei conciliador. —Você não cuidou só do seu filho a vida toda, mas de todos nós. — Elucidei agradecido, disposto a persuadi-lo de sua importância em nossa vida. Ele permaneceu em silêncio meditador.

—Eu amei sua mãe a vida toda, Edward... Mas parece que eu não a conheço. Não consigo entender as atitudes dela.

—Carlisle, no começo eu também não a entendia. Só hoje eu entendo completamente o que somos capazes de fazer quando amamos alguém... Ela tem verdadeira adoração por Jasper desde pequeno... É como ela disse, ele é o filho do amor dela... Ela idolatrou Jasper toda a vida. Na cabeça dela, ela conseguiu tirar alguma coisa de você. Ele foi planejado. Ela o quis. Sonhou em ficar grávida dele... Como o primogênito de vocês, que um dia vocês tinham imaturamente planejado... Eu sei que você não vai entender, mas para ela foi tudo ter ele... Porém, você a conhece. Dá para imaginar o porquê de ela nunca ter te falado. Ela queria criá-lo sozinha, livre de preconceitos e julgamentos. Por isso ela nunca te disse... Porém a doença aconteceu e uniu as nossas famílias. No início, ela encarava a doença como castigo, no entanto depois ela aceitou que foi a doença dele que aproximou eu e Bella e consequentemente reaproximou você dela. Então se conformou... Hoje, o que ela quer é a cura dele... Tem tempos que ela quer te contar, mas sempre teve empecilhos, então inevitavelmente teve que acontecer hoje, pois o garoto precisa de um doador compatível de medula. O restante de seus filhos e você oferecem mais três possibilidades.

Ele suspirou desgostoso. O silêncio caiu sobre nós no restante do trajeto. Chegamos ao bar e procuramos uma mesa isolada na área externa.

—Hoje só vou sair daqui quando estiver esquecido tudo completamente. — Ele condicionou, após pedir um tonel de chopp. —Quando acordar amanhã, resolvo o que fazer da minha vida.

Bella

Depois de uma tarde de acontecimentos intensos, um cansaço enorme e desconhecido me invadiu e deitei na cama para descansar. Antes de me recolher, dei um calmante a Esme e a acompanhei ao seu quarto. Horas depois despertei do sono profundo e meu coração apertou de saudade antecipada de Edward. Não queria perdê-lo nem que fosse uma tarde.

Um tempo depois, ouvi o som do ronco do motor do carro do meu pai e sentei na cama. Levantei e caminhei até a varanda para vê-los. Edward desceu e abriu a porta do passageiro para ajudar meu pai que estava aparentemente bêbado.

EDWARD, VOCÊ JÁ VIU O TANTO DE FILHO QUE EU TENHO? UM, DOIS, TRES, QUATRO, CINCO, SEIS. SEIS FILHOS! — Meu pai contou nos dedos, sorrindo bobo, abraçado ao Edward. Eu sorri nervosamente da cena. Os dois pararam no meio do estacionamento e meu pai segurou o rosto do Edward com as duas mãos.

NOSSA, TUDO BEM QUE DEUS MANDOU POVOAR O MUNDO, MAS QUASE QUE EU FIZ ISSO SOZINHO! — Gargalhou. Edward desviou o rosto do que obviamente seria bafo de álcool e sorriu. —VOCÊ TAMBÉM QUER SER MEU FILHO? — Papai perguntou divertido. —EU TE ADOTO E TE DOU MEU NOME! AÍ VOCÊ TAMBÉM IRIA CASAR COM A SUA IRMÃ!— Gargalhou escandalosamente. —IGUAL JASPER E ALICE! — Ele dobrou-se sobre si de tanto rir. —O QUÊ QUE TEM? DEIXA OS DOIS! — Ele ria ainda segurando Edward. —SE VOCÊ QUISER SER MEU FILHO, EU VOU TER UM, DOIS, TRÊS, QUATRO, CINCO, SEIS, SETE FILHOS! PUXA! — Suspirou, pôs a mão na cabeça depois olhou para a casa. —CADÊ MEU FILHO? VAMOS LÁ QUE EU VOU DAR UM ABRAÇO NELE... — Virou de costas e tentou caminhar, mas tropeçou. —AH, ELE DIZ QUE NÃO GOSTA DE ABRAÇO, MAS O PAI DELE ELE VAI TER QUE ABRAÇAR!

Os dois caminharam rumo à entrada da cozinha, devagar, depois papai parou e olhou Edward.

EDWARD, VOCÊ TAMBÉM NÃO GOSTA DE ABRAÇO, NÃO?

—Gosto. — Respondeu tímido.

ENTÃO DÁ AQUI UM ABRAÇO E ME CHAMA DE PAIZÃO. — Papai abraçou Edward forte. —NÃO QUERO QUE ME CHAME DE SOGRO. DE AGORA EM DIANTE EU SOU O PAIZÃO! — Exigiu. Edward abraçou-o de volta bem-humorado.

Eu sorri da cena, mas imediatamente enrijeci de apreensão pela ameaça da nossa felicidade. Os dois deram mais alguns passos e tropeções.

ACORDA TODOS OS MEUS FILHOS QUE EU QUERO CONVERSAR COM ELES!

—Não, Carl, amanhã você conversa com eles. — Edward pediu cauteloso.

Meu pai parou na frente dele e colocou a mão na cintura.

POR QUE VOCÊ TÁ ME IMPEDINDO? EU NÃO ESTOU BÊBADO. EU TÔ É PUTO COM A... — Parou de falar e sentou no banquinho do jardim, os ombros tremendo. —... Não deixa ela me ver assim, por favor. — Implorou mais baixo. —Ela vai achar que eu estou morrendo de amores por ela, e eu não estou. — Defendeu orgulhoso.

bom, Carl. Vamos subir. — Estendeu a mão para papai se apoiar. Eles entraram na cozinha, e não ouvi mais barulho. Novamente deitei, pensando na conversa que eu tinha que ter hoje.

Edward

Encontramos Alice e Jasper logo que entramos na cozinha. Carlisle esquivou-se e sibilou em meu ouvido ao vê-los.

—Não quero falar com ele hoje. — Pediu na defensiva.

—Ele não tem que ser motivo de preocupação. Ele é seu filho e nada muda isso. — Salientei e observei Jasper. Se ele nos acompanhasse ao quarto, o gelo entre os dois poderia se quebrar. —Jasper, venha comigo. — Chamei-o. Alice o incitou a vir com um empurrão.

Subimos eu e Carlisle na frente, e Jasper atrás. Entramos no quarto e ajudei Carlisle sentar na cama. Jasper parecia deslocado, encostou-se à parede e ficou nos olhando à distância.

—Qual roupa você vai vestir, Carl? — Apontei para o armário dando opção.

Ele balançou os ombros, peguei um pijama no criado mudo e pus sobre a cama.

—Você consegue tomar banho sozinho? — Perguntei.

—Sim.

Ele levantou cambaleante e se dirigiu ao banheiro. Jasper, preocupado, parou ao meu lado.

—Tu é doido, cara! Vai deixar o véi tomar banho sozinho! — Fez um gesto acusador apontando para o box. —E se ele cair e quebrar o fêmur? — Sussurrou trágico. —Você sabe, fêmur de véi num emenda.

—Então vai você dá o banho nele. — Dei de ombros, tranquilo. —O pai é seu. —Segurei o sorriso ao ver a careta cética que ele fez. Ele abriu a porta do banheiro e deixou a porta semi-aberta. Sentei na cadeira de canto e esperei. Os resmungos de Jasper me chamaram a atenção.

—Você devia tomar jeito. Isso não é exemplo de um pai para filho. Como é que tu chega em casa mal assim? — Reprovou sério. —Eu que nunca vou por essas porcarias de bebida na minha boca, ainda mais pra ficar ruim assim.

—Rá! Eu bebi foi pra ficar ruim, se fosse pra ficar bom eu teria tomado remédio. — Carl zombou com voz arrastada. Jasper sorriu.

—Ah, é, seu pudim de cana! — E um barulho de água foi ouvido. Entrei alarmado no banheiro e deparei-me com Carlisle sorrindo e Jasper dentro da banheira de short e camiseta todo molhado, com cara de poucos amigos.

—Sai fora, Zé-pinguinha! — Resmungou, tentando se levantar. —Quê que vão falar de mim se souberem que eu em uma banheira com outro homem? — Jasper tentava levantar, e Carl o puxava pela roupa. —Ow, maníaco, me ajuda aqui que eu não posso ficar molhado. — Reclamou zangado. —Esse véi muito sem noção. Como é que me molha assim com água gelada, sabendo que eu sarei de pneumonia esses dias!

Eu aproximei-me divertido e o ajudei a levantar.

—Agora eu quero ver se você não vai melhorar. —Carlisle disse. — O teu pai aqui vai deixar você forte igual um cavalo. Dá um abraço aqui no teu pai. — Carlisle abriu os braços teatralmente.

—Pirou, é? Tu pelado! Eu que não vou abraçar homem nenhum pelado em banheira. Cai fora. Eu sou é homem. Não é que eu seja contra os homens ser bicha. Mas até meu lado feminino é lésbico. Eu gosto é de mulher. — Discursou enquanto se enxugava. Eu e Carlisle rimos sem parar. —Vou usar este roupão aqui, para não andar pela casa todo molhado. — Ele tirou a roupa e vestiu o roupão pendurado na entrada.

Carlisle terminou o banho, enxugou-se e vestiu o pijama. Observei que a situação estava controlada, então caminhei em direção a porta do quarto para sair.

—Estou indo. — Avisei para lhes dar privacidade. Talvez ambos quisessem ter algum momento a sós, pai e filho.

—Não... Fique, Edward. — Carlisle pediu. Eu sentei em expectativa no sofá de canto.—Jasper... — Carlisle chamou-o, apontando para a cadeira próxima a cama. Jasper sentou. —Mesmo que eu tenha tido uma atitude grosseira mais cedo, foi uma surpresa agradável descobrir que você é meu filho... É meio estranho ganhar um filho com dezoito anos, mas no meu coração desde que você veio aqui para casa quando tinha quatorze anos eu te considerei meu filho... Não por compaixão por causa da doença, e sim por afinidade e admiração pela alegria e força que traz consigo... Lamento por termos descoberto tão tarde, por termos perdido tanto tempo juntos, mas ainda temos muito tempo. — Carlisle acentuou, embora meio ébrio, consciente. Jasper levantou e caminhou inquieto pelo quarto.

—Olha, Carl, eu já disse uma vez pra você que eu te achava maior maneiro, que queria ter um pai como você, mas o que me deixa malzão é ser afim da minha irmã. Isso é uma derrota. — Jasper explicou, as mãos movendo-se agitadamente uma na outra.

—Mas... — Carlisle começou, mas interrompeu o que ia dizer ao olhar para porta. Acompanhamos seu olhar e, surpreendentemente, minha mãe estava na porta. Carlisle endureceu o semblante. Ela ergueu os ombros e caminhou até a cama, sentando-se ao lado dele.

—Eu. não. quero. falar. com. você. — Carlisle pontuou cada frase entre dentes.

—Ah, mas vai falar sim. — Ela retorquiu segura. —Você não cansa de fugir de tudo não? Se eu fui covarde, você também foi a vida toda.

Eu caminhei até a porta e fiz sinal disfarçado para Jasper para deixá-los sós, mas temia seus ânimos.

—Esme, amanhã conversamos. — Carlisle pediu mais pacífico.

—Não. Se nós não conversarmos hoje, eu vou embora, como você mandou mais cedo. Depois não vou ter mais nada para conversar com você. — Sentenciou imponente.

—Eu aposto na minha mãe. — Jasper sibilou baixinho ao meu lado. Desaprovei o comentário com um torcer de lábios, ainda atento ao que acontecia.

—Deus, este nosso relacionamento foi uma teimosia e erro desde o início. O volume de desavenças que enfrentamos a vida toda por falta de conversas em ambos os lados é pura imaturidade... — Acusou, ignorando os espectadores. —... Se o que você quer é terminar a vida só, tudo bem, só temos que resolver o futuro de nossos filhos. Mas antes, quero que você saiba que tudo que eu fiz foi por amar você. Porém, a partir de hoje eu vou dar um basta nessa paixão infantil. Chega de sofrer, chega de incertezas. Eu não quero mais isso pra mim. — Encarou-o determinada.

Sorri orgulhoso ao ver minha mãe tão destemida. A última vez que eu a vi assim, foi quando Carlisle foi buscar Bella fugida lá em casa, há quase quatro anos.

—Esme, você não vai embora... — Carlisle frisou decidido.

—A única condição de eu ficar, é que você me peça desculpas por ter gritado comigo na frente dos nossos filhos. — Impôs, séria. Carlisle olhou desajeitado em nossa direção.

Jasper deu um risinho zombeteiro abafado pela mão na boca. Eu continuei observando-os distraído. Minha mãe olhou para nós com um claro aviso mudo: 'o que vocês ainda estão fazendo aqui?'.

Ergui a sobrancelha sem entender. Jasper me cutucou.

—Acorda, abelhudo. Acabou o show. Agora eles vão encomendar mais filhos. — Gracejou divertido e me puxou pelo braço para fora.

—Jasper, você não pode falar assim deles. São seus pais. — Repreendi sério.

—Ah, , vou falar mais bonitinho. Meus paizinhos vão fazer amorzinho. — Zombou, fazendo um gesto obsceno com a mão.

Eu balancei a cabeça em negativa e resolvi ignorá-lo. Ele era assim e ninguém iria mudá-lo. Ao passarmos frente à porta do quarto da Alice, o humor fugiu do seu rosto.

—E você, vai ficar bem com isso tudo? — Perguntei ao ver a mudança repentina.

—Ah, não posso fazer nada, ... — Suspirou, triste. —É me conformar, embora seja difícil pra caramba. Nunca pensei que uma dor assim existia. — Sentou-se no chão em frente à porta, desolado. —Você acha que tem alguma chance de conseguir esquecer? — Perguntou sério, os olhos fixos em mim.

—Depende do tanto que você gostar dela.

—Cara, é muito. Parece que tem uma cratera em meu peito... Ela é um remédio pra mim. — Esfregou a mão no peito.

Por um segundo, imaginei o que seria ter Bella como irmã, como seria vê-la e não poder tocá-la. Um frêmito de dor me percorreu ao imaginar. Eu queria poder tirar a dor do meu irmão.

—Ah, Jasper, tenta aproveitar o que tem de melhor em vocês, a amizade. —Aconselhei compadecido. — Pode ser que com o tempo isso passe.

—Fala pra mim, como é o que você sente por Bella? — Pediu curioso. Eu queria fugir do tema, mas ele parecia precisar ouvir.

—É um sentimento tão forte que eu passei a tarde fora e foi como se tivesse passado a eternidade. Minha vontade agora é de ir correndo para o quarto, passar a noite abraçado a ela e não perder ela um segundo.

Ele baixou o olhar e segurou a cabeça entre as mãos.

lascado. É exatamente isso que eu sinto. Estudamos juntos, e eu fico contando os minutos para dar o intervalo e poder vê-la. Aqui em casa passamos o dia juntos, seja fazendo dever, assistindo, comendo, jogando... E eu nunca me canso dela... Cara, ela é o ar que eu respiro... — Explicou consternado, ergueu o olhar e sorriu triste. —... Mas você não nasceu tão azarado como eu, então vai para o seu quarto que com certeza a sua mulher te esperando de braços e pernas abertas. — Zombou, levantou-se e seguiu para seu quarto. Eu sorri impotente de sua irreverência descabida e me direcionei ao quarto da Bella.

—Acordada, amor? — Perguntei após sair de um rápido banho e vesti o short do pijama.

—Sim. — Assentiu preguiçosa.

—Como foi depois aqui? — Deitei-me ao seu lado de conchinha, o nariz em seu pescoço.

—Sua mãe tomou um calmante. Jasper ficou o restante da tarde no quarto de Alice. Rose e Emmett estão felizes demais para se alarmar, e Jéssica disse que sempre soube.

—Sério?

—Sim. Ela disse que está estudando o sangue dele no laboratório há algum tempo por curiosidade. Disse que no início estava só tentando descobrir o motivo da doença e da evolução, foi aí que ela percebeu a tipagem sanguínea parecida com a dela. Então estudou mais a fundo.

—Nossa! Ela parece ser tão displicente. — Comentei a abracei-a mais.

—Jéssica é muito discreta e não se importa muito com nada. Às vezes tenho inveja do modo como ela vê as coisas.

—Você queria ser mais despreocupada do que já é? — Brinquei e beijei o lóbulo de sua orelha, a mão dentro de seu pijama. —Por que está vestindo esses pijamas longos desde ontem? — Perguntei falsamente ofendido. —Quer tornar as coisas mais difíceis para mim ou está com frio? — Posicionei-a frente a mim e suguei seu pescoço, arrastando língua e dentes. Seu corpo receptivo arqueou, me convidando.

Bella

Bastava seu toque para despertar meus hormônios hiperativos, porém um tremor frio me percorreu, e eu enrijeci tensa com a perspectiva da decisão que tinha que tomar. Ele parou de beijar meu pescoço e olhou-me detidamente, interrogativo. Eu não queria que ele parasse. Mesmo que fosse injusto adiar a conversa, eu o queria de corpo e alma uma última vez, sem preocupação ou dúvida. Acariciei seu queixo memorizando sua pele, pesarosa por estar perdendo meu anjinho para o poder. Ele em breve seria somente o embaixador em busca de seus sonhos.

Ele apoiou-se sobre o braço e alisou o meu rosto, em silêncio, somente estudando a minha expressão melancólica.

—Faz amor comigo. — Eu pedi aflita.

Ele se inclinou e beijou minha testa.

—Você está bem pra isso? — Questionou cauteloso, ao tempo que acariciava minha barriga por dentro da blusa.

—Sim. — Murmurei, umidade escapou no canto dos meus olhos. Eu podia ler sua ansiedade, mas ele se conteve e não me pressionou. Peguei meu celular ao lado da cama e pus uma música. Que a letra dessa música expressasse meu pedido antecipado de perdão.

N/A: pelamordedeus, ouçam a música, ela é linda, e é o tema da fic.

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Ele segurou na barra da blusa do pijama e ergueu-o, inclinou-se e beijou minha barriga.

—Há algo que queira me dizer? — Mordiscou até o ossinho da pélvis.

—Não... Só que eu preciso desesperadamente de você. —Soprei. Ele sorriu satisfeito e desfez da blusa, distribuindo beijos pelo colo, depois pescoço. Observei cada movimento seu, registrando na minha mente. Cada toque do seu lábio em mim era repleto de paixão. Ainda que fôssemos íntimos há anos, ele me adorava com os lábios, havia reverência e cuidado.

Ainda parece nossa primeira noite juntos, parece o primeiro beijo, está ficando cada vez melhor, amor...Continuarei te esperando sempre, você ainda é o único.

A primeira vez que nossos olhos se encontraram, os mesmos sentimentos eu mantenho, apenas sentimentos muito maiores. Eu quero amar você por muito mais tempo...

Ele beijou suavemente meus lábios e inseriu delicadamente a língua. Mas eu estava afoita demais, suguei-a exigente, como se fosse para sobreviver. Ele gemeu em minha boca e senti seu corpo enrijecer colado ao meu. Ele apertou meu quadril de um jeito possante e arrastou sua pélvis na minha.

Então se você um dia se sentir sozinho, não sinta, você é o único que eu sempre quis. Eu só queria poder fazer isso continuar... Portanto se eu te amar um pouco mais do que deveria, por favor perdoe-me, eu não sei o que fazer... Por favor perdoe-me, eu não posso parar de te amar.

Não havia sorriso em seu rosto, como todas as vezes que fazíamos amor. Só inspeção possessiva. Talvez ele estivesse lendo minha angústia. Eu segurei os olhos nele, mesmo úmidos, tentando dizer com os olhos que o amo a tal ponto de ser capaz de sufocar o meu amor por seus objetivos... Pelo sonho que ele sempre buscou... Se tudo tivesse sido diferente, se nossa história tivesse sido diferente, ele teria seguido o seu curso de vida normal, teria conhecido ela e estariam juntos sem a minha intromissão... Seria ele, o poder e alguém que se encaixaria aos seus planos. Eu lutaria por ele ainda, como sempre lutei, se houvesse uma chance... Mas não há mais espaço para mim em seu futuro.

Delicadamente, ele desceu com os lábios para os meus seios, sugando, mordiscando, delineando metodicamente com a língua e fez minhas costas arquearem com a atenção dada a cada um deles. Mesmo com o fogo líquido ardente em meu ventre, eu queria manter meus olhos abertos e gravar cada carícia de sua boca. Registraria tudo daquele que seria pra sempre dono do meu corpo e coração.

Não me negue, é uma dor enorme que eu estou sentindo. Por favor, me perdoe se eu precisar de você como eu preciso. Por favor acredite em mim, tudo o que eu digo é verdade. Por favor perdoe-me, eu não posso parar de te amar

Como senhor do meu corpo, ele desceu a calça do meu pijama, passeando a boca por onde ficava descoberto, e desfez da calcinha. O toque dos seus lábios em minha intimidade me incendiou como nunca. Eu me contorci de prazer e exultação, cada sentido intensificado, cada investida de sua língua me levando ao céu, como se meu corpo tivesse vida própria e se apegasse a ele como ímã.

Desconectei o cérebro, tentando manter longe qualquer pensamento repressor que ofuscasse o desejo promiscuo e errado que eu desfrutava. Meu corpo se movia, tremia, sem suportar mais a tensão. Ergui o quadril e tudo explodiu em cores e sensações. Pela última vez meu corpo iria entorpecer-se das sensações proporcionadas por ele.

Eu me lembro de tudo, lembro de todos os movimentos seus. Você está gravado em minha mente... Sim, eu me lembro das noites, você sabe que eu lembrarei sempre...

Após voltar do intenso clímax, eu vi um sorriso orgulhoso em seu rosto. Ele tirou o seu short, deitou sobre mim, segurou minhas mãos ao lado da minha cabeça e olhou-me com olhos quentes.

—Melhor, amor? — Lambeu meus lábios e posicionou-se em minha intimidade. —Quarenta e cinco dias para termos isso todos os dias... — Prometeu, enfiou a língua em minha boca e se projetou contra mim com familiaridade, invadindo-me duplamente, nosso gemido abafado por nossos lábios.

Registrei suas palavras e novamente meus olhos se umedeceram, pois ali eram enterrados meus sonhos, os nossos planos, nossa história de amor. Flashes da nossa vida foram revividos atrás de minhas pálpebras: o primeiro sorriso, primeiro beijo, primeiro toque em meus seios, primeira vez que ele disse que me amava, primeira vez que fizemos amor.

A única coisa que eu tenho certeza é da maneira que nós fazemos amor. A única coisa que eu dependo é de nós permanecermos fortes. A cada palavra e a cada respiração eu estou rezando que haja uma chance...

Inexplicavelmente, ele parou o movimento e secou uma lágrima dos meus olhos com a mão.

—O que há, amor? — Perguntou ofegante.

—Nada. Continua, por favor. — Exigi, apertei seu quadril e mordi seu ombro. Ele grunhiu e ficou mais espesso dentro de mim. Eu prendi minhas duas pernas em volta de sua cintura e o convidei a ir profundo. Ele beijou minha orelha e se movimentou dentro e fora.

—Eu te amo... — Sussurrou com verdadeira adoração. —... Vamos ser felizes para sempre. — Prometeu convicto, como se quisesse me dar certeza disso. Ele mudou a posição, virou-me de bruços e plantou beijos langorosos em minhas costas, ao tempo que falava palavras apaixonadas e incentivadoras.

Continuarei te esperando sempre, você ainda é o único.

—Bella, por que está tocando esta música repetidas vezes? —Perguntou como se tivesse tido um insight. — Está acontecendo alguma coisa? Está desistindo de mim? — Quis saber inseguro. Virei o rosto e observei-o, o coração disparado.

—É nossa música. Expressa meu amor por você que eu não consigo dominar. E eu nunca, nunca vou desistir de você. Grave isto. — Enfatizei com firmeza.

Ele beijou todos os cantos do meu rosto.

—Meu amor por você também não tem domínio. — Sorriu e beijou meus lábios, com vigor, movendo-se erraticamente. Empinei quadril, incentivando-o com um movimento circular, prendendo-o, pressionando.

Você está gravado em minha mente ... Sim, você sabe que eu lembrarei sempre...

Não havia como descrever aquele momento tão único, tão perfeito em que nos éramos um, em corpo, alma e coração. Por um instante não existiam medos, receios. O prazer expulsava a dor, e eu só o queria mais próximo, mais fundo, mais dentro de mim para sempre.

Nossos corpos explodiram-se numa paixão embriagante, um amor intenso. Gemidos saíram roucos de sua garganta ao atingir o ápice. Meu cérebro só registrava ele. Meu mundo era ele me acobertando com o seu amor, depositando sua vida dentro de mim.

Eu não me senti saciada. E novamente iniciamos o ritual de prazer. Horas se passaram. Eu queria absorver tudo dele nessa noite. Queria dar a ele tudo que eu pudesse. Carícias, beijos, apertos, murmúrios entrelaçados com prazer e agonia. Ora as lágrimas se foram e o prazer me entorpeceu, ora elas voltavam e se derramavam, trazidas como sangue ácido circulando em minhas veias, dor líquida.

Edward

Seu olhar e gestos ansiosos foram perceptíveis durante a noite, como se temesse deixar-me um segundo. Eu levantei diversas hipóteses mentais para o que a estava atormentando. Nada fazia sentido. Restou-me lhe dar algo que esquecesse as dúvidas: meu amor e agrado. Pela quarta vez eu cheguei ao clímax sucessivo, e ela ainda olhava-me exigente, ávida. A exaustão me alcançou e a abracei, rendido.

—Quer me matar? — Ralhei divertido em seu ouvido. —Preciso de um banho, vamos?

—Sim. — Respondeu baixo.

Peguei as toalhas e entrei para o banho no box. Ela entrou logo atrás, com o semblante exausto e distante. Eu queria insistir mais uma vez em saber o que se passava, todavia não queria pressioná-la. Abracei-a e deixei a água nos lavar.

Novamente vi seus olhos úmidos, tristes. Pus seu rosto entre minhas mãos.

—Pelo amor de Deus, Bella, fale o que está acontecendo? — Pedi implorativo ao tempo que beijava sua testa, tentando confortá-la. —Aconteceu alguma coisa por aqui?

Ela abriu e fechou a boca duas vezes, porém não conseguiu prosseguir. Após alguns minutos de silêncio, terminamos o banho, nos vestimos, e eu sentei na cama, decidido a fazê-la falar o que estivesse incomodando-a.

—Eu não vou conseguir ficar calmo com você assim. Está me matando isso. O que está acontecendo? — Sentei-a em meu colo paciente. —Pensei que isso ia passar no decorrer da noite, mas parece que piorou. — Acariciei-a no rosto, enxugando a umidade.

Ela ergueu os ombros, sentando-se ereta e tomou ar.

—Edward... Essa foi a nossa última noite juntos. — Murmurou quase sem sons e baixou o olhar.

—O quê? — Franzi o cenho incrédulo. Não devia ter ouvido direito. Ela se levantou do meu colo, limpou os olhos e olhou-me cheia de convicção. Uma onda fria atravessou a minha espinha ao ler seu distanciamento emocional.

—Foi a última noite nossa. — Repetiu sem emoção.

Eu não a reconheci por trás da máscara de frieza. Fechei os olhos e esfreguei a fronte, prevendo uma dor de cabeça.

—Bella, eu não estou entendendo, por que é a última noite, se nós vamos nos casar? — Questionei desentendido, repetindo suas palavras na mente.

—Não vai mais haver casamento. —Sentenciou séria.

Um silêncio opressivo se alargou no quarto. Devagar, a consciência do que ela disse foi encontrando sentido em meu cérebro, espetando como pequenas farpas agudas no meu peito. Busquei insistentemente em minha memória algo que eu tivesse dito ou feito que me imputasse. Entretanto nada fazia sentido. Senti algo me entorpecendo, parecia que eu estava sufocando com o medo de ser real.

—O que está acontecendo? — Sussurrei. —Você disse que não iria desistir de mim... — Saiu como uma cobrança, uma acusação. Minha garganta se fechou de nervosismo e temor, meu coração bombeou em frenesi, a pulsação no pescoço.

—Eu não estou desistindo de você... Tenho fé em você... Sei que você vai alcançar tudo que sempre sonhou. — Salientou, ao tempo que me olhou por milésimos de segundos com olhos cálidos, depois baixou o olhar.

—Você disse que me amava minutos atrás... — Insisti. Eu ainda não conseguia formular frases coerentes, tudo fazia um emaranhado de idéias atordoadas.

—E eu amo... De uma maneira diferente agora... Somos uma família pra sempre. Você vai ser pra sempre próximo. Como irmão. — Elucidou, o olhar longe do meu. Sua atitude paradoxal me intrigava. Horas atrás ela disse que me amava, horas atrás disse que não conseguia dominar o seu amor, agora diz que me ama de uma maneira diferente!

—Poupe-me, Bella! Que irmãos o quê! Só eu sei o que você sente quando estamos juntos. — Ressaltei ofendido e segurei seu pulso para trazê-la para perto de mim, tentando assim diminuir a distância entre nós.

Ela se afastou mais, dois passos atrás, fazendo-me soltá-la.

—Edward, não complique as coisas ainda mais... Não dá mais certo. Seguimos as nossas vidas. — Cruzou os braços para proteger-se. Seus olhos pareciam diferentes, muitos sérios e firmes. Não parecia a mesma pessoa que minutos atrás chorou em meus braços.

—Não faz isso conosco... — Implorei sem forças e pus minha cabeça nas mãos, desesperado, fitando o chão. —Dê um porquê lógico pra isso... Tudo estava indo bem... Tudo estava se acertando no meu futuro. —Acentuei.

Ela suspirou longamente e olhou para cima, como se estivesse se equipando de coragem.

—Você sabe o porquê. Sempre soube. Não é o que eu quero. Acabou o encanto pra mim. —Sentenciou fria. —Não quero me casar nova assim. — Explicou mecanicamente.

Levantei novamente e caminhei em sua direção.

—Se você quiser, adiamos o casamento mais um ano. — Propus, segurando o seu queixo. Ela recuou, afastando-se de novo.

—Eu.nã . .casamento... Entenda isso. — Pontuou enfaticamente.

Eu deixei os ombros caírem derrotados. Suas palavras me destruíram, ressaltaram a realidade que por anos lutei para não enxergar. Fui um capricho, e ela agora percebeu que não sirvo mais. Eu sempre soube que um dia ela iria desistir.

—Você se cansou? — Considerei arruinado, incapaz de conter a desolação em meu peito. —Descobriu que eu não sirvo para você? Você quer algo melhor, não é? — Baixei o olhar e suspirei sem ânimo. Tristeza, mágoa e rejeição me atacaram, um ácido queimou minha garganta e meus olhos piscaram úmidos. Antes que eu previsse, ela aproximou-se, segurou meu rosto e o acariciou.

—Não. Eu não quero que pense isso... Anule tudo que eu te fiz pensar com relação a você não servir pra mim. Você é o homem que qualquer mulher sonha... — Salientou incisivamente, os olhos brilhando.

Juntei as sobrancelhas confuso. Suas palavras entravam em contradição a cada minuto. Sua atitude também, pois toda a frieza de segundos atrás se foi e novas lágrimas caíram de seus olhos.

—... Somente não dá mais, meu amor. — Adicionou, afastou-se e sentou-se na cama, com postura vencida.

—Você está com pena de mim agora? — Acusei ferido.

—Não! — Balançou a cabeça. —Meu Deus, não! Você é lindo, inteligente, esforçado, carinhoso, um namorado perfeito. Por que eu teria pena de você? — Ela defendeu com paixão e tocou novamente meu rosto.

—Por quê? — Questionei melancólico. —Nunca fez sentido você me amar. Nunca fez sentido você me querer... Eu sempre me perguntei por que eu... Por que uma garota como você, rica, bonita, sagaz, alegre, talentosa, que tinha tudo, iria escolher a mim? Um caipira matuto. Sou muito consciente do abismo social que nos separa.— Apontei em minha direção e baixei o olhar.

Ela segurou o meu rosto séria, forçando-me a olhar para ela.

—Pare com isso! — Exigiu firme. —Tenha certeza do que você é, Edward. Você não é mais um menininho implorando a atenção de sua mãe. É um homem feito, intrépido líder, não um garoto do interior. É um honrado e elegante homem que sabe o que quer, lutou para ser quem é, está alcançando o que traçou e não pode desistir do que sonhou para si. Olhe para frente! Não deu certo para nós e ponto. Continuamos amigos e família. — Aconselhou com praticidade.

De aí em diante a dor foi insuportável, apertou como garras minhas vísceras e explodiu em meu peito. Um dia atrás ela era minha futura esposa... Hoje tudo desmoronou. Sua decisão era clara e certa. Ela me abraçou, e os músculos do meu estômago se contorceram, espasmos de dor lançaram vergonhosas lágrimas aos meus olhos. Soltei-me do abraço, rejeitando o consolo e sentei na cama, a cabeça baixa entre minhas mãos.

Ela aproximou-se novamente e recostou-me ao seu seio, abraçando forte meus ombros e limpando inutilmente o meu rosto. Eu fazia máximos esforços para fazer parar a dor, mas a frustração pela derrota era mais forte. Abracei sua cintura impotente, apertando, como se fosse meus últimos segundos de vida. Eu queria me entorpecer a ponto de perder a consciência. Esperava que tudo fosse um pesadelo e que ao voltar à realidade, meu mundo estivesse intacto. Por instantes ouvi seu choro distante e um pedido baixinho: Deus me ajude. Mas não conseguia compreender sua súplica.

Permaneci quieto, aceitando aos poucos a derrota. Um tempo depois, ela ergueu o meu rosto e olhou ternamente em meus olhos.

—Por você, siga em frente... Busque os seus sonhos... Você é novo, conseguirá vencer... Deixe o que tem de bom em nós continuar. — Pediu brandamente.

Pensar que eu ficaria impedido de ouvir sua voz acalentadora daqui em diante lançou nova dor pungente, alimentando minha angústia.

—O que tem de bom em nós que possa permanecer? — Baixei o olhar, abatido, envergonhado por ter perdido o orgulho ao chorar.

Ela mostrou a sua mão direita, apontando para as três pedrinhas no seu anel.

—Eu, você e nossa família. Uma aliança que nunca poderá ser desfeita... Entre nós ficará para sempre a nossa família e a nossa amizade... Eu vou estar sempre pronta para te ouvir... Seremos pra sempre como irmãos.

—Por favor, não faz isso, Bella... — Olhei-a suplicante, esmagando todo meu amor próprio.

Ela se afastou, um passo atrás, respirou fundo e olhou para o chão, por minutos silenciosos e aterrorizantes, então voltou os olhos de novo para mim, agora sem vida e plácidos.

Suspirei, aguardando seu veredicto, consciente, no entanto, da resposta.

—Está feito. — Decidiu convicta. Só então resolvi tomar forças e expulsar todo fragmento de dor do meu rosto e de minhas atitudes.

—Ok. — Pus-me em pé e direcionei ao computador no canto do quarto.

Acessei a página de uma empresa de aviação, troquei minha passagem e fui ao armário escolher uma roupa, recompondo pedaços de mim.

—Tem um avião saindo às cinco horas. Não vai dar tempo de chamar um táxi, você me levaria lá? — Perguntei com praticidade, parei em frente a pia, lavei meu rosto e passei gel no cabelo.

—É claro. — Respondeu baixo, vestiu uma calça jeans, uma camiseta de manga longa e um tênis.

Bella

Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo mal feito e o esperei sentada na cama. Sentia um tambor bater em meu peito, mas segurei com firmeza as emoções finais. Em pouco tempo ele iria, e eu poderia desabar, mas por enquanto eu tinha que me manter estável.

Ele saiu do banheiro, encontrou meus olhos, e eu prendi o fôlego. Por dias eu tinha me acostumado a sua beleza incomparável, mas agora que sabia que ele não era mais meu, sua perfeição resplandecia. Era quase um mistério que ele fosse tão, tão inexplicavelmente lindo, ao ponto de me deixar sem ar.

Olhei para a minha roupa e senti vergonha de estar vestida no nosso último instante juntos como eu estava. Soltei o cabelo imediatamente, fui ao closet e peguei um vestido que eu sabia que o agradava. Justo, cor creme, de botão.

Em silêncio, ele sentou-se na cama observando todos os meus passos. Vi-o olhar para o teto e respirar fundo. Minha alma sangrava em ver seu sofrimento genuíno tão exposto. Passei maquiagem e peguei uma sandália creme para calçar.

—Posso abotoar? — Pediu hesitante, quando eu sentei na cama para calçar.

—Pode. — Ergui o pé, ele acariciou por um tempo, passando os dedos em silêncio. Depois suspirou e abotoou.

Voltei ao armário e borrifei perfume.

Pra que isso tudo? Já é tão difícil sem isso... — Ele apontou para a minha roupa e acercou-se de mim, colocando as duas mãos em minha cintura. —Você sabe que eu adoro você, seu cabelo, suas roupas, seu perfume, seus pés. — Sorriu triste e acariciou o meu rosto.

—Vamos? — Engoli em seco, sufocando o desejo de dizer de volta que eu amava tudo nele, seu sorriso, seu cheiro, até sua inocência e fé nas pessoas.

—Eu não vou levar as minhas roupas hoje. — Explicou sem jeito. —Não trouxe mala.

—Aqui é sua casa, Edward. Você ainda vai vir aqui. — Disse amistosa, peguei minha bolsa e caminhei para porta. Ele desceu na frente, pegou a chave do carro de sua mãe no porta-chaves e caminhou para garagem. O silêncio no carro foi devastador durante o trajeto. Ele dirigiu com o vidro aberto, o vento frio de fim de outono tocando seu rosto. Vez ou outra ele suspirava e apertava os olhos. Chegamos ao aeroporto faltando ainda vinte minutos.

—Você vai lá comigo? — Perguntou em dúvida e estendeu a chave do carro para mim.

Guardei a chave e desci do carro, deixando claro que o acompanharia. Iria tirar tudo que pudesse antes do fim. Ele sorriu timidamente quando acionei o alarme, pôs o braço sobre meu ombro e caminhamos rumo ao balcão de check-in. Ele confirmou a troca de voo e nos dirigimos ao portão de embarque. Ele não entrou, apenas olhou as horas e parou em minha frente.

—Bella... Eu queria entender o que está acontecendo. — Começou aflito. —Queria entender o porquê de você estar desistindo... Eu sei que você me ama, seus olhos dizem. — Sussurrou e acariciou o meu rosto, distribuindo um rastro cálido com os dedos —Mas eu não vou questionar o seu querer. Você sabe que eu te amo. Sempre vou amar. —Sem me dar chance para pensar ou me proteger, ele invadiu minha boca com urgência e sugou meus lábios famintamente. A dor daquele beijo foi angustiante, e meu corpo inteiro gritou seu nome, implorando que eu não o deixasse ir. Ele deu gemidos baixos e doloridos em minha boca, mostrando sua tristeza. Eu queria dizer a ele que não sabia o que seria da minha vida sem ele, que precisava dele para viver. Queria gritar que o amava e que doía mais em mim afastá-lo.

Queria absorver dele cada saliva, cada célula, cada lágrima que brotava de seus olhos. O gosto dele me fazia estremecer, seu cheiro me deixava tonta, e ele continuou com seu abraço firme, a mão em minha nuca sem deixar-me escapar, ainda que o mundo girasse a nossa volta.

Deus, eu não podia perder a pessoa que era tudo para mim, não queria me despedir do meu amor. Oh, meu amor, eu te amo tanto. Dói tanto te deixar. Solucei em seu lábios, sem forças em aguentar mais aquele massacre. Minhas pernas já se encontravam sem forças pela intensidade de sentimentos e emoções ditas com aqueles beijos. Eu me acabei ali, deixei minha vida, meu fôlego, meu respirar e os meus sonhos em seus lábios.

Ele rompeu o beijo, ofegante e me abraçou, escondendo o seu rosto em meus cabelos. Beijou meu pescoço e ficou ali um tempo, quieto, trêmulo.

—Desculpe por isso... Amanhã eu ligo para o seu pai. — Disse sem olhar em meu rosto.

—Não precisa. Eu falo.

—Eu pedi você a ele em casamento, cabe a mim, como homem, comunicar-lhe o rompimento. —Teimou. E eu o amava por isso também. Por seu senso de responsabilidade e justiça.

—Tudo bem.

Ele olhou no relógio novamente, me apertou no abraço, beijou a minha testa um longo segundo e saiu. Fiquei observando seus passos, solitária. Ele não olhou para trás... Se olhasse, eu iria pedi-lo que não fosse e iria escondê-lo em meu quarto contra qualquer ameaça de lhe tirar a liberdade...

Se fosse só a liberdade, eu teria forças para enfrentar. Mas não posso competir e fazê-lo escolher entre o amor e o poder americano. Não posso permitir que seus sonhos morram.

Continua...

Agradeço por ler. De todas as histórias que eu escrevo/escrevi, essa é minha querida. Obrigada por ler e por comentar, principalmente por indicar ela por aí. Daqui para o fim do ano pretendo publicá-la como livro, assim como Flor de Lótus virou, e sou grata por cada leitor desde agora.

Bia Braz