Capítulo Escolhas

Edward

Em sonho, eu a possuí, mas não tive o corpo saciado. Acordei na hora do prazer assustado e frustrado. Abri os olhos desnorteado e notei Bella ao meu lado adormecida. Graças. Certamente não percebeu meu estado de agitação anterior.

Seu sono era perturbado, notei por seus movimentos inquietos e resmungos. Acendi a luz do abajur, acariciei seu rosto e solfejei em seu ouvido que a amava. Passei os dedos sobre um vinco em sua testa desejando saber o motivo que até em sono lhe atormentava. Não era habitual que ela fosse preocupada. O normal era que fosse leve e segura.

Ela suspirou mais tranquila e esticou-se. Deixei a cama e fui ao banheiro tomar uma ducha. Ainda era madrugada. Abri o chuveiro e voltei a pensar sobre nossa situação. A insegurança e medo me ameaçavam como um espectro do mal agachado na escuridão de meus pensamentos. Não tolerava a medida arbitrária a que ela nos impeliu, mas sua presença ao menos nutria a falsa utopia de que tínhamos voltado.

Enxuguei-me, vesti outro short e voltei para cama. Acariciei seu pescoço e ombros, e conforme descia os dedos por sua pele perolada e quente, a saudade e desejo reacendeu. Eu precisava da ligação física e espiritual que tínhamos ao fazer amor. Ela gemeu baixinho, um eco distante de seus gemidos enlouquecidos ao alcançar o êxtase. Fechei os olhos ante a lembrança, o centro do meu corpo queimou de necessidade de unir-me a ela.

Pousei a testa em seu braço culpado por desejá-la e passeei os dedos em sua barriga. Quis subir os dedos para seus seios, mas me reprimi. Olhei no relógio. Cinco da manhã. Não dormi novamente. Em breve iríamos nos separar, e eu não tinha esperança de quando vê-la novamente, portanto não iria perdê-la dormindo.

Ela mudou na cama, espalmou o meu peito e murmurou meu nome. Meu coração inflou de esperança por fazer parte de seu sono. Ela se aconchegou mais e colocou a perna entre a minha. Meu corpo registrou o corpo familiar tão receptivo e cálido. Os músculos ficaram mais rígidos.

Repeli o pensamento torpe de acordá-la possuindo-a, como outras noites; ri da situação deprimente, mas mesmo me autocensurando, desci as mãos para base da coluna e a apertei ao meu corpo.

Ela gemeu uma aprovação e alimentou meu desejo doentio. Desprovido de qualquer sentimento de pudor, forcei seu corpo para cima de mim, abri suas pernas escanchada e empurrei nela, segurando o quadril, numa alusão inconfundível a cópula, como um homem concupiscente e desprezível.

Não dei ouvidos ao meu cérebro repressor que dizia que eu me aproveitava sem seu consentimento. Ofeguei, desejei afastar seu short folgado e possuí-la lentamente, conscienciosamente, até que a febre contida em meu corpo se tornasse branda.

—Nossa, que isso? — Bella murmurou lânguida, levemente humorada.

Assustei-me e censurei-me pelo que eu fazia, cerrei os movimentos e subi minha mão da nádega para o centro de suas costas.

—Hmmm, desculpe. — Murmurei desajeitado. —Isso foi...er, promíscuo, vil. — Admiti constrangido pelo flagra.

Ela deu um risinho baixo e beijou meu peito nu.

—O anjinho perverteu-se. Não me deixa nem dormir. — acusou divertida. Fiquei menos desconfortável.

—Perto de você o anjo é um pecador. O corpo tem vida própria e domina o cérebro. — confessei e beijei o seu cabelo.

Ela levantou o rosto e olhou-me, parecendo incerta, mas manteve-se acariciando meu peito. Inclinou-se, beijou castamente e se afastou, deitando de lado na cama.

Seu olhar ficou repentinamente distante. O silêncio cresceu entre nós. O único som que se ouviu foi do vento fora da janela.

—Er, você quer a sua chave de volta? — balbuciei hesitante. —Você não disse nada sobre eu ter vindo... Está chateada por eu ter invadido o seu espaço?

—Não. — assegurou e se sentou no meio da cama. Ela parecia apreensiva. —Eu não quero que me devolva a chave, mas quero que faça outra coisa por mim... —suspirou e olhou-me triste. —Quero que deixe a sua aliança comigo.

Fechei os punhos rejeitando mais esse golpe. Abri a boca duas vezes pronto a me opor, mas me calei. Prometi dar o tempo que ela precisava e ceder o que fosse preciso sem perder a esperança. Desde quando decidi vir ontem, me garanti não pressionar ou questionar, portanto, num esforço homérico ocultei a angústia e desolação, tirei lentamente a aliança do dedo, encarando-a, e coloquei-a sobre palma de minha mão.

Sentei frente a ela, as pernas abertas em borboleta. Peguei sua mão direita e fitei a jóia no seu dedo. Suspirei ao lembrar o dia que oficializamos a aliança perante nossa família.

—Eu não vou deixar a minha aliança com você. — avisei e forcei a aliança dela a sair do anelar. —Vou levá-las para polir e guardar. — esclareci. —E no mínimo vacilo seu elas vão voltar aos nossos dedos. — salientei convicto, juntei as duas alianças e coloquei-as na mesinha ao lado da cama.

Ela suspirou e olhou pra cima, murmurando algo ininteligível. Deduzi ser uma prece.

—Já vai se arrumar? — questionei ao vê-la seguir ao banheiro com uma toalha. —Ainda não são seis da manhã. — destaquei. Não a queria fora da cama e longe de mim tão cedo.

—Vai ser rápido. — sossegou-me com um sorriso matreiro e fechou a porta.

Fui à cozinha pegar frutas. Lavei-as, cortei e voltei ao quarto. Ela trajava um conjunto íntimo de algodão em frente ao seu armário. Fixei os olhos nela. Até mesmo em suas peças confortáveis era atrativa e irresistível.

Sentei na cama e coloquei a bandeja de frutas sobre a mesinha, sem privar-me de explorá-la. Ela vestiu uma saia jeans cargo, um palmo meu acima do joelho, e uma blusa frente única. Deitei de lado na cama e apoiei a cabeça no braço enquanto comia maçã.

—Essa saia deve ser desconfortável, não? — sondei casual.

—Desconfortável é ficar de calça neste calor da Califórnia. — destacou divertida e calçou uma sandália rasteira ignorando a posse na pergunta. Sentou-se e serviu-se de maçã.

—O Jasper faz a transfusão amanhã. Estou indo para lá hoje à noite de avião para apoiá-los.

—Isso é só uma informação? — Ergui uma sobrancelha interessado em sua intenção ao me informar. Minha mãe sempre me colocava a par dos acontecimentos em Seattle, e Bella sabia.

—Você poderia ir... — Sugeriu hesitante.

—Qual o objetivo específico? Acompanhar você ou ver nosso irmão? — Pressionei. Dependendo de sua resposta, eu podia ter esperança.

—Nós temos uma família em comum. — ressaltou ao perceber que eu intencionalmente tinha colocado ela contra a parede.

—Eu posso ir. — concedi frustrado e deitei na cama de costas, as mãos sob a cabeça fitando o teto.

—Além disso, podemos conversar com o meu pai nós dois juntos. — adicionou baixinho.

Senti uma pontada de desânimo no peito e respirei fundo. Mesmo que afirmasse que resistiria a tudo e que continuaria lutando, suas respostas me desestabilizavam. Ela continuava estável na decisão do término. As certezas transpareciam em suas ações. Eu sofria uma morte lenta com a suspeita da perda total.

Recolhi-me ao silêncio impotente. Ela deitou ao meu lado e fixou o olhar em mim. Não tirei os olhos do teto, tomando forças para levar a conversa adiante.

—Então você pretende mesmo conversar com o seu pai. — refleti dolorosamente.

—Não temos tanto tempo assim. É justo que ele saiba logo, se não, é capaz dele mandar lançar diariamente no jornal e nos sites uma nota sobre nosso casamento. — forçou um sorriso, mas não alcançou seus olhos. Ela pôs a palma da mão em meu peito e o acariciou. Eu não compreendi sua atitude. Ela me deixava confuso. Primeiro pediu que eu tirasse a aliança depois me olhava como se eu fosse seu tudo. Eu iria enlouquecer se ficasse perto dela.

Suas carícias despertaram pequenas chamas no meu corpo. Eu me sentia vulnerável e carente. Embora eu tentasse me dominar, seu toque denotava intimidade, inspirava paixão. Meu corpo viciado ansiava por suas mãos, por sua boca. Inspirei profundo.

Ela percebeu meus músculos se enrijecerem e abriu a boca, olhando-me como se eu fosse comestível, o que só piorou as coisas entre nós. Desceu a mão por meu abdômen, barriga. Minha respiração acelerou. Ela inseriu a mão sorrateiramente dentro do meu short e, antes que perdesse o controle da situação, restringi-a pelo pulso e me virei frente a ela. Segurei sua cintura e puxei-a, tentando ao menos algum acalento onde eu estava necessitado. Eu aproximei a boca da sua, o olhar cadenciando entre sua boca e olhos.

—Eu disse que vou lutar de volta por você. — sussurrei centímetros de sua boca. —E que não ia te atacar novamente, pois o que eu quero de volta é o compromisso. — pressionei-a em mim. —Porém, não me tente. — acariciei a coxa. —Porque eu te quero muito mais do que eu possa dominar. Você sabe que é assim. — Mordisquei o queixo, a respiração irregular. —Mas eu quero muito mais que um momento nesta cama. — destaquei, mas não a afastei. Sim, era contraditória minha ação. Mas eu não poderia me conformar com menos que compromisso. Não afastei a tentação, embora. Minhas mãos subiram displicentemente dentro da saia e alojaram no seu quadril. —Eu quero você, suas certezas e pensamentos.

Ela ofegou. Puro desejo sexual vibrou em seus olhos. Eu a conhecia. Ela era minha mulher no sentido básico da palavra por anos. Eu conhecia a necessidade crua, quando a via, principalmente por causa da frustração da noite anterior e dos dias que estávamos separados. Não costumávamos ficar mais de uma semana sem fazer amor. Agora o desejo acumulado enchia o ar. Era uma tortura resistir ao convite de seus lábios, às promessas de satisfação. Contudo, a dúvida com suas atitudes contundentes me frustravam e estreitavam os meus atos.

Minutos atrás ela disse que iria comunicar o nosso rompimento ao seu pai, agora me olhava com olhar implorativo, os seios à frente num oferecimento mudo, exalando luxúria na respiração.

Eu sabia que se cedesse e a beijasse, seriam segundos para sua roupa estar no chão e minha excitação dentro dela. E eu não tinha mais forças para resistir.

Lutando contra mim, afastei-a delicadamente, e meu cérebro sem virtudes e corpo viciado reclamou a falta de contato. Eu fui forte. Não iria fazer pressão usando como arma nosso intenso amor carnal.

Deitei de bruços para me controlar. Senti saudade dos tempos de calmaria, de felicidade. Tempo em que acordar com ela era natural, amar pela manhã era básico, cada dia ao seu lado era cheio de realizações.

Ela pôs uma perna tranquilamente por cima do meu quadril, meio corpo sobre mim e beijou minha nuca.

—Eu não sei o que falar... — começou a justificar-se.

—Não precisa falar nada. — pedi carinhosamente e me virei novamente para ela, tentando parecer confiante e bem.

O silêncio preencheu o ar por mais alguns minutos, ela suspirou, sentou e pegou um cacho de uva na bandeja.

—Como estão as coisas no seu trabalho? — quebrou o silêncio, casual.

—Está ótimo. Eu gosto do que eu faço, você sabe.

—Como é a sua convivência diária com Ashley? — questionou tranquila. Fiquei intrigado com seu interesse, mas não hesitei.

—Sou indiferente a ela. — torci os lábios em uma careta. —Ela não me importuna. Só James me incomoda. Ele não se conforma em ter perdido a chefia, e ainda estou tentando colocá-lo em seu lugar. — olhei-a curiosamente. —Mas por que esse interesse pela Ashley? — sondei com suspeita.

Ela dissimulou o olhar e respirou fundo. —Nenhum. Só acho, er, ela bonita... —balbuciou nervosa. — Penso que caso a g-gente... —deixou a sugestão no ar. — Talvez ela fosse uma opção futura.

Suspirei com amargura.

—Pelo jeito você está mesmo querendo se livrar de mim. — comentei frustrado. —Está até confabulando outra para mim.

—Não! — negou veemente. Eu não entendi sua agitação. Ela estava ficando bipolar. —Eu só mostrei que você tem opções.

Eu sentei na cama já perdendo a paciência com tudo e totalmente perdido.

—Por favor, Bella, pare de enigmas comigo. Se você não me quer, poupe o trabalho de me jogar para cima de outra. — alertei ríspido, odiando o espaço entre nós.

Alarmada, ela aproximou-se e sentou em meu colo de frente, a cabeça em meu ombro.

—Eu só quero que você tenha opções de vida. — murmurou baixinho, infeliz. Já disse que ela estava bipolar?

Afastei-a e levantei seu rosto, forçando-a a olhar para mim.

—A única opção de vida que eu quero é a que tenha você ao meu lado. — garanti incisivo. Ela encostou os lábios nos meus e sugou docemente meu inferior, de olhos fechados.

Relaxei os braços ao lado, confuso. Queria aprofundar o beijo, examinar sua alma e trazê-la de volta. Ela permaneceu com beijos calmos e saudosos. Deixei que ela ditasse o ritmo. Ela enlaçou os dedos em meus cabelos e deu mordidas leves. Mantive minhas mãos sobre a cama, suprimindo a vontade de acariciá-la. Se eu desse vazão ao meu desejo, minhas mãos migrariam para suas coxas, afastaria a... Depois ficaria difícil voltar atrás.

Ela mordiscou o meu queixo provocadora, e eu ofeguei.

—Não faça isso, se não tem certeza... — Alertei-a e finalmente libertei as mãos e entrei em sua blusa. —Eu disse que não vou te atacar, porém não vou resistir se você continuar. — esclareci tentado. Ela mordiscou a mandíbula até a orelha, para então mover-se despudoradamente sobre mim.

—Quietinho. — Sussurrou, inserindo a língua em meu ouvido.

—Você quer me deixar louco de vez? — acusei e desci com a mão para a sua coxa, a saia enrolada em sua cintura. Ela moveu provocadora para frente e para trás numa tortura sensual.

Em descontrole, quase ao ponto de afastar sua peça íntima e possuí-la, descansei minha boca em seu ombro ofegando, passei a língua e mordi-a, matando a sede do seu gosto. Eu tentava inutilmente desvendar o que essa mulher absurda queria de mim. Ela não falava em voltar, mas diferente da noite passada, testava agora os meus limites.

Beijei o seu pescoço, mordiscando e lambendo. Ela fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, liberando um arquejo sufocado. Estávamos à beira de sucumbir. Restava saber quem tomaria a decisão.

Segurei sua nuca e beijei-a cautelosamente nos lábios, dando espaço pra que ela recuasse. Inseri minha língua em sua boca e, como de costume, ela sugou minha língua com volúpia e distribuiu espasmos prazerosos por meu corpo.

—O que quer de mim? — Sussurrei em sua boca, os dedos por dentro de sua peça íntima, na lateral.

Ela abriu os olhos cheios de luxúria e passou as mãos em minha barriga num flagrante convite.

Em um embate interno entre certo e errado, voltei a beijá-la tomado de indecisão, pois se eu me entregasse ao momento de prazer, estaria antecipando o futuro incerto. Teria que me conformar com a dúvida e satisfação casual. E uma vez tendo sido noivos, eu não me conformaria com menos. Se eu rejeitasse o convite, a pressionaria a voltar para mim.

Decidido, arrastei-a uma última vez em mim, destacando o que poderíamos ter. Nós dois gememos sôfregos, mas finalizei o beijo e afastei-a de meus lábios. Ela me olhou atordoada, acusadora. Eu sorri, olhei para o teto e pus sob controle a excitação latejante e insistente. Nossa urgência e necessidade era minha única aliada nessa luta.

—Compromisso. — Lembrei arfante.

Ela abriu a boca em 'O' chocada com minha chantagem. Eu não pude evitar sorrir.

—O quê? — Perguntou, desacreditada.

—Isso mesmo. Não sou um adolescente para somente ficar sem compromisso. Pior ainda com a mulher que eu ia me casar em um mês. — ressaltei, afastando-a um pouco do incômodo dolorido entre minhas pernas.

Ela entrecerrou os olhos e segurou meu pescoço. —Até parece que não vai ceder... — desafiou sedutora. Voltou a me beijar no ouvido ousadamente, ciente de quê, o que ela quisesse, eu faria. Eu sempre fiz.

Afastei seu ombro e a segurei firme, impedindo-a de voltar a me seduzir.

—Quem me garante que não vamos começar uma vida com leviandade, quando eu não estou interessado? — Segurei seu rosto entre as mãos e quase implorei sua volta. —Eu já decidi o que eu quero... Eu quero compromisso. — Ditei incisivamente, agora sem sorrir.

Ela se levantou do meu colo e ficou em pé, de costas para mim.

—Por favor, não me pressione. — pediu baixo, andando lenta pelo quarto —Eu quero acreditar que é uma fase e que vai passar. — expôs nervosamente. —Quero acreditar que vou vencer isso e que vou conseguir... Mas se você acha que não consegue suportar a prova...

Percebendo o rumo oposto à minha intenção, eu atravessei o espaço e segurei sua cintura, encostando-me as suas costas. Levantei seu cabelo e beijei sua nuca. —Eu consigo. — Interrompi ao perceber aonde ela chegaria. —Vou esperar essa fase passar.

Seu celular despertou avisando seu horário de se arrumar.

—Vamos lá embaixo comprar um bolo de milho para você. — Ela propôs. Assenti, agradado por sua cautela com algo que aprecio. Parei em frente ao meu armário, vesti uma bermuda de brim e peguei uma camiseta para vestir.

—Não veste a camiseta não. — Pediu e olhou-me avaliativamente. Eu sorri tímido, pus a camiseta sobre o meu ombro e saímos do apartamento. Ela olhava-me como se a qualquer instante fosse pular em cima de mim no elevador. Ao descer no térreo, uma senhora olhou-me da cabeça aos pés. Bella fechou o semblante e pediu que eu vestisse. Eu balancei a cabeça presunçoso com a demonstração de posse. Vesti satisfeito.

De volta ao apartamento, arrumei o lanche, cortei o bolo e coloquei pães na sanduicheira. Ela fez um suco e organizou o lanche no balcão. Em silêncio, comemos, o olhar demorando um no outro. Em seu olhar, havia perguntas não feitas que ela ocultava para si. Ela abriu a boca indecisa, em seguida ocupou-a com um suco. Toquei seu rosto.

—Já disse que te amo hoje? — declarei antes que registrasse. Ela tocou meu rosto, acariciando a minha sobrancelha. Fechei os olhos e suspirei, acalentando a saudade de seus carinhos.

—Você é tudo pra mim. — declarou de um jeito terno.

Meu coração se encheu de fé. Na atual circunstância, qualquer vocábulo de esperança fundamentava minhas expectativas. Inclinei para beijá-la, e ela encurtou a distância.

—Não posso viver sem seus beijos. — murmurei em seus lábios, sugando leve. O momento foi tão sublime que esqueci que ela me dizia minutos atrás que era melhor eu permanecer longe. —Fica comigo hoje? — Pedi, consciente do ato irresponsável que eu estava lhe propondo. Mas a saudade de sua presença era inexplicável. Eu me sentia doente em pensar ser extinguido de sua vida, em não saber quando seria o nosso próximo encontro, em não saber se ela ainda estaria vulnerável a mim ou se ela me daria novamente chance de me aproximar.

Ela desceu da banqueta e sorriu.

—Anjinho... — murmurou. —Eu não sei o que fazer... Tenha paciência com tudo, assim como eu estou tendo... — Ela ergueu o meu rosto, fitando-me com os olhos cálidos. —Você confia em mim?

—Eu não sei no que eu tenho que confiar... — reclamei melancólico. —Está me magoando tentar descobrir, mas magoa mais ainda ter que ficar longe de você... Eu queria ter forças para me impor e te imprensar contra a parede, forçando você a me dar explicações coerentes. Mas ao mesmo tempo tenho medo de ouvir palavras de rejeição como mais cedo, então tenho que me conformar com o que você me der... — deixei meus ombros caírem. —Sua atenção, ao menos.

—Você tem muito mais que isso de mim, eu já disse... Mas nesse momento eu me encontro sem rumo.

Coloquei minha mão em sua nuca e colei nossas testas. Iria expor minhas últimas suposições.

—Há outra pessoa? — perguntei inseguro. Ela calou-se e torceu os lábios, consternada. Parecia um sim. Respirei fundo, impotente. —Você ainda me ama?

—Sim. — Assegurou sem dúvida.

De olhos fechados, rezei internamente que essa situação se dissipasse logo e que a paciência e fé firmassem meus pés até que tudo terminasse bem.

—Bom dia, crianças. — Emmett cumprimentou ao aparecer de mãos dadas com Rose. —Acordaram cedo, hein! — Brincou e colocou um pedaço de bolo na boca.

Eu assenti com um sorriso fraco.

—Eu estava desejando comer bolo de milho. — Bella contou e se prendeu no pescoço do seu irmão. —Bom dia! — sorriu graciosa e beijou o seu rosto, em seguida deu um sorriso cúmplice a Rose. —Bom dia.

Sorri satisfeito em vê-la, pelo menos com os outros, em estado normal.

—Edward, daqui a quase um mês é o evento do ano. — Emmett lembrou empolgado. —Já sabe em qual apartamento vão morar?

Bella enrijeceu tensa.

—Ainda não. — neguei despreocupado. —Estou dependendo de uma Subsecretaria que o senador prometeu. Então irei morar num apartamento funcional.

—Hmmm, legal. — Sorriu e abocanhou um pão recheado. —Ah, marque em sua agenda política a minha formatura dia vinte e quatro agora, de novembro. Vai ser um festão. — bateu a mão em meu ombro.

—Ah, também vou ter formatura e baile. Serão uma semana depois do seu. — Informei e olhei para Bella, lembrando que não tínhamos conversado sobre isso.

—Você vai ter um baile? — Ela perguntou surpresa e sentou-se sobre o balcão de mármore em minha frente. —Por que não me disse?

—Por que você sabe que eu não ligo para isso. — minimizei a importância e fui à geladeira pegar leite frio.

—Se não liga, por que resolveu pagar a formatura? — Censurou.

—Por que minha mãe fez questão desde que eu entrei na Universidade. — Dei de ombros. —Não é importante para mim, mas é importante para ela. Desde então eu pago cinquenta dólares mensais. — expliquei e notei que algo nas minhas palavras a chateou.

—Ah, sei, não se importa. — Comentou reflexiva. Eu não entendi seu humor.

Ela desceu do balcão, pegou umas frutas na geladeira, enrolou no papel filme e foi ao quarto. Fiquei perdido, observando-a, mais uma vez perplexo com seu modo ambíguo de se portar.

—Então você vem no meu e eu vou ao seu. — Emmett propôs. —Tem convite pra mim, ? — Perguntou brincalhão ao perceber a tensão.

—Lógico que tem. Você é minha família. — ressaltei divertido.

Rosalie seguiu Bella. Eu permaneci conversando com Emmett, tentando não dar relevância às alterações de humor de Bella.

—Você é muito adiantado. — Emmett comentou. —Mal está se formando e já faz mestrado. Tem que ser muito cabeção!

—Os contatos certos ajudam também. — Pisquei, divertido.

Ele olhou para a porta fechada do quarto da Bella curioso.

—O que está acontecendo com ela?

—Também estou tentando descobrir. — Respondi baixo, desanimado.

—Deve ser TPM. Mulher é complicada. — Revirou os olhos. —E ae, está fazendo as lições de casa com a música?

—Sim. Estou me dedicando muito. Tentando preencher o meu tempo...

Bella

Foi praticamente impossível segurar a situação e me manter equilibrada. Por vezes tive vontade de abraçá-lo e contar tudo, e assim, enfrentar o que viesse ao seu lado. Mas não demorou a me deparar com a realidade e voltar a temer. Medo que ele se frustre, que sua luta seja vã. Restava me conformar com o que podíamos ter, encontrando o meio termo em tudo, até mesmo entre a omissão e a honestidade.

Mas vê-lo falar tão desapaixonado de sua formatura me frustrou. Ele mesmo não estava vibrando com as suas mínimas conquistas, quando eu renunciava nosso compromisso para lhe proporcionar o alcance delas. Tive que me controlar para não gritar e fazê-lo ver que ele deveria vibrar e comemorar, pois além do esforço gasto com esse sonho dele, uma vida foi deixada para trás nesse tempo. Quantos meses fomos privados um da presença do outro! Quantas férias não estivemos juntos, dias dos namorados distantes, aniversários que fomos privados, e agora ele diz que não liga para a comemoração da conquista! Ok, o motivo real da minha irritação não é esse, mas sim a dor de saber que se eu não conseguir, terei que abandoná-lo com os seus projetos e sonhos. Nunca estarei ao seu lado para comemorar.

Aflita com a percepção, entrei no quarto, fechei a porta e deitei, esperando a hora de sairmos para a Universidade. A porta se abriu e Rose entrou.

—O que você está fazendo, Bella? — Inquiriu e fechou a porta atrás de si.

Eu ignorei a pergunta. Não queria conversar.

—Eu não seria uma futura psicóloga se não tivesse sensibilidade aos acontecimentos ao meu redor. Estou vendo o que você está fazendo, só não entendi os motivos ainda. Ontem eu estudei o comportamento do meu irmão e o percebi apreensivo e deslocado. Ele está infeliz, deixando de ser o homem seguro e confiante que ele se transformou desde que vocês se uniram. Portanto, não o abandone agora. — Suplicou, olhando intensamente para mim. —Embora você não perceba, ele é quase dependente de você. Não tire o que ele tem, Bella. — Ela pegou a minha mão e me forçou olhar para ela. —Não tire a nossa família dele. Não o deixe voltar ao distanciamento que ele vivia antes de te ter. — Implorou preocupada.

—Eu não vou deixar isso acontecer. — prometi sem fé. —E, obrigada por se preocupar.

Após me dar um abraço carinhoso, ela saiu do quarto e eu fui para o banheiro escovar os dentes e lavar meu rosto. Levantei o olhar no espelho e me deparei com os familiares olhos verdes me fitando intensamente, certamente atrás de respostas para a minha atitude lá fora.

Nem eu conseguia entender meu comportamento instável desde o início da manhã. Eu estava fraca, era claro, em contradição ao tanto que eu já fui forte em lutar por ele. Algumas vezes eu o recriminava por suas preocupações com o futuro e hoje eu me encontrava no mesmo ponto que ele já viveu – medo do futuro.

—Eu te amo mesmo assim. — Inclinou-se e beijou minha nuca. Eu fechei os olhos e senti o calafrio que percorreu a minha espinha com o calor de sua respiração no meu pescoço. —Estou sentindo falta da minha Bella tagarela e sorridente... Tem como você ir embora e trazer ela de volta pra mim. — Ele brincou manhosamente.

Suspirei e me virei para ele, a cabeça apoiada em seu peito.

—Tenho que ir... Quer me deixar lá? — Desviei o assunto sem saber como lidar com isso, sem conseguir domar a dor no peito ao vê-lo me suplicando.

—Tudo bem. Eu deixo. — concedeu frustrado pela minha fuga.

Ele me soltou suavemente e se colocou em frente ao espelho para arrumar o cabelo. Desistiu e pôs um boné. Sentei na cama para esperá-lo e sorri com a imagem do anjo despreocupado, sem as responsabilidades e sem o poder americano que ele amava. Era somente meu anjinho com sorriso encantador e olhos brilhantes.

Após escovar os dentes, ele pegou o frasco de perfume dele.

—Usa o outro. — Interrompi antes dele começar.

Ele ergueu uma sobrancelha questionador, mas guardou o frasco e pegou o outro de golfinho com um meio sorriso no rosto.

—Faz tempo que você não me pede para usar esse. — Refletiu, aproximou-se e agachou em minha frente.

—Ele me traz a lembrança de por quem eu me apaixonei. — Fechei os olhos e exalei suavemente seu cheiro doce e infantil. Era uma mistura de lavanda, sol, flores, talco. Um perfume que ia ficar registrado pra sempre em minha memória.

Ele fez uma careta de dor e segurou meu rosto entre as suas mãos.

—Por quê? Por que você precisa se lembrar do menino por quem você se apaixonou quando tem um homem apaixonado por você? — Ele insistiu por respostas.

—Por que a Bella daquela época e de tempos atrás não tinha medo do futuro e nem das escolhas.

Ele suspirou exasperado e afastou-se de mim, em pé.

—São as minhas escolhas, não são? — Ofegou, jogando os braços no ar. —Você acha que não se encaixa... É isso, não é? — Inquiriu impaciente, andou pelo quarto e jogou o boné na cama, passando as mãos freneticamente pelos cabelos. —Pode falar a verdade, mesmo que me magoe.

Irritada com sua suposição, encarei firmemente. —Eu não seria tão egoísta ao ponto de te deixar por medo do desconhecido... Isso significaria que eu sou uma fraca. — Minha voz saiu dura sem que eu intencionasse. Ele sentou na cama derrotado.

O fato de ter que escolher palavras me deixava sem argumentos. Eu queria dizer que com ele eu enfrentaria o novo, mesmo que o desconhecido significasse a sua ascensão a um mundo onde existem sujeiras, chantagens, traições, lavagem de dinheiro, armadilhas, jogos de influência, lutas por dinheiro e poder. E ainda sabendo desse lado da moeda, nada me impediria de apoiar o seu idealismo. Como ele, eu sei que existe um lado bom, existem pessoas, iguais ele, que sonham e buscam um mundo melhor, com uma sociedade justa. O meu único medo hoje é a perspectiva de que eu seja o impedimento que o obstrui prosseguir.

—Não, Edward Evans. Eu não tenho mesmo problema com o seu futuro. — acentuei baixinho, a postura defensiva.

—O quê? — Ele se virou para mim com a expressão confusa. —De que você me chamou?

—Edward. — repeti, sentindo um pouco de náuseas.

—Edward Evans, Bella. Por que me chamou assim? — Perguntou acusador.

Cobri a boca com a mão assustada em tê-lo chamado assim. Eu tinha repetido esse nome tantas vezes nessas duas semanas que ficou gravado em meu subconsciente. Seria assim que ele se chamaria caso ele se casasse com ela.

—Er... É o nome que provavelm... — Interrompi ao ver seus olhos furiosos. Ele aproximou, segurou meu queixo e me fez olhar para ele, com indignação.

—Sem chance. — sentenciou firme. —Para eu me chamar assim, eu teria que me casar com uma Evans e desde que eu vou me casar com você, isso não tem a mínima chance de acontecer. — Afirmou. —Esse nome nunca vai existir. — certificou com paixão. A esperança foi regada em meu coração ao vê-lo afirmar com tanta veemência, principalmente por estarmos em uma situação indefinida.

Suspirei e repousei a cabeça sob o seu queixo. Ele me abraçou protetoramente.

—Vamos. — chamou após um tempo de silêncio. —Acho que está na sua hora. Emmett já deve ter ido. — beijou minha cabeça.

A quietude permaneceu durante o trajeto para a Universidade. Ele colocou o antebraço na porta pensativo, olhando para a rodovia. O único barulho presente era da estrada. Olhei-o de esguelha. Ele pertencia ao carro. Desde o momento que vimos este modelo a primeira vez, eu vi os seus olhos brilharem de excitação. Um SUV sério e confortável. Então pedi ao meu pai para comprar. Este era 'o nosso carro'. Estilo familiar. Ele se encaixaria perfeitamente a nós dois na Capital, pois seria o seu carro de trabalho, que combinaria com os seus trajes oficiais e tinha espaço para nossos futuros filhos. Um Ranger Rover Evoque preto e discreto.

Suspirei nostálgica com o futuro incerto. Tão planejado, mas agora sombrio. Senti a dor familiar da incerteza e perda no meu peito. Fechei os olhos e encostei a nuca no banco, abatida.

—Por que não conversa mais? — Sua voz foi quase uma súplica. Ele estacionou e acariciou meu rosto. —Sinto sua falta.

—Eu também. — Murmurei ainda de olhos fechados.

Ele se inclinou e sorriu, beijando o meu rosto. —Você também sente sua falta? — Sussurrou divertido e plantou selinhos em minha boca.

Abri os olhos e olhei-o cheia de amor.

—Não, anjinho. Também sinto muito a sua falta. — declarei calorosa, os dedos mimando sua nuca. Ele precisava saber pelo menos essa verdade.

—Adoro quando você me chama de anjinho. — disse com um misto de timidez e manha, e me beijou. Sua língua forçou passagem e não era um desses beijos suaves de despedida na frente da universidade. Havia conflito e paixão, com gosto de despedida. Eu devolvi o beijo, novamente ciente do meu erro, mas a saudade e desespero me consumiam. Segurei o seu pescoço e me puxei para cima dele, sentando em seu colo.

Ele envolveu minhas costas e me apertou com um abraço de ferro, sem me dar chance de fugir, ofegando e soltando sons abafados em minha boca. Meu coração que já corria, bateu descompassadamente, sabendo que os dias seguintes poderiam ser tortuosos sem sua presença.

Ninguém no mundo entenderia o desespero naquele carro. Não era simplesmente fome um pelo outro, era necessidade vital.

—Eu preciso de você, amor. — Arfou, os lábios em meu pescoço e me beijou de um modo persuasivo.

Eu tinha que me controlar se não em pouco tempo eu desistiria de tudo e sem pensar reataria o compromisso que ele exigia para satisfação dos nossos desejos. Ele colocou a mão dentro da minha blusa e me acariciou no seio por cima do meia taça, lentamente, torturantemente.

Olhei seus olhos e eles queimavam. Voltei para os seus lábios e aproximei a mão do zíper da bermuda, posicionando para abri-la.

—Ai, Bella, você está me deixando louco... — Ofegou. —São oito horas da manhã e estamos no estacionamento da sua universidade. — alertou sem fôlego, cobriu meus lábios e apertou o mamilo entre os dedos. Arqueei, implorando que ele me tocasse.

Ele finalizou o beijo, suspirou, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos.

—Você tem que ir. Vai se atrasar. — lembrou, arfando.

—Você também. — Informei, recuperando meus batimentos normais.

—Eu ficaria hoje, mas eu tenho uma reunião. — lamentou. Eu nada disse, somente encostei meu rosto em seu ombro. —Amanhã nos encontramos em Seattle. Você me busca no aeroporto? — perguntou hesitante, mostrando sua incerteza sobre o dia de amanhã.

—Sim, eu te busco. — assenti como se fosse óbvio.

—Você fica on-line hoje à noite? — Perguntou animado com a minha resposta anterior.

Mostrei dúvida, pensando que se meus planos não dessem certos, eu teria que magoá-lo de novo.

—Por favor, devagar. — Pedi cautelosa em não jogar um balde de água fria em suas expectativas.

—Ok. Não vou pressionar. E quanto a falar para o seu pai? — recordou incerto.

—Não mudou muita coisa... — Eu destaquei pesarosa. —Eu não posso dar cert... — baixei a cabeça, triste e abatida.

—Entendi. — Ele me interrompeu beijando leve os meus lábios. —Vá logo que está atrasada. — Ele me mandou ir, mas me abraçou forte, me impedindo de movimentar.

Alguns minutos se passaram, ele abriu a porta e descemos. Peguei meus materiais e me virei para ele, que estava encostado no carro.

—Então tchau. — Me ergui para dar um beijo no rosto dele. —Até amanhã. — Sorri triste, tentando acreditar que podia existir amanhã para nós.

Ele pôs o braço sobre o meu ombro, fechou a porta e acionou o alarme. Olhei interrogativa para ele. —Eu vou lá com você. — Informou, caminhando ao meu lado.

—Não. Você já está atrasado. O avião do senador não sai às nove e meia? — Perguntei alarmada.

Ele deu de ombros e levantou o meu queixo, já parados na entrada principal.

—Eu pego o avião de meio dia, se isso significar mais cinco minutos com você. Eu tenho ternos aqui. Vou direto para o Capitólio, se for o caso.

—É desnecessário. — Relutei, passando o indicador na sobrancelha dele. —Nós nos veremos amanhã... É difícil te pedir isso, mas fica calmo... Já ficamos longe antes... — Disse meiga.

Ele assentiu frustrado e me abraçou forte.

—Edward, leve os seus ternos e umas roupas que eu comprei pra você que estão no seu armário.

Ele ficou calado e sem reação, então eu completei ao ver o que ele tinha entendido.

—E deixe o terno de ontem que eu mando para a lavanderia, afinal não vai dar tempo de você levar lá hoje. — Sorri docemente, incapaz de matar as esperanças do meu anjinho ingênuo.

Ele relaxou e sorriu, balançando a cabeça em negativa. —Você comprou mais roupas?

—Nada demais. — Dei de ombros. —Somente bermudas e camisetas.

Ele sorriu e me abraçou forte novamente.

—Fico feliz. É sinal que a minha Bella teimosa e obstinada a me dobrar ainda está aqui. — Ele me beijou várias vezes no cabelo, e eu sorri. —Vou levar só os ternos. Bermuda e camiseta eu vou deixar aqui. Afinal esse tipo de roupa é pra vida longe da Capital, e vida fora da Capital eu só tenho com você.

Meu coração se encheu pela determinação de suas palavras e deitei a cabeça em seu peito, sorridente.

—Tchau, minha Bella. — Ele despediu-se com um beijo em minha testa e deixou-me.

Trinta minutos do meu horário já tinha se passado. Sentei no banquinho entre os blocos para aguardar o próximo horário e digitei uma mensagem em meu celular para Ryan, pedindo que ele me ligasse o mais breve possível.

Relaxei no banco e ofereci meu rosto ao sol da manhã. Eu já sentia falta dele, um vazio enorme. O medo do fracasso encevava-se como uma peste em meu coração, medo de ter que abandoná-lo de verdade, ter que cortar laços e vínculos.

Fui tirada nos meus devaneios pelo meu celular vibrando na bolsa. Sorri ao ver quem era, e a luz de esperança brilhou.

Fala, Bella. —Ryan disse eufórico.

—Oi, amigo. Você não devia estar em sala? — Descontraí.

Não. Estou na Califórnia. Vim ver minha mãe.

—Hum. — Murmurei, incerta se lhe envolveria nisso.

Mas eu tenho certeza que você não me mandou te ligar urgente preocupado com a minha vida escolar. O que quer?

—Você está certo. — Admiti chateada comigo por só ligar para ele quando precisava de algo. —Preciso de um favor... É um assunto delicado. Você está com tempo e à vontade?

Pelo jeito é bomba. Pode falar. Eu estou sentado.

—Bom. É sobre Edward...

Detalhei tudo o que aconteceu desde o dia que Edward descobriu sobre a pasta de dinheiro, falei sobre as propostas do pai dele e por último sobre os e-mails que a irmã dele me mandava. Ele ouviu atenciosamente, me interrompendo vez ou outra com 'é sério! Não acredito!'.

Nossa, Bella! Eu sempre percebi uma certa fixação da minha irmã por ele, mas não imaginei que chegaria a esse ponto.

—Eu lamento falar dela para você, Ryan. Mas é que eu estou sem opções.

E o que você quer de mim exatamente? Você tem um plano?

—Não propriamente dito. Só queria que você ficasse mais próximo ao Edward, que o observasse. Além disso, acho que contando com a sorte, talvez você consiga as gravações originais, pois você tem acesso ao apartamento da sua irmã e aos computadores dela.

Bella... Eu vou te ajudar, mas quero adiantar uma coisa... Ela é minha irmã, antes de tudo. Eu não posso prejudicá-la. — Ele informou apreensivo.

—Eu sei. Você já estaria fazendo muito se me ajudasse a sumir com as provas contra ele.

Ok.

—Ryan...

Fala.

—Eu não quero que ele descubra. — Pedi.

Por que, Bella? Vocês vão casar. Não pode haver segredos entre vocês. — Censurou sério.

—Eu sei disso. Mas eu tenho um motivo para esconder.

Ok. Você quem sabe. Eu te dou as coordenadas.

—Outra coisa... Ela tem que acreditar que estamos terminados... Assim, eu tenho esperança que ela mesma resolva se livrar das provas contra ele.

Eu acho meio perigoso o que você está fazendo... Está deixando ele de bandeja para ela. — Alertou sem humor.

—É o único jeito de protelar... E, eu lamento por envolver você, Ryan. — Murmurei.

Não se desculpe. Eu não estou chateado por ter me falado. Estou chateado por ser minha irmã, minha família. Minha mãe ficaria muito decepcionada em saber disso.

Despedimos pesarosos pela situação. Devagar, repassei mentalmente o próximo a recrutar para minha causa. Brandon. Suspirei e acreditei na luz que via no fim do túnel.

Edward

Estacionei o carro de Bella na garagem já pedindo um táxi por telefone. Subi rápido para organizar os meus pertences e desci, sabendo que o táxi já me aguardava na entrada do prédio. Cheguei com tempo para decolagem. O senador e seus filhos não tinham chegado ainda. Sentei na poltrona de costume e abri o notebook para adiantar uma resenha.

—E ae, cara! Que vício hein! — Ryan disse ao sentar ao meu lado.

—Bom dia pra você também. — Respondi bem humorado.

—Quero ter uma conversa séria com você.

—Ah, é? Essa eu quero ouvir. — Cruzei os braços e sorri zombeteiro.

—É sério. Quero pegar prática na rotina política. Você por um acaso está precisando de um assistente voluntário? — ofereceu-se animado.

—Está brincando comigo, ?

—Não. Já disse que é sério. Como eu resolvi seguir nessa carreira que escolheram para mim, tenho que adquirir alguma experiência.

Eu estudei-o curioso. Parecia interessado realmente.

—Você não tem que falar comigo. Fale com o seu pai. Com certeza ele não vai te dar só um cargo de assistente. Aliás... — Fechei o notebook. —Por que essa mudança?

—Quero projetar um futuro perto da Sô. Eu pensei em ir para o gabinete do pai dela, mas seria uma afronta ao meu velho. Então preferi a paz.

—Tudo bem. — Assenti com suspeita.

—Então eu vou estar lá sempre às sextas.

—Já quer vida mansa, hein! — Brinquei e empurrei a cabeça dele.

—Alivia pra mim, chefinho. — Ele zombou.

—Nem vem com esse nome. Basta James no meu pé! — reclamei indignado. Ele sorriu.

—O que é tão engraçado? — Ashley entrou no avião e perguntou interessada ao ver nós dois sorrindo.

—Temos um novo assistente. — Informei ainda bem humorado e apontei para ele.

—Ah, é? — Ela debochou. —Resolveu fazer alguma coisa na vida?

Ryan olhou sério para ela, reprovou sua atitude irônica e entrou no gabinete no piloto, deixando nós dois sozinhos. Abri o computador novamente e voltei a digitar.

—Vocês terminaram de vez? — Ashley perguntou, apontando minha mão sem aliança.

Olhei para o meu dedo vazio e a marca do sol acentuou minha realidade.

—Ashley, não comece. Eu já alertei não ter interesse em difundir meus assuntos pessoais. — admoestei-a irritado.

—Eu não sei por que você nega. Ryan me confirmou agora a pouco. — Insistiu.

—O Ryan? — Exclamei incrédulo. —Como o...?— desisti de concluir.

—Foi ela quem disse para ele. — elucidou com indiferença.

Suspirei magoado. Pensar que ela divulgou o término fez-me sentir traído. E por que Ryan falou justo para irmã?

—Você gosta muito dela, . — especulou com desagrado.

Eu queria gritar e afirmar que sim, que eu a amava, que para mim só existia ela de mulher, que só ela me completava e me chamava atenção. Por que era tão difícil assim de entender?

Eu me senti mal por saber que Ashley gostava de mim, quando eu amava outra. O coração não era algo manejável. Se fosse assim, eu pediria ao meu que sofresse menos. Eu precisava desencorajá-la, e o único meio seria expondo meus sentimentos verdadeiros por Bella.

—Sim. Ashley. Eu a amo. Ela é minha vida, meu tudo. Ela não é só a mulher com quem eu ia casar, ela é minha família, meu sorriso, minha felicidade. Com ela eu me sinto são, vivo. Longe dela eu sou só um zumbi, uma máquina programada em stand by. — enumerei sincero, sentindo uma alegria intensa em falar tão abertamente de meus sentimentos.

O senador e um deputado sentaram-se nas cadeiras ao lado direito do avião e apertaram o cinto. Em seguida o avião decolou. Ashley baixou o olhar, desiludida.

—Não existem mais homens como você. — lamentou baixinho.

A assertiva me pegou de surpresa. Fez-me pensar na resposta.

—Foi ela quem me fez assim. Ela me amou primeiro e me transformou. — Sorri com as lembranças. —Ela não encontrou um namorado perfeito, Ashley. Ninguém encontra. — destaquei à vontade. Fechei novamente o notebook e resolvi relaxar e tentar me distrair. —Mas e você? Tem alguém? — oportunizei uma conversa. Talvez fosse bom. Quem sabe ela se desiludisse dessa fixação platônica.

Ela hesitou, parecendo surpresa com minha pergunta inusitada. O senador nos observava por baixo dos óculos. Parecia ter relevante interesse no assunto, embora estivesse com um jornal em sua frente.

—Er... Eu sempre tenho alguém, mas nunca ninguém de verdade. As pessoas do meu mundo não são como você. Eu nem sabia que existia homens como você. — Ela relatou insegura e olhou para o seu pai, que voltou a atenção ao periódico. —Sua personalidade me deixou intrigada. Então fiquei decepcionada ao descobrir que você era único e que, além disso, tinha dona. —confessou. — Normalmente os rapazes do interior são sérios e fieis assim como você? — questionou movendo as mãos nervosamente.

A conversa voltou a me ter no centro de novo, involuntariamente.

—Em todo lugar tem todo tipo de pessoas. Na cidade, no interior. A minha avó diz que sou igual ao meu avô. — Sorri, gentilmente.

—Você está fazendo mestrado, ? — Ela desviou o assunto. Parecia querer estender. —Qual vai ser a sua defesa?

Fiquei surpreso com seu interesse, mas também animado em expor minhas idéias.

—Bom, a defesa está ligada a uma interconexão de movimentos sociais, cultura e política. No geral, a expansão da cidadania; processo de formação de valores, opinião e atitudes; ação política e subjetividade...

No restante do trajeto conversamos sobre minha tese e visão geral de política. As duas horas de voo decorreram sem que eu notasse. Foi fácil manter diálogo com ela.

Carlisle

A tensão enchia o ar da sala. Ainda que tentasse me manter calmo, ver o garoto passar por mais esse tratamento me deixava apreensivo.

—Vou explicar em uma linguagem menos científica. — A enfermeira chefe se colocou entre nós quatro e começou a explicar. —A medula óssea do garoto será destruída por completo, então ele ficará susceptível a ataques externos em seu organismo, por isso ele ficará no isolamento por duas semanas com uma dieta equilibrada.

—Só faltava essa! Agora vou ficar amarrado em uma cama duas semanas?! — resmungou o garoto, insatisfeito.

—Fica quieto, Jazz. É para o seu bem. — Alice ralhou, mas acariciou seu cabelo.

—O paciente irá descer agora para a sala de procedimentos. — a enfermeira informou e ficou esperando.

Alice e Jasper se abraçaram por minutos, pesarosos e temerosos, numa mostra nítida de afeto. Eu queria ter forças e ser menos orgulhoso para facilitar a vida de Alice. Com minha atitude eu me comparava a Esme, omitir a verdade por egoísmo, protegendo a mim mesmo com a desculpa de protegê-la. Abracei Esme, que estava aflita em deixar o filho aqui. Afaguei o seu rosto realizado por ter tido bom senso e perdoado-a, alcançando a paz. A enfermeira apareceu na porta novamente, impaciente, Alice sussurrou baixinho eu te amo e eles se abraçaram novamente.

Nessas duas semanas de descoberta de paternidade fiquei preso à perplexidade, atarefado com os exames e não me movimentei para esclarecer a verdade, mas na primeira oportunidade conversaria com os dois.

—Amanhã você poderá ficar com o seu namorado. — A enfermeira acalmou Alice.

—Ele é meu irmão. — Alice observou baixinho e afastou-se. —Vai, Jazz, você vai ficar bem. — encorajou-o. O garoto se despediu e entrou no corredor.

Por volta de vinte e uma horas assistia TV deitado no sofá e o meu telefone tocou. Bella. Ela pediu em tom carente e urgente que eu fosse buscá-la no aeroporto. Em menos de quinze minutos encontrei-a no estacionamento. Ela entrou no carro e beijou o meu rosto.

—Por que veio hoje? — perguntei ao dar partida.

—Eu precisava conversar com o senhor. — disse triste.

—Ah, é? Está com a carinha desanimada. O que foi? — Soltei uma mão do volante e passei os dedos em seu rosto.

—Acordei muito cedo hoje. Estou desgastada. Pai, tem como o senhor não ir para casa? Estou morrendo de vontade de comer. — Pediu manhosa.

—O que quer comer?

—Fritas e bife.

—Hmmm, parou com a dieta da noiva, é? — arreliei brincalhão. Ela sorriu triste. Talvez a fome estivesse afetando seu humor, deduzi. Fizemos nosso pedido e sentamos.

—Não vai melhorar essa carinha não, filha? — adulei-a carinhoso.

—Pai... Temos que cancelar o casamento. — disse de uma vez, os olhos úmidos.

—Por quê? — questionei surpreso.

—Por que Edward entrou numa fria...

Ela explicou os detalhes da chantagem. Eu a ouvi preocupado com o caminho que ela resolveu seguir, pesaroso pela separação. Já considerava Edward como seu companheiro, e a situação toda era revoltante.

—Filha, não precisava ter terminado tudo. Existem meios de resolver isso sem que precisasse ter tomado essa medida drástica. — Argumentei. —Por que não enfrentam a situação juntos?

—Ah, pai, desde que eu conheço Edward que ele luta por esse sonho dele. Eu queria ajudá-lo a conseguir, não impedir que ele alcance. — acentuou desanimada.

—É só isso, Bella? Ou tem mais algum motivo escondido?

Ela estalou os dedos freneticamente. Havia algo mais.

—Fala filha. Eu não vou poder te ajudar se não souber o real motivo de não se abrir com ele e enfrentar isso juntos. Você sabe mais do que eu como a omissão estraga nossa vida. — Insisti por uma resposta convincente.

A garçonete serviu o seu jantar. Bella beliscou desinteressada.

—Pai, Edward é tudo pra mim, mas eu sempre me senti em uma corda bamba com ele. E não é com relação a mulheres, eu sei que sou única pra ele, mas é com relação a escolhas. O senhor lembra quando ele pensou que eu estava grávida? Ele ficou nove dias sem me ligar por que estava indeciso quanto ao futuro dele... Eu não gosto de pensar nisso, mas eu não me vejo como prioridade... Se ele tivesse hoje que ir para o Haiti, ele não se importaria em me pedir opinião. Ele iria. É lógico eu o acompanharia em tudo na vida dele, pois eu o amo. Mas e ele? Desistiria de algo por mim? São por essas dúvidas e motivos e por saber que entrei na vida dele por um acaso que eu não quero forçar um futuro incerto para ele.

—Você falou, falou e não disse tudo. — Agucei o olhar, desconfiado.

Ela suspirou e parou de mexer no prato, deixando quase tudo.

—Eu não quero falar. É uma coisa constrangedora... Egoísmo. — Disse embaraçada.

—Eu sei, Bella, o seu por que. Eu também o acho uma incógnita. Ele é muito determinado, e eu também tenho a mesma dúvida que você tem.

—Pode ser que o senhor saiba mesmo. — Deixou os ombros caírem.

—Eu te conheço. Você não consegue dissimular suas opiniões.

—Então o senhor me entende. É por isso que eu não quero forçar a situação. Por isso eu não quero falar.

—Ok. Eu vou te ajudar. Você tomou a atitude certa em pedir ajuda ao irmão dela. Eu vou entrar em contato por precaução com algumas pessoas, para que caso isso venha a público tenhamos como enfrentar a situação.

—Isso só vai vir a público se eu estiver com ele. Ela deixou isso claro. Então eu não vou me arriscar. Eu estou contando que Ryan vai conseguir encontrar as gravações e documentos, assim, ela estará neutralizada e eu posso reatar com ele. Mas se ele não encontrar... — deixou no ar, derrotada. Eu me perguntei quando foi que ela ficou tão adulta.

—Então qual o objetivo de falar com o Brandon Locke? Isso é sinal que você quer encontrar possibilidades de enfrentar a situação. — pressionei. Ela mordeu os lábios com um pequeno sorriso.

—O senhor está certo... Eu quero me cercar de chances de permanecermos juntos. — confessou com um brilho nos olhos.

Eu lamentei ter que resolver questões do cancelamento do casamento.

—Se ele te merecer, ele irá fazer as coisas certas.

Edward

Ter Ryan como companhia na tarde de sexta burlou a solidão costumeira que me rodeava com o ócio. Ele observou documentos rotineiros, depois lhe expliquei o funcionamento da Casa e as atribuições dos componentes do gabinete.

Por ser fim de ano, muitas leis compunham a pauta de votação na Casa. O senador passava a maioria do seu tempo em plenário. Eu o assessorava no que necessitava, mas como iria voar para Seattle, passei as últimas horas em sala elaborando um discurso para um pronunciamento dele à noite em apoio a uma família com a filha sequestrada.

Digitava em meu notebook por Ryan ter ocupado meu computador de mesa. Ele me interrompeu.

—Edward, enjoei. Vamos fazer algo para matar o tempo?

—Não, Ryan. Tenho trabalho. Se você quiser ir, pode ir. — continuei meu trabalho, concentrado.

—Pô, cara, relaxa um pouco! Você é muito Caxias. Vamos jogar em rede o jogo do seu irmão. Eu tenho a assinatura. — Insistiu.

—Eu não sei jogar. — descartei, mas fiquei tentado. Talvez fosse bom aprender a fazer coisas diferentes para me distrair. —Ok. Explique-me. — Pedi e arrastei a cadeira para o lado dele.

Ele explicou o funcionamento do jogo e chamou alguém on-line para jogar comigo. Não foi difícil aprender.

indo, gente. — Ashley mostrou o rosto na porta sorridente. —Vamos ver quanto tempo Ryan vai aguentar a vida de gabinete. — espetou.

—Ah, maninha, não vê que eu quero ficar perto da família. — Ironizou. —Mas, falando em família, você podia me convidar para um jantarzinho mexicano no seu apê hoje à noite. morrendo de saudade da comida da Jô. Vamos lá, Edward? A comida dela é ótima. — Ryan convidou. Ambos viraram para mim em expectativa.

—Não, eu... — balancei a cabeça negando. Não entendi por que Ryan me envolveu nesta fria. —Estou indo para o estado de Washington daqui a pouco. —justifiquei. — Meu irmão passou por um procedimento cirúrgico e vou vê-lo.

Ashley aproximou-se da minha mesa com um sorriso animado.

—Então você iria se não fosse isso? —pressionou esperançosa.

—Eu poderia ver. — evadi, incerto.

—Então está marcado. — Ela sorriu triunfante. Eu abri a boca descrente em como fui apanhado. —Qual o melhor dia?

—Segunda. — disse Ryan. —Ah, eu vou levar a Sô. — Avisou animado.

Eu olhei-o sem ação. Por que ele estava levando aquela idéia adiante se nem era tão próximo da irmã?

—Não conta para o meu pai que eu estou recebendo a sua namorada lá. — Ela advertiu. —Até segunda então. —Combinou.

—Ashley, o seu pc tem senha? — Ryan interrompeu-a. Ela arqueou a sobrancelha curiosa. Ele explicou. —Vou ficar aqui até as sete com Edward e nós vamos jogar em rede.

—Podemos jogar no notebook. — Eu sugeri.

—Não. O notebook não tem teclado ergonômico e é desconfortável. Eu fico sem tato.

—A senha é Pink. — Informou despreocupada e saiu.

—Ok. Até segunda na sua casa. — Ele sorriu exultante.

Jogamos até meu horário de viajar. Quando saí, Ryan permaneceu na sala de sua irmã, jogando.

O avião pousou em Seattle e desembarquei ansioso em encontrar Bella. Olhei de um lado ao outro, procurando-a. Sentei num banco e disquei seu número.

—Oi, Edward. Chegou faz tempo? — Carlisle me abordou antes que completasse a ligação.

Guardei o celular e estendi a mão para cumprimentá-lo. —Olá. Tem uns cinco minutos que cheguei. — Olhei por cima dos seus ombros. —Cadê Bella?

—Ela estava ocupada e pediu que eu viesse.

—Ah...

Acompanhei-o até o estacionamento refletindo sobre que compromisso ela teria em plena sexta-feira à noite para não ter vindo me buscar. Ok, não devia cobrar, mas ontem mesmo ela comprometeu-se a me buscar.

—Como estão as coisas por aqui? Jasper está bem? — Perguntei logo que chegamos ao carro.

—Sim, ele está bem. Ele iria ficar no hospital, mas eu dei um jeito de trazê-lo para casa. Imagine como ficar no hospital seria ruim para o garoto. Ele é muito inquieto. — narrou cheio de afeto. —E você? Como está a vida em Washington D.C.?

—Está boa. — Ele queria conversar, mas eu não tinha ânimo.

—Qual o nome do senador que levou aquele seu projeto das universidades adiante?

—Feinstein, Joseph Feinstein. Em três meses as leis entram em vigor. — expliquei. Meu humor se estabilizou ao entrar nesse tema.

—Que bom. Como funciona a aplicação dessas leis?

—A proposta será aberta a público e colocada a disposição... — expliquei durante o trajeto todos os procedimentos para integrar a licitação, embora meu desejo fosse direcionar o tema a Bella. Eu precisava conversar, mas não encontrei um meio de abordá-lo.

—E você? Como está? — perguntou quando estacionou em frente a um grande e movimentado bar.

—E-eu estou bem. — vacilei, incerto sobre o sentido da pergunta.

Ele olhou-me sério, como se soubesse que eu escondia algo. Ele sabia.

—Por quê? — Eu quis saber.

—A Bella me falou sobre vocês. — informou direto.

—Falou? —questionei ressentido. Toda a sombra de esperança se dissipou ao ver o quão obstinada ela estava em manter o rompimento. Duas pessoas sabiam. Ryan e Carlisle. —O que ela disse?

—Que terminaram. — esclareceu como óbvio.

Desviei os olhos dele e olhei pelo vidro da janela.

—É isso... Eu mesmo queria falar com você, mas já que ela se adiantou. — Deixei os ombros caírem, descrente.

—Você vai deixar por isso mesmo? — incitou-me desafiador.

—O que eu posso fazer, Carlisle? Só me resta esperar. — aceitei miseravelmente derrotado.

—O momento para ela é de impasse, Edward. Ela está confusa. O relacionamento exige muitas escolhas. Ela precisa tomar decisões. — tergiversou, escolhendo palavras. Mais incógnitas agora.

Avistei um casal na área externa do bar que me chamou a atenção. Impossível não reconhecer. As últimas de palavras do Carlisle se repetiram na minha mente.

'Impasse. Confusa. Tomar decisões'.

Associei as ações de Bella, suas palavras e as declarações do seu pai e cheguei a uma conclusão. Havia outra pessoa. Só tinha essa resposta. A inquietação varreu meu corpo. Eu queria fugir dali para não confirmar a suspeita.

—Podemos ir embora, Carlisle? — Propus. Não estava apto a enfrentar a situação.

—Não. Bella está te esperando. Sua mãe também está aqui. É aniversário da diretora do RH do jornal. — Explicou e abriu sua porta, impedindo-me de negar.

Desci desanimado. Não sabia como agir. Não havia porque ficar próximo a Bella se estávamos terminados. Agora sim, a ficha caiu.

Bella

Depois da conversa com meu pai, consegui mais forças para levantar estratégias. Liguei hoje para Brandon e combinei de falarmos na comemoração do aniversário da Rafa. Ele chegou e chamei-o para um local isolado. Precisava expor a situação a ele antes que Edward chegasse.

—Então, para todos os casos, vocês estão terminados. — Ele refletiu.

—Por enquanto sim. — assenti desgostosa.

—Ele é um cara de sorte e ao mesmo tempo burro.

—Ai, ai, Brandon, por que? — Perguntei divertida.

—Burro por insistir nessa vida que ele escolheu quando ele poderia viver o sossego de Seattle com você, e sortudo... — Ele deu um sorriso misterioso. —Por que mesmo sendo burro você gosta dele.

—Ele não é burro. Ele é um príncipe, e eu o adoro. — Defendi sorridente.

. Então você já disse o que quer de mim futuramente, caso seu plano não dê certo e a bomba estoure. Vou te indicar os advogados do meu tio e indicarei pessoas influentes. Mas e por hora, o que quer de mim para ter me procurado com tanta urgência?

Expliquei o que queria dele de imediato. Ele ouviu perplexo com o que eu sou capaz para manter Edward em segurança.

—... Eu quero protegê-lo. Ela é meio obcecada por ele, e eu tenho certeza que ela não vai engolir a ideia por muito tempo de que nós estamos separados.

—Ok. —Concordou. —Eu que não queria estar na pele dele nesse momento. Vamos voltar para a mesa. — convidou e apoiou a mão nas minhas costas. Olhei no relógio preocupada. Passava das onze e eu não tinha visto Edward ou meu pai.

Sentei ao lado da Esme. Mal sentei, ela inclinou-se e cochichou em meu ouvido.

—O Edward chegou, Bella. — avisou. Eu olhei animada para área externa. Ele entrava de mãos no bolso e olhar baixo. Aproximou-se triste.

—Boa noite. — Cumprimentou todos da mesa, deu um beijo no rosto da Esme, depois no meu.

—Senta aqui. — Apontei uma cadeira ao meu lado.

—Depois. Vou ao bar primeiro.

Eu não questionei. Ele devia sentir-se um peixe fora d'água perto da diretoria da empresa. Direcionei a atenção às piadas contadas na mesa, mas não tirei os olhos dele, que se sentou em uma banqueta, os braços sobre o balcão. Pediu uma caipifruta e bebeu devagar.

Eu me perguntei por que ele estava assim, se ontem estávamos bem quando ele saiu da universidade. Não entendi a sua frieza, nem o fato dele não ter me chamado para ir com ele ao bar.

Deixei a mesa e fui lhe fazer companhia.

—Está tenso hoje? — parei em pé ao lado dele e apoiei o queixo e mão em seu ombro.

—Um pouco. — bebeu todo o drinque de uma vez.

—Com o que está preocupado?

Ele olhou-me e acariciou meu rosto. Parecia derrotado.

—Hoje faltaria um mês. — lamentou e novamente fitou o copo.

Não tive palavras ou ação. Sua dor me machucou. Todo o desejo de lutar e enfrentar se abalou. Por vezes este mês, eu me senti entorpecida, flutuando na letargia de não pensar. Mas ver sua dor abriu um buraco enorme no meu peito. Eu queria abraçá-lo, consolá-lo. Ele suspirou e descansou o copo vazio no balcão. —Eu estou cansado. —levantou. — Vou pedir um táxi e ir embora. — Informou e colocou uma nota de dinheiro no balcão.

—Me espera um pouco que eu vou com você. —pedi. — Eu comprei um presente para Rafa e vou dar na hora que o pessoal cantar parabéns. — expliquei carinhosa.

Ele segurou meu ombro e beijou minha testa.

—Depois você vai com o seu pai. Eu realmente estou cansado e quero ver o meu irmão. Tchau. — despediu-se e andou rápido para saída.

Observei-o ir parada e confusa. Ontem ele estava esperançoso e carinhoso e hoje distante e vencido. Não o compreendi. Voltei para a mesa sem graça, pensando em que explicação dar para sua saída repentina. Fiquei grata pela discrição dos colegas em não comentar.

Nas duas horas seguintes, abstraí-me em meus problemas, ainda que tentasse socializar. Olhava todo o tempo no relógio ansiosa em ir embora. Em casa, encontrei a porta do Jasper semi-aberta, Edward dentro. Parei ao lado de fora para ouvir o que conversavam, pois eu não podia entrar sem antes me livrar das roupas que usei na rua.

—Não foi nada. Mataram a minha medula cancerígena e eu estou com a medula do meu pai agora em mim — explicou com voz arrastada.

—Mas você está bem? — Edward perguntou, preocupado.

—Sim. Só um pouco noiado. — Jasper riu.

Deixei-os e fui ao meu quarto tomar banho e vestir roupas limpas. Ao abrir o closet, notei que os itens dele não estavam no local de costume. Nem o chinelo, desodorante ou perfume. Meus ombros baixaram desanimados ao registrar que ele os levou. Além disso, o banheiro não tinha sinal de banho recente. Ele não tomou banho em meu quarto.

Sentei na cama temerosa. Lágrimas umedeceram meus olhos. Saber que nos distanciávamos mais massacrou meu coração. Ele parecia querer desistir menos de dois dias depois de dizer que ia lutar de volta.

when you're gone- Avril lavigne

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Derrotada, vesti uma camisola de seda, coloquei o robe por cima e deitei na cama. Eu queria vê-lo, ficar perto dele e descobrir o que aconteceu. Não me via com direito de fazer perguntas quando fui eu quem o expulsou da minha vida sem dar explicações, mas nada demovia a ideia de que deveria estar perto dele. Respirei fundo, me levantei e saí rápido do quarto.

Deixei minha sandália do lado de fora do quarto de Jasper, calcei o sapato de isolamento disposto numa caixa, coloquei a touca e entrei de fininho.

Os três advertiram minha presença.

—Que foi, Bella, que você está sonsa? — Jasper arreliou letárgico.

—Eu não estou sonsa. — defendi carinhosa e deitei ao lado dele, no lado oposto de Alice.

Acariciei o cabelo dele e não olhei Edward. Alice também o acariciava.

—Morre de inveja, Edward. Elas me mimam. Duas gostosas me alisando! — zombou, olhou para Alice e sorriu triste. —Mas você está melhor que eu. Pelo menos uma das gostosas aqui é sua marmita, .

—Ai, Jasper, que horror. Me respeita. — Fingi recato.

—Pare de frescura, Bella. Estão quase casando e fica dando uma de cabaço. — Jasper brincou, ainda arrastando a voz.

—Nós não estamos quase casando, Jasper. — Edward informou frio e direto.

Um silêncio estranho parou no ar.

—Pirou, é? Falta um mês. — Jasper ralhou, levando na brincadeira.

Eu baixei o olhar. O garoto alternou o olhar de Edward para mim. Percebeu o óbvio e balançou a cabeça desaprovando.

—Vocês dois são muito frescos. Só por que podem ficar juntos agem assim. São uns idiotas. — Resmungou irritado e abraçou Alice, que se absteve ao silêncio.

—Boa noite, gente. — Edward saiu, tomando o rumo diferente do meu quarto.

Fiquei mais algum tempo com os dois, deslocada depois da bronca. Voltei ao meu quarto sentindo o vazio e tristeza de sua falta. Horas se passaram. Rolei na cama inquieta e ansiosa. Não iria conseguir dormir. De madrugada, levantei, deixei o quarto e parei no corredor em frente ao quarto de hóspedes que tinha a porta fechada.

Encostei-me à parede e me perguntei por que eu não parava de atormentá-lo e o deixava seguir em frente. Era egoísmo não lhe dar explicações e deixá-lo sofrendo no limbo. Antes que eu desistisse e voltasse ao meu quarto, a resposta para não deixá-lo em paz acendeu-se como um refletor: por que eu o amo e não vou desistir dele.

Determinada, girei a maçaneta e encontrei-a destrancada. Entrei em silêncio, tentando habituar meus olhos a enxergar no escuro e tranquei a porta. Ele estava deitado de costas para porta. Deitei na cama atrás dele, acariciei seu braço e encostei meu rosto na nuca, aspirando o perfume delicioso de sua pele. Ele estremeceu. Estava acordado.

—O que é, Bella? — sussurrou sério, sem se mover.

—Por que está assim? — apertei os dedos em suas costelas e beijei seu ombro.

—Assim como?

—Triste.

Ele mudou na cama e colocou os braços atrás da cabeça, fitando o teto.

—Estou deslocado.

—Aqui é o seu lar. — Coloquei meia perna sobre ele e deitei em seu peito, a mão explorando-o. Ele suspirou.

—Vai para o seu quarto, vai. — Ele pediu baixo.

—Vamos para o nosso quarto.

—Não está existindo nós, Bella. — lamentou amargo.

Sentei na cama e encarei-o.

—O que aconteceu com você de ontem para hoje?

Ele calou-se distante, indeciso em falar. O silêncio ampliou entre nós. Ele parecia disposto a me ignorar. Registrei meu erro em ter ido. Nossa situação incerta o machucava talvez mais que o término.

Levantei resignada e caminhei desiludida e infeliz para porta. Antes de tocar o trinco, senti seus braços envolver minha cintura num aperto seguro por trás.

—Por que não me buscou no aeroporto? — cobrou baixinho, o nariz em meu pescoço.

Fechei os olhos e suspirei deliciada com os arrepios.

—Porque eu precisava conversar com Brandon. — justifiquei baixinho.

—Hmmm, seria invasivo perguntar o quê? — sondou, o nariz migrando para orelha, a boca mordiscando. Apertou-me contra ele. Meu corpo estava faminto e contraiu-se ao senti-lo rígido em minhas costas. Tremores e correntes elétricas percorreram minha espinha.

—Era... Sobre você. — revelei entrecortado. Ofeguei ao ter sua língua inspecionando minha orelha.

—Sobre mim? — desfez o laço do meu robe, sedutor. O tecido deslizou pelos braços. Edward beijou meu ombro. Minhas pernas perderam forças ao sentir sua mão subindo a camisola até a coxa e ser puxada contra ele, enfatizando sua excitação. Se eu quisesse fugir, teria que ser agora. Essa era a mensagem.

—Sobre você... Eu não queria, eh, te deixar aqui amanhã para ir à empresa e, hmmm, aproveitei para adiantar... — expliquei entrecortado. Ele tinha inserido os dedos sobre a calcinha e acariciava a virilha. —Fiz mal em não ter ido? — empurrei em sua mão. Ele acariciou suavemente minha região íntima. Gemi e deitei a nuca em seu ombro, perdida em sensações deliciosas.

—Foi péssimo. — ralhou, mordiscando meu ombro. Segurou a barra da camisola e a passou por minha cabeça. A mão livre ocupou-se em meus seios soltos, apertando-os. —Bella... — chiou entre dentes e mordeu minha orelha. Suas mãos continuaram suaves, me desenhando com os dedos. —Desculpe minha atitude no bar. — Sussurrou rouco. Minhas coxas tremiam a cada incentivo no local que eu precisava. No pontinho tenso. —Eu estava com ciúme... insegurança.

O desejo acumulado fervia no meu sangue. A saudade, falta e química irresistível intensificava as sensações. Eu girei, enlacei seu pescoço e ofereci meus lábios. Ele encostou a boca molhada na minha, respirando com dificuldade, tomou meu lábio inferior e desceu mordiscando o queixo. Uma mão segurou minha cintura e outra minha nuca, se emaranhando em meus cabelos. Ele parecia comedido, tentando se controlar. Eu me senti privada e torturada. Meu corpo o necessitava. Eu tinha que tomar alguma atitude.

Desci com a mão por sua barriga, anunciando o que eu iria fazer. Ele ofegou indefeso quando moldei minha mão em sua forma, por cima do short. Sua mão se apertou em minha nuca, eu apertei em volta dele. Ele me olhou com olhos fervendo e atacou meus lábios com fome, inserindo a língua voluptuosamente. Eu entrei com a mão no short e segurei-o na mão, libertando-o. O beijo tornou-se mais molhado, exigente, com pequenas mordidas. Seu descontrole era claro. Ele afastou-se dos lábios e apoderou-se dos meus seios, possessivo, segurando os dois nas mãos, sugando desesperado. Eu continuei acariciando-o, movendo a mão para cima e baixo.

—Bella... Não faz isso comigo... — Gemeu. —Eu quero você. — implorou desamparado, chupou forte o bico e arqueei oferecida.

Atordoada de prazer, forcei-o a andar para trás até que nos encostássemo-nos à parede.

—Eu também quero você. — assegurei arfante.

Ele inverteu as posições e encostou-me à parede, soltando um gemido abafado ao receber a insistente massagem. Ele me fez soltá-lo ao ajoelhar-se, e espasmos correram meu corpo ao ter sua boca descendo por minha barriga, lambendo, passando as mãos em adoração.

—Eu não posso... — Sua boca negou, mas a mesma desobedeceu e continuou mordiscando minha cintura. Desceu lentamente a calcinha, beijando coxa. Eu suspirei de expectativa, ele entreabriu minhas pernas e me beijou intimamente, na área recém depilada, beijos molhados e de boca aberta. Eu tremi dos pés a cabeça. Ele inseriu um dedo, posicionou meu clitóris em sua boca e sugou, lambeu, empurrou, provocou. Era o céu sua língua quente movendo-se inquieta.

Depois de tantos estímulos frustrados desde quarta, não demorou quase nada para que por todo o meu corpo passasse um tremor e ondas de prazer contraíssem meu ventre. Tudo rodou e transformou-se em espasmos, calor, formigamento. Sua língua jamais parou. Ofeguei compulsiva, gemi e todos os meus sentidos foram invadidos por êxtase e torpor. O mais rápido êxtase que eu já alcancei.

Ele incentivou-me até que eu me acalmasse e voltou aos meus lábios com beijos molhados, famintos. Parecia fora de si. Sem perder tempo, baixei sua bermuda e deslizei a boca sensualmente em seu tórax, abdômen, a mão novamente agarrada a ele.

—Não precisa... — alertou, mas prendeu meu cabelo quando movi dramaticamente a boca para o centro. Apoiei-me no joelho, rodeei a língua na ponta e trouxe ao fundo da garganta. Ele jogou a cabeça para trás extasiado e pulsou em minha boca. Eu suguei forte, tirando e pondo da boca com cadência. Senti seu olhar apreciador e aprovador. Ele acariciou minha bochecha, olhando-me com expressão reverencial.

Puxou o ar nos dentes e murmurou palavras desconexas, ora dizendo não, ora chamando meu nome, ora dizendo assim, por favor. E moveu-se em minha boca, deliciado. Isso me incentivava a sorver tudo, lamber.

—Para... — murmurou baixinho e se estremeceu, ofegando pesado. Mas eu não parei. Rodeei a língua na haste e acariciei ousadamente embaixo. —Droga, Bella, para! — Pediu impaciente e segurou minha cabeça, me restringindo de continuar.

Ele respirou fundo, de olhos fechados, buscando domínio, afastou-se de minha boca e me forçou a levantar, colando os nossos corpos desnudos e quentes. Seu corpo não saciado vibrava entre nós.

—Eu quero você. Sou viciado. — Ele declarou suplicante.

—Sim. — ofereci e puxei sua mão, mostrando disposição em ir para cama.

Ele não se moveu. Continuou ofegando em meu ombro.

—E depois? Como suprir minhas doses dependentes? — Pressionou, as duas mãos em meus seios e a boca persuadindo-me no pescoço.

A pergunta vagou na periferia da minha consciência. Ele queria saber se esta noite mudaria algo e se eu garantiria a volta.

—Vamos viver o hoje.

—Bella... — lamentou entrecortado, ainda me beijando. Parecia uma rendição ao conflito interno.

Envolvi os braços em seu pescoço e forcei o braço. Ele me ergueu do chão e pressionou-me contra a parede. Entrelacei as pernas em sua cintura e cobri seus lábios. Empurrei o quadril convidando-o, tentando-o. Um gemido rouco escapou dele, ele posicionou-se e deslizou para dentro de mim, num movimento forte e preciso. Estiquei-me e gemi em sua boca. Uma sensação de completude me envolveu, de que tudo estava no devido lugar.

Ele moveu-se para frente e trás, fazendo com que vibrações tremessem em meu ventre. A falta que sentia fazia tudo rodar. Um próximo clímax construía-se, eu dava tudo de mim, o corpo cravado fortemente na parede. Tudo se tornou cores, intensidade, sensações, prazer. Ele me desencostou da parede, acendeu a luz e sentou na cama, sem nos desconectar.

—Conduz. Mostre que é minha dona. — incentivou com um sorriso e me beijou. Apoiei os pés na cama e subi e desci nele. Ele apossou-se de meus seios, meu corpo arqueava com vida própria, como se sua boca fosse pequenos choques. Nada explicava aquilo, estávamos presos em uma aura de prazer pleno. O tempo e o espaço deveriam não existir, até que fossemos consumidos e saciados por essa doce paixão.

Movi mais rápido quando ele desceu sua mão e me incentivou, ofeguei compulsivamente e cravei minhas unhas em suas costas, sentindo o meu cérebro entorpecer por um o novo e aterrador orgasmo. Ele arfou ao ver minha agitação, apertou meu quadril forte e se liberou junto comigo, murmurando 'amo você'.

Deitei sobre ele e esperei nossas respirações se acalmarem. Não havia palavras para serem ditas, nem cobrança, arrependimento, culpa... Simplesmente ficamos calados, extasiados e completos.

Eu beijei e acariciei seu peito. Ele tinha uma mão em meu cabelo e outra nas minhas costas, desenhando minha espinha com os dedos.

—Seria a nossa comemoração de um mês para o casamento. — Ele lembrou baixinho, uma reflexão dolorida. Eu não respondi, mesmo que as respostas faltassem pular para fora da minha boca pedindo que ele esquecesse tudo, que colocasse a aliança de volta em meu dedo e que mantivesse a data do casamento. Queria dizer e acreditar que enfrentaríamos tudo juntos e que meu pai não deixaria que nada acontecesse com a liberdade dele.

Queria...

Soprei o desejo de revelar ao lembrar que não era só a liberdade dele que estava em jogo.

O fim de semana passou rápido. Amanhecemos nus e abraçados no sábado, mas preferimos não conversar sobre o assunto. O clima voltou novamente a ser cauteloso. As palavras que ele queria ouvir, eu ainda não podia falar.

Saímos bastante, pois eu não queria transformar o nosso fim de semana em frenético sexo trancados no quarto. Fizemos vários programas antigos. Dormimos à tarde no parque, andamos de patins, fomos ao cinema.

Ele permaneceu dormindo no quarto de hóspedes, mas no sábado e domingo dormi com ele de novo - bem vestida com meus pijamas longos.

O assunto sobre nós dois não foi abordado pela nossa família, mesmo meu pai tendo comunicado oficialmente o rompimento do noivado. Ninguém se intrometeu.

Edward

O fim de semana resultou duas situações. Abrandou a saudade, todavia, fui desgastado emocionalmente. O olhar preocupado de minha mãe me perturbou. Não me permiti ficar só com ela. Se eu permitisse que ela me consolasse, iria desabar. Eu evitei conversar com alguém que não fosse Carlisle ou Bella, assim não teria que responder perguntas e questionamentos que eu mesmo não poderia responder.

Decolei de Seattle segunda pela manhã, no mesmo horário que Bella voltou à Califórnia. Ela não quis voltar ontem com Emmett de carro, preferiu passar mais um tempo comigo e voltar hoje. O único contratempo foi ter perdido aula pela manhã. Algumas atitudes suas me davam um pouco de esperança.

Depois de adiantar a rotina no Capitólio, imprimi o discurso que preparei para o senador e desci para a sessão legislativa para acompanhá-lo no plenário, onde o encontraria.

—Edward, já decidiu mudar de lado? — O senador Feinstein, pai da Sô, perguntou e bateu no meu ombro ao passar por mim no corredor do plenário.

—Ainda não, senador. — Sorri desconcertado. Ele não perdia uma oportunidade de me convidar sempre que o senador Evans estava longe.

—Você tem que jogar no time dos ganhadores. — Ele sorriu.

—E quem é o ganhador aqui, Feinstein? — A voz do senador Evans soou forte atrás de mim.

—O ganhador sou eu e o traidor é você, Jonathan. — O senador Feinstein espetou insolente. O senador Evans avançou um passo ameaçador. Eles sempre se atacavam.

—Senhores, aqui não é a escola onde vocês brigavam por meninas. Comportem-se. A imprensa está aqui. — O presidente da Casa chamou a atenção dos dois ao presenciar a cena.

—Vossa excelência me desculpe. — O senador Evans fez um floreio irônico. Feinstein deu as costas.

Balancei a cabeça atordoado por ter sido o centro da discussão. Os assessores que presenciaram a cena olharam-me com censura. Pelas horas seguintes, fiquei em isolamento. Assisti as deliberações impaciente, sentado na sala de vidro dos assessores. Os assuntos abordados no plenário que tanto me interessavam, deixaram-me entediado. Meus pensamentos estavam em Bella. Ainda que algo estivesse entre nós, ela era meu local de abrigo e calma.

Ao término do meu horário, voltei ao gabinete e encontrei Ryan atrás de minha mesa.

—O que está fazendo aqui? — perguntei surpreso. Ele combinou de vir somente às sextas

—Saí mais cedo da Universidade e vim matar o tempo aqui. — explicou compenetrado com algo que ele lia. —Edward, me fala sobre esse documento aqui. — Ele apontou para um documento no meu computador. Eu inclinei-me para ler.

—É umas doações que seu pai faz do partido para instituições. James me passa as entidades, eu assino e depois o senador assina. Por quê?

—Você já verificou se essas entidades existem mesmo? — ponderou, sério.

—Não. Essas doações aconteciam antes mesmo de eu trabalhar aqui, por isso não averiguei. — justifiquei tranquilo.

—Hmmm... O James, é? — refletiu. Ryan me surpreendia com o seu interesse na rotina do gabinete. Agia como um auditor. —Está lembrado do nosso compromisso hoje à noite, ? — lembrou casual.

—Eu não posso ir. Tenho uns artigos para ler. — tentei escapar com sutileza.

—Você não tem que ler nada! — censurou zombeteiro. —Você vai, sim. Não vou te deixar ficar enfiado naquele cafofo mofado, não.

Olhei-o sério, disposto a convencê-lo do despropósito que era esse jantar.

—Ryan, não tem sentido eu ir à casa da sua irmã. — elucidei. —Eu não tenho assunto com ela. Nem a Sô se dá bem com ela, o que nós vamos fazer lá? — argumentei decidido.

—Sete horas eu passo na universidade para te pegar. — sentenciou sem me dar chance de negar, deu as costas e deixou a sala rindo.

De frente ao espelho do dormitório, perguntei-me por que deixei Ryan me persuadir. Talvez eu tivesse um sentimento de dívida com ele, afinal. Pois sem ele minha vida aqui na Capital teria sido mais complicada. Se eu morava sozinho no quarto da universidade, foi porque ele não avisou na Direção do Campus que possuía um apartamento. Foi ele quem me apresentou seu pai. Todas as férias que Bella veio para capital, nós ficamos no apê dele. Portanto minha dívida com ele era quase eterna. Talvez por isso em senti na obrigação de ir.

Ele me pegou no horário marcado, já com a Sophia no carro e nos dirigimos ao lado leste de Airlington, onde Ashley residia. Ela nos recebeu na porta. Ryan entrou direto para a cozinha e abraçou a cozinheira. Sentei no sofá e Ashley serviu um drinque de tomate. Era a entrada para comida mexicana.

—Vocês sabiam que a Jô é cozinheira mexicana de mão cheia, mas tem que se conformar em cortar alface para Ashley? — gracejou Ryan e apertou a cintura da irmã. —Minha irmã é anoréxica.

—Mentira. — negou sorridente. Foi a primeira vez que vi os gêmeos em clima de paz.

—Ashley, posso usar o seu computador para ver um e-mail que um colega de classe ficou de me mandar? — Ryan pediu. Ela assentiu com um dar de ombros. Ele sumiu pelo corredor.

Ashley conversou receptiva comigo e com Sophia, tendo a precaução de introduzir assuntos que nos incluísse aos dois. Não ficamos deslocados.

Ryan voltou do quarto pensativo e sério. Notei que sua empolgação inicial arrefeceu após ler algum e-mail. O jantar foi servido. Ryan quis ir embora rápido, eu agradeci mentalmente. Porém, sua irmã não pareceu satisfeita. Acompanhou-nos até o térreo chateada.

—Que tal sairmos quarta? — Ela propôs a Ryan.

a fim, Edward? — Ryan me incluiu. Parecia curioso com minha resposta.

—Não posso porque quarta eu... — antes de concluir onde ir na quarta, neguei a assertiva. Não devia forçar muito Bella, ainda mais agora que Emmett e Rosalie tinham consciência de nosso término. —Eu tenho que estudar. — Foi o que respondi.

No decorrer da semana eu tive pouco contato com Bella. Segunda ela me ligou logo que chegou a Seattle. Terça ligou cedo e pediu distante que eu não fosse à Califórnia no próximo fim de semana. A partir daí, não tivemos mais contato. Ela não ficou on-line, nem ligou. Foi difícil resistir à tentação de ligar ou ir vê-la.

Sexta-feira, Ryan foi ao Capitólio, mas foi embora rápido, frustrado com algo. No fim da tarde, apoiei a testa no punho sobre minha mesa, sem rumo e solitário e tentei me distrair olhando fotos de Bella para a revista de noiva no meu pc. James entrou e sentou-se em minha frente.

—Vai para a Califórnia hoje, chefinho? — especulou com um sorriso cínico.

—Não. — neguei inacessível. Ele não afetaria mais meu humor.

—Estamos saindo para comemorar o aniversário da Lian, a fim de ir? Vai bastante gente aqui da Casa. — Convidou amistoso. Eu franzi o cenho desconfiado.

—Posso ver. — concedi incerto. Talvez não fosse má idéia me distrair, ter oportunidade de companhia e alguma conversa.

—Nove horas então. Pega o endereço com a Ashley.

Bella

Nada estava fácil em relação aos meus planos. Ryan tentou descobrir algo, porém não conseguiu pistas ou provas. A notícia me abateu e me tirou parte das forças. Adiei ver Edward. Quanto mais eu me mantivesse longe dele, mais eu iria resguardá-lo. Todos os dias resisti à vontade de ficar on line, reprimindo a saudade.

Algo se perdia entre nós. Parecíamos fora de sintonia. Todos os atos, ainda que inconscientes, magoavam muito. As atitudes afetavam mais que o normal e sentimentos e sensações eram intensificados. Sabia que não era compreensível, mas fiquei magoada por ele não ter insistido em me ver. E como ele conformou-se sem se impor, eu resolvi ocupar o fim de semana voando para Alemanha com Alice e Jéssica para o aniversário da minha mãe no sábado.

Depois de longas horas de voo em que senti mal-estar e enjôo, encontramos minha mãe no portão principal. Um homem forte, de uns quarenta anos a acompanhava. Fazia a classe dos bonitões. Não como o meu pai, óbvio.

Abraçamos minha mãe e cumprimentamos o rapaz que a acompanhava. Ele agiu estranhamente. Manteve-se à distância. Seu carro nos esperava no estacionamento e nos apertamos no banco de trás.

—Quem é? — Sibilei no ouvido da Alice logo que ele deu partida.

—É o namorado da minha mãe, Philip. Parece que namoram há muitos anos. — Respondeu baixinho. Olhei para ele pelo retrovisor e sua sobrancelha e nariz me pareceram familiares.

—Ele é o mesmo que estava com ela na sua festa de quinze anos, Bella. — Jéssica percebeu meus olhos nele e cochichou em meu ouvido.

—Eu nunca o vi.

—Lembra que meu pai disse que minha mãe não ia ficar lá em casa no seu aniversário porque ela estava com namorado? Era com ele que ela estava. Eu o conheci porque naquele dia eu fui ao hotel vê-la.

—Ah...

A cidade estava coberta de gelo. Encostei a cabeça no vidro e pensei em Edward. Meu anjinho. Que saudade. Uma freada brusca me alarmou. O som de pneus derrapando me fez virar o rosto em câmera lenta para Alice. Seus olhos arregalaram e um grito fino saiu de sua garganta.

Um barulho ensurdecedor, fora do carro, suprimiu o som do grito, e meu corpo foi sacudido para frente e para trás. Algo bateu em minha cabeça e mergulhei na escuridão.

Edward

O som do telefone tocou alto. Acordei tonto e enjoado por causa do tanto de bebida que ingeri na noite passada. O som estridente tinia como um sino no fundo da minha mente. Estiquei a mão cegamente e o peguei na mesinha.

—Alô. — Atendi rouco.

—Edward? — chamou minha mãe, aflita.

—Sim. — Sentei na cama, alarmado, e esfreguei os olhos. A cabeça latejou. A primeira pessoa que me veio à cabeça foi Jasper. Algo aconteceu, intui.

—Alguém te ligou? — examinou.

—Não. — respirei fundo, esperando pelo pior.

—Er, as meninas viajaram para a Alemanha e... Sofreram um acidente de carro. — noticiou sem preâmbulos.

Abri a boca em choque. Demorou segundos para ter forças de perguntar.

—Quando foi? Como elas estão? O que aconteceu? — Atropelei em palavras. A ansiedade e temor varreram meu corpo, disparando medo opressivo em meu peito.

—Eu não sei ainda. Carlisle está desesperado por notícias. Parece que encontraram os documentos delas no local do acidente e divulgaram as fotos do carro na internet. Mas ninguém sabe informar nada, só que tem vítima fatal.

Tudo girou ao meu redor ao digerir a última parte. O medo cresceu como se unhas rasgassem meu estômago. Minhas mãos tremeram. Eu levantei, cambaleei até o banheiro e joguei água no rosto, lutando contra o pânico e as náuseas. Respirei lentamente, controlando-me e empurrando a sensação amarga na garganta.

—Mãe, assim que tiver notícias mande o endereço por mensagem pra mim. Vou pegar o próximo vôo pra lá. — Pedi, sentei na cama e iniciei o computador.

—Você não pode sair assim sem rumo, filho. — repreendeu. Eu não tinha paciência para censuras.

—Elas estão na Alemanha, não estão? Eu não vou esperar sentado, Esme! — retruquei com os nervos uma pilha.

—Ok. Vou me informar com Carl e te mando mensagem. Fique calmo. — pediu compreensiva. Não me console, mãe, por favor. Já está muito difícil sem piedade. Ler piedade me fará cair.

Suspirei infeliz.

—Desculpe por ter me exaltado e obrigado por ter ligado.

Não tinha vôos pela manhã para Alemanha, só as dezesseis, informava o site. Fechei o punho à beira de estress e lembrei que Bella disse que sua mãe morava em Munique. A Áustria ficaria a poucos quilômetros. Encontrei um vôo para Áustria em uma hora. Iniciei a compra e vi a previsão do tempo. Nevava na Europa. Enquanto o processo de compra se concluía, joguei apressadamente roupas dentro da minha mala. Finalizei a compra, fiz o check in e tomei um banho rápido. Enquanto me vestia, liguei para um táxi, ingeri um remédio para dor de cabeça, organizei meus documentos, fechei a mala e corri para o estacionamento do campus.

Embarquei às oito horas da manhã, ansioso. A viagem demoraria em média dez horas até o destino. Tomei um remédio para enjôo, por causa da ressaca, e recostei minha cabeça ao banco rezando pra que elas estivessem bem.

'Bella, põe o cinto'. Ela sorriu travessa e se aproximou do meu banco, depositando beijos em meu rosto.

'Eu quero ficar perto de você'. Sorriu suavemente e abraçou meus ombros, mordiscando a minha orelha.

'É perigoso, amor'. Insisti mais uma vez, a mão em sua nuca. Ela continuou com beijinhos molhados próximo a minha boca. Sorri e balancei a cabeça desaprovando, mas permiti.

O carro da frente freou bruscamente. Fiquei alarmado com o barulho e desviei abruptamente, perdendo o controle do carro. A traseira rodou. Tudo aconteceu num borrão. Bella sem cinto, carro conversível, o controle fora de minhas mãos, o carro girando, velocidade... Os olhos, os olhos dela em mim... O carro capotou uma... O corpo dela foi jogado para fora... 'NÃO' O som não saiu.

Duas... Meu corpo jogado para frente e para trás.

'Não!'

—Senhor! — Ouvi o som distante. Meus músculos retesaram-se. Alguém tocou meu ombro e abri os olhos. —O senhor está bem? — questionou a comissária de bordo preocupada.

Sentei direito e passei a mão em minha testa, percebendo que suava frio. A ansiedade e angústia ricocheteavam em meu peito, fazendo-me hiperventilar.

—Sim. Obrigado. — arfei aflito.

Tomei a água que ela trouxe e recostei minha cabeça ao vidro, olhando o relógio. Duas horas para chegar ao destino.

No aeroporto de Viena, Áustria, meu celular vibrou alertando uma mensagem. Enquanto lia o endereço do hospital, cruzei o pátio do aeroporto e avistei os aviões particulares. Contratei um avião fretado e voamos para Munique.

Em cada minuto de dúvida a dor era intensificada. Eu não queria pensar no que pudesse ter acontecido. Pensar, fazia os músculos do estômago se apertarem. Tentei ligar para Esme e para Carlisle, mas em todo o tempo caía na caixa postal.

O vôo demorou por volta de quarenta minutos. Devido ao fuso horário, se nos EUA eram sete horas, em Munique já passava da meia noite. Peguei um táxi e mostrei o endereço. O taxista era um espanhol. Perguntei-lhe se ele ouviu falar do acidente. Ele disse que sim e que as vítimas estavam gravemente feridas, uma fatal. A informação piorou meu estado de nervos e temor.

—Bella Cullen. — Tentei mais uma vez com a recepcionista, mas ela me olhava perdida. —Ela está neste hospital. Eu preciso saber o quarto. Cullen, Bella Cullen.

Uma recepcionista compunha o quadro de atendimento naquela madrugada. Ela não falava inglês. O que dificultou a comunicação e me levava ao limite. Maldita a hora que eu não entrei em uma aula de alemão! Tentei francês, italiano, espanhol, mas nada.

—B.E.L.L.A C.U.L.L.E.N. — Soletrei, depois escrevi num papel e bati a mão no balcão, soltando imprecações em quatro línguas.

Nunca pensei que me transformaria num ser primitivo diante da pouca inteligência e incompetência das pessoas. Quase vinte e dois anos lutando por equilíbrio e hoje me encontrava um desestabilizado emocional. A falta de notícias, o desinteresse da atendente, o receio pelo pior, a alimentação irregular durante o dia me deixou um caos. Maldita obtusa filha da p...

Suspirei e fechei os olhos, reprimindo o pânico. Falhei. Coloquei o dedo na testa e contei até dez, antes de me virar para a atendente de novo.

—Moça, você não vai fazer nada? — perguntei entre dentes. Ela se alarmou e pegou um telefone. A culpa não era sua e quase me senti mal, mas o pouco caso dela e o meu estado de preocupação não permitiam me desculpar.

—ist eine Sicherheit haben hier, eine nervöse hier* . — disse ao telefone, os olhos defensivamente desviados de mim. (Tem como mandar um segurança aqui? Tem um rapaz muito nervoso aqui.)

Peguei meu celular e tentei ligar de novo para a minha mãe.

—Er ist mit mir, Mädchen. Es ist mein Bräutigam. — Uma voz baixa e suave se pronunciou. Pedi uma batida e olhei na direção a voz. (Ele está comigo, moça. É o meu noivo.)

Alivio instantâneo caiu sobre meus ombros. Foi como encontrar o sol na escuridão. Gratidão brotou em meu coração. Senti-me agraciado. Enfim, eu pude voltar a respirar.

—Ist gelöst. — (Está resolvido) A moça desligou o telefone.

—Erforderlich. — (Obrigada.) Bella respondeu e caminhou até mim.

Eu não tinha palavras. Meus olhos estavam úmidos. Minhas mãos tremiam. Eu inspecionei-a freneticamente, meus olhos fazendo um inventário compulsivo na cabeça, rosto, braços, mãos.

—Oi. — Ela sorriu tímida. Eu rompi a distância. Registrei alarmado uma mancha roxa do lado direito do seu rosto e uma tala em sua mão direita.

—Oi, minha vida, meu coração. — murmurei emocionado e abracei-a cuidadosamente. —Não me dá mais um susto desses. — Beijei todos os cantos do seu rosto, fechei os olhos e mergulhei o rosto em seu cabelo, o corpo todo trêmulo de tensão.

Abraçamo-nos com as respirações alteradas. Ela soluçou, levantei o seu rosto e lágrimas corriam de seus olhos.

—O que foi? Você está bem? — Procurei ansioso por mais machucados, mas aparentemente ela estava bem.

—Minha mãe... — Ela começou, encostou o rosto em minha camisa e chorou. Acariciei suas costas para tranqüilizá-la, consolando-a.

—E as meninas? — examinei apreensivo.

—A Jéssica cortou o pulso no vidro e perdeu muito sangue. Alice está com ela... Tinha mais uma pessoa... — enxugou o rosto e respirou fundo.

—E como ela está?

—Em estado grave... Vamos voltar para sala da Jéssica. Eu só saí por que ouvi você falando alto meu nome. — explicou. Eu beijei suas pálpebras.

—Eu tive tanto medo... — murmurei em seu ouvido, abraçando-a forte.

—Eu te amo. Obrigada por te vindo... Eu precisava de você. — declarou simplesmente, olhando em meu rosto com novas lágrimas nos olhos. Meu coração se encheu e beijei seus lábios.

—Não foi de graça. — Descontraí e limpei seus olhos com o polegar. —Aliás, gastei muito dinheiro no cartão de crédito. Mês que vem você tem uma conta imensa para pagar, já que todo o dinheiro que eu ganho vai para suas mãos. — acentuei.

Jéssica olhava vidrada para porta, o soro na intravenosa. Alice estava sentada ao seu lado, a cabeça sobre os braços numa mesinha. Sentamos num sofá na entrada do quarto, Bella abraçou-me e deitou em meu peito.

—Bella, é difícil, mas temos que nos conformar. — Jéssica disse sonolenta. —Ela lesionou a medula na C3. Se ela sobrevivesse, ia ter morte em vida. Minha mãe não iria sobreviver sem a dança dela.

Alice soluçou e Bella voltou a chorar desconsolada.

—O pai de vocês está em estado grave. —uma enfermeira informou ao entrar. — Ele perfurou o pulmão, baço, e tem risco de morte.

—Ele não é meu pai. Só é pai desses dois aí. — Jéssica quase dormia, mas apontou o dedo em nossa direção.

—Alguém quer ir visitar ele? É provável que não tenham outra oportunidade. — A enfermeira ofereceu.

—Nós nem o conhecemos. — Bella resmungou baixinho.

—Ele era o namorado da mãe. Vão ver ele. — Jéssica balbuciou indolente.

—Vamos lá, Edward. — Bella propôs. Eu não me opus. O homem tinha aparelhos e mangueiras no rosto e corpo. Alice e Bella se aproximaram. Eu fiquei mais atrás.

—Philipe... Consegue ouvir a gente? — Alice perguntou melancólica.

—Oi, filha. — Ele atendeu quase sem sons. —Eu vou morrer... Chama o padre para mim. — pediu fazendo barulhos estranhos de engasgos.

—Não vai... Você vai ficar bem. — Alice disse sem certeza.

—Vou não... Eu sei que vou morrer. Eu tenho tantos pecados... Tantos erros... Tenho filhos e vou morrer sozinho. — lamentou e tossiu.

Carlisle chegou à sala e pareceu insatisfeito ao presenciar Alice conversando com o namorado da Rennee. Desloquei-me ao seu encontro.

—Tudo bem, Carlisle? Chegou faz tempo?

—Tem duas horas. Eu estava movimentando a documentação. — explicou baixo e pesaroso.

—Me perdoa, Deus... — O moço sobre a maca parecia delirar. —...Me perdoa, Rosalie...Me perdoa, filho...

Carlisle olhou cauteloso para a maca, como se quisesse calá-lo. Parou ao lado de Alice protetoramente.

—Ela não me deixava ir ver os meus filhos... — lamentou. —Esme, eu não queria ser o canalha que eu fui... —afogou-se em novos engasgos.

Franzi o cenho cheio de suspeita. Olhei para Bella em dúvida, ela segurou o olhar e assentiu, comunicando o que percebeu numa consciência muda que só existia entre nós dois. Atravessei o quarto e observei o prontuário dele exposto ao lado da maca.

Philipe Hale, este era seu nome.

Assentou devagar e rejeitei emocionalmente a descoberta. Carlisle pôs a mão sobre meu ombro solidário.

—É isso mesmo. — garantiu baixo.

Lembrei o que Jéssica disse no outro quarto quando apontou em direção a mim e Bella.

—A Bella... também? — chiei trêmulo e horrorizado. Ela me observava cautelosa do outro canto do quarto.

—Não! — Ciciou enérgico.

Olhei aliviado e confuso para Alice e lembrei-me do dia em que conheci Bella.

'...Minha mãe não mora com a gente. Eles se separaram assim que eu nasci. Mas eles continuaram se vendo porque minha irmã caçula nasceu dois anos depois que eles se separaram.'

Olhei de volta a Carlisle questionador. Ele assentiu brevemente. Aproximei da cama e observei o exânime agonizante. Ele gemia baixo. Não registrei nenhum sentimento, a não ser pena pelo modo como ele terminava sua vida. Ele tinha os olhos da cor dos olhos da Alice. Graças a Deus eu não tinha nenhuma característica dele, senão do meu avô e mãe.

Afastei-me da cama e chamei silenciosamente Carlisle ao corredor.

—Por que Jéssica sabia? — questionei baixo.

—Ela gosta de bisbilhotar. Fica recolhendo DNA's pela casa e fazendo comparações. — sorriu fraco. —Aquele jeito voado dela é uma máscara para esconder sua curiosidade. Ela disse que sabia do Jasper desde dois anos atrás quando ela foi para a Califórnia com ele fazer exames. Depois da revelação da minha paternidade de Jasper ela veio me questionar por que eu não falava a Alice que não era seu pai... Depois ela cruzou o DNA da Alice com o da Rosalie e descobriu que elas eram irmãs, então me pressionou. Eu tive que contar tudo. Por isso ela sabia do Phil. — Deliberou pausado e culpado.

—Você precisa falar para Alice. — Aconselhei, olhando firme em seus olhos.

—Agora não.

—Ela precisa saber. Não vai significar nada para ela, assim como não significou para mim.

Ele me olhou indeciso por segundos, depois deu alguns passos até elas na porta do quarto.

—Alice, você pode ir lá fora comigo? —convidou. Ela assentiu. Ele a abraçou e seguiu pelo corredor.

—Quer comer alguma coisa? — pus o braço sobre os ombros de Bella e caminhamos logo atrás deles.

—Quero. Tem uma lanchonete lá fora. — concordou. —Depois vamos nos hospedar em algum hotel. Eu preciso dormir. — a exaustão era clara no seu rosto.

—Tudo bem.

Sentamos num canto da lanchonete. Pedimos mini-pizza e Coca.

—Eu suspeitei ontem que ele fosse seu pai. —contou ela. — Lamento pela situação.

Peguei sua mão esquerda e beijei.

—Eu lamento por ele por estar morrendo, porém não há sentimentos. Não tenho imagem dele como pai. Nem lembrava dele. Há mais de quinze anos não o via. A imagem mais próxima que eu tenho de pai hoje é seu pai. — enfatizei e acariciei sua bocheche com as costas das mãos. —Eu queria que você sorrisse pra mim. Eu fiquei tão aflito hoje que mereço seus sorrisos. — ofereci pedaços de pizza na sua boca.

—Eu vou melhorar. Ainda está muito recente.

—Por que Alice não machucou? — interroguei só para inserir um assunto. Segurei o canudo da Coca forçando-a tomar.

—Ela estava no meio... Foi tão rápido... O carro rodou e depois eu não vi mais nada. — relatou e novas lágrimas encheram seus olhos. —Eu tive medo.

—Ei, shhh. Eu sei que não está tudo bem, mas, por favor, tente... Eu preciso de você viva para mim... Você sempre foi tão forte. — limpei suas lágrimas, consolando-a.

—Mas eu não sou mais forte... Estou quebrada...— queixou-se e suspirou. —Eu fiquei com medo de perder você, embora eu já esteja te perdendo. Meu Deus, eu só tenho perdido esses dias! —Arfou entre lágrimas. —E eu precisava dizer que te amo, que você é tudo pra mim. — chorou trêmula, desolada. Eu escondi seu rosto sob meu braço, tentando acalmá-la e desvendar suas palavras.

—Eu estou aqui. Você não está me perdendo. Fica calma, vai. Você quer tomar algum remédio ou um chá para dormir? — esfreguei as mãos no seu braço preocupado com suas oscilações de temperamento.

Ela balançou a cabeça em negativa.

—Não. — Respirou fundo. —Eu não vou tomar calmante. Eu quero aproveitar cada segundo com você. Além disso, não vou mais ficar essa Bella melancólica e infeliz. Vou voltar a sorrir e te deixar bem. Eu prometo. — Ela limpou os olhos e se recompôs, obstinada.

—Hmmm, isso vai ser bom. Primeiro você me convida urgentemente para ir para o hotel, agora me diz que vai voltar a ser minha Bella feliz. Valeu a pena ter vindo. — sugeri brincalhão e pisquei. Ela percebeu o tom insinuante e beijou o meu rosto.

—Adoro esse Edward lutador que está aqui. — apontou meu peito. —Você está sendo um mártir em me aguentar... Eu te amo, sabia? — segurou meu rosto entre as mãos e beijou levemente os meus lábios.

—Eu também. — Sorri, esperando a próxima pergunta.

—Você também se ama? — questionou teatral, um brilho nos olhos. Segurei seu rosto em minhas mãos com reverência.

—Não, minha Bella, eu te amo. Você é minhas células, meu sangue, meu coração. Sem você não há vida. Só de ter pensado que existiria um mundo sem você, eu tive vontade de não existir. — declarei solene, salpicando beijos em seus lábios, sentindo paz e sublimidade. —Sabia que você ficou muito sexy falando alemão? —Bajulei. Ela envolveu os braços em meu pescoço e ficamos naquela troca de carinhos. Ela se distraiu momentaneamente dos recentes acontecimentos. Após um tempo, ela fez uma pergunta intrigante.

—Edward... Queria te fazer uma pergunta... — Ela acariciou o meu rosto compenetrada. Eu agucei o olhar, em expectativa. —Você já pensou na hipótese de... Deixar a política, a vida na Capital e ter uma vida simples em Seattle? —investigou hesitante. — Tipo como um diretor na empresa do meu pai?

Continua...

Olá, leitores, confiram meu livro Flor de Lótus. Grande beijo.

Obrigada por ler.