Parte II
Nos dias que se passaram eu ainda não tinha tomado uma decisão definitiva acerca do que fazer da minha vida. Não sabia se continuaria em Lima ou se iria realmente para Nova Iorque, estava indecisa e no meio dessa indecisão me sentia perdida. Se ao menos Santana estivesse ao meu lado para passarmos por todo esse aperto juntas… mas ela não estava e eu tinha que lidar com isso. Talvez eu devesse somente ficar em Lima, arranjaria um emprego, qualquer coisa que pudesse me sustentar por um tempo, poderia aprender qualquer coisa fácil e rápido, e talvez arranjasse um quartinho em alguma pensão… pelo menos até juntar mais dinheiro para poder me manter em Nova Iorque. Eu não era burra e sabia que a vida nunca fora barata em Nova Iorque e embora soubesse que quatro anos tivessem se passado, acreditava que a vida lá deveria estar mais cara ainda e… bom, com muitas pessoas sendo convocadas para lutar na II guerra mundial na Alemanha e deixando suas casas e seus postos de trabalho, não seria tão difícil assim encontrar algo em que pudesse trabalhar para me sustentar.
Na noite de uma sexta-feira, acho que estávamos no mês de Julho, não sabia ao certo, me aconcheguei melhor na parede que nos últimos dias estava sendo minha cama e fechei os olhos lentamente. Senti o desconforto por causa da posição e um gemido de dor escapou de meus lábios quando tentei mudar de posição e me colocar deitada. Fazia um pouco de frio e vez ou outra minha pele se arrepiava. Não consegui dormir logo, então abri os olhos e olhei para o céu. Estava um céu muito bonito e estrelado em Lima. A lua não era cheia, mas mesmo assim o céu estava mais bonito do que nunca, há muito tempo eu não parava para admirar as estrelas. Me lembrei logo do meu colar com o pingente de borboleta. Tirei-o do pescoço e fiquei brincando com o pingente passando-o entre os dedos.
Eu estava brincando com a minha mais nova boneca Stacey quando vi Frannie entrar radiante no nosso quarto. Ela sorria largamente e seus olhos pareciam ter adquirido um brilho novo.
"Ei, porque está assim?" Eu perguntei visivelmente curiosa.
"Eu conheci um garoto." Ela contou sussurrando como se fosse um segredo precioso.
"O quê? Quem?"
"Seu nome é Noah. Ele é tão fofo, Quinnie."
"O quê?" Perguntei outra vez ainda confusa.
"Eu o conheci uns dias atrás quando fui com a mamãe fazer compras na mercearia do Sr. Hummel. Nos vimos de novo hoje e ele me deu esse pingente sabe, e ele me disse uma coisa muito fofa. Acho que estou apaixonada!"
"O quê?" Eu larguei minha boneca e me juntei ao lado dela na cama.
"Olha." Ela tirou o pequeno colar com um pingente de borboleta cravejado de pequeninas pedrinhas azuis do pescoço e pegou minhas mãos depositando-o ali. "Não é lindo?"
"Uhum." Confirmei balançando minha cabeleira loira. Passei o pequeno pingente entre minhas mãozinhas. Ele era muito bonito, era de um tom azul clarinho e tinha esses brilhantes que refletiam a luz do sol que pareciam diamantes.
"Ele disse que me achava linda." Ela disse com os olhos brilhando.
"Mas você é linda Frannie." Eu disse confusa, não entendia como ela poderia estar apaixonada por um garoto que afirmava o óbvio.
"Eu sei Quinnie." Ela riu. "Mas é mais… não sei… acho que me sinto mais linda quando ele diz isso para mim."
"Ok. E o que mais ele disse?"
"Bem, quando a mamãe se distraiu ele me puxou para a seção das ferramentas, a mamãe nunca passa por lá mesmo, então estava seguro. Conversamos um pouco e então ele me beijou." Ela contou radiante.
"Beijou? Como assim? Como papai e mamãe se beijam?" Perguntei curiosa. Ela riu.
"Uhum." Suspirou. "E foi tão bom, Quinnie. Eu senti borboletas no meu estômago."
"Como essa aqui?"
"Uhum, como essa. Então quando nós nos afastamos ele tirou do bolso esse colar e me deu. Quando eu perguntei porque ele estava me dando aquilo se ele só me conhecia há uma semana, ele me disse que quando se gosta de alguém o tempo que você conhece essa pessoa realmente não importa. Depois ele disse que estava me dando uma borboleta porque um dia estava passeando pelo parque e lembrou de mim quando viu uma parada numa árvore. E que eu era como uma borboleta."
"Como uma borboleta?"
"Uhum. Ele disse que uma borboleta passa por várias fases antes da verdadeira transformação, ela nos ensina que tudo na vida é importante e indispensável para alcançar a liberdade e a transformação interior. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso, mas deve significar algo, certo?"
Quando eu acordei já era manhã. Ainda não tinha amanhecido completamente e eu tive a oportunidade de mais uma vez ver o sol nascer. Ao contrário das outras noites, acordei mais leve embora minhas costas estivessem me matando e sentisse que elas iriam se rasgar a qualquer momento por causa da dor. Só Deus sabia o quanto eu precisava de um banho bem quente nesse momento. Fui me lavar e assim que amanheceu completamente me dirigi ao Breadstix. Minhas roupas estavam amarrotadas e o cabelo um pouco sujo de poeira, meus sapatos não estavam em seu melhor estado também. Mas mesmo assim a garçonete que se chamava Sugar me deixou entrar para tomar o meu habitual café com as torradinhas barradas com manteiga. Ela era a garçonete que mais metia assunto comigo embora eu não contasse muito sobre minha vida para ela, muito menos que estive lutando na guerra que estava afundando aos poucos a Europa Ocidental e Oriental. A guerra era impiedosa, era realmente matar para não ser morto e ai daquele que se atrevesse a interferir nos planos dos grandes líderes, os cabeças que comandavam tudo e mal davam as caras na hora de lutarem pelo que diziam acreditar. Os outros é que faziam isso por eles e mesmo assim não sabiam parar e muito menos reconhecer que estavam errados, todos os dias novas pessoas eram convocadas e chamadas para lutar, pessoas inexperientes e que mal sabiam explicar o que era uma arma e o que esta fazia. Mas não cabia a mim julgar quem quer que fosse. Enquanto eu assistia a uma declaração do presidente Franklin Roosevelt no pequeno aparelho televisor pendurado num canto do Breadstix, dizendo que as baixas das tropas americanas no Japão estavam aumentando em valores alarmantes, já não conseguia mais engolir o que restava do meu café e muito menos conseguia deixar de sentir meu estômago embrulhado. Me levantei e saí sem me despedir de Sugar. Minutos depois me sentava encostada na parede onde sempre ficava.
Eu gostava de observar as pessoas, mas hoje realmente não era um bom dia e eu não estava disposta a observar ninguém. Estava distraída quando senti uma figura pequena parar na minha frente e bloquear o sol que me batia na cara.
"Ei Quinn, o que você ainda faz aqui?" Olhei para cima e me deparei com a pequena morena que conhecera a algumas semanas atrás, sorrindo num vestido verde dessa vez com bolinhas brancas e com uma fita verde prendendo seu cabelo. "Quinn?"
"O quê?" Perguntei sem entender por que ela me chamava e agora me olhava preocupada.
"Você está bem? Está sentindo alguma coisa?"
"Eu… n-não, eu…" Gaguejei sem saber o que fazer. Por que ela estava falando comigo?
Então a pequena agachou-se ao meu lado, tomando cuidado com seu vestido para que ele não voasse com o vento. Vi que agarrava sua carteira na frente de seu corpo, não se descuidando mais como ela disse ter feito da outra vez.
"Por que ainda está aqui? Por que está com a mesma roupa que te vi naquele dia? Está mesmo se sentindo bem Quinn?" Ela colocou uma mão na minha testa. E como da outra vez, pude sentir o quão macia e quente ela era mesmo com o vento que soprava. Não notei que usava o mesmo conjunto que usara naquele dia. Na verdade, acho que eu estava um pouco atordoada com as perguntas que ela me fazia sem realmente me dar uma chance de respondê-las.
"Eu… eu estou bem… hum…"
"Rachel."
"Rachel… sim. Eu estou bem, não se preocupe comigo."
"Você está pálida, claro que não está nada bem. Está muito magra também." Eu tentei sorrir. Como é que ela poderia ter notado isso? "Vem comigo." Senti ela me puxar pelo braço.
"O quê?"
"Eu disse vem comigo. Acho que você está mentindo para mim quando diz que está tudo bem e não é como se eu realmente estivesse acreditando em você, então… acho que deveria vir comigo, assim eu posso cuidar de você."
"Mas… mas… mas…" Eu repetia enquanto ela me levantava pelo braço. A vi fazer uma careta e depois olhar de esguelha para mim.
"Que cheiro é esse? Quinn é você?" Ela perguntou fazendo uma careta engraçada.
Eu senti minhas bochechas quentes e olhei em volta para ver se alguém tinha ouvido. Não vi ninguém. Todos estavam preocupados demais com suas coisas para prestar atenção em uma mendiga sendo ajudada por uma morena baixinha.
"Wow! Precisamos tratar disso o quanto antes. Você definitivamente precisa de um banho. Aquelas são suas coisas?" Ela apontou para o meu saco coberto pelo casaco. Eu balancei a cabeça. "Ok, vamos levar suas coisas também."
"Mas você nem me conhece!"
"Claro que eu te conheço! Você é a Quinn, a garota que se arriscou correndo atrás de um pequeno ladrãozinho só para recuperar minha bolsa e se eu bem me lembro, você nem me conhecia também."
"É diferente, ele era só um garoto e qualquer um poderia ter ido atrás dele."
"Verdade, mas o que importa é que você foi atras dele e não foi qualquer um, então eu sinto que te devo isso e quero de alguma forma te ajudar. Só aceite a minha ajuda, ok?" Rachel me olhou e eu pude ver o quão castanho eram seus olhos. Estremeci com a intensidade com que ela me encarava.
"Você nem me conhece." Repeti. Enquanto uma parte de mim queria ir com ela, a outra estava desconfiada, pois nenhuma pessoa que eu conhecia era tão ingênua a ponto de querer levar para casa uma desconhecida, ainda mais se essa desconhecida parecesse uma mendiga que usava as mesmas roupas e estivesse fedendo horrores. "Eu posso ser uma bandida, uma ladra ou… ou… ou, sei lá, querer te fazer mal."
"Nós duas sabemos que você não é nada disso, então pare de tentar me enrolar e pegue suas coisas, você vai comigo para minha casa e ponto final." Rachel me olhou séria e eu arqueei uma sobrancelha com o tom autoritário dela. Logo me lembrei da coronel Sylvester e um arrepio percorreu minha espinha.
"Está certo."
Ela sorriu satisfeita e eu a segui pelas ruas ensolaradas de Lima até avistarmos ao longe uma casa de madeira branca e azul bebê com um jardim enorme e uma cerca de madeira baixinha muito parecida com a da minha velha casa. A casa era muito bonita e parecia possuir dois pisos. Rachel abriu a portinhola e me empurrou para dentro. Eu pisei a grama verde fresquinha e desejei estar descalça para poder sentir melhor o contato da relva com os meus pés, mas antes que eu pudesse desejar mais coisas do tipo, Rachel apareceu ao meu lado e colocou uma de suas mãos na minha cintura, exatamente no local do meu ferimento e apertou um pouco fazendo-me soltar um gemido de dor. Parei no caminho me apoiando no corrimão da escadinha de madeira que levava até uma pequena varanda.
"O que foi? O que aconteceu? Você está bem?" Rachel me olhava preocupada. "Me desculpa, eu… eu não queria te machucar, eu machuquei? Diz algo Quinn! Você está me deixando nervosa."
"Está tudo bem, só senti tonturas. Não se preocupe. Não é nada." Ela ainda me olhava e eu claramente podia ver em seus olhos que ela não acreditou em uma só palavra do que eu disse. "Pode confiar, não estou mentindo." Menti tentando dar a ela um sorriso. "Já estou bem agora, podemos continuar ou você já desistiu de me levar para dentro?" Brinquei tentando assegurar a ela que estava tudo bem.
"Claro que não."
Ela abriu a porta e eu a segui para dentro de casa. Fiquei de pé enquanto ela fechava a porta e se encaminhava para a cozinha. Então ela notou que eu não a seguia e que continuava parada perto da porta. Eu me sentia intimidada com o olhar que ela me dava. Alguma coisa dentro de mim dizia que eu não deveria segui-la até a cozinha, mas não era algo ruim de todo. Acho que ela notou minha hesitação em segui-la pois voltou para perto de mim e me pegou pela mão.
"Você não precisa ter medo Quinn, eu só quero ajudar." Sua voz suave disse. Seus olhos castanhos agora me olhavam com pena e eu realmente deveria estar como um cachorro molhado e encolhido de medo. Ela me puxou pela mão e eu me vi sendo arrastada para uma cozinha pequena, mas acolhedora. Eu não saberia dizer o por que mas no fundo eu meio que achava que a casa combinava perfeitamente com ela. Pequena, bonita e delicada como sua dona. "Você pode esperar aqui por um momento?" Rachel me perguntou, me empurrando suavemente contra uma cadeira. Eu assenti e ela se foi por alguns minutos. Fiquei analisando a cozinha pensando o que levaria uma mulher como ela ajudar alguém que mal conhecia e levar consigo para dentro de casa sem pensar duas vezes.
Quando Rachel voltou ela carregava nos braços o que eu pude reconhecer como sendo algumas toalhas, uma escova de dentes, um par de calças masculinas e uma camisa branca. A camisa era de um branco imaculado, um branco que eu nunca tinha visto de tão limpa que era.
Eu me levantei para ajudá-la e peguei as coisas de seus braços.
"Eu acho que você deveria tomar um banho primeiro, você sabe… para se sentir melhor e para tirar esse cheiro e… não que você não esteja cheirando bem… humm… eu quis dizer… o que eu quis dizer…" Ela estava ficando vermelha e eu não consegui evitar pensar no quão bonita ela ficava fazendo isso.
"Tudo bem, eu entendi, não se preocupe."
"Ok, então." Ela torceu as mãos timidamente. "Eu pensei em te emprestar minhas roupas, mas você é um pouco maior que eu e eu pensei que talvez elas não fossem te servir, então eu peguei as roupas do Jesse, meu irmão. Na verdade, meu falecido irmão… se você não se importar. Não sei se elas te servirão… mas pelo menos estão limpas."
"Ok, não tem nenhum problema, eu as usarei. Obrigada."
Ficamos num silêncio desconfortável e eu não sabia mais o que dizer. Eu continuava de pé segurando as toalhas e ela agora torcia as mãos nervosamente.
"Bem, umm… o banheiro é lá em cima e eu já coloquei sua água quente, então... acho melhor ir ou ela esfriará." Ela finalmente disse. Meus olhos perdidos me denunciaram. "É só subir as escadas ali perto da porta, assim que chegar lá você verá três portas, duas a esquerda e uma à direita. É a primeira à esquerda. Lá tem tudo que você poderá vir a precisar e se você precisar de algo a mais não tenha medo, é só gritar, eu estarei aqui preparando algo para comermos."
"Rachel?" Eu chamei-a quando ela me deu as costas e já abria um armário de panelas.
"Hum?" Ela virou-se e me olhou diretamente nos olhos.
"Por que você está fazendo isso?"
"Por que eu estou fazendo o quê?"
"Isso. Me ajudando."
Ela pareceu pensar um pouco antes de dar um pequeno sorriso. "Porque você é uma boa pessoa e eu realmente gostei de você. Como eu já disse antes, só estou querendo te ajudar como você me ajudou."
Eu realmente me senti mal quando ela disse que eu era uma boa pessoa, mas não deixei que ela percebesse isso e murmurei um 'ok, obrigada' deixando a cozinha e seguindo suas instruções. Se ela realmente soubesse quem eu era e quantas vidas eu já havia tirado…
Quando cheguei no andar de cima vi realmente três portas e entrei na que ela havia me indicado. O banheiro era relativamente grande e eu agradeci aos céus por finalmente poder tomar um banho de verdade com água quente de verdade. Eu não sabia se Rachel estava falando mesmo a verdade quando dizia que queria me retribuir o favor, mas eu é que não seria suficientemente idiota para não aceitar o que ela me dava. Talvez fosse Deus ou algo assim me dando, quem sabe, uma segunda chance para recomeçar? Mas eu sabia que era temporário e que não iria durar muito. Ela provavelmente iria me querer fora de sua casa no fim do dia e eu voltaria para a solitária ferroviária, dormindo no chão frio encostada a uma parede dura e também fria.
Deixei as coisas que carregava num banquinho branco ao lado da banheira e retirei minha camisa com cuidado, entrei na banheira com cuidado para não encostar minhas costas nas bordas e me sentei na água quente, lavando primeiro meu rosto com a água limpa e quente. Minha ferida ardia em contato com a água quente e o sabão, mas eu realmente não estava me importando muito com a ardência e me esforçava em deixar meu corpo o mais limpo possível, nunca se sabe quanto tempo pode levar até eu tomar um outro banho de água quente, então era melhor que eu aproveitasse o máximo antes que tudo acabasse. Senti que havia ficado tempo demais dentro da água quando meus dedos começaram a ficar enrugados e a água já não se fazia mais quente e sim morna.
Desci as escadas já vestida no conjunto que Rachel havia me dado e com minhas roupas sujas nas mãos. Um cheiro bom invadiu minhas narinas e eu segui para a cozinha que era de onde ele estava vindo. Me aproximei da porta e vi Rachel enfiada num avental vermelho com algumas flores amarelas e laranjas, os cabelos presos num rabo-de-cavalo improvisado e cantando baixinho alguma música junto ao fogão. Sua imagem era simplesmente adorável e passava uma sensação de calor e conforto, coisas que eu já não sentia há muito tempo. Como por exemplo alguém cozinhando para mim. Eu não conseguia entendê-la e por mais que tentasse entender seus motivos, não chegava a nenhum ponto plausível. Então só a fiz se aperceber de minha presença limpando a garganta e ela imediatamente se virou para mim, o rosto numa expressão assustada e segurando o peito com as mãos. Apenas murmurei um 'desculpa, não quis te assustar' e esperei ela me dizer o que fazer.
"Aqui, dê isso para mim." Ela pegou as roupas que estavam nos meus braços e eu me alarmei quando a vi caminhar para fora da cozinha.
"Espere! Você não pode deitá-las, são tudo o que eu tenho!"
"Eu não estava indo deitá-las Quinn, só estava colocando-as para lavar. Eu até lavaria agora, mas não quero deixar o meu maravilhoso guisado queimar."
"Oh. Ok."
"Por quê você não se senta enquanto eu termino aqui? O guisado sairá num minuto, ok?" Ela sorriu. "Mas devo te avisar para não se empolgar muito, o guisado é simples e foi a única coisa que eu consegui pensar que fosse rápida e não levasse muito tempo para fazer, até porque eu acho que você deve estar com fome e seria muito deselegante fazer uma pessoa com fome esperar."
"Bem… eu estou mesmo com fome." Me sentei na mesa colocada para duas pessoas e fiquei observando Rachel, como seus movimentos eram suaves e precisos, seus passos eram leves e ao mesmo tempo decididos, e sem me aperceber ela foi me hipnotizando enquanto se movimentava pela cozinha e eu só fui notar que ela já estava sentada na minha frente e se servindo muito tempo depois.
"O sol se põe daqui a pouco." Rachel comentou me olhando. "De onde você é Quinn?"
"Eu nasci aqui em Lima, mas alguns problemas fizeram com que eu fosse para outro lugar e não faz mais de um mês que estou de volta."
"Posso te perguntar por que você estava dormindo na ferroviária?"
"Como você sabe que eu estava dormindo na ferroviária?" Perguntei espantada, sentindo meu rosto começar a esquentar.
"Eu te vi lá." Ela respondeu e eu notei que ela estava um pouco embaraçada. Nenhuma de nós disse mais nada por alguns segundos enquanto eu brincava com o resto do guisado de batatas em meu prato. "Foi naquele dia que você recuperou minha bolsa, quando eu cheguei em casa naquele dia notei que minha agenda não estava na bolsa e com a correria deveria ter caído na ferroviária, então eu voltei para lá porque ela era muito importante para mim. Eu conheço o Sr. Figgins, o vigia, ele me deixou entrar e então eu te vi. Você estava na parte escura do outro lado dos trilhos e estava deitada no chão coberta com algo. Reconheci seus cabelos loiros." Rachel sorriu acanhada. "Acho que ele não te viu porque ele não consegue chegar do outro lado, você sabe, por causa da perna dele."
"É, eu sei." Assumi envergonhada por me aproveitar do Sr. Figgins e da sua condição.
"Então? Não vai me contar?"
"Eu tive… alguns problemas." Respondi o mais vagamente possível desviando meus olhos dos olhos curiosos dela. Eu senti que Rachel não ficou satisfeita com a minha resposta pela cara desapontada que ela fez.
Eu sentia que podia confiar em Rachel, ela me passava esse sentimento de confiança e havia essa calma nela que me fazia sentir bem, eu não saberia explicar como ela fazia isso mesmo se tentasse, mas ao mesmo tempo eu não parava de pensar no que ela faria ou diria se eu contasse a verdade a ela. Se dissesse que havia morto centenas de pessoas numa guerra vazia, que eu estava de licença do exército e que não tinha onde cair morta e estava morando na ferroviária porque uma trapaceira qualquer havia vendido a casa da minha mãe que era minha por direito para um casal de desconhecidos. Que eu não tinha um centavo sequer no bolso e que recebia alguns trocados de esmola para não morrer de fome, que uma das coisas que eu mais pedia quando me deitava no chão frio da ferroviária era poder tomar um banho quente outra vez e dormir numa cama quentinha exatamente igual àquela que às vezes eu e Frannie dividíamos.
Não.
Eu não pretendia contar a ela nada sobre minha vida miserável.
"Eu sei que não deveria estar insistindo, mas… que tipo de problemas?" Rachel encostou seus talheres e cruzou os dedos na expetativa.
"Problemas familiares."
"Estou vendo que você não é de muitas palavras Quinn. Mas… bem, se você não quer me contar tudo bem, vou respeitar, mas se você resolver me contar saiba que estarei aqui para te ouvir, ok? Não irei insistir mais no assunto. Bem, que tal você me ajudar com a loiça agora?" Rachel abriu um sorriso que eu simplesmente achei adorável e levantou-se levando seu prato para a pia. Eu a segui e levei meu prato também.
Ao entregá-la o prato nossas mãos roçaram e eu pude sentir de novo o calor que emanava da pele macia de Rachel e como efeito imediato um arrepio atravessou a minha espinha. Ela me olhou sorrindo de lado e quebrou o nosso contato. Sorri quando ela me deu as costas e continuou lavando os pratos, pois constatei que sua pele conseguia ser mais quente que o verão e mais macia que lençóis de seda pura.
E pela segunda vez desde que conheci Rachel Berry, perguntei ao meu estúpido cérebro de que onde é que eu havia tirado aqueles pensamentos idiotas sobre a pele de Rachel!?
Bem, a resposta realmente não me importava.
Rachel me reteve em sua casa até o sol se pôr, eu estava alerta pois sabia que a qualquer hora ela me mandaria embora de sua casa, mas ela não o estava fazendo. As horas passavam e ela não me mandava embora por mais que eu realmente estivesse torcendo para que ela não o fizesse.
Uma das coisas que consegui captar sobre Rachel Berry era que ela não parava de falar. Rachel disparava dezenas de palavras por minuto e eu me distraía sempre que ela começava a divagar. Me distraía olhando o movimento da sua boca abrindo e fechando, do sorriso que por vezes emoldurava seus lábios levemente carnudos pintados de um cor-de-rosa clarinho adorável e do cheiro de relva fresca que ela exalava.
Tomei um leve susto assim que me apercebi das horas no pequeno relógio em cima da porta da cozinha dela e levantei-me num pulo, assustando Rachel que me falava sobre alguma coisa relacionada ao prefeito de Lima.
"Rachel… eu preciso ir." Eu disse aflita, rezando para que o Sr. Figgins não fechasse as portas nessa noite. "Acho que já está na minha hora, você deve estar querendo descansar e eu estou aqui te importunando e não te deixando dormir."
"O quê? Não. Não, Quinn. Eu acho que você não entendeu." Rachel levantou-se e parou na minha frente. "Quando eu disse que queria te ajudar eu estava falando sério. E isso incluía não te deixar voltar sozinha para aquela ferroviária fria e escura. Você vai dormir aqui comigo hoje."
Eu senti meu coração acelerar um pouco ao ouvi-la dizer que iria dormir com ela essa noite. Minha mente incrivelmente pervertida não deixou de notar o duplo sentido na última frase de Rachel e constatar isso fez minhas bochechas esquentarem. Por que eu estava pensando naquelas coisas?
"Eu… eu não posso aceitar, Rachel. Você já fez muito por mim, eu não posso te pedir mais isso."
"Claro que você pode aceitar!"
"Não, eu não posso."
"Quinn…" Eu percebi que ela estava ficando irritada e suas bochechas um pouco vermelhas. "Eu quero que você fique e não aceitarei um não como resposta." Rachel disse num tom que claramente significava que o assunto estava encerrado.
Eu bufei um pouco irritada por Rachel ser tão insistente. Por que ela simplesmente não me deixava ir? Por que prolongar mais a hora de dizer adeus? Ok, talvez eu estivesse sendo um pouco dramática. E se ela me queria ali, por que não ficar?
"Tudo bem, mas só por essa noite." Eu disse me dando por vencida e Rachel abriu um sorriso imenso.
Então eu deixei Rachel Berry me ter na sua casa. O tempo foi passando enquanto Rachel e eu conversávamos, na verdade, acho que ela estava tentando sutilmente arrancar algo de mim, afinal, éramos duas desconhecidas. Na hora de dormir Rachel insistiu para que eu dormisse com ela já que ela não dispunha de um outro quarto na casa e eu quase revirei os olhos ao pensar que tipo de pessoa sã levaria uma desconhecida para ficar em sua casa e ainda por cima para dormir em sua cama. No fim da pequena discussão que tivemos sobre o assunto, Rachel cedeu e foi buscar alguns lençóis, depois arrumou o pequeno sofá da sala para mim mesmo eu protestando que poderia fazer sozinha.
"Se você precisar de alguma coisa, quero dizer, qualquer coisa mesmo Quinn, não hesite em bater a porta do meu quarto, ok? Então, você já sabe que a cozinha é por ali e que o banheiro é lá em cima, se precisar de beber uma água ou se ficar aflita no meio da noite, porque eu geralmente costumo ficar aflita no meio da noite quando bebo muita água…"
"Rachel, respira, ok?" Eu falei com um pequeno sorriso no rosto. "Não se preocupe comigo, eu não quero incomodar."
"Não, você não vai incomodar! Eu falo sério Quinn…"
"Ok, já entendi. Se precisar é só pedir."
"Ok Quinn. Então… Boa noite."
"Boa noite Rachel."
Ela ainda me lançou um último olhar preocupado antes de subir as escadas com passos hesitantes. Ouvi a porta do quarto dela bater e me sentei no pequeno sofá, me encolhi como pude nele, sentindo minhas costas latejarem por causa do ferimento e mesmo ele sendo pequeno eu me senti confortável e quente. Pelo menos era muito melhor do que dormir num chão frio. Admirei por um instante a lareira de Rachel que era decorada com algumas fotografias dela. Em seguida me cobri com o lençol de Rachel e quando o cheiro do tecido macio me atingiu eu pude sentir Rachel Berry. Seu perfume que me deixava ligeiramente tonta. Rezei uma oração qualquer antes de fechar os olhos, aspirar o cheiro de Rachel com um sorriso e adormecer feliz.
No dia seguinte acordei suada e assustada depois de ter mais um dos pesadelos que me atormentavam. Uma mistura desagradável entre mortes, gritos e sangue. Fui tentando me acalmar aos poucos, Rachel não demorou muito e já descia instantes depois brindando-me com um sorriso de bom dia. Nesse dia Rachel conseguiu fazer com que eu aceitasse ficar por algum tempo em sua casa e não era como se eu estivesse muito disposta a recusar, eu só não queria trazer problemas para ela pois eu sabia que eventualmente isso iria acontecer. Eu observava Rachel às vezes, quando ela estava distraída, reparava os pequenos detalhes nela que eram absolutamente adoráveis, às vezes irritantes e maçantes, como por exemplo a capacidade que ela tinha de insistir tanto numa coisa que às vezes me deixava irritada ou mesmo a personalidade um pouco mandona dela. Eu sabia que ela só estava querendo me agradar e eu não conseguia entender o porquê. Eu perdia algum tempo nas noites deitada no pequeno sofá da sala, pensando em como minha vida tinha chegado a esse ponto.
Mentira.
Eu perdia a maior parte do tempo pensando em Rachel e nas nossas conversas, repassava as cenas das nossas conversas e às vezes me perdia lembrando uma coisa boba que ela devia ter feito e sorria como uma idiota.
Eu ajudava Rachel com alguns trabalhos da casa como lavar a loiça e regar as plantas no pequeno jardim que ela mantinha atrás da casa; também ajudava cortando alguma lenha na parte de trás da casa já que era um serviço um pouco pesado e Rachel não conseguia fazê-lo, quando perguntei como ela fazia para obter lenha ela me disse que pagava um garoto chamado Artie que fazia alguns trabalhos do tipo na vizinhança. Não eram tarefas muito difíceis para quem conseguia carregar uma mochila pesada com quase o dobro do seu peso e ainda por cima corria com ela desviando de tiros, granadas e outras coisas que preferia não lembrar no momento. E mesmo às vezes sentindo muita dor, pois o meu ferimento nas costas insistia em não curar e me dava algumas tonturas que eu procurava disfarçar para Rachel não notar, eu procurava sempre fazer tudo direitinho para agradar Rachel.
Fazia uma semana que eu estava na casa de Rachel e num dos dias antes que ela saísse para o mercado após recusar minha oferta em acompanhá-la, ela me pediu para que eu regasse suas pequenas flores no pequeno jardim na parte de trás da casa. As noites iam ficando cada vez mais frias em Lima e Rachel gostava quando eu acendia a lareira, eu estava cortando a madeira com o machado e empilhava os montinhos no quintal, fazendo algumas caretas por causa da dor que o movimento de levantar o machado me causava, imaginando o sorriso que Rachel daria ao chegar em casa e ver que tudo estaria do jeito que ela pediu. Foi quando senti a porta da cozinha bater e me virei para ver Rachel chegando sorridente e usando um de seus vestidos maravilhosos. Mas não foi Rachel quem eu vi assim que me virei. Eu me assustei quando vi um homem alto usando um terno e um chapéu na cabeça aproximando-se de mim. Ele tirou o chapéu da cabeça e me encarou.
"Quem é você?" Ele perguntou seco me olhando de cima à baixo. Eu não gostei do olhar dele.
"Bom dia." Eu respondi contrariada, tentando manter a minha boa educação. Ele não me respondeu. "Meu nome é Quinn."
"Eu não perguntei o seu nome, perguntei quem você era! O que está fazendo aqui na casa de Rachel? E, já agora, onde está Rachel?"
Eu encostei o machado no chão e o encarei irritada. Estava com vontade de dar um soco bem no meio da cara dele.
"Por que eu deveria te responder? Eu não te conheço e muito menos sei como você entrou aqui e o que quer com Rachel." Respondi na defensiva.
"Olha, garota…"
"Quinn!" Eu rosnei entredentes. Não estava gostando nada da maneira como ele estava me tratando, muito menos do olhar desprezível que ele me lançava. Nervosa, eu alisava as calças masculinas do irmão de Rachel. "Já disse que meu nome é Quinn."
"Olha, garota…" Ele disse de propósito só para me irritar. "Só avise para Rachel que Finn Hudson esteve aqui, ela vai entender quando receber o recado." Ele terminou com um sorrisinho nos lábios e me deu as costas, sem esperar minha resposta foi se afastando de mim e eu o vi sair pela porta da cozinha.
Continuei o que estava fazendo e usava mais força que o necessário para cortar a madeira, a dor que sentia já não me incomodava muito e por muito pouco não acertei meu pé, foi quando ouvi a porta se abrir de novo e me virei pronta para mandar aquele Finn Hudson para os infernos, mas então vi Rachel correndo na minha direção toda linda e sorridente. Fiquei estática enquanto ela me abraçava eufórica.
"Quinn! Eu consegui! Eu consegui!" Ela repetia enquanto me abraçava pelo pescoço, depois me soltou, ajeitou a fita de bolinhas vermelhas que prendia seu cabelo solto para trás e que também combinava com o vestido de bolinhas vermelhas que batia um pouco abaixo de seus joelhos.
"O que você conseguiu Rachel?" Perguntei sorrindo a ela e encostando o machado outra vez no chão.
"Um trabalho para você. Você estava reclamando que não queria ficar sem fazer nada enquanto estivesse por aqui, então hoje eu aproveitei e fui falar com Burt Hummel, um velho amigo do meu pai." Rachel disse sorrindo. Eu me lembrava vagamente daquele nome. "Ele é o dono da mercearia Hummel e está velhinho, ele estava precisando de ajuda lá na mercearia e eu sugeri você, isso se você aceitar, é claro."
"Tudo bem Rachel." Eu sorri sem muito entusiasmo.
"O que foi? Você não gostou? Se você não gostou eu posso, talvez…"
"Não Rachel, eu aceito. É só que…" Suspirei derrotada.
"Só queee…"
"Não é que eu não esteja feliz com isso, mas… você sabe, eu queria ter conseguido esse trabalho por mim mesma e não porque você pediu para ele."
"Deixe de ser orgulhosa Quinn, você sabe que eu não fiz por mal. E não tem nada de errado em aceitar ajuda quando se está precisando."
"Eu sei, Rachel… mas você já está me ajudando muito e eu não tenho como te pagar, eu não tenho como retribuir e eu não consigo entender por que você está fazendo isso embora você já tenha dito que só quer me ajudar e me retribuir pelo que eu fiz ao te ajudar com sua bolsa. Mas você está fazendo muito mais do que isso."
Vi Rachel respirar fundo antes de me olhar séria.
"Quinn, você sabe que eu não quero que você me pague nada. Eu estou fazendo isso porque quero e não espero nada em troca, acredite em mim. Eu sei que você está confusa e eu também estou, mas eu quero, eu sinto que devo te ajudar. Então você vai amanhã na mercearia falar com o Sr. Hummel e vai ficar com o emprego e pronto."
"Olha, Rachel…" Passei uma mão pelos cabelos contrariada.
"Eu vou fazer o almoço num instante e você pode ir subindo e tomar um banho para tirar todo esse suor." Ela me ignorou e continuou falando enquanto me dava às costas e caminhava de volta a cozinha. Percebi que Rachel não iria tornar isso mais fácil para mim. "Vou fazer um prato rápido e prático que eu sei que você vai gostar."
Eu deixei meus braços caírem ao redor do corpo derrotada. Rachel sempre conseguia o que queria de mim. Apenas não sabia como é que ela ainda não havia conseguido arrancar nada sobre mim e nem como ela se segurava para não me perguntar, porque eu não sabia se poderia resistir àqueles olhos castanhos me olhando do jeito que costumavam olhar sempre que ela queria algo de mim. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo e nem sabia se queria realmente descobrir. Rachel me deixava intrigada. E eu não sabia se isso era bom ou mau.
Almoçamos praticamente sem trocar mais que dez palavras e eu sentia Rachel desconfortável sempre que me olhava. Depois ela foi trabalhar com os vestidos que costumava costurar e vender para as senhoras e senhoritas de Lima para se sustentar, vestidos esses que me pareciam maravilhosos, mesmo que ela insistisse em dizer que eram simples demais e não eram nada comparados aos das grandes estilistas famosas de Nova Iorque. Eu me pegava as vezes imaginando Rachel num daqueles vestidos, rodopiando ao som de uma música romântica qualquer com um sorriso emoldurando seu rosto e a felicidade estampada em seus olhos brilhantes. Mas logo tratava de mandar essa imagem para o fundo da minha mente e procurava me concentrar em outras coisas.
