Parte III
O Sr. Hummel me recebeu muito gentil e simpático e não deixou de tecer elogios à Rachel por lhe ter indicado uma ajudante tão bonita como eu. Eu não achava o mesmo, mas apenas concordava com ele e lhe sorria sempre que ele tocava no assunto. A mercearia dele era um pouco grande e eu percebi que ele vendia um pouco de tudo, desde comida, utensílios domésticos, ferramentas para carros e bebidas alcoólicas. Ele tinha dois ajudantes simpáticos e um deles se chamava Kurt, que depois vim a descobrir que era seu filho; e Blaine, que era um garoto muito simpático e alegre. Nos primeiros dias que eu comecei a trabalhar eles foram muito simpáticos e calorosos, sempre me ajudavam e procuravam me ensinar as coisas da melhor maneira possível e eu também procurava aprender tudo direitinho para não fazer nada errado e decepcionar Rachel. Não queria deixá-la desapontada por minha causa e muito menos manchar sua amizade com o Sr. Hummel. Ainda me lembrava de Finn Hudson e às vezes a curiosidade de saber quem ele era falava mais alto e eu me perguntava se deveria ou não dizer à Rachel que ele esteve procurando por ela no dia que ela conseguiu o trabalho para mim na mercearia do Sr. Hummel. Mas também ficava com uma sensação ruim sempre que pensava nele sendo algo mais do que somente um conhecido de Rachel, essa sensação era mais forte que a curiosidade e me impedia de falar alguma coisa para ela mesmo sabendo que era errado esconder isso dela.
"Ei." Rachel parou na minha frente com um copo cheio de leite na mão.
Era noite de terça-feira e fazia um pouco de frio àquela hora da noite.
"Ei." Respondi de volta sorrindo e me sentando no sofá, dando espaço para ela se sentar ao meu lado. E ela o fez.
Rachel ajeitou seu roupão de seda branco antes de se sentar ao meu lado.
"Não consegue dormir?" Fiz não com a cabeça. "Está muito frio." Reclamou se encolhendo no sofá. A sala estava um pouco escura e a única iluminação vinha da lareira e da pouca lenha que ainda ardia. Eu olhei Rachel de esguelha e a vi bebericando o leite. Ela irradiava calor e só por tê-la ao meu lado já não sentia muito frio. Rachel me aquecia. "Quer um pouco?"
"Não, obrigada. Estou bem assim."
"Por que não consegue dormir?" Senti curiosidade na voz dela.
"Não sei… o frio, acho eu." Menti. Não estava conseguindo dormir porque tinha medo de acordar mais uma vez suada e com medo, tinha medo de sonhar de novo com coisas que eu queria muito esquecer, mas que nunca poderia ou conseguiria.
"Pois deveria. Amanhã você acorda cedo e tem que ir trabalhar, vai se sentir cansada por não dormir direito." Senti Rachel se virar para mim e puxar o cobertor que me tapava para ela. "Eu tenho uma teoria. Se você dormir oito horas por dia certinhos você vai acordar mais feliz e seu dia será mais produtivo, sua pele terá o descanso merecido e isso sem contar que é saudável dormir oito horas de sono por dia. Você não concorda comigo?"
Eu soltei uma risadinha. Tinha esquecido do quão adorável Rachel Berry ficava quando começava a falar pelos cotovelos em plena uma e meia da manhã.
"Eu acho que sim."
"Então… está gostando de trabalhar na mercearia do Sr. Hummel?" Ela perguntou depois de alguns minutos calada.
"Sim… lá é agradável. Ele é simpático e me trata bem, Kurt e Blaine são legais e me ajudam sempre. Eu só fico arrumando as coisas na prateleira e carrego algumas caixas."
"Mas porque ele te faz carregar caixas? Deve ser por isso que você sempre chega muito cansada! Eu vou falar com ele amanhã e…"
"Ei Rachel, se acalme." Pedi tocando suavemente seu braço. "Não tem problema, eu gosto de carregar caixas e não é como se fossem tão pesadas, eu já carreguei coisas mais pesadas quando estava no exérci…. ér… na minha casa."
Rachel se virou rapidamente para mim. Eu amaldiçoei minha boca gigante e a capacidade dela não conseguir se manter muito tempo fechada perto de Rachel.
"O quê? O que você ia dizer?"
"Eu… nada." Tentei me levantar do sofá, mas ela pegou meu pulso me obrigando a continuar sentada ao lado dela.
"Quinn…" A forma como ela pronunciou meu nome fez um arrepio percorrer minha espinha e eu não saberia dizer se fora por causa de sua voz levemente rouca ou por causa do frio que fazia.
Eu me virei para Rachel.
"Se abre comigo Quinn. Faz bem de vez em quando, sabe? Desabafar."
"Eu não posso…"
"Sim, você pode. É só você querer." Ela insistia.
"Eu não consigo…"
"Tente."
"O quê?" Perguntei confusa.
"Tente… você nunca vai saber se consegue ou não se nunca tentar." Senti suas mãos quentes enrolando meu braço. "Pode até não ser hoje… mas eu quero que você tente. Porque eu vejo uma sombra nos seus olhos e sinto que você quer deixar isso ir mas não consegue. Eu posso te ajudar."
Engoli em seco sentindo meus olhos úmidos. Por que ela fazia aquilo comigo? Eu não queria lembrar! Rachel iria se afastar de mim, eu tinha certeza disso.
"Eu não sei se estou pronta para contar. É só que… dói." Algumas lágrimas escaparam e eu abafei um soluço com a palma da mão, me achando uma idiota por estar desabando na frente de Rachel.
Rachel deixou o copo no chão e me abraçou de lado, puxando minha cabeça para seu colo e afagando meus cabelos enquanto murmurava palavras reconfortantes no meu ouvido. A posição estava muito desconfortável para mim e quando senti uma fisgada de dor nas costas outras lágrimas rolaram e Rachel me abraçou mais forte, eu me agarrava nela e procurava concentrar-me em seu cheiro e parar de chorar, mas nem mesmo o cheiro dela me fazia parar de chorar, pelo contrário, ele só me fazia chorar mais e mais e eu já não sabia mais dizer por que estava chorando. Não saberia dizer em que parte da noite adormeci nos braços de Rachel, mas quando acordei de manhã ela já não estava mais comigo no sofá e eu só queria que tudo não tivesse passado de um sonho. Mas não foi um sonho. O copo de leite que Rachel havia deixado no chão ainda permanecia ali pela manhã e eu estava tão preocupada em saber se tudo fora um sonho ou não que nem me apercebi de uma coisa… eu não tive nenhum pesadelo naquela noite.
Nos dias que se passaram eu procurava evitar Rachel e suas perguntas, por isso sempre mudava de assunto sempre que ela tocava no assunto que me incomodava, eu não queria admitir, mas estava com medo de perder Rachel. Estava com medo de que quando contasse a verdade para ela e dissesse quem eu era, ela fosse expulsar-me de sua casa e nunca mais olharia na minha cara. Eu estava me apegando a ela e eu sabia que não deveria, mas era mais forte que eu. Eu me sentia bem quando ela estava perto de mim, ficava radiante quando ela sorria ou quando ela ajeitava o cabelo para tás das orelhas delicadamente e cada olhar, cada conversa, tudo em Rachel me fascinava. E isso era perigoso. Porque eu já não queria mais ir embora de sua casa, eu não queria mais que ela me mandasse embora e me deixasse ir. Rachel me fazia tão bem que eu me esquecia dos meus problemas e dos meus fantasmas. Mas nem tudo era como eu gostaria que fosse e quando parecia que tudo estava indo bem alguma coisa acontecia aparecia para estragar tudo.
Fazia um mês e meio que eu estava morando com Rachel. Eu voltava da mercearia do Sr. Hummel ao meio dia, pois ele tinha me dispensado já que o movimento da mercearia não estava muito grande e Kurt e Blaine poderiam dar conta dela. Carregava um pacote com algumas coisas que havia comprado para surpreender Rachel quando ela chegasse em casa, eu sabia que a essa hora ela estaria em casa de alguma cliente tirando medidas e queria preparar um almoço para ela, coisa simples, apenas um prato que minha mãe havia me ensinado quando eu tinha quinze anos. Passei da portinhola branca e quando me aproximei da porta a vi entreaberta. Ouvi a voz de Rachel alterada.
"Você não tinha o direito Finn!"
"Rachel, baby…" Me assustei quando ouvi Finn a chamando de baby. "O que você queria que eu fizesse? Você conhece o meu pai! Ele disse que não me deixaria nada se eu não adiantasse as coisas com você!"
"Mas você tinha que ter falado comigo antes! Afinal, quem você pensa que eu sou?"
"Mas eu estive aqui há três semanas atrás! Eu te procurei mas você não estava, então eu fui lá para trás e estava essa garota cortando lenha."
"Quinn? Você está falando de Quinn? Ela estava aqui quando você chegou?"
"Estava sim! E eu mandei ela te avisar que eu tinha passado aqui. Ela não te disse?"
Mandou? Mandou? Ora, seu engravatado filho da…
"Não… ela não… ela não disse." Ouvi a voz desapontada de Rachel dizer. "Mas e depois? Custava você ter vindo outra vez?"
"Mas eu tive que viajar com meu pai, docinho… você sabe, a campanha não pode esperar e com essa guerra você nunca sabe o que pode acontecer."
"Finn, nada justifica isso! Como você acha que eu me senti ao ser parabenizada por uma das minhas clientes porque ela tinha visto no jornal de hoje que eu iria me casar em dois meses com o futuro prefeito de Lima, sendo que nem eu sabia disso?"
Meu coração quase parou ao escutar aquilo. Será que eu tinha ouvido bem? Rachel estava noiva? Ela ia se casar? E ainda por cima com esse arrogante e mal-educado do Finn Hudson?
"Você não tinha o direito de marcar a data sem me consultar!"
"Mas eu já te expliquei isso, Rachel. Você tem que entender que eu tive que fazer isso, meu pai estava me pressionando e você tem que perceber que se eu estiver casado antes mesmo das eleições eu terei mais credibilidade com o povo, eles dão mais prioridade a família e eu venceria fácil o Karofsky."
"Mas você não pensou no meu lado? Caso você não percebeu, um casamento não acontece sozinho e nós dois tínhamos que ter conversado sobre isso antes!"
"O que foi, hein Rachel? Eu não estou te entendendo! Nós estamos noivos há quase dois anos, não era novidade para ninguém que iriamos acabar nos casando e por que não adiantar isso, hein? Estou fazendo isso para o nosso bem, baby."
"Para o SEU bem, Finn! O seu, não o nosso!"
"Olha, eu não vou mais discutir isso com você, baby. Eu tenho realmente que ir agora, mas isso não quer dizer que o assunto acabou por aqui. Os preparativos para o casamento já começaram e eu já estou fazendo a lista dos convidados, então não se preocupe muito com isso. Só relaxe, ok?"
"Eu acho melhor você ir agora Finn."
Eu saltei da porta o mais rápido que pude e me escondi na lateral da casa. Ainda vi quando ele beijou-a na porta e colocou o chapéu na cabeça, entrou num carro preto e se foi. Rachel fechou a porta e eu suspirei sentindo meu estômago revirando. Senti algo quente escorrer pelas minhas bochechas. Passei as mãos pelos cabelos e elas foram parar instantaneamente no pingente de borboleta.
O que está acontecendo comigo, Frannie?
Não consegui entrar e encarar Rachel. Preferi ir dar uma volta para me acalmar e acabei indo parar no Breadstix. Quando entrei Sugar logo veio ter comigo sorridente e eu não consegui retribuir o seu sorriso, ela se mostrava alegre por me ver de novo depois de algum tempo sem nos vermos e eu deixei-a falar sobre sua vida sem ao menos prestar atenção no que ela dizia. Minha mente estava em Rachel. Me perguntava o porquê de ela nunca me ter dito sobre isso.
E porque ela diria isso para você, Fabray? Minha mente me atacava. Ela só está te fazendo um favor deixando você morar com ela!
Mas então como eu explicaria as coisas que via dentro dos olhos de Rachel quando ela olhava para mim? Às vezes eu via pena dentro deles, via também compaixão e vez ou outra uma outra mistura de coisas que eu não conseguia decifrar. Mas então por que eu estava me sentindo assim? Por que me importava tanto o fato de saber que Rachel iria se casar em breve com Finn Hudson? Talvez porque estivesse receosa de que ele a fizesse sofrer ou a sufocasse com o jeito arrogante e o ar de superioridade que eram as características mais desagradáveis dele. No pouco tempo que convivi com Rachel vi que ela era uma pessoa livre e que não gostava que lhe ofuscassem o brilho ou que lhe dessem ordens. Ela tinha uma personalidade forte e decidida e ao mesmo tempo delicada, eu não sabia como é que em tão pouco tempo de convivência Rachel conseguira se tornar uma parte tão importante de mim que até eu mesma desconhecia. E eu só estava preocupada com o bem-estar dela, certo?
Permaneci no Breadstix até anoitecer e só então é que tomei a coragem necessária para voltar para a casa de Rachel. Minha cabeça doía como se meu cérebro fosse saltar para fora a qualquer momento e meus olhos estavam inchados, sorri ao lembrar como Sugar quase entrou em pânico ao notar isso. Ela era muito exagerada, mas eu gostava dela. Talvez se Rachel a conhecesse também passaria a gostar dela. E lá estava eu de novo pensando em Rachel.
Abri a porta principal devagar e entrei sorrateiramente, procurando não fazer nenhum barulho que denunciasse minha presença para Rachel, notei todas luzes apagadas e deduzi que ela já deveria estar em seu quarto dormindo.
"Finalmente Quinn!" Ouvi a voz de Rachel no escuro e sufoquei um grito de susto quando ela acendeu a luz da sala. Eu estava assustada e meu coração deveria estar batendo tão forte que cogitei a possibilidade de Rachel vir a ouvir suas batidas desenfreadas.
"Rachel! Que susto!" Exclamei respirando ofegante.
"Que susto está você! O que aconteceu com você Quinn?" Rachel aproximou-se com passos cautelosos e voz preocupada ao me analisar. "Onde você esteve até agora? Eu liguei para a mercearia e Kurt me disse que você tinha sido liberada mais cedo."
"Sim, eu… eu fui, mas… resolvi dar uma volta depois." Respondi sentando-me no sofá que servia como minha cama nos últimos dias.
"E por que não me avisou antes? Eu fiquei preocupada."
"Sinto muito, eu esqueci." Encolhi os ombros.
Rachel se aproximou de mim e começou a olhar-me de cima à baixo me avaliando, depois colocou a mão sobre minha testa.
"Quinn, você está tão pálida!" Constatou assustada. "E está queimando em febre!"
"Não é nada Rachel, eu estou bem."
"Claro que você não está bem! Você precisa de um banho frio e roupas quentes. Venha, eu vou te ajudar a tomar um banho."
"Não!" Gritei assustada e Rachel olhou para mim confusa enquanto puxava meu braço. Então eu tentei me justificar. "Não, o que eu quis dizer… eu não quis dizer… é que… não precisa, eu… posso fazer isso sozinha e…"
"Como você é teimosa, Quinn! Quantas vezes eu já não te disse para parar de ser orgulhosa e me deixar ajudar!? Eu posso te largar lá e você cair na banheira ou algo do tipo, não quero nem pensar nisso."
"Mas, Rachel…" Tentei protestar enquanto ela abria a porta do banheiro. Eu não queria que ela me visse nua! E muito menos queria que ela visse o meu ferimento, Rachel iria me dar um sermão interminável sobre minha irresponsabilidade como se ela fosse minha mãe e eu acabaria me sentindo mal por isso. Mas de que adiantava argumentar com Rachel Berry? Ela não se calava e não me dava nenhuma chance para falar e isso me irritava às vezes.
"Se você não ficar quieta e me deixar tirar essas roupas eu…"
"Rachel, eu estou bem! Sério. Eu posso tomar um banho sozinha, você pode me deixar e ir dormir, já está muito tarde e… e as suas oito horas de sono…"
"Você está com vergonha de mim Quinn?" Ela perguntou tentando me olhar nos olhos, mas eu desviei o contato, corando e achando o tapete de Rachel a coisa mais interessante do mundo para olhar no momento. "Você está com vergonha!"
"Rachel…"
"Você fica bonitinha vermelha…" Senti ela desabotoar minha camisa vagarosamente. "Mas você sabe que não precisa disso, somos duas mulheres e o que você tem eu também tenho, e depois não é como se eu nunca tivesse visto, então..." Terminou rolando os olhos.
Rachel tirou minha camisa e me empurrou para sentar no vaso sanitário, com o movimento brusco acabei batendo as costas e soltei um gemido de dor quando senti o ferimento arder. Rachel, que já estava abrindo a torneira, virou-se para mim assustada.
"O que foi? Você esta bem? Eu te machuquei Quinn?" Ela dizia preocupada, até que então seu olhar parou na minha camisa e sua feição mudou de preocupada para assustada. Eu segui seu olhar e também olhei para minha camisa que estava em cima do banquinho branco ao lado da banheira e vi uma mancha de sangue nas costas. "Meu Deus, Quinn!"
Ela me virou e pude ver do espelho a careta desagradável quando ela observou meu ferimento. Eu tentava me virar para olhar também, mas ela me mantinha no lugar e não me deixava virar para ver.
"Onde você conseguiu esse ferimento?" Eu não respondi. "Está um pouco roxo e eu acho que está infeccionado!" Disse suspirando. Senti seu toque perto da região e me arrepiei sem querer. "Está com frio?" Assenti. Ela então desligou o chuveiro e me fez sentar de novo no vaso sanitário, me cobriu com uma toalha, passou pela porta e desapareceu por alguns minutos. Quando ela voltou carregando um balde de água eu permanecia sentada na mesma posição. Sentia minha cabeça explodindo e quando fiz menção de levantar para ajudá-la ela levantou uma mão me impedindo.
Rachel virou o balde que supus ser de água quente na banheira e abriu a água fria misturando as duas.
"Vamos, entre na banheira antes que pegue um resfriado também. Precisamos lavar a ferida para desinfetar, depois terei que drená-la." Rachel disse séria.
Eu obedeci Rachel e em silêncio retirei minhas calças e entrei na banheira com água quente. Me encolhi quando senti a ferida em contato com a água. Quando pensei que Rachel iria me deixar sozinha ela puxou o banquinho branco e sentou-se perto de mim, pegou o sabão e esfregou nas mãos para em seguida aplicar no meu cabelo.
Eu estava me sentindo como uma criança que acabava de aprontar e era apanhada pela mãe. Podia perceber pelo silêncio de Rachel que ela estava zangada e que se eu tentasse me justificar agora ela acabaria explodindo, então continuei esperando ela dizer alguma coisa.
"Como você conseguiu isso? Pelo estado em que está não foi hoje que você se feriu."
"Foi uma facada que recebi. Acho que fazem dois meses." Respondi dando de ombros. Ouvi Rachel bufar indignada.
"Dois meses? Você está assim há dois meses e não se preocupou em tratá-la? Quinn!" Ela enxaguava meu cabelo e eu sentia o sabão me entrar nos olhos, mas fiquei quieta enquanto ela me esfregava. "Me conta direito como foi."
"Foi em combate, eu estava desprotegida quando um soldado nazista conseguiu passar as barreiras de areia e me esfaqueou." Respondi ao seu tom autoritário sem nem me aperceber do que acabava de dizer.
"Você estava no exército? Lutando na Alemanha?" Rachel disse espantada e eu praticamente tinha a certeza de que ela elevou a voz um pouquinho mais que o necessário parando de me enxaguar.
"Eu… eu…" Você e sua boca enorme Quinn! Pensei entrando em pânico. A primeira coisa que me ocorreu foi desmentir tudo o que disse e mentir para Rachel, mas optei por dizer a verdade para ela. Por mais que eu me envergonhasse do que fizera e das vidas que tirara, por mais que eu tivesse medo que ela me mandasse embora de sua casa e de sua vida, ainda assim não era justo mentir para Rachel. Não era justo com ela e nem comigo mesma, então, eu segui o conselho que Rachel me deu naquela noite e tentei. "Sim. Eu estava."
Ficámos em silêncio. Rachel provavelmente estava digerindo a informação. Apercebendo-se de quem estava ali com ela e estava preparando-se para me chutar de sua casa. Mas então ela me surpreendeu quando voltou a colocar suas mãos em mim e foi esfregando minhas costas com cuidado.
"Há quanto tempo?"
"Hum?" Murmurei confusa.
"Há quanto tempo estava lá?"
"Quatro anos." Fechei os olhos. Esse gesto me trouxe lembranças agradáveis do tempo em que Santana Lopez ainda estava viva e de como aprontávamos com as outras garotas no quartel. Depois a lembrança dela morrendo nos meus braços e…
"Quinn?" Rachel me chamou, tirando-me da lembrança dolorosa da morte de Santana Lopez.
"Hum?"
"Já acabámos."
Rachel me enxugou com a toalha e depois me deu outras roupas quentes. Ela não me perguntava mais nada e isso estava me deixando nervosa. Ela desceu para me buscar um comprimido e me deixou no seu quarto, sentada na sua cama, admirando o quarto dela. Era a primeira vez que Rachel me deixava entrar em seu quarto. Embora minha cabeça estivesse me matando, eu observava curiosa cada detalhe dele, o bom gosto na decoração de Rachel era notável. Ela voltou alguns minutos depois com uma bandeja e uma caixinha de primeiros socorros nas mãos.
"Eu vou tentar limpar o ferimento, tirar toda a porcaria de dentro e fazer um curativo, mas se ele continuar assim inchado e roxo até amanhã, eu vou ter que te levar para o hospital." Ela tocou outra vez minha testa. "Você ainda está ardendo em febre!" Ela abriu a caixinha de primeiros socorros. "Sobe a camisa primeiro e deita de barriga para baixo para eu poder cuidar desse ferimento."
Fiz o que ela disse e me virei, coloquei a cabeça no travesseiro de Rachel e senti o cheiro dos cabelos dela me invadindo.
"Eu só fico me perguntando por que você não me contou sobre isso antes, talvez se você o tivesse feito nós não estaríamos aqui. Eu tenho a certeza que essa febre é por causa da infecção."
"Eu não queria te dar trabalho."
"Eu vou fingir que não ouvi o que você acabou de dizer." Senti ela tocar meus ombros e descer as mãos para a minha cintura. "Então… eu acho que agora é uma boa hora para você começar a me dizer quem é você Quinn."
"Como assim?"
"Eu te respeitei sempre que você não queria se abrir ou quando não queria responder minhas perguntas sobre a sua vida, mas você tem que concordar comigo que não dá mais para continuar assim. Eu não vou te forçar a nada, mas você não acha que eu devo saber quem é que está morando debaixo do meu teto?"
"Eu sei disso Rachel, mas eu tenho vergonha…"
"Vergonha de que Quinn? De me dizer quem você é? De se abrir comigo?"
"Vergonha do fracasso que eu sou!" Eu disse um pouco ríspida afastando-me de Rachel.
"Fique quieta. Eu acho que vou ter que costurar uma parte da sua ferida." Ela disse calma. "E você não é um fracasso Quinn, por mais que você pense assim, você simplesmente não é."
"Sim, pois… se não ter onde cair morta e o fato de estar vivendo de favor na sua casa e ter que conviver com pesadelos desagradáveis todas as noites não é ser um fracasso... Conta outra."
"Bem… se isso te serve de consolo, eu também acho que sou um fracasso. Não consigo nem tomar decisões por mim mesma, outras pessoas fazem isso por mim e eu não faço nada para impedi-las. Sou covarde demais." Rachel disse com ironia. Ela estava se abrindo comigo. Assim, tão facilmente. E eu não conseguia fazer isso com ela. Por que as coisas tinham que ser tão complicadas? "Então não, eu não te acho um fracasso."
"Mesmo?"
"Mesmo."
Respirei fundo duas vezes tentando tomar coragem para contar. Eu senti quando Rachel passou um paninho em volta do corte e estremeci ao senti-lo morno.
"Meu nome é Lucy Quinn Fabray, mas eu não gosto muito de Lucy, prefiro Quinn ou mesmo Fabray. Não me pergunte por que, apenas não gosto muito."
"Eu acho Lucy bonito." Ela comentou me interrompendo.
"Vivia aqui em Lima com meus pais e minha irmã." Suspirei fechando os olhos. Já não sentia mais o toque de Rachel nas minhas costas, mas sabia que ela estava ali ouvindo. "Quando a guerra começou, eles precisavam de apoio de tropas americanas na Alemanha e eu tive que me alistar, eles praticamente me obrigaram e ameaçaram nos tirar a casa, então eu o fiz e alguns meses depois estava sendo convocada. Minha mãe me implorou para não ir, mas eu não dei ouvidos a ela." Funguei, me lembrando da discussão que tive com ela antes de partir para o exército. "Primeiro foram os treinamentos e lá eu conheci Santana. Depois eles precisaram de reforços e nós tivemos que ir para a Bélgica. Depois para a França e assim foi de acampamento em acampamento até chegarmos na Alemanha. Sofremos uma emboscada numa cidadezinha perto de Berlim e Santana acabou não resistindo aos ferimentos. Eu recebi dois tiros que graças a Deus não apanharam nenhum órgão e alguns meses depois uma facada nas costas. Fiquei desmaiada por três dias até que quando acordei a coronel Sylvester me conseguiu uma licença de… ai!" Gemi de dor ao sentir os dedos dela exprimindo meu ferimento.
"Desculpa." Ela murmurou e eu a senti assoprar minha pele. "Desculpa."
Ela repetiu o processo e senti quando ela limpou o ferimento com um dos paninhos mornos e colocou um pó por cima que ardeu um pouco. A dor era quase insuportável, mas eu já havia passado por coisas piores, então dizia a mim mesma que tinha que aguentar e não gritar como uma criancinha assustada. Segundos depois senti a agulha entrando na minha carne e me agarrei aos lençóis de Rachel.
"Ai… Rachel… ai… está doendo muito!" Eu choraminguei mordendo meus dentes com força. Ela metia a agulha devagar e isso estava fazendo-me ver estrelas.
"Eu sei Quinn… eu sei… morde alguma coisa para acalmar a dor."
Segui seu conselho e mordi seu travesseiro com força e apertei mais as mãos. Meus dedos estavam brancos e eu já começava a me sentir cansada, não sabia o que estava acontecendo, meus olhos não estavam mais aguentando ficar abertos, eu sentia o quarto de Rachel girar em câmera lenta e meu corpo relaxava largado na cama dela.
"Quinn? Quinn? QUINN!" Eu ouvia a voz de Rachel cada vez mais distante.
"Me responde Quinn… Quinn…?"
Até que tudo ficou preto.
X.X.X.X.X.X.X.X.X.X.X
Abri os olhos assustada e sentindo meu corpo molhado. Não reconheci imediatamente onde me encontrava, tentei olhar em volta e ao piscar várias vezes para focar a imagem, descobri uma figura encolhida numa cadeira e coberta com um cobertor azul clarinho. Rachel dormia encolhida na cadeira e sua expressão parecia agoniada. Será que ela estava tendo algum pesadelo?
Foi quando me dei conta de onde estava. Eu estava na cama de Rachel Berry. E não, não era da forma que eu queria inconscientemente estar. Isso me frustrou um pouco. Ao tentar me levantar para ir ao banheiro senti tonturas e me sentei na cama, senti um puxão de dor e coloquei uma mão nas costas, toquei no curativo que Rachel deveria ter feito enquanto eu dormia. Percorri meus olhos pelo quarto e no canto perto de Rachel vi uma bacia com vários paninhos dentro, a caixinha de primeiros socorros permanecia no criado mudo de Rachel e, em seguida, meus olhos foram diretamente parar no par de calças cuidadosamente dobradas do outro lado da cama. Eram as minhas calças. Rachel havia tirado minhas calças. Ao tentar pegá-las fiz um movimento mal calculado e acabei derrubando a caixinha de primeiros socorros, assustando Rachel e a fazendo pular da cadeira.
"Quinn! Você está acordada!" Ela exclamou feliz e levantou-se para me abraçar. "Você me assustou, Fabray!" Rachel sussurrou no meu ouvido ainda me abraçando. Meus pelinhos do pescoço reagiram logo ao ouvi-la falar naquele tom rouco e sensual, mesmo sendo sem querer. "Pensei que não iria acordar nunca, sua dorminhoca."
"Há quanto tempo estou aqui?"
"Dois dias." Ela me soltou. "Começo a pensar que você é fã de desmaios." Brincou sorrindo.
"Talvez… eu acho."
"Como você se sente? Ainda sente febre?" Tocou-me a testa tentando sentir se eu estava quente. "Acho que ela baixou por enquanto. Mas você tem que ir tomar um banho e enquanto isso eu preparo um café da manhã bem gostoso para você, que tal humm? Acha que consegue tomar um banho sozinha?"
"Acho que sim. Mas eu não quero dar mais trabalho para você. Já basta eu estar ocupando sua cama e estar te dando todo esse trabalho…"
"Então… panquecas americanas ou torradas com mel?" Rachel me ignorou e eu rolei os olhos.
Era de se esperar que ela fizesse aquilo.
"Panquecas americanas." Murmurei enquanto ela já deixava o quarto. Dei um suspiro cansado e levantei-me da cama, me apoiei na parede até chegar ao banheiro e ao chegar lá vi a banheira já pronta com água quente. De repente uma vontade de chorar me atingiu e eu nem sabia direito o porquê. O por que de Rachel me tratar como tratava. Ela cuidava de mim e não me pedia nada em troca por isso. Eu nunca havia conhecido alguém assim. Normalmente as pessoas sempre querem algo de você, independentemente da forma de pagamento. Mas Rachel não era assim. Por que ela não era assim? Por que Rachel era uma pessoa totalmente apaixonável? E então me lembrei de Finn Hudson e da conversa dos dois e de Rachel me dizendo o quão covarde ela era. Mal sabia ela que covarde era eu. Tudo porque eu tinha medo de descobrir o que estava sentindo, um medo idiota de perder Rachel para Finn Hudson. Era o medo de que ela me abandonasse assim que se casasse com ele e pelo pouco que conheci da personalidade de Finn Hudson, ele exigiria que Rachel fosse morar com ele e que ela se submetesse a todos os seus caprichos. Era apenas isso que estava me deixando com as emoções a flor da pele, certo?
Errado!
Era muito mais que isso. Eu só precisava descobrir o que era, ou melhor, eu precisava querer descobrir o que era. Sim, porque lá no fundo… lá no fundo eu sabia que isso era o de menos.
"Eu preciso ver como é que está seu ferimento depois, tudo bem?" Rachel perguntou enquanto me servia duas panquecas no prato e depois as regava com mel.
Estávamos na cozinha, consegui convencê-la a muito custo a não me servir o café na cama, ela relutou um pouco, mas no fim eu fiz a minha melhor carinha de doente fragilizada e ela não resistiu, acabou deixando-me descer com ela para a cozinha.
"Tudo bem."
"Também tenho que medir sua febre, quando eu medi ontem você estava com 39°C e estava suando muito."
"Eu me sinto um pouco melhor agora. Obrigada Rachel."
"Pelo quê?"
"Por cuidar de mim." Eu disse sinceramente.
"Tenho a certeza de que você faria o mesmo por mim." Ela sorriu calorosamente. "Ah! Já ia me esquecendo! Kurt mandou um bilhete para saber como você estava."
"E o que você disse a ele?" Perguntei preocupada. Engoli o pedaço que estava no garfo sem ao menos me preocupar em mastigar. Será que ele havia ligado para me dizer o quão despedida eu estava?
"Eu disse a ele que você estava doente e que não iria trabalhar por, pelo menos, uma semana." Rachel disse autoritária. Meu queixo caiu enquanto eu a encarava. "Não me olhe assim! O que você queria que eu dissesse? E depois, eu não iria te deixar trabalhar assim doente mesmo, então não era como se você tivesse escolha. E depois, Kurt entendeu e te desejou melhoras, ele disse que iria avisar o pai dele e que você poderia ficar descansada que teria seu emprego te esperando quando se recuperasse."
"Mas, Rachel… o que eu vou fazer com uma semana sem fazer nada?"
"Que tal tentar se recuperar?!" Ela rebateu sarcástica. "Por acaso você sabe que poderia ter morrido se eu não descobrisse a tempo seu ferimento e o tratasse?"
"Ok, eu já entendi, você não precisa ser tão dramática."
"Oh Lucy Quinn Fabray! Estou ultrajada!" Rachel disse fingindo indignação e pegando no peito teatralmente. "Eu não sou dramática!" Aquela visão de Rachel brincando para me animar surtiu efeito e eu dei um pequeno sorriso. Ok, eu meio que gargalhei da situação e da visão de Rachel se fazendo de ofendida.
"Sim, você é." Consegui dizer entre risadas. Ela também ria e me olhava com carinho.
"Sim, eu sou." Rachel admitiu um tempo depois, parando de rir enquanto me olhava nos olhos. Eu também fui parando de rir aos poucos e a encarava, quando eu pensava que ela não poderia ficar mais linda do que já era, lá estava ela me surpreendendo e me mostrando que sim, ela poderia ficar mais linda ainda do que já era.
Ficamos nos olhando em silêncio. Rachel de repente ficou séria e quebrou o nosso momento, levantando e recolhendo o meu prato junto com o dela. Me deu as costas e foi para a pia começando a lavar a loiça. Eu a observava em silêncio até ela resolver quebrá-lo.
"Eu sei que esse não é o momento ideal para nós falarmos sobre isso, mas… eu preciso saber." Ela disse ainda de costas para mim. Eu fiquei em alerta com o tom dela. "Por que você não me contou que Finn Hudson esteve aqui me procurando?"
Rachel me pegou de surpresa e eu fiquei sem ação por alguns segundos. E então eu optei por seguir pela via mais fácil:
Mentir.
"Eu não… eu… e-eu me esqueci. Sinto muito."
"Oh." Ouvi seu suspiro aliviado. "Eu pensei que… que você… deixa para lá."
E então um súbito sentimento me atingiu. Eu fiquei irritada e acho que transmiti isso na minha voz quando perguntei grosseiramente:
"Porquê? Ele era alguém importante?"
"Bem, sim… ele é meu noivo."
Não sei por que, mas ouvi-la admitir que ele era seu noivo me deixou triste. Rachel deve ter notado pelo súbito silêncio e se virou, enxugando as mãos num paninho amarelo.
"Nós vamos nos casar daqui há dois meses."
"É… eu sei." Admiti de cabeça baixa.
"Como você sabe?"
"Quer dizer… humm… eu li no jornal na mercearia do Sr. Hummel." Menti rapidamente, me lembrando da conversa dela e de Finn que eu escutara escondida.
"Oh… você viu isso."
"Sim." Ela desviou o olhar. "Acho que agora eu devo te dar os parabéns, certo?"
"Certo." Vi como Rachel estava um pouco corada e sem jeito. Então eu me levantei e com cuidado me aproximei dela, plantando um beijo demorado em sua bochecha esquerda enquanto a abraçava.
"Parabéns, Rachel." Minha voz saiu melancólica em seu ouvido.
"Obrigada Quinn." Ela sussurrou. E então nos separamos.
"Eu vou…" Rachel apontou a porta sem jeito. "Eu vou… buscar o… a caixinha lá em cima para trocar o curativo." Ela terminou extremamente corada e desapareceu pela porta sem esperar uma resposta minha. Eu me deixei cair pesadamente na cadeira e deixei meus ombros caírem derrotada.
A semana passou rápida demais para mim e eu estava vendo o casamento de Rachel se aproximar mais a cada dia. Eu via quando saíamos as duas pelas ruas de Lima as pessoas parando Rachel e a parabenizando, desejando felicidades e um monte de bebês para ela e Finn Hudson, o futuro prefeito de Lima. Não se falava noutra coisa na cidade, além da guerra que continuava sem ter previsão de término, é claro. Rachel via o quão constrangida eu ficava e procurava sempre despachar as pessoas, mas Rachel nunca fora mal-educada, pelo contrário, ela era a pessoa mais bondosa que eu conhecia, então ela sempre sorria e agradecia com um sorriso amarelo.
No fundo eu sabia que ela não estava feliz com esse casamento, mas insistia em não enxergar e tudo o que eu via quando todos falavam desse maldito casamento eram os olhos de Rachel brilhando. Eu já havia admitido para mim mesma que estava com ciúmes de Rachel e isso só contribuiu para me deixar mais confusa ainda. Por que eu estaria com ciúmes de Rachel? Eu não via nenhum motivo para isso. Apenas a minha antipatia pelo noivo dela. Eu não escondia isso desde a primeira vez que nos vimos. Eu sabia que ele não era a pessoa certa para Rachel. Mas então quem é que seria a pessoa certa para ela? Pelo menos eu sabia que Finn Hudson não era essa pessoa. E a visita dele dias depois me confirmou isso.
Era sábado e naquele dia eu estava ajudando Rachel a cozinhar o almoço e estávamos nos divertindo muito. Ela me contava sobre um dos ataques de uma de suas clientes, a mulher encomendou um vestido com Rachel e um mês depois quando foi experimentar acabou rebentando o vestido de tão gorda que estava e acabou culpando Rachel de ter tirado mal as medidas. E o pior é que ela não teria mais tempo de mandar fazer nenhum outro vestido, então Rachel teve que remendar o vestido às pressas com outros tecidos, fazendo a senhora parecer um espantalho ambulante. Nós riamos da história quando ouvimos a campainha tocar. Rachel foi abrir e eu fui atrás dela.
"Olá docinho." Finn disse após roubar um beijo dela, deixando-a assustada. Eu bufei de onde estava e virei os olhos. "Estava com saudades."
"F-Finn! Você não me avisou que viria para o almoço, eu… eu…" Rachel gaguejava me olhando de esguelha. Finn a tinha nos braços e a abraçava. Rachel parecia tão pequena ao lado dele… Mas quando ele me viu soltou-a e ficou me olhando aborrecido.
"Então é mesmo verdade docinho?" Fiz uma careta ao escutar o apelido. Meu estômago estava revirando com aquela cena. Rachel se afastou dele e fechou a porta.
"O quê é mesmo verdade Finn?"
"Eu ouvi por aí que você havia colocado essa… garota… dentro da sua casa. Que ela estava morando com você. Mas eu não acreditei nisso quando ouvi. Mas agora eu estou vendo que é verdade. E você nem me disse nada sobre isso, Rachel." Ele disse acusador.
"Não tinha nada para dizer Finn, Quinn é só uma amiga que eu estou ajudando."
Ela me olhou e essa foi a deixa para que eu voltasse para a cozinha e os deixasse a sós. Murmurei um 'olá' seco para ele e me retirei. Estava magoada com as palavras de Rachel.
Só uma amiga? Só uma amiga? O que você esperava Quinn? Claro que você é só uma amiga!
Os minutos passavam e a minha vontade era de me esconder e ouvir tudo o que estava se passando na sala, eu queria ouvir o que Rachel diria para ele sobre minha estadia na casa dela. Eu estava morrendo de curiosidade para saber o que estava acontecendo lá, algo estava corroendo meu peito quando eu lembrava do beijo arrebatador que ele deu nela assim que chegou e o que estava me matando era saber que Rachel retribuiu aquele beijo, que ela também o queria.
O que você queria, ela vai se casar com ele!
Alguns minutos depois ouvi uma porta batendo e vi Rachel entrar na cozinha com o semblante pesado. Ela não me olhava nos olhos e foi diretamente para o forno tirar a comida. Eu a observei fazer tudo em silêncio. Por um momento me distraí observando o vestido de Rachel e como ele fazia jus a sua beleza, Rachel fazia seus próprios vestidos e eu ficava espantada ao constatar como ela conseguia ficar tão linda mesmo estando num simples vestido florido de verão. Ela era tão delicada! Seus gestos leves me encantavam e me fascinavam, eu poderia ficar olhando para Rachel a vida toda se ela me permitisse. Nunca me cansaria de observá-la, ela era a mais linda peça de arte que eu já havia visto e eu estava começando a me preocupar seriamente com a quantidade de bobagens que meu cérebro conseguia produzir quando eu estava do lado de Rachel. Me perguntava às vezes se Finn Hudson tinha conhecimento da preciosidade que era Rachel Berry.
Não me aguentei mais de curiosidade e quebrei o silêncio.
"Ele já foi?"
"Já. Disse que era uma passada rápida e que tinha de ir tratar uns assuntos da campanha."
"Ok… apenas pensei que ele iria ficar para o almoço e se era para eu colocar outro prato na mesa ou não."
"Não, não… Finn nunca fica para almoçar." Ela respondeu distraída. "Ou jantar."
"Então por que…" você ainda está com ele?Foi o que quis perguntá-la, mas me controlei a tempo. "Por que ele veio?"
"Acredito que isso não seja da sua conta." Rachel disse rispidamente, colocando violentamente a cestinha de pão sobre a mesa.
Eu me assustei com a sua repentina mudança de humor e baixei o olhar. Ela estava certa. Ela não me devia satisfações. Mas mesmo assim, senti meu peito apertar e lá estava eu querendo chorar mais uma vez. Rachel não precisava usar mais que meia dúzia de palavras para me magoar mesmo que essa não fosse a sua intenção, mas quando se tratava de Rachel eu me sentia frágil. Como um cristal que pudesse se quebrar com um ínfimo suspiro. Eu não me reconhecia, logo eu, Quinn Fabray, que sempre aprendera a camuflar minhas emoções, fossem elas boas ou más.
Rachel pareceu notar o que acabara de dizer e me olhou suplicante.
"Oh Quinn, eu… eu… não queria, me desculpa! Me desculpa! É só que… ele me deixou irritada e eu…"
Fiz um sinal com a mão para ela parar. "Olha Rachel, você está certa. Isso não é da minha conta." Respondi sentida sequer olhando para ela.
Um silêncio pesado caiu entre nós e tornou-se desagradável com o passar dos minutos. O resto do dia passou sem que eu e Rachel trocássemos muitas palavras, apenas o básico. Eu estava triste com a maneira com que ela havia me tratado mais cedo por causa dele e ela estava irritada por algum motivo que eu desconhecia. A segunda-feira não demorou a chegar e eu me dirigi ao supermercado aliviada por poder sair um pouco da casa de Rachel. Aliviada em poder respirar ar puro, ou mesmo dar um passo sem que Rachel implicasse comigo e dissesse que eu iria morrer a cada segundo se não seguisse seus conselhos. Às vezes ela conseguia ser dramática demais. Passei o dia trabalhando e notei que o Sr. Hummel não queria me dar trabalhos mais pesados e isso deveria ser culpa de Rachel, pois eu sabia o quanto o Sr. Hummel gostava dela e o quão facilmente ele cedia aos seus pedidos. Meu ferimento estava curando aos poucos e segundo Rachel esse processo seria um pouco demorado por causa da infecção. Mesmo meio brigadas Rachel ainda cuidava de mim à noite antes de dormir no colchão que ela havia improvisado no chão de seu quarto para sempre ter um olho em mim, Rachel fazia uma massagem em volta do ferimento com os paninhos e a água quente para ela desinchar.
Noutro dia eu estava distraída no departamento dos legumes repondo o estoque de cenouras quando avistei uma cabeleira ruiva vindo na minha direção. A princípio não a reconheci, mas à medida que ela foi se aproximando o reconhecimento se fez presente em mim. Era a Sra. Schuester empurrando um carrinho de compras meio cheio e ao lado dela estava um homem alto e loiro de cabelos encaracolados que eu deduzi ser seu marido. Eles se aproximaram de mim e eu a vi sorrindo.
"Quinn! Que bom te ver outra vez!" Ela exclamou sorrindo largamente para mim.
"Eu digo o mesmo, Sra. Schuester." Respondi cordialmente.
"Você agora trabalha aqui? Mas e sua tia Holly? Conseguiu achá-la?"
"Sim, eu estou trabalhando aqui. E sim, consegui achá-la." Disse curta e rápida, a menção do nome daquela mulher me deixava com raiva.
"Oh, que bom querida. Quinn, este é o meu marido Will Schuester e Will, essa é a garota que te falei no outro dia, está lembrado?" Ele acenou para ela e me cumprimentou simpático, logo depois afastando-se um pouco em direção ao departamento das ferramentas. "Ainda bem que eu te encontrei Quinn." Ela sorriu.
"Por que Sra. Schuester?" Perguntei curiosa.
"Porque há alguns dias atrás eu recebi uma correspondência que era sua porque estava escrito Para: Quinn Fabray. E eu não sabia onde te encontrar para entregá-la. Acho que ocorreu um engano nos correios e a carta veio para o antigo endereço da sua tia, e como eu não sabia onde é que Holly se encontrava não a enviei, resolvi esperar e torcer para ver se cruzava com você de novo para te entregar. E aqui estamos nós."
"É… deve ter sido um engano mesmo." Comentei curiosa. De quem seria a carta?
"Bem… engano ou não, aqui está ela." Ela abriu a bolsa e tirou um envelope de lá. Eu fiquei a olhando curiosa até que ela percebeu meu olhar. "Não me olhe assim, era para o caso de cruzar com você que estava andando com ela para cima e para baixo. Ideia do Will."
"Obrigada por guardá-la para mim, Sra. Schuester." Agradeci pegando a carta. A primeira coisa que notei nela foi o selo do exército americano e o meu semblante fechou, eu já tinha uma breve ideia do que se tratava.
"De nada, Quinn. Bom, agora eu vou indo. Passe bem!" Acenou para mim, desaparecendo na mesma direção do marido.
Eu fiquei olhando para a carta nas minhas mãos e estava lutando internamente se deveria abri-la ali ou não. Optei pela segunda opção e a guardei impulsivamente no bolso da bata que usava. Se fosse uma notícia ruim de que adiantaria lê-la agora ou depois? Não faria muita diferença mesmo e eu iria precisar de calma e sossego para lê-la, duas coisas que só poderia ter na casa de Rachel.
O dia foi se arrastando e quando eu finalmente cheguei em casa Rachel já havia começado a fazer o jantar. Ajudei-a no que pude antes de ir tomar um banho. Ela depois trocou meu curativo e fomos jantar. Conversamos sobre coisas superficiais e Rachel me contou que já havia começado a fazer seu vestido de noiva. Tocar nesse assunto me fez lembrar que em menos de um mês e meio Rachel estaria se casando com Finn Hudson na pequena igreja de Lima. Terminamos o jantar sem trocar muitas palavras, ultimamente parecia que Rachel estava me evitando e que eu estava fazendo a mesma coisa com ela. Então quando fomos dormir, esperei Rachel pegar no sono para abrir a carta e começar a ler. Eu mal piscava quando acabei de ler o conteúdo da carta. Estavam me chamando de novo e dessa vez era para o Japão. A carta era curta e objetiva, dizia que o exército estava precisando do maior número de soldados possíveis e que todos eram indispensáveis. Eu já vinha ouvindo desde a Alemanha alguns rumores de um possível ataque nuclear no Japão, mas a carta só serviu para confirmar a verdade. E por pura ironia do destino, a data de partida coincidia exatamente com a data do casamento de Rachel. Essa foi a única coisa realmente importante que eu notei naquela carta. A data do casamento de Rachel. E então o choro veio baixinho, abafado e sofrido. Finalmente admiti para mim mesma:
Eu estava completamente apaixonada por Rachel Berry.
Não sabia como, em que momento ou por que, só sabia que estava e essa era a minha única certeza no momento. A outra era que não seria nada fácil deixá-la ir.
Então meu choro se tornou mais intenso e eu me encolhi no colchão, apertando entre as minhas mãos o colar de Frannie.
N/A: Apenas mais 4 capítulos para o fim. Seria legal saber o que estão achando da fic até agora :)
