Parte IV

"Você não escolhe por quem se apaixonar Quinnie. Isso é uma coisa que simplesmente… acontece, você sabe?" Frannie disse, me olhando com lágrimas nos olhos.

"Mesmo quando acontece com a pessoa errada?"

"Mesmo quando acontece com a pessoa errada. É inevitável isso. Você não manda nessas coisas, você fica como um boneco apenas seguindo as ordens do seu coração. E quando você vê já fez uma besteira grande."

"E você fez… não fez?" Eu perguntei a olhando nos olhos e ela baixou o olhar. "Frannie… olhe para mim." Pedi com calma, levantando seu queixo. Nós eramos praticamente iguais, exceto pela diferença de idade e da cor dos nossos olhos. Eu tinha quinze anos e olhos verdes amendoados e Frannie tinha dezoito e os olhos castanhos.

"Papai vai me matar, Quinn!" Ela disse apavorada. Eu a abracei com força.

"Shhh… esse vai ser nosso segredo. Só nosso, ok?" Acariciei seus cabelos loiros. "Eu te amo. Confie em mim Frannie."

"Eu… eu… eu estou grávida, Quinn."

Acordei suada e sobressaltada, me sentando rapidamente no colchão. Dessa vez não foram apenas tiros, gritos, corpos empilhados e sangue escorrendo pelas minhas mãos. Dessa vez eu me vira levando um tiro e caindo no meio do mato escuro, sem ninguém para me socorrer ou para aparar minha queda.

"Quinn? Você está bem?" A voz preocupada de Rachel invadiu meus ouvidos e me fez esconder a carta que estava em minhas mãos desde a noite passada.

"Sim, eu… eu… está tudo bem, foi apenas um pesadelo." Murmurei enquanto me levantava.

Por um segundo que mais pareceu uma hora, meus olhos caíram na camisa de dormir de Rachel e eu olhei sem querer para o seu decote generoso, o colo moreno e os cabelos castanhos desalinhados caindo em cascata pelos ombros dela. Os olhos castanhos levemente inchados e a cara confusa davam um ar angelical à Rachel. Não me lembrava de ter visto Rachel Berry mais linda do que isso. E o mais interessante era que ela nem se esforçava muito para parecer sexy.

Ela simplesmente o era.

"Tem certeza de que está tudo bem Quinn?" Ela perguntou, tirando-me do transe momentâneo em que eu me encontrava. Balancei a cabeça e murmurei alguma coisa que já não me lembro antes de sair fugindo de Rachel e de sua imagem sexy me atormentando.

No almoço notei Rachel um pouco distante, ela mal me olhava e quando o fazia desviava logo o olhar. Alguma coisa me dizia que algo estava acontecendo e eu não sabia o que era. Eu estava distraída também, meio distante de tudo e principalmente de Rachel. Só a ideia de ter que voltar para lá me assustava e a possibilidade de eu nunca mais ver Rachel na minha vida estava me atormentando. Eu podia não sobreviver dessa vez.

Durante todo o almoço eu sofria uma guerra interna entre contar à ela ou não sobre a carta, eu não poderia prever sua reação e muito menos o que ela sentiria ao saber que em breve eu estaria voltando para o campo de batalha. Minha cabeça estava doendo e eu tentava parar de pensar e me concentrar no prato que estava na minha frente, mas não conseguia me segurar e era inevitável não lembrar. Eu não queria voltar. Nunca mais. Mas essa decisão não era apenas minha. Eu não era a única sofrendo as consequências dessa guerra.

"Quinn?" Rachel estalou os dedos na minha cara e eu olhei para ela atordoada. "Está tudo bem?"

"Está… porque não haveria de estar?" Tentei disfarçar baixando os olhos para o prato e revirando a comida.

"Porque, eu não sei… você acordou estranha hoje, está distraída e parece estar com a cabeça noutro lugar."

"Eu só estou um pouco cansada."

"Ok." Ela desviou os olhos para o prato também. Seus dedos batiam irritantemente na mesa de madeira causando um barulho desagradável. Ela estava ansiosa… e curiosa. E eu já podia até prever o que se seguiria.

"Quinn… eu posso te fazer duas perguntas?"

"Pode Rachel." Eu disse já em alerta.

"Ok. Eu sei que… ok, talvez eu…" Ela começou meio insegura. "Ok, olha. Eu realmente não sei o que fazer, eu sei que agi mal com você e não deveria… o jeito como estamos… você ainda está zangada por causa daquilo que eu disse sobre não ser da sua conta…? Sobre o Finn…?"

"Huh? Oh não. Não Rachel, eu não estou zangada. Na verdade acho que nunca estive." Menti com todos os dentes encarando Rachel, torcendo para que ela não percebesse que eu estava mentindo. Só eu sabia como aquilo me machucou.

"Ok então… eu acho."

"Você não tinha dito que eram duas per…"

"Quem é Frannie?" Rachel me interrompeu. Dei graças à Deus por não estar mastigando e nem bebendo nada no momento, caso contrário teria engasgado. Olhei assustada e ao mesmo tempo surpresa para Rachel, ela me olhava com uma intensidade que me fazia corar.

"Quem?" Perguntei tentando disfarçar.

"Frannie. Quem é ela? E não tente me enganar, eu ouvi você dizer duas vezes esse nome enquanto estava dormindo." Eu pude notar a irritação na sua voz. Ela estava séria e me olhava esperando uma resposta.

"Ela era minha irmã. E eu não iria tentar te enganar." Eu disse magoada, levantando da mesa e levando meu prato junto para a pia.

"Oh." Ela murmurou antes de eu sair pela porta.

Nos dias que se seguiram eu procurei ficar o mais distante possível de Rachel. Não porque eu não queria estar perto dela, mas me magoava cada vez que ela comentava algo sobre o casamento ou falava sobre o vestido de noiva que ela mesma estava fazendo. Eu sabia que era errado tudo o que eu estava sentindo e talvez fosse até bom que eu me afastasse dela de uma vez por todas, já tinha decidido que iria partir e que só avisaria Rachel nas vésperas do casamento, ela estava muito empolgada com tudo e embora ela não quisesse mostrar muito interesse eu sabia que ela estava adorando tudo aquilo. No princípio ela até que se mostrou um pouco arredia com a situação, mas depois, ouvindo toda Lima comentar sobre o casamento e do quão luxuoso e bonito ele seria, Rachel começou a se empolgar com a ideia e fazia questão de tentar me convencer a ser sua madrinha de casamento. Quando ela tocava nesse assunto eu apenas lhe sorria e nada dizia, e ela tomava aquilo como um sim. Minha covardia me impedia de dizer a ela que eu iria abandoná-la no dia que supostamente seria o mais feliz da sua vida. Mas eu apenas pensava que talvez seria melhor se fosse assim. Rachel não mostrava nenhum sinal de que gostava de mim da mesma forma que eu aprendi a gostar dela e constatar isso não era um incentivo para me fazer mudar de decisão. Então que ela se casasse com Finn Hudson e arruinasse sua vida. Ele nunca daria à Rachel o valor que ela merecia, nunca estava presente e agia como se soubesse que Rachel já era sua e não se preocupava em mantê-la, apenas focado em sua carreira como político e nunca dando à ela a devida atenção que merecia.

Eu via o quanto Rachel ficava magoada com isso nas poucas visitas que ele fizera algumas semanas antes do casamento. Ele nunca se demorava, para o meu alívio, e sempre se esquivava de Rachel dando a mesma desculpa: a de que tinha que cuidar da sua campanha e do seu futuro. Mas nunca se preocupava em cuidar de Rachel.

Quantas não foram as vezes que eu apanhei Rachel chorando à noite no escuro pensando que eu já dormia enquanto eu também lutava com meus sentimentos? Quantas vezes eu não a peguei com os olhos inchados e sempre que eu perguntava ela dava uma desculpa qualquer? Ou mesmo, quantas vezes eu não vi o olhar magoado dela sempre que ele ia embora?

Várias vezes.

Por várias vezes eu presenciei isso e notei como Rachel ficava destruída. Ela não comentava comigo, não falava sobre isso e eu sabia que não deveria perguntar ou receberia uma resposta como a primeira que tive ao perguntar da razão da visita de Finn.

Rachel não se abria comigo e eu me sentia como se ela já não confiasse mais em mim. Você nunca confiou nela para se abrir também, minha mente me acusava. Eu sabia que não tinha o direito de reclamar nada. Como ela mesma havia dito 'eu era apenas uma amiga que ela estava ajudando'.

Mas então minha boca enorme ia e estragava tudo como sempre.

Eu já não mais dormia no colchão no quarto de Rachel, tinha voltado para o sofá e estava, por um lado, aliviada por não ter que me deparar com a figura de Rachel quando acordava todas as manhãs, me sentia como se estivessem me torturando toda vez que a via daquele jeito e não podia deixar de desejar acordar ao lado dela todas as manhãs só para vê-la daquele jeito. Por outro lado eu estava triste por saber que não teria mais aquelas visões de Rachel e que em breve todas elas pertenceriam a Finn Hudson. Não poderia usar meu ferimento como desculpa para permanecer lá, Rachel o havia tratado com tanto cuidado e carinho que ele já estava quase cicatrizado. Graças à ela a infecção não se espalhou e nada mais grave aconteceu. Embora eu ainda sentisse algumas dores quando ficava em determinadas posições, não era muito para que me preocupasse. Mas mesmo assim eu sabia que não poderia mais continuar dormindo com ela ou acabaria fazendo alguma besteira e perdendo Rachel de vez, a conhecia bem demais para saber que ela não era muito receptiva a atitudes impulsivas, Rachel gostava e fazia questão de planejar cada coisa que fazia, cada ação praticada ou atitude tomada. Eu é que não seria burra o suficiente para arriscar o pouco que tínhamos com alguma atitude impulsiva, embora eu quisesse muito.

A noite estava um pouco fria e eu havia acendido a lareira na sala para aquecer a casa e deixá-la um pouco mais confortável. Rachel como sempre fez o jantar com a minha ajuda e comemos em silêncio, apenas trocando palavras quando se fazia necessário. Quando acabamos de jantar fizemos o mesmo ritual de recolher e lavar a loiça, arrumamos a cozinha e deixamos tudo limpo.

Faltavam apenas alguns dias para o casamento e não era só Rachel que estava com os nervos à flor da pele. Eu estava mais irritada que o normal e errava quase tudo na mercearia do Sr. Hummel, Kurt teve que me repreender quando descobriu que eu havia arrumado os enlatados no departamento dos congelados. Não preciso nem contar o quão constrangida fiquei ao me aperceber do que tinha feito.

Eu me revirava no sofá completamente sem sono. Naquela manhã tinha apanhado Rachel com os olhos vermelhos antes de ir trabalhar. Tinha quase certeza de que ela tinha chorado e provavelmente já sabia por quem. Só não sabia como é que ela conseguia aguentar aquilo. Se já era assim com ele antes mesmo de casar, por que ela estava se casando mesmo? Acho que agora compreendo meu pai quando ele dizia que as mulheres eram incompreensíveis. Depois de muito tempo sem conseguir dormir, levantei-me e abri a porta, saindo para a pequena e aconchegante varanda de madeira de Rachel. Fechei a porta e me sentei num dos primeiros degraus, embrulhei-me no lençol azul absorvendo o cheiro de Rachel que parecia nunca querer me deixar só. A rua estava um pouco escura e vazia. Não faltava muito para o amanhecer e o céu ainda estava um pouco escuro, conservando ainda algumas estrelas brilhantes e uma lua solitária. Talvez essa fosse a última vez que eu as veria ou que teria a paz necessária para as poder ver. Meu futuro era incerto e, sinceramente? Eu não queria ir. Queria poder ficar com Rachel e vê-la, pelo menos, entrando na Igreja de vestido branco, linda e delicada como só ela sabia ser.

Um bom tempo depois ouvi a porta bater e olhei para trás. Rachel vinha enrolada em seu roupão de seda e tinha os cabelos soltos.

"Ei." Rachel disse suavemente sentando-se ao meu lado.

"Ei."

"O que está fazendo aqui? Está frio."

"Acho que o mesmo que você."

"Eu ouvi a porta bater e pensei que talvez você tivesse saído. Fiquei preocupada e então resolvi descer para ver se estava tudo bem."

"Está tudo bem Rachel, eu acho que você deveria ir dormir agora."

"Não estou com sono." Ela se aproximou mais de mim e encostou-se no meu ombro.

"É… eu também não." Falei, um pouco perturbada com a nossa proximidade.

"Quinn, eu… eu queria que você me falasse mais sobre sua irmã, se isso não te incomodar. Eu sei que você não fica muito confortável ao falar sobre sua vida, mas eu preciso saber. Eu preciso conhecer mais de você e você pode achar que é só porque eu estou curiosa em relação à sua vida, mas… ok, fora isso… eu estou realmente preocupada com você. Então você não pode me culpar por querer conhecer mais sobre a minha futura madrinha, não?" Rachel disse devagar, como se estivesse com medo que eu fugisse dela.

"Como você faz isso, Rachel?" Perguntei distraída enquanto observava as estrelas.

"Como eu faço o quê?"

"Você sabe… você não tem ideia de quantas vezes eu já tentei te entender, quantas vezes eu já não me perguntei o por que de você estar fazendo isso ou aquilo por mim. E sim, eu sei." Rachel quis protestar e eu levantei uma mão calando-a. "Eu sei que você só queria ajudar, mas sinceramente? Você fez muito mais do que isso. Eu nunca conheci alguém como você Rachel."

"Como assim, alguém como eu?" Ela perguntou rapidamente.

"Com um bom coração, atenciosa, amável, linda, maravilhosa, engraçada, amiga… com alguns defeitos irritantes também, mas… você tem que intender que eu estava morando na rua. Sem nada. E então você apareceu e me deu tudo."

"Quinn…" Ouvi-a murmurar sem jeito.

Me virei para encará-la.

"Eu falo sério, Rachel. Você sabe, eu nunca fui muito boa em me abrir, então me desculpe por isso."

"Não precisa…"

"Frannie morreu num acidente de carro com meu pai." Interrompi-a bruscamente. "Ela só tinha dezoito anos e estava grávida. Quatro meses." Rachel colocou uma mão na boca. Tirei cuidadosamente o colar de dentro da blusa e do pescoço. Estava conseguindo, a muito custo, controlar minhas lágrimas. "Ela conheceu esse rapaz, Noah, quando ainda éramos pequenas e logo se apaixonou por ele. Eles começaram a namorar escondido dos nossos pais e ela me contava tudo, sabia que se eles descobrissem iriam matá-la. Então ela ficou grávida de Noah e não queria contar para ele, na verdade, se eu não insistisse ela não iria contar nem para mim."

"Talvez ela estivesse com medo." Rachel murmurou.

"Ela estava aterrorizada!" Respirei fundo. "Eu me lembro que naquele dia nós iriamos visitar meus tios numa cidadezinha aqui perto. Eu e minha mãe escapamos porque eu acabei dormindo demais e ela teve que ficar para me acordar, papai e Frannie não quiseram esperar e partiram. O carro despistou-se e os dois morreram na hora."

"Quinn… você não tem que continuar…" Senti a mão dela no meu ombro.

"Não, eu… eu quero continuar." Murmurei. "Minha mãe ficou tão devastada quando soube que ela estava grávida… eu até tentei achar Noah para contar para ele, mas nunca o encontrei. Então ficamos só eu e mamãe por alguns anos até essa maldita guerra começar e tudo dar errado de novo. Quando eu ainda estava num acampamento numa cidadezinha na França antes de partir para a Alemanha, recebi uma carta de uma vizinha que supostamente era amiga da minha mãe. Eu acabava de entrar para o exército e acho que não fazia nem sete meses que estava lá. Nessa carta essa vizinha… ela me informava que minha mãe havia falecido. Ela teve um ataque cardíaco..."

Um silêncio pesado caiu sobre nós duas. Eu me perguntava no que Rachel estaria pensando agora. A senti entrelaçar nossos braços e dar um aperto leve.

"Eu sinto muito Quinn."

"Não sinta." Eu disse com a garganta seca. Limpei discretamente uma pequena lágrima e tentei disfarçar para que ela não se apercebesse que eu estava chorando. "E você não deve imaginar o que eu senti ao voltar para casa anos depois e ver que a mesma vizinha que se dizia amiga da minha mãe havia vendido a nossa casa para um casal de estranhos. Que eu estava sem família, sem casa, sem lugar para morar, sem ter o que comer… eu estava sem nada. Estava dormindo na ferroviária porque não tinha mais para onde ir, nem dinheiro suficiente para comprar um bilhete para Nova Iorque e tentar procurar o resto da minha família eu tinha. Então eu me contentei em ficar na ferroviária dormindo no chão e pensando se algum dia eu viria a ter um lar de novo. As pessoas quando me viam lá sentada no chão pensavam que eu era uma mendiga e depositavam alguns trocados no meu casaco, foi graças a isso que eu consegui sobreviver. Fazia as minhas refeições no Breadstix e me lavava na casa de banho da ferroviária. Você acredita que eu fiquei quase um mês sem tomar banho?" Brinquei rindo, tentando descontrair o momento pesado ao me lembrar de Rachel na ferroviária fazendo uma careta e me mandando tomar banho.

Rachel acabou rindo e quebrando o momento pesado.

"Eu sabia que aquele cheiro vinha de você!" Rachel acusou afastando a cabeça um pouco do meu ombro para me olhar. Me perdi por alguns segundos em seus intensos olhos castanhos e Rachel teve que me abanar um pouco. "Quinn? O que foi?"

"Nada… é só que… você é tão linda." Eu disse idiotamente, olhando fixamente nos olhos dela. Rachel desviou os olhos dos meus e se afastou um pouco de mim. Eu imediatamente senti falta do seu calor. Não dava para perceber por causa da escuridão, mas eu poderia jurar que Rachel estava corando com meu comentário estúpido.

Rachel ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer:

"Você também é linda Quinn. Por fora e por dentro também." Ela se aproximou de novo e encostou a cabeça no meu ombro olhando o céu.

"Você não vai dizer nada?" Perguntei curiosa.

"Sobre o quê?"

"Sobre… sobre tudo isso que eu te falei."

"Eu acho que não tenho muito para dizer sobre isso Quinn… Eu tento, mas não consigo imaginar uma só pessoa passar por tudo isso que você passou e não quebrar. Não posso dizer que entendo o que você passou, porque acho que nunca entenderia… mas de alguma forma eu me sinto orgulhosa de você. Você não desistiu de viver depois disso tudo… saber disso me orgulha porque agora eu sei que não me arrependo nem um pouco por te ter colocado dentro da minha casa."

"Nem eu me arrependo por ter aceitado a sua ajuda." Eu disse emocionada. Rachel me olhou e percebeu meus olhos marejados.

"Você está chorando Quinn?"

"O quê? Não! Não, eu… eu… entrou alguma coisa no meu olho e… e…" Eu tentava disfarçar inutilmente, limpando algumas lágrimas que ameaçavam cair.

Rachel riu da minha atitude fracassada e puxou levemente meu braço.

"Vem, vamos dormir. Já está quase amanhecendo."

"Você não quer ver o sol nascer?" Perguntei impulsivamente enquanto nos levantávamos.

"Bem… querer eu até quero, mas…" Eu a olhei com a minha melhor cara de cachorro abandonado na chuva. "Ok, não precisa me olhar assim, nós podemos fazer isso." Ela disse rolando os olhos, sentando-se de novo ao meu lado.

"Eu gosto." Comentei distraída.

"Você já viu o que vai vestir para o meu casamento?" Rachel perguntou de repente. "Eu já pensei em tudo, Kurt vai ser seu par para meu padrinho e nós precisamos marcar um dia para…"

"Você o ama?"

"E… o quê?"

"Você o ama? Digo, o Finn. Você o ama?"

Eu não olhava para ela. Estava olhando para o céu e para as estrelas já me arrependendo por ter perguntado aquilo, mas eu não pude evitar. Eu precisava saber... E embora eu já tivesse um forte palpite de que não iria gostar da resposta, mesmo assim, eu precisava saber. Precisava ouvi-la dizer…

"Sim, eu o amo… muito. Ele é um bom homem." Rachel disse emocionada num sussurro.

Sabe quando você parece que está sufocando e não consegue respirar, quando o ar faz tanta falta que você só pensa em acabar com o sofrimento e nada mais? Sim… era assim que eu estava me sentindo. Rachel parecia não notar o meu estado, eu estava paralisada e um nó enorme se formou na minha garganta, ela continuava falando e dizendo o quão maravilhoso Finn Hudson era e eu não conseguia fazê-la parar. Eu queria, mas estava sem forças. Você ter um palpite é uma coisa, mas… ter a certeza de que seu palpite estava certo é uma outra coisa completamente diferente. Mas eu mereci, não? Eu quis ouvir da boca dela…

"Eu o amo muito… ele é tudo o que eu sonhei num homem, mas…"

"Eu sinto muito Rachel, mas acho que vou dormir." Me levantei bruscamente assustando-a.

Já não estava mais aguentando ouvir ela dizer aquilo tudo sobre aquele idiota! Será que ela não via que ele só queria se casar com ela para que pudesse vencer a campanha? Será que Rachel não via que ele não a dava valor? E todas as vezes que ela chorou por causa dele? Isso não contava?

Rachel me olhou confusa.

"Mas… você não disse que queria…"

"É, eu disse, mas mudei de ideia. Amanhã eu acordo muito cedo para ir trabalhar então acho melhor descansar um pouco." Dei as costas à ela sem esperar uma resposta e abri a porta, entrei e me encolhi no sofá cobrindo-me dos pés à cabeça. Eu sabia que Rachel viria perguntar se estava tudo bem. Eu sabia que não era culpa dela e mesmo assim daria uma resposta que a magoaria. E eu também sabia agora que ela amava Finn Hudson.

Alguns segundos depois ouvi a porta bater, mas não me mexi. Minha respiração estava ofegante e eu queria que Rachel subisse logo e me deixasse chorar em paz. Segurava a nova onda de lágrimas com tudo o que tinha, apertava os dentes para não demonstrar a ela que eu desabaria a qualquer instante. Não podia deixar isso acontecer na frente dela mais uma vez. Já bastava a vergonha que eu sentia ao me lembrar da outra noite quando chorei nos braços de Rachel e ela ficou sussurrando palavras confortáveis no meu ouvido, me acariciando e me ninando até eu adormecer.

Não.

Eu estava zangada com ela e com raiva de Finn Hudson.

Eu estava furiosa!

Mas que culpa ela tinha de amar Finn Hudson?

"O que acabou de acontecer aqui fora Quinn?" Ouvi sua voz perto de mim.

"Não aconteceu nada Rachel." Respondi seca.

"Como não aconteceu nada? Então por que você saiu de lá daquele jeito? Eu fiz algo errado? Eu disse algo errado?" Sim, você disse! "Me responda Quinn!"

"Eu já disse que estou com sono!"

"Mas você tinha dito que não…"

"Rachel, vá dormir e me deixe em paz, ok?" Eu disse rispidamente, elevando um pouco o tom de voz.

Por que ela simplesmente não se ia?

"Você pode tirar esse cobertor? Eu estou falando com você, pare de agir como uma criança mimada!" Rachel disse irritada, tentando puxar o cobertor de mim. Mas eu era mais forte que ela e consegui mantê-lo em mim. "Quinn!"

"Me deixe em paz Rachel! Eu estou cansada!" Puxei o cobertor de volta e tapei minha cabeça.

"Quinn…" Rachel sussurrou naquele jeito doce e adorável que só ela possuía. Ela estava preocupada e eu pude notar em sua voz. Ela sempre ficava ansiosa quando estava preocupada com alguma coisa e por incrível que pareça, me senti uma egoísta pela forma como a estava tratando. "O que está acontecendo com você?"

"Só… cuide da sua vida." Sussurrei cansada. Ouvi seus passos rápidos em direção à escada e pouco tempo depois, ouvi a porta do quarto dela bater violentamente.

Duas lágrimas quentes rolaram pelas minhas bochechas.

Ela estava magoada.