Parte V
X.X.X.X.X.X.X.X.X.X
"Você consegue ver Quinnie?" Frannie apontava para o céu da janela do nosso quarto.
"Ver o quê?"
"As estrelas. Como elas estão brilhando." Ela disse maravilhada.
"Hum?" Murmurei distraidamente da cama.
"Deixa para lá…"
"Frannie?" Ela olhou para mim com os olhos brilhando, refletindo a lua neles. Eu respirei fundo antes de perguntar. "Quando você pretende contar para ele que está grávida?"
Vi seus olhos marejarem numa velocidade espantosa e o leve sorriso que estava em seus lábios tão parecidos com os meus desaparecer. Ela virou-se de novo para a janela quebrando o nosso contato visual.
"Eu não posso." Ela sussurrou já cobrindo a cara com as mãos e iniciando um choro baixinho.
Eu me aproximei dela e a abracei pela cintura, acariciava seus cabelos tentando fazer ela se acalmar.
"Você não pode… ou não quer?" Disse baixinho em seu ouvido. Ela fungava e limpava as lágrimas que não paravam de cair.
"Você sabe, Quinn… nós nem sempre podemos fazer o que queremos…"
Olhei para o pequeno relógio no meu pulso - que era do falecido irmão de Rachel - e ele marcava 04h03 Am.
O céu ainda estava escuro e não dava sinais de que o sol iria nascer logo. De alguma maneira eu soube que o dia iria ser cinzento, isso se não chovesse. Me encolhi mais nos degraus da varanda de Rachel e continuei pensando na minha vida e de como ela estava uma bagunça ultimamente. Meus sentimentos estavam uma confusão e eu não saberia dizer o que estava sentindo naquele momento. Faltavam apenas três dias para o casamento de Rachel e eu não sabia o que fazer da minha vida. Eu sabia que já tinha tomado minha decisão, mas não sabia como contar a Rachel. Não nos falávamos direito desde o dia que ela admitiu para mim que amava Finn Hudson e eu ainda me sentia em choque cada vez que lembrava da maneira como ela havia dito que o amava.
Eu não estava mais aguentando aquilo. Nós duas estávamos tão perto e ao mesmo tempo tão longe que até me assustava. Estava me sentindo sufocada com tudo o que vinha sentindo e não podia colocar para fora. Eram coisas que eu nunca havia sentido e não sabia como lidar com elas. Então eu me fechava e procurava afastar Rachel o máximo de mim e ela não fazia muito esforço para tentar se aproximar, não a culpava, ela estava muito magoada depois da nossa 'breve' discussão e mesmo quando tentei me desculpar com ela, Rachel me ignorou completamente e isso só serviu para me deixar irritada e ainda mais triste.
Decidi que não passaria daquele dia e eu contaria à Rachel sobre a carta e da minha ida para o Japão. Eu e mais outros soldados que tinham entrado de licença teríamos primeiro que apanhar um trem que nos levaria até Newport, Virgínia, e depois nos juntaríamos aos outros num pequeno campo de concentração até que pudessem nos transportar até o Japão. Eu já estava familiarizada com o processo e estava a par do quão cansativo seria toda essa viajem. Teria que me preparar para encarar tudo de novo ou então eu acabaria quebrando.
"Rachel…" A chamei enquanto tomávamos café. Ela levantou os olhos da xícara por alguns segundos e depois os baixou, levantando-se e levando a xícara para a pia. "Rachel…" A chamei de novo, dessa vez mais forte. Ela me olhou séria e com cara de poucos amigos.
"O quê?" Ela disse grosseiramente.
"Nós precisamos conversar." Eu disse meio sem jeito. Rachel estava conseguindo me intimidar com seu olhar penetrante e sua postura séria, eu não estava acostumada a vê-la tão diferente da minha Rachel e confesso que estava um pouco assustada com isso.
"Nós não temos nada para conversar."
"Sim, nós temos. Não fuja, é importante." Peguei seu pulso impedindo-a de sair da cozinha.
Rachel me olhou extremamente séria, olhou para a minha mão segurando seu pulso e depois fez todo o percurso de volta até meus olhos. Eu logo entendi o recado e a soltei.
"Você tem um minuto. Fale!"
"Olha… eu não quero tomar seu tempo, então vou tentar dizer o mais rápido possível." Comecei cautelosa. "Eu não vou estar presente para o seu casamento."
"O quê?" Dessa vez ela perguntou surpresa.
"Eu recebi uma carta do exército, estarei embarcando para o Japão daqui há três dias… exatamente no dia do seu casamento. Eu só queria avisar para você ter tempo de arranjar outra madrinha e…"
"Eu não estou acreditando Quinn!" Rachel gritou furiosa. Eu me assustei com o grito dela e saltei da cadeira num pulo. "E só agora você me diz isso assim!?"
"Eu…"
"Você não pode estar falando sério!"
"Sinto muito, mas eu estou."
"Faltam três dias para o meu casamento… e você só me diz isso agora? Você… quando você recebeu essa carta?" Ela me olhou magoada e eu senti meu peito se comprimir. "Fale alguma coisa Quinn! Quando?"
"Eu iria te contar, Rachel…"
"Eu suponho que há muito tempo, não é? Você escondeu isso de mim todo esse tempo! Quando você pretendia me contar, hein Quinn? Oh, oh, melhor! Você não iria me contar, não é mesmo? Eu iria chegar em casa e não iria te encontrar mais aqui, era esse o seu plano?" Ela gritava sem me dar uma chance de falar. "Eu pensei que você fosse diferente… mas estou vendo que me enganei. Você é igual a todos os outros, só queria se aproveitar de mim e da minha bondade, não é Quinn? Me responda!"
Eu me levantei irritada ao ouvir as acusações que ela me fazia.
"Rachel, me escuta…"
"Aposto que você deveria estar debochando de mim pelas minhas costas! E pensar que eu cuidei de você… que te defendi quando Finn disse que você era uma interesseira… eu te arranjei um emprego! Eu! Eu fiz por você! E você vai embora como se isso não fosse nada e… e vai me deixar aqui sozinha?"
"Não, você não entendeu…"
"Você vai embora! Eu entendi perfeitamente!"
"Rachel…" Tentei mais uma vez, mas ela estava desnorteada. Rachel já chorava e estava agressiva, não me deixava tocá-la e nem me aproximar.
"Não! Eu não quero ouvir!"
"Você tem que me deixar explicar…" Tentei segurá-la antes que ela saísse pela porta da cozinha, mas foi tarde demais. Rachel já tinha saído correndo e não me deu nenhuma chance de explicar. Me joguei derrotada na cadeira e não demorou muito para eu começar a chorar também.
Quase duas horas depois cheguei na mercearia do Sr. Hummel com a cara vermelha e os olhos inchados de tanto chorar. Fui fazer minhas tarefas mais lenta que o normal e mais desmotivada também. Não tinha forças para quase nada. Só pensava em Rachel e onde ela estaria agora… como ela estaria agora.
Arrastava uma caixa pelo chão do armazém quando notei uma sombra atrás de mim. Me virei e vi que era o Kurt. "Ah… é você." Murmurei decepcionada. Eu estava esperando uma outra pessoa, de preferência baixinha, morena e usando um vestido de bolinhas verdes com uma fita da mesma cor prendendo os cabelos.
"Sim, sou eu querida. Esperava outra pessoa?"
"Não."
"Você não quer me contar o que aconteceu?"
"Não aconteceu nada Kurt." Murmurei enquanto arrastava outra caixa pelo chão.
"Pare com isso, está me irritando!" Ele fez um barulho estranho e veio pegar minhas mãos. "É óbvio que deve ter acontecido alguma coisa para você estar assim…" Me apontou. "Me conte… foi por causa da baixinha?"
"Hum?"
"Rachel."
"Oh… mais ou menos."
"Mais para mais ou mais para menos?"
Eu rolei os olhos.
"Mais para mais…"
"Hum… eu sabia." Ele murmurou, mas eu consegui ouvir perfeitamente. "Olha Quinn, você está dispensada por hoje!"
"O quê?" Perguntei surpresa sem entender.
"Estou te dispensando por hoje. O movimento está fraco aqui e Blaine e eu podemos dar conta. Vá para casa e se resolva com ela."
"Mas… eu ainda não acabei meu trab…"
"E nem vai acabar hoje pelo jeito preguiçoso que você estava arrastando essas caixas." Ele me cortou enquanto me empurrava para a porta do armazém. "Não se preocupe, meu pai não vai ficar sabendo… eu sei como guardar segredos, sabia?" Kurt piscou exageradamente.
"O que você quer dizer com isso?" O olhei assustada. Ele tinha um sorrisinho debochado nos lábios e me olhava com uma cara de paisagem.
"Eu acho que você já deve ter um palpite sobre isso, humm? Agora vá, desapareça antes que eu me arrependa de estar fazendo isso."
Eu saí de lá confusa com o que Kurt havia me dito. O que será que ele queria dizer com aquilo… ele estava estranho. Mas não me preocupei muito pensando nele, no momento eu estava mais preocupada com Rachel para pensar nas indiretas de Kurt. Já era quase meio-dia e eu esperava encontrar Rachel em casa fazendo o almoço como sempre, precisava conversar com ela e me explicar. Não podia deixá-la pensar que eu estive enganando-a todo esse tempo… não era justo o que ela estava fazendo comigo. Não sabia por que ela estava tão desnorteada, pensei que depois da nossa discussão e do quanto a magoei ela quisesse me ver bem longe da sua casa, ela era apenas muito civilizada e educada para me dizer isso na cara.
Chutava algumas pedrinhas pela frente enquanto caminhava até a casa de Rachel. Minhas mãos estavam no bolso das calças largas que eram do irmão de Rachel, ela fazia questão que eu usasse as roupas dele já que basicamente suas roupas eram curtas demais para mim e eu não me sentiria muito confortável usando um vestido depois de passar anos sem usar um. Talvez um dia…
De longe estranhei a presença de um carro preto parado na frente da casa. Me aproximei devagar e não demorou muito para eu me lembrar de quem era o carro. Finn Hudson… ele estava em casa com Rachel. Corri até a porta desesperada, mas antes de colocar a mão na maçaneta, as palavras de Rachel me fizeram parar. 'E pensar que eu cuidei de você… que te defendi quando o Finn disse que você era uma interesseira…'
Com as palavras ainda ecoando na minha mente, recuei e fui por trás da casa, abri a porta da cozinha cautelosamente e entrei em alerta, não queria que Rachel me visse ali. Quase sorri ao pensar que espiar Rachel já estava se tornando um hábito. Ouvi as vozes vindo da sala e me coloquei em alerta, na verdade, em posição de fuga no caso de Rachel me encontrar espiando e resolver atirar o sofá em cima de mim.
"O que eu estou tentando dizer é que… é que… eu não sei Finn!" Rachel suspirou dramaticamente. Finn estava sentado no sofá e ela estava de pé na sua frente, Rachel esmagava as mãos e olhava para o chão. Eu podia dizer que ela estava ansiosa e nervosa. Não conseguia ver muito bem seu rosto. "Eu estive pensando nesses últimos dias… você sabe que crescemos praticamente juntos e que eu tenho um carinho muito grande por você, mas, honestamente? Não sei se é realmente isso que eu quero para mim… para minha vida. Você me entende?"
"Rachel, docinho… eu não estou entendendo o que você está querendo dizer com isso." Ouvi sua voz grossa dizer. "Olha, eu vim aqui porque, você sabe, nós vamos nos casar daqui há três dias… queria ficar um pouco com você para namorarmos…" Fiz uma careta ao escutar aquilo. "Curtirmos os nossos últimos momentos como noivos e…"
"Finn…" Rachel o interrompeu impaciente.
"Você não pode me culpar por isso! Eu sei que ultimamente eu não tenho sido o melhor exemplo de noivo, que não tenho estado presente e que você sofre com isso. Acredite, eu sei… e me machuca saber que eu sou a causa desses seus olhos vermelhos." Ele levantou a mão e tocou o rosto dela. Vi Rachel afastar-se suavemente. "Não minta para mim dizendo que foram por causa das cebolas que esteve cortando porque eu sei perfeitamente que você esteve chorando. E se eu estive ausente esse tempo todo baby, é porque quero que tenhamos um futuro juntos quando nos casarmos e que nada te falte nunca."
"Eu reconheço que estive chorando sim… mas agora já não importa mais o porquê." Rachel balançou a cabeça. "Confesso que sua ausência sempre me magoou muito, quando você preferia estar nas reuniões com seu pai por causa da campanha e não comigo. Eu me sentia trocada, deixada de lado… como se minha companhia nunca fosse boa o suficiente para você. Eu sentia a sua falta, sentia falta da sua atenção e dos seus carinhos, porque parecia que você nunca tinha tempo para mim e isso tudo me deixava mal. Mas eu sei que você não fazia por mal… que nunca fez, na verdade. Mas… eu não sei se quero essa vida para mim."
"O que você quer dizer com isso?" Ouvi Finn perguntar assustado, sua voz um pouco trêmula. "Eu não entendo, Rachel…"
"O que eu estou tentando te dizer desde que te chamei aqui é que… eu não tenho mais certeza se quero me casar com você. Eu acho que precisamos de um tempo."
"O q-quê?"
"Eu estou apavorada e tem tantas coisas dentro de mim agora fazendo uma confusão que eu não consigo entender. Eu não quero magoar você e muito menos ferir seus sentimentos, mas você tem que entender que não é só você… sou eu também."
"Rachel… porquê? O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa que…?"
"Não, Finn… não. Eu não sei o que aconteceu, acho que foi tudo tão de repente e… quando eu vi o casamento já estava marcado e tudo já estava caminhando para ele. Eu juro que eu tentei… eu tentei ficar feliz, tentei me alegrar e me preparar para o meu casamento de sonhos com o cara dos meus sonhos, esquecer todas essas perguntas sem respostas rondando a minha cabeça e…"
"E o que Rachel?" Finn gritou ao se levantar do sofá e eu confesso que, por um segundo, senti medo do que ele poderia fazer com Rachel. Por um lado eu estava surpresa pela atitude de Rachel e até um pouco feliz por ele estar levando um pé na bunda, por outro lado eu estava temerosa e apreensiva. E curiosa, claro. A mesma curiosidade que Finn deveria estar sentindo: Por que Rachel estava fazendo aquilo?
"O que você está querendo me dizer? Que já não quer mais se casar comigo?" Ele gritou. Rachel afastou-se dele e foi para um canto da sala.
"Não é bem isso Finn… eu não estou dizendo que não quero me casar com você." Meus ombros caíram em desânimo. Então o que ela estava querendo dizer? "Apenas… quero que você me dê um tempo. Você sabe muito bem que se precipitou ao marcar o casamento sem conversar comigo primeiro, essa era uma decisão nossa e não somente sua!"
"Ah, então é por isso? Você está sentida porque eu marquei o casamento sem te consultar? Eu já te expliquei, Rachel…"
"Não é só por isso Finn. Esse é só um dos motivos."
"E quais são os outros? Rachel, você não pode fazer isso comigo! Nos vamos nos casar daqui há três dias!" Ele afirmou como se aquela frase fosse fazer tudo ficar bem. Mas Rachel pareceu se irritar com ele gritando e afirmando que iriam se casar em breve.
"Não por minha vontade!"
"Eu não posso acreditar nisso… nós estamos namorando há dois anos! Já está tudo pronto, as comidas já estão encomendadas, a decoração está sendo feita no maior salão de festas de toda Lima, os convidados… meu pai convidou quase toda Lima! Pessoas importantes vão estar no nosso casamento e eu não posso desmarcá-lo num estalar de dedos como se fosse uma simples festinha de bairro!"
"Está vendo? Você não está preocupado comigo, você está mais preocupado com a festa do que com a sua futura esposa, você sempre põe outras coisas antes de mim e isso eu não quero! Se eu for me casar com você eu quero ser prioridade em sua vida e não ser deixada sempre de lado!"
Fiquei imediatamente em alerta quando Finn pegou o braço dela e pela careta de dor que Rachel fez, ele não parecia estar pegando tão leve assim. Não dava para ver muito bem sua cara pela posição em que estavam, mas dava para notar a vermelhidão nas suas orelhas.
"Eu não aceito isso, Rachel! Eu não aceito, você está me ouvindo? Você não vai me deixar faltando apenas três dias para o nosso casamento! Você tem noção da vergonha que isso será para mim? Tem ideia do que isso irá causar na minha reputação?"
"Me solta Finn!" Ela gritou. Eu estava preparada para entrar a qualquer momento se ele fizesse mais alguma coisa para machucar Rachel. Ele estava com raiva? Tudo bem, que a descontasse noutro lugar e não nela!
"Ouça bem o que eu vou te dizer agora Rachel!" Ele rosnou a encostando na parede. "Isso é o que nós vamos fazer: você vai repensar melhor e vai chegar a conclusão que estava apenas… apenas nervosa e muito ansiosa por causa do casamento. Eu sei que você está ansiosa e… e um pouco assustada… Eu te entendo baby, eu também estou... Mas isso não vai nos impedir de casar! Você vai entrar naquela Igreja no sábado, linda e deslumbrante como só você sabe ser e nós vamos matar toda Lima de inveja. Vai subir no altar comigo e nós vamos nos casar, ouviu bem? Nós vamos nos casar e eu vou ser eleito o prefeito de Lima e vamos ser o casal mais feliz de toda Lima!"
"Você está descontrolado Finn…" Rachel gemeu. "Me solta, você está me machucando…"
"Agora… eu vou perguntar uma vez e espero que eu tenha sido bem claro. Você me entendeu?" Ele apertou suas bochechas com a outra mão e eu vi Rachel entrar em pânico. Ele era o dobro do tamanho dela e estava quase a levantando do chão. Quando Rachel não respondeu porque estava mais ocupada tentando retirar a mão dele de suas bochechas, ele a sacudiu violentamente. "Você. Me. Entendeu?"
"Finn…" Sua voz veio num sussurro e isso partiu o meu coração.
Não esperei mais nada e apareci na sala. Eu podia sentir o meu rosto vermelho de raiva.
"O que está acontecendo aqui?"
"Olha garota, isso não é da sua conta, então porque você não vai dar uma curva ou algo assim, hummm?" Ele grunhiu mal-educado, me olhando de esguelha e sem soltar Rachel.
"Quinn…"
"É da minha conta sim quando você machuca Rachel! Não ouviu o que ela disse? Solte-a!" Gritei furiosa.
"Quem é você para me dar ordens?"
Não suportei ouvir o gemido de dor que Rachel deu ao sentir o aperto dele se intensificar e corri para cima dele, peguei-o pelos ombros e consegui fazer com que ele soltasse Rachel. Mas o que senti a seguir me fez duvidar se tinha ou não partido minhas costelas. Finn me jogou de encontro a mesinha de vidro de Rachel e eu caí nela, partindo-a em vários pedacinhos enquanto Rachel gritava desesperada. Levantei-me dolorida e um soco me acertou em cheio no rosto, mas não caí e nem me dei por vencida, fui para cima de Finn e o derrubei pela cintura. Rolamos pelo chão e consegui acertar um soco nele, mas parecia que nada tinha feito a ele. Ele conseguiu me atingir de novo e dessa vez senti tonturas.
Por um segundo olhei na direção de Rachel e a vi chorando encolhida num canto. Aquela imagem partiu meu coração pela segunda vez no dia. Então tentei me lembrar tudo o que havia aprendido no exército, qualquer coisa que pudesse ajudar a me livrar do aperto de Finn e fazê-lo parar de me sufocar. Sentia o sangue na minha boca e um leve gosto conhecido de ferrugem. Enquanto ele me apertava, tentei me focar na imagem de Rachel e passei minha perna esquerda pelo seu pescoço, me concentrei em apertar o máximo que podia com o que restava de minhas forças. Vi sua cara ficar extremamente vermelha e seus olhos se fechando lentamente. Ele ainda me apertava e era difícil respirar, então num último resquício de sobrevivência, mordi-o na mão e ele gritou tirando-a do meu pescoço. O apertei o suficiente para que ele desmaiasse e afrouxasse o aperto em mim.
Aos poucos saí debaixo dele e notei Rachel chorando encolhida num canto da sala. Meu nariz estava sangrando e meu corpo doía por causa do forte impacto com a mesinha de vidro, também tinha um corte no ombro direito que estava sangrando muito.
Tentei me aproximar de Rachel, mas ela recuou um passo.
"Vá embora Quinn…" Ela sussurrou. "Vá embora… pelo menos até ele acordar e ir embora." Ela correu para o lado de Finn fungando e abaixou-se, colocando a mão para sentir o pulso dele.
"Mas, Rachel…" Eu estava magoada por ela o ter escolhido. Eu não a entendia… ele acabava de tentar agredi-la e ela corria diretamente para os braços dele?
"Saia!" Rachel gritou e mais lágrimas rolaram por suas bochechas. Eu me assustei com o grito dela e saí disparada pela porta, não me preocupando em fechá-la.
Corri para a rua e dei uma última olhada para a pequena casa azulada antes de correr sem rumo. Eu chorava sem saber para onde ir. Então a ideia surgiu e eu corri para a ferroviária de Lima, onde sabia que não iria ser incomodada por ninguém e poderia chorar minhas mágoas em paz. Então fiquei lá o restante do dia, sentada no mesmo lugar que ficava antes vendo o céu escurecer e a noite tomar conta de Lima.
Voltei para a casa de Rachel quando já não tinha mais lágrimas para chorar. A casa toda estava escura e eu resolvi não entrar, sentei-me nas escadas como ultimamente vinha fazendo e fechei os olhos, encostando minha cabeça no corrimão de madeira. Estava com fome, cansada e dolorida. Meu olho esquerdo estava inchado e meu nariz ardia, eu tinha conseguido estancar o sangue no banheiro da ferroviária, mas depois não tinha mais nada para tratar os machucados. Tinha apenas limpado o melhor que pude e me deixei estar assim. Não eram os machucados que estavam doendo mais. Cada vez que eu lembrava do olhar de Rachel quando ela me mandou embora sentia vontade de chorar. Ela me machucava sem nem saber que o fazia. E o pior de tudo era que eu me sentia como uma intrusa na vida de Rachel, só estava bagunçando sua vida e estragando tudo. Não era sua culpa eu ter me apaixonado e sim minha, eu é que era a culpada, eu é que deveria ter ido embora quando tive a oportunidade e não cedido ao seu olhar me pedindo para ficar…
Em algum momento entre as lágrimas e as lembranças acabei adormecendo encolhida nas escadas e só acordei de manhã com o som de alguns pássaros cantando. Amanhecia aos poucos e a noite desaparecia para dar lugar ao dia. Quando amanheceu completamente, me escondi e esperei Rachel sair de casa para entrar, tomar um banho e mudar de roupa. Os ferimentos me arderam um pouco ao entrarem em contato com a água fria e quase me arrependi de ter começado o banho. Vesti minhas antigas roupas que Rachel mantinha na minha sacola, todas limpas e cheirando a… Rachel. Como uma idiota, levei minha camisa ao nariz e absorvi o aroma delicioso de Rachel. O cheiro que só ela possuía. Era maravilhoso e eu pensava que talvez nunca mais fosse esquecer de como era cheirar Rachel. Assim que me apercebi do que fazia, tratei de parar de tentar sentir o cheiro de Rachel nas minhas coisas e vesti a camisa o mais rapidamente possível.
Fui para a mercearia do Sr. Hummel pensativa, esperava me despedir de todos, de Kurt e Blaine e principalmente do Sr. Hummel. Não pretendia contar para onde estava indo e muito menos o que iria fazer. Não me sentiria bem mentindo para eles, mas também não me sentiria confortável para contar que eu estava voltando para a guerra. Preferia que eles pensassem que eu estava indo tentar a sorte grande em Nova Iorque do que terem a certeza de que eu estava, provavelmente, indo morrer. Não suportaria os olhares de pena, assim como não suportaria os de Rachel.
O casamento seria no dia seguinte e eu partiria no dia seguinte também. Não sabia onde Rachel tinha ido, deveria estar cuidando dos últimos preparativos para o seu casamento e tentando arranjar uma madrinha que não a deixasse na mão na última hora. Ela não sabia, mas eu pretendia deixar um bilhete me despedindo dela, seria melhor assim para mim… para nós duas. À noite eu voltaria lá e entraria sorrateiramente na casa, arrumaria as poucas roupas que me restavam e devolveria as que Rachel tinha me emprestado. Deixaria o bilhete e juntaria o pouco dinheiro que ganhei trabalhando na mercearia e compraria o bilhete de trem até Newport, depois me juntaria aos outros e veria o que fazer. Me lembrei brevemente de Marley e desejei que não a encontrasse em Newport, não que eu não quisesse, mas porque ela não merecia. Ela tinha um noivo, uma mãe e… bem, algo para se agarrar. Já eu? Bom… eu já não tinha mais tanta certeza se queria mesmo voltar.
Talvez… quem sabe?
Kurt estranhou meus machucados assim que me viu chegar, mas não comentou nada e soube ser discreto; Blaine também. Eu agradeci mentalmente por isso e fiquei aliviada por não ter que dar nenhuma explicação. O Sr. Hummel não estava e nem Kurt sabia quando ele voltaria. Fiquei um pouco triste por não poder me despedir dele, pois ele havia me ajudado muito, claro que com a ajuda de Rachel também porque se não fosse por ela eu nem o teria conhecido, mas ele foi um bom patrão e também muito gentil. Quando estava indo embora Kurt estranhou o abraço que eu lhe dei por dois motivos: o primeiro porque eu nunca o havia abraçado e o segundo porque meus olhos marejados me denunciaram. Blaine também ganhou um abraço, mas não estranhou, apenas sorriu me confortando.
Quando saí da mercearia passei pelo Breadstix e fiquei conversando com Sugar para matar o tempo e esperar Rachel ir para a cama, eu sabia que ela não ficaria acordada até muito tarde e não demoraria muito para ela apagar toda a casa e se enfiar na cama. Enquanto isso eu me distraía um pouco com Sugar que me contava sobre o seu novo namorado e do quão perfeito ele era. Basicamente não falamos de outra coisa a não ser seu namorado e de como ele era lindo. Ela também não me perguntou nada sobre o olho roxo e o corte no lábio, apenas se ofereceu para limpar um pouco os machucados na hora de seu intervalo e eu deixei que ela fizesse. Tentei ver qualquer notícia sobre a guerra na pequena televisão, mas nada muito interessante passava. Depois de muito esperar, apenas uma breve notícia que um novo grupo de soldados americanos estariam sendo enviados para o continente Asiático como reforços das tropas lá. As tropas japonesas eram vastas e não cairiam fácil, por mil soldados americanos combatendo tinham dois mil japoneses retaliando, embora os franceses, os britânicos, soviéticos e os alemães também se juntassem à guerra.
Me despedi de Sugar com um beijo no rosto e um abraço, agradecendo-a silenciosamente com o olhar, eu sabia que tinha feito uma amiga para a vida toda.
"Onde esteve todo o dia? Estive preocupada com você!" Rachel disse assim que pisei na sala. Ela estava me esperando no escuro e quase me matou do coração pela segunda vez. Eu detestava quando ela fazia aquilo. "Você sumiu todo o dia ontem e eu pensei que voltaria para cá, mas…" A frase dela morreu com o olhar cansado que lancei para ela. "Quinn…" Ela disse baixinho, levantando uma mão para tocar meu rosto machucado. Eu desviei do toque e baixei o olhar.
"Não se preocupe comigo, eu só…" Limpei a garganta. Não estava nos meus planos encontrá-la acordada. "Eu estou bem."
Ela desviou o olhar e abraçou seu corpo pequeno. "Você vai embora amanhã?"
"Vou." Falei sem jeito. "E você? Vai se casar amanhã?"
"Vou."
"Ok, então.."
"Você… você não quer ver o meu vestido? Acabei-o hoje." Ela disse acanhada. Eu a encarei e vi que tinha os olhos inchados. Minha vontade era de abraçá-la, mantê-la nos meus braços para sempre e fazê-la feliz. Apenas isso.
"Eu… eu não… não sei se é uma boa ideia e- eu…" Gaguejei sentindo-me uma idiota.
"Pare com isso Quinn... Vem, ele está lá em cima." Ela pegou timidamente no meu pulso e me puxou com ela escadas acima. Eu estava achando tudo muito estranho, principalmente esse convite inesperado para ver o seu vestido depois de dias sem nos falarmos direito. Mas eu não podia reclamar do calor que sua pequena e quente mão estava provocando em mim. Meus olhos estavam vidrados no nosso contato e, por mais inapropriado que isso soasse no momento, eles também estavam vidrados na bunda de Rachel enquanto ela me puxava pelas escadas. Ela usava um de seus conjuntos de camisolas de seda com o robe macio e semi transparente por cima, era praticamente inevitável não olhar, ainda mais quando o conjunto era extremamente transparente, contornando seu corpo bem feito e suas formas bem delineadas. Eu não estava segura se deveria realmente entrar em seu quarto de noite e ainda por cima com ela vestida daquele jeito sedutor. Será que ela sequer imaginava o que me fazia sentir?
"Rachel, eu não acho que é uma boa…"
"Não me negue isso Quinn! Eu sei que já me disseram que ele é perfeito, mas eu quero mostrá-lo a você, eu quero saber o que você acha."
"Você sabe que qualquer vestido seu é perfeito."
"É verdade, eu sei." Ela disse convencida e depois deu uma risadinha fraca. "Estou brincando." Abriu a porta do quarto e eu entrei atrás dela. Foi então que eu o vi, estendido na cama, o vestido mais lindo que já havia visto na minha vida. Ele era todo branco e simples, não era muito longo, mas também não era muito curto. O decote não era muito grande e os detalhes eram maravilhosos. Ele ficaria perfeito em Rachel.
"E então?" Rachel o levantou da cama, encostando-o no corpo. "Como você acha que eu ficarei?"
"Ele é lindo!" Exclamei maravilhada. "Eu diria que você ficaria linda, maravilhosa e deslumbrante, mas você já é tudo isso e um pouco mais Rach." Eu disse fascinada com a imagem de Rachel vestida nele e subindo ao altar. Ela corou um pouco e desviou o olhar, repousando o vestido na cadeira encostada num canto. "Desculpe, eu…" Murmurei desconfortável com o seu silêncio.
"Não, tudo bem, eu perguntei. E obrigada por ser sincera." Ela me deu as costas. "Não queria que você fosse embora." Sua voz soou triste. Eu analisei suas costas tensas. "Vou sentir sua falta…"
"Eu também, Rachel. Mas não há nada que eu possa fazer para ficar, também não sei se quero realmente ficar." Doeu-me dizer isso, mas era o que eu estava sentindo no momento. "As coisas se complicaram um pouco e eu acho que é melhor para mim não ficar mais aqui na sua casa, agradeço tudo o que você fez por mim mesmo que pense que só quis me aproveitar de você, eu sinto muito se a fiz pensar assim."
Ela virou-se instantaneamente. "Quinn…"
"Não." Levantei uma mão impedindo-a de falar. "Eu sei o que você vai dizer e não sei se aceito suas desculpas. Você me magoou muito ao dizer aquelas coisas para mim. Droga, Rachel!" Suspirei passando uma mão pelos cabelos.
"Quinn…" Rachel aproximou-se de mim lentamente e eu recuava dois passos a cada passo que ela dava. Senti meus joelhos se encontrarem com a cama de Rachel e parei, ela parou bem perto de mim e levou uma mão até a mancha roxa que eu tinha no olho esquerdo. Ela tocou suavemente o lugar e depois suspirou, passando a mão para o corte no meu lábio inferior. "Eu realmente sinto muito por isso."
"Não foi culpa sua."
"Mesmo assim…"
"Eu faria tudo de novo." Assegurei, olhando para sua mão que passeava vagarosamente pelo meu lábio.
"Finn ficou pior… acho que ele deslocou o pulso. Ele saiu daqui sangrando muito e mal me olhou na cara, acho que ele ficou realmente zangado."
"Você poderia… poderíamos não falar dele agora?" Pedi realmente não querendo falar sobre Finn Hudson naquele momento. No nosso momento. Não era para ser arruinado com a lembrança da existência dele.
"Ele é o meu futuro marido Quinn. Você o machucou muito, sabia?"
"O que você queria que eu fizesse?" Me esquivei do toque dela. Vi a mágoa nos olhos de Rachel. "Ele estava te machucando! Eu nunca vou deixar ele te machucar outra vez Rachel."
"Bem, sim, mas você não estará mais aqui para impedi-lo, então... Eu duvido disso."
A voz de Rachel estava um pouco apagada quando ela disse isso. Não entendi o que ela quis dizer com aquilo… bem, entender eu entendi, mas o que não entendi mesmo foi o tom que ela utilizou ao dizer aquilo. Era estranho como ela conseguia causar uma confusão enorme dentro de mim em apenas alguns segundos e ela não precisava se esforçar muito para a causar.
"Eu não posso estar aqui…" Confessei, me sentindo mal com a intensidade do olhar dela. Rachel conseguia me quebrar com apenas um olhar. Somente um. Era mais que suficiente. E eu temia por mim, por ser tão fraca e por ter permitido que ela pudesse me quebrar tão fácil assim.
"Porquê?" Rachel gritou de repente, me assustando. Ela estava com raiva e eu poderia apostar que ela nem se apercebia de que estava gritando. "Por que não? Por que… por que você tem que ir para sei lá Deus onde, esperar que enterrem uma bala no seu cérebro e morrer sozinha no meio do nada? Diga-me Quinn, é isso que você realmente quer?"
"Não é como se eu tivesse muitas escolhas, não é Rachel?"
Ela abriu a boca uma, duas, três vezes…
"O que você quer dizer com isso?" Ela perguntou curiosa, aproximando-se de mim e me fazendo desviar de seu olhar.
"Nada… esquece." Apressei-me a responder. Mas dessa vez ela não me deu nenhuma trégua e não parou de caminhar na minha direção, eu não pude deixar de pensar no quão intimidante a pequena figura de Rachel Berry poderia ser.
"Quinn…"
Eu fechei os olhos ao ouvi-la pronunciar meu nome daquela maneira. Senti-a mais perto de mim, seu cheiro foi invadindo o meu espaço pessoal e depois senti a parede tocando minhas costas me deixando sem nenhuma escapatória. Eu não queria abrir meus olhos. Não queria porque sabia que ela estava perto demais e eu não poderia acordar desse sonho maravilhoso que era ter Rachel tão perto de mim.
"Quinn, olhe para mim." Rachel exigiu suavemente. E então, lentamente, eu fui abrindo os olhos. "Me diga o que está acontecendo… eu sei que nós não estávamos exatamente bem ultimamente, mas nós somos amigas, não somos? Então…" Acho que a decepção ao ouvi-la usar aquela palavra para nos definir ficou estampada na minha cara. Sim, amigas. Era o que nós duas éramos uma para a outra. Apenas amigas. Levei algum tempo digerindo aquela informação, o desejo de gritar que eu queria ser mais, muito mais do que uma boa amizade para ela me invadiu com toda força fazendo-me encher os pulmões de ar.
"Você não consegue ver? Esse é exatamente o problema."
"Eu não consigo ver o quê?"
"Rachel, é difícil para mim, você sabe… falar." Suspirei cansada.
"Tente."
"Quantas vezes você vai me dizer isso?"
"Quantas forem necessárias até você estar segura de que eu não vou te julgar não importa o que disser."
"Bem, é um pouquinho difícil fazer isso quando você é a principal envolvida."
"Eu? Por que eu? Eu fiz alguma coisa errada?" Seus lábios se mexeram rapidamente. Sua testa estava franzida em preocupação. "Olha, eu sei que não fui o melhor exemplo de anfitriã nos últimos dias, os preparativos do casamento estavam me dando nos nervos e depois com essa coisa do Finn…"
"Eu me apaixonei." Confessei baixinho, encarando minhas botas marrons. Rachel parou de falar e suspirou pesadamente.
"Bem… isso é perfeitamente normal." Ela respondeu algum tempo depois com a voz estranha. "Eu, por exemplo, quando me apaixonei pelo Finn…"
"Não, Rachel… você não entende?" Minha voz saiu um pouco áspera, mais do que deveria até. Como ela podia falar de Finn logo depois que eu acabava de me confessar apaixonada? "Eu não quero ser apenas sua amiga, esse é o problema! Você não entende que eu amo o jeito que o seu rosto se ilumina quando você canta alguma música que eu nunca ouvi quando está cozinhando distraída, que eu amo quando você se vira e ri de alguma piada que eu tenha dito por mais que ela tenha sido realmente idiota, como seus dentes aparecem cada vez que você ri de alguma coisa boba com sua alma. O seu cheiro me deixa anestesiada por nunca ter sentido algo tão maravilhoso como ele e que quando eu olho nos seus olhos eu sinto como se estivesse vivendo de novo e, eu sei, isso é completamente idiota porque às vezes quando eu estou ao seu lado eu me sinto como uma idiota! Você não tem ideia do quanto o seu sorriso me alegra, eu me sinto feliz quando você cuida de mim e me enche de comida mesmo eu estando quase explodindo. Eu quero ser parte da sua felicidade e você não imagina como eu fico como uma idiota olhando para você e você nunca nota isso e mesmo quando você está divagando sem fim eu ainda consigo te achar linda. Deus, eu comparei suas mãos a uma xícara de chocolate quente num dia frio e cinzento! Droga, Rachel, você não vê? Eu me apaixonei por você!"
"Quinn…"
"Não! Não! Você vai me ouvir agora! Não foi você quem pediu para eu me abrir? Bem, eu estou fazendo isso então não me atrapalhe agora porque foi você quem pediu! Você!" Apontei um dedo na cara dela. Eu não podia dizer como Rachel estava reagindo ou mesmo como ela estava digerindo isso tudo porque no momento eu só enxergava vermelho. Meus olhos estavam vermelhos e eu via tudo distorcido por causa das lágrimas. "Você não podia apenas me deixar ir, não é? Não podia ter me deixado quieta naquele dia na ferroviária!"
"Calma, Quinn. Você não precisa gritar. Eu…" Ela estendeu a mão para tocar meu rosto, mas eu o desviei pela segunda vez naquela noite.
"Você me estendeu a mão quando eu mais precisei, logo eu que nunca mereci voltar e me sentia arrasada por não saber o que fazer ou para onde ir, ninguém mais estava lá por mim, mas você sim. E então você me leva para sua casa e eu ficava me perguntando quais eram as suas razões, porque por mais que eu quisesse acreditar nos seus motivos eu não conseguia intender você. E então, quando eu pensava que você já tinha feito o suficiente, você me ajudou a arranjar um emprego e acredite em mim, isso me fez viver de novo porque eu sabia que poderia fazer alguma coisa mesmo que ela fosse mínima." Rachel torcia as mãos uma na outra e não me olhava nos olhos. Eu não conseguia parar, mas também não era como se o quisesse fazer. Já estava tudo arruinado mesmo, então não custaria nada me enterrar mais um pouquinho já que não faria tanta diferença assim. Minha sorte estava jogada e eu não esperava muita coisa dela, não conseguia pensar direito no momento e as palavras iam saindo, e saindo, e saindo… como uma metralhadora que dispara uma quantidade absurda de balas por segundo. "Não posso negar que já sentia alguma coisa por você, mas ainda não conseguia dizer exatamente o que era e isso estava me deixando confusa e, eu não sei, talvez distante. E então quando eu ouvi Finn dizer que se casaria com você para poder receber a herança do pai e vencer um tal de Karofsky nas eleições porque…"
"Você escutou minha conversa com Finn?" Senti um tom de indignação na sua voz.
"Bem, sim, eu…" Meu olhar era culpado, a sensação de culpa por ter feito uma coisa errada me atingiu por alguns breves segundos antes de eu me aperceber o que estava se passando ali. "Sim, mas esse não é o ponto aqui."
"E qual é o ponto aqui?"
Eu olhei para ela magoada. Me perguntava se ela realmente havia escutado tudo o que eu, a muito custo, tinha conseguido colocar para fora do meu coração. Eu ainda tremia ligeiramente e ela permanecia lá, quase inabalável, calma e serena, como se não fosse a Rachel Berry que eu conhecia, aquela que já estaria surtando e jurando aos quatro ventos nunca mais olhar na minha cara.
"Quer saber? Esquece. Acho melhor eu ir agora. Obrigada por tudo o que você fez por mim, Rachel. Do fundo do meu coração, eu espero que você seja muito feliz com ele…" Cuspi as palavras sem me dar o trabalho de olhar para a cara dela. Baixei os olhos para os meus sapatos e me esquivei suavemente dela, caminhando em direção à porta de madeira fechada.
Mas então eu senti… uma pequena, quente e macia mão envolvendo o meu braço. Eu não me virei, não podia deixar ela ver que eu estava chorando. Tentei dar um passo, mas ela apertou ainda mais o meu braço e descansou sua testa nas minhas costas.
"Não vá…"
E então eu ouvi um soluço baixinho, seguido de outro, e mais outro… e a cada soluço dela era como se estivessem arrancando meu coração vivo, porque eu não queria ser a causa do choro dela. Eu não conseguia suportar isso.
"Por favor, Quinn. Não vá." Ela gemeu.
Me virei com o coração nas mãos sentindo-me angustiada e extremamente triste. Rachel agora escondia seu rosto entre as mãos num choro silencioso.
"Rachel…" Sussurrei, limpando minhas próprias lágrimas antes de me aproximar mais dela e a envolver num abraço. Encostei-a no meu peito e tudo o que eu mais queria naquele momento era ficar assim para sempre. Ela soluçava agarrada a mim, eu apertava meus lábios para não deixar nada escapar e mantinha os olhos fechados, sentindo uma ligeira dor de cabeça surgir.
Em algum momento - eu não sei dizer exatamente qual - eu e Rachel nos separamos, estávamos bem próximas e eu podia sentir seu calor como da outra vez, bem como sua face rosada e sua respiração ofegante. Ela tentava limpar as lágrimas quando eu peguei suas mãos e a fiz olhar para mim, segurando as duas faces de seu rosto na minha direção. Com meus dois polegares limpei suavemente as lágrimas dos olhos castanhos. Rachel olhava todo o movimento dos meus dedos quando pousou suas duas mãos sobre as minhas que ainda seguravam seu rosto. O olhar que ela me deu naquele instante fez tudo dentro de mim esquentar e eu logo soube, ela era e sempre seria a tal. Isso me atingiu com tanta força que eu deixei de respirar por alguns segundos. E então a única coisa que eu estava sentindo depois eram os lábios macios de Rachel cobrindo os meus e o calor do corpo dela encostado ao meu. Eu me senti como se estivesse no céu. Não que eu alguma vez o experimentei, mas… Talvez ele fosse exatamente assim. Como Rachel.
