Tia Blue pede perdão de joelhos pela demora, mas é que as férias acabaram (blé) então tia Blue tá bem atolada com coisas da faculdade! Mas taí! :) E, novamente, tia Blue agradece de coração pelo feedback!
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ANTES DAS SEIS
Miss Bluebird
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III. Vidro quebrado corta mais fundo
Eu a abordei no meio do corredor. Segurei-a pelo braço, para me certificar de que não me daria as costas. – Você fugiu.
- O quê?
- Acordei e você tinha ido embora. – acusei, num tom ligeiramente ofendido. Afinal, achei que estivéssemos de acordo na noite passada. Dois criminosos insistindo na própria decadência. Mas quando eu acordei sozinho e com frio, ela simplesmente não estava lá. E isso era bastante decepcionante.
- Eu sinto muito. – ela murmurou, mordendo o lábio inferior. Parecia nervosa. Pensei em James, e finalmente me toquei: não tinha acabado, é claro que não tinha acabado, era o casal do século, por Merlin. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Jack e Rose... James e Lily. E por que diabos eu estava com ciúmes? Ela nunca fora minha, para início de conversa. E ela estava com vergonha. James a perdoaria uma vez, é claro, mas duas...
Alguma coisa dentro de mim se apagou.
- Sente? – inquiri, irônico. Ela suspirou.
- Sinto. Sirius, o que aconteceu ontem à noite-
- Eu sei.
- Sirius...
O olhar que ela me lançou cortou minha pele, meus músculos e meus ossos, até chegar à minha alma. Soltei seu braço. Eu não queria aquele olhar.
- Não se preocupe, Lily. – abri um sorriso forçado. – Eu sei.
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- Você deveria ir falar com ele. – Remus me cutucou, com um olhar muito significativo. Revirei os olhos e me levantei, mas ele puxou a manga da minha camisa.
- Quê? – retorqui, com irritação, puxando meu braço.
Remus apontou um canto do Salão com a cabeça.
- James.
- Certo.
- É sério, Pads. Ele tá infeliz pra caralho.
Encarei Remus, tentando não descontar nele minha frustração. O problema era que eu também estava infeliz pra caralho. Duplamente infeliz pra caralho, porque eu não perdera apenas o James, eu conseguira a proeza de perder também algo que eu nunca cheguei a possuir – a Lily. Então se Remus estava tentando alguma artimanha para me fazer pedir desculpa e implorar a James que me perdoasse, ou qualquer coisa do gênero, hoje era o dia em que isso não daria certo.
- Bom, foda-se o James.
- O quê?
- Foda-se o James. E foda-se você também. – atirei, num impulso irrefreável. Remus arregalou os dois olhos e me fitou num misto de mágoa e indignação. De fato, eu estava errado.
- Sirius!
Mas eu saí porta afora, sem nem olhar para trás.
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Eu e o James somos... Éramos amigos desde o primeiro minuto do primeiro dia do primeiro ano de Hogwarts. Antes mesmo de chegar a Hogwarts, já éramos amigos. Melhores amigos. Nosso laço se solidificou ali mesmo, no Expresso. Quando eu atravessei a coluna de pedras, aterrorizado e eletrizado com a possibilidade de finalmente me livrar do gancho maligno da minha mãe, a primeira coisa que fiz foi trombar em alguém. Um cara bem mais velho, provavelmente do sexto ou sétimo ano, versus minha figura pálida e esguia: o tombo foi belíssimo. Pernas, roupas, penas e tinteiros, e meu malão jogado a uns três metros, completamente aberto para exposição. O cara saiu xingando sem nem olhar para trás e eu fiquei ali, estatelado no chão, completamente humilhado.
A mão que se estendeu foi a de James. Ele abriu um sorrisão e me pôs de pé. E depois apontou para as roupas espalhadas pelo chão. – Sonserina, hein? Se eu fosse você não teria tanta certeza. Você tem cara de Grifinória.
Ele riu. Eu também ri.
(E no decorrer do ano ele teve que dividir todas as suas roupas comigo, porque eu, de fato, nunca pertencera à Sonserina.)
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James não disse nada quando eu me aproximei e me sentei ao lado dele. Estava um frio extremo, desses de soprar vapor, mas ele não parecia se importar – atirava pedrinhas no lago, e ficava olhando elas pularem, até afundarem de vez. As ondas tremulavam sob a lua e depois desapareciam.
Aquilo me fez sentir uma tristeza enorme.
Olhei James de soslaio. Ele tinha uma expressão impassível. Ficamos ali, em silêncio, por alguns minutos, até que ele se levantou.
- James! – chamei, de forma levemente desesperada.
Ele voltou e, de forma muito repentina, me agarrou pelo colarinho. Pensei que levaria outra porrada, mas ele ficou me encarando, bufando cheio de ódio. Eu senti a respiração dele bater contra meu rosto, mas dessa vez eu reagi. Empurrei suas mãos com muita força, e ele se afastou um ou dois passos, mas continuou me encarando com aquele olhar maníaco.
- Eu sinto muito, James. – anunciei, com pouquíssima convicção.
- Você sente muito? Você SENTE MUITO?
Ele soltou um urro de frustração, e passou as mãos pelos cabelos. Começou a andar de um lado para o outro. Parecia inconsolável.
- Você gosta dela?
- O qu-
- VOCÊ GOSTA DELA?
- Não!
Ele parou. Respirava forte, como um titã enfurecido. Sua voz, porém, veio calma e cheia de mágoa. – Então por quê?
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- E então? – questionou Remus, vestindo sua máscara de pai autoritário tentando acabar com uma briga entre irmãos.
- E então o quê? – James perguntou, com muita rispidez. Eu mantive meu silêncio e continuei tomando meu café da manhã que, honestamente, não estava descendo muito bem. E eu sabia que o gosto amargo que eu sentia na garganta não tinha nada a ver com abóboras estragadas.
Remus soltou um suspiro resignado, e juntou as mãos no colo.
Revirei os olhos. Não sei onde estava com a cabeça quando concordei com essa história de "conversa amigável" do Remus. James claramente não estava disposto a nem ao menos me olhar nos olhos. O desprezo que ele passava era quase palpável.
- Nós viemos aqui para conversar.
- Não tenho nada a dizer. – James retrucou. – Ele comeu minha namorada, o que há para ser dito?
- Já pedi desculpas. – atirei, num tom baixo e irritado.
- Oh, Merlin, muito obrigado, Sirius! Isso realmente conserta tudo.
Revirei os olhos, mais uma vez. – Remus, isso não vai funcionar. – Resmunguei, antes de me levantar e sair retrato afora.
Já se passara mais de um mês, e até hoje James não me dirigia a palavra. Lily também me evitava – sempre que eu entrava num ambiente, ele saía, imediatamente, sem nem ao menos se dar o trabalho de disfarçar. James e ela também não se falavam. A mágoa de James era realmente profunda. Ele mal comia, mal dormia, mal ia às aulas. E eu não sabia mais o que fazer. Já havia tentado conversar com ele várias vezes, mas ele sempre me deixava falando sozinho em algum corredor.
E eu não conseguia parar de pensar nela.
Suspirei, finalmente parando depois de percorrer inúmeros corredores. Fechei os olhos por um segundo, e a imagem dela apareceu dentro do meu crânio. Lily Evans... Quantos homens ainda não perderiam a cabeça por você?
- Sirius?
Virei o corpo tão rápido que meu pescoço estralou. Lily estava ali, parada, me olhando com aqueles dois olhos de aquário e eu simplesmente não soube o que dizer.
- Ei. Ah... Oi.
- Oi.
- Oi.
Ela esboçou uma leve intenção de abrir um sorriso.
- Você está bem? – perguntou, se aproximando alguns passos. Eu retesei o corpo quase instintivamente. Senti o cheiro de xampu que vinha de seus cabelos. Tive de refrear meu impulso de tomá-la em meus braços. – Você e o James não... Quero dizer, vocês nã-
- Não. – cortei. Engoli em seco. Ela apertou os lábios, visivelmente desconfortável.
- Entendo. – ela soltou um suspiro cansado. – Bom, vejo você por aí, Sirius.
Eu não respondi. Lily se virou, e foi embora. E parecia que ela tinha me quebrado em milhões de pedacinhos e espalhado os cacos pelo vento.
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