Eu sei que vocês me amam e vão perdoar minha demora ridiculamente épica. Bjs.
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ANTES DAS SEIS
Miss BlueBird
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IV. Tempo ao tempo
O cheiro metálico embrulhava meu estômago. Olhei para minhas próprias mãos, trêmulas e ensanguentadas, e depois para o corpo de James, imóvel, jogado no soalho sujo. Snape estava jogado num canto, desmaiado, os olhos fechados numa expressão de desespero, e um filete de sangue escorria de sua boca. O imenso monstro desacordado no outro canto do quarto já começava a mostrar feições humanas: o dia provavelmente já estava amanhecendo...
- ELE MERECEU! – urrei, quase duas horas depois, para um James que me agarrara pelo colarinho das vestes na porta da Ala Hospitalar. – O DESGRAÇADO MERECEU! As coisas que ele fala, James... Sobre a gente, sobre o Remus... Sobre a Lily... Eu precisava... Ele precisava de uma lição...
James me encarou com aqueles dois olhos cheios de raiva e de mágoa e de decepção. Eu sabia que tinha feito merda. Uma merda das grandes. Talvez a maior merda que já fizera na vida. James aparecera no último segundo, e impediu a tragédia que eu quase causara. Pensei em Remus, e no que ele estaria sentindo...
- Você precisa começar a medir as consequências das coisas que você faz.
- James, você não entende! – implorei, me aproximando alguns passos.
James não conversava comigo há semanas. Lily também não. Peter era insuportável, e a companhia de Remus era sempre... silenciosa demais. Eu sabia que estava errado, mas precisava explicar... Precisava que eles entendessem... – James... Me perdoe...
- Não sei quantos perdões ainda tenho pra oferecer, Sirius. – disse James, me largando no chão. Ele se afastou e eu fiquei ali, me sentindo de repente muito só.
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Remus não ergueu os olhos do livro que fingia ler. Parecia cheio de raiva, e com razão. Pensei em deixá-lo em paz, mas eu precisava explicar...
- Você não tem ideia do que aquele idiota do Snape esteve dizend-
- Cale a boca, Sirius! – ele explodiu, fechando o livro com violência. Arregalei os olhos. Remus nunca explodia. – Sério, cale essa boca sua, pare de encontrar justificativas para as coisas que você faz! Você tem ideia do que teria acontecido se... Você sequer parou para refletir... E se sua brincadeirinha tivesse sido bem sucedida? Se eu tivesse... Se Severus tivesse... – Remus se calou, aparentemente sem encontrar mais palavras. – Se James não tivesse chegado quando chegou... Honestamente, Sirius...
- Sinto muito. – foi o que consegui dizer, num tom de voz fraco. Meu estômago se revirava com força. – Sinto muito, Remus.
- É. – ele resmungou, voltando a abrir o livro. – Às vezes eu acho que você não sente porra nenhuma, Sirius.
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O sol se punha preguiçoso.
- Ei.
Meu coração deu um salto, quase saindo pela boca. Lily se sentou ao meu lado, com um suspiro. – Sei que não esperava me ver. – ela disse, vendo minha cara de espanto. – Eu também não esperava vir até aqui e, honestamente, gostaria de lhe dizer algumas ofensas muito bem ditas por causa do que você fez. – Senti meu estômago afundar quando ela abriu um sorrisinho suave. – Mas não vou fazer isso. Você provavelmente já está sofrendo o suficiente.
- James não fala mais comigo. – desabafei, em voz baixa. – Claro que ele já não estava falando comigo, por causa... Bom, enfim, parece que agora está pior. E Remus nem olha na minha cara. O Peter até que tenta nos aproximar, obviamente sem sucesso...
Lily ergueu as sobrancelhas. – Bom, se eu fosse eles eu provavelmente não falaria com você também.
- Obrigada, Lily! – resmunguei, irônico, sem conseguir evitar uma risada.
Ela riu também. E então caímos no nosso velho silêncio. Lily mexeu em alguns gravetos na grama. Desejei com todas as forças que ela não fosse embora. Que ficássemos ali, quietos, em silêncio. Eu gostava do cheiro dos cabelos dela, e da paz que ela me trazia, às vezes.
Sabia que era uma paz momentânea, e quase pecaminosa – no entanto, não podia deixar de aproveitar sua companhia.
- Por que você sempre vem pra cá? – ela perguntou, de repente, olhando o campo vazio. Estávamos numa das ultimas arquibancadas do campo de Quadribol.
Encolhi os ombros. – Por que quase nunca tem ninguém. – respondi, quase sem pensar. – É sempre tão... silencioso. E dá pra ver o sol colorindo a grama quando ele se põe, veja...
Foi quase ridiculamente cronometrado. Eu mal terminara de falar e o sol começou a se pôr, atrás das montanhas do horizonte, colorindo o campo inteiro com reflexos vermelhos, amarelos e alaranjados. Lily me observava, em silêncio, com uma expressão estranha. – O que foi? – perguntei, desconfiado.
Não ofereci resistência quando ela apanhou meu rosto suavemente com ambas as mãos e me beijou.
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Caro James,
Às vezes, quando você comete um erro muito grandioso, você para pra rever certos aspectos da sua vida, e das suas escolhas.
Eu nasci numa das famílias mais nobres de todo o mundo bruxo, você sabe disso. Fui nomeado a partir de uma constelação, como são muitos Black – somos, honestamente, uma família de megalomaníacos. A obsessão dos Black pela pureza do sangue e a crença da superioridade foram os dois fatores primordiais que me fizeram abandoná-los, no início desse ano... E, se não fosse por você, James, eu estaria hoje na sarjeta.
Essa carta tem, portanto, dois objetivos: agradecê-lo por ter sido um verdadeiro farol em uma época da minha vida em que acreditei estar literalmente à deriva... e pedir seu perdão. Mas veja bem, o perdão que peço é por quase ter matado Severus Snape (por mais que ele mereça). Sei que poderia ter estragado muitas vidas, inclusive a de Remus.
Não pedirei perdão, porém, por ter me envolvido com a Lily, porque hoje eu sei: Eu a amo, para sempre e provavelmente desde sempre. E sei que isso vai machucar você mais do que já machuquei, mas não vou desistir dela. Ela também me ama, e também ama você. O conflito dentro dela é imenso, você já deve ter percebido, mesmo com toda a distância. Espero que você entenda, e que aceite a escolha que ela fizer, assim como eu aceitarei se ela não me escolher.
Eu também amo você. Você é, hoje e sempre, meu melhor amigo, meu irmão. Não sei se você ainda vê esperança para a nossa amizade ou até mesmo para a nossa convivência, depois de tantas traições e mágoas. Mas eu precisava tirar essas palavras do meu peito. Faça com elas o que bem entender. Feliz natal e boas festas. Por favor, mande meu carinho aos seus pais.
Li a carta duas vezes, antes de apanhar uma das velhas corujas do corujal e amarrar a carta em sua perna. James teria todo o feriado de natal para pensar e, muito embora eu sentisse muita falta do meu melhor amigo, eu sabia que a decisão que ele tomaria não dependia de mim – então era um peso a menos em meus ombros. Mas eu precisava ainda resolver algumas coisas... Com um suspiro decidido, desci as escadas rumo ao gramado, disposto a organizar a bagunça que se tornara a minha vida.
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Yay! Vai, Sirius, você consegue!
