21 de março
Apartamento de Olivia
22:10
O teto parecia a coisa mais interessante do mundo naquele momento. Olivia havia chegado em casa há mais ou menos duas horas e até então não tinha conseguido se mover do sofá. A vida estava de cabeça pra baixo. Quando ela finalmente havia se permitido envolver com o David, eles tiveram que romper. Agora, mais do que nunca ela estava sentindo a falta que Elliot fazia, a falta do conforto que o abraço dele trazia, das palavras dele, que querendo ou não sempre a faziam sorrir.
Depois de ficar ensaiando um bom tempo com o celular na mão, discou o número de Elliot, mas não teve coragem de ligar. E se dessa vez ele atendesse? E se ele também precisasse dela? E se... e se... e se... Ela estava exausta de tantas incertezas. Tudo o que ela pôde fazer meses atrás para tentar contatá-lo foi em vão... ao se lembrar disso sentiu novamente a raiva que havia conseguido evitar nesse ultimo mês. Decidiu que o melhor a fazer era tomar um bom banho, dormir e quem sabe quando acordasse a vida não fosse tão difícil.
22 de março
08:05
Olivia acordou cedo e inacreditavelmente estava bem disposta. Saiu para correr um pouco, foi ao mercado, depois pegou suas correspondências na portaria e subiu.
Sentou no balcão da cozinha para ver as contas absurdas que haviam chegado como sempre fazia. Dentre algumas contas e várias propagandas se deparou com uma carta escrita à mão. Estranhou, afinal não era sempre que isso acontecia. Abriu rapidamente e se deparou com a letra de Elliot.
"Querida Liv,
Eu sei que estivemos distantes durante esses meses. Também sei que errei... mas quero que você saiba que eu não deixei de pensar em você um minuto sequer.
Não sei quando você receberá essa carta, mas de qualquer forma estarei no "Sant Ambroeus" dia 22 às 21 horas, te esperando.
Preciso te ver, conversar... enfim...
Abraços.
Ell"
Chocada talvez fosse a palavra certa para descrever Olivia. De início ela estranhou Elliot escrever uma carta, mas depois de uns segundos se convenceu de que realmente se tratava dele. Um alívio tomou conta dela, finalmente se reencontraria com seu amigo. A raiva e o rancor que sentiu por meses virou pó. Ele havia procurado por ela e só isso já bastava para todo o sentimento bom, guardado por anos, ressurgir.
Olivia aproveitou o resto do dia para se arrumar, a ocasião era especial então o esforço valeria a pena. Colocou um vestido preto que havia comprado há pouco tempo, mas até então não tinha usado. Os cabelos achou por bem deixá-los soltos ao natural, sabia que era o jeito que Elliot mais gostava, além disso não queria deixar tão claro a importância que esse jantar tinha para ela.
Chegou pontualmente no restaurante, mas Elliot ainda não havia chegado. Para adiantar as coisas ela escolheu uma mesa e sentou.
"Ele provavelmente está preso no trânsito..." Olivia dizia para si mesma, justificando o atraso dele. Olhava o celular de minuto em minuto na esperança de uma ligação, mensagem, qualquer coisa.
Uma hora se passou e nada. A situação já estava se tornando constrangedora. Ela segurando uma mesa sozinha, sem pedir nenhum prato para comer. Já estava xingando mentalmente Elliot.
"Como eu fui idiota de acreditar nele!" Olivia pensou alto, ficando automaticamente vermelha ao perceber que várias pessoas haviam ouvido e a encaravam.
Pegou o celular com raiva e discou. Depois de quatro toques alguém atendeu.
"Elliot eu não estou acreditando..." Olivia já havia começado a falar quando foi interrompida.
"O Ell está dormindo, quem está falando?" Uma mulher com a voz de quem acabou de acordar perguntou.
"O Ell? Kathy, é você?!" Olivia perguntou mudando o tom de voz, estranhando uma mulher ter atendido.
"Não, não sou a Kathy... meu nome é Anne, agora por favor diz o que você quer com o Elliot que eu também estou exausta... você sabe, ele não é um homem tão fácil de saciar..." Anne disse com a voz insinuante rindo.
Olivia estava cega de raiva, não quis nem terminar de ouvir e desligou o celular.
"Vagabunda!" ela resmungou com raiva. No estado em que estava não sabia se havia xingado essa tal Anne, ou ela mesma por ter perdido tempo em estar ali.
Levantou da mesa e foi para o bar do restaurante. Precisava de algo mais forte. Enquanto bebia, Olivia se afogava em pensamentos e em 99,9% deles Elliot estava presente. Ela não conseguia entender... só de pensar que ele estava com outra mulher naquele momento, sentia-se enjoada.
"Posso te pagar um drink?" um homem alto, forte, de terno, se aproximou de Olivia oferecendo uma taça.
"Se eu fosse você não faria isso..." Olivia disse com a cara fechada.
"Por que não? Adoraria fazer companhia a uma mulher tão bonita e elegante, com todo respeito é claro." Ele perguntou sentando no banco ao lado dela.
"Porque é capaz de eu dar prejuízo à você..." ela respondeu com o olhar levemente embriagado.
"Eu não me importo, se eu conseguir tirar um sorriso desse rosto lindo já valerá a noite!" ele disse charmoso, e na altura em que Olivia estava, considerou encantador. Sabia que provavelmente ele era um conquistador barato, mas é sempre bom ter alguém para massagear o ego e naquele momento ela precisava.
23 de março
Galpão III
06:30
Olivia acordou assustada. A dor de cabeça estava forte e o frio que estava sentindo já incomodava. Ela tentou mexer as mãos mas não conseguiu pois estavam presas acima de sua cabeça, foi quando percebeu que estava em pé.
Ao sentir que estava completamente despida congelou. Tentou lembrar desesperadamente da noite anterior, em como foi parar ali, mas a última coisa que conseguia recordar era o momento em que ligou para Elliot.
"Elliot? Meu Deus... o que..." pensou indignada. O lugar estava escuro e conforme Olivia forçava a vista para enxergar, a visão do corpo de Elliot foi ganhando forma e aos poucos se tornando nítida. Tentou chamá-lo mas tanto sua boca quanto a dele estavam tapados com uma fita.
"Bom dia Olivia! Como passou a noite? Pela cara de ressaca foi boa..."- Anne começou a falar brincando com uma arma na mão – "Você deve estar se perguntando por que Elliot está aqui... na verdade ele chegou um pouco antes, estava agitado, foi necessário dar um remedinho para ele apagar. Enfim... já faz mais de doze horas que isso aconteceu e passou da hora dele levantar!" ela completou virando a arma para o chão e dando um tiro.
O barulho ecoou por todo o galpão, fazendo Elliot acordar transtornado. Ao ver Olivia ele tremeu. Ontem quando Anne disse que a traria ele não acreditou que isso realmente fosse acontecer, ou talvez preferisse não acreditar... pelo pouco tempo em que esteve com Anne, foi mais que o suficiente para perceber o quanto ela era violenta e descontrolada, e se tem uma coisa que ele não suportaria ver é Olivia sofrer.
"Olá Elliot... eu sei que você nunca viu sua ex-parceira assim, mas não precisa ficar envergonhado... Na verdade é bom os dois se acostumarem..." falou Anne com um sorriso cínico.
Tanto ele quanto ela estavam desesperados, mas o treinamento que tiveram a vida toda os ajudaram a pelo menos tentar manter a calma. Por um instante o olhar dos dois cruzou, mas não conseguiram manter contato, Anne entrou entre os dois, impedindo o contato.
"Eu queria que o nosso querido amigo Ash estivesse aqui para se divertir com vocês, mas infelizmente quando o encontrei ele estava na Europa e pelas minhas contas seria bem difícil trazer um corpo para a América... acabei jogando no mar mesmo... quem sabe um dia a maré não traga ele pra cá!" ela continuou com seu monólogo se divertindo cada vez mais com os olhares ora assustados ora indignados de Elliot e Olivia.
"Só para esclarecer, vocês dois não sairão vivos daqui, mas até isso acontecer teremos muito tempo para nos divertir, fiquem tranquilos. Preciso correr atrás do tempo perdido, afinal foram cinco longos anos naquela prisão chata... era incrível como nada de interessante acontecia, só tive um momento breve de diversão que foi quando matei a sonsa da minha companheira de cela... ver o brilho do olhar dela sumir foi uma das coisas mais excitantes que eu vi" – Enquanto contava os olhos de Anne brilhavam vidrados em um ponto distante – "... enfim, já falei demais. Vou soltar um pouco a mão de vocês. Aqui tem algumas peças de roupa caso queiram... daqui a pouco eu volto. Ah, e não sejam idiotas de tentarem escapar, que vocês não conseguirão nada além de me deixar muito brava, e tenham certeza que isso apenas será bom para mim." Ela completou, logo saindo, trancando a grade e apertando o botão que abria a trava das mãos deles.
A primeira reação dos dois foi tirar a fita da boca, afinal já estavam sufocando com aquilo.
Pela primeira vez em meses se encararam despidos de qualquer máscara, de qualquer casca, de qualquer roupa.
N/A: Buenas!
Sim, como vocês podem ver a fic voltou no tempo! Esse capítulo ficou mais leve, mas como sabemos o vento anuncia a tempestade... rs.
Enfim, curtiram? não? Deixem uma review, isso me fará feliz! :)
