Disclaimer: Rurouni Kenshin não me pertence. Talvez esse capitulo tenha ficado meio chato gente... sorry. A gente só percebe como é difícil escrever vários acontecimentos simultâneos quando inventa um roteiro assim. No final você fala, PQP, tudo isso aconteceu em menos de dez minutos? O.o
E desculpa a demora em postar, eu assisti o segundo Rurouni Kenshin Live Action (3 vezes em 24 horas) e simplesmente não consigo mais parar de pensar nisso. Kenshin e Kaoru me tiram o foco com aqueles olhares...
"Koi no Yokan"
Parte 22
Por Chibis
^^x
"Adivinha quem voltou para te buscar?"
Náusea.
A voz de Enishi fez o estômago de Kaoru embrulhar.
Por fora, Kaoru parecia estagnada, por dentro seu corpo estava mais vivo e alerta que nunca.
Tum tum tum tum.. O som do sangue pulsando. Como um tambor, nas veias e artérias, do coração ao cérebro, do cérebro aos músculos. Pupilas dilatadas. Frequência cardíaca e pressão subindo.
Kaoru sentiu os músculos tensionados. Cada célula de seu corpo respondendo à quantidade absurda de hormônios e enzimas jogados em sua corrente sanguínea.
E ironicamente essas eram as mesmas sensações de quando encontrou com Enishi pela primeira vez. As mesmas sensações de quando escapou da morte, na noite fria de nevasca.
Anos atrás, tudo que Kaoru queria era voltar ao dormitório na faculdade e dormir após o dia estafante de trabalho, um carro descontrolado, participando de um racha, estava disposto a acabar com seus planos. Não fosse Enishi, Kaoru tinha sido atropelada e morta brutalmente.
E hoje...
Kaoru nunca previu isso, esse homem à sua frente ensanguentado.
Enishi pareceu tão heroico, quando rolaram juntos na calçada cheia de neve, escapando do carro desgovernado. Enishi prometeu, com braços musculosos ao seu redor, que tudo ficaria bem.
Ele parecia tão honrado.
Onde foi parar o Koi no Yokan? A sensação de amor? Nada de bom restou desse relacionamento?
Nada.
Agora, Kaoru mal conseguia se lembrar de que um dia sentiu a sensação de que se apaixonaria por Enishi...
Talvez o koi no yokan tenha ficado congelado na tarde fria no cemitério, quando Enishi confessou seus sentimentos. "Eu cuidarei de você daqui pra frente Kaoru! Você vem morar comigo. Juntos, quitaremos as dividas do senhor Kamiya. Você vai se formar... E vamos recuperar seu dojo daqui alguns anos..."
Kaoru, ajoelhada, depositou as flores no túmulo de seu pai.
Ao se levantar, olhou bem fundo para a íris turquesa de Enishi. "Você promete?! Eu não aguento mais dor!" Kaoru acreditava que a ferida causada pela morte precoce do pai nunca cicatrizaria.
"Sim, eu vou cuidar de você de agora em diante..."
Enishi puxou Kaoru para perto, e beijou delicadamente o topo de sua cabeça, sentindo o perfume de jasmim e lavanda do shampoo dela. "Ninguém vai te machucar... Eu te amo Kaoru e não vou deixar ninguém te machucar..."
Com a neve caindo sobre os dois, Kaoru e Enishi se beijaram pela primeira vez no cemitério, em uma tarde branca de inverno.
E como dizem... Nada de bom pode vir de um relacionamento que começa em cemitério.
E agora...
Onde foi parar aquele Enishi?
Ele existiu mesmo? Ou tudo não passou de uma farsa para ganhar sua confiança e machuca-la ainda mais?
Kaoru respirou bem fundo e sentiu o cheiro metálico de sangue no ar.
Muito sangue, tanto que pingava das pontas dos cabelos compridos de Enishi.
Enishi travava a porta com o pé, e os pingos de sangue, manchavam o mármore da entrada do apartamento.
Medo?
Ela enxergava o brilho maníaco na cor turquesa nos olhos de Enishi, e não tinha como definir aquela sensação.
Era horrível. Pânico, medo, terror, ódio, coragem...Sobrevivência...Tudo ao mesmo tempo.
A sensação de perigo. Como se tivesse que fugir de um animal, um predador marchando na sua direção.
"Oh?!" Kaoru encheu o pulmão de ar e reagiu, afinal.
Ela apertou Kenji nos braços como conseguiu, e começou a forçar a porta violentamente, a fim de trancar Enishi para fora do apartamento.
Kenji não tinha firmeza alguma na coluna e balançava como um bonequinho. O ruivo era pequeno demais para uma situação dessas! Que tipo de ser humano faz isso? Ameaça uma mulher com um filho praticamente recém-nascido nos braços?
...Enishi...
Mas não dessa vez!
"Não! Não mesmo!" Kaoru exclamou com raiva, muita raiva. "NÃO DESSA VEZ!"
Ela forçou a porta dolorosamente no pé de Enishi, duas, três, quatro vezes.
Vibrando, como uma leoa. Kaoru pisou no pé de Enishi varias e varias vezes, usando o salto do sapato.
Infelizmente não doeu muito, pois Enishi calçava um coturno grosso que compunha o uniforme de policial.
"DESISTA KAORU! A GENTE NÃO TEM TEMPO PRA ISSO!" Enishi gritou, tentando puxar Kaoru para fora do apartamento pelo braço.
"NÃOOO!" A morena também gritou.
Enishi deu um belo puxão no braço de Kaoru. "VEM! EU TE ARRASTO PRA FORA SE FOR PRECISO!""
Kaoru se afastou mais uma vez da porta. Ela puxou novamente ar para dentro do pulmão. Tão forte e profundo que chegou a ser doloroso, mas dessa vez preparando-se para a fuga, pois essa batalha na porta não duraria muito tempo, e Enishi era muito mais forte que ela.
"NÃOOO... NUNCA MAIS!" Ela repetiu. A mudança de cor dos olhos não estava restrita à Kenshin, pois os olhos de Kaoru não eram mais azuis índigos, eram negros. Reflexo da raiva que estava sentindo do ex-namorado.
Enishi não destruiria sua vida, ele não tocaria em seu filho.
"AHHHHHH" Kaoru se esqueceria dos preceitos do estilo Kamiya Kasshin se Enishi tentasse.
Infelizmente o grito assustou Kenji que começou a berrar. Kaoru mirou Enishi com puro ódio, um sentimento até agora ignorado por ela. Instintivamente a morena protegeu Kenji com seus braços.
Um brilho dourado passou pelos olhos de Kaoru quando percebeu que a porta era um caso perdido. Ela tinha que pensar em outra coisa.
Ela tinha que fugir e se esconder. A vantagem é que ela conhecia aquele apartamento como a palma da mãe, e era inteligente o bastante para armar algum tipo de emboscada...
Fazer Enishi se perder na própria loucura, mas como?
O problema era Kenji, como ela faria isso com o um bebê de apenas um mês balançando em seus braços. Impossível!
Kaoru se lembrou da porta que dividia o corredor dos quartos dos outros ambientes da casa. Era bem resistente, com um isolamento acústico para garantir o conforto dos moradores e separa-los do ambiente social.
A morena precisava chegar até lá, tranca-se e chamar a policia.
O jeito mais fácil seria acionar um sistema de emergência que Kenshin tinha instalado. Era só apertar uma tecla e um alarme soaria imediatamente na policia, mas ela precisa do controle remoto que controlava toda a casa, e a droga do controle sempre sumia.
... Se ao menos o controle tivesse por perto... Kaoru não tinha tempo pra ficar procurando.
"VOLTA AQUI!" Enishi deu um chute na madeira da porta, escarnando de vez a entrada do apartamento.
Kaoru se lembrou de que ainda estava com as malas e bolsas penduradas nos ombros e imediatamente largou no chão. Bolsas, trocador, mochila de fralda, e apertou Kenji em seus braços, priorizando a criança e protegendo-o.
Com um psicopata assassino na sua frente, o apartamento onde morava agora parecia grande demais para sua fuga. E ele realmente era. A distância entre hall de entrada e corredor dos quartos se tornou interminável com todos aqueles ambientes sociais.
Ainda mais quando no meio do caminho existiam todos esses obstáculos.
Kaoru deu passos rápidos para trás, enquanto Enishi parou no hall de entrada do apartamento. Ele sorriu endiabrado surpreso com o tamanho e luxo do apartamento. "Veja só aonde minha pequena Kaoru veio parar..."
O reflexo dele no enorme espelho que ficava na entrada do apartamento parecia uma cena de filme de terror. Sexta feira 13, o Massacre da Serra Elétrica, Pânico ou coisa assim...
Os fios de negros descabelados, mais compridos do que o habitual, pingavam sangue. O sangue do pobre segurança assassinado no elevador.
Enishi parou, levantou o rosto e sorriu para Kaoru de um jeito doentio. "Como essa criatura grita! Passa pra mim, eu faço parar rapidinho!"
Os olhos de Kaoru arregalaram e ela apertou Kenji em seus braços com mais força.
"Seu grande filho da puta!" Kaoru rosnou e xingou bem alto. A morena nunca fazia isso.
...Eu não vou permitir que você nos faça mal...
"Vejam só como está brava! Estou ficando com medo de você!" Enishi foi irônico e levantou os dois braços fazendo sinal de que se rendia, mas não durou muito.
Logo deu pulo pra frente, e riu, como se estivesse se divertindo com toda a situação.
Quase como se tivesse dançando com Enishi, naquela brincadeira de quem vai para onde, Kaoru deu alguns passos rápidos para trás, e esbarrou em um móvel da sala principal, derrubando o porta-retratos com a foto do casamento dela e de Kenshin.
A foto do casamento no cartório, em que ela estava vestida de calça jeans, camiseta simples, mas um lindo buque nas mãos, e claro a honrosa aliança de casamento na mão esquerda de ambos. Kaoru e Kenshin.
Outros porta retratos caíram como dominó, as lembranças das férias passadas no paraíso de Okinawa, Kaoru e Kenshin pousando para a foto com roupa de banho, e uma praia magnifica ao fundo.
E um porta retrato duplo que valia mais do que qualquer dinheiro no mundo. Kaoru, grávida de nove meses, ao lado da primeira foto de Kenji, ainda na maternidade.
O olhar de Enishi passou por todas essas fotos jogadas no chão. "Depois de tudo que eu fiz por você!"
A fúria dele foi tanta que chegava a emanar uma energia quase diabólica.
"Você me traiu depois de tudo! Se comportou feito uma cadela vadia dormindo com o chefe para subir de vida!" Enishi pisou nos porta retratos varias e varias vezes seguidas, com extremo ódio. A ponta da bota dele quebrava o vidro como ele desejava fazer com essa nova vida que Kaoru estava levando ao lado de Kenshin.
"Isso foi baixo Kaoru, muito baixo!" Enishi queria estraçalhar essas memorias, porque ele não fazia parte de nada disso. "MAS NÃO ESQUEÇA QUE VOCÊ É MINHA!"
Enishi levantou a cabeça para o alto e gritou, como um animal descontrolado. "AHHHHH!"
...Ele perdeu o juízo de vez...
...Enishi vai me matar...
Uma quantidade inacreditável de adrenalina foi jogada na corrente sanguínea de Kaoru. Era hora de fugir para os quartos, enquanto Enishi estava distraído destruindo as fotografias.
O instinto materno a fez esquecer-se do próprio corpo recém-operado, e com uma velocidade que ela só teve quando treinava kendo com seu pai aos quinze anos de idade, Kaoru correu para o fundo do apartamento.
Quantos ambientes a droga do apartamento tinha? Pra que tantas salas e tantos sofás?
E tapetes para atrapalhar? E tantas esculturas?
Kaoru fez o que podia para ganhar mais um pouco de tempo. Ela foi derrubando tudo no caminho. Estátuas, enfeites e poltronas. Ela usou tanta força que sentiu os músculos dos seus braços respondendo ao comando de autopreservação.
Vasos, quadros, esculturas voaram no caminho do psicopata. Não fizeram muita diferença se o intuito era machucar Enishi, o homem conseguia desviar dos obstáculos com pulos. Mas pelo menos durante esse pequeno segundo extra em que Enishi usava para tirar as coisas do caminho, Kaoru usava para chegar ao fundo do apartamento.
A porta que separava os ambientes estava logo ali, só mais alguns passos.
"Pode fugir, pode se esconder!" Jogando as coisas do apartamento de Kenshin para longe, Enishi usava um tom de deboche, rindo das tentativas de Kaoru.
Ela virou para a direção de Enishi, e jogou uma escultura valiosa nele.
Nada tinha tanto valor quanto sua vida e a de seu filho.
E Kenji estava absolutamente vermelho de tanto chorar e gritar.
Como se a cena se passasse em câmera lenta, Kaoru pulou para dentro do corredor. Um segundo depois, Kaoru fechava a porta com a chave, trancando-se no fundo do apartamento finalmente.
O alivio não durou muito, pois Enishi já estava batendo na porta, usando a palma da mão. Ordenando para que Kaoru abrisse.
...A estante...
Kaoru deitou delicadamente Kenji no tapete para ter as duas mãos livres.
"Arhh Pesado!" Kaoru murmurou. Seus dentes cerrados, enquanto arrastava a pequena estante cheia de livros para travar a porta. Criando uma barricada improvisada.
Imediatamente Kaoru tirou o bebezinho do chão, segurando-o novamente em seus braços.
Para o desespero de Kaoru, Kenji já estava perdendo o folego de tanto chorar. Ele não gostava de ser chacoalhado e apertado pra lá e para cá. Tanto escândalo e estresse não deveriam ser saudáveis para uma criança tão pequena.
...O que eu faço agora? O que eu faço?... Meu celular?... Droga meu celular ficou na mesa da sala!... Eu devia ter voltado para atender a ligação de Kenshin ... Maldita teimosia...
...OK KAORU, ACORDA!...
...Primeiro o Kenji...
"ABRE!" Enishi começou a golpear a porta com socos e pontapés. Cada pontapé e soco que Enishi dava naquela porta, Kaoru sentia dentro do seu corpo, em forma de tremor e pânico.
Kaoru percebeu que com a violência de Enishi, a madeira cederia eventualmente, e aquela pequena estante não seguraria sua fúria, os livros já estavam caindo das prateleiras. Enishi estava alucinado e com uma força descomunal, destruindo o outro lado do apartamento. Kaoru escutava vidros quebrando, enquanto ele gritava ensandecido.
"Vem comigo Kaoru! VEM COMIGO AGORA!"
Enquanto Enishi destruía seu lar, Kaoru tentava colocar ordem nos seus pensamentos.
"Larga esse moleque e vem comigo!" Enishi jogou um vaso lindo de cristal contra a janela da sala, espatifando-o.
O celular de Kaoru tocava alucinadamente na mesinha da sala. Infelizmente ele tocava a uma porta, uma barricada e um psicopata de distância.
Ah como Kaoru queria voltar no tempo e atender a ligação de Kenshin.
Enishi parou de socar e chutar a porta, e ficou em silêncio por alguns segundos.
Ele provavelmente destruiu o aparelho celular de Kaoru, pois o toque que caracterizava a chamada de Kenshin finalmente cessou.
...Kenshin, me ajude ... Onegai...
...Onde está o segurança do prédio?... Kaoru respondeu sua própria pergunta. ...Oh, morto! Meu DEUS!...o homem no elevador...Kouga-san...
A voz de Enishi novamente, bem perto da porta. "Por que você não entende? Tudo que eu faço é por amor. Eu só penso em você. Eu só quero você... Nós éramos tão felizes... Por que você foi embora? Por que você mudou toda nossa vida?"
"AHHHH" Um berro, seguido do ruído de algo realmente grande se espatifando fez o coração de Kaoru pular.
Enishi tinha voltado até o enorme espelho no hall de entrada dos Himura, e o quebrou usando uma valiosa cadeira de ferro de Kenshin. Ele estava lá, frustrado, gritando. O ex-policial estava perdendo tempo valioso, ele tinha que deixar aquele prédio com Kaoru, o mais rápido possível.
Marchando de forma assustadora, ele retornou a porta divisória do apartamento. "NÓS ERAMOS FELIZES KAORU!"
"Vai embora!" Kaoru murmurou mais para si mesma do que para outra coisa.
Ela sentia o sangue pulsando forte nas artérias do cérebro.
"Estou te dando uma chance! Ou melhor, uma chance para esse maldito que está nos seus braços... Venha comigo Kaoru agora, e eu deixo essa aberração viver! Eu estou te jurando! Se você vier comigo nesse momento eu deixo esse bebê viver..."
Kaoru tremeu com a ameaça concreta a vida do seu filho. Ela começou a se mover finalmente, nada adiantaria ficar parada ali esperando o salvamento, com a porta prestes a arrebentar de vez.
"MEXA-SE KAORU!" Kaoru brigou consigo mesma. Ela não estava a salvo, ainda não! "AGORA!"
...Primeiro Kenji... ...Proteger Kenji... ...Esconder Kenji...
...Depois o telefone... ...Ou procurar alguma coisa pra usar como arma e partir para cima dele?...
...Meu corpo não está tão forte pra isso... ...Enishi está maior e mais forte...
...Mas a policia não vai chegar a tempo de para-lo caso a porta arrebente... ...Preciso me esconder...
"KAORU! VOCÊ NÃO TEM OPÇÃO! VOCÊ VEM COMIGO POR BEM, OU POR MAL" Enishi agora usava o ombro para golpear a madeira.
Kenji, sentindo o desespero da mãe, começou a chorar muito mais alto. "Não, não, não...Xi Xiii...Kenji calma..." Kaoru murmurou, tentou acalmar o bebê.
Ela pretendia levar a criança para o quarto de bebê, mas o Enishi faria se entrasse e visse Kenji no seu quartinho, todo fofo, com o berço que Kenshin montou?
Ou se Enishi encontrasse o bebê no quarto de casal?
Afinal, Kenji era fruto do amor que Kaoru e Kenshin compartilhavam. E ali, no quarto do casal, era o lugar aonde todo esse amor chegava ao ápice.
Nenhuma das opções era boa para esconder a criança.
"Foco, foco!"
...Kenshin vai fazer alguma coisa... Ele deve estar estranhando porque eu não atendo o celular...
Toda a fé que Kaoru tinha no marido se justificaria agora. Ela tinha certeza, só precisava de um pouco mais de tempo.
... E Sanosuke vai chegar a qualquer minuto...
...Sanosuke e Enishi... OH NÃO...
...De novo?...
O que aconteceria quando Sano chegasse e encontrasse Enishi ali no seu apartamento? Enishi estava incontrolável, a coisa ficaria bem feia.
Enishi matou o segurança, naquela carnificina dentro do elevador. O QUE ELE FARIA COM SANOSUKE AGORA?
Kaoru sentiu as lagrimas escorrendo pela face, mas ela precisava ser forte agora, por Kenji.
A morena se arrepiou, pois sentiu que Enishi estava com a boca na porta, era possível escutar todas as nuances da voz demoníaca dele. "Vamos deixar as coisas mais interessantes Kaoru? Eu vou fazer você sair dessa toca rapidinho..."
Alguns segundos depois Kaoru escutou o barulho que vinha da cozinha, o ex-policial estava destruindo tudo lá.
Panelas, copos, pratos.
A morena aproveitou esse momento para tentar proteger e esconder Kenji finalmente.
Os outros quartos estavam vazios, pois Kenshin já havia levado a maioria das antiguidades para o dojo, inclusive a coleção de espadas, e armas da era Meiji. "O quarto de Yahiko..."
A morena então embrulhou bem Kenji com o cobertor e correu para o quarto do adolescente, o último do corredor, o menor e mais afastado dos outros. "Sim... aqui!"
Kaoru abriu a porta do banheiro do adolescente e depositou Kenji dentro da banheira vazia de Yahiko, usando-a como um berço para a criança. "Isso..."
"Xiiii... xiiii... Ajuda a mamãe... fica calmo Kenji..." Freneticamente, Kaoru tentou acalmar o bebê que gritava e gritava, incomodado, irritado e estressado.
Kaoru fez a única coisa que acalmava o Kenji, ofereceu o peito para ele.
A morena começou a rezar enquanto a criança começava a mamar.
Seus olhos fechados com força, enquanto ela se apoiava na banheira de Yahiko, balançando para frente e para trás, rezando para que Kenji mamasse logo e se acalmasse o mais rápido possível. "Onegai!"
Parecia mentira, mas acontecia mesmo. Bastam alguns segundos de mamada para que os pequenos se acalmem.
Era um milagre acontecendo...
"Onegai!" Ela balançou Kenji para frente e para trás. "Me ajuda Kenji. Ajuda a mamãe...fica quieto um pouquinho...Xiii...xiii! Dorme, dorme..."
Kenji só tinha um mês de vida, mas Kaoru sentiu como se o filho tivesse compreendendo o pedido.
Os olhos azuis índigos, como os de Kaoru, que Kenji herdou foram fechando após alguns minutos de alimentação.
"Obrigada!" A morena murmurou bem baixinho, beijando a cabeça Kenji. "Obrigada! Obrigada"
Kaoru colocou Kenji novamente na banheira de Yahiko, com vontade de chorar ao se separar do filho. "A mamãe já volta!"
...Preciso de uma arma...
... Droga! Kenshin já levou as espadas... Kenshin estava montando um tipo de museu com as armas antigas no dojo Kamiya, e já tinha levado todas para Shitamachi.
...Como eu posso improvisar?...
"O cabo do rodo!"
Kaoru alcançou rapidamente o rodo que estava pendurado no suporte do banheiro.
Usando seus pés, ela o desenroscou rapidamente do cabo, e segurou a madeira firmemente em suas mãos. ...Isso vai servir...
...Um bokken improvisado... ...Se ao menos eu conseguisse dominar Enishi, até a polícia chegar...Se ao menos o senhor Hiko estivesse em casa! Mas essa hora ele está na empresa...
Kaoru saiu do banheiro silenciosamente, fechando a porta, deixando Kenji ali dentro da banheira, adormecido e embrulhadinho no cobertor. "Eu já volto meu anjo..."
Ela saiu do quarto de Yahiko na ponta dos pés, fechando a porta com cuidado.
Kaoru deu alguns passos pelo corredor e observou que a porta que servia de divisória entre dormitórios e o restante do apartamento ainda estava intacta e fechada.
"Ufa!" Enishi não tinha conseguido entrar nessa parte do apartamento.
...Agora telefone...
O cabo do rodo bem firme em suas mãos. Kaoru não tinha um bokken, mas tinha todo o treinamento com seu pai e com Kenshin.
Kaoru continuou em alerta, caminhou na ponta dos pés, até uma mesinha no corredor que servia de apoio para um telefone sem fio. Todo mundo da casa usava muito mais o celular, então eles não tinham tantos telefones fixos assim. O aparelho de fax e computadores ficavam no escritório que Kenshin montou para Kaoru trabalhar, mas infelizmente tinha que abrir a porta dos quartos para ter acesso.
A morena sentiu um cheiro estranho no ar... Como gás de cozinha?...
"GÁS?" Apavorada com o que Enishi estava fazendo lá na cozinha, Kaoru, discou rapidamente para a polícia.
"Vamos lá... Atende... Pelo amor de Deus, atende!" Kaoru murmurou, impaciente. A morena olhou para cima. Pedindo uma ajuda aos céus. ...Kami sama... Me ajuda...
"110. Keisatsu. Qual a emergência?"
Kaoru sentiu um alivio imenso quando alguém da policia atendeu.
"Enishi Yukishiro está aqui e..." Kaoru nem sabia direito o que dizer para a polícia. Ela estava brincando de esconde-esconde com um maníaco psicopata dentro do seu apartamento, enquanto ele estava provavelmente tentando incendiar a cozinha.
Mudo, o telefone ficou mudo.
"OH!"
"ALO? ALO?" E Kaoru não teve tempo de informar a corporação policial, a luz do apartamento apagou e o telefone, que dependia de eletricidade, ficou completamente mudo. ...Droga...
Enishi tinha encontrado a caixa de distribuição de energia do apartamento na dispensa e cortou a eletricidade da residência.
"Kisama..." Kaoru rangeu os dentes. E jogou o telefone longe.
Kaoru voltou até a porta que os dividia, seus passos pararam quando ela sentiu o cheiro característico.
Fumaça.
Algo queimando. "Oh não! Ele fez mesmo isso?!"
Enishi tinha colocado fogo na cozinha, o fogo já estava consumindo os armários de madeira, chegando até os eletrodomésticos, geladeira e micro-ondas.
"Esse coelho vai sair da toca por bem ou por mal! Se não abrir a porta pra fugir, vai morrer torrada. Você e o moleque!" Enishi sorriu com seu plano improvisado.
O cheiro de fumaça faria Kaoru se render. Tudo bem que o sistema anti incêndio começaria a funcionar em breve, mas o pânico já estaria instalado na bela morena.
"Calma, Koishii. Eu vou te ajudar a abrir essa porta!" O ex-policial usou um escultura belíssima de mármore, que pertencia ao pai de Kenshin, como instrumento para forçar a porta. "ABRE!" Enishi gritou do outro lado... Eu queria uma marreta, ou extintor de incêndio, mas esse negócio vai funcionar...
Enishi socou a escultura varias e vezes seguidas até que a madeira da porta começou a ceder. Mais um chute e o ex-policial finalmente tinha conseguido quebrar a porta.
A escultura foi jogada tão longe que espatifou a enorme televisão de Kenshin.
Se Enishi conseguia fazer isso com o mármore, imagina o que ele faria com Kaoru...
Como um búfalo bravo, Enishi usou os dois braços para jogar a pequena instante longe. Livros de arte, e mangas voaram para o ar.
Kaoru se posicionou no meio do corredor, em posição de luta. As duas pernas separadas para formar uma base e ganhar firmeza nos quadris. O cabo de madeira do rodo na frente do seu corpo, como se fosse um bokken. O olhar estreito, cheios de concentração. "Ok" Ela se defenderia e defenderia Kenji a todo custo.
Kaoru faria com que Enishi ficasse inconsciente e deixaria esse apartamento em chamas levando seu filho junto.
São e salvo!
"AHH!"
Kaoru não teve tempo de ficar pensando no incêndio, nem nos sprinkler, pois o homem que atormentava seu sono avançou pra cima dela.
Ela travou o cabo do rodo firmemente com as duas mãos, e avançou também, com em um treino de kendo.
A jovem seria uma barreira. Um escudo para proteger Kenji, escondido no quarto de Yahiko.
E só de pensar em Enishi tocando em seu filho, Kaoru sentia um rebuliço no seu interior e a força percorrendo seus músculos.
Kaoru levantou sua bokken improvisada bem alto, e tentou um golpe. Lutando como uma leoa protegendo sua cria. "Enishi você vai parar com isso, e vai parar agora! Por favor Enishi, o caminho que você está seguindo não tem mais volta...!"
"Não me interessa o resto!" Enishi se esquivou de dois golpes. Ele estava muito interessado em ver a evolução de Kaoru no kendo. Tonto dele ter acreditado que Kaoru estava totalmente vulnerável por causa do parto. Ela tinha agilidade para correr, jogar coisas pesadas nele, se esconder, montar uma barricada. E tinha sangue quente nas veias suficiente para encara-lo de frente com um cabo de vassoura nas mãos.
Ninguém poderia falar que Kaoru Kamiya era uma pessoa fraca e covarde. Mesmo após ter dado a luz, ela não desistia.
Essa mulher era especial.
E Enishi não abriria mão dela tão fácil assim.
Enishi se esquivou de mais um golpe, e tirou a seringa com o tranquilizante de dentro do colete.
O ex-policial sorriu, seu amor por Kaoru renovado mais uma vez. "Não se preocupe com o incêndio meu bem! Só fiz isso pra tirar você do seu esconderijo. Eu não permitiria que você morresse nesse apartamento! Eu vou te tirar daqui e vai ser agora!"
Enishi levantou a seringa.
Kaoru olhou desesperada para a seringa, reconhecendo aquela substancia que fazia a pessoa perder a consciência instantaneamente. Ele tirou a tampa, mirou a seringa no pescoço dela avançou.
"Não, não vai!" Kaoru avançou para cima de Enishi ao mesmo tempo, usando o cabo do rodo como uma bokken.
O golpe foi certeiro na mão do assassino, Kaoru fez a maldita seringa voar para longe e bater na parede, longe do alcance de Enishi.
Com a queda, o liquido se esvaiu, e Kaoru agradeceu aos céus pela ajuda. Pelo menos isso. Enishi não usaria aquele veneno em ninguém.
Kaoru pulou para trás novamente. Lembrando-se de seu treino de kendo, ela tentou fazer o ichi do san, acertar as laterais do corpo de Enishi.
A morena conseguiu, mas não surtiu o efeito que ela esperava, o ex-policial estava robusto como um touro. Ele apenas colocou a mão na cintura, sentindo pouca dor.
"Muito bem gatinha, andou treinando!"
A shihandai então pulou para frente. "AHHHHHHHHH" O cabo do rodo verticalmente posicionado na frente de seu corpo. O pulo não foi muito alto, pois seu corpo ainda estava em fase de recuperação e não tinha tanto espaço no corredor para isso, mas pelo menos dessa vez ela foi capaz de acertar a clavícula de Enishi com toda a força que conseguiu juntar.
O efeito do golpe foi mais forte do que Enishi esperava, pois o homem sentiu dor e colocou a mão no ombro esquerdo para se proteger, mas infelizmente, com a força do impacto o cabo do rodo, que estava longe de ser uma bokken quebrou no meio, deixando Kaoru sem uma arma para proteção.
Enishi agarrou o pedaço de madeira que Kaoru segurava com a mão esquerda, e com a mão direita deu um tapa bem forte no rosto dela. A madeira do rodo foi jogada para um lado, e Kaoru foi jogada para o outro, literalmente.
Como uma bola de boliche, Kaoru caiu sobre o móvel que ficava no corredor e servia de apoio para o aparelho telefônico, e foi escorregando e derrubando tudo que estava na frente.
O tapa de Enishi fez o nariz de Kaoru começar a sangrar. Ela sentiu o gosto metálico invadindo sua boca e lamentou não ter mais força física.
Por fim, suas costas chocaram violentamente contra um enorme espelho que ficava atrás do móvel, espatifo-o em vários pedacinhos. Muitos cacos entraram dolorosamente na pele dela. Um caco em particular alojou-se em sua escapula, e doía agudamente cada vez que ela mexia o braço e o ombro.
Mas Kaoru não tinha tempo para chorar de dor agora. Ela não se daria por vencida assim tão fácil.
Imediatamente os dois engataram em uma disputa corpo a corpo. Uma sequencia de tapas, socos e arranhões. E no processo, Kaoru e Enishi destruíram algumas antiguidades de Kenshin que não haviam sido retiradas do apartamento.
A verdade é que Enishi estava curioso pra saber até onde ela ia. Se quisesse poderia acabar com isso agora. Ele era o dobro do tamanho de Kaoru, bastava um soco bem dado e ela apagaria, mas ele não queria isso, por enquanto.
Enishi queria ver Kaoru tentando, com unhas e dentes.
Kaoru já estava com o cabelo desfeito, o nariz, a testa e a bochechas sangrando. E a maldita lasca de espelho encravada nas suas costas.
A dor era terrível.
Mas a dor não era tão forte quanto o instinto de sobrevivência.
Kaoru precisa defender Kenji e defender a si mesma.
Ela não desistiria.
"Ahhh!" Kaoru arranhou o rosto de Enishi usando suas unhas, todas elas.
E a morena conseguiu arrancar sangue e pele do rosto do psicopata no processo.
Enishi deu bastante corda, esperando que Kaoru se se enforcasse, mas não pensou que ela o machucaria pra valer, e ela o fez. Tirando forças sabe-se lá de onde...
Não satisfeita, Kaoru abriu bem a boca e mordeu o antebraço de Enishi com toda a força e raiva que sentia desse homem, tanto que sua própria mandíbula até doeu. A marca ensanguentada e perfeita dos dentes travados de Kaoru ficou cravada no braço de Enishi.
"Você...!" Enishi se enfureceu.
Pelo cabelo, Enishi puxou a cabeça de Kaoru para longe de seu braço.
Ela cuspiu sangue no rosto de Enishi. Cansada desse maldito infernizando sua vida. "CHEGA!"
Muitos fios longos e negros, arrancados do couro cabeludo de Kaoru, ficaram no meio dos dedos de Enishi.
Kaoru, que estava com os braços livres, deu um tapa bem forte no rosto de Enishi. Foi com tanta força e vontade que o rosto dele virou dolorosamente, e os dedos de Kaoru ficaram impressos em vermelho na bochecha branca do ex-policial. "CHEGAAA!"
Enishi estava impressionado.
E enquanto o psicopata esta pasmo com o ataque de fúria da morena, Kaoru pegava um pedaço de espelho e passava no rosto de Enishi. Kaoru causou um corte bem grande e dolorido na bochecha esquerda dele.
"Ka..."O homem sentiu a bochecha esquerda queimando.
Enishi estava cada vez mais perturbado. Tanto que parou de bater em Kaoru.
Surpreendentemente, o assassino não sabia como reagir.
O que Kaoru estava fazendo com ele?
Da onde ela tirava forças?
"Chega de surto Enishi!" E a morena não se deu por vencida, e conseguindo uma vingança que nem sabia que procurava, continuou com seus ataques furiosos. Ela não parava de se contorcer e lutar.
Kaoru agarrou um vaso de vidro que ainda estava na cômoda. Tirando forças que nem imaginava que ainda possuía, despedaçou em cima da cabeça de Enishi, dilacerando profundamente a testa do ex-policial no processo.
Sangue abundante jorrou do rosto de Enishi em cima dele e dela. Por mais que Enishi quisesse ficar ali testando até onde Kaoru chegaria, ele não tinha mais tempo pra isso.
"Mas que traiçoeira!" Dessa vez o homem chacoalhou Kaoru dolorosamente.
Enishi finalmente deu um tapa forte suficiente para jogar Kaoru longe.
Kaoru foi lançada por cima de alguns moveis de forma dolorosa, escorregando para o chão caindo da forma mais desconfortável possível. A lasca de espelho entrou ainda mais na pele de suas costas.
No chão do corredor, Kaoru olhou para a sala do apartamento, e se lembrou da fumaça e percebeu à proporção que estava tomando o incêndio que Enishi iniciou na cozinha do apartamento.
O sistema anti fogo tinha falhado.
A fumaça estava bem negra, Kaoru não conseguia enxergar a cozinha dali, mas pelo visto as labaredas começavam a tomar os outros cômodos da residência.
...O FOGO...
Cansada, Kaoru se desesperou finalmente. "Ahhh Deus!"
...Eu preciso tirar Kenji daqui...
Ela se contorceu e começou a se arrastar na direção da porta do quarto de Yahiko. ...Eu vou tirar meu filho daqui...
Quando se deu conta de que não tinha mais forças nem pra levantar, o desespero finalmente tomou conta de Kaoru.
"So... Socorro..."
Kaoru começou a chorar, soluçando, pois a cada centímetro que ela se arrastava percebia que nunca conseguiria salvar Kenji do incêndio e se livrar de Enishi.
Uma mulher que acabou de dar a luz a um filho por meio de uma cesárea nunca deveria estar passando por isso. Seu corpo resistiria até certo ponto, e ela já estava chegando ao limite.
Uma luta corporal tão violenta, e tantas pancadas seguidas uma da outra, não poderia resultar em boa coisa.
"Onde você pensa que vai minha gatinha?" Enishi fez Kaoru rolar, ficando novamente de barriga pra cima.
"Enishi espera!" Kaoru levantou as duas mãos na frente do corpo.
Kaoru temeu as consequências de todo seu esforço físico, pois sentiu uma fisgada muito forte na região do corte cirúrgico. "AH" Alguma coisa tinha se rompido dentro dela, ela provavelmente tinha arrebentado algum ponto interno ou coisa assim. "Ohh! Não... não... Enishi por favor! Espera!"
Kaoru se contorceu de cólica, e dessa vez olhou para Enishi com muito medo.
"Enishi... Meu filho! Tira o Kenji daqui! Se um dia você me amou de verdade, salve meu filho!" Aos prantos, a morena implorava.
Enishi estreitou o olhar turquesa.
Kaoru não queria desistir, mas... "Eu vou com você, mas salve o Kenji..." Ela trocaria sua vida pela vida do ruivinho.
Sem desviar o olhar de Kaoru, Enishi cuspiu o sangue que tinha encharcado a boca.
"Você vai me enganar como da outra vez..." Enishi fez uma careta.
Ele estava com todas as vantagens. A faca e o queijo nas mãos.
Por que ele salvaria a vida do filho de Kenshin?
Se Kenji não estivesse no apartamento ela ainda não se daria por vencida, mas infelizmente sentiu que seu corpo não tinha mais muita energia pra gastar. Estava esgotada, e por mais que tentasse lutar, Enishi era forte e grande demais. "Só tira Kenji do apartamento, por favor?"
O ex-policial travou por um segundo, era como se ele estivesse realmente cogitando isso.
Essa criança era um empecilho.
"Depois de tudo que me fez passar?" Enishi se ajoelhou na frente de Kaoru e se inclinou sobre ela. "Olha pra mim Kaoru!"
A visão mais macabra, algo que Kaoru não esqueceria tão cedo. Aquele maníaco, ensanguentado e ensandecido curvando-se sobre ela. A testa e a bochecha de Enishi cortados, e o sangue pingando em cima dela.
A morena desviou o olhar imediatamente, ela não queria mais olhar para o ex-namorado.
Kaoru estava vivendo um filme de terror, e o medo nunca foi tão real. "Não!"
A invés de olhar para Enishi, Kaoru mirou mais uma vez para o quarto de Yahiko, e depois para o relógio na parede.
12:06.
É uma piada?
Tudo isso tinha acontecido e não se passaram dez minutos? Como?
...Nem dez minutos...
...Alguém nos salve...
...Kenji...
...Kenshin...
...Onde está o socorro?...
Quando ainda estava com o corpo forte e cheio de energia, tinha sua esperança de que tudo ficaria bem, mas agora...
Frente a frente com o psicopata, machucada, com dores, sem forças. Em um apartamento em chamas e sem ninguém por perto, a morena começou a sentir que dessa vez seria o fim.
Kaoru começou a chorar e soluçar, o vidro nas costas entrava mais fundo na carne a cada chacoalhada do seu corpo.
Enishi sentou em cima de Kaoru, prendendo-a entre suas pernas. "Acabou, desista! Admita de uma vez que você é minha!" O homem pronunciou com arrogância, reconhecendo sua vitória.
Os olhos de Kaoru arregalaram.
"Alguém me ajude..." A morena suplicou.
Um murro no rosto fez Kaoru perder a consciência de vez.
Enishi conseguiu... "Acabou!"
O olho direito da jovem ficaria irreconhecível no dia seguinte. Inchado, roxo e dilacerado.
Desacordada, Kaoru ficou largada no meio do corredor destruído. Os braços cruzados na frente do corpo, como se ainda tentasse se proteger. O longo cabelo negro espalhado ao seu redor, emoldurando a face pálida, mas ensanguentada.
Enishi ficou quieto por alguns segundos, observando Kaoru.
...Ok, tudo que eu preciso fazer é fugir daqui agora mesmo...
O choro alto do bebê e o som de pequenas explosões na cozinha o fizeram sair do transe. O fogo estava se espalhando.
"Eu vou te mostrar o que é um homem de verdade. Nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida!" Enishi jogou Kaoru por cima do ombro, como se ela fosse um saco de batatas.
...Você vai viver comigo na ilha pra sempre...
Enishi estava pronto para deixar o apartamento, com Kaoru nas costas parecendo um animal caçado, mas percebeu que o fogo que havia iniciado na cozinha agora tinha tomado o hall de entrada do apartamento.
...O sistema anti incêndio não funcionou?...
"Por onde eu vou?" Enishi se perguntava enquanto percebia a sua maior burrice. Ter iniciado um incendo justo na cozinha, que dava acesso a saída usada por funcionários do predio, ou seja sua rota de fuga.
No ápice da sua loucura, tinha se encurralado no apartamento, quando na verdade ele só queria assustar Kaoru, e tira-la da toca que tinha se enfiado nos quartos.
Enishi imaginou que o sistema anti-incêndio do apartamento entraria em ação e molharia tudo rapidamente, mas isso não estava acontecendo.
"Oh merda!"
^^X
Enquanto o semáforo estava fechado, Sano dava algumas batidinhas no volante, balançando a cabeça pra lá e pra cá, acompanhando o ritmo da música. Hip Hop americano.
Sem Megumi por perto, ele escutava bem alto o rap de 50 Cent, Snoop Dogg e Eminem. E pra completar cantava em um inglês todo engraçado.
"You can find me in the club, bottle full of Bud… Mama, I got what you need…I'm into having sex, I ain't into making love!"
Megumi ficava extremamente irritada quando Sanosuke escutava esse tipo de música.
As letras geralmente falavam de gangster, mulheres, prostitutas, maconha e dinheiro. E como combinado com a esposa, Sanosuke só escutava isso quando estava sozinho no seu carro.
E Sano não perdia a oportunidade de dirigir pela cidade no seu jipe amarelo, com "In Da Club" do 50 Cent tocando a todo vapor nos auto falantes .
"Oh filho da mãe..." Sano buzinou quando um carro entrou na frente do seu jipe sem sinalização nenhuma. "Seta não é enfeite!"
O transito já estava horrível por conta de tempestade, os motoristas folgados e mal educados só atrapalhavam. "Viu Jou-chan? A culpa não é minha..." O moreno murmurou para si mesmo.
Kaoru reclamava que Sanosuke se atrasava para tudo, mas que culpa ele tinha se saia de casa no horário, e o transito da cidade de Tóquio resolvia parar na sua frente?
Sanosuke não queria se estressar com o transito e a chuva, então aumentou o volume do radio, e entrou na famosa avenida japonesa cantando e balançando de um lado para outro como um gangster. "You can find me in the club, bottle full of Bud… Mama, I got what you need…!"
Sorte dele, o apartamento de Kenshin e Kaoru já ficava na próxima quadra da Avenida Omotesando. As famosas árvores da avenida balançavam com o vento. "Tem certeza que é uma boa ideia sair de casa com um temporal desses Jou chan?" Sano resmungou.
Ele começava a achar que dessa vez a teimosia de Kaoru causaria problemas. Jou chan não queria dar o braço a torcer a Kenshin, mas talvez fosse hora de escutar o ruivo e remarcar o compromisso. Kenshin devia estar uma pilha por dentro, mas disfarçando como sempre, com um sorriso bobo e um "oro".
Kaoru e Kenshin não ficavam se pegando e amassando em público, mas trocavam alguns olhares quentes de vez em quando que chegava a constranger os terceiros. "Esses dois..."
Sanosuke tentou falar com a amiga, mas o celular só caia na caixa postal. "Hei Jou chan, estou estacionando. Já tô subindo... até!"
Ele atravessou o carro na entrada do prédio.
Precisava entrar na garagem do subsolo do prédio de Kenshin, para acomodar seu precioso afilhado dentro do jipe.
Só que para isso Sanosuke precisava que o porteiro o reconhecesse e abrisse o portão. Ele esperou alguns segundos e nada...
Sano deu uma olhadinha no relógio do painel.
12:04!
Ele não estava tão atrasado assim.
E pelo que Kaoru falou no telefone estava tudo combinado, então qual o problema com o portão?
O serviço de portaria do prédio geralmente era bem eficiente.
Sanosuke começou a estranhar a demora no reconhecimento e abertura dos portões. Segundo a orientação de Kenshin, Sano tinha acesso livre ao prédio. Além disso Kaoru já tinha informado a portaria que ele entraria com o jipe. Não tinha?
Sano buzinou mais uma vez. Nada.
...Horário de almoço... Todo mundo deve estar enchendo a pança... Senhor Fugihara provavelmente está sozinho com um segurança...
Por sinal, os seguranças do prédio eram seus amigos de jogatina, principalmente Kouga.
Impaciente, afinal Sano estava cumprindo um horário finalmente, baixou o vidro do carro, se molhando com a chuva forte que ainda caia lá fora, colocou a cabeça pra fora e buzinou duas vezes. "OIEEE"
Ele buzinou mais uma vez, mas não obteve retorno algum.
"Que estranho!"
Sanosuke desligou o radio do carro e desceu do jipe amarelo.
Encarou a chuva e se encharcando no processo. Correu rapidamente para a portaria do belo edifício, que mais parecia um hotel de luxo, deixando suas pegadas molhadas no piso impecável .
O hall de entrada estava vazio, nenhum sinal do porteiro, nem do segurança.
Sanosuke o chamou. "OI!"
Sano bateu com a chave do carro no balcão.
"Fugihara san? Pode abrir o portão?!"
Nada.
Os dois elevadores abriram ao mesmo tempo e Sanosuke caminhou até lá.
Geralmente esse era o lugar onde o segurança ficava posicionado, entre os dois elevadores sociais.
"Que prédio mais estranho!" Sano resmungou entre os dentes enquanto marchava na direção do elevador.
"Hei cara! Eu preciso pegar a Jou-c..."
Sanosuke piscou várias vezes, tentando entender.
O segurança, seu amigo de pôquer, Kouga estava lá, morto. Ensanguentado, largado no piso do elevador.
A garganta de Kouga aberta com um corte profundo.
O cheiro de sangue estava bem forte, sinal de que tinha acabado de acontecer, e sangue jorrava do pescoço do pobre homem.
Sanosuke não precisava procurar pelo pulso. Ele soube imediatamente que o segurança estava morto. Ninguém sobreviveria a um golpe daqueles na jugular. "Kouga?"
...Kouga? Que porra é essa?... O que aconteceu aqui?...
Ele não conseguia acreditar, Kouga era um cara legal. Os dois conversaram bastante sobre beisebol. O segurança torcia pelo mesmo time que Sanosuke. ...Cara, que loucura...
"Quem fez isso?"Sano se afastou do elevador.
Imediatamente ele tirou o celular do bolso traseiro da calça e começou a discar para a polícia.
Voltou para o balcão para procurar pelo senhor Fugihara san. Algo já dizia que o porteiro teve o mesmo fim.
Rapidamente Sanosuke entrou na sala de vigília que ficava atrás do balcão da portaria, e voltou falando com o atendente da policia. "Não você não entendeu errado! É esse endereço mesmo. Omotesando 365! É URGENTE! Pessoas foram assassinadas!"
Suas suspeitas se confirmaram, o corpo do senhor Fugihara san estava lá jogado embaixo de uma escrivaninha.
"Hei Cabeça de Galo, por que seu carro tá no meio do caminho?"
Yahiko estava se chacoalhando todo, secando as gotas de chuva de seu boné. Seu guarda-chuva pingava no piso de mármore da portaria. A vida com Kaoru e Kenshin tinha feito ele se esquecer um pouco do que é depender de condução publica. Apesar do sistema de transporte japonês ser um dos melhores do mundo.
Mas o tênis molhado não era nada, se comparado com a alegria de chegar mais cedo do colégio. Não fosse a chuva infernal lá fora teria ficado preso até às 15 da tarde.
"Yahiko fica ai! Não olha... NÃO TOQUE EM NADA!" Sanosuke balançou a mão como forma de alerta.
O garoto não tinha que ver essa cena.
Sano agora tentava falar com Kaoru mais uma vez, contar pra ela o que estava acontecendo na portaria do prédio. ...O telefone da Jou-chan só cai na caixa postal... E da residência está só chama...Tem algo errado, eu vou subir pelas escadas...
O garoto estranhou a seriedade de Sanosuke. Era raro ver Sano assim.
"O que? O que está acontecendo?"
Yahiko fez exatamente o contrario do que Sanosuke ordenou. O garoto caminhou até o elevador e se deparou com o segurança degolado.
Os olhos do garoto arregalaram com o cenário de filme de terror dentro do elevador.
"Kouga-san!"
A porta da escada de incêndio abriu de forma bruta e desesperada. Era a empregada. Uma senhora idosa, que cuidava da limpeza do decimo quinto andar. "SOCORRO!"
A mulher grisalha estava tão pálida quanto uma vela. "INCÊNDIO! FUMAÇA! GRITOS!"
Sanosuke imediatamente ficou em alerta. ...O problema não está só na portaria, está no prédio todo...
"AJUDEM A MOÇA DA COBERTURA! O BEBÊ... "
A mulher soltou um grito desesperado ao olhar de relance para o elevador e visualizar o corpo do pobre segurança. "ahhhh"
A pobre senhora desmaiou, despencando no piso de mármore do hall de entrada do prédio. Yahiko tentou ajudar, mas não tinha muito que o garoto poderia fazer pela idosa, a não ser esperar o socorro chegar.
Sanosuke e Yahiko se entreolharam alarmados. "KAORU!"
Sano não podia mais esperar policia ou ambulância. "Fica aqui garoto, eu vou buscar a Kaoru e o Kenji! A policia já tá vindo!"
Sanosuke só chamava Kaoru pelo nome quando a coisa ficava realmente feia.
"A pessoa que assassinou o Kouga e o senhor Fugihara..." Yahiko parou com a pergunta ao se dar conta.
As engrenagens na cabeça do garoto começaram a se encaixar. ... Sim, a pessoa que assassinou senhor Kouga e Fugihara san ainda estava no prédio, e estava com Kaoru. E provavelmente era o tal do Enishi...
Yahiko só escutou historias de dez meses atrás. Ele não testemunhou as historias de terror, os ataques a Misao, Sanosuke, Kaoru... Todos viveram tão bem até agora, inocentemente o garoto não pensou que Enishi voltaria mesmo para inferniza-los.
E Sanosuke raciocinou a mesma coisa.
"Ele voltou!" Sano respondeu irritado. "Dessa vez eu mato o desgraçado!"
"AHH"
Furioso, Sanosuke, já estava com a mão na porta corta fogo pronto para voar pelas escadas de incêndio, quando um flash vermelho passou por ele sem parar. "FICA AQUI YAHIKO!"
Sano nem sabia que um ser humano conseguia se mover tão rápido."Kenshin?"
"De onde ele surgiu?" Yahiko piscou sem entender.
Assassinato, incêndio, Kenshin com um olhar homicida no rosto. O garoto estava vivendo em um seriado americano ou coisa parecida? "Você sabe o que está acontecendo? HEI KENSHIN!" Yahiko gritou, mas o ruivo não parecia estar nesse mundo.
Kenshin Himura não parou para nada. Ele já estava no segundo andar e subindo. Seguiu reto, em frente, subindo as escadas sem esforço algum.
Com a espada na cintura, e a mão esquerda firme na empunhadura. "espada?"
Kenshin não era o mesmo de sempre, ele parecia um hitokiri com uma missão, como naquelas historias de samurai que Yahiko adorava ler.
E o olhar dele era assustador. Um brilho dourado, como olhos de um gato no escuro. O cabelo vermelho ondulava no ar com seus movimentos rápidos e precisos.
Como, quando e por que Enishi Yukishiro veio parar de volta no Japão, era um mistério para Sanosuke. Ele não era um dos bandidos mais procurados?
A polícia era tão incompetente assim a ponto de deixar o assassino voltar para o Japão? Quando tudo se resolvesse e Kaoru estivesse bem, Sanosuke infernizaria seu tio Saitou por isso. "Saitou vai me pagar!"
Com agilidade e força nas pernas, Kenshin e Sanosuke tinham sumido, provavelmente já estavam no meio do prédio, de vinte e dois andares. A escada de incêndio agora tinha virado um caos. Madames, cachorros de luxo, empregadas, copeiras se espremiam lado a lado e gritavam para fugir do incêndio que estava destruindo o último andar.
Yahiko escutou o som das sirenes.
Dezenas de carros de policia se aproximavam do quarteirão.
O caminhão de bombeiro estava descendo a avenida de forma alucinada.
Yahiko percebeu que se fosse pra subir, teria que ser agora, antes que o prédio fosse evacuado.
"Nem a pau. Eu não vou ficar aqui sem fazer nada!" Yahiko não ficaria de fora, ainda mais quando os dois adultos que ele tanto admirava subiram as escadas de incêndio com coragem e determinação.
Ele também salvaria Kaoru e Kenji.
Yahiko empurrava as pessoas para conseguir subir, enquanto o prédio todo queria descer. "Droga! Sai da frente!"
^^X
"Oh merda!" A fumaça que vinha da cozinha agora estava bem intensa.
Preta, toxica. As labaredas devoram os moveis de madeira e portas.
...Onde estava minha cabeça?...
...Por que não consigo mais raciocinar?...
...Eu só quero saber da Kaoru e me esqueço das consequências!...
Mesmo com Kaoru desmaiada sobre o seu ombro esquerdo, Enishi bateu irritado na própria cabeça. "Maldição!"
Ele deu alguns passos para trás, sem ter como atravessar a porta principal, riu da própria estupidez. "E o premio de assassino mais burro do ano vai para Enishi Yukishiro!"
Enishi olhou para cima sem entender.
...Um apartamento desse porte não tem um sistema de sprinkles decente?... "E o prêmio de pior manutenção de condomínio vai pra essa merda de prédio!"
...Essa porcaria deve estar desregulada...
Com a cozinha em chamas, a saída de funcionários não era mais sua opção de fuga, mas Enishi não ficaria ali esperando virar churrasco, então começou a caminhar pelos ambientes do apartamento. Kaoru desmaiada nas suas costas, parecia um boneco.
Enishi finalmente visualizou a escada que dava acesso ao telhado. "Ah, pra cima!" Ele sorriu e começou a subir o primeiro degrau, mas parou quando escutou o choro bem alto de bebê.
O som vinha do último quarto do apartamento.
"O filho..."
Kenji tinha acordado dentro da banheira de Yahiko e chorava até perder o folego, o pequeno era bem genioso, e provavelmente sentiu todo o desespero que a mãe passou durante a luta. Se fosse mais velho, Kenji provavelmente enfrentaria Enishi com unhas e dentes para defender a vida de Kaoru. Infelizmente ele era só um bebezinho e tudo que podia fazer era chorar.
Enishi olhou mais uma vez para o fim do corredor e ponderou.
Conseguiria resgatar o bebê também se quisesse.
Era só correr até o final do corredor e salvar a criança.
"Não! Ele não é minha responsabilidade!"
Enishi deu as costas para o apartamento e subiu as escadas, ignorando o choro de Kenji.
O fogo já estava se espalhando pela sala, mais alguns minutos e tudo estaria consumido pelas chamas.
"Primeiro eu vou tirar a gente daqui Kaoru... Depois te dou outro filho..." Enishi apertou o corpo de Kaoru com seus braços e subiu rapidamente as escadas.
De todas a maldades de Enishi essa foi a pior, se Kaoru tivesse acordada ela provavelmente arrancaria os olhos do ex policial com os próprios dedos.
Enishi ficou surpreso com o telhado do duplex. Era um ambiente totalmente diferente do apartamento. O terraço parecia o quintal de uma casa antiga. Bem verde, com grama nos pés, canteiro de horta, arvores frutíferas, piscina e redes.
Mas tirando uma pequena área, com sofás e mesas, protegida por um grande gazebo, era um ambiente aberto. E lá em cima a chuva despencava violentamente. O vento estava muito forte, bem capaz de tirar uma pessoa magra do lugar.
O tufão já estava causando prejuízos e pontos de alagamento em vários lugares da cidade, e os bombeiros estavam tendo problema em lidar com tudo.
Que ironia Enishi pensou. Fúria por todos os lados. Embaixo de seus pés o fogo, sobre sua cabeça a água.
Enishi deitou Kaoru no chão, e caminhou até o parapeito.
Desesperadamente, o ex policial começou a procurar por uma rota de fuga. ... Uma escada...Acesso ao andar de baixo...
Cada segundo que passava tudo ficava mais complicado.
Lá embaixo, carros de policia, bombeiros, ambulâncias se aproximando do prédio. "Eu não tenho mais tempo!"
Enishi nem conseguia ter acesso a sacada do andar de baixo, o prédio era alto demais. A verdade é que não tinha nada que ele pudesse fazer ...
A não ser que Enishi aprendesse a voar, e carregasse Kaoru nas suas costas como Superman...
Ele havia se encurralado na cobertura.
Quando ele poderia prever que o sistema anti incêndio não funcionaria?
Ele só queria assustar Kaoru e não morrer no processo.
Enlouquecido, Enishi levantou os braços e começou a gargalhar bem alto. A chuva caia furiosa sobre ele, lavando um pouco o sangue do seu rosto, ardendo o corte profundo na bochecha esquerda. Kaoru pagaria por isso, ele sabia que aquele corte deixaria uma cicatriz feia. "Ahhhhhhhhh Hahahahahaa!"
"É uma piada... Tudo não passa de uma piada! Tanto trabalho, pra nada!" Sua mente não estava mais registrando o som dos carros de policia, os bombeiros entrando no prédio.
Nem o som do helicóptero da policia que se aproximava com Saitou Hajime dentro.
Um estrategista como ele tinha acabado de se auto precingir no terraço de um dos prédios mais altos da Omotesando..
As risadas foram morrendo quando ele olhou para as escadas que davam acesso ao apartamento. Uma nuvem de fumaça negra, abundante, agora tinha tomado o andar de baixo do apartamento. Enishi nem pensou que era porque alguém já estava apagando o fogo.
O bebezinho tinha parado de chorar. "Deve ter morrido!"
Ele nem cogitou que era porque alguém já tinha salvado o bebê.
Enishi olhou para Kaoru desmaiada no chão.
"Kaoru..."
No final, seria poético.
Morrer ao lado da mulher que ama!
"Se esse é o nosso fim, então vamos fazer valer a pena! Uma última vez..."
Enishi sorriu diabolicadamente.
Seu olhar fixo nos seios fartos de Kaoru...
^^x
"HEI KENSHIN!"
Sanosuke gritou o nome do ruivo duas vezes.
Inútil, Kenshin nem se virou para olhar para Sano, ele escondeu os olhos em baixo da franja, curvou os lábios para baixo e correu, subindo a escada de incêndio como um leopardo atrás da presa. Kenshin não parou para tomar folego em momento algum.
Subiu os vinte e dois andares do prédio como se fosse uma flecha voando no ar.
Aquele não era o Kenshin Himura que Sanosuke conhecia. Enquanto corria atrás do amigo, Sano notou o brilho debaixo das franjas ruivas. Olhos dourados no escuro, como se fossem os de um gato. Esse era um Kenshin assustador, e Sano agradeceu que a raiva do ruivo não estava voltada pra ele.
Kenshin abriu a porta da escada de incêndio com um chute, obtendo acesso ao andar de seu apartamento. No hall do elevador, já era possível sentir o calor das chamas.
A porta de entrada da residência dos Himura estava escancarada.
Ele visualizou o enorme espelho do hall despedaçado, e o corredor que dava acesso ao apartamento tinha se virado em um túnel de chamas.
"A mangueira!" Kenshin exclamou com a voz seca. Ele apontou para uma porta vermelha embutida na parede ao lado do elevador.
"Hai!" Sano entendeu, e obedeceu automaticamente, escancarando a pequena porta, visualizando a grande mangueira de incêndio enrolada. Sanosuke deu algumas pancadas no registro liberando a água.
Sanosuke escutou historias de quando Kenshin era um adolescente rebelde e ficava meio estranho, mas aquela postura, e a energia que emanava do seu amigo não tinha nada a ver com rebeldia adolescente.
Era algo mais profundo.
Vinha direto de um lugar bem sombrio dentro de Kenshin. Um lugar que talvez ele próprio nem conhecesse.
Os lábios do ruivo curvaram para baixo com a visão de sua residência.
Tudo destruído.
"Ahhhhh" Kenshin cerrou os dentes.
Apertou a empunhadura da espada com firmeza quando visualizou o carrinho de bebê virado. As malas de Kenji que Kaoru carregava fraldas, chupetas e coisinhas do bebê espalhadas no chão. "AHH ENISHIII!" Kenshin estava mostrando os dentes.
Enishi havia transformado sua casa no inferno. Seu ódio só aumentou quando lembrou que sua mulher e seu filho estavam lá.
...Ela estava pronta pra sair e foi pega de surpresa...
Kenshin não esperaria mais.
Labaredas ou não, ele entraria. O ruivo tirou a espada da bainha, e a levantou.
Quando saiu do dojo pegou sua espada preferida como se uma força o atraísse para ela.
A famosa sakabattou, que segundo a lenda pertenceu a Hitokiri Battousai, se era verdade ou não, Kenshin não sabia dizer, não existiam registros históricos oficiais, mas seja qual for o caso, Kenshin pediu forças a Battousai para conseguir derrotar Enishi e acabar com todo esse pesadelo.
Imaginação ou não, estava dando certo. Kenshin estava recebendo energia extra, e visões de golpes e lutas que ele nunca tinha sonhado antes.
O fim de Enishi estava próximo.
Mesmo que Kenshin não o matasse, a policia o trancaria em uma cela no porão mais profundo da penitencia até o fim da sua curta vida com pena de morte. E Kenshin Himura se certificaria de cada detalhe sobre isso, nem que tivesse que colocar os melhores advogados pra isso.
O trajeto de Shitamachi até aquele lugar foi a coisa mais angustiante de sua vida.
Cada ligação não atendida...
Cada quilometro percorrido...
Kenshin nunca correu tanto com o carro antes na vida, ele causou até alguns pequenos acidentes de transito no trajeto. Quando tudo passasse, Kenshin procuraria saber se alguém se machucou com sua direção descontrolada...
Egoísmo dele, ou não, nada mais importava... Apenas o medo de Enishi fazer mal a Kaoru e a seu filho... Apenas a visão de Enishi tocando sua esposa.
Só de imaginar ficar sem Kaoru.
A pessoa que lhe era mais cara.
Seu amor...SEU FILHO!
Kenshin sentia como se fosse jogado no inferno, literalmente. "AHHHHHHH"
E por isso estava tão difícil de controlar essa sede de sangue.
Esse desejo de matar.
Enishi nunca mais faria mal para sua família.
Antes disso... o fogo... Depois Enishi...
Sanosuke já lutava para apagar o incêndio, mas atravessar as labaredas ainda era uma loucura. Estava forte demais. O hall de entrada era um corredor mortal.
"MALDIÇÃO. O sistema de sprinkles está travado! QUE DROGA DE PREDIO É ESSE?" Furioso, Sano constatou a falha no sistema de segurança tão importante de qualquer prédio. Sanosuke direcionou a mangueira, mas o batente da porta já começava a despencar.
Kenshin não esperou.
"AHHHHHHHHH" O ruivo gritou.
Ele começou a rodar a espada no ar, criando um enorme ventilador. E usando esse circulo de ar criado pela própria espada, Kenshin atravessou o corredor de chamas.
Sanosuke estava perplexo com as ações do ruivo. Ele não sabia o que falar para o amigo, e mesmo se falasse alguma coisa não adiantaria. Kenshin estava concentrado e decidido e rapidamente desapareceu para dentro do apartamento.
Os bombeiros já estavam subindo as escadas, mas Sanosuke não ficaria ali esperando, e correndo risco como Kenshin foi entrando no hall.
Dentro do apartamento, Kenshin deu um pulo bem alto. Usando a espada como instrumento, ele golpeou o dispositivo anti incêndio.
A força exercida foi tanta, que Kenshin acabou quebrando o encanamento, o que fez com a água jorrasse direto da tubulação como chuva dentro da residência.
O coração de Kenshin batia tão acelerado. Ele procurou pelos ambientes da casa.
"KAORU?!"
"KENJI?"
A cozinha dos Himura não existia mais. Não tinha nada pra salvar ali.
Nas salas, tudo revirado, destruído. Televisão, esculturas, espelhos, enfeites...,
Nenhum sinal de Kaoru ou Enishi nas salas.
Ele parou, fechou os olhos e prestou atenção nos sons.
"O QUARTO!"
O choro de Kenji fez Kenshin correr para o corredor dos quartos. Um cenário de destruição e sangue ali... Uma luta corporal provavelmente...
Marcas de mãos impressas com sangue estampadas nas paredes e no moveis.
Kenshin abriu a porta do quarto de Kenji e ficou ainda mais apreensivo. "KENJI!" Aos menos o quarto do bebê estava completamente preservado. Não tinha nada quebrado ou fora do lugar.
O ruivo prestou atenção novamente. O choro, já meio rouco e abafado, vinha do quarto de Yahiko.
Um segundo depois Kenshin estava lá, no banheiro de Yahiko, abraçando e beijando o filho nos braços.
Kenshin colocou a espada na bainha e o abraçou com muito carinho. Kenji não costumava sossegar no colo de Kenshin, mas dessa vez, talvez sentindo a gravidade da situação, parou de chorar ao reconhecer o calor do colo do pai.
O ruivo voltou momentaneamente ao seu estado normal. "Graças a Deus! Graças a Deus! " "Papai vai te tirar daqui..." Kenshin embrulhou o filho, para protege-lo da fumaça, da água e dos focos de incêndio que ainda persistiam e caminhou para saída do apartamento.
...Ela o escondeu na banheira de Yahiko, e foi exatamente isso que salvou a vida dele...Tanto da loucura de Enishi, quanto da fumaça toxica e o incêndio...
...Obrigado Koishii... Eu já vou te buscar... Só mais um pouquinho...
Kaoru e Enishi estão no terraço.
^^x
"Caramba, que inferno!" QuandoYahiko finalmente os alcançou, Sanosuke já estava aplacando as chamas.
Ofegante, o garoto se curvou, apoiando as mãos nos joelhos. Enquanto recuperava o folego de ter subido vinte e dois andares correndo e não conseguia se conformar por não ser forte o suficiente para acompanhar os adultos.
Yahiko deu uma olhada para o interior do apartamento que viveu nos últimos dez meses e sentiu um aperto no coração. "Sano, cadê o Kenshin? A Busu? O Kenji?"
Sanosuke não imaginava que era tão difícil controlar a mangueira para o alto. A pressão da água era brutal, mas Sano já escutava o bombeiro gritando, mandando as pessoas descerem pela escada de incêndio. E Yahiko fez o contrario. "Hei, eu falei pra você ficar lá embaixo! Kenshin entrou!"
"Eu também vou!" Yahiko ignorou Sanosuke, dando alguns passos na direção do apartamento. "Eu também quero salvar a Busu e o Kenji!"
"Hei pivete, não vai entrar ai! Você vai morrer!"
Sanosuke e Yahiko pararam de se empurrar quando perceberam Kenshin reaparecendo no corredor cheio de fumaça. Sano abaixou um pouco a mangueira para não dar um jato de água no ruivo, principalmente quando visualizou que Kenshin tinha um precioso pacote nos braços.
"KENJI!
"ELE TÁ BEM?" Yahiko não escondeu a alegria ao ver o bebê nos braços de Kenshin. Kenji era seu irmãozinho, e Yahiko só queria protege-lo, assim como sua Busu.
Kenshin apenas colocou Kenji nos braços de Yahiko. O bebe chorou um pouco reclamado da mudança de colo, mas Yahiko o balançou nos braços, como sempre costumava fazer e Kenji o reconheceu.
"Yahiko! Tire o Kenji daqui o mais rápido possível. Leve-o para o hall de entrada do prédio! Mantenho-o a salvo onegai! Talvez ele precise de oxigênio..."
Yahiko piscou duas vezes, entendendo a seriedade na voz de Kenshin.
A seriedade daquela missão que estava recebendo.
"Claro! Claro que sim! Confia em mim!" O garoto consentiu imediatamente. Não havia duvida quanto a isso. Ele protegeria Kenji custe o que custar. "...Só traz a Kaoru de volta... por favor."
Kenshin não respondeu, ele acenou brevemente. Foi tão rápido, foi um movimento quase imperceptível.
O ruivo desapareceu para dentro do corredor esfumaçado novamente. Dessa vez ele resgataria a esposa.
Com seu filho a salvo nos braços de Yahiko, que agora já descia a escada de emergências, e já encontrava a assistência dos bombeiros no meio do caminho, Kenshin estava um pouco mais tranquilo e pronto para acabar com Enishi de um vez por todas.
O ruivo sumiu do campo de visão de Sanosuke.
"CADE A JOU-CHAN? CADÊ O DESGRAÇADO DO ENISHI?"
Sanosuke gritou para dentro do apartamento.
"Hei senhor, se afaste das chamas. Desça para o hall de entrada!" O bombeiro colocou a mão no ombro de Sano querendo assumir a situação.
Sano nem ligou para o homem, Sanosuke queria ajudar a detonar Enishi.
^^x
Enishi se ajoelhou ao lado de Kaoru. Seus dedos percorreram a face molhada e ensanguentada da moça. "O que você fez comigo?"
"Sim!"
Kaoru seria sua novamente. Dessa vez para sempre.
O cabelo negro e longo, quase na cintura novamente. "Eu te odeio..." Os seios bem mais volumosos do que antes. Enishi não conseguia desviar o olhar. "Mas eu te amo mais!"
Enishi tocou os seios de Kaoru as com as palmas das mãos e apertou firmemente. ...Cheios de leite... Pro filho do maldito ruivo...
"Por que você não me ama?" As mãos de Enishi percorreram o vestido azul escuro, estampado com pequenas pétalas cor de violeta.
"você ainda é minha..." Enishi levantou a barra do vestido revelando as pernas brancas de Kaoru, geladas e molhadas de chuva.
...como eu tenho saudades das coxas ao redor da minha cintura...
As mãos de Enishi, ensanguentadas, apertaram as coxas de Kaoru, separando-as, imprimindo seus dedos com sangue na pele dela.
Mesmo sabendo que o apartamento embaixo deles pegava fogo, e que provavelmente eles morreriam consumidos, cada segundo que passava Enishi ficava mais e mais excitado por causa de Kaoru.
Enishi puxou com força o vestido de Kaoru, arrebentando os botões azuis que voaram longe, expondo o sutiã branco de Kaoru.
A morena balançou a cabeça de um lado para outro, voltando a si aos poucos.
Sua face doía tanto, principalmente o olho, o lugar onde levou um soco. "ah!" Confusa, Kaoru tentou balbuciar alguma coisa...Ela teve um pesadelo terrível...
Suas costas doíam tanto, seu ventre... Kaoru percebeu que o pesadelo continuava.
Infelizmente, Enishi não tinha muito tempo pra ficar apreciando a beleza de Kaoru, ela já estava acordando.
Mas ele já estava pronto para tê-la mais uma vez.
Kaoru seria sua antes do fim!
Chuva. Fogo. Explosão. Sirenes.
Helicóptero...
A morena abriu os olhos azuis, tentando se concentrar no que estava acontecendo agora e onde estava. Antes de desmaiar ela estava no corredor dos quartos...e FOGO...
Ela olhou para cima, e o céu estava negro carregado, e chuva despencava sem piedade, gelada. "Kenji!" Kaoru murmurou, entendendo que estava no terraço do apartamento, o lugar preferido do seu marido.
Kaoru arregalou os olhos, sentindo as mãos de Enishi percorrendo suas coxas, quase tocando sua intimidade.
"Nãoo!" Ela gritou, já com a voz rouca. A moça olhou desesperada ao seu redor, procurando por algo que a ajudasse a golpear Enishi.
"Nãoo! KENSHINN!" Kaoru começou a se contorcer. "Kenshinn!" A morena já estava com a voz rouca. "Kenshin me ajuda!"
"Para de lutar! E pare de chamar esse maldito ruivo! Você é minha!" Enishi prendeu Kaoru com suas pernas, e passou a rasgar a barra do vestido dela para cima.
"Nãoo, onegai!" Kaoru tentava se libertar se contorcendo, ela não queria ficar mais exposta do que já estava.
Que agonia.
O som do tecido sendo rasgado parou quando Enishi sentiu uma forte presença nas suas costas.
Um vulto avermelho no tom de sangue parecia dançar pelo ar do terraço como se estivesse voando. Enishi treinou artes márcias na China nos últimos meses, então ele sabia reconhecer o ki, a energia vital de um espirito forte e extremamente furioso.
O ex policial olhou cuidadosamente para trás, mas parou, com olhos estatelados, quando sentiu a ponta da espada tocando sua escapula esquerda. Se a espada deslizasse um pouco mais com a pressão certa, atravessaria suas costas bem no coração, empalando-o no tórax.
A pressão da espada diminuiu um pouco, o espirito furioso deu um passo para trás. Enishi imediatamente estreitou os olhos, calculando seus próximos movimentos. Ele tinha um revolver e tinha uma faca de caça. Essa interrupção não sairia de graça.
Só que Enishi não sabia, que Kenshin, ou melhor o lado mais obscuro da sua personalidade, também estava pensando a mesma. Nada disso ficaria de graça.
"Tira essas mãos da minha esposa!"
^^x
Continua...
Meus sinceros agradecimentos a Madam Spooky, eu perturbo essa criatura... Marismylle, Lica, Sheila, obrigada meninas! Desculpe se eu decepcionei vcs ~o~
Bjs até o proximo
