Depois de expulsar Bulma do quarto, Vegeta indagou a si mesmo se não havia pisado na bola. Por mais humilhante que fosse, a verdade era que ele estava ali de favor, sim. O simples fato de continuarem permitindo que morasse com eles depois de ter roubado sua nave já era difícil de acreditar; desta vez, no entanto, não teria tanta sorte. Claro que poderia ameaçar matá-los se tentassem pô-lo na rua, mas não acreditava que o levassem a sério. Pelo menos não a mulher nem aquela loura retardada que era mãe dela.
Mas a retardada apareceu logo depois com a prometida sopa, tagarelando como se nada houvesse acontecido. O buraco na parede rendeu apenas um olhar distraído e um comentário sobre os cupins estarem atacando novamente e a necessidade de chamar "aquele rapaz bonito da dedetização". Com isso, Vegeta se tranqüilizou. Aquela mulher não tivera coragem de denunciá-lo aos pais. Deveria ter imaginado. Apesar de toda a bravata, no fundo ela era tão fraca e covarde como todos os outros terráqueos. Sorriu, sentindo ao mesmo tempo desprezo e uma leve decepção.
No dia seguinte, Vegeta levantou-se às 05h00min da manhã, um pouco mais cedo do que de hábito. Graças às inconfidências da loura "velha", sabia que Bulma não era do tipo madrugador; assim, teria algumas horas de treinamento a mais antes que ela também levantasse e viesse pegar no seu pé.
Mal ligou a máquina, porém, a cara de Bulma apareceu na tela, os olhos ainda piscando de sono:
—Bom dia, Vegeta — sorriu em meio a um bocejo — Começou cedo, hoje.
O Saiyajin arregalou os olhos. Não era possível! Aquela mulher era a tropa Ginyu em pessoa!
—Você dormiu aí?— perguntou, furioso.
Ela fez que sim com a cabeça e bocejou de novo.
—Sabia que você viria pra cá; por isso levantei mais cedo, mas acabei dormindo de novo. Sorte que botei um alarme, pra me acordar em caso de você ligar a máquina. Você deveria esperar mais um pouco antes de voltar a treinar. Amanhã, quem sabe...
—As suas opiniões não me interessam. Vá encher o saco do seu namorado, se é que você ainda tem um!
Bulma fuzilou-o com os olhos.
—Você pediu por isso! — abriu bem a boca, passou um spray bucal, gargarejou um pouco, respirou fundo e...
—PIIII... PI, PI, PI, PIII! — começou a gritar.
O Saiyajin fitou-a completamente confuso.
"O que há com essa mulher? Ficou doida?"
—PIIIIIII, PIII,PI,PI,PIII...
Subitamente, uma sensação muito estranha invadiu o corpo de Vegeta e involuntariamente o fez trançar as pernas. Uma vontade de... de...
—Ooo que é isso?
A resposta tornou-se logo óbvia. Vegeta partiu como um raio em direção ao banheiro. Se não fosse sua super velocidade, teria sido tarde demais.
Os urros dele podiam ser ouvidos do lado de fora da nave:
—MALDIÇÃO! QUANDO EU PEGAR VOCÊ, SUA DESGRAÇAAAAAAADAAA! AAAAAAAGHHHHH!
Gritava tanto que o Dr. Briefs e a mulher acordaram e foram correndo ver o que era. Encontraram Bulma rolando no chão do laboratório, junto dos controles, segurando a barriga de tanto rir.
—Mas... o que Vegeta está fazendo agora? — indagou o velho.
—Te... tendo uma bruta dor de barriga! — Bulma mal podia falar de tanto rir.
—Oh, pobrezinho — disse a senhora Briefs — Será que foi alguma coisa que ele comeu?
Para confusão do casal, o comentário fez Bulma rir ainda mais.
Fora uma idéia de mestre ter se lembrado do doce pi-pi. Agora teria aquele cabeçudo na palma da mão.
Pouco depois, um Vegeta vermelho de raiva e vergonha voltava soltando fumaça por todos os buracos da cabeça. Na tela, Bulma lia despreocupadamente uma revista.
—O que você fez comigo, sua vagabunda?
—Vagabunda? Dobre a língua! Eu sou uma dama!
—Você é muito pior do que uma vagabunda! Que mágica foi essa?
—Gostou? É uma antiga invenção minha. Chama-se docinho pi-pi. Botei um ontem na sua sopa.
—Ah, então você mexeu naquela sopa? Por isso estava tão ruim!
Ela ignorou o insulto:
—Já que não quer me ouvir, tive de tomar medidas drásticas. Esse doce faz você ter dor de barriga cada vez que alguém gritar pi-pi. Se não quiser que eu grite de novo, trate de ficar quietinho por hoje. Amanhã poderá treinar, se as suas feridas estiverem melhores.
—Como se atreve a me dizer o que eu devo ou não fazer...
—Pii, pii, piiii... —fez ela.
Vegeta lançou uma bola de ki na direção do holograma antes de voltar correndo pro banheiro.
Estava enganado: aquela mulher não era a tropa Ginyu.
Era o Freeza.
Passaram o resto da manhã sem falar um com o outro. Por um lado, Bulma estava satisfeita pelo êxito de seu plano; por outro esse mesmo êxito estava lhe dando nos nervos. Depois que se refizera do segundo "ataque", Vegeta a ameaçara de morte pela enésima vez e lhe chamara de um monte de nomes, na maioria impublicáveis: simplesmente não entendia que ela estava fazendo aquilo para seu próprio bem. Nada conseguindo, ele adotara a tática do terrorismo silencioso. Até a hora do almoço, ficou se postando nos lugares por onde Bulma ia passar, escorando as paredes de braços cruzados e lhe lançando olhares ferozes. Ela fingia não ver, mas se encolhia por dentro.
O almoço foi quase uma tortura. Os dois comiam em silêncio, com Vegeta de vez em quando erguendo os olhos para fitar Bulma, e esta parecendo muito fascinada pelo próprio prato. No meio deles, o doutor tentava puxar conversa, um pouco confuso com aquele clima de velório. Só a mãe de Bulma continuava a tagarelar alegremente, como se nada percebesse.
—Que lenço é esse no seu braço, querida? — Vegeta ouviu-a perguntar, de repente. Se tivesse levantado os olhos naquela hora, teria visto que sua algoz parecia um tanto embaraçada:
—Oh isso? Eu... levei um tombo ontem e me machuquei. Mas a cor combina bem com o meu vestido, não? Acho que vou até lançar uma moda!
O pai olhou-a, preocupado:
—Talvez seja melhor você não trabalhar hoje.
—Mas papai, eu não... —Bulma protestou, mas calou-se. Por dentro, mordia-se de raiva. Como previra, seu braço havia ficado roxo onde Vegeta a agarrara. Na véspera, ainda pudera disfarçar porque o vestido tinha mangas compridas; hoje, porém, estava quente demais para usar roupas de manga e ela não tivera jeito senão ocultar o hematoma com um lenço. Teve vontade de contar ao pai o que havia realmente havia acontecido, mas a língua se recusava. Diacho, por que continuava a proteger aquele ingrato?
—Hã?! O que estava dizendo, mamãe? — interrompeu seus pensamentos bruscamente.
—Eu perguntei por que você e Vegeta não tiram uma tarde de folga. O dia está lindo: vocês poderiam dar um passeio juntos... — parou espantada, ao perceber dois pares de olhos fuzilando-a, um de cada lado da mesa — Eu disse alguma coisa errada?
O Dr. Briefs tentou apaziguá-los:
—Sua mãe teve uma boa idéia, Bulma. Você poderia ir ao cinema com aquele seu namorado, o... Yamcha. Aliás, onde será que ele anda? É a segunda vez que não aparece para o almoço, nem aquele lindo gatinho dele... ai! — sentiu uma unhada e olhou para seu próprio gato, o Scratch, que o fitava de cima de seu ombro, muito enciumado. O velho sorriu para ele e deu-lhe um pedacinho de seu bife.
Depois da sua ressurreição, Yamcha voltara a morar na Corp. Cápsula, junto com Pual e Oolong. Quando Bulma acolhera Vegeta de volta depois de sua jornada no espaço, o acovardado porquinho se mudara para a casa do Kame, mas Yamcha e Pual haviam ficado, apesar da relutância do gato. Bulma suspeitava secretamente que Yamcha queria ficar de olho em Vegeta, para que o Saiyajin não se aproveitasse dela. Ha. Podia ter lhe avisado que perdia o seu tempo. Vegeta só olharia para uma mulher se ela tivesse cabelo espetado, uma cauda e uma carranca eterna.
Ao ouvir o pai mencionar seu ainda-namorado, percebeu que não pensava nele desde a explosão da Câmara de Gravidade, e sentiu-se culpada.
—Engraçado, agora que você falou, é que eu me dei conta que não vejo os dois faz tempo. Eles não vieram almoçar ontem? Nem jantar?
—Nenhum dos dois, querida — riu sua mãe — É que eles...
Vegeta levantou-se de repente. Todos o olharam surpresos, porque ele nunca se levantava antes do quarto prato (e aquele era só o segundo!), muito menos deixava comida nele.
—Aonde vai, Vegeta? — indagou a Sra. Briefs — Você não terminou de almoçar.
—A conversa vazia de vocês está me virando o estômago. Vou dar uma volta, embora não seja de sua conta.
Bulma levantou-se, também.
—Volta coisa nenhuma! Você quer é passar o dia treinando, até ficar quase morto. Pois pode tirar o cavalinho da chuva: você não vai a lugar nenhum enquanto estiver desse jeito!
Ele encarou-a.
—E o que você vai fazer? Vai voar atrás de mim gritando pi-pi com um auto-falante?
Bulma abriu a boca, mas viu os pais olhando para ela e fechou-a de novo. Não podia usar seu poder ali, na frente deles. Vegeta lançou-lhe um olhar de escárnio e retirou-se. Derrotada, Bulma sentou-se pesadamente em sua cadeira e remexeu a comida, o apetite inteiramente perdido.
—De que ele estava falando, filha? — indagou o Dr. Briefs.
—Oh, nada, papai. Coisas do Vegeta — brincou com um pedaço de macarrão —Ele não é bem certo da cabeça, você sabe. O que estava dizendo sobre o Yamcha, mamãe?
...
Nas ruas próximas à Corporação Cápsula, diversas pessoas gritaram, assustadas com um vendaval repentino que não fora mencionado pelo boletim meteorológico. Uma mulher que saía do salão de beleza toda produzida viu-se subitamente só de calcinha no meio da rua e, pior, com seu lindo penteado de 80 zeni arruinado. Jornais, chapéus, bolsas e outros objetos foram arrebatados de seus donos e foram encontrados nos lugares mais estranhos; uma aflita senhora encontrou seu bebê alegremente despedaçando flores numa jardineira.
Tão rápido como aparecera, o vendaval deixou a cidade, porém continuou causando sustos. Ao passar sobre um grande lago, quase causou uma tromba d 'água, e muitos peixes caíram na margem, para alegria de algumas famílias pobres. Um casal de pterodátilos que alimentava seus filhotes no topo de uma montanha mal teve tempo de salvar o ninho com os filhotes, porque num piscar de olhos já não existia mais montanha.
Vegeta voava tão rápido que somente os guerreiros Z poderiam vê-lo agora, e olhe lá.
Grrrrrrrrr. Quem ela pensava que era? Sua mãe?
Que fosse para o inferno com a sua maldita piedade e seu estúpido namorado!
Se não podia treinar na Sala de Gravidade, ia treinar no mato, ou onde quer que fosse. Talvez fosse melhor até procurar uma caverna, ou algum outro lugar onde ficar; assim não teria mais que agüentar aquela família.
—YAMCHA FOI EMBORA? Assim, sem me dizer nada?
A Sra. Briefs acabara de contar que Yamcha fora embora no dia seguinte àquele em que "o pobre Vegeta havia se ferido naquela explosão horrível". Na manhã seguinte ela ainda estava atordoada, pensando que o coitadinho podia morrer, quando Yamcha veio vindo pelo corredor carregado de malas e com Pualzinho atrás, indagando se ele não estava sendo muito precipitado. Quase esbarrou nela.
—Yamchinha? Aonde vai com tanta pressa?
—Sei lá! Pergunte à sua filha! — e os dois foram embora, sem ao menos dizer tchau. A senhora Briefs abanou a cabeça:
—Nem quiseram tomar o café da manhã. Não sei o que deu no Yamcha, mas parecia muito magoado... o que foi, Bulma?
Ela não respondeu na hora. Ficou em silêncio, pálida, olhando um ponto na parede. Ele estava pensando... pensando que ela... "Ah meu Kami." Ergueu-se de um pulo, quase derrubando a cadeira:
—Aquele idiota! Eu sei exatamente o que ele está pensando! Mas se pensa que eu vou atrás dele, vai esperar sentado! Eu não devo satisfações a ele — e saiu, resmungando.
O doutor e a Sra. Briefs trocaram um olhar confuso.
—Esses jovens... — a mulher começou a recolher os pratos que Vegeta e Bulma haviam deixado quase cheios.
...
Vegeta voou durante muito tempo, sem direção a tomar, até que sentiu um ki muito conhecido.
"Kakaroto!" parou em pleno ar. Olhou para baixo: estava perto de uma montanha, atrás da qual havia uma solitária casa no formato de domo que parecia ser o tipo de moradia preferida dos terráqueos. Para não deixar dúvidas sobre quem morava ali, entre as roupas penduradas no varal havia um inconfundível conjunto de gi e calça laranja, além de uma camisa azul-marinho estendida na grama (pesada demais para ser pendurada).
Apagou seu ki e desceu bem devagar. Sentia o ki de Kakaroto e de seu filho dentro da casa, além de um ki humano que não pôde identificar. Não era de nenhum dos amigos de Kakaroto, pelo menos não dos que ele conhecia: era pequeno demais para ser de um guerreiro, mas ainda assim era um pouquinho maior que o dos humanos com quem convivia. Bah. Não tinha importância. Não poderia vencer Kakaroto no nível em que estava, é claro, mas pelo menos serviria para descarregar a raiva... Olhou em torno de si: viu o pátio, as árvores, a casinha simples, e não pôde deixar de comparar com o luxo da Corporação Cápsula.
"Então é aqui que Kakaroto mora... Quem diria... Que pobreza."
Ele, se fosse Super Saiyajin, estaria vivendo num palácio, não num muquifo daqueles!
Ouviu passos e vozes se aproximando da porta, indicando que iam sair e escondeu-se nos matos atrás da casa, pronto para pegá-los de surpresa.
—AONDE VOCÊS PENSAM QUE VÃO?!
O grito quase fez Vegeta dar um pulo no ar. Não era possível! Até ali ela vinha persegui-lo? Pestanejou. Não, não podia ser Bulma, a voz era diferente. Devia ser a criatura de quem havia sentido o ki menor. Como para confirmar, viu Kakaroto e o moleque correndo pra fora da casa, com uma mulher atrás deles. Era morena, os cabelos negros apertados num coque. Usava um vestido comprido azul-marinho aberto dos lados com calças largas por baixo. Sobre o vestido, aquele retângulo de pano branco que a loura burra chamava de "avental" e um lenço laranja, amarrado sobre os ombros. Vegeta nunca vira nada tão esquisito, e olhe que ele travara contato com diversas culturas alienígenas.
—Voltem aqui, estou mandando! — ela agarrou Goku pelas costas da roupa e segurou a perna de Gohan, que já estava no ar — Que modos são esses? Mal terminam de comer e já vão saindo? Já pra dentro que está quase na hora de Gohan estudar!
—Mas mamãe — choramingou o garoto — não temos tempo pra isso agora! O senhor Picollo está esperando a gente!
—Ele que espere! Só porque dei licença de treinar (como me arrependo!) não vou deixar que negligencie seus estudos. Hoje vamos fazer uma revisão geral.
—Mas fizemos uma revisão geral ontem à noite!
—Então vamos fazer outra! E já lhe disse pra não me responder! Desde que voltou daquele treinamento com Piccolo você anda me faltando com o respeito.
—Que exagero, Chi-chi — Goku interveio — Gohan não está lhe faltando com o respeito, ele só está dizendo a verdade.
—Não se meta nisso! — para total espanto de Vegeta, a mulher se virou e PLAF! acertou um tapão na cara do Goku, que caiu sentado.
—Ui! Essa doeu! — ele esfregou o rosto.
—É pra doer mesmo! Eu já lhe disse tantas vezes pra não discutir comigo na frente do Gohan! Não vê que está minando a minha autoridade de mãe?
Goku recuou, amedrontado:
—Eu não discuti! Só estava dizendo...
—Viu? Começou de novo! — inclinou-se com ar feroz sobre o marido, que se encolhia — Belo exemplo que você dá pro SEU filho! É por isso que ele não me respeita mais! Se Gohan se tornar um delinqüente será culpa sua!
—Também não é as...
—CALE A BOCA!
Vegeta estava horrorizado.
Será que todas as mulheres da Terra eram assim, malucas?
—Quer alguma coisa, Vegeta? — perguntou uma voz. O Saiyajin se virou e viu Piccolo flutuando ao lado dele.
—Não é da sua conta — Vegeta respondeu, irritado por não ter sentido antes a presença do namekuseijin — Mas não se preocupe. Não vim fazer dodói no seu valioso pupilozinho.
Piccolo franziu a testa, mas não disse nada.
—Mas Chichi... — a voz de Goku chamou a atenção deles de volta — ...eu senti o Vegeta aqui perto! Preciso ver o que el...
—Não me interessa o que você sentiu, se foi o Vegeta ou o Repolho ou a Beterraba!
Piccolo deu uma risadinha. Vegeta cerrou os dentes.
—Eu já estou farta de vocês saindo todo dia e me deixando sozinha! Vão ficar em casa hoje e ponto final! — Chi-chi agarrou Goku pelo braço e começou a arrastá-lo de volta para casa, com o filho seguindo atrás — Vou fazer uma faxina geral e você pode me ajudar batendo os tapetes e mudando os móveis, já que está tão forte agora. Depois vai botar uma roupa decente, pra variar, e vir comigo à cidade do Leste.
—À cidade do Leste? Pra quê?
—Para negociarmos a matrícula de Gohan na Escola Estrela Azul.
—E - Estrela Azul? Mas mãe — Gohan falou, horrorizado — aquela escola é só pra garotos acima de onze anos! Não tem ninguém da minha idade lá!
Chi-chi olhou-o surpresa, como se o filho tivesse dito uma coisa muito óbvia:
—Mas é claro! Acha que eu poria você num jardim da infância? É verdade que está bastante atrasado nos seus estudos, graças ao seu pai e aos amigos dele, mas mesmo assim você está muito à frente dos garotos da sua idade e merece uma escola à sua altura! Já pensou se consegue se formar antes dos quinze anos? — juntou as mãos em êxtase. Dos olhos saíram lágrimas de orgulho maternal — Meu filho, um menino prodígio!
A visão de Gohan tropeçando numa longa toga, com um imenso diploma na mãozinha e o chapéu de formando afundando na cabeça, fez pai e filho caírem para trás. Irritada com aquela falta de entusiasmo, Chi-chi arrastou os dois "ingratos" para dentro. Suas vozes se transformaram num murmúrio abafado.
Vegeta e Piccolo permaneceram onde estavam como estátuas, os braços cruzados e rostos impassíveis. Apenas o suor em suas testas denunciava o mútuo desconforto.
—Então aquela é a mulher do Kakaroto — Vegeta disse, depois de um longo silêncio.
—Sim. Patético, não? — Piccolo cerrou os olhos, reprovando_ Pode se orgulhar: acaba de descobrir a única fraqueza do Super Saiyajin.
—Por que Kakaroto deixa sua esposa tratá-lo assim? Ela é apenas uma humana!
—Exatamente por isso.
—Hum? — Vegeta ergueu uma sobrancelha, sem entender.
—A fragilidade dos humanos é a única arma que eles têm contra nós, mas é poderosa. Não os subestime. — mais gotas de suor desceram pela testa de Piccolo, enquanto recordava como Chi-chi o obrigara a fazer o curso de direção, junto com Goku. Como se o grande Rei Demônio precisasse de carteira de motorista.
—Fale mais claro, nameko. Não tenho paciência para enigmas.
—Já disse mais do que precisa saber. Se quiser detalhes, pode perguntar ao Goku, mas não aconselho — Piccolo mostrou os caninos, num sorriso maldoso — Chi-chi adoraria uma oportunidade de vingar as surras que você deu em Gohan.
—Está insinuando que eu apanharia daquela mísera humana? — Vegeta fuzilou-o com os olhos.
—Está com medo de tentar... Repolho? — Piccolo revidou com outro olhar.
Os dois se encararam.
A vontade de Vegeta era entrar na casa e mostrar para aquele nameko metido que não tinha medo de ninguém, muito menos de uma mulherzinha gritona. Mas não se deixaria levar assim. Devia haver algum truque.
—Meu objetivo são os bonecos de lata e Kakaroto — respondeu altivamente — Não estou interessado em insetos.
Piccolo sorriu de novo.
—Eu me surpreenderia se você vencesse aonde Goku fracassou. Não sei muito sobre fêmeas humanas, mas não apostaria em você.
—O que lhe dá tanta segurança?
—Aquelas roupas ridículas que você estava usando no dia em que Goku voltou à Terra.
Vegeta abriu a boca e fechou-a em seguida. Não... Ele não estava insinuando...
Fitou o namekuseijin, muito calmo:
—Quer um conselho? Pare de andar com o Kakaroto. Está pegando o hábito dele de não falar coisa com coisa — e partiu.
Piccolo ficou assistindo o príncipe dos Saiyajin diminuir até virar um pontinho preto na distância."Imprudente... por fui dizer aquilo?"
—Aquele era o Vegeta? — Gohan apareceu ao lado dele.
—Era.
—O que ele queria? — indagou o garoto, preocupado.
—Jogar conversa fora.
Gohan fitou seu mentor e melhor amigo sem entender nada, mas Piccolo permaneceu calado.
—GOHA-AN! Onde você está, menino? — a voz estridente de Chi-chi podia ser ouvida de uma distância até maior do que a em que os dois estavam — Goku! É tudo culpa sua!
—Mas o que foi que eu fiz agora? — ouviram Goku gemer lá dentro.
—Você está sempre fugindo de casa pra se meter em aventuras! Agora SEU filho está fazendo a mesma coisa! O exemplo que você dá pra ele...blábláblá... desse jeito Gohan nunca vai ser nada na vida... blablá... por que me casei com você... — ouviram-se ruídos metálicos de panelas e coisas jogadas misturados a gritos e passos apressados, como se alguém estivesse sendo perseguido -e bombardeado - dentro de casa.
—Ai! Calma, Chi-chi... Ui! Isso dói!
—Melhor você voltar antes que sua mãe execute o refém — Piccollo disse, entre irônico e sério. Gohan concordou, suspirando, e foi para casa. O Rei Demônio ficou sozinho, flutuando no ar e pensando se não havia arriscado o futuro de Trunks por falar demais.
Vegeta não era nenhum tolo.
