CAPÍTULO I

Dez meses depois

É extremamente difícil conversar com um viking. Em primeiro lugar, é impossível manter a concentração, os chifrezinhos espetados no alto do capacete estão praticamente tremendo de indignação e ele não para de jogar sua capa no meu rosto.

- Não acho que você esteja me dando material suficiente para trabalhar. Como espera que alguém consiga trabalhar com isso? - Ele brande uma espada de plástico atarracada bem à frente dos meus olhos. - Como é possível encontrar o verdeiro eu nórdico de alguém? Hum? Como é possível? E por que Oliver ganhou a picareta e o martelo e eu só ganhei isso?

Dou uma olhada em Oliver, que espera pacientemente na porta, de uma maneira decididamente nada nórdica. Provavelmente espera que o ensaio comece. Conformado, ele acende um cigarro.

Volto a olhar para o viking enfurecido e digo calmamente:

- Olhe, Sean, você sabe perfeitamente que o seu papel é muito mais importante do que o de Oliver. Apenas achei que, dando-lhe mais alguns adereços, ele não se sentiria posto de lado. - É óbvio para todo mundo, menos para Sean, que Oliver não está nem aí para o fato de ser posto de lado ou não. Sean acalma-se um pouco.

- Entendo o seu ponto de vista, Lily. Obrigado por ser tão honesta. Mas eu realmente acho... - e começa a sussurrar -... que você deveria pedir ao Oliver pra ele perder uns quilinhos. Afinal de contas, um viking não deveria ter muito o que comer, certo? Alguns legumes e, talvez, um pouco de frango. Ele não deveria dar a impressão de ter engolido a Delia Smith¹ e todos os livros de culinária dela juntas.

- Aaaah, mas Oliver não é um viking guerreiro da mesma estirpe que você. Ele é mais do tipo que fica na retaguarda.

- Mais pilhagens do que saques?

- Isso mesmo.

Sean balança a cabeça em sinal de compreensão e, ao mesmo tempo, consegue disparar um olhar maldoso na direção de Oliver, que de nada desconfia. Ele funga e diz:

- Foi o que pensei.

Dou umas palmadinhas reconfortantes no braço dele, mas, antes que consiga planejar minha fuga, ele acrescenta:

- Outra coisinha de nada, Lily. Acho que, de agora em diante, você deveria me chamar de Arnog ou coisa parecida.

- Arnog?

- Acho que isso vai me ajudar a entrar no personagem.

Dou um sorrisinho forçado e resisto à tentação de olhar novamente o meu relógio. Estamos aqui há mais de duas horas e sei que Edgar está esperando para poder usar a ala para sua prova de guarda-roupa. A Festa Nórdica do Gelo de Lady Boswell está sendo mais problemática do que pensei e ainda tenho semanas de planejamento pela frente.

- Está bem, hã, Arnog, como você achar melhor. Podemos recomeçar?

Espio através de um espaço entre os meus dedos enquanto eles ocupam suas posições. A porta se abre suavemente e Edgar entra furtivo. Ele olha ao redor por um segundo, me encontra e anda nas pontas dos pés ao redor da sala.

- Como vai indo? - sussurra, fazendo uma careta que mostra que o seu voto seria "horrivelmente mal".

- Horrivelmente mal - respondo, retribuindo a careta.

- Acho que pode ser culpa do feng shui daqui. Ultimamente os meus ensaios também têm sido horríveis.

A encenação começa. Logo nos primeiros dois segundos, Oliver quase fura o olho de Sean com a picareta, mas é difícil saber se foi de propósito ou não. Sei que os vikings deveriam adorar usar aqueles capacetes. O que deveria ser uma exibição natural de exuberância nórdica transforma-se rapidamente em uma pantomina. Junto com os ferozes gritos de batalha e o brandir das espadas há pessoas caindo sobre tapetes de pele de urso no meio de cantarolados "desculpe, meu bem". Dois atores usam o capacete ao contrário, Oliver derrubou Sean com um golpe de rúgbi, engalfinhou-se com ele no chão e está tentando sufocá-lo com a sua capa.

Edgar inclina-se na minha direção.

- Meu Deus querida, isto é mais do que feng shui. Meus ensaios nunca foram tão ruins. Acho que você está é com uruca.

- Parece mesmo - digo desanimada, imaginando quanto tempo Sean pode ficar sem respirar.

- Querida, só se passaram duas semanas. É natural que você cometa alguns erros depois de ter levado um fora. É natural.

- Obrigada, Edgar. Tinha conseguido esquecer a minha vida amorosa por dois longos minutos.

E, achando que Sean já tinha sofrido bastante, corro para salvá-lo.


Nossa sala de ensaios fica no porão de uma grande casa em estilo georgiano que é a sede de nossa empresa. É uma entre as várias casas idênticas, enfileiradas ao redor de uma praça em South Kensington, e a única coisa que nos identifica no meio de toda aquela nobreza serena é uma pequena placa de bronze com as palavras "Table Manners". Na verdade, fazemos o planejamento de todo o tipo de eventos: casamentos, lançamentos de produtos, eventos corporativos, coquetéis para vinte pessoas, bailes de máscaras para quatrocentos convidados, em qualquer lugar inimaginável. Meu amigo e colega Edgar, o Salvador Dali do mundo das festas, já usou cabanas de índios, submarinos, estábulos e até mesmo uma fábrica de camas.

Eu realmente não vejo motivos para fazer outro ensaio e, exausta, dispenso todo mundo, que sai correndo da sala como se fosse o último dia de aula antes das férias de verão. Fico feliz em ver como a minha equipe me respeita.

Verifico se todos os acessórios foram colocados de volta na enorme sala ao lado, que é o depósito do nosso considerável estoque de equipamento teatral, copos, louças, talheres, capas para cadeiras, toalhas de mesa, guardanapos e outros tipos de tralhas. Todos penduram suas fantasias numa arara de roupas debaixo de um aviso gigantesco que diz: FESTA NÓRDICA DO GELO DE LADY BOSWELL.

Começo a subir os dois lances de escadas em direção à minha mesa. No primeiro patamas, ouço o Edgar gritando no andar de baixo:

- Não diga ao Moody onde estou.

Alastor Moody é o nosso fantástico diretor-gerente e não tem saco para o temperamento artístico de Edgar.

- Edgar, ele sabe onde você está. Seu nome está no quadro de ensaios - grito de volta.

- Bom, não deixe que ele desça aqui. Não estou falando com ele.

- OK. Tentarei - suspiro e continuo a escalada. A recepção e os escritórios da empresa ocupam dois andares superiores da casa. O térreo abriga as cozinhas, onde toda a comida é preparada e envida par ao local da festa em uma das nossas caminhonetes refrigeradas. Os chefs são um pouco explosivos e eu tento ficar longe deles. Termino o último lance de escadas e chego ao coração da sede nacional da Table Manners, onde Emmeline, nossa recepcionista, trabalha duro.

- Algum recado, Emmeline? - pergunto, mais pelo hábito do que por ter esperanças reais de que ela tenha mesmo anotado algum deles. Emmeline é uma discípula ferrenha da escola de pensamento que diz que se-é-importante-eles-ligarão-novamente.

Ela solta uma baforada de fumaça e aperta os olhos, pensativa. Temos uma política severa contra o fumo no local de trabalho e Moody espalha memorandos sobre o assunto com regularidade. Emmeline os digita com uma bituca dependurada nos lábios. Mas tudo o que Emmeline não sabe sobre o mundo das celebridades não vale mesmo apena saber. Uma habilidade que eu tive que admitir, relutantemente, que é muito útil no nosso meio. E esse é o único motivo pelo qual eu imagino que Moody não a despede.

- Alguém ligou para você, mas não pareceu muito interessante e eu não me dei o trabalho de anotar.

- OK. Maravilha. Lady Boswell vem para uma reunião mais tarde, será que poderíamos evitar um repeteco do que aconteceu na última vez?

- Ela é uma bruxa velha - Emmeline responde emburrada.

- Pode ser, mas ela é uma bruxa velha e rica, e uma de nossas melhores clientes.

- Espero que ela fique com hipotermia nessa festa do gelo dela.

- Do jeito que as coisas vão, esta pode ser uma aposta com boas chances.

Emmeline volta a ler a Woman's Weekly e eu volto para a minha mesa. O primeiro andar é um ambiente sem paredes. O lugar está entulhado com amostras de decorações, acessórios teatrais (que deveriam estar no porão, onde é o lugar deles, mas Edgar insiste que devemos mantê-los aqui para conseguir inspiração), um urso de pelúcia gigante que sobrou de um festa, chamado Zé Colméia, arranjos florais dos eventos da semana passada, mostruários e catálogos sobre quase tudo, de guardanapos a fitas, vários tipos diferentes de vasos e candelabros, além dos computadores e laptops de praxe.

Papéis e convites transbordam para todos os lados.

Assim que chego à minha mesa, a porta da sala do nosso diretor-gerente se escancara.

- LILIAN. VENHA CÁ - diz, através dos alto-falantes do intercomunicador portátil, que ele insiste em usar mesmo quando estou tão perto que posso me inclinar e tocá-lo.

Alastor Moody é um homem elegante beirando os cinquenta. Tem cabelos escuros sempre penteados com cuidado e ostenta uma barriguinha. É o nosso diretor-gerente e merece todos os xingamentos que receber dos funcionários, pois é, sem dúvida alguma, o homem mais rude e sarcástico que eu já consegui. E eu gosto muito dele. Ele não acredita em fazer rodeios, diz que é cansativo. Com Moody, nada de amenidades como "bom-dia, como vai?".

Sigo-o, entro na sala e fecho a porta.

- Como foi o ensaio? - pergunta Moody enquanto vou até a cafeteira e encho uma caneca.

- Horrível. Sean insistiu em trocar todos os seus adereços com os de Oliver. Café?

- Por favor. Preciso de algo que vai me ajudar a aguentar este dia horrível. Sean e Oliver vão acabar matando um ao outro. Só nos resta torcer por isso. Você vai trabalhar o dia todo na Festa Nórdica?

- Infelizmente. Lady Boswell vem aqui mais tarde. Vai ser uma semana muito comprida.

- Onde está Edgar?

- Na sala de ensaios.

- Ele está atravessando uma de suas fases.

Sorrio. Edgar sempre entra em uma de suas fases se acha que Moody vai começar a fazer pergunta difíceis.

- Ele já estourou o orçamento de novo? - pergunto.

- Mandou tudo para o espaço. Honestamente, não sei por que ele se dá ao trabalho de fazer estimativas de custo.

Moody olha cuidadosamente para mim quando faz esse último comentário. É fato conhecido na empresa que Edgar prefere morrer a fazer uma estimativa de custo. E acho que Moody, com razão, suspeita de que sou eu quem faz as estimativas dele.

- Nem eu - digo, fazendo de conta de que não é comigo.

- Sempre que eu faço uma pergunta sobre o custo ele tem um dos seus ataques.

- Ah.

Isto envolver Edgar jogando-se sobre o móvel mais próximo, gemendo algo como "perguntas, perguntas. Por que tenho que aguentar tantas perguntas?". De vez em quando ele se compara a Picsasso ou Bach, dizendo que a genialidade deve ter liberdade para se manifestar. Eu adoro os ataques de Edgar. Há sempre uma pequena multidão ao seu redor no fim de um ataque.

- Falo com ele, se você quiser.

- Faça isso. Faça com que ele corte despesas em algum lugar.

- Vou tentar. Mas não prometo nada.

- Já se recuperou do fora? - ele pergunta sem cerimônia. - Você não é o ser humano mais animado no momento.

Meu relacionamento com Moody não permite que eu chore silenciosamente no seu ombro por uns vinte minutos, portanto respondo simplesmente que estou ótima.


Edgar reaparece na hora do almoço, senta ansioso na minha mesa e cruza suas pernas vestidas com calças Versace. Edgar é meu melhor amigo no escritório. Quando entrei na empresa, fui sua assistente por um ano, antes de começar a planejar festas sozinha. Ele trabalha aqui há ano promoter mais solicitado da empresa. Ele é, e sempre que pode lembrar a todos disso, criativo. Este é o passe livre dele com Moody. Qualquer mau comportamento é posto de lado com a desculpa de ter uma natureza criativa. Edgar matou quatro clientes com uma bombinha de São João e uma toalha de mesa? Oh, isso é porque ele é criativo.

- Então, como você está hoje? - pergunta ele. - Não vi você antes para perguntar. - A frase vem acompanhada de muitas caretas. Você não consegue manter uma conversa com Edgar sem essas caretas e descobre que tem passado muito tempo com ele quando vê que também é incapaz de dizer uma frase sem chupar as bochechas para dentro, revirar os olhos e manear afetadamente o ombro.

- Ótima! - digo toda animada e faço uma careta de volta.

- Você não parece ótima.

Não consigo esconder nada dele por muito tempo.

- Aconteceu uma coisa no metrô hoje - suspiro. - Alguém achou que eu estava grávida e me ofereceu o seu lugar.

- Oh.

- Não se atreva a rir, Edgar - digo zangada, vendo que ele está mordendo o lábio inferior com força -, porque simplesmente não tem graça nenhuma.

- Ora não estou rindo, Lilian. Estou simplesmente, hum... E o que você fez?

- O que eu poderia fazer? Dizer que meu estômago levemente inchado deve-se ao fato de ter comido Cornettos demais desde que o Amus me deu o fora? Fiz a única coisa que poderia fazer. Agradeci educadamente e sentei.

Edgar estende um mão para me confortar.

- Querida, você sabe que tudo acaba aumentando o seu estômago e nunca os seus seios. A natureza é uma filha-da-mãe.

- Por que eu não consegui simplesmente dizer que eu ganhei uns quilinhos depois que meu namorado me deu o fora? Poderíamos ter conversado sobre os prós e os contras da dieta Hay, quando comparada à dieta Atkins, e todos iriam se divertir. Mas, não, fui completamente britânica a respeito de toda a situação. Alguém me acusa de estar grávida e eu sou demasiadamente educada para desmentir isso.

- Deixa para lá, Lily. Só se passaram três semanas. Além disso, eu acho que é muito útil que seja o seu estômago que aumente de tamanho quando você engorda. Pelo menos o peso não está indo se esconder traiçoeiramente no seu traseiro quando você não está olhando.

- Se fosse assim as pessoas não iriam pensar que estou grávida.

- Não. Elas só iriam pensar que você tem uma bunda grande.

- Muitíssimo obrigada. Por que não posso ser uma daquelas mulheres que encolhem quatro manequins quando levam um fora? - reclamo.

- Ah, benzinho, porque aí você não seria você. E gosto de você como você é. Tirando, é claro, essa sua obsessão perfeccionista com as estimativas de custos.

- Eu só queria entender por que Amus me deu o fora - digo. - Nós passamos um tempo maravilhoso juntos. Talvez eu tenha me esforçado demais, Edgar.

Ele bufa sarcasticamente.

- Demais, ai-ais. Querida, não estamos mais no jardim-de-infância.

- Você acha que devo ligar para ele e perguntar?

- Não, não e não - diz Edgar - já falamos disso antes. Qualquer pessoa que termina um relacionamento pelo telefone não vale um minuto do seu tempo. E não se esqueça de que ele tentou ligar em uma hora em que pudesse deixar um recado na secretária eletrônica porque não queria dar o trabalho de falar com você pessoalmente. E, se puder, gostaria de salientar o fato de que deixar uma mensagem na secretária eletrônica do seu trabalho é simplesmente a coisa mais covarde e horrível que eu já vi.

- Eu sei - sussurro com voz trêmula trêmula. Antes que possamos dizer mais alguma coisa, Emmeline chega perto de nós com um cigarro na mão.

- Lady Bostawell chegou.

- Emmeline! - censuro, levantando e alisando a saia. - Já disse para não chamá-la assim. Você a acompanhou até a sala de reuniões?

- Sim.

- Obrigada. - Pego meu bloco de anotações, respiro fundo e marcho rapidamente pela recepção, subo um lance de escadas e entro na sala de reuniões. Lady Boswell está sentada em uma das cadeiras espetada como um pau de vassoura, com uma mão apoiada elegantemente no colo e a outra no alto do cabo de um grande guarda-chuva que ela gosta de carregar por todo lado.

- Lady Boswell, que prazer revê-la - digo suavemente. - Emmeline lhe ofereceu um café?

Lady Boswell olha para mim como se eu tivesse acabado de lhe oferecer uma xícara de vômito de gato com umas colheradas de vermes.

- Café, Lilian, café? Fique sabendo que nunca tomo cafeína à tarde. Vivemos em uma era obcecada por café. Aquelas cafeteiras horrorosas estão espalhadas por toda parte.

Lady Boswell é uma representante típica de nossos clientes mais tradicionais. Defensora das regras sociais e da etiqueta rígida, também é terrivelmente magra o que não me ajuda a gostar mais dela. E hoje está vestida com um tailleur azul-marinho completo, meias e luvas brancas. Uma bolsa grande a acompanha sempre e comenta-se que ela dá bolsadas nas pessoas quando as coisas não saem como ela planeja. Daí vem todo o meu nervosismo com a Festa Nórdica do Gelo.

Ela aperta os lábios finos, que estão sempre exageradamente pintados com batom cor de cereja, enquanto eu abro meu bloco de anotações.

- Bom, como vai o planejamento da festa? Os vikings vão parecer vikings de verdade? Você sabe que não posso permitir que a Sra. Sneddon-Wells passe na minha frente. O banquete caribenho que ela ofereceu ainda é a coisa mais comentada em Londres. - Ela faz uma pausa para respirar e me mede de cima a baixo com olhos críticos.

- Você engordou, Lilian?


¹: Famosa escritora britânica de livros de culinária (todas as notas são da autora)


Olá! Bem, aqui vai o primeiro capítulo de verdade, espero que gostem. Os primeiros capítulos são mais para explicar a vida da Lily e manter uma base para a história, mas já, já o James volta a aparecer, hehe.

Anne Marie Le Clair: Acho que eu nem preciso dizer que surtei quando recebi a sua review, né? Enfim, que bom que você gostou, e sim, a história de eles dois terem morado na mesma casa ainda vai render um bocado e ser explicada totalmente, não se preocupe. E o James também vai trazer várias surpresas, não fique muito preocupada com a indiferença dele c:

Daqui a alguns dias eu postarei o próximo capítulo, até lá!

Beijinhos, Joules