CAPÍTULO IV
- Tia Winnie, temos que andar sempre a mais de cento e sessenta quilômetros por hora? - protesto nervosa, enquanto tia Winnie atravessa para o outro lado da pista em um par de curvas apertadas na estrada vicinal. Estamos há dez minutos no carro e, na maior parte do tempo, mantive os olhos fechados, com medo, fazendo caretas assustadas que, por algum motivo, parecem ser fundamentais para chegarmos com segurança ao nosso destino.
Normalmente, venho para cá com o Remus dirigindo. Ele passou no exame de motorista na terceira tentativa e deve ter estabelecido o recorde mundial para a reprovação mais rápida de todos os tempos quando, na sua primeira tentativa, ao sair do local de exames, disse para o examinador: "Pode ver se o tráfego está livre do seu lado?". Mas, apesar disso, ele é bom motorista o suficiente para que eu não tenha de me preocupar em lembrar se estou usando um conjunto de lingerie que combina ou não. Já faz algum tempo desde que viajei com tia Winnie ao volante e a experiência é um choque para meu sistema nervoso. Quando era criança, levei um bom tempo para descobrir que as vacas e as ovelhas não eram formas brancas e pretas borradas, com expressões espantadas.
- Ah, não seja uma chata de galocha - ruge Winnie. Sentado no ainda mais assustador ponto de observação no assento dianteiro, Snuffles. o cachorro, olha para mim por cima do seu ombro, de uma maneira que sugere algo como "os incomodados que se mudem". Tia Winnie estica o braço para fora da janela para informar a todos os outros motoristas que vamos virar à esquerda nem que chovam canivetes.
- Quando é que você tem que voltar a fazer o teste de direção para renovar sua carteira, tia Winnie? - pergunto, torcendo para que ela já esteja vencida. Assim, bastaria simplesmente uma denúncia aos canais competentes e, quem sabe?, a carteira de motorista suspensa para sempre. Agarro o apoio da cabeça do assento do passageiro com as duas mãos enquanto viramos à esquerda, para que os bombeiros me encontrem facilmente nos destroços do carro, meu corpo ainda grudado ao apoio.
- QUE INSOLÊNCIA! - ruge ela. - Não sou tão velha assim, ainda faltam anos para a renovação! - Snuffles vira-se novamente e recebo outro olhar desdenhoso do assento dianteiro. Mostro a língua para ele. Pelo menos o cinto de segunda dele funciona. Este carro é tão velho que os cintos de segurança traseiros precisam ser amarrados com um nó. Daria na mesma se eu tivesse me amarrado ao assento usando uma meia-calça e um arquinho de cabelo.
Acabei escolhendo embarcar no trem que saía da estação de Liverpool Street, juntamente com todos os outros passageiros estressados de sexta-feira à noite, porque Remus tinha de ir à despedida de solteiro e, de qualquer maneira, eu voltaria de trem depois de me encontrar com Monty Potter na segunda-feira. Tia Winnie acabou de me pegar na estação e estamos a caminho do supermercado para comprar algumas coisas essenciais.
Tia Winnie faz umas guinadas bruscas ao redor de um carro estacionado e eu bato com a cabeça na alça sobre a janela onde, percebo, eu deveria estar dependurada. Snuffles consegue evitar contusões, já que se inclina automaticamente durante as curvas. Solto relutantemente uma mão da cabeça para passá-la no galo na minha testa.
- Você não queria ir ao supermercado? - pergunto enquanto passamos intrépidas e em alta velocidade em frente dele, na direção de outra rotatória.
- Droga - diz tia Winnie. Neste momento ela faz uma volta de cento e oitenta graus completamente ilegal, sem fazer qualquer tipo de sinalização, manual ou não, e aponta sua mira para o estacionamento do supermercado. Muito boba, solto o cinto de segurança antes de o carro parar completamente. Pago o pato, indo parar entre os dois assentos dianteiros, com o meu nariz demasiado perto de só Deus sabe quantos anos de migalhas, tufos de sujeira e pelos de cachorro. Snuffles dá umas lambidas de solidariedade na minha orelha.
- Snuffles! Sai de cima! - resmungo lá das profundezas.
- Lilian! Pare de ficar brincando com Snuffles! Você vai deixá-lo superexcitado! - diz tia Winnie, segurando meu braço e me dando umas valentes chacoalhadas. - Boa-noite, Sra. Roffe! - ela grita em resposta a uma senhora que passa apressadamente. Minha tia Winnie não é nenhuma novidade para os moradores de Stowmarket. - um Mini verde-ervinha brilhante com um labrador grandão amarrado no pára-lama dianteiro é algo difícil de se ignorar -, mas seria de esperar que vê-la puxando uma ruiva alta do meio dos assentos dianteiros do carro fizesse com que algumas pessoas se espantassem.
- Você acha que Snuffles poderia sentar no banco de trás na viagem de volta? - pergunto, ainda entalada.
- Não seja ridícula, Lily, ele é muito grande - ele bufa.
- E eu sou o quê? Uma anã?
- Claro que não. Vamos lá, Lily, dê uma ajuda. O problema é o seu TRASEIRO! - ela urra. Mesmo assim, não há nenhuma reação por parte dos bons cidadãos de Stowmarket.
Retorço-me toda irritada, saindo do meio dos assentos.
- NÃO é o meu traseiro - respondo de uma maneira rude, me endireitando e arrumando minhas roupas.
- Você não corre o risco de ter osteoporose daqui a alguns anos? - tia Winnie pergunta enquanto tranca o carro e começa a andar a passos largos pelo estacionamento.
- Ah, como se você não tivesse esse problema.
Ela dá uma gargalhada e coloca o braço ao meu redor. Eu relaxo e sorrio de volta. Caminhamos juntas em direção ao supermercado.
Tia Winnie é uma mulher difícil de ser ignorada por vários motivos, um deles é a sua voz trovejante, que é surpreendentemente alta para alguém tão baixinha. E, provavelmente devido ao fato de adorar ar fresco e longas caminhadas, ela possui o hábito horroroso de conversar com você como se você estivesse a meio quilômetro de distância e contra o vento. Todavia, o que lhe falta em altura ela compensa, e compensa muito bem, em personalidade. Eu não chegaria ao ponto de descrevê-la como sendo uma pessoa rude, ela é somente... ah, está bem, ela é rude.
Desde que me lembro, tia Winnie se veste da cabeça aos pés com diversos tons de tweed, juntamente com austeros sapatos sem salto, que não ajudam em nada a aumentar sua altura, e completa o conjunto com um chapéu todo espevitado, saído da sua coleção eclética. Hoje ela está usando um chapéu à la Sherlock Holmes, enfeitado na lateral com um par de alegres penas de faisão, que vivem se enfiando no nariz das pessoas mais altas cada vez que ela mexe a cabeça. Seu cabelo é curto e, como acabamento do visual, usa óculos consertados com um esparadrapo do Mickey e pendurados em uma correntinha ao pescoço.
Desde que me lembro, tia Winnie tem sido uma segunda mãe para mim. Quando éramos crianças, Dora e eu contávamos com a sólida segurança e gentileza da tia Winnie durante o ano letivo, e com as festas e indulgências extravagantes dos meus pais, quando eles estavam conosco nas férias. Mas quem nos criou mesmo foi a tia Winnie. E é para os braços dela que sempre corremos. Ela é a irmã mais velha de minha mãe, mas não existem duas pessoas mais diferentes em nenhuma outra parte do mundo. Enquanto minha mãe caminha deslizando, tia Winnie anda pisando duro. Enquanto minha mãe tem um riso cristalino, minha tia Winnie tem uma gargalhada estrondosa. Devido a um caso de amor infeliz na juventude, sobre o qual fiquei sabendo através de minha mãe quando fiquei mais velha, tia Winnie nunca pensou em casar-se (e Nunca se Deve Falar a Respeito Disso). Por isso, minha tia tinha muito espaço em sua vida emocional e física para nós duas. E isso foi a minha sorte e a de Dora. Ela é o porto seguro para onde sempre ficamos felizes em voltar.
Meus pais foram, e ainda são, pessoas completamente inconstantes. Meu pai estava muito ocupado com o seu trabalho, e minha mãe muito ocupada com suas festas e listas de convidados para se preocupar muito comigo ou com Dora. E eu não ficaria surpresa se tivéssemos alguns outros irmãos perdidos por aí afora simplesmente porque eles se esqueceram de ir buscá-los na escola. Lembro-me de quando telefonei para eles, na Itália, para contar sobre minhas notas excelentes, dois Bs e um C. Minha mãe ficou toda inchada por um tempo, dizendo como eu era maravilhosa, e depois perguntou o que era mesmo que significavam os Bs e os Cs. Eu disse que eram abreviações de Brilhantemente Fantástico e Com um Pouco de Esforço Melhora, algo que ela acredita até hoje. Pelo contraste, as pessoas acham a tia Winnie completamente assustadora. Uma vez, durante uma reunião de pais e mestres, um dos professores perguntou sobre seu nome.
- Winnie? - disse ele. - Que engraçado. Que nem o personagem do Ursinho Puf?
Ela o encarou firmemente.
- Não. Como a mulher do Mandela.
Infelizmente, tia Winnie pilota o carrinho de supermercado do mesmo modo com que dirige seu carro. Ela avança em posição de ataque pelos corredores, gritando para que eu jogue diversos produtos para dentro, mas sem reduzir a velocidade. Então eu acabo ficando a um corredor distância, tentando arremessar latas de comida para dentro de um alvo movendo-se a um sessenta quilômetros por hora.
O gerente do supermercado dá um grande suspiro de alívio quando vê que saímos sem nos machucarmos e sem ferir alguém. Volto a entrar no carro velho, subo por cima de Snuffles - que faz o melhor para me ignorar, olhando estóica e fixamente pela janela- e me acomodo no branco traseiro. É surpreendente como um carro pode acumular anos de lixo. No vão para os pés na parte traseira estão os papeis de balas e listas de compras jogadas fora como de costume, mas também a perna arrancada de um ursinho de pelúcia, vítima de um cabo-de-guerra entre mim e Dora, vários arquinhos de cabelo e acessórios de épocas passadas, e até mesmo um batom prateado, estilo punk. Lembranças da minha adolescência enchem a minha mente.
Outra grande vantagem da educação da tia Winnie, embora não apreciada completamente na época, foi o nível de disciplina que ela usava com Dora e comigo. Particularmente quando éramos adolescentes. Esta era devida, em parte, à presença do seu conjunto de tacos de golfe, que ficavam pousados inofensivamente ao lado da porta de entrada. Uma lenda na família diz que tia Winnie realmente matou alguém com seu taco de golfe (embora ela afirme que só o nocauteou com o taco e que tudo foi um acidente). Os olhos da tia Winnie só precisam mover-se na direção dos tacos para que eu e Dora voltássemos, milagrosamente, a nos comportar. Aparentemente ela tentou este truque com o vigário quando ele se recusou a colocar a barriquinha de prendas no melhor lugar da quermesse da cidadezinha e, segundo ela, o truque também funcionou muito bem com ele. Só muito depois da minha adolescência foi que percebi o quanto a tia Winnie se sacrificava por nós. Os horários das refeições eram planejados ou adiados de acordo com os calendários escolares, o velho Mini era disputado como se também fosse nosso. Quando minha mãe pediu à tia Winnie para que nós ensinasse sobre os fatos da vida, ela passou horas nos ensinando a jogar pôquer e a beber uísque.
Chegamos à casa da tia Winnie a cem por hora, até ela frear o carro, cantando pneus. Snuffles sai do carro dianteiro e começa a correr e a ladrar pelo jardim para assustar eventuais melros errantes que possam ter se aproveitado da ausência dele. Tiramos as sacolas do porta-malas e percorremos um caminho estreito pelo jardim até a casa. Uma horta e um pequeno pomar estendem-se da garagem até a porta dos fundos e, como sempre, paramos aqui e ali, felizes e em silêncio para pegar um morango através da rede de arame, ou para colher uma vagem de ervilhas temporã. O sol poente do verão atravessa as árvores na frente da casa e oferece um calor acolhedor.
Espero enquanto tia Winnie luta com as chaves. Com um empurrão vigoroso na porta (está sempre emperrada), ela entra no corredor.
Como sempre, murmura para si mesma:
- Preciso mesmo arrumar esta porta.
- Hum - respondo sem me comprometer. Tia Winnie e o esquema do faça-você-mesmo não são bons amigos. Durante muito tempo, achei que o nome dado ao martelo era mesmo porcaria.
- Certo - diz tia Winnie de modo decidido -, jantar. E depois você tem que me contar tudo a respeito dessa história com os Potter. - Eu dera um telefonema às pressas para perguntar se ela poderia me dar uma carona até Hogsmeade na segunda-feira, mas não entrei em detalhes.
- Não é surpreendente que a Sra. Charlesty telefonasse para Monty Potter assim? Nâo sabia que ela ainda estava em contato com ele depois de tantos anos. Ela deveria saber que havia um baile em Hogsmeade e que você seria a pessoa ideal!
Ela sorri para mim, obviamente muito contente com esse pequeno arranjo empresarial. Começo a abrir enormes latas de comida de cachorro e Snuffles gruda na minha perna esquerda como uma lagartixa na parede. Tia Winnie fica oucpada com o começo do jantar - vamos comer patê com manteiga que está em uma velha manteigueira lascada (com tia Winnie não existem frescuras como pasta de azeitona orgânica) em torradas de pão fresco comprado no padeiro da cidade. Finalmente estamos sentadas frenta a frente na mesa da cozinha.
- Então? - ela pergunta ansiosa.
- O quê?
- Lily, não seja ridícula! Não me venha com "o quê"? Fale sobre o trabalho em Hogsmeade!
- Eu contei tudo a respeito quando telefonei.
- Você não me disse nada.
- Mas você sabe tanto quanto eu sei. Eles precisam realizar um baile de caridade em cima da hora.
- Como lhe pareceu o Monty? Ele disse alguma coisa sobre James? Você vai encontrar com ele?
- James está viajando - respondo encurtando a história. Estou cansada e sem muita vontade de responder a um questionário detalhado, principalmente sobre James Potter. Já se passou muito tempo para começar a contar agora para tia Winnie sobre nossa amizade. Eu nem mesmo contei sobre nosso encontro em uma festa tempo atrás.
- Oh - diz tia Winnie significativamente. Começo a mastigar e tento ignorar seu olhar interessado. Não sei por que nunca contei a ninguém sobre as maldades de James. É claro que as pessoas à nossa volta perceberam que algo havia acontecido entre nós, mas acharam que era uma zanga qualquer de crianças.
Talvez eu tivesse medo de sofrer represálias por parte de James, ou simplesmente tivesse medo de ser um bebê chorão. Mas parecia, de certa maneira, que a culpa das maldades que ele fazia era minha por não ser suficientemente forte para me impor ou qualquer coisa do gênero.
- E como você se sente a respeito disso tudo? - cutuca tia Winnie.
Não olho nos olhos dela.
- Não gosto particularmente da ideia de ficar presa naquela casa com James brincando de amo e senhor.
- Mas vocês eram tão unidos.
- Não depois que ele chegou à puberdade.
Tia Winnie concorda com a cabeça.
- Pelo que leio nos jornais, ele não me parece ser muito agradável. Na verdade, parece ser muito desagradável! Mas imprensa não é uma fonte muito confiável nessa área.
- Acho que os fatos falam por si mesmos. Além disso, de qualquer maneira, ele não era muito gentil quando criança. - Desta vez eu a encaro de frente.
Tia Winnie franze as sobrancelhas.
- Não, lembro-me de ouvir seu pai dizendo que um dos meninos havia se tornado bastante desagradável, mas não me lembro se era James ou Will.
- Era James - digo enfaticamente -, decididamente James. Foi antes de virmos morar com você, e é por isso que você não se lembra bem.
- Você já contou aos seus pais?
- Não, não contei.
- E contou para Dora?
- Não vejo Dora há seculos. Ela vem neste fim de semana? - pergunto ansiosa para mudar de assunto e entrar em terreno um pouco mais confortável.
Dora é mais nova que eu e trabalha na City, algo com câmbio e mercados futuros. Ela já me explicou duas vezes o que faz e eu realmente não quero perguntar de novo. Ao contrário da irmã mais velha, ela fez sucesso na City.
Nossas personalidades possuem traços muito parecidos, mas ela parece ter um pouco mais de cada um deles. Gosto de pensar que sou mais sociável do que eal, mas sei muito bem que as legiões de amigos que ela tem vão discordar de mim. Também gosto de pensar que sou mais criativa do que ela, mas sei que os fabulosos arranjos de floores que enfeitam seu apartamento em Notting Hill são feitos pelas mãos de Dora Evans S/A. Mas amamos uma à outra incondicionalmente, e sei, bem lá no fundo, que não trocaria minha vida pela dela, apesar do apartamento espaçoso, do salário astronômico e de um guarda-roupa cheio de roupas de designers.
- Não, ela cancelou. Algo surgiu. - Tia Winnie coloca mais chá nas nossas xícaras.
- Oh - Levanto as sobrancelhas, surpresa. Pode ser que eu esteja sensível demais, mas minha irmã parece estar me evitando ultimamente. Normalmente ela adora vir e encontrar comigo e Remus, mas já não vejo Dora há semanas. Deve ser minha imaginação. Não consigo pensar em nada que possa ter feito para chateá-la.
- Como você está se sentindo em relação a Amus?
- Melhor, eu acho.
- Talvez voltar a Hogsmeade seja uma enorme benção disfarçada?
- Sim, vai ser bom sair de Londres por uns tempos. E espero que seja... não sei... estabilizador, de certo modo. Quero dizer, voltar para o lugar onde cresci.
- Sim, Sim, acho que sim.
Ficamos em silêncio e acho que tia Winnie deve estar refletindo sobre minhas sábias e muito perspicazes palavras. Ela está, sem dúvida, me olhando de modo pensativo.
- Querida, que cor é essa que você está usando? - diz inesperadamente.
- Hã?
- A cor que você está usando. Que nome sofisticado dão a ela agora?
- Hã, rosa.
- Não acho que você deva usá-la. Você fica parecendo um marshmallow.
N/A: Eu demorei um pouco mais para postar esse capítulo, sim, eu sei. De qualquer maneira, no próximo capítulo a Lily já vai chegar em Hogsmeade, estejam preparados. Postarei o capítulo 5 o mais breve possível!
Até lá,
Joules
