CAPÍTULO V
- Lily, querida, venha me buscar. Estou nessa sua estação merreca de trem. O único táxi disponível foi apanhado por uma freira irlandesa maluca que tentou me converter o trajeto inteiro desde a estação de Liverpool Street. O carregador que, a propósito, parece ser alguém envolvido com drogas pesadas, me diz que não há ônibus até amanhã. Portanto, você tem que vir me buscar. E não se demore, toda a gente daqui parece ser coxa ou vesga. Estou doido para fazer xixi, mas nem penso em usar o banheiro daqui, pois é óbvio que há alguma coisa de errado com a água deste lugar. Esta é, decididamente, a última vez que uso o transporte público. Lily, você está aí?
- Sim, sim, Remus, estou aqui.
- Você vem?
- Vou, já, já. Só que tia Winnie quer parar antes para comprar algumas coisinhas.
- Lilian, se você não quer começar a mancar como os outros, VENHA JÁ PARA CÁ!
- Tá bom, Santa. Segure a franga. Estava brincando. Vejo você em cinco minutos.
Ponho o fone no gancho com um sorriso. A manhã de sábado está quase acabando e, embora soubesse que Remus iria aparecer hoje, ele não disse quando ou como viria, e eu nem me lembrei de perguntar. Vou até a cozinha e pego uma maçã.
- Tia Winnie – digo entre mordidas -, Remus está na estação.
- É bom saber, querida.
- Hum. – Mastigo em silêncio por alguns segundos. – Acho que ele precisa que alguém vá buscá-lo.
- Você demorou mais de vinte minutos – Remus sibila para mim enquanto esmaga o cigarro no chão com o pé. Ele beija tia Winnie e faz festinha em Snuffles. – Tive que usar o banheiro daqui. Veja, acho que fiquei vesgo também. – Ele revira um olho de uma maneira exageradamente dramática.
- Por que você não veio de carro?
- Porque o trânsito estava tão horrível da última vez que vim para cá que achei que o trem seria melhor. Mas minha mãe nunca me avisou sobre os perigos de se viajar ao lado de freiras irlandesas. – E, imitando o sotaque irlandês, começa: - Deus seja louvado, Jesus é um cara legal, absolutamente dez. E você é um completo idiota por não querer Jesus ao seu lado, é mesmo. Você leu o livro? – Ele volta ao sotaque normal: - É claro que respondi: "Que livro?", o que teve efeito idêntico ao de acenar para um touro com uma capa vermelha. É isso o que acontece no transporte público. Você está completamente vulnerável às tentativas de conversão por parte de freiras irlandesas. Deveria haver um aviso no trem sobre isso, não acha?
- E o metrô? Você não considera o metrô como transporte público?
- Mas ninguém fala com você no metrô.
Sentamos espremidos no assento traseiro do Mini. Remus respeita a prioridade que Snuffles tem sobre o assento dianteiro.
- Grande raça os irlandeses, não? – tia Winnie comenta. – Uma vez sentei-me na frente de um irlandês durante uma viagem de trem de três horas. Ele abriu uma caixa com um quebra-cabeça com cinco mil peças, começou a montá-lo e, no fim da viagem, jogou tudo de volta dentro da caixa. Eu estava montando a parte do céu. Era bem complicado.
- Li nos jornais sobre um irlandês que morreu em sua mesa no escritório e ficou lá durante cinco dias sem que ninguém percebesse – acrescenta Rem. – Aparentemente ele estava sempre bêbado como um gambá ou com uma tremenda ressaca e costumava sentar-se e deitar a cabeça sobre os braços. Só descobriram que ele estava morto no sábado, quando lembraram que ele nunca ia trabalhar aos sábados. Esse é o tipo de empresa para a qual eu gostaria de trabalhar, não para a empresa mafiosa do pai do seu ex-namorado. O vigário já voltou a falar com a senhora? – ele pergunta para a tia Winnie.
Ela sorri maliciosamente e começa fofocando sobre um novo conjunto de desventuras na cidade, culminando com ela quase atropelando o vigário. Parece que minha tia Winnie descobriu um novo esporte chamado Azucrinar o Vigário. Há seis meses chegou um novo vigário, todo animadinho, chamado Jason, que cometeu o erro de visitar minha tia Winnie na primeira semana. Bom, ele agora já não está tão animadinho – na verdade, está quase tendo um colapso nervoso. Tia Winnie diz que tem certeza de que Deus não vai levar a mal um pouco de diversão inofensiva, principalmente porque a sua novela favorita terminou.
Remus declara ser incapaz de aguentar a longa viagem de três minutos sem parar para tomar um drinque, e rodamos em direção ao pub da cidade. Sentamos a uma mesa na frente da ladeira, depois que Snuffles, que conhece bem o seu lugar e seu assento favorito, nos guiou direto para o local. Tia Winnie tenta se lembrar de onde foi que parou, na gigantesca parede de garrafas de uísque do pub, da última vez. O dono do pub, muito atencioso, arrumou as garrafas em ordem alfabética especialmente para ela. Tia Winnie gosta muito de uísque, e assim que ela acaba de experimentar toda a parede, começa tudo de novo.
- Acho que estava na letra "I", Lily. Não se lembra?
- Acho que sim, lembro-me de uma conversa sobre "Islay".
- Foi isso mesmo. Então vou beber algo que comece com "J", Rem. E um saco de batatas fritas para Snuffles. Sabor queijo e cebola, por favor.
- O desejo dele é uma ordem.
Rem vira-se para mim.
- Lily?
- Hã... – Sempre fico um pouco travada quando se trata de beber em pubs. Nunca sei o que pedir. E um spritzer de vinho branco parece sempre ser muita frescura quando estou na companhia de alcoólicos calejados como a tia Winnie e o Remus. – Tomo o que você for tomar – digo corajosa e imediatamente lamento minhas palavras.
Remus vai até o balcão. Há uma breve pausa.
- Tia Winnie? – pergunto, há algo que me incomoda desde que essa história com os Potter começou. – Como foi que alugamos uma casa dentro da propriedade de Hogsmeade e não na área militar? Foi só por causa da necessidade de estábulos para os cavalos da mamãe?
É surpreendente o que deixamos de questionar na infância. Lembro-me de meus pais comprando canecas com nomes para mim e para Dora quando tínhamos dez anos, mas como não havia nenhuma com o nome Lilian, meus pais compraram um com o nome Isaac¹ e juraram que este era o meu nome em francês. Se eles conseguiram enganar a minha aguçada perspicácia com isso, pode-se perceber por que até hoje nunca me passou pela cabeça perguntar a razão de termos nos mudado para a propriedade de Hogsmeade.
Ela encolhe levemente os ombros.
- Seus pais acharam que seria bom para você e Dora passarem um tempo no campos. E, se me lembro bem, você também queria andar a cavalo.
- Eu? – pergunto incrédula. – Com certeza ela está pensando em outra Lily, ou talvez em Isaac. Esta Lily/Isaac aqui não chega a menos de um metro de distância de uma dessas criaturas fedorentas e de seus cascos assustadores.
- Sua mãe costumava muito a andar a cavalo, e acho que você decidiu que queria cavalgar também. É claro que, na primeira vez que você caiu, decidiu que odiava aquilo.
Inclino-me, interessadíssima.
- Eu estava galopando quando caí? Tentando algum salto?
- Não, querida, o cavalo estava completamente parado no pátio. Você perdeu o equilíbrio.
Ah. Deve ser por isso que eu, convenientemente, apaguei toda a cena da minha memória. E aquele cheiro.
- Mas como é que meus pais conheciam os Potter? – continuo, mas Remus volta e nos interrompe:
- A freira me inspirou e eu pedi uma Guiness.
- Odeio Guiness.
- Eu sei, por isso pedi um Drambuie com ginger ale para você. – Lógico.
Sem cerimônia, ele coloca ruidosamente os dois copos na mesa e volta ao balcão para pegar sua Guiness, que está lá suando, ou assentando, ou seja o que for que as cervejas fazem.
- Você tem certeza de que eu estava na letra "I", Lily? – tia Winnie pergunta.
- Talvez fosse "T"?
- Que chato; seja como for, este também vai goela abaixo!
Fazemos tinir os copos e eu dou um golinho experimental no Drambuie e ginger ale. É uma mistura de sabores interessante. Olho na direção de Remus, que conversa animadamente com o dono do pub. Ele está rindo de alguma coisa, deixando a cabeça cair para trás e eu acabo também por sorrir. Rem possui o maior e mais contagiante sorriso que eu já vi. Ele tem um ar encantador, de uma maneira muito dândi. Não é bem o meu estilo, mas é muito atraente quando o homem em questão é uma pessoa tão aberta e tão simples como Rem. Ele tem cabelos louro-escuros, que a princípio julguei que fossem cuidadosamente desarrumados, mas descobri que são simplesmente desarrumados; é magro e possui um rosto atraente. E também possui excelentes ligações. Sua família é conhecida nos círculos sociais londrinos, e Rem é considerado um partidão. Mas mesmo se eu quisesse me casar com ele, duvido que ele se interessasse. Por, fiquem sabendo, descobri há pouco tempo que ele é gay.
Remus tem um monte de admiradoras, mas comecei a perceber um padrão. Ele nunca foi atrás de nenhuma dessas meninas. Sua tia Agnes, provavelmente desesperada para ter sobrinhos-netos, costuma empurrar garotas no seu caminho. Rem, por respeito à tia, dá umas voltas com elas pelo quarteirão e depois, educadamente, diz até logo. Garotas no escritório, no metrô, na cafeteria local, todas já terão, em um momento qualquer, enfiado papéis com seus números de telefone na mão dele e suplicado para que ele telefonasse. Mas, em vez de ficar todo convencido com o assédio e ir para a cama com todas, Rem sai com elas, é uma ótima companhia, ouve todos os seus problemas e depois as devolve respeitosamente para o lugar de onde vieram.
Nunca investiguei a situação a fundo porque, quando o seu melhor amigo é um homem, às vezes é difícil conversar sobre essas coisas. Imagino que ele tenha aprontado um pouco com algumas delas, embora nunca tenha tido certeza, porque ele nunca as levou ao nosso apartamento. Era aí que estava o meu erro. Remus é um homem do tipo que tem sangue cor-de-rosa nas veias. Certeza absoluta. Como eu sei? Porque uma das suas ex-namoradas me contou. Poucas semanas atrás, estava trabalhando em um coquetel quando uma garota chamada Dorcas se aproximou e apresentou-se novamente. Conversamos alguns minutos, e então ela disse:
- Que pena aquilo sobre o Remus, não?
Fiquei levemente intrigada, pensando no que raios ele teria aprontado agora, quando percebi que ela estava avaliando a minha reação. O truque mais velho da praça. Então concordei, de modo casual, que era um pouco chato e olhei de maneira significativa para ela. Foi aí que a represa estourou – como ele tinha contado que era gay, mas que ainda estava confuso com tudo isso, e se ela poderia manter segredo. Ela, obviamente, não podia.
Eu estava total e completamente chocada. Não pelo fato de Remus ser gay. Eu não estava nem aí para isso. O choque vinha do fato dele não ter me contado. Gosto de acreditar que sou a melhor amiga dele e, no fim das contas, ele não me disse nada. E foi aí que as coisas começaram a fazer sentido. A ausência de uma namorada, sua predileção por Kylie Minogue, seus antiquados tênis de lona, a forma como ele adora dissecar tudo verbalmente, acima de tudo na lista, sua DELICADEZA. Sim, todos os sinais brilhavam na minha frente e eu não vi nenhum. Isso aconteceu há exatamente um mês. Lembro a data com precisão porque no dia seguinte Amus me deu o fora e as coisas mudaram de perspectiva. Havia problemas bem mais importantes para cuidar do que o fato de Rem ser gay. Agora que a poeira baixou novamente, nunca encontro a hora certa para conversar com ele a respeito – não posso dizer no meio do jantar "Passe o sal e, a propósito, quando você pensa em sair do armário?". Além disso, esses assuntos são pessoais e eu acho que ele vai me contar quando estiver pronto.
Enquanto Remus volta para nossa mesa, procurando por cigarros em seu bolso, seu celular começa a tocar o tema do Batman e ele o retira do bolso traseiro. Ele tem um desses celulares metidos a besta no qual se pode programar o toque para indicar quem está chamando. Eu, por exemplo, sou identificada pelo tema do desenho animado do Honk Kong Fu. E é por isso que lamento profundamente ter contado a ele a história de como meu colar ficou preso em um arquivo do escritório e levaram mais de dez minutos para me soltar.
- E aí! – ele atende com familiaridade. Eu posso ser absolutamente insensível em alguns assuntos, mas se tem uma coisa que consigo identificar rapidamente é um clima. E parece haver um clima muito íntimo entre Rem e quem quer que seja que está do outro lado da linha. Além do que, é óbvio que Remus conhece bem a pessoa, para lhe dar um toque particular.
Snuffles e eu empinamos os ouvidos. Gostaria de acreditar que é porque ele está tão interessado na vida amorosa de Remus quanto eu, mas a verdade é que Scooby, o gato do pub, acabou de entrar na sala. Ouço atentamente enquanto disfarço brincando com o porta-copos, mas sem resultados. Desafio o invento do código Morse, ou até mesmo o detetive Poirot, a descobrir alguma coisa com a sequencia de "Hum... sim, acho que sim... hum... é...". Depois de um tempo, Rem pede para a pessoa do outro lado da linha aguardar um instante e sai para continuar a conversa em particular.
- Você ouviu aquilo, tia Winnie? - pergunto com um sussurro dramáticl.
- Hã, o quê?
- Aquilo - cuspo a palavra enfaticamente.
- O quê?
- A conversa de Rem com o Batman.
- Não havia muito para se ouvir, havia?
- Acho que ele está namorando alguém.
- Com que poderes especiais você chegou a esta conclusão, com base naquela conversa? - pergunta tia Winnie, verdadeiramente intrigada.
- Agora estou pensando a respeito, ele tem andado cheio de segredinhos ultimamente. Vive terminando os telefonemas quando entro na sala e me diz que foi engano.
- E por que ele não contaria que está namorando alguém? Achei que vocês contavam tudo um para o outro.
PAF! Bato dramaticamente meu punho cerrado contra a palma da outra mão.
- Agora esta é a pergunta, tia Winnie? Por que não me contaria?
- Hã, eu não sei. Acabei de perguntar isso.
Abro a boca para começar a confessar todas as minhas suspeitas sobre ele, mas a fecho novamente quando penso que Remus não gostaria que eu contasse para tia Winnie antes de ele sequer ter dito algo para mim. Felizmente somos interrompidos.
- Quem era? - pergunto inocentemente enquanto Rem senta-se à mesa.
- Oh, era, hã, Pete.
Balanço a cabeça, tipo oh!-era-o-Pete.
- O que vamos almoçar, tia Win? - pergunta Remus, e tudo é deixado de lado.
Dirigimo-nos para casa depois que terminamos os drinques e tia Winnie fica ocupada colocando linguiças na grela enquanto Remus e eu escolhemos uma garrafa na grande coleção de vinhos caseiros de tia Winnie. Gengibre, framboesa, maça, a lista é infinita. Acabamos nos decidindo por ruibarbo.
- Duas linguiças ou três, Rem? - pergunta tia Winnie.
- Só duas para mim, obrigado. Já que sou...
- Vegetariano - terminamos a frase por ele. Estamos acostumados com a ideia que Rem tem do que é ser vegetariano, uma ideia muito seletiva e extremamente ocasional. Ele parece acreditar que comer porções pequenas de carne o transforma em vegetariano. Mas tudo não passa de uma desculpa para chamar atenção quando ele recebe sua refeição antes do que as outras pessoas nos aviões. Durante muito tempo, sempre que alguém fazia uma pergunta, como "Desculpe, pode me dizer que horas são?", ele respondia: "Não, desculpe, sou vegetariano".
Dando suspiros de felicidade, Rem e eu vamos para o assento junto à janela levando nossos copos de vinhos. Verifico cuidadosamente por baixo das almofadas, procurando pedaços de ossos mastigados que Snuffles adora esconder ali. Foram necessárias três lavagens a seco para remover uma mancha de gordura da minha adorável calça lilás. Depois de limpar os resíduos, apoio as costas contra a parede e coloco as pernas no colo de Rem enquanto ele acende um cigarro, usa o maço, agora vazio, como cinzeiro e toma um galinho do vinho de ruibarbo.
- Caramba, tia Winnie - digo quando consigo voltar a respirar. Este vinho, me lembro, foi o motivo pelo qual não me importei muito na hora com a mancha de gordura.
- Meu Deus - diz Remus, piscando surpreso. - Você engarrafou o fogo dos infernos. É como uma pancada na cabeça.
- Sim, estou muito satisfeita com ele - diz tia Winnie, toda orgulhosa. Todos concordamos que se tia Winnie quiser voltar a trabalhar, sua nova carreira deve ser a fabricante de vinhos. - Como vai o trabalho, Rem? - pergunta tia Winnie.
Ele franze o nariz e faz uma careta.
- Estou pensando em largar tudo.
Isto é uma novidade para mim. Sento.
- Desde quando?
- Ah, venho namorando essa ideia já há algum tempo. - Ele não me olha nos olhos e descubro imediatamente que alguma influência externa tem algo a ver com isso. E eu poderia dizer que é o "Batman". - Eu realmente acho que é hora de levar o meu romance um pouco mais a sério. Se eu largar o trabalho no escritório, poderei ser escritor em período integral.
- E o dinheiro? - pergunto.
- Bom, na verdade, pensei que poderia trabalhar mais nos seus eventos, Lily. Poderia trabalhar de noite e escrever durante o dia. Você pode conseguir para mim uns trabalhinhos servindo à mesa em jantares elegantes aqui e ali, não pode? - Rem sempre me ajuda em eventos para ganhar um dinheiro extra. Ele é muito charmoso e todo mundo o adora.
- Na verdade, não poderia tentar me encaixar no evento Potter? Adoraria conhecer Hogsmeade!
- Claro que sim - digo, mas minha mente está em outro lugar. Estou pensando que meu último elo com Amus desaparecerá.
Passo, supostamente, a maior parte da manhã de segunda-feira trabalhando no laptop, mas na verdade fiquei mudando de roupa a cada meia hora.
- Que tal esta, tia Winnie? - pergunto do alto das escadas.
Ela olha para mim enquanto pratica o seu balanço para tacada de golfe no corredor. Sabiamente, Snuffles desapareceu.
- Lil, querida, as roupas estão começando a ficar incrivelmente parecidas umas com as outras.
- É porque você já viu este conjunto. Foi o primeiro que vesti esta manhã.
Ela parece ficar um pouco irritada com essa informação.
- Não use nada florido e tudo ficará bem. Me diga o visual que você pretende usar e então vamos analisar. - Ela para de treinar o seu swing e apoia-se no taco de golfe.
- Quero parecer eficiente.
- O segundo conjunto, então. - Ela parece ficar aliviada com esta decisão rápida. No passado, levávamos um bom par de horas antes que Dora saísse de casa para ir a qualquer lugar importante. Ela volta a pegar no taco de golfe.
- E mesmo assim estou feminina? Não quero parecer muito machona.
Tia Winnie faz de conta que leva a informação em consideração, mas sei que ela está blefando, porque é óbvio que perdeu o interesse no assunto há meia hora. E eu também já estou ficando meia cheia também.
- O terceiro conjunto, então.
Concordo com a cabeça e desapareço para mudar de roupa. Estou inexplicavelmente nervosa em rever os Potter e quero desesperadamente causar uma boa impressão.
Tia Winnie engata uma segunda e força o Mini a alcançar novas marcas de velocidade. Fecho os olhos e tento pensar em coisas positivas para dizer durante meu encontro com Monty Potter. Tenho a pavorosa tendência a dizer a primeira coisa que me vem à mente quando estou nervosa. Na primeira entrevista de emprego que fiz nada vida perdi completamente minha pose habitual e a resposta que dei quando perguntaram o que eu gostava de fazer nas horas de lazer foi: "Gosto de comer torradas". Nada profissional.
- Tia Winnie? Você tem visto alguém da família Potter ultimamente?
- Só fotos de James nos jornais. Não vejo nenhum deles desde que saíram de Hogsmeade. Sabia que Elizabeth, a mãe deles, morreu?
- Sim, mamãe me contou. Já faz muitos anos, não?
Ela concorda com a cabeça, e eu olho pela janela, perdida em pensamentos. Há mais de quinze anos que nenhuma de nós voltou a Hogsmeade. Apesar do local estar a apenas trinta minutos de carro da casa da Tia Winnie, ela bem que poderia estar do outro lado do mundo.
Finalmente começamos a percorrer a descida que leva ao vale dos Potter, literalmente, já que eles possuem todas as casas até onde a vista alcança. Pequenos arvoredos e amontoados de casinhas estão salpicados na paisagem suntuosa à esquerda, ocasionalmente separados por baixos muros de pedra sem reboco, alguns desmoronando. Olho para a direita e levo um susto. Como em uma cena do Jurassic Park, o campo está salpicado de animais.
- Veados, tia Winnie! - grito.
Tia Winnie me olha pelo espelho retrovisor. É o único uso que ela faz dele.
- Sim, querida?
- Não! – Eu me inclino por entre os assentos da frente e aponto para a direita. – Eu estou dizendo que eles criam veados agora! – É sempre um erro distrair tia Winnie quando ela dirige. Subimos em um barranco, andamos um pouco em um ângulo de trinta graus e depois voltamos abruptamente para a estrada.
- Eles devem estar tentando tirar algum lucro da propriedade – digo, ignorando o pequeno desvio que fizemos no caminho.
- Bom, James é o eterno homem de negócios! Mas os veados podem ser muito perigosos na temporada de acasalamento. Não gostaria de me encontrar com um deles em um terreno aberto.
Dou uma olhada para tia Winnie. Ela diz a mesma coisa para todos os animais. Cavalos, porcos, vacas. Acho que é porque ela e Remus adoram me ver sair correndo como uma louca quando fazemos caminhadas e encontramos qualquer tipo de vida selvagem. Eu nunca sei quando ela está falando sério ou não.
Chegamos ao pitoresco vilarejo de Hogsmeade. Os Potter também são donos de todas as casas do lugar. Olho ao redor, interessada. Afinal de contas, foi aqui que vivi alguns anos da minha infância. Surpreendentemente, o vilarejo de Hogsmeade conseguiu permanecer inalterado.
Minha cabeça vira para todos os lados enquanto reconheço locais e relembro. O pequeno empório que também era a agência de correio, onde Dora e eu costumávamos pechinchar com o proprietário sobre o máximo de balas que podíamos comprar com nossas moedinhas. O jardinzinho do vilarejo com sua antiga cerejeira. Há mais de cinquenta anos, o vigário da época fez um enxerto, colocando uma muda de cerejeira rosa na cerejeira branca, e, todos os anos, a árvore produz flores com o centro rosa, cercado por uma auréola branca. Há um assento irregular de madeira embaixo da árvore conhecido como banco do casamento, porque olhando-se de um certo ângulo, a árvore se parece com uma noiva, e acredita-se que todos os casais que se sentam nesse banco se casam. O fato de que seria preciso comer um quilo dos cogumelos alucinógenos, que crescem em abundância nos bosques locais para poder ver essa semelhança, parece ter passado completamente despercebido dos habitantes locais.
Perto da agência do correio está a pequena igreja saxônica, e na frente da igreja estão os gigantescos portões de ferro que costumavam ser fechados todas as noites por um dos zeladores. Esses portões são a única abertura no muro que circunda a propriedade, casa e terras. Debruço-me para a frente quando passamos por eles. Depois somos atirados de um lado para outro, com o carro pulando e roncando na subida da pequena colina, ziguezagueando por entre os vários buracos da estrada flanqueada por grandes álamos. Na primavera, narcisos ondulam nos dois lados da floresta, até onde a vista alcança, mas não há flores neste época do ano. Finalmente chegamos ao topo da colina e a casa aparece.
Exatamente neste local, fazendo uma curva à direita, a estrada leva à nossa antiga casa, escondida nos bosques, mas esta estrada passa despercebida aos motoristas, uma vez que é muito difícil tirar os olhos da residência dos Potter. Fazemos um minuto de pausa enquanto tia Winnie luta para encontrar a marcha correta. Olho com carinho para a grande e antiga casa enquanto tia Winnie grunhe, empurrando a alavanca do câmbio em todas as direções. Meu momento Memórias de Brideshead é abalado com tia Winnie gritando "Vamos, seu carro sacana!", bem dentro do meu ouvid direito, e despencamos em boa velocidade colina abaixo.
A casa foi projetada por um discípulo de Luryens (Sir Edwin Landseer Luryens - arquiteto que planejou a cidade de Nova Déli) e agora eu consigo ver, claramente, os trações da marca registrada do mestre. A casa posiciona-se em uma localização perfeita no fundo de um vale suave, protegida dos elementos mais rigorosos e, ainda assim, recebendo a luz do sol. Os jardins estendem-se suavemente em frente à fachada pontilhada por dúzias de janelas quadriculadas que refletem os gramados perfeitamente tratados.
Tia Winnie chega em alta velocidade, através de uma passagem em arco, e entra no pátio com piso de pedra nos fundos da casa. A porta da frente só é usada em ocasiões formais e eu acho que esta não é uma delas. Do outro lado do pátio está um estábulo, aparentemente deserto.
- Parece que eles já não têm cavalos, tia Winnie - digo, apontando para a cerca.
- James vendeu todos eles depois que Elizabeth morreu - ela bufa consigo mesma. - Vou esperar você aqui. Boa sorte. - Tia Winnie se inclina e abre a porta do passageiro, solta o cinto de segurança de Snuffles e o põe para fora. Eu empurro o assento e saio relutantemente atrás dele.
¹: Na versão original, o nome da protagonista é "Isabel".
Ta-dan! Agora a Lily chegou na fazenda e não tem mais volta. Eu pretendo postar mais em poucos dias, até porque eu já tenho até o capítulo 8 pronto. No próximo capítulo a família Potter e os outros moradores da casa em Hogsmeade vão aparecer, apesar de o James só vir a dar o ar de sua graça mais tarde. Espero que gostem, comentem, critiquem e coisa e tal, e por favor: me digam se acharem qualquer erro.
Beijinhos,
Julie Patootie
