CAPÍTULO VI
Enquanto espero na porta dos fundos, meus olhos focalizam o meu estômago e eu o puxo para dentro. Cinco dias de dieta já me deixaram um quilo e meio maravilhosamente mais magra e eu já vejo a diferença. Não sou nenhuma Elle Macpherson, mas não acho que agora alguém vá me encaminhar para a sala de parto. Viro-me para dar uma olhada em tia Winnie, cuja ideia de discrição é ouvir uma ópera com os gritos saindo em alto volume do carro. Faço alguns sinais com a mão para ela baixar o volume mas ela me ignora solenemente.
A porta se abre ruidosamente e eu me viro para trás. Uma mulher alta, com lábios muito finos, me encara, esperando que eu me apresente.
- Olá! Vim ver Monty Potter. - Abro um sorriso.
- Você é?
- Lily Evans. Ele está à minha espera.
Ela tenta sorrir, mas o máximo que consegue é esticar os lábios sobre os dentes.
- Siga-me, srta. Evans.
Ela entra na cozinha e, enquanto a sigo, observo que é extremamente magra e ossuda. Já estamos destinadas a não nos darmos bem. Seu cabelo escuro está preso em um coque severo e eu calculo que ela tem uns trinta e poucos anos.
Dou uma olhada ao redor da imensa cozinha e observo, surpresa, que nenhum item de decoração mudou. Quando eu era criança, ela parecia fresca e moderna, com suas paredes e cortinas em tom verde-limão e armários rústicos em estilo de fazenda. Agora parece desbotada e gasta, mas talvez seja somente o meu olhar que está mais velho e pedante. A mesma mesa enorme de carvalho escovado fica no meio do amplo ambiente cercada por cadeias de formas e tamanhos diferentes. Há um cheiro muito familiar no ar, que me envia diretamente de volta à minha infância de um modo mais intenso do que qualquer fotografia seria capaz. Uma combinação, diria eu, de cães, um sabão em pó específico e o cheiro de pães e bolos assados. Nosso progresso é interrompido por uma matilha de cães ladrando, que pulam alegremente sobre mim. Faço festinhas em todos eles, tentando desesperadamente alcançar um pequeno e branco que é constantemente posto de lado pelos demais.
- PARA A CESTA! - rosna a mulher. Todos pulamos, e eles vão se esconder no cantinho deles. Fico muito tentada a acompanhá-los.
- Por aqui - diz ela, e sai andando em alta velocidade pelo labirinto de corredores. Preciso correr para acompanhá-la.
- A senhora trabalha com os Potter há muito tempo? - pergunto educadamente quando consigo emparelhar com ela.
- Há tempo suficiente.
Aceno com a cabeça e procuro desesperadamente obter mais comentários inocentes.
- E a senhora é? - pergunto educadamente.
- A sra. Jones. - É óbvio que não vamos ter um relacionamento informal aqui. - Sou a governanta. Trabalho aqui há oito anos. - Ela empina o queixo e me olha de maneira agressiva. Há um quê de desafio nessas palavras.
- Bem, sra. Jones, é um prazer conhecê-la. Devo dizer que vamos nos ver com frequência, até o dia do baile de caridade. - E junto um sorriso radiante à frase para indicar o quão maravilhoso isso será.
A sra. Jones bufa, demonstrando exatamente como ela se sente a respeito .
- Baile de caridade - ela diz, no mesmo tom que alguém usaria para dizer "bela merda". - Não tínhamos nenhuma destas bobagens quando a dona da casa estava viva. - Isto me lembra demais o diálogo da Sra. Danvers falando com a segunda Sra. De Winter no filme Rebecca¹.
- Eu sei, Elizabeth sempre quis que a propriedade fosse estritamente privada - digo suavemente, tentando mostrar que também conheço a história do lugar. Ela me olha rispidamente, mas decide não dizer mais nada a respeito.
Minha tia Winnie, que tem medalha de ouro na arte de ser rude com as pessoas, pelo menos faz isso com algum charme. Acho que a sra. Jones não tem charme algum.
Andamos em silêncio, passando por inúmeras portas fechadas, até chegarmos ao coração da casa: um hall absolutamente enorme liga várias alas. Sufoco uma pequena exclamação e reduzo o passo, sem querer. Nas memórias da minha infância, este hall era a maior e mais grandiosa coisa que eu já havia visto. Ele possui um enorme teto em arcos, como em uma catedral, separados por vigas de carvalho. Uma gigantesca escadaria começa no meio do ambiente e divide-se em duas depois do primeiro lance. A lareira em mármore cinza tem, no mínimo, um metro e oitenta de altura e três metros de largura. Mas, nas minhas recordações, a entrada era agradável e acolhedora, forrada com voluptuosas cortinas de veludo, almofadas em cores vivas e vasos com folhagens luxuriantes. Agora é um lugar frio e austero. A lareira está visivelmente abandonada e há muito tempo não é acesa. As plantas desapareceram, o veludo desbotou e o lugar cheira a mofo. Tenho um arrepiem o involuntário e paro na frente da lareira. Olho para cima.
Algo está me incomodando aqui. E não sei bem o que é.
- Srta. Evans? - a sra. Jones me chama. Olho para ela parada na frente de uma das portas, com a mão na maçaneta.
- Desculpe - digo apressadamente e caminho em sua direção enquanto ela bate com firmeza na porta.
- Entre! - diz uma voz lá dentro.
- A Srta. Evans está aqui para vê-lo, Monty - diz a sra. Jones. Sinto-me um pouco surpresa com o uso familiar do primeiro nome dele, embora Monty nunca tenha compartilhado da frieza de Elizabeth Potter. Ela dá um passo para o lado e me deixa entrar na biblioteca.
Uma versão muito mais velha do Monty de minhas memórias joga o jornal para o lado e levante-se de uma das poltronas. Ele parece ter encolhido um bocado desde a última vez que eu o vi, mas suponho que eu também era mais baixa na época.
- Lily, querida! - Ele estica os braços em minha direção. - Que maravilha! Passei a manhã toda ansioso por este encontro! - Ele me dá um beijo afetuoso na bochecha. - Você cresceu e virou uma moça linda!
Fico levemente vermelha e espero que isso faça com que eu pareça uma menina delicada, em vez de uma mulher na menopausa.
Monty é um homem incrivelmente charmoso. Lembro-me de olhar para ele completamente maravilhada na infância. Ele sempre tinha uma palavra afetuosa para nós e algumas balas enfiadas nos bolsos. Como a tia Winnie, ele é um grande apaixonado por tweed. Seu cabelo está mais curto agora - ele custava usá-lo à la Hugh Grant -, mas ainda é abundante. Está vestindo calças de veludo cotelê, uma camisa xadrez sem gravata, um colete e um blazer de tweed com reforços nos cotovelos. O sol entra pela ampla janela no fundo da sala, iluminando uma pequena nuvem de poeira que dança no alto de uma escrivaninha antiga.
- Fiquei muito triste quando soube da morte de Elizabeth - digo suavemente.
- Foi muito doloroso. - Ele acena devagar com a cabeça e parece triste. - Já se passaram alguns anos. O tempo cura tudo.
Ele me pega pelo cotovelo e caminhamos para o meio da sala.
- Poderíamos beber um café, sra. Jones? - ele pergunta olhando por cima do ombro. - Você toma café, Lily? Ou prefere chá?
- Não, não, café está ótimo - digo e sorrio para a sra. Jones, que desaparece, fechando a porta. Sempre que tenho que realizar eventos que envolvem pessoas que não são da minha empresa, direta ou indiretamente, faço um esforço enorme para mantê-las do meu lado. Isso evita problemas durante o projeto. Mas não sei bem como vou dar um jeito na sra. Jones.
Monty faz-me sentar em uma poltrona fofa na frente de uma lareira apagada, mas com lenha, e senta-se na poltrona à minha frente. A biblioteca é uma sala relativamente pequena, mas bonita, com painéis de carvalho e estantes que vão até o teto. Passo alguns minutos fazendo festinhas no velho labrador sentado aos pés da poltrona de Monty. O cão pede desculpas por não se levantar com um sonoro tum-tum de cauda a abanar.
- Você não se lembra do velho Moony. Deixo os outros cães na cozinha para que ele possa ter um pouco de paz e sossego. Hoje em dia ele não gosta muito de agitação. Meu Deus! Acho que ele nem havia nascido quando você saiu daqui! Faz mesmo tanto tempo assim, Lily?
- Faz um bocado de tempo. - Sorrio.
- E o bom e velho lugar traz boas lembranças?
- Muitas! - digo de modo animado, pensando se ele ficaria horrorizado se soubesse que algumas envolvem o brutamontes do filho dele.
- Então conte-me tudo o que você tem feito desde que saiu daqui! Como vão seus pais? Como vai Dora? - Os olhos dele cintilam na minha direção.
Começo um relato meio desajeitado de como vai todo mundo, até que a sra. Jones nos interrompe com o café. Ela traz uma bandeja com uma grande cafeteira, xícaras de porcelana que não combinam entre si, uma jarra grande de leite e um prato de biscoitos de aveia. Ela não faz contato visual com nenhum de nós, larga descuidadamente a bandeja na mesinha e sai.
- Obrigado, sra. Jones - diz Monty para as costas dela.
- Obrigada! - repito.
Ele move-se para a extremidade da poltrona, dá uma olhada na bandeja e esfrega as mãos.
- Biscoitos! Ela está de bom humor! - diz ele. Caramba! De bom humor. Que Deus nos ajude. - Mas não temos açúcar - diz, carrancudo.
- Ah, eu não bebo café com açúcar - respondo.
- Ótimo! - Ele parece aliviado. Acho que eu não teria muitas chances se tomasse café com açúcar. Está na cara que nenhum de nós teria coragem de pedir.
Falamos mais um pouco sobre minha família, até que eu, hesitantemente, pergunto sobre Will.
- Will? Ele agora trabalha aqui na propriedade.
- Trabalha? - digo, surpresa. Sempre achei que ele iria fazer algo terrivelmente excitante. No nosso grupo era sempre ele quem estava em busca de aventuras.
- Sim, ele é o novo administrador da fazenda! Voltou de viagem há um ano!
- Eu imaginava que Will seria um astronauta, um mergulhador de profundidade ou algo assim!
- Ele costumava ser um pouco selvagem, mas agora acalmou-se. Além disso, precisávamos desesperadamente de um administrador. James, como você deve saber, anda muito ocupado com suas várias empresas para preocupar-se com Hogsmeade.
- Sim, eu, hã, li um pouco a respeito dele. - Olho para minha xícara de café, sem graça.
- Ele não é tão ruim quanto dizem, Lily - Monty diz com ternura. - A imprensa pode entender tudo errado.
Mas eu, que tive minha cota com ele, tenho vontade de gritar. E me atrevo a pensar que mais de um assassino recebe apoio incondicional de seus pais indignados.
- Ele tem se saído muito bem - resmungo em resposta. - E por onde Will esteve viajando? - acrescento, ansiosa em me livrar do assunto James.
- Por todo o mundo! Deixe-me ver, recebemos postais da África e da América do Sul. Ele foi até aquela cidade perdida. É extraordinário como eles empilharam pedras lá, com tão pouco oxigênio. Depois foi para a Indonésia, Tailândia e Austrália. Ele vai adorar conversar com você e contar tudo sobre os lugares onde você viveu!
- Sim, será muito bom se eu conseguir me lembrar tanto assim! Dora e eu vivemos na Inglaterra desde os oito anos. - Sorrio de volta para ele. - E você, Monty? Como vai? A fazenda ainda o mantém ocupado?
- Não! Não administro a fazenda há anos! Quando Elizabeth morreu, eu simplesmente não pude mais cuidar dela. James tem sido o responsável edsde então. Afinal de contas, esta é a sua herança!
Olho, novamente sem graça, para minha xícara. Julgando o silêncio desconfortável que se segue, fica muito claro para mim, e também para Monty, que James Potter não liga a mínima para a sua herança. Por fim, Monty diz:
- Acho que precisamos começar a falar sobre este baile de caridade!
- Sim! - digo um pouco entusiasmada demais. Procuro meu bloco de anotações.
- Fiquei muito feliz quando sua empresa disse que você estava disponível - continua Monty. - É claro que depois que a sra. Charlesty me disse que você era uma promoter, eu sabia que não poderia contratar outra pessoa! Lamento que só possamos oferecer um pagamento. Como tudo aconteceu tão em cima da hora, precisei ligar para James e pedir a permissão dele, e ele me disse que a verba seria ampla. - Ampla não é a palavra correta. - E como é para caridade, não quis tirar muito dinheiro deles.
Eles deveriam ficar felizes com a sorte que têm por James não estar aqui, penso com meus botões.
- Oh, não se preocupe com isso! - digo em voz alta. - Alastor Moody, meu diretor-gerente, ficou perfeitamente satisfeito com a quantia. mas o que fez com que você mudasse de ideia sobre realizar eventos aqui? Sempre pensei que Hogsmeade fosse estritamente particular.
- James vem falado há algum tempo em tornar Hogsmeade mais comercial, e embora não estejamos procurando ativamente por clientes, achei que seria bobagem não aproveitar uma oportunidade que bateu à nossa porta. Além disso, vai dar a um burro velho como eu alguma coisa que fazer! Acho que vai ser divertido!
Olho para ele, duvidando. É óbvio que ele nunca ficou dependurado em uma escada às três da manhã quando uma festa cujo o tema é ave-do-paraíso não está dando certo e Edgar está tendo um ataque histérico aos gritos.
- Quais as informações que o pessoal da associação de caridade já lhe deu até agora?
- Bom, são cerca de quinhentos convidados.
- Então, o que acha de uma tenda no gramado? - Por favor, me diga que eles já reservaram uma. Por favor, me diga que eles já reservaram uma.
- Eles vão usar a empresa que havia reservado para o local anterior. - Ufa.
- E o que é que devemos oferecer, especificamente?
- Hã, tudo.
- Tudo?
- Sim. Eles me deram uma lista. - Ele vasculha o bolso interno do blazer por alguns segundos. - Aqui está! Precisam dos serviços de catering... já forneceram um valor por cabeça para cálculo... decoração, mesas e caderias, talheres, louças e copos, e entretenimento.
- Então não é muita cosia - digo com um suspiro, enquanto verifico as exigências na minha lista padrão de perguntas.
- É muita coisa? - Monty parece ansioso.
- Não, não! - digo isso de uma maneira que, espero, pareça reconfortante. - Acabamos de diminuir nosso trabalho!
- Você é capaz de fazer isso, então? - ele pergunta, ansioso.
Moody sempre me dá carta branca no tocante a aceitar ou recusar um trabalho. Normalmente eu pensaria duas vezes antes de aceitar um como este, mas não hesito por um segundo e digo:
- Claro que sm! - Sou recompensada pela visão de Monty parecendo demasiadamente aliviado.
- Sua verba não vai ser suficiente, vai?
- Não se preocupe! Só temos que fazer o catering para quinhentas pessoas. Não estávamos à espera desse bônus! Posso me encontrar com os representantes da associação de caridade para discutir os detalhes? Logo? - Consigo disfarçar um tom levemente em pânico na minha voz. Os clientes não costumam gostar disso.
- Tomei a liberdade de agendar um encontro nesta quinta-feira. A empresa da tenda vem aqui na sexta-feira. Eles ainda não viram o local. Você precisa ficar hospedada aqui, Lily. Eu faço questão.
Vou me mudar imediatamente, penso.
- Obrigada, Monty. Isso vai ajudar. É uma caminhada e tanto para voltar a Londres.
- Ah, a propósito, eles disseram que querem um tema circense.
- Como?
- Você sabe, com a tenda grande e tudo! Um circo!
Tenho a sensação de que teremos um quer eu ajude ou não.
- Maravilhoso! - digo e sorrio alegremente. O que vão inventar depois? - Sim, sem dúvida.
Não posso fazer muito mais sem falar com as pessoas da associação de caridade. Sendo assim, levantamos e fomos em direção à cozinha.
- Você estacionou nos fundos, Lily? - pergunta Monty.
- Sim, tia Winnie me trouxe.
- Winnie? Por que não disse nada, Lily? Ela deveria ter entrado na casa!
- Desculpe, sempre me esqueço de que você já a encontrou uma ou duas vezes!
Disparamos desembestados pelo corredor. Monty caminha a largos passos pela cozinha e escancara e porta dos fundos. Ainda sai ópera em alto volume do Mini verde-ervilha e Monty bate com força na janela do motorista. Tia Winnie pula, assustada, mas um sorriso enorme aparece em seu rosto e ela sai o mais rápido que pode do Mini.
- Monty, seu burro velho!
- Winnie, querida, como vai você? - ele ruge de volta.
Meu Deus, parece que estou no meio de uma convenção de deficientes auditivos. Eles não se conhecem muito bem, mas tia Winnie sempre deixa uma forte impressão nas pessoas.
Fico por ali enquanto eles conversam bem alto, num tom bem humorado, fazendo perguntas sobre a saúde um do outro, até que Monty diz:
- Sugeri que Lily viesse ficar conosco por alguns dias no final de semana para resolver esta besteira da caridade. Você vem jantar conosco?
- Adoraria! Desde que não seja porco. Odeio porco.
- Nada de porco, então! Vou dizer à sra. Jones. Que tal quinta-feira?
- Maravilhoso!
- Izzy, por que não vem na noite de quarta-feira? Assim estará bem disposta para se encontrar com o pessoal da associação na manhã de quinta-feira.
- Obrigada, Monty. Isso será ótimo.
No dia seguinte chego cedo ao escritório. Tenho um monte de coisas para fazer antes de voltar à fazenda no fim de semana. Uma vez que o evento em Hogsmeade envolve muito trabalho, vou passar todos os meus outros eventos para Edgar, exceto a Festa Nórdica do Gelo de Lady Boswell, que ninguém quer assumir, mesmo sob ameaça de morte. Acho que Edgar não vai ficar muito feliz, alguns clientes infernais estão na lista.
Emmeline está fumando e digitando desanimada com um dedo só enquanto tenta ler o Daily Mail.
- Bom-dia! - digo animada. - Algum recado?
- Onde você esteve?
- Hã, em Suffolk.
- Ah.
- Algum recado? - repito.
- Estão na sua mesa.
- Na minha mesa? - pergunto. Da última vez foram encontrados perto da cafeteira.
Ela revira os olhos e resmunga algo sobre Hitler que eu resolvo ignorar.
Vou até o escritório principal. Edgar está conversando animadamente com alguém no canto e agitando o que parece ser um par de calções tiroleses. Ligo o meu computador e me sento. Edgar me viu chegar e vem correndo, ainda com as roupas na mão.
- Lily! O que os suíços comem?
Pisco por um minuto enquanto tento ativar meu cérebro.
- Hã, chocolate Toblerone.
- Que mais? Que mais? - ele insiste.
- Hã, hã. - Pisco, distraída. - Não sei, fondue? Chucrute? Ou isso é alemão? Por quê?
- Estamos lançando um novo queijo suíço e estou tentando juntar ideias para a festa do lançamento. Os convites para os convidados VIP serão entregues em mão por um cantor tirolês. Vamos fazer uma audição mais tarde. - Ele dá uma risadinha e senta-se à minha frente. - Como foram as coisas na fazenda? Ela mudou muito?
- Na verdade, acho que foi por águia abaixo. Ela parece... abandonada. Pessoalmente, penso que James poderia passar um pouco mais tempo cuidando da sua casa, e menos tempo tentando assustar as empresas de outras pessoas. Mas esta é a minha opinião pessoal, é claro. Completamente imparcial.
- Acho que você é uma sortuda por pegar este projeto. Eu morreria para ficar com ele.
- Edgar, é um baile para quinhentas pessoas e eles decidiram que querem um tema circense.
- Ah - diz ele, e não parece mais muito entusiasmado. - Um tema circense? Assim, em cima da hora? Quem foi o doido que pensou nisso?
- Não sei, mas Remus e eu vamos ter muito trabalho.
- Remus vai ajudar você?
- Sim, quero que ele seja meu assistente, caso Moody concorde. - Olho para Edgar, desconfiada. - Por quê?
- Ah, por nada. A propósito, como vai ele?
- Bem. Devo dizer a ele que você perguntou por ele?
Edgar dá um sorrisinho escondido.
- Diga que eu mandei lembranças.
Abro a boca para investigar melhor, mas o telefone toca e eu atendo.
- Querida, estou tão feliz em encontrar você aí! - É minha mãe ligando de Hong Kong. Ela ainda não se adaptou bem às maravilhas da tecnologia moderna que permitem que você fale ao telefone sem que seja necessário gritar como se estivesse conversando com uma tia muito velha e muito surda. Ela pronuncia cuidadosamente as palavras mais importantes e fala muito alto e muito devagar: - Sua recepcionista, qual o nome dela, Clementine? - como diabos ela conseguiu entender Clementine, em vez de Emmeline? Ela não faz nenhuma pausa para ouvir minha resposta e continua em frente. - Ela me disse que você esteve fora a manhã toda. Mas o importante é, e seu pai está fazendo gestos frenéticos com a mão para mim, você sabe quem venceu a corrida das 14h30 no hipódromo de Kempton?
- Hã, não.
Ela coloca a mão sobre o bocal e grita, presumo, para meu pai:
- Querido, ela não sabe, por favor, não insista... está bem, vou perguntar. - Ela volta a falar comigo: - Ele quer saber se você sabe quem ganhou o campeonato de futebol.
- Mãe, não sei nem que times estão competindo, muito menos quem venceu. Não existem jornais ingleses aí?
- Sim. Mas eles sempre chegam atrasados, e nós nos esquecemos de ler, e quando lembramos já embrulhamos as cascas de batatas com eles. - Ela tapa novamente o bocal e fala com meu pai. Esta conversa a três já começa a me irritar. Sempre conversamos assim ao telefone. O único jeito de ter uma conversa decente com a minha mãe é quando meu pai não está em casa. - Não, querido, ela não sabe... Escute, você quer falar com ela?... Bom, então fique quieto. - Ela volta a falar comigo: - E então, querida, como vai você?
Hesito por um momento. Poderia contar sobre o retorno a Hogsmeade, mas esta conversa a três levaria pelo menos uma hora para acabar e eu não sei se sobreviveria a ela. Poderia contar também sobre o rompimento com Amus, mas, como nem contei que estava saindo com ele em primeiro lugar, a ideia parece inútil. Nosso distanciamento ultrapassa os poucos milhares de quilômetros entre nós.
- Absolutamente bem - minto, respondendo à pergunta. - Como vai você?
Falando comigo:
- Um caos. Darth Vole vem jantar.
Falando com meu pai:
- Eu sei que o raio do nome dele não é esse!
- Quem? - pergunto.
Falando comigo:
- Um dignitário chinês local.
Falando com meu pai:
- É claro que vou aprender a falar o nome verdadeiro dele até a noite;
- Comida inglesa ou chinesa? - pergunto, tentando desesperadamente fazer o meu lado da conversa ir para algum lugar.
Falando comigo:
- Chinesa, infelizmente. Eu ainda não aprendi a comer com pauzinhos. Só consegui pegar três grãos de arroz na noite passada e só consegui isso atirando-os para dentro da minha boca.
Falando com meu pai:
- Não, não é Dora, é Lilian.
- Mamãe, me ligue na semana que vem.
- Sim, eu sei, quando seu pai estiver fora.
- Diga que mando beijos.
- Tchau, querida.
Assim que ponho o telefone no gancho, Alastor põe a cabeça para fora da porta e grita, usando o sistema de alto-falantes:
- LILIAN! Venha cá!
Pego meu bloco de anotações e um lápis e vou para o escritório de Moody. Ele fechou novamente a porta. Assim, dou uma batidinha nela e entro. Ele está escrevendo freneticamente no quadro de avisos.
- Você está bem? - pergunto cuidadosamente. - Parece um pouco, hã, tenso. - Ele está com um ar completamente alucinado.
- Não! Somente muito alerta! Duas festas que acabaram tarde e alguns cafés expressos a mais. Como foi ontem? - pergunta.
- Ótimo. - Faço uma descrição breve dos pontos mais importantes do encontro.
- Você consegue mesmo dar conta de todo esse trabalho?
- Estou transferindo a maioria dos meus eventos para Edgar.
- Ó, Deus, Lily, precisa mesmo? Isso vai fazer com que ele fique mais histriônico do que já é. E a Festa Nórdica do Gelo de Lady Boswell?
- Ninguém quis ficar com ela. Você, por acaso, não...
- Não. Eu não. - ele fala bruscamente. - Você precisa dar um jeito de encaixá-la em algum lugar. Parece que você vai ter que passar alguns dias lá em Hogsmeade. Não sei se a verba será suficiente.
- Bom, eles já arrumaram algumas coisas. - Quero voltar a Hogsmeade, não importa o quanto de trabalho está envolvido. - Posso fazer a estimativa de custos agora, se você quiser. Para ter certeza de que o projeto é viável.
- Você pode ser uma perfeccionista obcecada, mas pelo menos suas contas batem.
- Obrigada, eu acho. mas penso que vou precisar de um assistente, Alastor.
- Não dá para ficar sem um?
- É um baile grande e eles disseram que querem um tema circense. E agora teremos que fazer o serviço de catering para quinhentas pessoas, que é algo que não esperávamos. Portanto, acho que podemos arcar com um assistente, não?
- Você vai me amolar até eu concordar, não vai? Vai ficar me azucrinando o tempo todo.
- Vou.
- Muito bem. Você pode ter um assistente - ele responde, emburrado. - Mas lembre-se de que sua cabeça vai para a guilhotina se qualquer coisa der errado.
Sorrio e faço uma anotação mental para ligar para Rem e dizer que ele precisa tirar uns dias de férias.
Depois das audições para cantores tiroleses, todo mundo insiste em cantarolar todas as conversas em estilo tirolês, e o escritório fica parecendo uma festa de criança de três anos de idade que tomaram suco de laranja demais. No fim do expediente, saio de lá relutantemente e volto para casa.
Em um raro momento de inspiração, consigo localizar minhas chaves enquanto estou no metrô. Rem está na sala, falando ao celular, quando entro em casa. Assim que ele me vê, murmura algo apressadamente para a pessoa do telefone e desliga.
- Olá! - ele diz animado. - Como foi o trabalho?
- Ótimo! Quem estava ao telefone? - pergunto sem demonstrar muito interesse, meus olhos cravados nele. E por que ele estava falando ao celular e não ao telefone fixo?
- Oooh, ninguém. Só, hã, minha mãe. - Ele parece evasivo. A mãe de Remus é uma mulher atarefada, que "faz um monte de trabalho para associações de caridade e outras boas causas". Dou uma olhada disfarçada no meu relógio. Não há como ela já ter voltado de uma das suas reuniões de comitês vespertinas, mas balanço a cabeça.
- Você ainda tem dias de férias vencidas em número suficiente para ser meu assistente?
- Com certeza! Estou muito animado com esse projeto! - diz ele. - Pense só, Lily! Vou ver onde você e Dora cresceram! - Não percebo o porquê
disso ser tão interessante, mas deixo pra lá. - Acho que vou dar meu aviso prévio ao mesmo tempo em que peço minhas férias, ainda não decidi - diz Rem. - Não tenho mais interessa em trabalhar naquela empresa agora. - Quando Amus e eu terminamos, Rem quis pedir demissão, como protesto. Foi uma ideia muito gentil, mas, na minha posição de senhoria, eu seria a primeira a sofrer com a decisão. Quase disse a ele que nunca houve um momento em que ele gostou de trabalhar na empresa de Amus, mas acho que dizer isso seria uma grosseria.
Fico momentaneamente deprimida com essa menção velada a Amus. Voltar a Hogsmeade, seja qual for o significado do local para mim, deve ter tido um efeito benéfico.
- Só espero que James não volte logo. - Mordo o lábio, nervosa.
- Sabe, Lily, provavelmente ele esqueceu de todas essas coisas horrorosas da infância de vocês.
- Ele me ignorou naquela festa!
- E se ele não reconheceu você?
- Ele me reconheceu, sim, senhor - digo emburrada.
- Não se preocupe. Aparentemente ele está envolvido em uma aquisição importante. Tenho lido tudo a respeito no jornal. Ele vai demorar um bocado. - Rem se espreguiça e boceja, com os braços no ar. - Alguma sugestão para acompanhar nossa salada, Lily?
Penso um bocado. Estou sem inspiração.
- Que tal macarrão? Você pode comer o seu sem queijo? - Remus sugere.
Faço ruídos de apreciação adequados. Faltam apenas alguns quilos. Rem se levanta para ir à cozinha.
- Calças novas? - pergunto.
Ele olha para baixo.
- Estas? Comprei há algumas semanas. Venha para a cozinha e me conte tudo sobre Hogsmeade! - Rem vai para a cozinha.
Telefonemas estranhos? Roupas novas? Ele vai ter que me contar, mais cedo ou mais tarde.
¹: Filme de Alfred Hitchcock, 1940.
E, finalmente, Lily chega à Hogsmeade! Espero que gostem, até o próximo capítulo.
Anne Marie Le Clair: Oh, sim, o Remus é fantástico! Hahaha, bem, não posso negar que a atitude do Remus é bem comprometedora, mas não posso dar nenhuma dica. Eu também sou uma grande fã de Wolfstar (vem logo depois de Jily, hehe), e estou tentando a todo custo colocar o meu Sirius na história, mas nenhum personagem bate com a personalidade dele e, se eu fosse colocá-lo, gostaria que ficasse perfeito. Sobre a Lily e os Potter, a família é uma graça e todos gostam dela, e a história do James é, com toda a certeza, curiosa, e ele tem razões bem concretas, até.
Marianafreitas: Que bom que você gostou, querida. Espero que continue acompanhando a fanfic c:
See ya,
Joules
