CAPÍTULO VII
Na noite de quarta-feira, levo meu caótico conjunto de pertences pessoais para a estação de Liverpool Street e apanho o primeiro trem para Bury St. Edmunds. Descobri que estou irremediavelmente mal equipada para qualquer tipo de evento rural. Todas as vezes que tia Winnie e eu saímos para dar uma caminhada, simplesmente vestimos qualquer coisa disponível no guarda-roupa. Não são roupas bonitas, mas dão conta do recado, sem falar no evento assustador que causam em vacas, porcos e outros tipos de vida selvagem que encontramos no caminho. Espero que Hogsmeade tenha um sistema parecido em funcionamento, porque não tenho galochas nem qualquer tipo de roupa esportiva.
E descubro que não tenho malas suficientes. Deveria ter pensado antes e pedido algo emprestado a Dora. Remus e eu tivemos que juntar todas as bolsas de viagem que conseguimos encontrar e, ainda assim, não consigo enfiar muita coisa neles. Não tenho a mínima intenção de ser vista perto deste monte de bolsas.
Saio da estação de Bury St. Edmunds e encontro Monty, que está me esperando do lado de fora, dentro de um Land Rover bastante usado em comparação com os impecáveis exemplares urbanos encontrados nas ruas de Londres.
Jogo as bolsas na parte traseira e entro no carro desajeitadamente. Não é fácil entrar no carro usando a apertada saia reta que decidi usar de manhã, só porque é a primeira vez, em três semanas, que entrei dentro dela.
- Oi, Monty! Obrigada por vir me buscar!
- É um prazer, querida! Fez boa viagem?
- Sim, obrigada.
- Desculpe não ter conseguido vir com um carro mais limpo. Em termos de transportes, as coisas em Hogsmeade funcionam no esquema "quem chegar primeiro leva". - Isto é bom presságio para a situação com as galochas. - Flo pegou meu Jaguar.
- Flo? - pergunto educadamente.
Ele me olha.
- Na verdade, pensando bem, acho que você nunca a conheceu.
- Não, acho que não. Pelo menos não me lembro dela.
- Você não esqueceria de Flo se tivesse a conhecido! Ela é minha irmã! Veio morar conosco quando Elizabeth morreu. Viveu no exterior a maior parte de sua vida. Acho que não nos visitou na época em que viveu em Hogsmeade.
- Não, acho que não. - Depois de uma pequena pausa, pergunto cuidadosamente: - Simon já voltou?
- Hum? Oh, não. Ainda não.
Dou um pequeno suspiro covarde de alívio e começo a fazer a longa lista de perguntas para a organização do baile que preparei para Monty, com respeito ao fornecimento de energia elétrica, quadro de funcionários e outras trivialidades. Durante o resto da viagem para Hogsmeade, Monty explica os seus pontos de vista muito particulares sobre banheiros químicos.
- Prometi que iríamos apanhar Will. Ele está com os veados - diz ele ao virarmos na estrada.
- Legal! - digo quando estaria muito melhor dizendo "Que merda", quando nos lançamos para fora da estrada e disparamos abaixo. Assustada, me dependuro naquela alcinha útil que fica bem em cima da janela da porta do carro, para a qual nunca dera muito valor antes, e seguro nela com todas as minhas forças enquanto pulamos e saltamos quase na vertical, as quatro rodas do carro raramente ficando em contato com o solo ao mesmo tempo. Comparada a ele, tia Winnie é uma motorista domingueira.
Monty parece saber exatamente onde estão todos os maiores buracos do terreno e onde deve bater neles para passar o maior tempo possível com o carro no ar. Uma habilidade admirável em algumas partes do mundo, tenho certeza. Só que gostaria muito de estar usando meu sutiã esportivo. Sinto que estou ofegando de modo pouco atraente, mas não sei se é por causa do exercício aeróbico ou se pela sensação de pânico do tipo eu-vou-morrer.
Finalmente acabamos parando, e já não era sem tempo. Saio cambaleando pela porta do passageiro, fico desequilibrada por um instante e depois apoio as palmas das mãos nas coxas. Espero por um instante para ver se vou ficar enjoada ou não, enquanto consigo convencer meu estômago a sair de dentro das minhas botas. Não é de fato um estado em que uma garota se sinta bem, tampouco um no qual deseja ser vista, penso, enquanto observo um homem bastante atraente vindo em minha direção.
- Meu Deus! - exclama a figura. - É mesmo você, Lily?
- Will? - Quando faço a pergunta, ele já está segurando meus ombros, e não consigo deixar de notar que são duas mãos grandes bronzeadas, e me beija carinhosamente nas duas faces.
Ele parece muito com as fotos de James que vi. Lindo, com traços bem marcados, cílios espessos e longos, cabelos pretos compridos e despenteados. A única diferença é que a personalidade de Will só melhora sua aparência, fazendo dele um candidato em potencial muito mais atraente do que seu irmão.
- É maravilhoso ver você novamente! Como vai Dora? E seus pais?
- Vão bem, todos vão bem - respondo com um largo sorriso, sentindo imediatamente que o mundo é um lugar mais amigável.
- Não pude acreditar quando papai me disse que você estava de volta! E como uma promoter! Acho que nossos piqueniques lhe ensinaram uma coisinha ou duas sobre sanduíches, não? - Ele me dá uma cutucadinha com o cotovelo e eu dou uma gargalhada.
Monty afastou-se para falar com um dos trabalhadores. Will enlaça seu braço no meu e me leva até a cerca que inspecionava quando chegamos.
- Não há dúvidas de que você cresceu bem!
- Obrigada. Você também - respondo enquanto agradeço fervorosamente a Rem por ter me forçado a perder o peso extra. Ainda assim meus saltos altos insistem em afundar na terra o tempo todo. Se eu estivesse mais pesada, eles teriam que amarrar uma corda ao redor da minha cintura e me arrastar do lugar com a tração do Land Rover.
- Estou tão feliz em tê-la aqui! O que você acha? Parece com o que você se lembra? - Ele faz um gesto largo com o braço, indicando o panorama à nossa frente. Que quase me faz perder a respiração. Pastor luxuriantes e ondulantes, em um tom de verde inacreditável, pontilhados com carvalhos antigos, sobem e descem as colinas à minha frente. No ar, sinto o cheiro inconfundível de grama fresca e de verão.
- É exatamente igual ao que me lembro.
- Maravilhoso.
Monty junta-se a nós na cerca.
- Você consegue ver os veados? - pergunta. Ele aponta para um arvoredo ao longe. Vejo vagamente algumas formas.
- Mal consigo vê-los. Há quanto tempo vocês os têm?
- Acabaram de chegar. É o novo empreendimento de James.
- E para que eles, hã, você sabe, são usados? - pergunto inocentemente, pensando em algo parecido com o equivalente campestre de andar de jegue nas dunas.
- Para carne de veado, claro!
- Carne de veado? - Olho para ele, horrorizada. - Eles são abatidos? - Vêm à minha mente imagens de pequenos Bambis marchando para o matadouro. Como a maioria das outras pessoas, estou perfeitamente feliz em comer carne que está em bandejas de isopor, embrulhados em filme transparente eque não parecem em nada como animal que as fornece.
- E de que outro modo eles nos trariam dinheiro?
- Qual a raça deles?
- Manca.
Oh meu Deus! Não bastava assassinar inocentes criaturas saudáveis, o que já é ruim o suficiente, James resolveu matar animais deficientes que nem podem correr e se esconder. Provavelmente eles custam menos ou coisa parecida, penso comigo mesma, carrancuda.
- Manca? - sussurro. - Será que eles também não têm cauda ou somente possuem um olho? Ou só têm três pernas?
O homens também me olhando como se eu fosse deficiente, mas mental.
- Eu disse palanca, Lily. Não manca - Will diz suavemente.
Sinto uma onda de rubor cintilante subindo a partir dos meus pés. os dois caem na gargalhada. Ora, não é tão engraçado, penso comigo mesma enquanto observo os dois apoiados um no outro, com lágrimas nos olhos de tanto rir. Dou uma risadinha amarela só mesmo para mostrar que sou boa-praça. Santo Deus, eles precisam rir tanto assim?
- Ah, minha querida Lily, você é uma joia rara! Você pensou que havia pequenas rampas espalhadas pelo campos para as cadeiras de rodas delas? - pergunta Will quando faz uma pausa para respirar.
- Nããão - digo de modo pouco convincente, como se o pensamento nunca tivesse passado pela minha cabeça.
- E os cercados deles estão ali. Eu disse C-E-R-C-A-D-O-S, Lily. Onde eles dormem. Não quero que você pense que eles são torturados ou qualquer coisa do gênero.
- Rá, rá.
- Vamos, vamos voltar para casa. Estou faminto! - Will esfrega as mãos. - Espero que a sra. Jones tenha preparado algo absolutamente maravilhoso para a sua primeira noite aqui, Lily. - Eu não contaria com isso.
Já na casa, Will leva minhas malas para cima enquanto Monty me oferece um enorme copo de vinho e eu faço festinhas em todos os cães. A Sra. Jones está ocupada raspando cenouras na pia, e eu, muito servil, pergunto se posso ajudar e recebo como recompensa uma tigela enorme de vagens para descascar. Monty encosta-se ao fogão, sem parar de falar, e Will volta depois de ter trocado suas roupas sujas por um jeans desbotado e uma camisa passada. Ele está acompanhado por uma senhora que eu imagino ser Flo. Assim que entra no ambiente, ela abre bem os braços, o que, para ser honesta, é um pouco assustador. Ela caminha na minha direção, os braços bem esticados, coloca as mãos nos meus ombros e me beja levemente nas duas faces.
- Lilian, minha querida! Ouvi falar muito a seu respeito e de sua família! Que bom que conheci você! - Ela tem uma voz rouca maravilhosa e um cheiro incrivelmente romântico, onde consigo identificar jasmin e ilangue-ilangue. Ela tem uma quantidade excessiva de cabelos grisalhos macios, presos em um coque enorme, mas com cachos soltos ao redor do rosto. Suas roupas, pequenas quantidades de material flutuante divino, não fariam feio em uma passarela de um desfile de moda parisiense. Em seu pescoço está dependurada uma turquesa enorme e seus punhos e dedos estão repletos de braceletes e anéis. Ela é simplesmente a criatura mais exótica que já conheci e, na minha profissão, tenho a tendência a encontrar pessoas bastantes glamourosas. - Lamento tanto não estar aqui quando você chegou, mas estava caminhando pela fazenda e perdi completamente a noção do tempo. Parei para ver dois besouros acasalando. Absolutamente fascinante. Você já viu besouros acasalando?
- Hã, não, não posso dizer que vi.
- É maravilhoso. Eles fazem uma espécie de dança. Da próxima vez que vir um casal venho buscar você.
- Hã, ótimo!
- Você tem que me chamar de tia Flo, como os meninos. Afinal de contas, é praticamente da família! - A frase traz um largo sorriso de prazer ao meu rosto. Depois de ter acabado com as vagens, o que é bico para mim depois da minha experiência anterior nas cozinhas, peço licença para usar o toalete, mas levo minha bolsa comigo porque só queria mesmo retocar a maquiagem. Tia Flo fez com que eu me sentisse verdadeiramente desleixada.
- Preciso ir ao toalete! - anuncio. - Ainda é...? - Não, Lily, eles mudaram o toalete só por diversão. Sempre quiseram mudar a privada para a biblioteca.
Quando volto, a sra. Jones está servido o coq au vin nos pratos enquanto Will põe a mesa, jogando alguns jogos americanos em cima dela, pegando folhas de toalha de papel para usar como guardanapos e despejando um monte de talheres em cima da mesa. Monty olha para mim.
- Você não se importa com a informalidade, não é, Lily? Sei que Elizabeth teria ficado completamente horrorizada!
- Não, está tudo bem! - protesto. - Detestaria que vocês tivessem trabalho só por minha causa! Já é muita gentileza me deixarem ficar aqui. - Eu gosto muito da aconchegante informalidade familiar, não apenas porque é completamente oposto aos ambientes em que circulo diariamente.
Sentamos e, depois de passarmos os legumes e pegarmos os talheres, a conversa indo naturalmente para o baile de caridade.
- Eu preciso dizer que acho tudo muito excitante! - diz tia Flo.
- Mas o que vem depois disso, tia Flo? - observa Will. James vem falando há algum tempo em tornar Hogsmeade mais comercial, mas agora que começamos, onde iremos parar? Ele está falando em colocar rampas de esqui aquático no lago! Até arranjou uma minilancha para isso! O que vai vir a seguir? Um parque de diversões?
- James não faria isso!
- Não esteja certa disso!
- Quando é mesmo que ele vem para casa? - pergunto entre garfadas. O coq au vin está absolutamente delicioso, principalmente depois do montão de salada que andei comendo esta semana. Dou um sorriso de apreciação para a Sra. Jones.
- Falamos hoje cedo. Ele está em Chicago - diz Monty. - Vem para casa na semana que vem. Mas não sabe exatamente quando. - A informação tem um curioso efeito desanimador no meu estado de espírito. É como se eu quisesse ter a família só para mim por mais tempo, e agora ele vai voltar para casa e estragar tudo. - Essa apropriação forçada, ou melhor, essa aquisição hostil está tomando muito tempo dele.
- Ela foi anunciada na semana passada, não foi? - digo com um ar inconfundível, tipo oh-claro-que-eu-também-leio-os-jornais. Na verdade, pedi a Emmeline que fizesse um resumo antes de sair do escritório para que minha ignorância não aparecesse em letras garrafais. - Uma fábrica.
- É por isso que ele está nos Estados Unidos. Está tentando convencer alguns dos acionistas da empresa a venderem as ações - explica Monty. - É uma aquisição hostil.
- E o que isso significa, exatamente?
- Bom, não sou nenhum perito. Mas, pelo que James me contou, é quando uma empresa assume o controle de outra contra sua vontade.
- Pode-se fazer isso? Assumir o controle de uma sem a vontade da diretoria? - Isso parece ser algo bem típico de James. Também ser um brutamontes empresarial.
- Se você possuir a maioria das ações da empresa, pode fazer o que quiser. Não sou um homem de negócios como James, mas soube que a empresa dele tem comprado ações dessa outra empresa na Bolsa de Valores. Assim que chegam a uma certa percentagem de ações, precisam informar a intenção de iniciar uma aquisição hostil, daí as recentes matérias na imprensa. Agora ele está contactando as pessoas que já possuem ações da empresa e está se oferecendo para comprá-las por um preço maior do que elas conseguiriam no mercado.
- Essas pessoas vão vender as suas ações para James?
- Ah, não! Elas não precisam vender, mas a empresa que ele está tentando comprar está com problemas financeiros. Eles lançaram o sexto comunicado de lucros abaixo do esperado, o que justifica o preço das ações estar caindo. A longo prazo a empresa deve falir e, quando isso acontecer, os acionistas não receberão nada pelas suas ações. Ou seja, provavelmente o melhor que podem fazer é venderem agora para James. - Monty encolhe os ombros.
- Mas por que James deseja essa empresa se ela está em dificuldades?
- Porque ele sabe como fazê-la dar lucro novamente. Acho que ele oferece aos acionistas uma quantia baseada nos lucros futuros da empresa. É claro que ele precisa fazer enormes alterações. Para começar, despedir todos os diretores e a gerência. Mas assim que a empresa começa novamente a dar lucro, o preço das ações subirá e James começará a vender gradualmente as suas ações por um preço maior do que gastou para comprá-las. Não é um empreendimento pequeno. A empresa de James tem enormes quantias de financiamentos bancários e uma grande equipe de consultores a quem pagam somas de, provavelmente, milhões de libras.
- Milhões? - repito, incrédula. Será que aquelas pessoas cheias de truques da União Européia mudaram nossa moeda para libras de um dia para o outro?
- Ele está prestes a ganhar montes de dinheiro com esse negócio, É o maior de todos. Mas é muito arriscado. - Monty bebe um gole de vinho.
- Tive que pedir ao Daniel para que feche os portões todas as noites - diz Will.
- A mídia começou a xeretar ao redor da casa. Eles chegaram a mencionar a sra. Jones na última matéria que saiu a respeito!
- Foi a última vez que falei com a imprensa - diz, carrancuda, a sra. Jones. Eu me encolho, involuntariamente. Sinto muita pena deles. - Eu só disse que não sabia quando James voltaria para casa.
- Lily, quando ele chegar na semana que vem, não faça perguntas! - diz tia Flo, obviamente entediada. - Conte mais sobre o baile! Nós podemos ir? Ouvi dizer que o tema é circo!
Demos muitas risadas durante o correr da noite. Até mesmo a sra. Jones levantava, de vez em quando, os cantos da boca. O vinho corre solto e uma tábua de queijos aparece. Will e Monty estão em excelente forma.
Naquela noite, uma vez que não existe iluminação de rua para perturbar meu sono, deixo as cortinas das janelas deliberadamente abertas, subo na minha enorme cama e puxo as cobertas para baixo de meu queixo. Observo os gigantescos carvalhos balançando suavemente ao longe e ouço o alegre som das corujas piando. Sinto-me feliz novamente, depois de um mês absolutamente horrível. Aninho-me na cama e fecho os olhos, feliz em saber que não vou acordar no meio da poeira e poluição da cidade, mas sim em meio ao verde deste paraíso inglês. E James não vai voltar já para casa para estragar tudo.
Resolvi postar um logo depois do outro, 1) porque eu vou viajar no dia 25 e quero adiantar a história um pouco e 2) eu vou para uma festa hoje. É a primeira em que eu vou em muito tempo (minha vida social anda péssima) e eu estou terrivelmente ansiosa - nada melhor que atualizar sua fanfic para acalmar os nervos. Sobre o capítulo em si, eu acho o Will uma graça! Eu tentei mesmo achar um jeito de colocar um personagem de Harry Potter em seu lugar, mas já que o James não tem canonicamente nenhum irmão, e nenhum personagem entrava no perfil, resolvi deixar como Will mesmo, que é como está na história original. Não, eu não poderia colocar o Sirius porque o Will e o James não são exatamente os irmãos mais unidos do mundo, e o Will tem, digamos, um clima com a Lily. É isso aí.
Pelo amor de Merlin, comentem, favoritem, façam o que quiserem, mas deem um sinal de vida;
Julia
