CAPÍTULO XIII
Estou pronta para sair em disparada em direção ao aeroporto mais próximo, mas tia Winnie me convence a voltar a Hogsmeade. Não sou a pessoa mais corajosa do mundo, e é só quando ela ameaça me arrastar até lá a força - uma ameaça que ela já cumpriu em outros tempos (na verdade, eu não pesava o que eu peso agora, mas ela continua a ter uma vantagem sobre mim) - e depois olha intencionalmente para os seus tacos de golfe, que eu cedo. Ela concorda em primeiro me dar o café-da-manhã, uma pequena cláusula que eu consegui enfiar, no último minuto, no nosso acordo verbal, para ganhar algum tempo.
Tia Winnie está fritando bacon (ela parece acreditar piamente que eu preciso de, no mínimo, três mil calorias para sair da cama de manhã). O cheiro me dá ânsias de vômito. Talvez me livre dele despejando tudo discretamente na tigela de Snuffles. Ela chacoalha a frigideira com vontade.
- Então - troveja ela, com a voz mais alta do que o detector de fumaça que começou a tocar junto com o locutor falando no rádio ligado -, por que diabos James acha que foi você quem contou tudo aquilo para a imprensa? - Mantenho os olhos fixos na manteigueira e uma mão pousada na cabeça de Snuffles. Ele já ocupou seu lugar, adivinhando que alguns pedaços de bacon estão destinados a ele.
- Eu não faço a mínima ideia, tia Winnie - digo desanimada. Até agora esta tem sido uma manhã dos diabos. Não são nem oito horas. Levanto, dou um tapa no detector de fumaça com uma colher grande e sento novamente. - Provavelmente ele pensa que quero me vingar dele. Nós não nos despedimos muito amigavelmente.
Tia Winnie faz um som desdenhoso.
- Não acredito nisso, Lily. Deve haver uma fila enorme de pessoas que desejam se vingar dele.
- Sim, mas eu sou a única que ele deixou entrar na casa.
Tia Winnie despeja meia tonelada de bacon entre quatro tijolos de pão, larga o prato na minha frente e senta-se repentinamente, cobrindo uma de minhas mãos com as dela.
- Não foi você, foi, querida? Você não ligou para o Telegraph, sei lá, para bater um papinho e acabou falando demais?
- Para que raios eu iria ligar para o Telegraph para bater papo?
- Não sei. Por causa do seu trabalho? - diz ela com uma vozinha fina.
Dou uma encarada nela.
- Hã, não. Claro que não. Só fico pensando como é que James pode ter tanta certeza de que foi você.
Franzo as sobrancelhas.
- Will não disse "James acha que foi você". Disse: "Ele sabe que foi você". Você acha que James vai me processar? Eu assinei um acordo de confidencialidade.
- Ele não pode processá-lo se não foi você! - diz tia Winnie indignada, e volta para o fogão.
- Quer apostar? - resmungo sombria e despejo meia tonelada de bacon na tigela de Snuffles.
A viagem de volta à propriedade não é agradável. No caminho ligo para Remus e balbucio de forma incoerente por dez minutos. Depois da incontrolável diarreia verbal, faço uma pausa para respirar e Remus aproveita a oportunidade.
- Lily, estou um pouco confuso. Por que ele acha que foi você quem vazou as informações?
- É EXATAMENTE essa a questão, Rem. Por quê? Porque brigamos quando éramos crianças? Então por que me deixou trabalhar na casa se desconfiava de mim?
- Bom, foi Monty quem deixou você entrar na casa.
Ignoro esse pequeno detalhe.
- Ele realmente acha que eu ficaria carregando um ressentimento desses depois de tantos anos? Nem todo mundo é tão mesquinho como ele! - grito histérica. - E, além disso, nunca faria nada de mal àquela família!
A esta altura da conversa, Remus deve estar cortando as unhas ou jogando paciência no computador.
- Não se afobe, Lily. Ele deve estar pensando nas pessoas estranhas que deixou entrar em casa nas últimas semanas. E você deve ser a única.
- E você?
- Ah, todo mundo sempre confia em mim. Eu tenho um rosto confiável. Mas você tem um ar meio suspeito.
- Bom, sendo assim, o melhor é ele me levar já para o pátio, para me fuzilar.
- Ele provavelmente vai fazer isso. O campo tem muito dessa coisa de fazer justiça com as próprias mãos, não tem? Olha, Lily, simplesmente vá lá e esclareça tudo. Provavelmente não passa de um mal-entendido.
Desligo e me sinto muito melhor, porque consegui ficar levemente zangada, uma emoção infinitamente superior ao medo tremulante. Mas à medida que passam os quilômetros, a coragem também vai ficando pelo caminho. "Volte aqui!", tenho vontade de gritar. Onde está o velho espírito guerreiro dos meus genes? Volte e tome rapidamente a dianteira, pelo amor de Deus.
O jeito é entrar na cova dos leões, digo para mim mesma. Mas o medo volta a tomar conta de mim, sorrateiramente. Como, raios, é que eu vou me defender? Será que todos na família pensam como James? Que sou uma espécia de vira-casaca e que não sou digna de confiança? Isso seria insuportável. Mesmo que eu conseguisse convencê-los de que não tive nada a ver com isso, o resto da minha estada seria horrível. Na verdade, não poderia continuar. Moody iria me substituir e eu teria que sair de Hogsmeade, desta vez para sempre. Por que isso é um pensamento tão horrível?
Os portões da propriedade estão fechados, mas eu grito e chamo Daniel, o zelador, que os abre para mim. Faço um percurso lento pela estrada com meu pequeno Smart e passo um tempinho enrolando no pátio, até que consigo me arrastar até a porta dos fundos. Passo alguns segundos praticando um "oi", para ver se ainda tenho voz. Quando estou prestes a bater na porta, ela se abre repentinamente e Will aparece na minha frente. Oh, meu Deus! Ele está terrivelmente sério. Quase como se estivesse de luto.
- Olá, Lily. Ouvimos você chegar - ele diz pomposamente e olha para o outro lado, sem graça.
- Oi - sussurro, provavelmente parecendo tremendamente culpada.
Ele sai da minha frente e eu me esgueiro pela entrada. Toda a família está sentada ao redor da mesa da cozinha. Deus, isso já é ir um pouco longe demais, não é? O que aconteceu com o inocente atá a prova em contrário? Moony é o único cão na sala, e o único que parece feliz em me ver.
Monty esboça um sorriso que não chega aos seus olhos.
- Olá, Lily. James espera por você no escritório. O que restou dele.
- O que você quer dizer com o que restou dele? - Todo mundo tem um ar miserável e ninguém me olha nos olhos, portanto giro sobre os calcanhares e entro no corredor. paro no hall de entrada e olho ao redor, surpresa. Onde está toda a mobília? Eles foram roubados? A polícia já sabe? Isso explica um pouco melhor as caras abatidas na cozinha. Corro na direção da porta do escritório e entro. A sala está sem nenhuma mobília, há objetos estranhos empilhados nos cantos, como restos de uma liquidação. James está encostado na lareira, olhando para o espaço vazio.
Ele me olha quando entro.
- Lilian. Você voltou.
- James, que horror! Vocês foram roubados! A polícia está a caminho?
- O que você estava pensando? - ele pergunta suavemente. Está na cara que não tem nenhuma vontade de discutir o roubo, que, para minha infelicidade, não ajuda em nada o humor dele.
- O que quer dizer com isso? - sussurro, ainda olhando para a sala vazia.
- Quero dizer, EM QUE DIABOS VOCÊ ESTAVA PENSANDO? - a voz dele sobe perigosamente de tom no fim da frase. Os olhos dele cintilam ameaçadores na minha direção. Ele está furioso.
- Eu não sei como a imprensa ficou sabendo. Não tive nada a ver com...
- Ora, Lilian, não me venha com isso! Você não pode ser tão burra!
- Eu não sei o que você quer dizer com isso. - Mordo o lábio e tento, desesperadamente, evitar o choro. Seria patético demais.
- Estou surpreso que você tenha a cara-de-pau de voltar aqui.
- Mas eu não fiz nada! - Uma leve entonação indignada aparece na minha voz. Graças a Deus. Posso contar sempre com a ajuda de James para me irritar.
- Onde você acha que a imprensa conseguiu as informações?
- Eu... eu não sei.
- Foi uma enorme irresponsabilidade sua não me dizer que ainda tinha ligações com aquela firma. Suponho que estivesse absolutamente desesperada para pegar o evento. Como pensou que eu não iria descobrir?
- James, honestamente não sei do que você está falando.
- Não?
- Não, não sei. Fiquei tão surpresa quanto você quando li o jornal.
- E o que me diz sobre o seu ex-namorado? Embora eu duvide que seja mesmo seu namorado. Ele ficou surpreso?
- Meu ex-namorado?
- Amus Diggory.
Mordo o lábio.
- Amus? Mas nós terminamos o namoro há um mês. Eu contei isso na outra noite - sussurro. - Por quê? O que ele tem a ver com isso?
- Você o viu recentemente?
- Sim, há uma semana. - Minhas palavras saem devagar enquanto meu cérebro confuso tenta pôr algum sentindo em tudo isso.
- Você realmente não sabe nada, sabe? - ele diz, me encarando feio. - Não queria acreditar que havia sido uma coincidência, mas foi mesmo. Fiquei pensando por que você iria mencioná-lo tão descaradamente na minha frente. Achei que era uma maneira sutil de me mandar pastar.
- O quê? - pergunto, perturbada. - O que é que eu não sei?
James acalma visivelmente.
- Você mencionou Diggory na outra noite? - Aceno que sim, ainda confusa. - Bom, isso tem me incomodado, queria saber onde havia ouvido esse nome. Papai disse que soava conhecido porque os Diggory são uma grande corporação, mas eu sabia que havia lido esse nome em algum lugar. E eu me lembrei ontem à noite. Amus Diggory é um diretor não-executivo da Wings, a fábrica que eu estava - estremeço ao ouvir o verbo no passado - tentando comprar.
- E o que isso significa, exatamente? - pergunto, começando a ficar desconfiada.
- Isso significa que Amus Diggory é membro da diretoria da Wings. Na verdade, ele não trabalha para eles, mas participa uma vez por mês das reuniões da diretoria por algumas horas e ganha muito bem para isso. Ele não tem o mínimo interesse que eu compre a empresa, porque a primeira coisa que costuma acontecer nas aquisições hostis é a demissão da diretoria. Quando você o viu na semana passada, ele perguntou alguma coisa sobre a propriedade? Sobre mim? - ele pergunta suavemente.
Eu penso.
- Hã, acho que ele fez algumas perguntas, não me lembro.
- Você disse que eu estava em Chicago?
- Talvez tenha dito - digo com uma vozinha fraca. - Por quê?
- Porque a Wings sabia com quais acionistas estávamos conversando.
- Mas ele parecia realmente surpreso em saber que eu estava trabalhando para você.
- Ah, eu não acredito nisso.
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que ele estava tentando descobrir o que você sabia.
- Mas como ele iria saber que eu estava trabalhando aqui?
- Conhecidos em comum? Contatos no ramo? Não sei! Há dúzias de maneiras pelas quais ele podia descobrir isso.
- Mas ele veio me ver para dizer... - minhas palavras falham. Ele veio me ver para dizer que me queria de volta, é a frase completa na minha mente. Que ele havia cometido um erro.
- Foi vê-la para dizer o quê?
Fico vermelha que nem um pimentão.
- Nada. Então você acha que ele foi me ver só parar tirar informações? - O filho-da-mãe. Como eu pude ser tão burra? Homens que terminam o namoro deixando um recado na secretária eletrônica não são do tipo que diz "Desculpe! Não sei no que estava pensando! Afinal de contas, eu amo você!". Mas pelo menos não fui idiota o suficiente para aceitá-lo de volta, penso, carrancuda. Graças a Deus! O que ele teria feito, então? Teria dormido comigo até conseguir toda a informação de que precisava?
- Mas eu não disse a ele nada do que foi escrito na matéria de hoje. Bom, talvez tenha mencionado o despejo dos inquilinos, mas só isso!
- Pelo que me dizem os assessores de RP, os inquilinos estão bastante zangados, para dizer o mínimo. E aparentemente ficaram felizes da vida em dar com a língua nos dentes.
- Mas Amus soube a respeito deles através de mim. Oh, Deus, eu não tinha ideia do que ele estava fazendo, achei que estava somente interessado no meu trabalho. E eu não contei nada de modo malicioso, nunca falei sobre a tomada hostil. Eu não faria isso, assinei o acordo de confidencialidade. - Muito bem, Lily. Traga o assunto à tona... Ele provavelmente já havia esquecido disso até que você voltou a colocar a ideia na cabeça dele. Por que não pendura um cartaz no pescoço, dizendo "ME PROCESSE, POR FAVOR"? Mudo de assunto rapidamente: - Ele fez algumas perguntas. Podemos dizer isso ao jornal? Pedir uma retratação?
- Lilian, é tudo verdade. Está certo que não estou retratado da maneira mais simpática possível, mas há um quê de verdade na matéria. - Ficamos quietos. James puxa dois almofadões do canto da sala e sentamos. Um deles tem porquinhos estampados. Eu acho que me lembro dele. - Desculpe ter gritado com você. Não queria acreditar que tinha sido simples coincidência. Papai disse que você nunca faria algo assim.
- Ele está certo, eu não faria. Mas eu lamento sobre Amus. Eu realmente não sabia quais eram as intenções dele. - Ficamos quietos em um silêncio desconfortável. - Quando vocês descobriram sobre o roubo? - pergunto de repente.
- Não foi roubo, Lilian. Os oficiais de justiça levaram a mobília. O banco mandou-os aqui.
- O quê? Oficiais de justiça? Banco?
- Sim. Pessoalmente, incluindo a casa, somamos uma dívida de mais de meio milhão.
- Oh, não! - sussurro.
Ele acena com a cabeça e continua:
- Quando eles leram nos jornais que a compra da fábrica havia fracassado, não consegui convencê-los a adiarem a cobrança. Eles chegaram hoje cedo. Alguns móveis são valiosos.
Isso é tudo culpa minha.
- Lilian, você está bem? - ele pergunta preocupado. - Você parece estar passando mal.
Minha resposta é um gemido. James se levanta, volta à pilha de coisas no canto da sala e pega algo. Ele joga um pacote no meu colo.
- Adesivos de nicotina. Pedi para papai comprar alguns para ajudar você a largar o cigarro. O banco não quis levá-los embora. - Ele sorri e senta na minha frente.
- Por que você não coloca um agora? - ele pergunta depois de uma pausa. - Você parece estar precisando de um cigarro.
Sim, claro. Sendo uma não-fumante, eu realmente preciso de um cigarro. Uma bebida também não iria mal. Tiro dois adesivos com mãos trêmulas e colo um em cada joelho. Não entendo como ele pode estar tão calmo.
- Como é que vocês devem tanto dinheiro ao banco? Não podem hipotecar a casa ou fazer outra coisa? - pergunto.
- A casa já foi hipotecada. Várias vezes. E se não conseguirmos arrumar um modo de fazer os pagamentos, o banco irá tomá-las de nós.
Ele vê minha expressão assustada e explica melhor:
- Lilian, quando minha mãe morreu eu estava na universidade. Estava no meio do segundo ano e me divertindo muito. A morte dela foi inesperada, um ataque cardíaco, e voltei imediatamente para casa. Estava arrasado, todos estávamos, e papai não quis mais administrar Hogsmeade, ele simplesmente largou mão de tudo. Achei que poderíamos contratar um administrador por alguns anos, até eu terminar a universidade, e então assumiria o cargo. - Ele faz uma pausa, porque alguém bate na porta. A sra. Jones traz uma xícara de café. Para James, nenhuma para mim. Espero que ela tenha tido o bom senso de botar uma dose de conhaque nele.
- James, venha até a cozinha - há um carinho verdadeiro na voz dela.
- Já vou, sra. Jones - ele sorri para ela. - Eles não quiseram a mobília da cozinha. É claro que a sra. Jones a estragou durante todos esses anos.
- E ainda bem - ela diz com um tom particularmente severo, sem olhar para nenhum de nós. - Onde eu iria cozinhar?
- Continue - insisto assim que ela sai, porque preciso mesmo ouvir tudo. Tenho que saber até onde vão as coisas. James me dá a xícara de café dele. Ao fazer isso, a mão dele cobre a minha e eu me encolho toda, sem pensar. Nossos olhos se encontram e ele parece realmente sentido.
- Vamos, continue - digo depressa, para tentar disfarçar o mal-estar e o clima pesado que se instalou -, o que foi que aconteceu?
- Bom, quando fui ver as contas da casa não acreditei nos meus olhos. Ainda bem que eu estava cursando economia na faculdade ou todos nós teríamos sido expulsos daqui há muitos anos. Descobri que, em vez da fazenda estar gerando uma boa quantia de dinheiro, o suficiente para sustentar a todos, ela estava perdendo dinheiro, e muito. A casa foi hipotecada e hipotecada de novo. Estouramos o limite do cheque especial e nunca mais nos recuperamos. Papai nunca foi um homem de negócios e sempre foi um filantropo. Mas não foi realmente culpa dele. Nos últimos cinquenta anos houve um grande declínio na economia. E os surtos de febre aftosa também não ajudaram nada. Para dizer a verdade, ajudaram foi a empurrar a fazenda para a bancarrota muito mais rápido.
Eu aceno com a cabeça. Li a respeito, claro, vi reportagens na TV, mas nunca tinha visto mesmo como eram a coisas.
- A maior parte de nossas terras é produtiva - continua James. - Arrendamos boa parte delas, mas, quando as coisas ficaram feias, papai, sendo o homem que é, abaixou o valor do arrendamento. Ele também nunca aumentou o aluguel das casas, nem uma vez em vinte anos. A última porção de nossos ganhos, embora marginal, vem da atividade florestal, e esta também sofreu um declínio. - Lembrei da serraria abandonada que vi no passeio que fiz com Will. - Misture nada e ficamos, virtualmente, sem renda. Quando percebi isso, soube que não poderia voltar para a faculdade.
Pensei na minha despreocupada existência quando estava na universidade e imaginei o que teria feito se isso tivesse acontecido comigo. Não teria sido capaz de ler um balanço de lucros e perdas mesmo se o tivessem trazido para mim em uma bandeja.
- Você não podia vender tudo?
- Pensei nisso. Mas sei que quebraria o coração de papai e não poderia fazer isso logo depois dele ter perdido a mamãe. E havia outras pessoas a serem levadas em conta, papai abalado pelo luto, Will prestes a entrar em Cirencester e tia Flo que veio morar conosco. Todos dependiam da propriedade. Além disso, achei que poderia mudar as coisas. Não contei a ninguém como a situação estava mesmo ruim. Tive que demitir todos os funcionários, o que me transformou em uma figura bastante detestada na cidade, e depois descobrir como manter as coisas funcionando. Não podia fazer nada a curto prazo com relação às terras da fazenda e à floresta, mas tentei arrendar as casas. O problema é que todas estavam em péssimo estado de conservação. Conseguimos restaurar algumas, mas tive que despejar os inquilinos quando soube que eles não estavam dispostos a pagar o valor correto de mercado, o que é, claro, quase três vezes mais do que pagam agora. Quis diversificar. Fazer caçadas ao faisão, abrir a casa ao público, promover concertos ao ar livre. Mas quando fiz as contas, descobri que todas essas atividades exigiam uma grande soma de dinheiro para ser implementadas.
- E eventos como este de caridade? Você está ganhando alum dinheiro com isso?
- Quase nada, Lilian. Além disso, se você quiser fazer esse tipo de eventos regularmente, precisa investir em marketing, que custa mais dinheiro, e os eventos não caem no seu colo. E eu não queria ninguém olhando a casa muito de perto, para que não percebessem quanto dinheiro é necessário gastar nela.
- Eu simplesmente achei que você tinha abandonado a casa.
- Os custos de manutenção são astronômicos. Portanto, decidi fazer algum dinheiro. Eu tinha jeito para negócios e pensei que se pudesse ganhar algumas centenas de milhares talvez conseguisse o suficiente para recomeçar. Não tinha nada a perder e comecei a correr riscos. As coisas correram bem, eu descobri que tinha talento para F&A e...
- O que é isso? - pergunto, desconfiada. Tem um som meio pervertido.
- Fusões e aquisições. Tomadas hostis e atividades do gênero. Pegar uma companhia com problemas, dividi-la e vender as partes. Você vê, Lilian, tudo era uma fachada cuidadosamente montada. Os bancos de investimento ficam felizes em investir seu dinheiro em mim depois de visitarem Hogsmeade. Eu acenei com a gravata da universidade e o brasão de Cambridge, e usei o dinheiro deles para assumir o controle de empresas. E claro que com um belo lucro para todos.
- Você não pode usá-los para ajudar Hogsmeade? Usá-los para ajudar você a diversificar?
- Para isso eles iriam querer analisar as contas da casa. E ficariam sabendo dos nossos graves problemas. E não iriam mais fazer nenhum tipo de negócio conosco. As pessoas presumem que você tem muitos bens, tem dinheiro. Tivemos alguma sorte, Will voltou de suas viagens e assumiu o cargo de administrador da fazenda. A sra. Jones apareceu e ficou perfeitamente feliz em morar aqui e ganhar um salário pequeno. Ela mantém os móveis em perfeitas condições enquanto o teto está quase desabando sobre as nossas cabeças. Tivemos que fechar algumas alas da casa, mas ninguém percebeu por quê. E eu faço questão de manter os jardins impecáveis. O velho Fred cuida deles em troca de moradia em uma das casas da propriedade. Eu tenho uma BMW e alguns ternos elegantes, os truques de praxe de um homem de negócios bem-sucedido. Não existem sinais externos de que algo esteja errado.
- Eu não fazia ideia - sussurro.
- Não poderia fazer. Ninguém faz.
- Mas você fez outras tomadas hostis. Li sobre elas nos jornais.
- Todo o dinheiro que eu fiz investi na tomada seguinte, usando um pouco aqui e ali para fazer algumas modificações em Hogsmeade. Consertar algumas casas, esse tipo de coisa. Esta ia ser a minha última cartada empresarial. Investi cada centavo da empresa nessa jogada. Teríamos obtido dinheiro suficiente para sanar as dívidas, comprar a casa de volta e investir no futuro.
Ele olha para o chão. Sinto-me mal com todas essas informações. Ele levanta os olhos e interpreta errado a minha expressão.
- Não fique com um ar tão preocupado, Lilian, não vou processar você. Ou contar para a sua empresa.
- Não estou preocupada com isso. - Oh, não. Estou preocupada em saber como vou sobreviver sob o peso de toda esta culpa. Alguém irá me encontrar, achatada como uma panqueca, que nem um personagem de desenho animado. Um pensamento completamente egoísta, claro.
- Mas os jornais - digo. - Eles sempre disseram que você é um sucesso, quanto dinheiro você tinha.
- Ah, os jornais. Outra fachada construída cuidadosamente. Quando eles se enganaram a meu respeito na primeira vez, percebi que isso facilitava a minha vida. Cada negociação era menos problemática. Era um pouco como os reis antigos. Eles faziam todo o possível para assustar os seus rivais e muitas vezes percebiam que tinham ganho, mesmo antes de qualquer batalha. Minha reputação chegava antes de mim. As pessoas viravam-se do avesso para me dar dinheiro. Então as histórias, cuidadosamente estudadas, foram sendo lançadas e percebi que assim eu entrava numa reunião de diretoria já me acenavam com bandeiras brancas.
- Então a aquisição está realmente arruinada?
- Está, se os acionistas americanos forem realmente apoiar a Wings. Nós precisamos das ações deles para comprar a empresa. Estou esperando um telefonema do responsável pelo grupo.
- O que você vai dizer?
- Não sei. Mas preciso convencê-los de que vender as ações ainda é um bom negócio. Se eles pensarem, por um segundo, que não vou cumprir com a minha parte no acordo, vão apoiar a Wings e as promessas deles de um futuro melhor. - Ele levanta, vai até a janela e olha para fora. - A imprensa vai chegar a qualquer momento, passaram a manhã toda telefonando. Vão descobrir sobre os oficiais de justiça e isso será manchete em todos os jornais de amanhã, o que não vai me ajudar em nada. Vai parecer que não posso comprar uma ação, que dirá meio milhão delas, não importa o que meus investidores digam. Você não faz ideia do quanto os oficiais de justiça assustam as pessoas.
Na verdade, não fico nada surpresa. A simples menção do nome faz com que eu trema nas bases.
James deixa de olhar pela janela e sorri para mim. Como é que ele pode estar assim calmo quando o mundo dele está desabando?
- De certa maneira foi minha culpa - ele diz com voz cansada. - Estava jogando um jogo perigoso com a imprensa. Fomos muito cuidadosos com o que divulgávamos, mas era apenas uma questão de tempo antes que eles começassem a revirar as latas de lixo. Amus Diggory deu a eles o que queriam em uma bandeja. Pena que tenha sido agora. É tudo.
- Você pode manter as despesas da casa enquanto organiza outra aquisição? - pergunto tentando desesperadamente encontrar uma solução.
- Levam-se anos para estabelecer uma; para começar, você precisa de financiamento. Além disso, joguei todo o nosso dinheiro nessa empreitada. E se quase tudo se baseia na reputação, qual será a minha depois de tudo isso?
Os oficiais de justiça retiraram todos os móveis da minha casa. - Ele dá um sorriso ainda mais desanimado. - Lilian, não é seu problema.
Não, espertinho. Não vou para lugar algum antes de me sentir melhor a respeito disso. E isso não vai acontecer até que eu tenha feito algo para ajudar. Por um instante luto contra a ironia de que desejo realmente ajudar James, mas tenho que admitir que ele não está se comportando como eu imaginei.
- James, eu cresci nesta casa. Pode não ter sido sempre o melhor período da minha vida - ele faz a gentileza de parecer incomodado com a referência -, mas ainda me importo com o que acontece com vocês. E parte disto é minha culpa, por causa de Amus.
- Ele teria conseguido aquelas informações de uma maneira ou de outra, Lily - esta é a primeira vez, desde que cheguei, que ele me chama assim. - Com ou sem sua ajuda.
- Eu tornei as coisas mais fáceis para ele - digo extremamente consternada.
- Bom, vamos para a cozinha. Por um lado, é um alívio ter contado tudo para a família. Nunca quis preocupá-los contando como as coisas estavam ruins. Coitadinhos, provavelmente pensaram que eu estava sendo pão-duro. Nada de lareiras acesas durante o dia, exigindo que os cães fossem alimentados com ração em vez de galinhas criadas organicamente. Só Will sabia de tudo. - Ele dá um sorriso forçado.
- Will sabia?
James olha para mim, intrigado.
- Sim, ele adivinhou. É claro que tentei minimizar as coisas, mas ele é o administrador da fazenda, Lily. Como é que ele não iria saber?
- Mas ele estava me dizendo como...
- Como o quê?
- Nada.
Observo James sair da sala. Will sabia e mesmo assim me fez acreditar que James era tão ruim como diziam. Interessante.
Acompanho James, mas faço uma pausa pensativa no hall de entrada e olho para a parede acima da lareira. Sei exatamente o que falta. Um quadro. Uma pintura muito valiosa. É claro que ela teria sido uma das primeiras coisas a serem vendidas. Entro na cozinha, onde o ambiente pesado de velório continua.
- Quer ir pescar, Harry? - pergunta James. Harry acena com a cabeça, entusiasmado. A atmosfera na cozinha está um pouco opressiva, para dizer o mínimo. Ele salta da mesa e vai até a despensa pegar o equipamento. Espero que os oficiais de justiça não tenham tirado tudo.
- E aquele telefonema, James? - pergunto.
- Estou com o celular. - Ele bate a mão no bolso. - Eles ainda podem falar comigo.
E, com esta frase, ele e Harry abrem a porta dos fundos e saem em direção ao sol.
Pelas barbas de Merlin, o James é um amor, socorro. Me digam o que vocês acharam do capítulo e, para quem pensava que o Will não era flor que se cheirava... vocês estavam certos! Hehe, podem xingar o Amus à vontade, também, sem problemas.
Svelis: O Remus fisga o coração de qualquer uma, aparentemente, e eu não posso comentar nada sobre a opção sexual dele... O Regulus é um bebê! Um dos maiores crimes da JK foi não ter colocado ele aparecendo de verdade. De qualquer maneira, eu já estou de volta ao Brasil, então pretendo atualizar com mais frequência, agora.
bitemealienboy: E aqui está mais fanfic para você! Ah, antes de mais nada, seja bem-vinda a fanfic, sim? Eu também nunca fui fã de chic-lit, mas, por algum motivo, as fanfics adaptadas são minhas favoritas, vai entender - e sim, são todas Jily. Eu já até tive minha época mais Wolfstar e Dramione, mas agora minha vida com Harry Potter é estritamente relacionada à era dos Marotos e à Jily, sem mais. Espero que você continue lendo e comentando 3
Até a próxima,
Julia
