CAPÍTULO XV

Por volta das três da tarde (parece mais ser meia-noite), Sam aparece para perguntar se podemos levar algo para a equipe que cuida da aquisição, que está entrincheirada no escritório desde que chegaram, horas atrás. Começo a preparar enormes quantidades de café, e a sra. Jones encontra alguns biscoitos e metade de um bolo. Eu levo a bandeja para o escritório. Empurro a porta com meu traseiro e vejo um grupo de advogados, contadores e Deus sabe quem mais sentado no chão, com expressões agoniadas nos rostos. Não quero nem saber o que James disse para explicar a ausência dos móveis, mas espero fervorosamente que ele tenha deixado meu nome fora da explicação.

- Obrigado, Lily - diz James, olhando e acenando para mim.

- Vocês vão precisar comer alguma coisa, querem que eu providencie algo?

- Isso será ótimo, Lily. A sra. Jones tem umas coisas por aí. Aceno com a cabeça e escapo feliz da vida.

Aproveito uma pausa sobre o problema da reposição da mobília e ligo para Moody. Acesso a minha caixa de mensagens de voz e descubro que ele está realmente tentando falar comigo. São sete mensagens, a última falando ameaçadoramente sobre seguro-desemprego e linchamento em praça público. Dou uma boa esfregada nos meus adesivos de nicotina e ligo para o escritório com uma mão levemente trêmula. Emmeline nem faz uma pausa para me dizer o tamanho da confusão em que estou metida. Ela simplesmente murmura "Ai, merda" e passa a ligação.

- Onde diabos você se meteu? - preciso afastar o telefone do ouvido.

- Hã, calma, Alastor...

- Já liguei não sei quantas vezes.

- Bom, só liguei o celular agora...

- Então você descobriu onde fica o botão, foi? Que milagre.

- Estivemos muito ocupados aqui.

- Você não acha que poderia, uma vez na vida, ter demostrado um pouco de inteligência e ter me telefonado?

- Bom, sem dúvida, ao ler os jornais, você deveria saber que há muita coisa acontecendo aqui...

- O baile ainda vai acontecer? O que está acontecendo? Lady Boswell está telefonando de hora em hora.

Tento explicar a situação.

- Bom, para dizer a verdade não há muita coisa acontecendo. - É isso aí, Lily, use uma cortina de fumaça. - Os jornais entenderam tudo errado e a tomada hostil ainda vai acontecer. O que, naturalmente, significa que o baile ainda está de pé. James pediu que eu o ajudasse a recepcionar alguns visitantes americanos que chegam amanhã e estou muito ocupada. - A frase foi dita em um tom autoritário de "não me perturbe". Sei que Moody vai ficar contente com o trabalho corporativo extra e eu cruzo os dedos.

O truque funciona e ele se acalma um pouco.

- A imprensa entende tudo errado mesmo. Eu deveria saber. Mas, da próxima vez que algo parecido acontecer será que você poderia ligar para o escritório? Sabe onde é, não? O lugar onde você supostamente trabalha? Uma boa promoter precisa ter excelentes habilidades de comunicação.

- Claro - respondo, esperando com todas as minhas forças que nunca haja outra vez. - Isso quer dizer que não volto na sexta-feira. Como vão as coisas aí? - pergunto depressa.

- Tudo bem, tirando o fato de os Dearborn terem avisado que convidaram outras cem pessoas. Eles são seus clientes, você deve tê-los estragado e mimado. As pessoas andam por aqui com serpentinas de um lado para outro e resmungando palavrões; organizar uma festa é um inferno. Como vai Remus? - Todo mundo parece obcecado com a saúde de Remus.

- Ele está bem.

- Como ele vai indo? Está chateando alguém?

- Não, a família o adora.

- Ótimo. Mantenha as coisas assim.

Desligamos.

Sentindo-me razoavelmente grata por não estar na lista dos desempregados, vou para a cozinha, onde Monty e Flo estão no meio de uma briga para decidir quem é que sofreu a pior picada de abelha do mundo, já que os dois são alérgicos a abelhas. A sra. Jones está tentando fazer Harry comer um sanduíche de atum, com o argumento de que essa é a única coisa que marcianos malvados comem. Remus está sentado no chão dando biscoitos de laranja para os cães - mas só depois de ter comido o recheio cremoso.

- Vocês resolveram o problema com os móveis? - pergunto a Remus, esperando que este seja o motivo pelo qual a anarquia impera na cozinha.

- Hã? Oh, não. Estávamos esperando a sua volta. - Não sabia que eu era essencial para a solução do problema, e a pressão da descoberta faz com que eu me dirija direto para a garrafa de uísque.

Nosso pequeno grupo de soldadinhos volta aos seus postos na mesa.

- Certo, onde estávamos? - pergunta Monty.

- Não podemos pegar a mobília que está com os oficiais de justiça e tentamos uma empresa que aluga móveis.

- Alguém tem alguma ideia?

Minha única ideia é que James vai me matar se não arranjarmos móveis. Assumimos posições pensativas e ficamos quietos.

Dez minutos depois, sem nenhuma solução no horizonte, Will volta de uma expedição de reconhecimento dos fatos na cidade. Endireito-me na cadeira, feliz em ter uma distração.

- O que aconteceu?

Ele parece deprimido.

- Basicamente, os moradores viram as caminhonetes e avisaram a imprensa. Já temos alguns jornalistas na frente do portão principal. Daniel está circulando de carro pelo perímetro da fazenda para mantê-los longe. - Não são estas as notícias que queremos ouvir. - Acho melhor contar para James.

Levanto.

- Tenho que levar alguma comida para eles. Se você esperar cinco minutos, poderemos interrompê-los juntos. - A sra. Jones e eu preparamos uma pilha de sanduíches de atum, e Will e eu levamos as bandejas para a biblioteca.

O grupo está conversando animadamente quando entramos. Will puxa James para o lado e começa a contar as novidades em voz baixa. James me chama.

- Como vão os preparativos para resolver o problema dos móveis? - ele sussurra.

- Hã...

- Lily, eu não quero nem saber como você vai fazer isso, mas tem que arrumar os móveis para amanhã. Nossa agência de RP já está a caminho para cuidar do problema com a imprensa.

- Vamos conseguir - tento soar o mais positiva possível. Meu celular toca e vou para o hall, atender a chamada. - Alô? - respondo, e minha voz faz um eco estranho no espaço vazio.

- Sou eu, querida. Estava preocupada com você e liguei para saber como foram as coisas. Mas você parece estar razoavelmente viva, portanto parece que James não fez nada terrível com você! - ruge tia Winnie.

Vou até a escadaria, sento no primeiro degrau e tento explicar tudo o que aconteceu nas últimas cinco horas.

-... E eu não sei onde vamos conseguir móveis suficientes para preencher três salas gigantescas, e ainda tenho que organizar o baile, sem falar nos visitantes americanos de James que chegam amanhã e que são extremamente importantes para a aquisição. - Minha voz aumenta perigosamente de volume no fim da frase. O fato de contar tudo para tia Winnie fez com que eu percebesse a enormidade das tarefas à minha frente. Começo a ficar levemente histérica.

- Eu consigo ver o seu problema, querida. Que azar dos diabos! - Azar? Dos diabos? Azar dos diabos que eu estivesse namorando o maior cretino da Inglaterra, que estava pronto para fazer o que fosse necessário para manter seu estúpido cargo em uma diretoria? Azar dos diabos que a casa deve trilhões de libras ao banco e que este mandou retirar a mobília? Ou azar dos diabos que um batalhão de visitantes estrangeiros vai invadir a casa amanhã?

- Acho que tenho uma ideia. A velha massa cinzenta está fazendo barulho - diz tia Winnie antes que eu possa dizer algo. - Posso telefonar daqui a pouco?

- Claro! - digo surpresa, e vou comer alguma coisa. Tudo sempre fica melhor depois de um sanduíche de atum.

Estou engolindo o terceiro sanduíche quando o telefone toca novamente. É tia Winnie.

- Acho que encontrei a solução, querida! Ela surgiu como um raio! - grita. Não preciso repetir o que ela diz porque a sala inteira consegue ouvir. - Estava assistindo ao programa do maravilhoso Hugh Scully! Que homem lindo!

- O quê?

- Não se preocupe com nada. Chego aí hoje à noite com os móveis.

- Precisamos ter certeza disso, tia Winnie.

- Pode ter certeza. Agora, de que salas você está falando, e há algo específico de que precisa?

Passo o celular para Monty, para que ele dê as instruções. Agradeço a Deus pela existência de tia Winnie. É uma pena que não possam fazer clones dela e colocar todos eles em postos no governo.

- É uma mulher inacreditável, esta - diz Monty quando desliga. - Ela diz que chega hoje à noite com os móveis. Disse para não usar portão principal. Um de nós precisa ir ao portão nos bosques para encontrá-la.

- Onde é que ela vai conseguir os móveis? - pergunta Will. Balanço a cabeça.

- Não sei. - E nem quero saber, penso.

Passo o resto da tarde arrumando os quartos para os visitantes estrangeiros. Os quartos parecem um pouco nobres e passo horas apanhando flores e folhagens no jardim para melhorar um pouco a aparência deles. Remus e eu precisamos sair de nossos atuais quartos e dividir um outro em outra ala da casa. Que fantástico.

Lá pelas oito da noite, vou até o jardim murado para passar uns dez minutos sozinha.

- Pensando com seus botões?

Giro sobre os calcanhares e vejo James encostado no arco que dá passagem para o jardim murado. Estou revirando um galinho de alecrim entre os dedos, tentando entender tudo o que está acontecendo.

Ele caminha lentamente em minha direção e consigo colocar um meio sorriso no rosto. Gostaria que ele fosse embora e me deixasse colocar em ordem os meus pensamentos confusos. Volto a remexer no alecrim, tentando indicar que quero ficar só, principalmente se ele vai me dar outra bronca. Sei que mereço, mas, quem sabe, poderíamos deixar para mais tarde.

- Alecrim - diz ele. - Te lembra algo?

- Precisa de alguma coisa? - pergunto, tentando manter a conversa em um nível profissional, mais confortável.

Ele balança a cabeça, aparentando estar um pouco decepcionado, e diz:

- Papai disse que você resolveu o problema dos móveis? - Aceno com a cabeça e ele continua: - Minha equipe foi embora. Os investidores americanos chegam amanhã no horário marcado. - Ele parece exausto.

- Escute, James, Remus e eu deveríamos voltar para Londres amanhã. Você quer que fiquemos para ajudar com os visitantes? Afinal de contas, é este o nosso trabalho.

- Mas é durante o fim de semana.

- Não tem problema. Não temos nada programado e, de qualquer maneira, deveríamos estar de volta aqui na segunda-feira, portanto não tenho nem que avisar o escritório. Sei que a sra. Jones já cuidou da comida, mas eu estava pensando no entretenimento geral. Eu poderia fazer o papel de anfitriã.

- Na verdade, isso será ótimo.

- E pensei que Remus poderia fazer o papel de mordomo da casa por alguns dias. Ajuda a manter a imagem.

- Ele não se importa?

- Foi ele quem sugeriu! - Remus não fez nada disso, mas bem que merece um castigo depois da história do cigarro. - Amanhã cedo vou correndo até Bury St. Edmunds alugar um terno.

- Obrigado.

- Há uma pausa na conversa e ele vai até o pé de alecrim e arranca um galhinho. Volta até onde estou, galhinho na mão, examinando-o atentamente.

- Este era o jardim de minha mãe. Ela passava a maior parte do tempo aqui. Às vezes achava que ela gostava mais deste jardim do que de nós.

- Percebe-se o quanto este local foi amado - comento, olhando para as madressilvas e as clêmatis que ficaram abandonadas e se espalharam por todo o lado.

- Não deveria ter deixado as plantas crescerem descontroladas.

- O local só precisa de uma arrumada - respondo, tentando confortá-lo, porque ele parece muito chateado. Apesar de tudo o que aconteceu entre nós, sinto uma onda de afeto por ele. Goste ou não, boa parte do meu passado está amarrada a este homem. Ele me olha e sou surpreendida pelo seu olhar. Vejo algo que reconheço, mas que não consigo exprimir com palavras. Parece... mas logo depois depois desaparece. De repente, me dou conta de que nossos corpos estão muito próximos.

- Você quer ir ver os veados? - ele pergunta.

- Hã, acho que não estou usando calçados apropriados para isso. - Olho para minhas sandálias com salto dez.

- Eu posso esperar, se você quiser calçar outra coisa.

Fico tentada por um segundo. Tive um pequeno vislumbre de algo acolhedor, confortável e de fácil retorno. Além disso, já consigo sentir sua respiração próxima ao meu rosto, e, com a mente um pouco confusa, quase aceito a proposta. Mas depois lembro de tudo que aconteceu.

- Não. Sinto muito, James. Tenho coisas a fazer.

Ele dá um sorriso triste e fixa seu olhar no meu por um segundo.

- Eu também sinto muito - diz suavemente e caminha em direção à saída, deixando-me para trás, olhando para ele.


Vou até meu quarto, tiro a camisa de rúgbi e coloco uma camiseta rosa justa. Meg, a cadelinha, e Remus aparecem na porta.

- Aonde vai? - Remus pergunta intrigado, notando a mudança de roupa. - Algum encontro secreto?

- Nâo, de repente eu me senti desleixada. Achei que deveria mudar de roupa para jantar.

- Então por que está passando batom?

- Eu sempre passo batom.

- Para mim, você não usa batom.

Quase digo: "Bom, porque você é gay", mas penso que isso não tem nada a ver.

- Você perguntou se eles querem que fiquemos no fim de semana para ajudar com os americanos? - Remus continua.

- Hã, na verdade acabei de falar com James e ele disse que seria maravilhoso. Você não tinha planos para o fim de semana, tinha? - Vou guardar a maravilhosa novidade do papel de mordomo quando tiver mais tempo para saborear o ataque histérico de Remus.

- Posso alterar meus planos. Vou avisar... hã, que não posso ir. Eles vão entender.

- Você é quem sabe, Remus, não me importo com quem você está namorando.

- É alguém um pouco, hã, diferente.

- Querido, seja quem for com quem você está namorando, está tudo bem comigo - digo, tentando passar em bom-tom a mensagem de que eu o amo de qualquer maneira.

- Vamos conversar sobre isso em breve, prometo. No momento as coisas estão confusas para mim e há muito acontecendo com essa história envolvendo Amus.

- Eu sei. Você vai descer para um drinque?

- Na verdade, pensei em tomar um banho.

- Ok. Vejo você mais tarde!

Desço, pensando aflita se Remus acha que nosso relacionamento pode mudar ou coisa parecida. Ele não costuma ser tão retraído para contar as coisas. Paro por um momento no hall de entrada, pensando, antes de correr escadaria acima para pegar meu celular. Sinto uma necessidade estranha de ser confortada e ligo para meus pais. Como é uma ligação para Hong Kong e via celular, peço que liguem de volta para o telefone fixo e saio correndo pela biblioteca deserta. Pego o telefone assim que ele toca.

- Alô? - digo cautelosamente, caso não sejam eles.

- Querida!

- Mamãe!

- Que surpresa adorável. Ligamos para o apartamento, onde você anda? Seu pai quer saber onde você está... Porque o código da área é da região de Hogsmeade, a propriedade dos Potter. Lembra? Onde guardávamos os cavalos.

- Sim, lembro. É onde estou.

- Onde?

- Em Hogsmeade.

Há um silêncio enquanto ela, obviamente, digere a novidade e depois diz ao meu pai:

- É onde ela está. Em Hogsmeade. - Espero pacientemente em silêncio, até que ela acaba dizendo:

- Por que está aí?

- É uma história estranha. Vim organizar uma festa para James Potter!

Eles não estão digerindo a novidade como eu imaginava. Pensei que haveria várias exclamações de surpresa, alguns oohs e aahs e depois começaríamos a trocar recordações do lugar e eu poderia começar a contar a minha triste história. Mas não há nada disso, somente outro silêncio estranho.

- Hã, mamãe? - resolvo perguntar. - Está tudo bem?

- Sim, querida, tudo bem - ela acaba respondendo. - Posso telefonar daqui a pouco?

- Quando?

- Daqui a um dia ou dois.

- Sim, claro, mas está tudo bem?

- Sim! - ela responde em uma voz artificialmente alta, quando quer mesmo dizer "Não!".

- Ok. Falo com você em breve. Tchau!

Mas o telefone já havia sido desligado do outro lado da linha. Fico ali sentada, olhando para o aparelho, até que Harry vem me buscar para jantar.


Primeiro de tudo: UM FELIZ NATAL PARA TODOS VOCÊS! Sim, eu sei que hoje já é dia 26, mas é porque, na realidade, minha intenção era de postar esse capítulo como um especial de Natal, mas o Fanfiction Net endoidou ontem e não me deixava entrar. Então, aqui está o presente de vocês! PS: Eu pretendo postar outro capítulo como especial de Ano Novo, também. E quanto ao "Eu também sinto muito", o James ainda mata a gente algum dia. Ai, ai, ai, e esse mistério todo com os pais da Lily?

Svelis: Sim, querida, acho que todos nós concordamos que o Amus deveria queimar em fogo ardente, mas a vingança ainda não terminou! E mais, concordo com você a respeito do Will. Na verdade, acho que ele é apenas uma pessoa diferente do irmão, personalidades opostas, mas que, por ser o mais novo e, de certa forma, protegido, acaba sentindo-se ofuscado pelo irmão mais velho.

Ho ho ho,
Santa Joules