CAPÍTULO XVI
Faltando quinze minutos para a meia-noite, Will e eu saímos em direção ao bosque com lanternas e um cão - não a Meg, resolvemos ficar com um terrier feroz, chamado Albert, para nos defender de eventuais problemas. Um lado meu está completamente entusiasmado com o papel de agente esquilo secreto, mas outra parte de mim está cansada e só quer ir dormir. Mas estou feliz em ter uma chance para conversar com Will.
A luz está quase cheia e muito brilhante, de modo que não precisamos de nossas lanternas até entrarmos no bosque. Não conversamos desde que saímos de casa, mas assim que acendemos as lanternas começamos a falar, como se agora fosse permitido conversar.
- Tudo é um pouco chocante, não é? - sussurro para Will, olhando Albert saltitando na nossa frente e me sentindo segura com ele. Os bosques são tão assustadores quanto eu me lembrava. Uma coruja pia de tempos em tempos e ouço estalidos de coisas se mexendo. Digo para mim mesma com firmeza que é somente Albert e resisto à tentação de saltar nos braços de Will como se eu fosse o Scooby-Doo.
Ele me olha sem graça.
- Eu suspeitava, Lily. Não sabia de tudo, mas sabia de alguma coisa - ele diz, confirmando conversas anteriores.
- Mas você me disse o quão mesquinho James era e comentou sobre o despejo dos inquilinos.
- Eu não podia dizer a verdade. E estava mantendo a fama de James.
Não precisava se esforçar tanto para manter a fama, penso com meus botões.
Ficamos novamente em silêncio, sem graça.
- Suponho - Will finalmente admite - que tenho ciúmes dele.
- Tem? - digo cautelosamente.
- Bom, é ele quem tem que defender tudo isto. - Ele gira o braço ao seu redor, indicando as árvores silenciosas.
- O que quer dizer com isso?
- Enquanto eu lido com minhas humildes tarefas diárias, James brinca de... sei lá, de super-herói.
Pigarreio sem graça. Estamos definitivamente entrando em território masculino, sem falar de rivalidade entre irmãos.
- Não acho que seja algo muito divertido. Quer dizer, parece ser mais do que realmente é.
- E eu estava zangado porque durante todos estes anos ele manteve a verdade sobre a fazenda em segredo, como se pensasse que eu não era forte o suficiente para saber de tudo.
- Ele me disse que queria que você fosse estudar em Cirencester e temia que você se recusasse a ir. Talvez, depois disso, tenha sido tarde demais - digo, pensando nos motivos que me levam a defender James.
- Eu tinha acabado de voltar para cá quando começaram as notícias na imprens
a. É duro ouvir falar de alguém sobre quem se tem ressentimentos como se esta pessoa fosse um deus. Acho que isso fez com que eu ficasse mais ressentido ainda. Aí começaram a falar coisas ruins sobre ele e acho que eu quis acreditar nelas.
Esta conversa com Will está me fazendo pensar. Algo está mudando de rumo e não gosto muto disso. Will ainda parece ser o menino que vi pela última vez há quinze anos. Não está claro se ele é mesmo um homem inferior, mas, infelizmente, começa a comportar-se como tal.
- Então você não acha que as recentes notícias sobre James são justas? - pergunto.
- Não duvido que ele tenha sido um pouco implacável, mas você não seria tendo tudo isso para cuidar? Com o banco e a hipoteca atrás de você o tempo todo?
James disse que a empresa de RP criou deliberadamente essa imagem de senhor da guerra. Um pensamento incômodo começa a perambular pela minha mente, o de que James pode ter tido bons motivos para fazer tudo o que fez - e que é, talvez, até um pouco nobre?
- Ele sempre foi implacável, mesmo na infância - jogo isso no meio da conversa para nos trazer de volta à realidade. Não quero que nós, ou melhor, que eu, me esqueça sobre quem estamos falando.
- Eu acho que ele foi muito desagradável com você.
- Sim! Ele foi! - sussurro trinfante, feliz em saber que não tinha imaginado tudo aquilo.
- Eu me sinto culpado. Fui muito crítico, pensando secretamente que podia administrar melhor a propriedade. E acho que disse tudo aquilo sobre ele porque queria passar mais tempo com você e temia que, assim que James voltasse para casa, as coisas voltariam a ser como eram quando éramos crianças. Apesar da briga de vocês.
- O que você quer dizer com isso? - pergunto.
- Bom, havia uma química entre vocês dois, Lily. Vocês formavam um clubinho. E costumavam deixar a mim e a Dora de fora o tempo todo.
Mesmo no escuro consigo sentir o sentimento de rejeição dele. Nunca percebi o quanto isso o incomodava. Estico a mão e toco seu braço.
- Puxa, Will, sinto muito. Nunca tinha percebido.
Antes que ele possa responder, vemos um enorme caminhão branco estacionado mais à frente. Uma mão aparece na janela e acena para nós.
- Que bonitinha - suspira Will.
Tia Winnie desce do assento do motorista parecendo muito satisfeita consigo mesma. O caminhão é enorme e uma onda de admiração me invade. Ela dirigiu aquilo até aqui, parando de tempos em tempos para pegar móveis antigos e, consequentemente, salvar minha pele. Ela devia ser tombada como patrimônio histórico.
- Oi! - sussurro indo até ela, me inclinando sobre o portão e beijando sua bochecha.
- Isto é divertido, Lily! Olá, Will! - Will também se inclina por sobre o portão para lhe dar um beijo. Ela obviamente encarnou o personagem, pois está enfiada em um macacão azul (e isso é realmente um espetáculo levando-se em conta que eu nunca a vi usando calças compridas, exceto nas aulas de ginástica) e usando um elegante boné de tweed na cabeça.
Will pega um molho de chaves e, enquanto eu seguro a lanterna, tenta encontrar a chave que destranca o cadeado.
- Você achou o caminho com facilidade? - sussurro para tia Winnie.
- Sem problemas! Mas as estradas eram um pouco estreitas. - Aposto que eram, provavelmente esta foi a primeira vez que um caminhão deste tamanho passou por aqui. O caminho que leva até a parte de trás da fazenda é formado por estreitas estradas vicinais e umas duas estradas normais.
- Querida, o que está usando? - Olho para baixo.
- Hã, minhas roupas.
- O que eu falei sobre usar rosa?
- Mas eu uso muitas roupas cor-de-rosa.
- Mas eu decidi que você não deve usá-las.
Certo, maravilhoso.
Will finalmente consegue destrancara o portão e o abrimos o máximo que conseguimos.
- Você quer que eu dirija o caminhão, tia Winnie? - ele pergunta.
- Claro que não!
- Então entrem nele vocês duas e eu fecho o portão.
Tia Winnie escala o caminhão para o assento do motorista enquanto eu faço tentativas heroicas para subir para o assento do passageiro. É mais complicado do que parece. Consigo subir os dois primeiros degraus, mas acabo com a cara enfiada no assento e a bunda virada para cima. Albert, o cachorro da fazenda, está doido para conhecer Snuffles, que está sentado ao lado de tia Winnie e insiste em saltar para mim para me usar como escada.
- Vamos lá, Lily, minha filha! Pare de ficar brincando com esse cachorro!
Começo a ficar levemente histérica. Acho que preciso de um adesivo de nicotina. Recentemente, o pensamento "eu realmente podia fumar um cigarro" tem surgido com frequência na minha mente. E tenho certeza de que esse não é o objetivo dos adesivos.
Tia Winnie liga o motor, que faz um barulho ensurdecedor do silêncio da noite, e eu me puxo para dentro da cabine usando a haste de câmbio. Albert está sentado no meu lugar depois de ter subido pela minha cabeça. Fecho a porta.
- Pronto! - digo de modo triunfante, como se tivesse acabado de escalar o Everest, e me espremo perto dos cães. Tia Winnie esconde uma risadinha, deixa de fazer festinhas em Albert e coloca o caminhão em primeira. Passamos pelo portão e paramos enquanto Will tranca tudo e sobe. Ele não tem nenhum problema como eu.
Eu não tinha percebido como a estrada estava esburacada quando viemos a pé, mas agora fico pensando como é que não percebemos isso. O caminhão chacoalha para a frente e para trás de modo assustador e, de vez em quando, penso que vamos capotar. O silêncio é total enquanto tia Winnie se concentra em nos levar com segurança até a casa, sendo interrompido somente por alguns sobressaltos meus quando alguns galhos de árvores aparecem do nada. Finalmente, quando chegamos à relativa suavidade da estrada particular e tia Winnie muda a marcha para segunda, é que deixo escapar um suspiro que não percebi estar segurando.
Momentos depois estamos no pátio e assim que tia Winnie desliga o motor a porta da cozinha se abre, iluminando as pedras do calçamento. Will já estava do lado de fora.
- Seja gentil com James - digo para a motorista em voz baixa. Tia Winnie não costuma ser agradável com as pessoas de quem tem má opinião, e eu não tive muito tempo para passar todas as informações para ela. - Ele tem passado maus bocados.
Saio cuidadosamente da cabine. Não quero dar um passo em falso e despencar lá de cima. Albert salta na minha frente sem pensar no perigo, seguido rapidamente por Snuffles. Vou para a parte traseira do caminhão onde Monty, a sra. Jones, Remus, Flo, James e Will estão reunidos (Harry já está na cama). Depois que tia Winnie cumprimentou adequadamente a todos - o que parece muito estranho no escuro e com vozes sussurradas, mas nós somos ingleses e temos que seguir a etiqueta -, ela aperta um superbotão tecnológico na porta do caminhão, abrindo-a, e uma rampa desliza para fora da carroceria. Usamos nossas lanternas para iluminar uma pilha de móveis, embalados profissionalmente, como se fosse uma mudança. Estou impressionada.
- Onde a senhora conseguiu tudo isso, tia Winnie? - sussurra James.
- Pedi metade emprestado; a maior parte dos móveis de grande porte é minha.
- Mas de onde veio tudo isso? - pergunto.
- Da cidade. Disse a todo mundo que ia levar meus móveis para o Show de Antiguidades. Enquanto conversava com você, Lily, vi o programa anunciar que a próxima gravação seria em Norwich. Portanto, disse para todo mundo que iria levar meus móveis para avaliação.
Monty esforça-se para segurar uma gargalhada particularmente estrondosa.
- Não! - digo incrédula.
- Claro que sim! Andei pelas salas de todo mundo com meu guia de antiguidades debaixo do braço e escolhi o que eu queria. O vigário e o jovem Tommy me ajudaram a carregar o caminhão. Peguei uma ou duas peças de quase todas as casas da cidade. É claro que quando eles não me virem na televisão e conversarem uns com os outros vão achar que fugi com os móveis deles, mas até lá eu pensarei em alguma desculpa.
- A senhora é surpreendente - diz James com grande sinceridade na voz.
Tia Winnie parece ficar comovida por um segundo e diz sem graça:
- É melhor tirarmos toda essa tralha daqui.
- É verdade - exclama Monty, iluminando-a com a lanterna. - Você é surpreendente.
Desta vez tia Winnie fica maravilhosamente vermelha.
Os homens levam todas as peças pesadas para dentro enquanto nós, mulheres, levamos mesinhas e abajures. É um trabalhão e tanto porque não queremos usar a porta da frente, para evitar que alguém nos veja, portanto precisamos entrar pela cozinha e seguir pelo longo corredor até o hall de entrada. Arrumamos as três salas - não lembram em nada o visual que possuíam antes, mas não dão sinais de que oficiais de justiça passaram por aqui. A estranha mistura de estilos e épocas faz com que o lugar pareça ter sido decorado por uma tia excêntrica, o que, suponho, foi exatamente o que aconteceu.
O hall de entrada parece um pouco vazio, mas é um lugar tão grande que é exatamente difícil de preencher. Por isso, roubamos algumas mesinhas dos quartos do andar superior e as colocamos todas encostadas nas paredes.
- Pronto! - diz tia Flo. - Está muito bom, não está?
São quase duas da manhã e até uma ovelha conservada em formol no meio da sala pareceria bom para mim, mas todos concordamos com ela e vamos para a cozinha tomar um chá. Will vai na direção do pátio para levar o caminhão para os estábulos.
- A senhora fica conosco, não fica? - James pergunta a tia Winnie. - Acho que a senhora não pode ir para a casa se os seus vizinhos esperam vê-la na TV ao lado do apresentador do programa.
- Ia ficar com um amiga.
- Fique, tia Winnie - diz Monty carinhosamente. Eu ia abrir a boca para reforçar o pedido, mas não é preciso. Ela olha para Monty e sorri.
- Ok. Acho mesmo que não quero perder toda a agitação! Depois de uma pequena confusão sobre uma bolsa de viagem, que ficou trancada no caminhão - o mesmo caminhão que Will passou dez minutos manobrando para dentro de um dos estábulos -, a sra. Jones e tia Winnie desaparecem para encontrar um quarto adequado. James diz que a imprensa chegará às nove da manhã, que a empresa de RP vai cuidar dela e que, se encontrarmos algum jornalista, devemos parecer casuais e não responder a nenhuma pergunta, James está olhando firme para Monty e Flo quando diz isso.
Todos vamos para a cama. Aparentemente, Meg decidiu que já que foi Albert quem nos acompanhou antes, ela agora pode dormir no meu quarto. Eu concordo plenamente e a companhia é bem-vinda. Quando chego ao meu quarto descubro que as janelas estão ainda abertas, ou seja, o quarto está frio como gelo, mas ainda existe um fraco cheiro de calcinhas queimadas no ar. Não consigo acreditar que foi somente esta manhã que queimei a foto de Rob, parecem semanas. Arrasto-me até a cama, absolutamente exausta, quando tenho um pequeno ataque de pânico ao pensar que algum lunático poderia ter entrado pela janela enquanto estávamos ocupados e ele agora pode estar escondido no guarda-roupa. Chego o guarda-roupa abrindo a porta com um cabide. Nenhum lunático. Volto para a cama e apago imediatamente.
Poucas horas mais tarde, o relógio dispara às seis da manhã. Sento com um pulo na cama e imagino os motivos pelos quais sinto-me tão mal. Só então os acontecimentos dos últimos dias começam a aparecer na minha mente e eu reprimo um pequeno gemido. O que eu realmente gostaria de fazer é me esconder embaixo do edredom e me desmanchar em uma poça de apatia. Sinto-me sobrecarregada pela culpa de ter causado uma confusão tão grande. Pelo menos Remus e tia Winnie estão comigo. Espero que ela tenha trazido os tacos de golfe.
Faço a minha toalete matinal, que leva muito mais tempo do que a de Meg. A dela consiste em se espreguiçar e bocejar por vinte segundos. Se eu puder escolher, quero ser um cachorro na próxima encarnação. Reúno minhas coisas e tiro os lençóis da cama, já que esta noite mudo para um quarto que irei dividir com Remus. Depois disso, Meg e eu descemos as escadas em busca de estimulantes artificiais. Monty parece ter deixado de lado sua rotina matinal habitual e está sentado calmamente à mesa da cozinha, conversando com tia Winnie. Por que será que os mais velhos sempre acordam mais cedo que você, não importa o quão tarde tenham ido dormir?
Acho que é um pouco cedo para um adesivo de nicotina e aceito a oferta de tia Winnie para tomar uma xícara de café bem forte. Além disso, não sei bem como explicar a presença dos adesivos para ela - acho que vou dizer que são curativos.
Quando tenho certeza de que a cafeína já entrou na minha corrente sanguínea, retiro minha papelada e o laptop do banco traseiro do carro, pego uma segunda xícara de café e vou para a biblioteca, completamente esquecida da ausência de mobília. Abro a porta, olho por um momento para a sala vazia, recrimino a mim mesma e tento a sala de estar, em busca de uma mesa ou escrivaninha para poder trabalhar. Alguém colocou uma mesa e uma cadeira giratória ali. Ainda tenho um monte de coisas para fazer para o baile. Levo algum tempo para ler todos os planos, ams logo depois estou no controle e faço uma lista assustadoramente grande de coisas que precisam ser feitas.
E, pela quinta vez nesta semana, deixo um recado na caixa postal do celular de minha irmã.
- Dora, sou eu, Lily - acrescento, caso o celular distorça a minha voz. - Você não retornou nenhuma das minhas ligações e estou um pouco preocupada. Ligue para mim. - O que eu realmente quero é falar sobre os meus problemas, mas não quero parecer egoísta.
São quase oito horas da manhã quando volto para a cozinha, pronta para delegar algumas tarefas. Se puder fazer algo a respeito, Harry está prestes a ser catapultado para o primeiro lugar na lista da campanha de arrecadação de fundos, bem à frente de Draco Malfoy e suas bochechas pálidas, ou seja lá o que for. Felizmente, a maioria dos membros da família já desceu e está sentada ao redor da mesa da cozinha, tomando seu café. Converso rapidamente com a sra. Jones sobre os planos dela para os visitantes americanos, para ver se posso ajudar em alguma coisa. Apesar, ou talvez por causa, dos dramas de ontem, ela parece ter relaxado um pouco comigo e conseguimos manter uma conversa bastante civilizada.
Depois de uma negociação prolongada sobre o valor das doações para a campanha de arrecadação de fundos (concordamos em quatro libras, mas estou certa de que conseguiria baixar para três), Harry e tia Winnie desaparecem no andar de cima para dar os toques finais nos quartos de hóspedes, enquanto Remus e eu vamos para o quartinho de serviço arrumar as flores.
- Como vai você? - sussurra Remus.
Balanço a cabeça em um modo que diz "mais ou menos bem".
- Deus, você deve estar se sentindo absolutamente horrível. Quero dizer, com aquela coisa do Amus e depois lidar com a atmosfera horrorosa de ontem.
Olho para Remus e quebro o talo de um lírio sem querer. Nâo tenho bem certeza do que ele pretende com esse tipo de conversa. Se quer que eu tenha um ataque histérico de primeira, este é o modo mais rápido.
- Pelo menos você tem a minha companhia. - Ele começa a dançar uma valsinha na minha frente.
- Isto não é tão engraçado quanto você pensa.
- Mas eu não perderia isto por nada neste mundo! Na verdade, James me puxou ontem para um canto e me fez assinar um acordo de confidencialidade. Ele disse que se eu deixasse escapar uma palavra do que está acontecendo aqui, ele iria me enforcar! - Remus parece realmente encantado com a ideia. - Mas eu disse a ele que nós dois somos amigos íntimos e que eu não sonharia em contar nada para ninguém. Mas ele não pareceu muito convencido disso, talvez por causa da sua folha corrida ser um pouco suja. - Dou outra fulminada nele com os olhos.
- Lily, você tem certeza de que ele foi tão horrível assim com você na infância? - Remus continua falando. - Porque as coisas não parecem encaixar direito, parecem? Eu sei que ele pode ser meio rude de vez em quando. Tem certeza de que não foi só isso?
- Certeza absoluta - digo, lembrando o comportamento desprezível dele. - Mas você está certo. É estranho.
- James parece ser uma pessoa bastante honrada, e ele poderia ter dificultado bastante a sua vida com aquela história com Amus. Ele poderia ter processado você! O que foi exatamente que ele fez quando vocês tinham onze anos? - ele pergunta, enfiando algumas rosas aleatoriamente em um vaso.
Paro por um segundo, sem muita vontade de desenterrar as memórias, mas, quando começo a contar, descubro que não posso parar. As peças, os insultos, as brincadeiras de mal gosto, tudo sai em uma avalanche até que Remus fica completamente quieto.
- Oh.
- Não acho que nenhuma dessas coisas possa ser atribuída à rudeza, você acha?
- Hã, não. Desculpe, Lily! Não imaginava.
Continuamos a trabalhar em silêncio.
Remus está certo, penso comigo mesma enquanto levo os vasos para o hall de entrada. As recentes revelações sobre James não parecem encaixar nas minhas memórias de infância. Mas não tenho muito tempo para analisar as coisas, já que um grupo de jornalistas surge, fazendo um passeio pela casa. Consigo ouvir trechos do discurso da garota de relações públicas:
-... E como Mark Twain escreveu: "Os anúncios sobre a minha morte foram um exagero". Como podem ver, senhoras e senhores, nenhuma mobília foi retirada da casa. As caminhonetes vistas ontem estavam trabalhando a pedido do Sr. Potter. - Eu espero sinceramente que Deus não esteja ouvindo e mande um raio para cima da casa. -... O Sr. Potter espera representantes do banco de investimento americano que chegam esta manhã para dar continuidade às negociações com os fabricantes da Wings...
Vou para a sala de estar, para colocar o resto das flores, e paro para observar James quando ele sai do escritório para cumprimentar a imprensa. É a primeira vez que o vejo hoje e ele tem uma aparência completamente imaculada, usando um terno maravilhoso, com uma camisa lilás perfeitamente passada e uma gravata que complementa seu visual em tons escuros. Fico pensando se foi a namorada advogada quem a escolher para ele. Este é o mesmo homem que há quinze anos foi um completo brutamontes comigo. Será que as pessoas realmente mudam? É claro que nosso comportamento na infância reflete quem somos e está para sempre no nosso íntimo. Balanço a cabeça. Remus está certo. Não combina.
Não tenho mais tempo para pensamentos introspectivos, pois os banqueiros americanos vão chegar logo para o almoço. Consigo resolver algumas coisas em uma conversa telefônica de meia hora com Rose, onde mudamos a reunião com a associação de caridade para o começo da semana que vem, de modo que posso concentrar toda a minha atenção nos visitantes. A sra. Jones planejou um cardápio que contém uma salada de rúcula co presunto de parma e mirtilos, seguida por escalopes assados em molho de gengibre e gergelim e torna de chocolate e peras cozidas como sobremesa. O banquete de hoje à noite parece suntuoso e o plano é reunir toda a família, eu incluída, para jantar com os visitantes. Segue-se por uma hora frenética, com pequenos ataques histéricos da sra. Jones, por ser tão tarde, pequenos ataques histéricos meus, quando percebo que Will se esqueceu de ir buscar Harry na chegada de um passeio com os escoteiros e pequenos ataques histéricos de Remus, porque está sendo posto de lado. Estou pronta para subir e me trocar, por volta do meio-dia, quando esbarro com James no hall de entrada.
- Aí está você! Estava indo à sua procura - ele diz, sorrindo e me encarando com seus olhos castanhos. - Os convidados chegam logo. Obrigado por se oferecer para cuidar deles.
- Não há problema, faço isso quase todos os dias! A propósito, a sra. JOnes tem mesmo como preparar toda aquela comida. Algumas receitas são bastante complicadas.
- Ah, sim! - diz James, animado. - Ela vai ficar bem. Ela era chef de cozinha em um restaurante em Oxford.
- Mesmo? - Pela primeira vez começo a pensar no passado da sra. Jones e como ela acabou aqui. - Tia Winnie está dando uma ajuda, se bem que eu espero que a sra. Jones não a deixe chegar muito perto da comida. Ela costuma botar molho de pimenta em tudo. Seu pai também está lá.
- Pelo amor de Deus, tenta mantê-lo longe dos visitantes. Ele parece estar obcecado com a própria saúde.
- Eu sei, ele já contou todos os detalhes possíveis sobre os joanetes dele aos jornalistas.
James sorri.
- Espero que ele não esteja amolando.
- Não! Todos têm ajudado muito. Harry com sua busca por trabalhos para a arrecadação de fundos tem sido uma bênção.
- É a primeira vez que sou grato pela menção ao nome de Draco Malfoy.
- Eu também. Comecei a ter vontade de estrangular esse menino quando o encontrasse.
- Está tudo pronto?
- Hâ, sim. Sem contar com os imprevistos em potencial!
- Minha família está incluída nisso?
- Hum-hum... - Ele me pegou nessa. Não sei bem o que falar. Acho que seria um pouco rude dizer "Deus, sim, eles são um tremendo problema". Mas os olhos castanhos de James estão brilhando, portanto é claro que ele está somente brincando, mas isso me deixa ainda mais confusa. É quase como se estivesse flertando comigo. E penso que posso estar flertando de volta. Olho para meus sapatos por um segundo e depois arrisco olhar novamente para ele. Ele ainda está me encarando, um leve sorriso no rosto. O que está acontecendo? Felizmente ele continua com a conversa, porque esqueci completamente sobre o que estávamos falando.
- Na verdade, Lily, eu queria agradecer. Por tudo o que você fez. Você e tia Winnie têm sido maravilhosas.
Mordo o lábio e olho fixamente para a mesinha lateral.
- Hã, bem. Não vamos esquecer que tudo isso é parcialmente culpa minha.
- Não muito. Você não tinha como saber que Amus Diggory era um mau-caráter.
Fico extremamente vermelha, feliz de que ele tenha me perdoado, mas também penso que a frase tem um tom muito irônico vindo de James. Mas Amus é um mau-caráter e espero, mais do que tudo, que essa tomada hostil funcione e que James o jogue para fora da diretoria. Remus está certo. A vingança é um prato que deve ser servido frio, e estou pensando em um gazpacho.
- Você acha que conseguirá convencer os americanos? - pergunto, subitamente desesperada para que ele consiga.
- Não sei, mas vale a pena tentar.
FELIZ ANO NOVO! Bem, esse é um capítulo praticamente inútil, só serve para explicar algumas coisas e aumentar um pouquinho mais a tensão sexual entre o James e a Lily. Um bom começo de ano para todos vocês! Vocês conseguem acreditar que amanhã já estreia o novo episódio de Sherlock? Ahh, eu mal posso esperar!
Svelis: A tia Winnie é maravilhosa, e a gente ainda vai ter bastante dela! Bom, neste capítulo você teve a explicação sobre os móveis, sim? O James e a Lily demoram, mas sempre se entendem, e quanto ao Remus... bom, é esperar para ver, hehe.
Beijinhos,
Joules
