CAPÍTULO XVII
No andar de cima, em meu novo quarto, visto um elegante conjunto azul claro, coloco um pouco de maquiagem e troco a blusa branca por preta, já que cobrir a palidez do rosto com base não é uma ideia muito boa. Remus entra, boceja de modo barulhento e se joga em uma das camas.
- Tem um cigarro, Lils?
Dou uma encarada nele.
- Não, mas tenho um adesivo de nicotina. O que é algo incomum para um não-fumante ter.
- Bom, você se mete nestas situações. Está usando um?
- Na verdade, estou. - Enrolo minha manga para cima do cotovelo e mostro. - Eu gosto muito disso. Eles fazem com que eu me sinta animada. Você não acha que deveria estar vestindo seu traje de mordomo? Você foi buscá-lo, não foi? - Eu o mandei logo cedo até Bury St. Edmunds para alugar um terno.
- Acho que deveria prová-lo.
- Prová-lo? Quer dizer que você ainda não o vestiu?
- Deveria?
- Pelo amor de Deus, Remus! Prove. Prove agora.
Ele vai até a porta, onde o terno está pendurado, tira a capa de plástico e veste as calças. Que são seis tamanhos maiores do que ele e têm um enorme buraco em uma perna, onde uma traça deve ter enchido a barriga, feliz da vida. Ele veste o paletó e descobre que é, no mínimo, dez vezes maior do que ele. Não há tempo para costurar nada, muito menos para devolver o terno à loja em Bury St. Edmunds. Depois de esfregar muito as mãos e desejar esganar Remus, corro até o escritório, reviro uma pilha de objetos no canto e volto com um grampeador. Grampeio as calças e as mangas do paletó e, com um pincel atômico preto, pinto um quadrado de dez centímetros de largura na perna de Remus, bem na altura de onde fica o buraco. Fiscalizo o meu trabalho manual e Remus dá uns saltos pelo quarto para vermos se a brancura da perna dele aparece com o movimento. Não consigo olhar por tempo suficiente para ver se o buraco aparece ou não.
- Não fique muito tempo parado e eles nunca vão ver o buraco.
- Ok. Lily?
- Sim?
- Você acha que eu poderia ser irlandês?
- Como?
- Irlandês. Sempre quis ser irlandês. Poderia me chamar Remus O'Leary! Os americanos adoram os irlandeses.
- Remus, você perdeu o juízo?
- Ahh, Lily, deixa disso! Onde está o seu senso de diversão?
- Fugiu há dias, junto com o meu senso de humor. Vi os dois fazendo as malas. Se eu ouvir você falando com um sotaque irlandês, juro por Deus, esgano você, na frente dos americanos.
- Sua vaca miserável.
Fantástico. Um mordomo irlandês que parece um Mr. Bean drogado. Remus caminha escadaria abaixo do modo mais viril que pode, dentro do terno extra grande.
Todos ficamos parados sem jeito no hall de entrada e esperamos que os banqueiros americanos apareçam. A equipe de conselheiros de James parece preocupada, para dizer o mínimo, e James está de pé, quieto em um canto, com as mãos nas costas, olhando pensativo para o chão. A atmosfera no ambiente está extremamente elétrica e, de repente, fico absolutamente aliviada em saber que não sou eu quem tem de enfrentar tudo isso e arcar com as consequências. James, que provavelmente sentiu meus olhos sobre ele, levanta o rosto e sorri para mim.
Vou bater um papo com o tal de Sam.
- Olá! Como vai você? - sussurro, porque o ar está tão rarefeito que parece que estamos no átrio de uma igreja.
Sam sorri e ajeita nervosamente os óculos.
- Estou bem.
- Vocês têm um plano? - Deve ser a promoter em mim. Sempre quero saber se existe um plano.
- Hã... - Ele franze a testa e continua a brincar com os óculos, provavelmente tentando imaginar o quanto eu sei sobre a situação.
- Está tudo bem. Sou uma amiga da família - digo de modo reconfortante, sem me preocupar em acrescentar "e aquela que meteu todos vocês nesta confusão".
Ele acena levemente com a cabeça e depois encolhe os ombros.
- Estamos tentando convencê-los de que não somos um grupo de pessoas ruins. Tentando mudar a opinião deles depois de tudo o que a Wings deve ter dito e convencê-los a vender.
- Vai ser fácil?
- A mídia criou uma imagem tão ruim de James que vai ser complicado vender a ideia. E eles devem ter conversado diretamente com Amus Diggory. - Quase dou um pulo ao ouvir o nome, é surpreendente ouvi-lo sair tão facilmente da boca de Sam.- Ele é um dos diretores da Wings - explica - e quem achamos ser o responsável por todos os problemas com a imprensa.
Concordo com a cabeça, embasbacada, sentindo-me surpresa (e, lógico, um pouco aliviada) em saber que James não contou a ninguém sobre o meu envolvimento em tudo isso. E a covardona aqui não tem nenhuma vontade de contar mais detalhes. Eles provavelmente me enforcariam na árvore mais próxima.
- Seja como for, Diggory disse um monte de coisas e precisamos tentar recuperar a confiança dos investidores em nós e em nossa oferta.
- Por que eles simplesmente não vendem as ações e acabam com tudo isso? Por que todo esse vai e volta?
- Não é tão simples assim. Existem várias condições ligadas à venda e eles precisam ter certeza de que vamos cumprir com a nossa parte.
Não tenho mais tempo para interrogar Sam porque o intercomunicador dá sinais de vida e o zelador anuncia que os visitantes chegaram. Devido ao massacre por parte da imprensa, mantivemos os portões principais fechados a cadeado, o que é uma chatice quando você descobre que deixou a manteiga na loja, como eu fiz hoje cedo. James insistiu que continuássemos fazendo tudo como antes e usássemos a loja da cidade para minimizar as fofocas.
Ainda não estou completamente convencida de que ajudei muito andando de fininhos pela loja, parecendo estar prestes a ter um ataque de nervos e dando pulos todas as vezes que alguém falava comigo.
Remus abre a grande porta almofadada e observamos as duas limusines deslizarem pela estrada e pararem na frente da casa. Os motoristas saem do carro, abrem as portas dos passageiros e começam a retirar as bagagens dos porta-malas. Cinco cavalheiros saem dos carros. Remus desce rápido os degraus para ajudá-los.
Os cinco homens começam a subir as escadas em nossa direção como nos duelos dos filmes de caubói. Minha primeira impressão é a de que eles não parecem ser muito divertidos. Na verdade, o grupo parece estar atravessando o mesmo tipo de semana que eu. Enquanto se posicionam à nossa frente, vejo que o calor do dia parece não incomodá-los. James vai em direção ao homem na liderança do grupo, cujo nome, eu acho, é Sr. Fudge. Ele está usando um terno verde-oliva com uma gravata cor de laranja e está agarrado a uma pequena caiax de madeira. James faz as apresentações à medida que os visitantes passam por todos no grupo até chegarem a mim:
- Esta é Lily, que irá cuidar de vocês durante sua estadia aqui. Falem com ela sobre qualquer coisa de que precisem.
Aperto a mão do Sr. Fudge.
- Como vai? - digo. - Quer que eu leve isto para o seu quarto? - pergunto, indicando a caixa que ele carrega.
Ele hesita.
- Hã, claro. Mas é uma caixa muito valiosa para mim.
Tento dar um sorriso assegurador, que Remus sempre diz que me faz parecer demoníaca. Remus acaba de voltar, e eu faço um gesto autoritário para que ele se aproxime. Peço que leve a caixa para o quarto do Sr. Fudge que tome o maior cuidado com ela.
Jame acompanha os cinco homens até a sala de estar e, depois de ter oferecido bebidas, corro para a cozinha. Remus ainda está levando as bagagens para cima e Will vai ajudá-lo agora que não há ninguém por perto. Tia Winnie está conversando animadamente com Monty enquanto pica as vagens que vão acompanhar os escalopes, e a Sra. Jones já está colocando a salada de rúcula nos pratos espalhados sobre a imponente mesa de carvalho.
- Lily! - tia Winnie me cumprimenta. - Eles já chegaram?
- Sim. Acabaram de chegar. Vocês já decidiram se vão almoçar com eles? - pergunto, pensando nos assentos extras à mesa.
- Pelo amor de Deus, não! - exclama Monty. - Uma casa cheia de estrangeiros! Preciso descobrir o que estão tramando! E não posso fazer isso se estiver almoçando com eles.
- Monty e eu vamos patrulhar a casa - diz tia Winnie.
- Maravilhoso! Vocês acham que conseguem trancar todas as portas que dão para os quartos sem uso durante a patrulha? Não quero que nenhum dos visitantes entre inadvertidamente em um quarto vazio. Eles vão querer saber que diabos está acontecendo.
- Acho que já estão pensando nisso - diz tia Winnie.
- Vamos ter que colocar cunhas atrás das portas e sair pelas janelas, Winniezinha - diz Monty. Não sei se ele acha que assim será mais divertido ou se, na realidade, as portas não podem ser trancadas da maneira normal, com chaves. Agradeço aos céus por eles não almoçarem conosco e vou verificar a disposição dos lugares à mesa.
O almoço corre tranquilamente. Os americanos não falam muito, mas acho que gostaram da comida que, devo confessar, é maravilhosa. Todos parecem muito ansiosos em tratar de negócios e, assim que o almoço termina, correm para a sala de estar. Passo a hora seguinte arrumando a mesa para o jantar, colocando lugares extras para a família, recolhendo a toalha e guardanapos sujos, e levando tudo para a cozinha.
A reunião da aquisição é interrompida para o chá, às quatro da tarde, e Remus esforça-se para atravessar a sala de jantar carregando uma enorme bandeja. A Sra. Jones empenhou-se para manter o equilíbrio patriótico e assou miniaturas de doces tradicionais britânicos. James entra na cozinha cinco minutos depois. Ele se encosta no batente da porta e boceja sem cobrir a boca com a mão, exibindo uma fileira de dentes brancos. Apesar disso, ainda consegue parecer devastadoramente glamoroso.
- Como vai indo? – pergunto.
- Bom, eles ainda não foram embora, portanto acho que estamos indo tão bem quanto é possível. Fizemos uma pausa de dez minutos para o chá. Vim até aqui para dizer que o almoço estava simplesmente maravilhoso, Sra. Jones.
- Ah, obrigada – diz ela.
- Cansado? – pergunto.
- Exausto. E você?
- Idem.
Uma vez que eu esperava passar somente algumas noites aqui, não trouxe muitas roupas e estou um tanto preocupada com a tarefa de achar o que vestir para o jantar desta noite. Foi uma sorte ter trazido meu único conjunto de grife, que ganhei como presente de aniversário de minha irmã Dora. É um conjunto branco de blazer e calças de Bem De Lisi, mas não sei o que usar com ele, já que todas as blusas que tenho estão sujas. Quando esgoto as possibilidades, vou até o quarto de tia Flo, nos fundos da casa, para ver se posso pegar alguma coisa emprestada. Normalmente eu não apostaria no guarda-roupa de uma velhinha aposentada, mas a tia Flo não usa roupas tradicionais. Dou uma batidinha na porta.
- Entre! – diz ela com sua voz melodiosa. – Ah, Lily, minha querida! Que bom ver você! Entre, entre! – Ela coloca de lado o livro que estava lendo e me olha por cima dos óculos de leitura. – Como vai você?
- Ah, estou bem, tia Flo, obrigada. Como vai a senhora?
- Nunca estive melhor! – Só quando Monty está por perto é que ela parece ficar competitiva a respeito de saúde. – Como está se dando com os americanos?
- Muito bem. Eles parecem estar contentes.
- Como?
- EU DISSE: ELES PARECEM ESTAR CONTENTES.
- Ah, sim, sim.
- Talvez James consiga reverter a situação.
- Se alguém pode fazer isso, esse alguém é James. É um jovem admirável.
- Sim, é – a frase escapa antes que eu possa pensar.
- Sempre digo que é Will quem sai com as garotas, mas é com James que elas querem casar. Não cheguei a mostrar os besouros acasalando, mostrei?
- Ah, não. Não mostrou. – Tento fazer um ar desapontado enquanto imagino o elo vital entre besouros e casamento. – Falando em, hã, vida selvagem, Poppet está por aí ou está tirando uma soneca?
- Está no aquário dela. Quer vê-la?
- Não, não! Está tudo bem. Ela precisa do sono de beleza dela. Só estava pensando onde poderia estar. Não quero pisar nela!
- Sabe, ouvi Will falando ao celular esta manhã. Não sei com quem falava, mas parecia muito íntimo. – Ela ergue as sobrancelhas de modo sugestivo.
Eu admito que estou, sim, interessada na vida amorosa de Will e também ergo as minhas sobrancelhas de modo sugestivo.
- Foi?
- Perdão?
- EU DISSE: FOI? – Dou um rugido, mas boa parte da atuação vocal se perde no grito e tia Flo me olha como se dissesse "Acabei de dizer isso, não?". Ela parece que não tem mais nada a acrescentar ao assunto e eu dou um pigarro.
- Tia Flo? Vim ver se posso pegar uma blusa emprestada para esta noite. Para usar com meu conjunto. Não trouxe roupas suficientes de Londres porque não esperava passar tantas noites aqui. – Mostro o conjunto branco que carrego no braço.
Ela dá um pulo.
- Claro! Vamos até o armário. – Eu a acompanho. – Na verdade, preciso pensar em começar a me arrumar também. Que conjunto lindo! Por que você não veste e vemos o que podemos fazer?
Enquanto me troco, tia Flo revira o guarda-roupa. Ela se vira e me olha por um momento.
- Querida, por que você não o usa exatamente assim?
Olho para minhas roupas, em dúvida.
- Não estou usando nada debaixo do blazer, tia Flo.
- Sim, mas você abotoar todos os botões, não poderemos ver o sutiã.
Faço isso e é verdade. O decote do paletó desce em um V profundo que para um pouco acima do sutiã. Mas é mesmo só um pouco acima. Olho para a imensidão do meu decote.
- Não posso fazer isso!
- Claro que pode! Você está muito sexy! Experimente este colar. – Ela vai até a penteadeira, abre uma caixa, tira um colar e o coloca ao redor do meu pescoço. Um pingente perfeito de pérola está sedutoramente dependurado no meu pescoço. – Também tenho os brincos! Vamos prender seu cabelo e com estas sandálias altas de tirinhas você estará perfeita!
Deixo que ela arrume meu cabelo, coloco as joias e, devo admitir, o resultado não é tão ruim assim.
Chego à cozinha e encontro Remus arrumando os copos para a noite.
- Uau! Você está sensacional! – diz ele.
- Você acha mesmo? – pergunto, nervosa, arrumando o blazer.
O celular dele começa a tocar o tema do Batman e nós dois damos um pulo. Ele olha o visor.
- Sem sinal – murmura e sai para o pátio. Só que eu sei que Remus usa a mesma prestadora que eu, e meu celular funciona perfeitamente bem aqui. Não é nem a hora nem o lugar, mas eu gostaria de gritar: "Remus, eu sei que você é gay e ainda amo você!". Em vez disso, concentro-me em cortar limões para as margaritas e fico pensando nos motivos que o levam a estar inseguro para me contar a verdade. Será que ele acha que sou muito travada para aceitar a situação?
Meia hora mais tarde, estamos todos reunidos na sala de estar, bebendo margaritas como se nossas vidas dependessem delas. Will inclina-se na minha direção.
- Você está linda! – ele sussurra.
- Obrigada! – E observo, por cima do ombro de Will, James entrar na sala. Ele dá um sorrisinho para mim e vai falar com um dos americanos. Começo a trabalhar na importante tarefa de fazer com que cada um de nossos visitantes sinta-se confortável e em casa. Acabo percebendo que James e eu demos a volta na sala e acabamos um do lado do outro. Ele espera que eu termine uma conversa.
- Oi – diz ele, afastando-nos do grupo. – Está tudo bem?
- Sim. E você?
- Bem.
Ficamos parados, sem graça, por um momento. Estou prestes a me mexer quando James diz:
- Estava querendo dizer que encontrei nosso antigo esconderijo ontem.
- Foi? – pergunto educadamente, mas cautelosa. Estava começando a me sentir um pouco mais confortável perto dele e não estou disposta a agitar as águas do nosso passado complicado.
- Sim. Estava procurando algumas lanternas para a sua, hã, excursão e decidi olhar debaixo da escada. Nem sei por quê, há anos não vou lá. Sabia que alguns de nossos livros ainda estão lá. Você precisa ir ver.
Ele sorri de repente e se mexe como quem vai pegar no meu braço e me levar até lá. Dou um passo atrás instintivamente, mais uma reação de impulso do que outra coisa. O sorriso desaparece do rosto dele.
- Sim – eu me obrigo a responder, tentando sorrir. – Preciso ir uma hora dessas e espiar o local. Mas agora tenho de voltar para os seus convidados. – E antes que ele possa dizer uma palavra, saio da sala.
Remus, Meg e eu vamos para a cama depois que ajudamos a limpar tudo. Remus e eu deitamos em nossas camas e conversamos sobre a noite enquanto um gafanhoto que mora na chaminé fornece o acompanhamento musical. Remus acende o último cigarro da noite e eu dou profundas tragadas passivas. Meg está deitada no vão do braço de Remus. Parece que ela nos adotou.
- Não podemos leva-la para Londres? – pergunta Remus.
- Ela não é nossa. Eu adoraria que ela viesse morar conosco, mas ter um cachorro em Londres, especialmente depois dela ter vivido com todo este espaço, não parece justo.
- São tantos cães que ninguém vai perceber.
- Aonde a levaríamos para passear?
- Temos os bosques no fim de Lower Richmond Road. Você acha que ela sentiria falta do campo?
- Talvez.
- Eu poderia recortar fotos de árvores das revistas para ela.
- Isso resolveria o problema. – Respiro profundamente mais uma vez. – Sopre esta fumaça para cá, Rem.
- Não vou não, você não fuma. – Ele dá uma última tragada e apaga o cigarro.
- Ok! Apagar as luzes!
Eu fico tensa. Meu ritual noturno sempre inclui um pouco de leitura e, sempre que Remus e eu dividimos um quarto, isso é um problema.
- Vou ler mais um pouco.
-Aiii! Lily! Não consigo dormir com as luzes acesas!
- Ponha a cabeça debaixo das cobertas, então.
Tento ler o máximo possível (preciso ficar acordada, preciso chatear Remus!), mas sinto meus olhos fechando lentamente, até que o sono toma conta de mim e eu sonho com Amus, James e a família toda em um circo. Tia Winnie é uma maravilhosa mestre-de-cerimônias.
Na manhã seguinte, enquanto James está reunido com sua equipe, verificando "as implicações de uma série de condições", Will, Daniel e eu levamos os visitantes até o lago. É a primeira vez que vou até lá desde que cheguei a Hogsmeade e tenho que admitir que parece exatamente igual ao que era há quinze anos. Juncos crescem abundantemente ao redor do lago, a velha casa de barcos vermelha ainda está lá e um deque de madeira com uns vinte metros de comprimento está ao lado dela. Quando éramos crianças, era absolutamente proibido vir até aqui, a menos que quiséssemos ficar de castigo por um ano.
O Sr. Fudge e seus colegas parecem ter relaxado desde a sua chegada. O jantar de ontem à noite ajudou muito a acalmar os ânimos e eles devem ver agora que não somos um grupo tão ruim para tratar de negócios. Os jornais de hoje também retratam James de uma maneira muito mais positiva depois da visita dos jornalistas. A sugestão de descansarem por uma hora visitando a propriedade e a possibilidade de fazer esqui aquático foram recebidas com grande entusiasmo no café-da-manhã. Houve uma espécie de estouro da boiada, com todos correndo para os quartos em busca de camisetas e bonés, e lá fomos nós.
O sol brilha e eu arrumo duas mantas de piquenique xadrez na margem e me posiciono decorativamente sobre ela, sentada sobre as pernas dobradas. Arrumo as xícaras de plástico, as garrafas térmicas com leite quente e café, os brownies de chocolate branco e macadâmia e espero, feliz, ter alguns momentos de tranquilidade. O velho cortador de grama de Fred está vibrando ao longe. Will está com os visitantes no deque de madeira, em frente à casa de barcos, que foi aberta por Daniel. Finalmente, como ninguém parece se mexer, vou até lá. Dentro da casa de barcos, junto com o bote a remos e a velha chata da qual me lembro, está uma surpreendente lancha no estilo James Bond. Daniel está tentando convencer um dos americanos a experimentar o esqui aquático.
- De onde veio isso? – sussurro para Will.
- James teve a ideia de colocar roupas de esqui aquático no lago. Daniel acabou de tirar sua licença, e James conseguiu convencer a empresa da lancha a nos emprestar uma por uns meses antes de nos comprometermos a compra-la.
A voz de Daniel atravessa o grupo.
- Lily faz esqui aquático. Ela mostrará como fazer! – Todos olham para mim.
- Hã, faço?
- Sim! James me disse que sim!
De repente, lembro-me do um criativo CV. Remus me fez colocar esqui aquático como um dos meus hobbies porque, segundo ele, eu era muito entediante e estávamos centenas de quilômetros longe do mar. Eu o considero pessoalmente responsável por qualquer coisa que aconteça aqui hoje.
- Hã, eu não sou muito boa. Acabei de tirar a minha licença!
- Deixa disso, Lily! O Sr. Tyler aqui se sentiria muito melhor se você fosse primeiro.
Segue-se um minuto frenético de negociações, mas estou absolutamente irredutível e não vou entrar na água. No fim, concordo em gritar instruções e palavras de encorajamento ao Sr. Tyler da margem do lago. Seus colegas estão entusiasmados com a possibilidade de ver o Sr. Tyler se molhar e fazer papel de bobo e conversam animadamente enquanto vão para as mantas do piquenique.
Espero no deque enquanto o Sr. Tyler coloca uma roupa de mergulho. Daniel faz uma onda enorme mexendo no barco e nos esquis, e quando estou prestes a morrer de tédio o barco dá sinal de vida. O Sr. Tyler nada um pouco para fora do caminho e espera pela largada, em busca de segurança e eu entro no jogo.
- Está perfeito, Sr. Tyler! Parece um profissional! – Eu gritaria a mesma coisa se ele estivesse se afogando.
Sucedem-se algumas largadas falsas, já que o Sr. Tyler despenca na água em grande estilo. Eu uso frases como: "Mantenha os joelhos dobrados" e "Empurre a barriga para frente", todas acompanhadas de muitos gestos e demonstrações práticas que parecem completamente plausíveis e que se aplicam ao esqui na neve. Mas dou a impressão de já ter feito isso antes. Pouco tempo depois, o grupo está de pé, na margem, bem perto da água, gritando como loucos. Olho meio nervosa para todos eles, como uma mãe ansiosa, esperando que tomem cuidado. A última coisa que quero é ter que pescar um americano superexcitado. Talvez não devêssemos ter deixado que eles comessem tão cedo os brownies da Sra. Jones.
Volto minha atenção para o Sr. Tyler, que está fazendo sua quinta tentativa de ficar de pé por mais de um milionésimo de segundo.
- Vamos lá, Sr. Tyler! O senhor consegue! – grito para a figura surpreendentemente sorridente que acena para nós. Daniel liga os motores e lá vão eles. Num determinado momento, o Sr. Tyler deve ter entendido minhas palavras de sabedoria, ou simplesmente as ignorou, porque depois de um início desequilibrado ele volta a endireitar-se. Uma ovação é ouvida na margem e, subjugada pelo entusiasmo, corro como uma louca pelo deque, gritando frases como:
- Muito bem! Excelente, Sr. Tyler! – Até que corro até o fim do deque e caio no meio dos juncos.
Tento chapinhar sobre a lama com o máximo de dignidade possível e vou para a cozinha. Estou absolutamente mortificada. Os americanos estão achando tudo muito divertido.
Monty ergue os olhos das palavras cruzadas.
- Lily! Que diabos aconteceu com você? – Sua boca se retorce de modo suspeito.
- Meu Deus, Lily! Você não precisava tentar se afogar – diz tia Winnie. – Tenho certeza de que podemos resolver as coisas aqui!
- Eu caí no lago – digo emburrada.
- Você está fedendo! – diz Monty.
Abro a boca para soltar uma resposta daquelas, mas fico sem palavras. Acabo dando uma fungadela desdenhosa, que espero que transmita meus sentimentos. É um excesso de delicadeza vindo de uma família que vive da terra.
James aparece na cozinha neste exato momento.
- Papai, você viu... Deus do Céu! Que cheiro é esse?
- Sou eu – digo, com um tom miserável na voz.
- Lily! O que aconteceu com você?
- Eu caí no lago.
- Como foi que conseguiu isso?
- Estava dando instruções de esqui aquático para o Sr. Tyler.
- Jura? – Sua boca também se retorce de modo suspeito. – Você achou que ajudaria fazer uma demonstração?
- Eu caí no fim do deque.
- Ah. Coisinhas malandras os deques. Estão lá e, de repente, desaparecem. – Ele abana a cabeça compreensivamente. Acho que está se divertindo à minha custa.
- Eu caí no meio dos juncos. Havia um montão de cocô de pássaro e algumas coisas mortas também.
- Isso provavelmente explica o cheiro.
Eu tremo um pouco, e James me manda ir correndo para cima trocar de roupa.
Eu preciso mesmo, e muito, de um cigarro.
Meu Deus, eu sinto muito, muito mesmopor ter atrasado tanto! Minha mãe resolveu me levar para viajar e eu quase não consegui entrar na internet nas últimas semanas. De qualquer maneira, aí está. Alguma tensão sexual entre James e Lily, finalmente. Espero que gostem.
bitemealienboy: Hahah, espero que continue gostando da fanfic, querida. Sherlock é uma das minhas séries favoritas! A terceira temporada está indo contra todas as minhas expectativas - e superando-as. A Amanda Abbington atuou tão bem, e ai meu Deus, hoje estreia o último capítulo! E aí a gente vai ter que aturar mais um hiatus desgraçado.
XX,
Julie Patootie
